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Compreendendo Steve Biko: ra√ßa, classe e luta na √Āfrica do Sul

No anivers√°rio do assassinato de Steve Biko, Remi Adekoya, do ROAPE, fala com o acad√™mico e ativista sul-africano Mosa Phadi. Phadi reflete sobre o legado do pensamento radical e importante de Biko, mas tamb√©m discute como ele n√£o considerou alternativas coesas que poderiam agora servir como um contraponto √†s ideias neoliberais. Em uma entrevista abrangente, a Phadi tamb√©m analisa a crise pol√≠tica e econ√īmica na √Āfrica do Sul, os Economic Freedom Fighters-EFF(Combatentes da Liberdade Econ√īmica), os fracassos do ANC e as possibilidades de uma solu√ß√£o na milit√Ęncia e consci√™ncia da luta da classe trabalhadora.

Remi Adekoya: Hoje √© o anivers√°rio do assassinato de Stephen Biko por agentes de seguran√ßa do Estado do apartheid. Desde ent√£o, ele se tornou uma figura de rally imensamente simb√≥lica para muitos negros, especialmente na √Āfrica, mas n√£o apenas. Qual √© a sua opini√£o sobre o legado de Biko hoje e como ele est√° sendo historicamente posicionado?

Mosa Phadi: Eu tenho um problema em como Stephen Biko √© posicionado por nomes como Donald Woods, seu amigo e bi√≥grafo, que atribui toda a filosofia da Consci√™ncia Negra a Biko como se ele emergisse em um v√°cuo. Seu argumento √© basicamente que na √©poca em que Biko emergiu, o Congresso Pan-Africano (PAC) e o Congresso Nacional Africano (ANC) foram ambos organiza√ß√Ķes proibidas, e assim a chegada de Biko preencheu um vazio na luta pela liberdade dos negros.

No entanto, se voc√™ pensar no contexto hist√≥rico da √©poca, esse n√£o foi o caso. Biko, juntamente com outros estudantes, iniciou o movimento da Organiza√ß√£o de Estudantes da √Āfrica do Sul (SASO) em 1968. Se voc√™ pensar em 1968, este foi um ano de protestos globais; voc√™ teve os protestos anti-guerra do Vietn√£, grandes manifesta√ß√Ķes de direitos civis, protestos estudantis. Tamb√©m voltando, havia o pano de fundo de Gana se tornando o primeiro pa√≠s africano a ganhar a independ√™ncia do dom√≠nio colonial em 1957, um evento que impulsionou outros movimentos pr√≥-independ√™ncia em todo o continente africano. Havia Julius Nyerere na Tanz√Ęnia falando sobre um “socialismo africano”.

Antes da d√©cada de 1960, havia a Carta das Mulheres de 1954 na √Āfrica do Sul exigindo igualdade entre homens e mulheres, houve a Marcha das Mulheres de 1956, o massacre de Sharpeville em 1960, a desobedi√™ncia civil durante esse per√≠odo e muitos outros exemplos de luta contra a opress√£o. Ent√£o, retratando a luta sul-africana como essencialmente travada pelo PAC e pelo CNA, e assim que essas organiza√ß√Ķes foram proibidas, houve algum tipo de tr√©gua na luta contra a opress√£o e o apartheid √© uma falsa an√°lise.

Outra quest√£o pouco relatada sobre Biko e a √©poca em que ele atingiu a idade adulta √© como ela foi pega nas contradi√ß√Ķes do stalinismo e da Uni√£o Sovi√©tica em geral. Claramente, isso n√£o era mais uma alternativa, como muitos imaginaram ap√≥s a Segunda Guerra Mundial e a maioria dos ativistas negros, incluindo os¬†Black Panther Party, estavam pensando em esticar o marxismo, usando suas id√©ias quando se tratava de organiza√ß√£o partid√°ria, mas vendo o lumpemproletariado em termos essencialmente raciais como Fanon fez.

