Publicado em Deixe um coment√°rio

Sobre Cl√°udias e Adelaides: se ‚Äúuma piada √© s√≥ uma piada‚ÄĚ por que ningu√©m ri do tombo da pr√≥pria m√£e?

Sobre Cl√°udias e Adelaides: se ‚Äúuma piada √© s√≥ uma piada‚ÄĚ por que ningu√©m ri do tombo da pr√≥pria m√£e? [1]

in: http://kamugere.wordpress.com/tag/claudia/

Por: Deivison Mendes Faustino (Deivison Nkosi)[1]

‚ÄúMuito engra√ßado a bandida sendo arrastada. Lembrei do camarada fazendo isso com um cachorro esses tempos atras‚Ķkkkkkkkkkkkkkkkkkkk‚ÄĚ[2].

‚ÄúAten√ß√£o, n√£o √© a inten√ß√£o do site formar aqui atitudes preconceituosas e nem ser preconceituoso. S√£o apenas piadas, assim como existe sobre loiras, machismo, portugueses, japoneses, gordos, gagos, b√™bados, entre outros temas.[3]‚ÄĚ

No dia 16 de mar√ßo, um caso desastroso toma conta dos notici√°rios: policiais militares sobem o Morro de Madureira para mais uma incurs√£o b√©lica, e ao atirarem aleatoriamente,¬†atingem gravemente uma mulher e dois jovens. Ao perceberem se tratar de¬† uma mulher de meia idade ‚Äď perfil tipol√≥gico de dif√≠cil enquadramento nos estere√≥tipos reservados aos jovens vitimados por policiais nos morros ‚Äď os policiais “pegam” a mulher ferida e a jogam no porta-malas da viatura policial. A pesar do protesto de familiares e vizinhos, a viatura segue em alta velocidade pelas ruas do Rio de Janeiro¬†num trajeto¬†que segundo os moradores da Regi√£o n√£o √© o mais r√°pido para o Pronto-Socorro‚Ķ durante a viagem –¬†como se fosse um¬†filme antigo de com√©dia – ¬†o porta-malas da viatura se abre deixando a v√≠tima cair no asfalto como um saco de batatas. Como se n√£o bastasse, a sua roupa se enrosca no para-choque traseiro da viatura, enquanto a viatura policial a arrastou por 350 metros, dilacerando sua carne no asfalto.

Imagem

Seria c√īmico…

Se não estivéssemos falando de um ser humano ou alguma outra forma de vida que merecesse o nosso sentimento de alteridade. Aparentemente aqui, o que se viu foi o tratamento reservado a qualquer outra coisa ontologicamente distinta de nós, o suficiente para não despertar em nenhum momento a pergunta: e se fosse a minha mãe?

Entretanto, ao assistir √† trag√©dia – instantaneamente filmada e projetada pelas novas m√≠dias espetaculares – ¬† em um site de not√≠cias, um internauta que¬†provavelmente n√£o sabia de¬†quem se tratava, mas de porte dos estere√≥tipos ao qual os(as) negros(as) s√£o frequentemente representados,¬†escreve: ‚ÄúMuito engra√ßado a bandida sendo arrastada. Lembrei do camarada fazendo isso com um cachorro esses tempos atras‚Ķkkkkkkkkkkkkkkkkkkk‚ÄĚ (Sic).

Em outro local, ¬†em um site de piadas, vemos um aviso ¬†logo abaixo da¬†barra de menu¬†¬† informando que as anedotas contidas na p√°gina ‚ÄúPiada de preto‚ÄĚ n√£o tem intens√£o de formar ‚Äúatitudes preconceituosas e nem ser preconceituoso‚ÄĚ, pois se trata apenas de piadas ‚Äúassim como existe sobre loiras, machismo, portugueses, japoneses, gordos, gagos, b√™bados, entre outros temas‚ÄĚ.

