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Sobre o Revolucion√°rio Thomas Sankara

 

 

 

O sonho assassinado de Thomas Sankara 
Estraído de ;
Jovem militar influenciado pelo marxismo, Thomas Sankara tomou o poder em 1983. Por quatro anos, o ‚ÄúChe africano‚ÄĚ multiplicou experi√™ncias in√©ditas em Burkina Faso: autossufici√™ncia alimentar, ruptura da tutela neocolonial, ataques ao FMI. As pot√™ncias ocidentais deixaram claro que n√£o apreciam esse programa
por Bruno Jaffré
(Ouagadougou, Burkina Faso, 1986 – Thomas Sankara durante visita oficial do Presidente franc√äs , Fran√ßois Mitterrand)‚ÄúNossa revolu√ß√£o s√≥ ter√° valor se, olhando para tr√°s, para os lados e diante de n√≥s, pudermos dizer que os burquinenses s√£o, gra√ßas a ela, um pouco mais felizes. Porque eles t√™m √°gua boa para beber, alimenta√ß√£o suficiente, uma sa√ļde excelente, educa√ß√£o, casas decentes, est√£o mais bem-vestidos, t√™m direito ao lazer, oportunidade de gozar de mais liberdade, mais democracia, mais dignidade. […] A revolu√ß√£o √© a felicidade. Sem a felicidade n√£o podemos falar de sucesso‚ÄĚ.1Era assim que Thomas Sankara, presidente de Burkina Faso, definia o sentido de sua a√ß√£o, treze dias antes do golpe de Estado do dia 15 de outubro de 1987, no qual ele seria assassinado.Amplamente desconhecido fora do continente negro, Sankara permanece vivo em muitas mem√≥rias africanas. Aos olhos de muitos, ele era aquele que dizia a verdade, vivia perto de seu povo, lutava contra a corrup√ß√£o, dava √† √Āfrica a esperan√ßa de reencontrar sua dignidade. Mas ele era ainda mais que isso: um estrategista pol√≠tico, um presidente criativo e en√©rgico que tinha se comprometido at√© ao sacrif√≠cio supremo, uma voz que bradou alto e forte as reivindica√ß√Ķes do terceiro mundo,2Ele nasceu no dia 21 de dezembro de 1949, na ent√£o chamada Haute-Volta, col√īnia francesa que obteria sua independ√™ncia em 1960. Na escola, conviveu com filhos de colonos e descobriu a injusti√ßa. Foi coroinha, mas recusou-se in extremisa entrar para o semin√°rio. Paradoxalmente, foi na academia militar de Kadiogo que ele se abriu √† pol√≠tica por interm√©dio de um professor marxista, militante do Partido Africano da Independ√™ncia (PAI). Na escola militar interafricana de Anstirab√©, em Madagascar, o jovem oficial tamb√©m aprendeu Sociologia, Ci√™ncias Pol√≠ticas, Economia Pol√≠tica, franc√™s, ‚Äúci√©ncias agr√≠colas‚ÄĚ. Foi na Grande Ilha, onde ele assistiu em 1972 √† revolu√ß√£o que derrubou o regime neocolonialista de Philibert Tsiranana, que concebeu a ideia de uma ‚Äúrevolu√ß√£o democr√°tica e popular‚ÄĚ.Em 1974, durante a guerra com o Mali, ele se destacou com uma fa√ßanha militar. Mais tarde criou, com outros oficiais (ele foi capit√£o), uma organiza√ß√£o clandestina. Aproximou-se dos militantes de extrema esquerda, leu bastante sobre numerosos assuntos, questionou, aprofundou-se, pegando gosto pelo debate pol√≠tico. Desde a sua independ√™ncia, a Haute-Volta, pequeno pa√≠s da √Āfrica do Oeste, conheceu uma altern√Ęncia de per√≠odos de exce√ß√£o e democracia parlamentar. Foi o √ļnico Estado da regi√£o que elegeu um presidente no segundo turno, o general Aboubacar Sangoul√© Lamizana, em 1978. Este √ļltimo governou o pa√≠s de maneira paternalista. √Ä esquerda, somente o partido do historiador Joseph Ki-Zerbo, a Frente Popular da Haute-Volta (FPV), participou das elei√ß√Ķes e, √†s vezes, do poder, pois estava ao mesmo tempo inserido nos sindicatos.