Existem semelhan√ßas entre Biko e Stokely Carmichael em termos de organizar os alunos inicialmente usando t√°ticas n√£o-violentas, mas depois se tornando militantes e afirmando a negritude ou “reivindicando a negritude” como Stokely chamaria. Ao mesmo tempo, Malcolm X tamb√©m estava na cena, alegando que a negritude era o oprimido, mas tamb√©m como o agente revolucion√°rio. Os trabalhadores tamb√©m estavam organizando.

Agindo como se nada existisse antes, durante ou depois de Biko √© uma falha na an√°lise. √Č importante enfatizar que ele emergiu em um per√≠odo em que uma fragmenta√ß√£o de id√©ias e erup√ß√Ķes ideol√≥gicas estavam ocorrendo em outros lugares e estes, por sua vez, informavam suas id√©ias.

A id√©ia de Biko de Consci√™ncia Negra, embora original no contexto da √Āfrica do Sul, era muito semelhante √†s id√©ias de Carmichael. Meu ponto √© que sou cr√≠tico daqueles que tentam higienizar essa hist√≥ria descontextualizando a progress√£o de suas id√©ias pol√≠ticas.

Tendo dito tudo isso, Biko foi um pensador muito importante cujas id√©ias foram adotadas por muitos movimentos. Suas id√©ias sobre a consci√™ncia negra foram importantes para focar o que o apartheid fez com a psique dos negros. Ele falou sobre a recupera√ß√£o da negritude, mas tamb√©m pensou em como n√≥s, como negros na √Āfrica do Sul, devemos nos relacionar com os negros e os indianos como os oprimidos. Ele enfatizou que, embora houvesse uma hierarquia de opress√£o racial, todos n√≥s precis√°vamos abordar o sistema como um coletivo oprimido.

A consci√™ncia negra √© uma id√©ia que funciona melhor em um cen√°rio capitalista de supremacia racista. No entanto, sua interpreta√ß√£o hoje √© muito neoliberal. Voc√™ ouve falar de “excel√™ncia negra”, por exemplo, n√£o h√° nada de errado com isso, mas √© um conceito ligado a um enquadramento neoliberal que se concentra no indiv√≠duo. Tal abordagem n√£o ajudar√° a romper com o sistema, mas perpetua desigualdades, pois o capital, por natureza, produz essas desigualdades. Se voc√™ se v√™ como um indiv√≠duo focado em alcan√ßar a “excel√™ncia negra”, esquecendo-se de estruturas que produzem desigualdades, ent√£o voc√™ n√£o est√° ajudando a resolver o problema. Se tais vis√Ķes prevalecerem,

As solu√ß√Ķes de Biko para os problemas negros eram duas: a consci√™ncia negra e o empoderamento econ√īmico negro. A segunda parte √© muito enfatizada recentemente, vemos isso mesmo na agora popular “economia municipal” na √Āfrica do Sul, que √© fundamentalmente neoliberal em sua filosofia. O governo provincial no centro econ√īmico da √Āfrica do Sul procura incentivar a cultura empreendedora em v√°rios munic√≠pios. Por isso, quer apoiar as empresas negras. Essa ideia de crescimento dos neg√≥cios negros era parte da abordagem emancipat√≥ria de Biko. Biko queria criar mercados negros e expandir a propriedade de empresas negras. Uma vez uma id√©ia radical √© usada atualmente para justificar a forma√ß√£o de elite, especialmente entre indiv√≠duos politicamente conectados.

As ideias de Biko, embora radicais na √©poca, n√£o me entendem mal, apesar de jogarem nessa democracia burguesa em que nos encontramos, suas id√©ias eram radicais e importantes na √©poca, mas ele n√£o pensava muito em alternativas coesas que agora poderiam servir como contrap√Ķe-se a id√©ias neoliberais.

Quais das idéias de Biko são populares hoje entre os intelectuais sul-africanos?