Imagem

A reflex√£o sobre esses dois coment√°rios virtuais nos levantam as seguintes perguntas: Existe riso inocente? Pode um simples riso ser recriminado ( “POLITICAMENTE POLICIADO”) ou ter o mesmo status pol√≠tico¬†de¬†um tapa¬†ou um tiro? Supondo que sim, que o riso assuma dimens√Ķes pol√≠ticas, a busca por uma conviv√™ncia solid√°ria entre os seres humanos justificaria a sua interdi√ß√£o ou “censura”? Existem temas sob o qual n√£o se deve rir? Ou o riso tem¬†licen√ßa po√©tica¬†para ignorar ou transgredir (auto)censuras¬†impostas pelas diversas coer√ß√Ķes s√≥cio individuais que se colocam a frente daquilo que¬†realmente¬†desejamos, sentimos e pensamos? N√£o seria “for√ßar a barra”, trazer a reflex√£o do riso para o campo pol√≠tico, atribuindo-lhe causas e consequ√™ncias sociais?

Em um texto intitulado¬†Ensaio sobre a significa√ß√£o do c√īmico,¬†Henri Bergson (2004) afirma que o riso √© sempre um dado social. Independente de suas rea√ß√Ķes fisiol√≥gicas, ¬†h√° que se entender que √© apenas em sociedade que ele surge e √© poss√≠vel. O riso para ele assume a dimens√£o de uma san√ß√£o social, na medida em que apenas o que √© considerado um desvio ou uma coisa negativa ¬†pode ser ridicularizado. O c√īmico √© sempre o que foge a ordem e isso significa que o riso √© uma puni√ß√£o social que visa, em ultima inst√Ęncia reestabelecer a ordem social.

Pressup√Ķe-se neste sentido que a pessoa alvo do riso ficar√° envergonhada e voltar√° √† ordem normal. N√£o √© a mudan√ßa brusca da ordem que causa o riso, mas o involunt√°rio da mudan√ßa: trope√ßar, por exemplo, √© n√£o conseguir acompanhar a fluidez da vida pela rigidez do seu corpo, como o tombo de algu√©m pulou do √īnibus em movimento.¬† A rigidez √© socialmente suspeita e a ¬†deformidade (do corpo ou da mente), ris√≠vel por que deforma a norma, desviando a nossa aten√ß√£o para al√©m daquilo que conhecemos. Rimos sempre de uma coisa que se parece humana, ou de uma pessoa que aparente ser outra coisa que n√£o humana, e √© neste aspecto a quest√£o racial se torna relevante √† nossa an√°lise, pois nem sempre uma pessoa negra √© considerada uma pessoa. Para o padr√£o euroc√™ntrico de ser humano, o Branco (europeu, ocidental) √© a √ļnica express√£o poss√≠vel de homem e mulher e o Negro, por vezes √© representado como se fosse uma pessoa branca, comicamente pintada de negra.

Em ¬†1579 o m√©dico franc√™s Laurent¬†Joubert vai escrever um tratado sobre o riso, sustentando essa sua dimens√£o eminentemente pol√≠tica (ALBERTI, 1995). Segundo ele, n√≥s rimos antes de qualquer coisa, daquilo que √© feio e impr√≥prio e n√£o merece compaix√£o. O rid√≠culo √© aquele que se torna alvo do¬†riso dos outros. Para Elias (1993), o ‚Äúprocesso civilizador‚ÄĚ caracter√≠stico da modernidade destaca-se por sua busca de controle do corpo e ridiculariza√ß√£o daqueles sujeitos que ‚Äún√£o conseguiam se controlar‚ÄĚ. O indiv√≠duo que n√£o se controlava ou aparenta estar fora dos crit√©rios de controle socialmente descritos, ser√° alvo de uma distin√ß√£o hierarquizada que o desvaloriza diante dos outros, ridicularizando-se.

O ato de ridicularizar algu√©m, seja pelas normas de etiquetas ou por outros atributos socialmente desvalorizados, vai assumindo na modernidade a mesma import√Ęncia que os embates f√≠sicos e podiam ter como consequ√™ncia a exclus√£o social da pessoa alvo do riso. Aquele que fosse ridicularizado poderia perder suas formas de sustento.¬† Na Fran√ßa pr√©-revolu√ß√£o, por exemplo, o pecado n√£o tem nenhum valor, mas a ridiculariza√ß√£o poderia levar um indiv√≠duo √† morte.