Entretendo-se com os combates parlamentares, os pol√≠ticos se desligaram da realidade do pa√≠s e de seus atores sociais, especialmente de uma pequena burguesia urbana bem politizada. Esc√Ęndalos financeiros desacreditaram os oficiais superiores no poder. No seio do ex√©rcito, uma gera√ß√£o jovem, ambiciosa e querendo moderniza√ß√£o se op√īs aos superiores mais velhos, menos educados.

Ap√≥s uma sucess√£o de greves em todo o pa√≠s, um primeiro golpe de Estado militar recebeu, em novembro de 1980, o apoio da oposi√ß√£o legal, como o do FPV. Mas o novo regime, que gozou de certa popularidade, vai se mostrar repressivo, levando os dirigentes sindicais √† clandestinidade. Oficiais foram ligados a esc√Ęndalos. Secret√°rio de Estado da Informa√ß√£o, Sankara pediu demiss√£o ao vivo na televis√£o pronunciando esta famosa frase: ‚ÄúInfelicidade √†queles que amorda√ßam o povo!‚ÄĚ.

Era uma nova fra√ß√£o do ex√©rcito que se encontrava desacreditada, assim como o partido de Ki-Zerbo. Um segundo golpe de Estado aconteceu em 1982. A dissocia√ß√£o vai ent√£o se fazer sentir entre aqueles que desejavam a continuidade institucional e os oficiais revolucion√°rios reunidos junto ao jovem capit√£o. Nomeado primeiro-ministro, Sankara aproveitou para exacerbar as contradi√ß√Ķes durante as reuni√Ķes p√ļblicas nas quais ele denunciava os ‚Äúinimigos do povo‚ÄĚ e o ‚Äúimperialismo‚ÄĚ.

No dia 17 de maio de 1983, enquanto Guy Pennem, conselheiro de Neg√≥cios Africanos de Fran√ßois Miterrand, aterrissava em Ouagadougou, capital do pa√≠s, Sankara era preso. As organiza√ß√Ķes de esquerda clandestinas, o PAI e a Uni√£o das Lutas Comunistas Reconstru√≠da (ULC-R) se manifestaram pedindo a sua liberta√ß√£o. Ele soube se fazer respeitar, n√£o sem dificuldades, pelas organiza√ß√Ķes civis que desconfiavam dos militares, mas tamb√©m por estes √ļltimos, que reconheceram nele um dos seus, um soldado orgulhoso de s√™-lo. Com Sankara liberto, todas essas for√ßas prepararam juntas a tomada do poder. Os comandos militares de Po, no sul de Burkina Faso, dirigidos pelo capit√£o Blaise Compaor√©, sobem para a capital no dia 4 de agosto de 1983; os funcion√°rios das telecomunica√ß√Ķes cortam as linhas; os civis esperam os soldados para gui√°-los na cidade. Esta cai rapidamente nas m√£os dos revolucion√°rios.

 

Uma tarefa imensa

O ent√£o novo presidente definia assim seu objetivo principal: ‚ÄúRecusar o estado de sobreviv√™ncia, afrouxar as press√Ķes, liberar nossas terras do imobilismo medieval, democratizar nossa sociedade e abrir os esp√≠ritos para um universo de responsabilidade coletiva para ousar inventar o futuro. Quebrar e reconstruir a administra√ß√£o por interm√©dio de outra imagem do funcion√°rio, mergulhar nosso ex√©rcito no povo pelo trabalho produtivo e lhe lembrar incessantemente que, sem forma√ß√£o patri√≥tica, um militar √© somente um criminoso potencial‚ÄĚ.3 A tarefa era imensa: a Haute-Volta estava entre os pa√≠ses mais pobres do mundo:4 taxa de mortalidade infantil estimada em 180 para 1 mil, esperan√ßa de vida de 40 anos, taxa de analfabetismo de at√© 98%, taxa de escolariza√ß√£o de 16% e Produto Interno Bruto (PIB) per capita de 53.356 francos CFA (R$ 186).

