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Nonagésimo aniversário de Fanon РOS CONDENADOS DA TERRA

CURSO KILOMBAGEM ‚Äď FANON VIDA E OBRA

Reflex√Ķes retiradas¬†do artigo: FAUSTINO, D. M. . Colonialismo, racismo e luta de classes: a atualidade de Frantz Fanon. In: V Simp√≥sio Internacional Lutas Sociais na Am√©rica Latina, 2013. Anais do V Simp√≥sio Internacional Lutas Sociais na Am√©rica Latina, 2013. p. 216-232. (n√£o deixe de citar suas fontes quando compartilhar!!!)

O Texto de hoje √© o mais famoso do que lido¬†Os Condenados da Terra, escrito por Fanon em 1961. O livro, cercado de curiosidades e pol√™micas, √© comentado por diversos pensadores em todo o mundo. O t√≠tulo original do livro, Les damn√©s de la terre, ¬†foi inspirado na primeira estrofe de¬†L’INTERNATIONALE,¬†hino ¬†do movimento comunista internacional:

Debout! l’√Ęme du prol√©taire

(De pé! ó alma do proletário)

Travailleurs, groupons-nous enfin.

(Trabalhadores, agrupemo-nos finalmente)

Debout! les damnés de la terre!

(Levante-se! os miser√°veis da terra!)

Debout! les forçats de la faim!

(Levante-se! condenados de fome!)

Pour vaincre la mis√®re et l’ombre

(Para superar a pobreza e a sombra)

Foule esclave, debout ! debout!

(Multidão de escravos, de pé! de pé!)

C’est nous le droit, c’est nous le nombre:

(Este √© o nosso direito, o nosso n√ļmero)

Nous qui n’√©tions rien, soyons tout

(Nós, que não eram nada, sejamos tudo)

Mas para ele, diferentemente do que propunha o movimento comunista franc√™s, a aposta para a supera√ß√£o radical da situa√ß√£o colonial n√£o estaria no proletariado (industrial) – quase ausente nas col√īnias, e quando presente, na maioria das vezes, ¬† comprometido com a manuten√ß√£o da ordem colonial. Os Damn√©s, de que ele fala e apostou todas as cartas – estes que na sociedade colonial n√£o eram nada –¬†deveriam ser encontrados entre √†queles que realmente n√£o tinham nada a perder – “a n√£o ser os seus grilh√Ķes”.

De pé ó vítimas da fome
De pé ó vítimas da fome

Fanon sempre foi um ser humano intenso: com 25 anos já havia escrito Pele negra, máscaras brancas e com 29 havia se tornado chefe do hospital psiquiatra em Blida, Argélia. Agora, aos 36, já se encontrava entre os principais articuladores do pan-africanismo internacional junto à Frente de Libertação da Argélia.

Em dezembro de 1960, depois de circular por v√°rias partes do continente africano fomentando a necessidade de expandir as Guerras de Liberta√ß√£o, Fanon inicia a escrita de um livro que problematizaria a rela√ß√£o entre¬†revolu√ß√£o argelina e¬†outros povos do Continente. No entanto, para a sua surpresa e no auge de sua atua√ß√£o pol√≠tica, √© diagnosticado √© com leucemia ‚Äď uma doen√ßa maligna nos gl√≥bulos brancos – , e constata, mediante aos est√°gios da medicina na √©poca, que lhe restava pouco tempo de vida.

Diante do fato de que seu corpo definhava, optou por alterar o curso da escrita que empreendia, direcionando-a para o que, sabidamente, seria o seu √ļltimo texto. √Č neste contexto, lutando contra o pr√≥prio rel√≥gio biol√≥gico. que ele escrever√° em quest√£o de meses o famoso Os Condenados da terra. Enquanto escrevia o livro e revisava os trechos, chegou a voar para It√°lia a fim de encontrar Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, para encomendar a Sartre o Pref√°cio do seu livro.

