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Biji Kritik Rojava: crítica radical e solidariedade contra a barbárie das guerras de reordenamento mundial

 

Pr√≥logo: este texto foi escrito no contexto espec√≠fico de 2016, quando comit√™s de solidariedade a Rojava come√ßaram a se estabelecer ao redor do mundo, e acenderam o tema no circuito militante de internet, onde dispararam debates se Rojava seria revolucion√°ria ou n√£o. Essa √© ao mesmo tempo uma resposta a tudo isso, e tamb√©m uma autocr√≠tica, pelo p√Ęnico de fazer apologia espetacular a uma guerra alhures, e reflete a busca por outro sentido poss√≠vel para a solidariedade internacional.

‚ÄúSolo la violencia de lo viviente es revolucion√°ria‚ÄĚ
Raoul Vaneigem ‚Äď Por una internacional del g√©nero humano

 

Um: sobre entender Rojava para além do espetáculo

Uma rede internacional de comit√™s de solidariedade √† resist√™ncia curda vem se estabelecendo no mundo inteiro, impulsionada pela tradi√ß√£o da pr√°tica militante e funcionando basicamente como¬†bureaux¬†de propaganda do programa pol√≠tico de Rojava. Quem escreve este texto participou ativamente de um destes comit√™s no √ļltimo ano (2016), movida por motivos que atravessam um campo extenso de idea√ß√Ķes: de uma articula√ß√£o pol√≠tica internacionalista; de uma auto-organiza√ß√£o da vida cotidiana via assembleias de base, de bairro, comunas; da posi√ß√£o das mulheres n√£o s√≥ nos frontes de batalha, mas √† frente da sociedade, em pleno Oriente M√©dio; da hist√≥ria de d√©cadas de guerrilha nas montanhas; da sobreviv√™ncia de povos origin√°rios sob os Imp√©rios de todos os s√©culos; do cultivo de l√≠nguas proibidas e da dan√ßa em volta do fogo; dos mitos da antiga Mesopot√Ęmia; da hist√≥ria heroica da esquerda na Turquia; da resist√™ncia √†s novas faces do fascismo; de uma¬†democracia sem Estado¬†que nasce de um Estado arruinado pela guerra civil; da no√ß√£o de que neste tempo presente, em que tudo por toda parte parece avan√ßar rumo √†s ru√≠nas, h√°, em algum lugar do mundo, uma¬†revolu√ß√£o¬†posta em curso.

Mas Rojava √© uma zona de guerra, se encontra toda cercada e s√≥ pode ser conhecida em larga escala via o acesso remoto pela rede mundial de computadores. Assim se apresenta ao planeta como lugar¬†presente-ausente¬†no dom√≠nio global das imagens difusas: a internet. P√°ginas e perfis¬†online¬†p√Ķem em circula√ß√£o uma profus√£o de fotos de garotas empunhando suas¬†kalashnikovs¬†fardadas com lindos len√ßos e tran√ßas, montagens de paisagens montanhosas em cores contrastadas s√£o sobrepostas ao retrato sorridente de Abdullah √Ėcalan, v√≠deos de combatentes¬†peshmergas¬†ostentando cad√°veres do Daesh, reportagens de todo o tipo, panfletos, manifesta√ß√Ķes p√ļblicas de apoio‚Ķ a dita¬†revolu√ß√£o curda¬†lan√ßada ao mundo por compartilhamentos muitas vezes sem qualquer discernimento quanto ao conte√ļdo. Tal difus√£o se d√° sobretudo pelo trabalho de propaganda militante, ou at√© diletante, e mais demonstram o repert√≥rio de um fasc√≠nio est√©tico e f√© pol√≠tica do que a pr√≥pria realidade no terreno, que se apresenta aos nossos olhos sob uma nuvem de mistifica√ß√£o. No entanto, nem tudo o que circula √© necessariamente tosco, e como qualquer outro acesso a uma realidade distante, entender Rojava exige uma pesquisa cuidadosa. E mesmo as imagens mais ins√≥litas revelam algo de relevante sobre a guerra na nossa √©poca: como, nesta era do capital fict√≠cio, a internet se constitui enquanto base material da guerra na S√≠ria. Tal especula√ß√£o virtual da trag√©dia n√£o apenas produz conte√ļdo pesado para o mercado de dados da web (aquece a economia de cliques), como √© inclusive respons√°vel por arregimentar boa parte dos contingentes em campo e atrair investimentos para todos os lados. O espet√°culo do colapso elevado ao¬†level hard.

De qualquer modo, Rojava existe. E aparece ao mundo como representa√ß√£o de¬†um outro poss√≠vel¬†posto diante do estado de emerg√™ncia em que este se encontra hoje. Revolucion√°rio ou n√£o (este √© o tema quente de extensos debates nas p√°ginas pol√≠ticas), estamos falando de um¬†processo de forma√ß√£o social e territorial¬†hist√≥rico sem precedentes, que emerge no¬†epicentro da guerra mundial¬†da nossa √©poca. E √© claro que, entre o combate a inimigos reais em campo e o ataque √†¬†totalitariedade¬†do Estado ou √†s abstra√ß√Ķes concretas do capital, p√Ķem-se infinitos conflitos. Tamb√©m a solidariedade internacional, assim como as cr√≠ticas feitas por entidades estrangeiras cont√™m contradi√ß√Ķes. No limite deste texto, tecido a partir de afetos e atritos vividos no interior do militantismo anarquista de S√£o Paulo, a defesa aqui feita √© de que¬†as utopias t√™m sua import√Ęncia; assim como tem import√Ęncia a cr√≠tica radical √† realidade tal como esta est√° dada.