Sankara mal escondia suas refer√™ncias marxistas. Por outro lado, aqueles √† sua volta estavam, com frequ√™ncia, longe de partilh√°-las. Ele buscou se cercar de pessoas competentes e motivadas, e reuniu na presid√™ncia por volta de 150 colaboradores minuciosamente escolhidos, alguns ide√≥logos, mas sobretudo os melhores executivos do pa√≠s. Os projetos n√£o paravam de aparecer enquanto ele impunha permanentemente prazos julgados frequentemente como… irrealiz√°veis.

Ele entendia a revolu√ß√£o como a melhora concreta das condi√ß√Ķes de vida da popula√ß√£o. √Č a ruptura em todos os campos: transforma√ß√£o da administra√ß√£o; redistribui√ß√£o das riquezas; liberta√ß√£o da mulher; responsabiliza√ß√£o e mobiliza√ß√£o da juventude; exclus√£o da lideran√ßa tradicional, considerada respons√°vel pelo atraso no interior do pa√≠s; tentativa de fazer dos camponeses uma classe social revolucion√°ria; reforma do ex√©rcito para coloc√°-lo a servi√ßo do povo ao atribuir-lhe tarefas de produ√ß√£o; descentraliza√ß√£o e busca de uma democracia direta por meio de comit√™s de defesa da revolu√ß√£o (CDR) encarregados de introduzi-la localmente; luta sem miseric√≥rdia contra a corrup√ß√£o etc. No dia 4 de agosto de 1984, a Haute-Volta foi simbolicamente rebatizada de Burkina Faso, o ‚Äúpa√≠s dos homens √≠ntegros‚ÄĚ.

O Conselho Nacional da Revolu√ß√£o (CNR)5 lan√ßou o Plano Popular de Desenvolvimento (PPD): as prov√≠ncias determinam seus objetivos e devem se dotar dos meios necess√°rios para atingi-los. Sankara resumia assim essa filosofia: ‚ÄúO mais importante √© ter levado o povo a ter confian√ßa nele mesmo, a entender que, finalmente, ele pode se sentar e escrever seu desenvolvimento; escrever a sua felicidade; dizer o que desejar. E, ao mesmo tempo, sentir o pre√ßo a ser pago por essa felicidade‚ÄĚ.6

O CNR praticava o autoajustamento: as despesas de funcionamento diminuem em benefício do investimento, os meios são racionalizados. Mas o esforço popular de investimento (EPI) se traduziu em impostos de 5% a 12% sobre os salários, uma medida atenuada em parte pela gratuidade dos aluguéis durante um ano. Uma zona industrial abandonada foi reabilitada em Ouagadougou.

Tratava-se de promover um desenvolvimento econ√īmico autocentrado, para n√£o depender da ajuda exterior: ‚ÄúEssas ajudas alimentares […] que instalam em nossos esp√≠ritos […] tra√ßos de mendigos n√≥s realmente n√£o queremos mais! √Č preciso produzir, produzir mais, porque √© normal que aquele que lhe d√° de comer tamb√©m lhe dite suas vontades‚ÄĚ.7

Uma palavra de ordem se imp√īs: ‚ÄúProduzamos e consumamos, burquinenses‚ÄĚ. O poder proibiu a importa√ß√£o de frutas e legumes para incitar os comerciantes a buscar a produ√ß√£o no sudoeste do pa√≠s. De dif√≠cil acesso, essa regi√£o era negligenciada em benef√≠cio dos mercados da Costa do Marfim, ligada a Burkina por uma estrada pavimentada. Criam-se circuitos de distribui√ß√£o com o desenvolvimento de uma cadeia nacional de lojas. Al√©m disso, por interm√©dio dos CDR, os assalariados podem comprar os produtos nacionais no local de trabalho. Incitou-se os funcion√°rios a usar o Faso dan fani, a vestimenta tradicional fabricada com tiras de algod√£o tecidas de maneira artesanal. Como consequ√™ncia, v√°rias mulheres come√ßaram a tecer no p√°tio de suas casas, o que lhes permitia ter uma renda.

