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As interfaces do Genocídio no Brasil: raça, gênero e classe (Disponível integralmente em pdf)

Enfim, est√° dispon√≠vel em PDF a colet√Ęnea As interfaces do Genoc√≠dio no Brasil: ra√ßa, g√™nero e classe, organizada por Marisa Feffermann; Suzana Kalckmann; Deivison Faustino (Nkosi); Dennis de Oliveira; Maria Gl√≥ria Calado; Raiani Cheregatto.

O genocídio no Brasil: uma questão complexa

Por: Marisa Feffermann; Suzana Kalckmann; Deivison Faustino (Nkosi); Dennis de Oliveira; Maria Gl√≥ria Calado; Raiani Cheregatto 

Interfaces do genocídio
Interfaces do genocídio no Brasil

A colet√Ęnea que o leitor tem em m√£os apresenta um dos temas mais urgentes e atuais da nossa sociedade: a tem√°tica da morte sistem√°tica de determinados grupos sociais. 

Em outro tempo e espa√ßo hist√≥rico (Paris, 1948), os Estados-mem- bros da Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas se reuniram na ‚ÄúConven√ß√£o para a Preven√ß√£o e Puni√ß√£o de Crimes de Genoc√≠dio‚ÄĚ para pactuar, em una- nimidade, que a pr√°tica de genoc√≠dio ‚Äú√© um crime do direito dos povos‚ÄĚ. Nessa ocasi√£o, definem como genoc√≠dio os atos cometidos com a inten√ß√£o de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, √©tnico, racial ou religioso, tais como: 

a) assassinato de membros do grupo;

b) atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo;

c) submiss√£o deliberada do grupo a condi√ß√Ķes de exist√™ncia que acarretar√£o a sua destrui√ß√£o f√≠sica, total ou parcial;

d) medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;  

e) transferência forçada das crianças do grupo para outro grupo.

A referida Conven√ß√£o fora motivada pelo conhecimento internacional a respeito dos crimes do nazismo. Diante deles, viu-se uma mobiliza√ß√£o geral em toda a Europa, ainda devastada pela sua segunda grande guerra, contra a possibilidade de retorno desse fantasma. O fen√īmeno do nazismo e as suas consequ√™ncias genocidas ascenderam um sinal de alerta √©tico, pol√≠tico e est√©tico nos intelectuais das principais vertentes te√≥ricas ‚Äď do liberalismo ao existencialismo e o marxismo ‚Äď e institui√ß√Ķes europeias que passaram a esbo√ßar uma s√©rie de tratados e reflex√Ķes cr√≠ticas sobre o auto- ritarismo, totalitarismo, a viol√™ncia estatal e burocracia, etc. 

Nessa perspectiva, as transforma√ß√Ķes da estrutura social e das rela√ß√Ķes sociais, econ√īmicas e culturais que ocorrem nos grandes centros urbanos t√™m implica√ß√Ķes na mudan√ßa do perfil epidemiol√≥gico brasileiro, assim como nos efeitos sobre a produ√ß√£o da viol√™ncia, e causam intensa influ√™ncia na morbimortalidade das popula√ß√Ķes, pelo n√ļmero de mortes, em especial, de adolescentes e jovens negros pertencentes √†s classes subalternas. A expans√£o prim√°ria do capital pelo globo terrestre ‚Äď a chamada acumula√ß√£o primitiva de capitais ‚Äď exigia, como parte de sua viabi- lidade, de um lado, a destrui√ß√£o violenta de antigas forma√ß√Ķes produtivas que atrapalhassem a sua l√≥gica e, do outro lado, a subsun√ß√£o completa de popula√ß√Ķes n√£o europeias √† √ļnica forma poss√≠vel de produ√ß√£o nesse per√≠odo: o trabalho escravo. E para que esse fosse vi√°vel, no plano √©tico, pol√≠tico e est√©tico, erige-se todo um repert√≥rio filos√≥fico, religioso e jur√≠dico voltado √† nega√ß√£o da humanidade dos povos colonizados… isso talvez explique o sil√™ncio dos melhores intelectuais europeus ‚Äď todos assustados com o nazifascismo ‚Äď diante do holocausto ind√≠gena, no Brasil, ou do genoc√≠dio herer√≥s, na Nam√≠bia. 

O curioso, para quem estuda as rela√ß√Ķes entre racismo e modernidade, √© que o pr√≥prio ocidente, agora assustado com a viol√™ncia sist√™mica do nazifascismo, foi o sujeito dessa mesma viol√™ncia que agora repudia por cinco s√©culos seguidos nos territ√≥rios n√£o europeus. Ali√°s, como alerta o poeta martinicano Aim√© Cesaire em seu Discursos sobre o colonialismo, o rep√ļdio ocidental a Hitler n√£o se deve ao fato desse chanceler estar √† frente do saque, estupro, escraviza√ß√£o e morte de milh√Ķes de seres humanos, mas, sim, pelo fato de t√™-lo realizado na Europa, haja vista que as mesmas pot√™ncias europeias que ali se colocavam contra o nazismo haviam-no praticado com outros nomes em outros locais da Am√©rica, √Āsia e √Āfrica. 

Os n√ļmeros hist√≥ricos n√£o permitem desmentir o poeta. A demografia da popula√ß√£o ind√≠gena americana decaiu de 2milh√Ķes a 4 milh√Ķes, no s√©culo 16, para menos de 100 mil indiv√≠duos, no s√©culo 20. A popula√ß√£o negra, a qual se objetivou fazer desaparecer completamente do pa√≠s, fora alvo de todos os quesitos presentes na supracitada conven√ß√£o de 1948. 