Sua morte em 1977 provocou milit√Ęncia entre as pessoas, por exemplo, quando voc√™ pensa na insurg√™ncia dos anos 1980, acho que parte da coragem emergiu das id√©ias da Consci√™ncia Negra de recuperar a negritude. Seus pensamentos sobre como deve ser a liberdade negra, que tipo de mentalidade precisamos para alcan√ß√°-la e atrav√©s de quais m√©todos, ainda permeiam hoje atrav√©s de v√°rios movimentos sociais. Por exemplo, o movimento estudantil Fees Must Fall desencadeado em 2016 sobre est√°tuas que ainda perpetuam s√≠mbolos da inferioridade negra citou Biko extensivamente e suas vis√Ķes se manifestaram em suas demandas. Eles exigiram que as primeiras e mais importantes est√°tuas de pessoas como Cecil Rhodes tivessem que ir, o curr√≠culo deve mudar e deveria haver uma representa√ß√£o maior de intelectuais que se parecem conosco nos ensinando, por exemplo.

As pessoas ainda gravitam em torno de Biko hoje porque, quando voc√™ l√™ seu trabalho, pode se identificar com ele como uma pessoa negra. Mesmo n√£o sendo um tradicionalista que acreditava em culturas fixas, ele estava muito consciente do papel que normas e valores culturais desempenham para os africanos comuns em suas vidas cotidianas. Por exemplo, ele sabia que a religi√£o era importante para as pessoas e sua perspectiva espiritual foi al√©m do cristianismo e incorporou id√©ias de ancestrais. Ele falou sobre como a m√ļsica pode iluminar a alma ferida, ele aproveitou as experi√™ncias di√°rias para realizar o potencial da cultura cotidiana para radicalizar e galvanizar as pessoas para a a√ß√£o. Quando voc√™ o l√™, ele acende o esp√≠rito radical em voc√™ para dizer: ‘sim, n√≥s podemos lutar contra o sistema, sim, n√≥s temos o direito de lutar contra o sistema’. Mas depois disso, voc√™ precisa pensar em que tipo de mundo voc√™ quer substituir o sistema atual. Aqui √© onde estavam suas limita√ß√Ķes. Mas como uma luz para acender a a√ß√£o, ele era muito importante.

Quais são algumas das ideias mais populares entre os intelectuais sul-africanos hoje em relação ao caminho a seguir para o país?

Na academia, especialmente depois do movimento Fees Must Fall, a quest√£o mais popular √© a da descoloniza√ß√£o. Semin√°rio ap√≥s semin√°rio, confer√™ncia ap√≥s confer√™ncia e artigo ap√≥s artigo foram escritos sobre isso. A inspira√ß√£o principal vem da bolsa de estudos latino-americana enfatizando a necessidade de descolonizar, por exemplo, o sistema de conhecimento entre outras quest√Ķes estruturais mais amplas na √Āfrica do Sul, que s√£o inerentemente orientadas para o Ocidente e impregnadas de racismo. Esta √© a escola mais popular de pensamento hoje.

As id√©ias marxistas foram rejeitadas, como de fato Biko as rejeitou em seus dias. A liga√ß√£o entre classe e ra√ßa n√£o foi integral em nossa an√°lise, o marxismo n√£o conseguiu incorporar a ra√ßa na equa√ß√£o. Enquanto isso, quest√Ķes centradas em torno de nossa hist√≥ria e opress√£o s√£o muito importantes para as pessoas. As pessoas usam termos como “gatilhos” para se referir √† dor que nos foi infligida no passado e enfatizam que precisamos remediar isso. No entanto, o marxismo na √Āfrica do Sul √© incapaz de oferecer uma an√°lise de como uma hist√≥ria de opress√£o racial e ser negro enquadra como as pessoas se relacionam com v√°rias lutas al√©m da abordagem oper√°ria.