Dois: não se engane com a geopolítica

A emerg√™ncia hist√≥rica de Rojava enquanto regi√£o aut√īnoma (autodeclarada¬†Federa√ß√£o do Norte da S√≠ria) diz respeito a uma¬†territorialidade formada na e pela guerra. Mas n√£o uma guerra qualquer (sem reduzir ‚Äúqualquer guerra‚ÄĚ a uma ‚Äúguerra qualquer‚ÄĚ), sen√£o √† protagonista das¬†guerras de reordenamento mundial¬†desta √©poca ‚Äď a guerra civil na S√≠ria. Partir a an√°lise por este pressuposto, com base no atual est√°gio do desenvolvimento capitalista, j√° atrita com v√°rias perspectivas sobre a situa√ß√£o, sobretudo porque sabota concep√ß√Ķes cl√°ssicas de¬†imperialismo e revolu√ß√£o.

A come√ßar por recusar o modo mais vulgar de se ler uma guerra, personificando os Estados como ‚Äúsujeitos‚ÄĚ voluntariosos e plenos de poderes: como¬†players¬†num tabuleiro de¬†War. Vista dessa maneira, a no√ß√£o de¬†viol√™ncia¬†se personifica nas figuras de Assad, Putin, Obama, Erdogan, √Ėcalan e os acontecimentos parecem redundar na vontade e atitude de entidades pol√≠ticas identificadas por siglas (ISIS/PKK/AKP/YPJ/YPG/PYD/ETC). √Ȭ†√≥bvio¬†que guerra tem estrat√©gia estatal, e que chefes de Estado, partidos, organiza√ß√Ķes, desempenham os papeis que lhes cabem no jogo, com todo o teatro diplom√°tico envolvido e as negocia√ß√Ķes por debaixo do pano. Mas nem tudo opera nesta escala de cartadas geopol√≠ticas: h√° uma l√≥gica abstrata e diversas conting√™ncias concretas movendo o processo. As ci√™ncias pol√≠ticas que analisam e organizam as pr√°ticas pol√≠ticas em geral n√£o avan√ßam pelo terreno das cr√≠ticas do¬†valor¬†e da¬†vida cotidiana. S√£o justamente estes os frontes desta an√°lise.

Três: a guerra na época do capital fictício

As condi√ß√Ķes da guerra, por sua vez, n√£o s√£o uma constante trans-hist√≥rica: n√£o h√° fundamento antropol√≥gico que d√™ conta de entender o que de concreto move um a matar ao outro em massa. Cada guerra se determina em particular pelas estruturas sociais dadas a cada lugar e √©poca, ligadas ao desenvolvimento geral da sociedade. Assim as guerras de hoje n√£o seguem aquelas entre Imp√©rios da primeira metade do s√©culo XX, nem √†s guerras regionais entre Estados dependentes das superpot√™ncias da segunda metade, nem as dos s√©culos anteriores, mas, sim, t√™m a ver com as circunst√Ęncias gerais da nossa √©poca ‚Äď marcada pela queda do¬†Centro Mundial de Trocas¬†(a.k.a.¬†WTC 11.9.01), atacado por¬†atores invis√≠veis¬†(a m√°scara do terrorismo), o ato inaugural do s√©culo XXI.

H√° uma ruptura substancial entre as guerras de antes e as de hoje. Se at√© o quase final do s√©culo XX as guerras operavam como motor √† explos√£o do imperialismo, para a expans√£o for√ßada de fronteiras e domina√ß√£o colonial de territ√≥rios, incorporando a tudo e a todos ao sistema mundial produtor de mercadorias, esse mesmo processo violento ainda avan√ßa ‚Äď pois a moderniza√ß√£o √© irrevers√≠vel ‚Äď mas agora opera ao rev√©s. Depois de ter for√ßado a socializa√ß√£o capitalista (baseada no trabalho abstrato) at√© os √ļltimos rinc√Ķes do planeta, o capital global entra em crise de valoriza√ß√£o (ou seria colapso) e deixa zonas imensas em desola√ß√£o econ√īmica. E o que acontece nestes lugares de rela√ß√Ķes sociais mediadas pelo dinheiro que se veem num deserto financeiro? Estados desmoronados, deslocamentos for√ßados, guerra civil. Com o avan√ßo acelerado da terceira revolu√ß√£o industrial, as especula√ß√Ķes estratosf√©ricas e as crises de hiperacumula√ß√£o, o poder mundial n√£o opera mais para incorporar ‚Äúrecursos‚ÄĚ √† reprodu√ß√£o ampliada do capital¬†porque tal capacidade se esgotou como se previa, sem ter engendrado sua pr√≥pria supera√ß√£o como se esperava. As novas guerras explodem ent√£o para a¬†exclus√£o de excedentes do sistema, pois interessa ao rearranjo do ordenamento mundial capitalista a¬†destrui√ß√£o de estruturas e o exterm√≠nio de gente cuja exist√™ncia, do ponto de vista da valoriza√ß√£o capitalista, corresponde a um entrave.