Tr√°gico √© que at√© hoje, se considerarmos a presen√ßa incontest√°vel do racismo na sociedade contempor√Ęnea, que o Pref√°cio de Sartre – embora tenha contribu√≠do para popularizar o texto no contexto internacional ‚Äď tenha se tornado mais famoso que o pr√≥prio livro. No pref√°cio, Sartre, inteligentemente, destaca a viol√™ncia, objetivando, chamar a aten√ß√£o dos europeus para a sua hipocrisia e culpa diante de todo sofrimento vivido fora da Europa.

Entretanto, lamentavelmente, muitos críticos importantes das Ciências Sociais destilaram duras críticas à Fanon, sem ter, contudo, avançado na leitura para além das páginas escritas por Sartre. Ocorre que o livro é muito mais complexo do que o Prefácio pretendeu ser, e a leitura que não o tome por completo está fadada à uma apreensão pobre e até distorcida.

O livro trata, entre outros assuntos, dos conflitos impl√≠citos ao colonialismo e √† luta anticolonial. Alerta que a viol√™ncia √© parte fundante da sociedade colonial, estando presente em todas as suas express√Ķes materiais e simb√≥licas. Constata ainda que a supera√ß√£o da l√≥gica colonial s√≥ seria vi√°vel naquelas situa√ß√Ķes em que os colonizados empreendessem for√ßa material proporcionalmente capaz de abalas as for√ßas sociais a ponto de fazer surgir um homem novo:

A descoloniza√ß√£o se prop√Ķe a mudar a ordem do mundo, √©, como se v√™, um programa de desordem abosoluta(…)√© um processo hist√≥rico: isto √©, ela s√≥ pode ser compreendida, s√≥ tem inteligibilidade, s√≥ se torna transl√ļcida para si mesma na exata medida em que discerne o movimento historicizante que lhe d√° forma e conte√ļdo. A descoloniza√ß√£o √© o encontro de duas for√ßas congenitamente antag√īnicas, que t√™m precisamente a sua origem nessa esp√©cie de substancializa√ß√£o que a situa√ß√£o colonial excreta e alimenta. (…) a descoloniza√ß√£o √© verdadeiramente a cria√ß√£o de homens novos. Mas essa cria√ß√£o n√£o recebe a sua legitimidade de nenhuma pot√™ncia sobrenatural: a ‚Äúcoisa‚ÄĚ colonizada se torna homem no processo mesmo pelo qual ela se liberta. (Fanon)

Em um di√°logo constante com os movimentos internacionais ligados ao panafricanismo e ao terceiro-mundismo, Frantz Fanon alerta que mesmo na √Āfrica, o processo de revolu√ß√£o nacional n√£o podem ignorar as especificidades de entifica√ß√£o da capitalismo, a composi√ß√£o das diferentes de classes sociais e seus interesses. Os pa√≠ses coloniais seriam economicamente atrasados e subdesenvolvidos a partir da rela√ß√£o hist√≥rica com suas metr√≥poles sanguessugas.

Esta realidade relegaria √†s col√īnias uma produ√ß√£o de bens prim√°rios voltados √† exporta√ß√£o; uma classe oper√°ria insipiente; um campesinato pauperizado e analfabeto e uma burguesia local subordinada √† interesses externos. Estas burguesias, forjadas no processo colonial, mesmo quando apoiem a independ√™ncia, tendem a trair sua ‚Äúvoca√ß√£o‚ÄĚ de classe ‚Äď como se assistiu nos s√©culos anteriores na Europa ‚Äď e n√£o assumirem a frente do processo produtivo de forma a acumular o excedente de produ√ß√£o no pr√≥prio pa√≠s. Abrindo brecha, assim, ao neocolonialismo.