Assim, a dimensão política do riso é destacada por autores diversos, como é o caso de George Minois (2003) quando nos explica em seu estudo sobre os Bobos da Corte que o seu papel era expressar verdades que ferem.  O Bobo tinha autorização social para falar de forma risível aquilo que ninguém mais tinha coragem de dizer, alertando a corte de seus limites e equívocos, conformando-se numa figura bastante importante para a manutenção da ordem. A piada, ou outras formas de se fazer rir, aparecem aqui como uma forma de falar a verdade, ou pelo menos, de se falar o que se realmente pensa, e não pode ser dito.

Imagem ImagemImagemImagemImagem

√Č sempre de algu√©m ou de alguma coisa que rimos, e neste sentido, a piada aparece como um entre outros meios de se fazer rir.¬† Em sua ultima pe√ßa, intitulada¬†Doente imagin√°rio¬†(2003), Moli√©re descreve uma est√≥ria que revela a perspectiva da corte em rela√ß√£o √† (j√° concorrente) burguesia ascendente. Na pe√ßa, o autor conta a hist√≥ria da¬†filha de um rico e avarento burgu√™s, que¬†se apaixona a contragosto de seu pai por um rapaz, enquanto o pai deseja que ela se case com um m√©dico, a fim de ganhar consultas gratuitas. Dessa forma o autor ridicularizava os burgueses que queriam adquirir h√°bitos corteses, mostrando como os m√©dicos v√£o se aproveitar de sua inoc√™ncia para ganhar poder. O riso assume aqui a dimens√£o do confronto entre a nobreza amea√ßada, onde se posicionava Moli√©re, e a burguesia ascendente, colocando-a como express√£o do rid√≠culo.

No mesmo sentido, mas por outros caminhos, Baktin (1987) afirmar√° que o riso faz parte de uma vis√£o de mundo. Em sua pesquisa ele mostra como que o riso pode representar a rebeli√£o contra o tom s√©rio e solene das institui√ß√Ķes oficiais e os seus aparatos de repress√£o b√©lica e ideol√≥gica. ¬†Assim, analisa o carnaval medieval como momento em que a ordem se inverte. O Carnaval √© visto como uma festa dos loucos; um momento profano em que se pode inclusive criticar o sagrado, ou pelo menos, aquilo que se imp√Ķe oficialmente como sagrado.¬† Ele fala do quanto essas festas populares s√£o uma critica a essa oficialidade. Em conson√Ęncia com essa reflex√£o o professor Jorge Leite nos relembra em suas aulas que n√£o foi a toa que durante a ditadura no Brasil, a Pornochanchada foi o g√™nero est√©tico mais f√©rtil. Enquanto o Estado ¬†a partir dos militares e dos grandes empres√°rios dizia:¬†o Brasil √© feito por n√≥s¬†a pornochanchada devolvia toda uma produ√ß√£o que dizia impl√≠cita ou explicitamente¬†o Brasil √© feito porn√īs,romantizando as pessoas¬† que n√£o queriam trabalhar e preferiam ficar a cortejando garotas para o sexo.

O ponto onde quero chegar √© que o riso exprimido por pessoas, ou indiv√≠duos, que est√£o sempre e inescapavelmente relacionados ao seu tempo, cultura, hist√≥ria e dilemas pol√≠ticos de toda ordem e em todas as suas dimens√Ķes de poder.¬† Se a pol√≠tica √© a guerra empreendida por outros meios, como diria o fil√≥sofo franc√™s Michael Foucault, qual √© o lugar do riso em sua dimens√£o pol√≠tica, em uma sociedade marcada pela nega√ß√£o radical da humanidade daqueles que se¬† consideram ‚Äúoutros‚ÄĚ?¬† Ao me deparar com o coment√°rio alocado no inicio deste texto sou obrigado a questionar:¬† quem √© pass√≠vel de ser ridicularizado e o que essa ridiculariza√ß√£o tem em comum com a recusa de enxergar no ‚ÄúOutro‚ÄĚ (ou pelo menos em¬†alguns tipos de outros)¬†um humano como ‚Äúeu‚ÄĚ.

‚ÄúNingu√©m ri do tombo da pr√≥pria m√£e‚ÄĚ

O prov√©rbio africano que nomeia esse cap√≠tulo √© aqui retomado para introduzir o seguinte questionamento: at√© que ponto o inocente ato de rir de (ou fazer) uma piada racista sustenta ou expressa uma¬†nega√ß√£o racializada da humanidade¬†daqueles que s√£o objeto do riso?¬† ¬†N√£o pretendo com isso dizer que o riso √© sempre repudi√°vel e muito menos que existam temas-tabus (acima da piada do bem e do mal), mas refletir como muitas vezes o humor desavisado (ou muito bem direcionado) se coloca a servi√ßo da nega√ß√£o da humanidade do “outro”.