Enquanto o capital financeiro transnacional acumulado por certos ‚Äúagentes‚ÄĚ banca a barb√°rie, a posi√ß√£o das velhas pot√™ncias mundiais √© permitir, a princ√≠pio, que¬†‚Äúeles se matem‚ÄĚ; e fornecem at√© for√ßas e armas para tanto, como se fosse uma ‚Äúguerra normal‚ÄĚ de manuten√ß√£o do¬†status quo. Mas ao deflagrarem a maior ‚Äúcrise humanit√°ria desde a segunda guerra mundial‚ÄĚ (noticiada assim pela m√≠dia como se a ‚Äúvida normal‚ÄĚ nessa sociedade j√° n√£o fosse ‚Äúcrise humanit√°ria‚ÄĚ), ent√£o agem para lidar com os res√≠duos da cat√°strofe que produziram alhures. Assim, do controle da barb√°rie, passa-se √† barb√°rie do controle: rea√ß√Ķes nacionalistas, radicaliza√ß√£o do racismo, aumento do policiamento, recrudescimento das fronteiras, agravamento das condi√ß√Ķes de vida, genoc√≠dio. N√£o √© a toa que a situa√ß√£o seja vista como atualiza√ß√£o do fascismo ‚Äď mas o ponto √© que este agora n√£o opera mais sob o fundamento de expans√£o da economia nacional¬†pois j√° n√£o se pode mais explorar produtivamente os dominados. Diferente de outras √©pocas, as migra√ß√Ķes massivas n√£o se d√£o mais pela¬†mobilidade do trabalho¬†(como era a hist√≥ria dos escravizados, dos proletarizados, ou mesmo daqueles que se aburguesavam alhures), mas pelo imperativo da¬†mobiliza√ß√£o pela trag√©dia¬†‚Äď e isso √© not√°vel nas narrativas das pr√≥prias sagas pessoais sobre o abandono de tudo que se tinha, sobre a travessia de mares e desertos, que se d√£o n√£o ‚Äúpor emprego‚ÄĚ, sen√£o pelo desespero de¬†poder continuar a existir. Aqueles que, neste horizonte, conseguem ser explorados pelo trabalho chegam a parecer ter sorte. Cada uma dessas trag√©dias particulares √© quantificada pelos Estados enquanto custo de gest√£o populacional. No fascismo do capital fict√≠cio, refugiados s√£o tratados como¬†commodities¬†humanas escoadas num mercado mundial em crise. As ‚Äúsa√≠das pol√≠ticas‚ÄĚ aparecem¬†sempre provis√≥rias, assim como as medidas improvisadas v√£o virando permanentes. Os governos estendem¬†ad eternum¬†o estado de emerg√™ncia: j√° n√£o podem prometer nada sen√£o o parcelamento da cat√°strofe a cr√©dito e com juros.

Quatro: Economia e Política, modelos em guerra

A guerra civil da S√≠ria expressa radicalmente os conte√ļdos deste tipo espec√≠fico de guerra do¬†colapso da moderniza√ß√£o. Foi disparada pela insurg√™ncia popular num contexto de crise pol√≠tica e econ√īmica, esmagada por um governo que atacou a pr√≥pria popula√ß√£o justamente por n√£o poder defender sua administra√ß√£o da estrutura estatal. Vista do campo, acontece mais como um caos generalizado de centenas de mil√≠cias que se enfrentam em coaliz√Ķes cambiantes, formadas por pequenos poderes armados (de v√°rias ordens: os comandantes podem ser¬†sheiks, gangsters, burgueses, chefes tribais, l√≠deres comunit√°rios‚Ķ os combatentes, em geral, prolet√°rios), bancadas pelo capital financeiro estrangeiro (magnatas do petr√≥leo, empres√°rios de armas, h√° uma diversidade enorme de investidores interessados), e que, portanto, n√£o s√£o apenas inimigas no fronte, como tamb√©m empresas concorrentes na disputa por investimento. Se no in√≠cio do ‚Äúconflito‚ÄĚ uma √ļnica bala de AK-47 podia custar at√© dois d√≥lares, quanto n√£o custa esta guerra cinco anos depois?

Ponto fundamental para entender a guerra no capitalismo: n√£o s√£o os mortos que contam para os ‚Äúacordos de paz‚ÄĚ. Controlar √°reas militarmente implica em assumir a gest√£o dos lugares que se ocupa. Em regi√Ķes aut√īnomas em rela√ß√£o ao Estado (sejam zonas rebeldes, Rojava ou o Califado), os grupos armados t√™m seus bra√ßos pol√≠ticos (ou seria o contr√°rio?), j√° que nessas condi√ß√Ķes a ordem social s√≥ existe enquanto posse da viol√™ncia. N√£o √† toa, as primeiras institui√ß√Ķes civis que se estabelecem em √°reas auto-administradas s√£o a Pol√≠cia e a Justi√ßa. Mas no plano das necessidades radicais, cabe √† popula√ß√£o em geral dar conta da manuten√ß√£o da pr√≥pria vida. √Č a√≠ que se estabelece a¬†autogest√£o da sobreviv√™ncia¬†numa sociedade em ru√≠nas.