No cap√≠tulo III “Desventuras da consci√™ncia nacional” Fanon antecipa que a supera√ß√£o do colonialismo n√£o depende apenas da elei√ß√£o de lideres africanos, mas sim, da reorganiza√ß√£o das rela√ß√Ķes de produ√ß√£o, orientada para e com o povo. Do contr√°rio, todo o esfor√ßo dos movimentos de liberta√ß√£o se veriam afogados no neocolonialismo:

Essa burguesia que se afasta cada vez mais do povo em geral nem consegue arrancar do Ocidente concess√Ķes espetaculares: investimentos interessantes para a economia do pa√≠s, instala√ß√Ķes de certas ind√ļstrias. Em contrapartida, as f√°bricas de montagem se multiplicam, consagrando assim o tipo neocolonialista no qual se debate a economia nacional. Assim, n√£o se deve dizer que a burguesia nacional retarda a evolu√ß√£o do pa√≠s, que lhe faz perder tempo ou que ele pode conduzir a na√ß√£o para caminhos sem sa√≠da. Efetivamente, a fase burguesa na hist√≥ria dos pa√≠ses subdesenvolvidos √© uma fase in√ļtil. Quando essa casta for suprimida, devorada por suas pr√≥prias contradi√ß√Ķes, n√≥s percebemos que nada aconteceu depois da independ√™ncia, que √© preciso retomar tudo, partir outra vez do zero. A reconvers√£o n√£o ser√° operada no n√≠vel das estruturas instaladas pela burguesia durante o seu reino, pois essa casta n√£o fez outra coisa sen√£o tomar, sem mudan√ßa, a heran√ßa da economia, de pensamento e das institui√ß√Ķes coloniais .(FANON).

Em seu di√°logo com o Movimento de¬†Negritude, afirma que essa perspectiva √© ‚Äúa ant√≠tese afetiva, sen√£o l√≥gica, desse insulto que o homem branco fazia √° humanidade‚ÄĚ. E completa: ‚ÄúEssa negritude lan√ßada contra o desprezo do branco se revelou, em certos setores, como o √ļnico fator capaz de derrubar interdi√ß√Ķes e maldi√ß√Ķes‚ÄĚ. No entanto, essa contraposi√ß√£o, historicamente necess√°ria, levou o movimento a um impasse: ‚Äú √† afirma√ß√£o incondicional da cultura europeia sucedeu a afirma√ß√£o incondicional da cultura africana‚ÄĚ .

Entretanto, se¬†o colonialismo definiu como essencialmente negro a emo√ß√£o, o corpo, a virilidade, ludicidade, mas, sobretudo, classificou hierarquicamente estes elementos como inferiores, frente √† n√£o menos fetichizada (e ilus√≥ria) imagem criada para o Europeu ‚Äď Raz√£o, civiliza√ß√£o, cultura, universalidade -, o movimento de negritude, sem romper com estes fetichismos, apenas inverteu os polos da hierarquia, passando a considerar como positivo √†quilo que o colonialismo classificou como inferior.

Assim a inoc√™ncia, musicalidade, o ritmo ‚Äúnato‚ÄĚ do africano, passam a ser afirmados pelos movimentos anti-racistas como elementos essencialmente africanos, mas agora, vistos como superiores e desej√°veis frente √† frieza tecnicista ocidental (SENGHOR, 1939). As ‚Äúalmas da gente negra‚ÄĚpassam a ser classificadas como ess√™ncias metaf√≠sicas, ou no m√≠nimo hist√≥ricas, que precisariam ser resgatas e afirmadas para que o negro se reencontre consigo pr√≥prio.

Para Fanon, est√° a√≠ uma armadilha que o movimento de negritude ‚Äď e talvez o conjunto do movimento negro contempor√Ęneo – corria o risco de ficar preso. Esta ‚Äúess√™ncia negra‚ÄĚ que se busca “restaurar” ou “libertar”, √©, para ele, uma inven√ß√£o do racismo colonial a servi√ßo da desumaniza√ß√£o do africano e aceit√°-la, portanto,¬†implicaria na n√£o rejei√ß√£o dos pressupostos que sustentam o colonialismo.

Para ele, os seres humanos s√£o o que fazem e como fazem, e por isso, a prioridade¬†na preserva√ß√£o ¬†ou resgate cultural corre o risco de¬†inverter a ordem de prioridade do mundo, tomando o secund√°rio como prim√°rio, ¬†na medida em que valoriza o produto em detrimento do produtor. Esta postura antropologicizadora, inicialmente leg√≠tima, poderia segundo Fanon levar os movimentos anti-racistas a alguns impasses perigosos, tais como: “meter todos os negros no mesmo saco”; buscar por um passado glorioso em detrimento de uma realidade objetivamente desumanizadora; valorizar acriticamente e de forma¬†apaixonada¬†a‚Äútudo que for africano‚ÄĚ (ou aquilo que se convencionou nomear como africano) e ao mesmo tempo,, negar¬†de forma quase religiosa a¬†tudo que for ‚Äúocidental‚ÄĚ; aceitar o¬†pressuposto racista de que a cultura negra √© est√°tica e fechada, portanto morta.