Imagem

O filme¬†Bamboozled,¬†de Spike Lee, oferece um cen√°rio inquietante para pensarmos essas quest√Ķes: Em um mundo nada diferente do nosso, produtores televisivos discutem como alavancar a audi√™ncia de sua programa√ß√£o, at√© que um dos profissionais ‚Äď n√£o por acaso um homem negro ‚Äď tem a ideia de recuperar os j√° socialmente repudiados personagens¬†Black Face[4],¬†de forma que fosse poss√≠vel reconfigurar o seu teor originalmente racista e ao mesmo tempo, dialogar com o imagin√°rio estadunidense a cerca dos estere√≥tipos relacionados ao Negro. Entretanto, dado √†s press√Ķes econ√īmicas pela audi√™ncia, os jogos de poder a ela relacionados e os caminhos escolhidos pelos indiv√≠duos envolvidos, v√™-se o surgimento de um programa que retoma e atualiza os preconceitos raciais mais profundos naquele pa√≠s, recuperando e atualizando as caracter√≠sticas essencializantes atribu√≠das aos negros ‚Äď muito corpo e pouco c√©rebro ‚Äst para leva-las ao limite em uma express√£o caricaturadamente ris√≠vel.

O nome do filme[5] se torna intelig√≠vel quando os personagens negros percebem que suas cria√ß√Ķes est√©ticas ¬†t√™m o poder de voltar-se contra eles pr√≥prios, na medida em que o riso provocado, em sua dimens√£o eminentemente pol√≠tica, n√£o √© algo que se faz com eles, mas contra eles, legitimando a sua pr√≥pria nega√ß√£o. A pergunta que proponho lan√ßar √© a seguinte: por que diabos, o negro precisa ser considerado rid√≠culo? Se¬†rid√≠culo¬†√© sempre¬†a m√£e dos ‚ÄúOutros‚ÄĚ, e nunca a ‚Äúnossa‚ÄĚ, como se produz esse processo de¬†outrifica√ß√£o¬†do Negro, a ponto de os n√£o-negros (e muitas vezes os negros socializados nessa forma de ver o mundo) n√£o se ofenderem, ou pior, n√£o visualizarem nenhuma ofensa nesse processo de outrifica√ß√£o? Ou se quisermos colocar a pergunta de outra forma, at√© que ponto a¬†piada de negro¬†n√£o esconderia, e de certa forma legitimaria, a mesma indiferen√ßa que autoriza a rir de uma¬†m√£e¬†sendo arrastada viva[6] por uma viatura policial em plena via p√ļblica?

Frantz Fanon, importante pensador martinicano do racismo, oferece um importante aporte para pensar essa questão. Para ele a sociedade racista nos relega ao seguinte esquema de interpretação: ser Negro é estar distante do Branco e, portanto, distante de toda concepção de humanidade. O extranhamento em relação à humanidade do Negro surge exatamente quando o Branco não o reconhece como igual, mas como Outro:

‚ÄúPreto sujo!‚ÄĚ Ou simplesmente: ‚ÄúOlhe, um preto!‚ÄĚ

Cheguei ao mundo pretendendo descobrir um sentido nas coisas, minha alma cheia do desejo de estar na origem do mundo, e eis que me descubro¬†objeto em meio a outros objetos. Enclausurado nesta objetividade esmagadora, implorei ao outro. Seu olhar libertador, percorrendo meu corpo subitamente livre de asperezas, me devolveu uma leveza que eu pensava perdida e, extraindo-me do mundo, me entregou ao mundo. Mas, no novo mundo, logo me choquei com a outra vertente, e o outro, atrav√©s de gestos, atitudes, olhares, fixou-me como se fixa uma solu√ß√£o com um estabilizador. Fiquei furioso, exigi explica√ß√Ķes‚Ķ N√£o adiantou nada. Explodi. Aqui est√£o os farelos reunidos por um outro eu. (FANON, 2008, p.103. Grifos nossos.)