O¬†Confederalismo Democr√°tico¬†‚Äď modelo autogestion√°rio que corresponde ao estatuto revolucion√°rio de Rojava, que basicamente organiza a sociedade em n√≠veis escalares partindo da base, e exige m√°xima representatividade da popula√ß√£o nas esferas especializadas da pol√≠tica ‚Äď proporciona a uma sociedade sob condi√ß√Ķes cr√≠ticas de reprodu√ß√£o (com a capacidade produtiva praticamente arruinada e desequipada de toda a velha infraestrutura estatal) n√£o apenas um funcionamento relativamente eficiente para a manuten√ß√£o do territ√≥rio, como rearranja de modo bastante relevante a ordem social existente. √Č evidente tamb√©m que, por toda parte onde a guerra se estabelece, a ordem social existente necessariamente se rearranja de maneira substantiva. Mas diferente do modo b√°rbaro como a gest√£o do territ√≥rio se estabelece em outras partes da S√≠ria (como adjetivar a administra√ß√£o do¬†Daesh?), o modelo em vigor em Rojava foi montado pelo Partido a partir de um repert√≥rio extenso de gest√Ķes da esquerda no √ļltimo s√©culo, compondo num √ļnico mecanismo uma miscel√Ęnea de elementos do anarquismo e do socialismo, tanto quanto da social-democracia e da antiga ordem feudal, tem forte influ√™ncia do movimento feminista ocidental, incorpora novas ondas capitalistas como a ‚Äúeconomia solid√°ria‚ÄĚ, al√©m de tentar introduzir t√©cnicas ecol√≥gicas para a produ√ß√£o em geral, enquanto queima petr√≥leo para produzir energia el√©trica e prover a popula√ß√£o de necessidades b√°sicas.

Aos que adoram os consensos da pr√°xis de esquerda, esse soa um modelo quase ut√≥pico, o consomem como id√≠lio ideol√≥gico. J√° √†queles te√≥ricos da cr√≠tica que apontam afoitos na internet as incongru√™ncias entre o ‚Äúprojeto libert√°rio‚ÄĚ de Rojava e suas ‚Äúpr√°ticas autorit√°rias‚ÄĚ, √© preciso dizer a eles que esse atrito entre um modelo de sociedade e a exist√™ncia contradit√≥ria de uma sociabilidade, bem‚Ķ esse n√£o √© um problema exclusivo dos ‚Äúmals revolucion√°rios curdos‚ÄĚ: mas da¬†Pol√≠tica, no sentido de esfera especializada em administrar o cotidiano. O verdadeiro problema da m√°quina¬†democr√°tica n√£o-estatal¬†montada em Rojava se encontra neste fundamento, e n√£o nas especificidades do seu ‚Äúbom‚ÄĚ ou ‚Äúmal‚ÄĚ funcionamento, que n√£o passam de contradi√ß√Ķes incondicionais. Em todo caso, as cr√≠ticas ao processo concreto s√£o necess√°rias, mas sendo cuidadosas em considerar as conting√™ncias. J√° no campo da¬†Economia, avisem aos cr√≠ticos que a declara√ß√£o de autonomia de um territ√≥rio n√£o significa sua autonomiza√ß√£o do planeta. Dado o grau de devasta√ß√£o das estruturas f√≠sicas do territ√≥rio, trocas precisam ser negociadas para garantir o m√≠nimo de abastecimento para a popula√ß√£o, e n√£o h√° troca que se fa√ßa nesse mundo sem a media√ß√£o do dinheiro. Que Rojava esteja assentada sobre uma bacia de petr√≥leo pode ser vista como sorte para uns ou azar para outros, o que importa √©: comercializam¬†porque precisam. Sobre a manuten√ß√£o da propriedade privada, outro t√≥pico que os analistas estrangeiros de Rojava n√£o param de p√īr em pauta, sabe-se que esta √© uma quest√£o de embate nos conselhos, e √©, ali√°s, uma discuss√£o elementar a ser feita n√£o s√≥ do ponto de vista das teorias socialistas, mas porque repercutem imediatamente nas determina√ß√Ķes pr√°ticas da vida. Mas tamb√©m √© importante lembrar que, no limite da an√°lise, todos os modelos locais que aparecem como alternativos, o cooperativismo por exemplo, ainda s√£o categoricamente capitalistas. Ent√£o para reiterar o √≥bvio aos peritos cr√≠ticos da revolu√ß√£o dos outros: √© imposs√≠vel abolir a forma-mercadoria num contexto isolado ‚Äď mas isso tamb√©m nunca esteve no programa de Rojava.