 

Vision√°rio do altermundialismo

O presidente burquinense aparecia como um precursor em mat√©ria de defesa do meio ambiente. Ele n√£o somente apontou as responsabilidades humanas no avan√ßo do deserto, como tamb√©m tomou medidas a respeito. Desde abril de 1985, o CNR lan√ßou as ‚Äútr√™s lutas‚ÄĚ: contra o corte abusivo da madeira, acompanhado de campanhas de sensibiliza√ß√£o na utiliza√ß√£o do g√°s; contra os inc√™ndios florestais e a cria√ß√£o de animais soltos. Em todos os lugares, os camponeses constroem barragens de √°gua, frequentemente com as m√£os e sem instrumentos, enquanto o governo relan√ßa projetos de a√ßudes e represas. O chefe de Estado denuncia as falhas da ajuda de Paris, cujas empresas s√£o as principais benefici√°rias do mercado de grandes obras.

Porta-voz do terceiro mundo, Sankara criticava a ordem internacional. Os temas que ele desenvolveu encontrar√£o eco no movimento altermundialista: as injusti√ßas da globaliza√ß√£o e do sistema financeiro internacional, a onipresen√ßa do Fundo Monet√°rio Internacional (FMI) e do Banco Mundial, o c√≠rculo vicioso da d√≠vida dos pa√≠ses do terceiro mundo. Para o presidente burquinense, essa d√≠vida tem sua origem nas ‚Äúpropostas sedutoras‚ÄĚ dos ‚Äúassassinos t√©cnicos‚ÄĚ vindos de institui√ß√Ķes financeiras internacionais. Ela se tornou um meio de ‚Äúreconquista cuidadosamente organizada da √Āfrica, para que seu crescimento e desenvolvimento obedecessem a n√≠veis e a normas que nos s√£o completamente estrangeiros‚ÄĚ.8 Burkina Faso decidiria tamb√©m n√£o fazer empr√©stimos com o FMI, que queria impor suas ‚Äúcondicionalidades‚ÄĚ.

Revolucion√°rio, Sankara refletiu sobre a democracia e sua tradu√ß√£o concreta pela mobiliza√ß√£o de todos os componentes da popula√ß√£o. O que implica a emancipa√ß√£o das classes populares e das mulheres. ‚ÄúA democracia √© o povo com todas as suas potencialidades e sua for√ßa‚ÄĚ, enunciava. ‚ÄúO voto e um aparelho eleitoral n√£o significam, por si s√≥, que existe uma democracia. As pessoas que organizam elei√ß√Ķes de tempos em tempos, e s√≥ se preocupam com o povo antes de cada ato eleitoral, n√£o constituem um sistema realmente democr√°tico. […] N√£o se pode conceber a democracia sem que o poder, sob todas as formas, seja colocado nas m√£os do povo; o poder econ√īmico, militar, pol√≠tico, social e cultural.‚ÄĚ9

Criados muito rapidamente ap√≥s a tomada do poder no dia 4 de agosto de 1983, os CDR foram encarregados de exercer localmente o poder em nome do povo. Eles assumiram numerosas responsabilidades que v√£o bem al√©m da seguran√ßa p√ļblica: forma√ß√£o pol√≠tica, saneamento dos bairros, desenvolvimento da produ√ß√£o e do consumo dos produtos locais, participa√ß√£o no controle or√ßamental nos minist√©rios etc. Eles at√© rejeitaram, ap√≥s debate, v√°rios projetos nacionais, como o da ‚Äúescola nova‚ÄĚ, considerado muito radical.