‚Äú√Č o Branco que cria o Negro‚ÄĚ (FANON, 1968) na medida em que desconsidera sua humanidade, tornando-o ‚Äúobjeto em meio a outros objetos‚ÄĚ, aprisionando-o naqueles referenciaisfetichizados¬†que deixou de reconhecer em si. Espera-se assim que o Negro (o Outro) seja sempre¬†emotivo, sensual, viril, l√ļdico, colorido, infantil, banal; o mais pr√≥ximo poss√≠vel da natureza (animal) e distante da civiliza√ß√£o.¬† Estas imagens criadas no seio da situa√ß√£o colonial tinham a fun√ß√£o de desarticular os sistemas de refer√™ncia do povo colonizado para que suas ‚Äúlinhas de for√ßa‚ÄĚ n√£o atuassem contra a imposi√ß√£o de uma forma espec√≠fica de rela√ß√£o de produ√ß√£o, √ļtil a determinadas fases de acumula√ß√£o capitalista.

No universo c√īmico, espera-se que o negro seja sempre um¬†Mussum alc√≥lotra¬†e inocente, umTi√£o Macal√© desdentado e ris√≠vel[7], porque aqui, se h√° alguma valoriza√ß√£o do ‚Äúoutro‚ÄĚ, ela se faz pela mistifica√ß√£o fantasmag√≥rica de seus atributos, de forma a confirmar, mesmo que pela valoriza√ß√£o reificada a superioridade do branco. O negro s√≥ pode ser sublime na medida em que se revele o mais¬†grotesco¬†poss√≠vel diante de uma raz√£o, beleza e ¬†verdade¬†brancas. De sublime na verdade s√≥ resta o prazer do riso que a sua imagem jocosa proporciona ao¬† espectador informado pelos estere√≥tipos que ele personifica e refor√ßa. Se o grotesco √© aquilo est√° confinado √†s grutas quaresm√°ticas do processo civilizador, resta ao Negro esperar o carnaval para surgir em p√ļblico e lembrar ao ocidente o seu eu negado, antes que a quarta-feira de cinzas o relegue novamente √†s sobras da humanidade ocidental.

O Negro √©¬†suspeito “nato”¬†at√© que se prove o contr√°rio, pois “espia” para dentro de grutas imagin√°rias aquilo que o ocidente tr√°s de mais selvagem, s√°dico e desumano.¬† √Č a figura que permite √† sociedade carioca, algumas poucas d√©cadas depois da ditatura, dormir sossegada com a not√≠cia de ocupa√ß√£o das ruas (das favelas) por tanques de guerra militares. √Č a figura animalizada que refor√ßa o qu√£o humano, belo, bom e verdadeiro √© todo aquele que se afasta deste referencial macaqueado. O Negro √© o outro e, portanto, o riso do tombo de sua m√£e, ou dos seus filhos ¬†n√£o exige grandes conflitos √©ticos: n√£o se trata de um ser humano como eu, mas um¬†Outro, radicalmente oposto ao¬†N√≥s, ‚Äúcidad√£os de bem‚ÄĚ.

 Imagem

A pol√≠tica √© a guerra feita por outros meios, e neste sentido, sou obrigado a concluir que o diretor do¬†Zorra Total¬†e o policial que arrastou Cl√°udia Silva Ferreira pelo asfalto de Madureira t√™m muito em comum porque ambos, embora por meios distintos anulam, cada um com sua arma, a possibilidade efetiva de nos vermos e fazermos uns nos outros como humanos. A causa-morte de Cl√°udia deve ser compreendida para al√©m do asfalto que lhe consumiu a carne em frente das c√Ęmeras port√°teis; deve ser compreendida para al√©m dos tiros que interromperam violentamente o seu trajeto de casa √† padaria, para ser explicada em cadaMussum, Adelaide, Ti√£o Macal√©¬†e tantas outras representa√ß√Ķes animalizadas ou coisificadoras que autorizaram, direta ou indiretamente, um tratamento aos moradores da favela que despreze qualquer sentimento de alteridade.

Imagem

Morro com Claudia em sua agonia de dor contra o asfalto cinza do Rio de Janeiro‚Ķ Morro, mas de uma morte que n√£o se inicia com o tiro perpetrado pelo policial, mas¬†a cada piada desferida quase sempre contra a humanidade do ‚ÄúOutro‚ÄĚ, seja ele(a) l√° quem for.