Cinco: as histórias de vitória curda

Certamente, as vit√≥rias das for√ßas curdas (a impressionante batalha de Kobane) e a consequente conquista territorial para a autodeclarada Federa√ß√£o do Norte da S√≠ria t√™m a ver com a hist√≥ria de organiza√ß√£o pol√≠tica militar do PKK e a experi√™ncia de d√©cadas de guerrilha contra os ex√©rcitos de todos os Estados nacionais que dominam o Curdist√£o; um repert√≥rio estrat√©gico bastante avan√ßado ali√°s, considerando a conjuntura desta guerra confusa. Tamb√©m √© claro que o sucesso de suas campanhas n√£o se deve s√≥ a uma ‚Äúcultura curda de intelig√™ncia b√©lica‚ÄĚ, muito menos ao armamento sovi√©tico velho recuperado do Afeganist√£o, sen√£o ao forte suporte norte-americano e ao apoio de outros pa√≠ses ao PYD/YPG/YPJ. Apontar tal posi√ß√£o t√°tica e diplom√°tica como incoerente para uma ‚Äúluta verdadeiramente revolucion√°ria‚ÄĚ √© uma cr√≠tica comum feita √†s mil√≠cias populares curdas, feita por aqueles que ignoram o quadro de necessidades reais extremas para que uma defesa seja poss√≠vel naquele contexto. A perversidade est√° em exigir ao Outro, que no limite luta pela sobreviv√™ncia, que resista √† guerra numa posi√ß√£o livre de contradi√ß√Ķes. Claro que √© fundamental chamar aten√ß√£o para as execu√ß√Ķes e coer√ß√Ķes historicamente promovidas pelo movimento curdo, porque flagra a incoer√™ncia dos princ√≠pios √©ticos e desmonta em p√ļblico a ideologia dos discursos. Mas as insistentes acusa√ß√Ķes de viola√ß√£o aos direitos humanos que s√£o dirigidas aos partidos socialistas curdos, em sua maioria n√£o dialetizam a viol√™ncia inerente a um processo social conduzido sob a ordem mundial do Estado, do Capital e do Patriarcado, e sim afirmam a ideologia burguesa da n√£o-viol√™ncia que reitera tal ordem, reivindicando seu c√≥digo moral.

Seis: essencialismo e status revolucion√°rio

Sem botar sobre Rojava o peso te√≥rico, seja socialista ut√≥pico ou cient√≠fico, do termo¬†revolucion√°rio, d√° ao menos para ver seu processo como¬†estament√°rio: no sentido de organiza√ß√£o da sociedade civil posta em dire√ß√£o √† consolida√ß√£o de um novo tipo de estrutura social geral, que todavia n√£o se estabeleceu. Enquanto momento hist√≥rico, o¬†processo de forma√ß√£o¬†move a sociedade pela virtualidade, apontando v√°rias formas de organiza√ß√£o poss√≠veis que v√£o, com a vida em curso, se instituindo ou n√£o. Se pode parecer imposs√≠vel existir um territ√≥rio sem fronteiras r√≠gidas ou uma arquitetura pol√≠tica sem Estado, √© porque a forma Estado passou historicamente por um processo estament√°rio e se consolidou como forma absoluta da sociedade moderna. Mas com a moderniza√ß√£o em colapso, vemos algo novo a√≠ surgindo. Em Rojava como em diversas outras territorialidades contempor√Ęneas, a auto-organiza√ß√£o social numa por√ß√£o de territ√≥rio n√£o destitui imediatamente a exist√™ncia do Estado que o domina, mas o prescinde enquanto mecanismo organizativo. Isso n√£o necessariamente aponta para a supera√ß√£o hist√≥rica do Estado, muito menos se refere a uma ‚ÄúZona Aut√īnoma Tempor√°ria‚ÄĚ; trata-se, antes de mais nada, de outra forma√ß√£o social tornada poss√≠vel dada a plasticidade da ordem mundial em crise, e aos imperativos de rearranjo do sistema global capitalista.

De qualquer modo, a condi√ß√£o insanamente negativa de um processo de forma√ß√£o social conduzido sob a barb√°rie s√≥ pode destituir a ideia positivista da exist√™ncia de um sujeito hist√≥rico revolucion√°rio. A compreens√£o de que a hist√≥ria √© feita por um corpo social organizado (cabe aqui uma mir√≠ade de formas e identidades poss√≠veis), que conscientemente domina (seja pela ‚Äúteoria social verdadeira‚ÄĚ ou pelo tal ‚Äúac√ļmulo de experi√™ncias‚ÄĚ que a milit√Ęncia sempre clama) a um processo social posto em curso, projetando nele seu devir como se fosse um ‚Äúprograma‚Ä̂Ķ esta ideia se mostrou uma ilus√£o, ainda mais depois do √ļltimo s√©culo, quando aconteceram enfrentamentos aut√™nticos por toda parte, sem terem, contudo, alcan√ßado mais do que ‚Äúmeias-revolu√ß√Ķes‚ÄĚ (arranques de melhorias reais limitadas a certos √Ęmbitos da vida social ‚Äst‚Äúpartout des r√©volutionnaires, mais la R√©volution nulle part‚Ä̬†‚ÄstI.S. n¬ļ10, 1965). Isso s√≥ demonstra o quanto as teorias e as pr√°xis pol√≠ticas em geral n√£o escapam √† velha metaf√≠sica do sujeito da Raz√£o iluminista, a mesma que fundou o Estado moderno e anima o capitalismo h√° s√©culos, agora mais do que nunca sob os signos da ‚Äúadministra√ß√£o‚ÄĚ e ‚Äúgest√£o social‚ÄĚ (‚Äúplanejamento‚ÄĚ e ‚Äúurbanismo‚ÄĚ inclusos).