Mas os CDR tamb√©m s√£o origem de diversos abusos. Eles foram elementos din√Ęmicos contra os sindicatos, considerados perigosos por serem controlados por organiza√ß√Ķes como o PAI, que entrou na oposi√ß√£o em agosto de 1984, e o partido comunista revolucion√°rio de Halte-Volta (PCRV). Sankara foi o primeiro a denunciar os excessos e incapacidades dos CDR, em geral devido √†s disputas entre as diferentes organiza√ß√Ķes que apoiavam a revolu√ß√£o.10

Em 1987, esse presidente t√£o diferente, do qual todo mundo quer hoje cantar os louvores pelo patriotismo e integridade, compromisso pessoal e desapego, tinha se tornado um inc√īmodo. Sua luta cada vez mais popular contra o neocolonialismo amea√ßava o poder de seus colegas, mais d√≥ceis, da √Āfrica do Oeste, e mais especificamente o lugar da Fran√ßa no continente negro.

 

Ascens√£o do neoliberalismo

O compl√ī foi executado implacavelmente. Segundo do regime, Blaise Compaor√© assume a lideran√ßa, com o apoio prov√°vel da Fran√ßa, Costa do Marfim e L√≠bia. Segundo Jeune Afrique (de 2 de junho de 1998), revista semanal designada legat√°ria dos escritos de Jacques Foccart,11 ‚Äúnessa √©poca, n√ļmero dois de uma revolu√ß√£o na qual ele n√£o acreditava mais, cada vez mais pr√≥ximo de Houphouet [-Boigny] gra√ßas ao qual ele conheceu sua futura esposa, o belo Blaise encontrou seu colega franc√™s [Jacques Chirac], ent√£o primeiro- ministro, por meio do presidente marfinense, e Jacques Foccart, que lhe apresentou o staff da direita francesa, em particular Charles Pasqua.‚ÄĚ

Para Fran√ßois-Xavier Verschave, n√£o resta nenhuma d√ļvida: ‚Äú(Muamar) Kadafi e a Fran√ßafrique multiplicavam as causas em comum, fortalecidas pelo antiamericanismo. Embelezada por interesses m√ļtuos, a elimina√ß√£o do presidente burquinense Thomas Sankara √©, sem d√ļvida, o sacrif√≠cio fundador. Foccart e a comitiva de Kadafi concordaram, em 1987, a substituir um l√≠der muito √≠ntegro e independente, a ponto de se tornar irritante, por um Blaise Compaor√© infinitamente mais disposto a partilhar seus projetos. O marfinense Houphouet foi associado ao compl√ī‚ÄĚ.12

No dia 15 de outubro de 1987, Sankara foi assassinado. Compaor√© lhe sucedeu, e n√£o tardou em tornar-se fiel executor das teses neoliberais ‚Äď a ponto de tomar o lugar de F√©lix Houphouet-Boigny como melhor aliado de Paris na regi√£o. Uma pol√≠tica que lhe permite permanecer no poder: em 2011, ele ainda segura as r√©deas de Burkina Faso.

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“Eu penso nos esquecidos” Por Aim√© C√©saire

Eu, senhor, eu penso nos esquecidos.

N√≥s somos aqueles que s√£o desapropriados, que s√£o atacados, que s√£o mutilados; aqueles a quem tratavam como ‚Äúvoc√™‚ÄĚ,1 aqueles que s√£o cuspidos no rosto. Cozinheiros, criados, como voc√™s dizem, lavadeiros, n√≥s fomos um povo de boys, um povo de ‚Äúsim, mestre‚ÄĚ, e quem duvidava que o homem pudesse n√£o ser o homem, bastava nos olhar. Senhor, todo sofrimento que se podia sofrer, n√≥s sofremos. Toda humilha√ß√£o que podia ser bebida, n√≥s bebemos!