Referências

Alberti, Verena. ‚ÄúO riso, as paix√Ķes e as faculdades da alma‚ÄĚ. Textos de Hist√≥ria. Revista da P√≥s-Gradua√ß√£o em Hist√≥ria da Universidade de Bras√≠lia. Bras√≠lia, UnB, v.3, n.1, 1995, p.5-25.

BAKHTIN, Mikhail, A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, São Paulo, Hucitec/ UNB, 1987

BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significa√ß√£o do c√īmico. S√£o Paulo: Martins¬† Fontes, 2004.

ELIAS, N. O processo civilizador: Formação do Estado e Civilização. Rio de Janeiro:  Jorge Zahar Ed., 1993, v. II.

 FANON. F. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Editora Fator, 1983.

_______.¬†Sociologia d√ļne r√©volution.¬†¬ęL‚Äôan V de la Rev√≥lution algerienne¬†¬Ľ. Fran√ßois Maspero. Par√≠s. 1968 (petite collection maspero)

MINOIS, Georges, O riso sensato do bobo da corte in História do riso e do  escárnio, São Paulo, Unesp, 2003

Molière. Jean-Baptiste Pocquelin Le Malade maginaire. Paris: Bordas. 2003.

Filmes utilizados: 

Bamboozled. Diretor: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee  Ano: 2000. Disponível emhttps://www.youtube.com/watch?v=VnCkHKlwFnA. Acesso em 23 de fevereiro de 2014.

O riso dos outros. Diretor: Pedro Arantez. Ano 200. Disponível emhttps://www.youtube.com/watch?v=uVyKY_qgd54. Acesso em 20 de fevereiro de 2014.

[1] Grupo KILOMBAGEM.

[2] Comentários escritos por um leitor do jornal G1.Globo a respeito das imagens de auxiliar de limpeza Cláudia Silva Ferreira sendo arrastada pelo asfalto por uma viatura policial no Rio de Janeiro. http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/03/arrastada-por-carro-da-pm-do-rio-foi-morta-por-tiro-diz-atestado.html. Acesso em 17 de março de 2013.

[3] Anuncio de destaque na p√°gina PIADA DE PRETO, de um site de piadas ‚Äútem√°ticas‚ÄĚ escolhidas por t√≥picos:¬†http://selecaodepiadas.webnode.com.br/piadas-de-pretos/.

[4] A Black Face é uma performance teatral estadunidense que se apropriava dos estereótipos racistas para representar os negros. Ver nesse sentido:http://en.wikipedia.org/wiki/Blackface.

[5] A palavra¬†bamboozled¬†pode ser traduzida como:¬†¬†‚ÄúAHH! PEGADINHA DO MALANDRO!!!!‚ÄĚ,

[6] O caso em quest√£o gerou muita pol√™mica e em resposta, foi divulgado um atestado de √≥bito aferindo os tiros anteriormente recebidos como verdadeira causa da morte de Claudia. O laudo no entanto, n√£o comenta, e nem poderia ser diferente diante da repercuss√£o negativa que o caso assumiu, se o fato de a mulher ter sido arrastada antecipou sua morte por ferimento a bala ou se ela j√° estava morta no momento em que o seu corpo rola dentro do porta-malas da viatura em movimento em dire√ß√£o ao asfalto. Por um caminho ou por outro, ‚Äúa trapalhada‚ÄĚ policial n√£o resultou apenas na interrup√ß√£o de uma vida, mas na anula√ß√£o de sua dignidade.

[7] Referencia a dois personagens bastantes presentes no imagin√°rio social brasileiro: o primeiro interpretado pelo ator de¬†Ant√īnio Carlos Bernardes Gomes (1941-1994) representa o Musum, uma das personagens do programa¬†Os Trapalh√Ķes, veiculado pela¬†Rede Globo.¬†E o segundo, o Ti√£o Macal√©, interpretado pelo ator Augusto Tem√≠stocles da Silva Costa (1926-1993).

[1] Texto apresentado como trabalho de conclus√£o de curso para a disciplina Sociologia do Riso, com o Prof. Dr. Jorge Leite ‚Äď UFSCAR 2014