Neste ponto, pode-se admitir que quase todo o debate sobre o status¬†verdadeiro¬†ou¬†falso¬†da revolu√ß√£o de Rojava feito entre anarco-apologetas e cr√≠ticos marxistas c√≠nicos continua acontecendo no plano do pensamento cartesiano, e reitera uma ideia fetichista de revolu√ß√£o. E no fim das contas, este tamb√©m se demonstra um falso problema: porque as formula√ß√Ķes abstratas do que √© ou n√£o revolu√ß√£o desconsidera as implica√ß√Ķes concretas do ela representa para quem move (contraditoriamente) o processo.

Em¬†Guerra e Paz no Curdist√£o, √Ėcalan elabora uma tese da identidade curda com um¬†ethos essencialmente revolucion√°rio. Ele se baseia nos trabalhos acad√™micos de intelectuais de esquerda da Turquia nos anos 70, comprometidos com a constru√ß√£o pol√≠tica de uma identidade nacional curda para a funda√ß√£o de um Estado socialista na regi√£o, e defende que a etnia curda √© aut√≥ctone da Mesopot√Ęmia e descende da primeira civiliza√ß√£o, respons√°vel pela¬†revolu√ß√£o neol√≠tica; tamb√©m, veja bem o determinismo geogr√°fico, que pela conforma√ß√£o de seu territ√≥rio (sobre a cordilheira Zagros-Taurus), os curdos (etimologicamente os¬†kurtis, povos das montanhas) seriam¬†essencialmente guerrilheiros. J√° a¬†jinealogia, a ci√™ncia espec√≠fica das mulheres desenvolvida nas √ļltimas d√©cadas pelas academias de mulheres curdas, tamb√©m se estabelece¬†naturalizando¬†o poder que estas v√™m conquistando na sociedade ao longo de uma hist√≥ria de luta muito dura. Se hoje as mulheres ocupam papel central na forma√ß√£o social de Rojava, isso definitivamente n√£o se deu por conta de uma ‚Äúnatureza feminina‚ÄĚ, nem a convite de um l√≠der homem iluminado, mas porque elas foram armadas pelas necessidades da guerra, ganharam for√ßa nas revoltas populares e for√ßaram sua maior participa√ß√£o ao longo do processo, como protagonistas da luta contra suas pr√≥prias opress√Ķes. Ou seja, por mais que essa ontologia toda sirva de discurso ideol√≥gico, o tal ‚Äúesp√≠rito revolucion√°rio‚ÄĚ curdo diz respeito √† hist√≥ria das tradi√ß√Ķes de resist√™ncia dessas popula√ß√Ķes. Trata, afinal, dos¬†modos de sobreviv√™ncia¬†passados gera√ß√£o a gera√ß√£o, durante s√©culos de guerra e domina√ß√£o. A cosmogonia de um povo constru√≠da ao entorno de uma identidade revolucion√°ria faz com que os mortos do passado reascendam a esperan√ßa nos vivos quando estes se encontram em perigo.

Por isso, a representa√ß√£o de Rojava como¬†revolu√ß√£o¬†pode ser ideol√≥gica, mas √© real. √Č real porque desdobra de uma realidade hist√≥rica ao mesmo tempo em que determina esta realidade agora. A esperan√ßa e a desesperan√ßa n√£o s√£o s√≥ virtualidades: elas mobilizam a a√ß√£o. A revolu√ß√£o enquanto representa√ß√£o comum de outra sociedade poss√≠vel imprime sentido ao processo social vivido agora; move a comunidade, como a cada um em particular, a produzir ativamente a pr√≥pria hist√≥ria ‚Äď mesmo que n√£o dominem totalmente o processo social que p√Ķem em curso.

Sete: o sentido possível da solidariedade

Nas notas preparat√≥rias para as teses sobre o conceito de hist√≥ria, escritas na √©poca em que o fascismo triunfava, Benjamin escreveu:¬†‚ÄúMarx diz que as revolu√ß√Ķes s√£o as locomotivas da hist√≥ria. Mas talvez n√£o seja bem assim. √Č poss√≠vel que as revolu√ß√Ķes sejam, para a humanidade que viaja nesse trem, o gesto de puxar o freio de emerg√™ncia‚ÄĚ. Se o √ļnico progresso l√≥gico poss√≠vel √© o da expans√£o exponencial da barb√°rie, a revolu√ß√£o que se pode encontrar em Rojava est√° precisamente no combate deste avan√ßo, como tentativa de ampliar o campo dos poss√≠veis em dire√ß√£o a outro devir.