Os Combatentes da Liberdade Econ√īmica (EFF) de Julius Malema s√£o bastante populares hoje entre as classes trabalhadoras e alguns intelectuais negros. Isso se deve ao fracasso da ANC em mudar radicalmente a vida das pessoas nos munic√≠pios onde h√° enorme desemprego. Eu venho de uma cidade chamada Kagiso. Quando eu vou para casa, em um dia de semana, parece um fim de semana l√°, jovens homens e mulheres nas ruas sem emprego. H√° protestos praticamente ininterruptos, pessoas exigindo servi√ßos. Na d√©cada de 1990, as pessoas esperavam pacientemente pela mudan√ßa, mas, nos anos 2000, come√ßaram a perceber que isso n√£o estava acontecendo. Isso desencadeou alguns ataques xen√≥fobos, como os recentes, contra donos de lojas paquistanesas, que foram saqueados por pessoas que se queixavam de que estavam vendendo comida estragada. Os impostos aumentaram, o IVA foi aumentado em abril levando a aumentos acentuados nos pre√ßos dos alimentos. H√° tens√£o em todos os lugares.

Essa √© a crise em que estamos desde que Ramaphosa se tornou o presidente, apertando n√£o apenas os pobres, mas tamb√©m a classe m√©dia. Isso criou espa√ßo para a EFF, especialmente com Malema for√ßando a conversa sobre a corrida no f√≥rum p√ļblico. At√© ent√£o, a esquerda tinha ficado obcecada com a aula, enquanto a conversa sobre ra√ßa tinha sido silenciada. A esquerda concentrou-se nas estruturas econ√īmicas, negligenciando a manifesta√ß√£o cotidiana de ser negro. Eles sentiram falta dos sentimentos que os jovens tinham sobre n√£o ser apenas pobres, mas pobres e negros tamb√©m. Malema explorou isso muito bem. Ele tamb√©m usa a metodologia dos Black Panther Party, utilizando um modelo marxista-leninista de estruturas partid√°rias combinadas com elementos Fanonianos incorporando ra√ßa e tratando o indiv√≠duo racialmente oprimido como um sujeito revolucion√°rio. Novamente, isso remonta √†s id√©ias dos anos 60 antes e durante o per√≠odo ativista de Biko. Embora envolvidos em alguns esc√Ęndalos de corrup√ß√£o, a EFF tem atra√≠do jovens desempregados, principalmente homens, mas tamb√©m algumas pessoas de classe m√©dia que experimentaram racismo nas corpora√ß√Ķes em que trabalham, que ainda s√£o em grande parte propriedade de pessoas brancas. Alguns intelectuais negros tamb√©m foram atra√≠dos para a EFF.

No entanto, muitos dos protestos nas ruas exigindo servi√ßos b√°sicos como √°gua e eletricidade n√£o s√£o organizados por nenhum partido pol√≠tico ou movimento, eles n√£o t√™m pol√≠ticas espec√≠ficas, eles simplesmente querem servi√ßos. Os novos movimentos estudantis, enquanto isso, n√£o est√£o apenas usando o Biko como um s√≠mbolo, mas tamb√©m desafiando a din√Ęmica de g√™nero, as ideias de feminismo se tornaram um debate fundamental nas lutas com o poder e o patriarcado. As mulheres est√£o protestando contra a viol√™ncia dom√©stica e o patriarcado, mais uma vez nos levando de volta √†s id√©ias dos anos 1960, que est√£o voltando de maneiras diferentes. Em geral, id√©ias revolucion√°rias sobre ra√ßa e g√™nero que remontam aos anos 50 e 60 est√£o retornando, a √ļnica diferen√ßa √© que elas est√£o emergindo hoje em forma e estilo modernos, especialmente com a prolifera√ß√£o de m√≠dias sociais que podem ser usadas para espalhar uma mensagem muito rapidamente.