Para Fanon seria necess√°rio ir al√©m da ‚Äď e n√£o se limitar √† – afirma√ß√£o das especificidades culturais (historicamente negadas). Para ele, n√£o √© a cultura ¬†que deve resistir mas sim as pessoas que a produzem, a partir de seus referenciais simb√≥licos sempre em transforma√ß√£o. √Č certo que o colonialismo nega ao colonizado a possibilidade de entifica√ß√£o de uma cultura aut√™ntica, e por isto, a emancipa√ß√£o cultural, passaria pela emancipa√ß√£o das pessoas que produzem e se produzem a partir dela. √Č o colonialismo em seu ato negador e reificador que atribui uma aus√™ncia de movimento hist√≥rico √† cultura colonizada, engessando-a em cat√°logos antropol√≥gicos, vendo-as e tratando-as como elementos mortos…

Agir pelo resgate de uma pretensa cultura passada, originalmente negada √© secundarizar a emancipa√ß√£o dos indiv√≠duos produtores da cultura. √Č o combate pelo fim mim material, cultural e epist√™mico do colonialismo ‚Äď e Fanon n√£o nega a import√Ęncia da afirma√ß√£o cultural neste processo ‚Äď que pode promover o surgimento de uma cultura aut√™ntica. Ao inv√©s de se lan√ßar apaixonadamente sobre uma cultura engessada pelo colonialismo, ‚Äúo dito combatente, o colonizado, depois de tentar perder-se no povo, com o povo, vai, ao contr√°rio, sacudir o povo. Ao inv√©s de privilegiar a letargia do povo, ele se transforma em despertador do povo‚ÄĚ (FANON, 2010:256).

REAJA
Imagem: Militantes da Campanha Reaja ou ser√° morto, Reaja ou ser√° morta – Bahia – Br

O livro – que tr√°s ainda uma an√°lise sobre os impactos subjetivos da tortura e uma an√°lise cr√≠tica a respeito dos limites do √≥dio para a luta pol√≠tica ‚Äď foi recebido com amor e √≥dio em todas as partes do mundo. Dos movimentos terceiro-mundistas e a esquerda revolucion√°ria nos pa√≠ses da Am√©rica Latina aos intelectuais articuladores do IRA, ETA e a Revolu√ß√£o Aiatol√° no Iran; das propostas de Amilcar Cabral e Sankara √†s reflex√Ķes e a√ß√Ķes pr√°ticas de √āngela Davis e o movimento Black Power, oserva-se a influ√™ncia expl√≠cita de Os condenados da Terra.

*

Desiludido, e abalado com o definhamento do pr√≥prio corpo, Fanon cede √† insist√™ncia de amigos e familiares para tentar um tratamento nos EUA. Ele j√° havia recusado essa possibilidade anteriormente, afirmando que n√£o iria para um pa√≠s de linchadores, mas agora, j√° debilitado, permite-se √† uma √ļlitma tentatica. Ao sexto dia de dezembro de 1961, ainda com 36 anos – e algumas semans depois de ter recebido os primeiros exemplares de Os condenados da terra -, Frantz Omar Fanon morre em um quarto de hospital em Washington.

H√° rumores n√£o partilhados pela fam√≠lia de que a CIA ‚Äď que se envolveu no traslado de Fanon aos Estados Unidos – teria contribu√≠do para sua morte, mas essa desconfian√ßa nunca foi comprovada. O fato √© que, dal√≠ em diante, o nome de Fanon seguiria vivo, alimentando a experan√ßa no futuro, em qualquer lugar que haja injusti√ßa.

 

Frantz Fanon

Para quem tiver coragem: Boa leitura!!!!

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