Enquanto a viol√™ncia do capital em colapso avan√ßar em escala global, o essencial da solidariedade internacional √†s lutas radicais pela sobreviv√™ncia n√£o est√° em fazer a defesa de um modelo pol√≠tico determinado, mas em mover-se em dire√ß√£o ao encontro com o outro; sem exigir-lhe um papel heroico ou acus√°-lo moralmente por suas contradi√ß√Ķes. O movimento solid√°rio se d√° no sentido de entender sob quais condi√ß√Ķes se encontram nossas irm√£s e irm√£os, e buscar junto com elxs pelas viol√™ncias capazes de combater a verdadeira viol√™ncia que √© a totalidade capitalista. Por isso √© preciso manter a revolu√ß√£o como representa√ß√£o no campo dos poss√≠veis ‚Äď para que nos mova, porque n√£o estamos mortos. Ou, como canta o lema Rojavista:

‚ÄĚBerxwedan Jiyan √™‚ÄĚ!¬†(‚ÄúResist√™ncia √© vida‚ÄĚ).

BIBLIOGRAFIA:

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Por una internacional del g√©nero humano¬†‚Äď Raoul Vaneigem, 1999.
Rojava Revolution:¬†Reshaping masculinity¬†‚Äď Rahila Gupta, 9/5/2016.
Sobre o conceito da hist√≥ria¬†‚Äď Walter Benjamin, 1940.
Weltordnungskrieg:¬†A guerra de ordenamento mundial, o fim da soberania e as muta√ß√Ķes do imperialismo na era da globaliza√ß√£o¬†‚Äď Robert Kurz, Cr√īnicas do capitalismo em decl√≠nio (2003-2012).

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Originalmente publicado em espanhol no #1 da revista 2&3 DORM. Traduzido pela própria autora e enviado para site passa palavra Biji Kritik Rojava: crítica radical e solidariedade contra a barbárie das guerras de reordenamento mundial-09/04/2018

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Claudia Jones: Desconhecida Pan-Africanista, Feminista e Comunista

O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu √† sua defesa para a liberta√ß√£o dos povos do Caribe e da √Āfrica do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons
O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu √† sua defesa para a liberta√ß√£o dos povos do Caribe e da √Āfrica do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons

Traduzido por Rafaela Araujo Santana ‚Äď Grupo Kilombagem

Por Ajamu Nangwaya

Jones utilizou o espaço organizacional do Partido Comunista para avançar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descolonização e na luta de classes.

Claudia Jones foi uma revolucion√°ria, cujo ativismo alcan√ßou dois continentes, Am√©rica do Norte e Europa. Claudia Vera Cumberbatch nasceu em 21 de fevereiro de 1915 em Belmont, Trinidad e Tobago, a terra que tem dado origem a importantes pol√≠ticos, como C.L.R. James, Eric Williams, George Padmore e Kwame Ture (anteriormente Stokely Carmichael). Ela e sua fam√≠lia foram for√ßados a migrar para Nova York durante os anos 1922-24, como resultado da dificuldade econ√īmica que eles experimentaram como membros da classe trabalhadora em Trinidad.

Ela adotou o sobrenome “Jones”, como uma medida de prote√ß√£o na realiza√ß√£o de seu trabalho organizado com o Partido Comunista dos EUA (CPUSA). Essa mudan√ßa de nome n√£o foi um incomum dada a histeria anticomunista e persegui√ß√£o dos comunistas nos Estados Unidos. Claudia faleceu na terra de seu ex√≠lio, na Gr√£-Bretanha, em 25 de dezembro de 1964. Curiosamente, o local final de descanso de Jones est√° localizado justamente a esquerda de Karl Marx, no cemit√©rio de Highgate, em Londres.

Ela contribuiu para o trabalho do Partido Comunista dos Estados Unidos – CPUSA como jornalista, editora, l√≠der, te√≥rica, educadora e organizadora de 1936 at√© sua deporta√ß√£o em dezembro de 1955. Ela trabalhou com o jornal do partido Di√°rio Trabalhador, serviu como a editora da Liga da Juventude Comunista (UJC), na Revis√£o Semanal, funcionava como a diretora estadual YCL da educa√ß√£o e presidente do estado, tornou-se um membro pleno da CPUSA em 1945, eleita para o Comit√™ Nacional do CPUSA em 1948, assumiu o papel de Secret√°ria de Comiss√£o da Mulher, CPUSA, e trabalhou em v√°rias fun√ß√Ķes em outras publica√ß√Ķes do partido. Claudia foi presa tr√™s vezes por causa de seu trabalho na CPUSA. Ela foi condenada sob a Lei Smith que visava os l√≠deres do CPUSA e serviu oito meses na pris√£o.

O Professor Errol Henderson da Universidade Estadual da Pensilv√Ęnia captura a relev√Ęncia pol√≠tica da Claudia:

“Ela foi brilhante e incisiva. Ela forneceu ao feminismo componente da an√°lise marxista juntamente com a incisiva incorpora√ß√£o da “cultura negra” de Haywood, no qual ela apoiou e estendeu … uma mente excepcional … e sua deporta√ß√£o para os EUA foi uma grande perda para a luta de liberta√ß√£o aqui, mas como um complemento para o Reino Unido, onde ela fez ainda mais contribui√ß√Ķes “.

Jones utilizou o espa√ßo organizacional do Partido Comunista estadunidense para avan√ßar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descoloniza√ß√£o e na luta de classes. Al√©m disso, ela usou suas v√°rias fun√ß√Ķes e recursos do partido comunista para avan√ßar na liberta√ß√£o das mulheres em geral e das mulheres afro-americanos da classe trabalhadora, em particular.