Existe alguma parte que, na sua opini√£o, se eles chegaram ao poder, seria melhor implantar esse poder para a melhoria das pessoas? Voc√™ mencionou a EFF de uma forma bastante positiva, mas disse que eles tamb√©m foram implicados em esc√Ęndalos de corrup√ß√£o. Com base em que voc√™ os associa a quaisquer esperan√ßas de mudan√ßa positiva para os sul-africanos oprimidos? Como voc√™ sabe, a hist√≥ria est√° repleta de exemplos, muitos na √Āfrica, infelizmente, de pessoas subindo ao poder com o apoio de todos os tipos de slogans igualit√°rios, apenas para se empanturrarem com os recursos do estado quando chegarem l√°.

Bem, quais s√£o as op√ß√Ķes? Existe a Alian√ßa Democr√°tica, que √© um partido muito liberal, ent√£o voc√™ tem a garantia de um conjunto de pol√≠ticas econ√īmicas liberais se elas chegarem ao poder. Al√©m disso, eles parecem n√£o dar √™nfase √† nossa hist√≥ria e n√£o reconhecem as cicatrizes psicol√≥gicas que o apartheid deixou nos negros. Ideologicamente, esta n√£o √© uma op√ß√£o vi√°vel para mim. Ent√£o voc√™ tem o ANC e o EFF. A EFF quer o capitalismo de estado. Eles devem ser entendidos como uma parte que resta do ANC, n√£o aquela de esquerda que voc√™ entende, mas simplesmente deixada do ANC. Eu votarei neles. N√£o porque eu acredite que eles, ou qualquer outra parte, possam emancipar a classe trabalhadora. N√£o, a classe trabalhadora precisa encontrar a ag√™ncia em si para lutar por si mesma.

Nenhum pol√≠tico ou partido pol√≠tico salvar√° a classe trabalhadora ou os pobres, n√£o sejamos delirantes. Para mim, a esperan√ßa √© que a classe trabalhadora se organize e lute por si mesma. A EFF quer o capitalismo de estado e isso pode acontecer de duas maneiras, como mostra a hist√≥ria. Pode se tornar muito autorit√°rio ou focar na constru√ß√£o de novas formas de elites. A EFF √© importante para os debates entre as ra√ßas, mas n√£o acredito ingenuamente que eles ser√£o nossos salvadores. Como sempre, a classe trabalhadora continuar√° tentando novos partidos, esperando algo melhor. Mas apenas sua milit√Ęncia pode for√ßar a mudan√ßa. A EFF √© filha do ANC e n√£o pode romper com os elos corruptos do ANC.

Qual seria ent√£o o valor agregado da EFF para os sul-africanos regulares se um dia eles ganhassem poder?

Se eles chegarem ao poder, √© claro que haver√° reformas, eles n√£o seriam capazes de simplesmente governar de uma maneira normal. Eles teriam que fazer concess√Ķes aos pobres. A quest√£o da terra seria abordada, a terra se tornaria estatal. Com rela√ß√£o aos principais setores financeiros, como a minera√ß√£o, eles est√£o atualmente tentando propagar um sistema de propriedade de tr√™s vias, no qual o Estado teria, digamos, 50% de uma mina, a comunidade 10% e o restante seria privatizado. Eles querem mostrar que est√£o prontos para negociar com ele e, ao mesmo tempo, tentar sustentar sua imagem radical.

Mas eles abriram um espa√ßo no debate, encorajaram as pessoas a acreditarem que t√™m o direito de pressionar. Sei que a milit√Ęncia com a qual eles vieram n√£o pode ser sustentada se eles ganharem poder. Se vencerem, haver√° algumas grandes reformas, mas haveria contradi√ß√Ķes tamb√©m, sem d√ļvida. E sim, h√° o perigo de tend√™ncias ditatoriais neles. Esse √© o risco envolvido com eles. No entanto, eu ainda acho que a classe trabalhadora deve votar para o EFF exigindo algumas reformas espec√≠ficas.

Então, basicamente você aceita que eles são um risco, mas acha que eles são um risco que vale a pena correr?