Mas, camaradas, o gosto de viver, eles não puderam suavizar na nossa boca, e lutamos, e lutamos, com nossos pobres recursos lutamos durante cinquenta anos e aí está: vencemos.

Nosso país está cada vez mais nas mãos de seus filhos.

Nosso, esse céu, esse rio, essas terras.

Nosso, o lago e a floresta.

Nosso, Karissimbi, Nyiragongo, Niamuragira, Mikéno, Ehu, montanhas escaladas da palavra mesma do fogo. Congoleses, hoje é um dia grande.

√Č o dia no qual o mundo acolhe entre as na√ß√Ķes, Congo, nossa m√£e, e, sobretudo, Congo, nosso filho, o filho de nossas vig√≠lias, de nossos sofrimentos, de nossos combates.

Camaradas e irm√£os de combate, que todas as nossas feridas se transformem em mamas!

Que todos os nossos pensamentos, todas as nossas esperanças, sejam ramos para balançar de novo, ar!

Para o Congo! Veja. Levanto-o em cima da minha cabeça; coloco-o no meu ombro. Três vezes cuspo no seu rosto. Eu o coloco no chão e pergunto a vocês: na verdade, vocês conhecem esta criança? e vocês todos respondem: é o Congo, nosso rei!

Gostaria de ser tucano, o belo pássaro, para ser pelo céu, anunciador a raças e línguas que Congo nasceu para nós, nosso rei! Que viva o Congo !

Congo, nascido tarde, que siga o gavi√£o!

Congo, nascido tarde, que ele encerre a bajulação!

Camaradas, tudo tem que ser feito, ou tudo tem que ser refeito, mas nós o faremos, nós o refaremos. Pelo Congo!

Retomaremos uns após os outros, todas as leis, pelo Congo!

Revisaremos, uns após os outros, todos os costumes, pelo Congo!

Perseguindo a injustiça, retomaremos, uma após as outras, todas as partes do velho edifício, e dos pés à cabeça, pelo Congo!

Tudo o que est√° torto ser√° endireitado, tudo o que est√° edificado ser√° engrandecido.

 

1 Ao invés de vós (N.T.).

 Une saison au Congo (Uma estação no Congo). Paris: Seuil, 1973.

Bruno Jaffré

Autor da biografia de Thomas Sankara, “La patrie ou la mort” (1997), e coautor do site www.thomassankara.net

Ilustração: Corbis/ Latinstock
1 Discurso pronunciado em Tenkodogo, no dia 2 de outubro de 1987.

2 Michel Galy, Le Burkina Faso à l’ombre de Sankara, Le Monde diplomatique, dez. 1996.

3 Discurso √†s Na√ß√Ķes Unidas, em 4 de outubro de 1984.

4 At√© os dias de hoje, o pa√≠s n√£o progrediu: Burkina est√° classificado no 161¬ļ lugar (entre 169) segundo o √≠ndice de desenvolvimento humano do Programa das Na√ß√Ķes Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), 2010.

5 O CNR, presidido por Sankara, compreende em seu primeiro governo militares, militantes do PAI e do ULC-R.

6 Fratricide au Burkina, Sankara et la Françafrique (Fratricídio em Burkina: Sankara e a Françafrique), documentário de Thuy Tien Hi e Didier Mauro, produção ICTV Solférino.

7 Primeira conferência nacional dos CDR, 4 de abril de 1986.

8 Discurso na Organização da Unidade Africana (OUA), julho de 1987.

9 Granma, Havana, ago. 1987.

10 Especialmente o discurso pronunciado em abril de 1986, antes da primeira conferência nacional dos CDR.

11 Jacques Foccart (1913-1997) foi conselheiro presidencial franc√™s, especialista em neg√≥cios africanos, de 1960 a 1974. Tornou-se s√≠mbolo da face ‚Äúsombria‚ÄĚ da presen√ßa francesa na √Āfrica.

12 François-Xavier Verschave. Noir Silence. Paris: Les Arènes, 2000, p.346-347.

27 de Setembro de 2011