√Č uma grande injusti√ßa da hist√≥ria que o trabalho de Claudia Jones seja pouco conhecido entre os radicais que possam extrair ensinamentos da sua abordagem integrada para a elimina√ß√£o do racismo, capitalismo, patriarcado e imperialismo. Em um per√≠odo como nosso em que a pol√≠tica de identidade assume express√Ķes vulgares, √© fundamental para n√≥s destacar a contribui√ß√£o desta revolucion√°ria cujo ativismo foi guiado por um anticapitalista, exigente anti-opress√£o e orienta√ß√£o pol√≠tica anti-imperialista.

O Professor Carole Boyce Davies, em seu livro “A esquerda de Karl Marx: A vida pol√≠tica da Comunista negra Claudia Jones,” oferece uma raz√£o para a invisibilidade de Claudia:

“O estudo das mulheres negras comunistas permanece um dos mais negligenciados entre verifica√ß√£o contempor√Ęnea de mulheres negras para pelo menos, uma das raz√Ķes que Joy James identifica: O revolucion√°rio sob margem, mais do que qualquer outra forma o feminismo (negro). “Este tipo de neglig√™ncia pela maioria das acad√™micas feministas n√£o √© surpreendente. A maioria destas pesquisadoras burguesas n√£o s√£o socialistas / comunistas e, como tal, n√£o s√£o atra√≠dos para assuntos que est√£o associados com o comunismo.

A continua experiência de classe trabalhadora de Claudia e sua família na sociedade americana ajudou na formação da sua luta de classes, compromissos políticos feministas e antirracistas:

“Estava fora das minhas experi√™ncias de Jim Crow como uma jovem mulher negra, experi√™ncias igualmente nascido da pobreza da classe trabalhadora que me levou a juntar-se √† Uni√£o de Jovens Comunistas e escolher a filosofia da minha vida, a ci√™ncia do marxismo-leninismo – que a filosofia que n√£o s√≥ rejeita ideias racistas, mas √© a ant√≠tese deles. “

Como uma mulher africana da classe trabalhadora, a experi√™ncia vivida de Claudia lhe proporcionou um amplo entendimento do patriarcado. O exemplo mais claro de sua compreens√£o e an√°lise da opress√£o das mulheres africanas est√° presente no artigo ‚ÄúUm fim √† neglig√™ncia dos Problemas da Mulher Negra! ‚ÄĚ. Foi publicado em 1949. Muito antes do desenvolvimento da estrutura anal√≠tica interseccional na d√©cada de 1970 por feministas e l√©sbicas Afro-americanas como expresso na Declara√ß√£o ColetivoRioCombahee, Jones j√° tinha essa abordagem para analisar as m√ļltiplas formas de opress√£o que configura a vida das mulheres afro-americanas da classe trabalhadora.

A preocupa√ß√£o de Jones com a liberta√ß√£o das mulheres focava em mudan√ßas nas condi√ß√Ķes econ√īmicas, sociais e pol√≠ticas desiguais e n√£o a obsess√£o cultural psicol√≥gica encontrada dentro de c√≠rculos pol√≠ticos de identidade vulgares atuais:

“Para o movimento das mulheres progressivas, a mulher negra, que combina em seu estatuto o trabalhador, o Negro, e a mulher, √© o link vital para essa elevada consci√™ncia pol√≠tica. Na medida, al√©m disso, que a causa da mulher negra trabalhadora √© promovida, ela ser√° habilitada para tomar seu lugar leg√≠timo na lideran√ßa do proletariado negro do movimento de liberta√ß√£o nacional, e por sua participa√ß√£o ativa contribuem para toda a classe trabalhadora americana, cuja miss√£o hist√≥rica √© a conquista de uma Am√©rica Socialista – a final e completa garantia da emancipa√ß√£o da mulher “.

O estado capitalista e corpora√ß√Ķes do Norte global explora os recursos e m√£o de obra e dominar as economias e sociedades no Sul global. De acordo com Davies em “A Esquerda de Karl Marx”, “pol√≠tica anti-imperialistas de Claudia ligada √†s lutas locais de pessoas negras e mulheres contra o racismo, e a opress√£o sexista √†s lutas internacionais contra o colonialismo e o imperialismo negros.” O Pan-africanismo de Claudia conduziu para sua defesa por liberdade dos povos do Caribe e da √Āfrica do colonialismo.

Na Gr√£-Bretanha, dois das not√°veis realiza√ß√Ķes de Claudia s√£o a cria√ß√£o do Carnaval de Notting Hill e o Di√°rio das √ćndias Ocidentais. Uma parte do epit√°fio em sua l√°pide diz: “Valente lutadora contra o imperialismo e, o racismo que dedicou sua vida ao progresso do socialismo e a liberta√ß√£o do seu pr√≥prio povo negro.”

Deveria ter acrescentado: “defensora assertiva do feminismo socialista”.

Ajamu Nangwaya, PhD., é um educador, organizador e escritor. Ele é um organizador com a Rede para a Eliminação da Violência Policial

Artigo original dispon√≠vel em: http://www.telesurtv.net/english/opinion/Claudia-Jones-Unknown-Pan-Africanist-Feminist-and-Communist–20160210-0020.html