Sim eu quero. Al√©m disso, uma quest√£o importante que merece cr√©dito por adotar a agenda tamb√©m √© a da reforma agr√°ria, a id√©ia da expropria√ß√£o de terras sem compensa√ß√£o. Embora tenha havido v√°rios movimentos de sem-terra nos anos 2000, a EFF encorajou essa demanda e agora o parlamento aprovou uma resolu√ß√£o para emendar a constitui√ß√£o que permite a desapropria√ß√£o de terras sem compensa√ß√£o. No entanto, neste momento, est√£o em andamento consultas p√ļblicas, que devem terminar com um relat√≥rio at√© o final de setembro.

Se o presidente Ramaphosa eventualmente assina essa emenda em lei, existe algum plano para como exatamente esse processo seria?

N√£o, neste momento n√£o houve nenhum debate sobre quem conseguiria o qu√™ e com que base. Os pol√≠ticos s√£o simplesmente apanhados na milit√Ęncia das pessoas que est√£o exigindo reformas. Toda essa quest√£o da terra tamb√©m reflete id√©ias popularizadas por Biko anos atr√°s. Al√©m do desejo f√≠sico que as pessoas t√™m de recuperar suas terras, isso tamb√©m faz parte de um reconhecimento psicol√≥gico de que esta √© a sua terra.. O planejamento de nossas cidades hoje ainda √© o mesmo que era sob o apartheid, com os desenvolvedores capazes de manter certas √°reas exclusivamente ricas e brancas. Ou mesmo nas √°reas rurais, voc√™ tem uma situa√ß√£o em que todas as melhores terras agr√≠colas s√£o de propriedade dos brancos, ent√£o eles s√£o os fazendeiros, enquanto os negros s√£o simples residentes da aldeia com alguns negros que conseguiram dividir seu espa√ßo no setor agr√≠cola. As pessoas agora est√£o imaginando um tipo diferente de espa√ßo; um tipo diferente de √Āfrica do Sul e pol√≠ticos est√£o correndo para responder porque querem votos. Mas a discuss√£o sobre quem obter√° o qu√™ e se esse processo realmente fortalecer√° os sul-africanos mais pobres ainda n√£o foi iniciado.

Mosa Phadi concluiu seu doutorado na Universidade de Joanesburgo em 2017. Ela trabalhou durante anos em quest√Ķes raciais e de classe, incluindo dois relat√≥rios inovadores sobre os munic√≠pios locais de Mogalakwena e Lephalale. Ela trabalha como pesquisadora h√° mais de seis anos, publicou artigos revisados por pares e produziu um document√°rio de pesquisa com foco na ideia de classe m√©dia em Soweto.

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Publicado no site¬†ROAPE 12, de setembro, 2018¬†Compreendendo Steve Biko: ra√ßa, classe e luta na √Āfrica do Sul

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A Consciência Negra e a Busca de uma Verdadeira Humanidade РBantu Stephen Biko

Bantu Stephen Biko. A consci√™ncia negra e a busca de uma verdadeira humanidade. In: Escrevo o que eu quero: uma Sele√ß√£o dos principais textos do l√≠der negro Esteve Biko. Trad. Grupo S√£o Domingos. S√£o Paulo: √Ātica, 1990. 184pgs

Steve Biko

Talvez seja conveniente come√ßar examinando por que √© preciso pensarmos coletivamente sobre um problema que nunca criamos. Ao fazer isso, n√£o quero me ocupar desnecessariamente com as pessoas brancas da √Āfrica do Sul, mas para conseguir as respostas certas precisamos fazer as perguntas certas; temos de descobrir o que deu errado – onde e quando; e precisamos verificar se nossa situa√ß√£o √© uma cria√ß√£o deliberada de Deus ou uma inven√ß√£o artificial da verdade por indiv√≠duos √°vidos pelo poder, cuja motiva√ß√£o √© a autoridade, a seguran√ßa, a riqueza e o conforto. Em outras palavras, a abordagem da Consci√™ncia Negra seria irrelevante numa sociedade igualit√°ria, sem distin√ß√£o de cor e sem explora√ß√£o…

Acesse aqui o texto na íntegra:

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