Ainda hoje, a situa√ß√£o √© assustadora. Nas pol√≠ticas p√ļblicas de sa√ļde as inequidades s√£o determinantes da vida, do adoecimento e da morte das pessoas, que resultam de intersec√ß√Ķes entre as desigualdades de condi√ß√Ķes socioecon√īmicas, do racismo estrutural, de quest√Ķes de g√™nero, agravadas por orienta√ß√Ķes sexuais e religiosas etc. ‚ÄúRa√ßa/cor‚ÄĚ deve ser entendida como uma vari√°vel social, n√£o biol√≥gica, que carrega consigo constru√ß√Ķes hist√≥ricas de exclus√Ķes, sendo um importante determinante da falta de equidade em sa√ļde entre os grupos populacionais. Durante muito tempo essa informa√ß√£o n√£o constava nos registros oficiais, como nascimentos, mortes, atendimentos, servi√ßos, patologias espec√≠ficas, registros hospitalares etc. Assim, como n√£o havia a inclus√£o do quesito ‚Äúcor‚ÄĚ nos registros, as diferen√ßas entre brancos e negros eram invisibilizadas e as reinvindica√ß√Ķes do movimento negro quanto √† sa√ļde eram banalizadas e consideradas naturais. Vale salientar que retirar (ou n√£o colocar) dos registros de dados a informa√ß√£o sobre a cor, inclusive do Censo de 1970 (1960 e 1980 havia a informa√ß√£o), foi/√© uma estrat√©gia adotada historicamente no Brasil, no sentido de manter a fal√°cia da ‚Äúdemocracia racial‚ÄĚ. Somente a partir da inclus√£o do quesito cor em 1996 no SIM e Sinasc (Sistema de Informa√ß√£o sobre Mortalidade e Sistema de Informa√ß√£o sobre Nascidos Vivos) e em todas as bases de dados em 2002, que os estudos epidemiol√≥gicos come√ßaram no pa√≠s, inicialmente sobre mortalidade e depois sobre morbidades, evidenciando o que j√° fora dito pelo movimento negro. As causas e as propor√ß√Ķes das mortes s√£o muito diferentes, quando se compara os dados referentes a brancos e negros. Elas explicitam nitidamente inequidades, determinando expectativas de vida ao nascer muito diferentes, quando se comparam os dois grupos. 

Apesar do pequeno n√ļmero de estudos sobre os processos de morte, adoecimento, acesso a servi√ßos de sa√ļde e sequelas de doen√ßas, eles revelam grande disparidade entre brancos e negros. 

Na produ√ß√£o cient√≠fica das √ļltimas d√©cadas alguns resultados s√£o recorrentes: 

‚ÄĘEntre os negros predominam mortes consideradas evit√°veis, destacando-se como causa b√°sica: ‚ÄėCausas externas‚Äô, ‚ÄėDoen√ßas End√≥crinas e Metab√≥licas‚Äô e ‚ÄėAlgumas Doen√ßas Infecciosas e Parasit√°rias‚Äô. 

  • As causas externas (acidentes e viol√™ncias), em 2014 no munic√≠pio de S√£o Paulo, foram respons√°veis por 8,7% do total de √≥bitos. Os pardos apresentaram a maior propor√ß√£o (15,7%), seguidos pelos pretos (10,8%) e ind√≠genas (8,3%). O porcentual de mortes por causas externas entre brancos e amarelos foi 6,8% e 3,6%, respectivamente.
  • A Mortalidade Materna √© 4 a 9 vezes maior entre as mulheres negras do que entre as brancas, dependendo do estado e/ou cidade considerada.
  • Maior preval√™ncia de hipertens√£o: independentemente de faixas et√°rias e do sexo, observa-se que a popula√ß√£o negra apresenta taxas de preval√™ncia de hipertens√£o maiores do que os brancos, sendo que essa taxa √© sempre maior conforme se amplia a idade dos indiv√≠duos analisados. No munic√≠pio de S√£o Paulo a preval√™ncia estimada pelo estudo ISA Capital de 2008 foi de 21% para brancos, 33,5% para os de cor preta, 20,5% para os de cor parda, 14,6% e 4,9% para amarelos e ind√≠genas, respectivamente.

Quanto √† realiza√ß√£o de exames verifica-se menor propor√ß√£o de ades√£o entre mulheres e homens negros, para diversos exames de preven√ß√£o (PSA, Papanicolau, mamografia etc.) e para seguimento de interven√ß√Ķes. Por exemplo, para realiza√ß√£o de preven√ß√£o de ‚Ä® c√Ęncer de pr√≥stata PSA/TR no munic√≠pio de S√£o Paulo observa-se maior propor√ß√£o de exames, no √ļltimo ano, entre brancos e amarelos. Na an√°lise do quadro epidemiol√≥gico da sa√ļde da popula√ß√£o negra, ainda incipiente, s√£o necess√°rias novas aborda- gens que considerem o racismo como estruturante da sociedade e procurem intervir de forma mais contundente na busca de equidade. H√° lacunas importantes quando se busca informa√ß√Ķes e explica√ß√Ķes sobre os processos de adoecimento e acesso a servi√ßos. Muitas vezes os mais vulner√°veis s√£o culpabilizados pelo pr√≥prio adoecimento sem uma an√°lise mais integral. 

Vale ressaltar que o acesso aos dados dos sistemas de informa√ß√£o desagregados por cor e sexo ainda √© dif√≠cil, especialmente se desejarmos trabalhar com os dados municipais, regionais ou com os sistemas que registram patologias e uso de servi√ßos. 

O Plano Nacional de Sa√ļde considerou como prioridades em rela√ß√£o √† popula√ß√£o negra os agravos/problemas de sa√ļde que se seguem: ‚ÄĘ mortalidade materna; ‚ÄĘ causas externas (homic√≠dio); ‚ÄĘ mortalidade in- fantil; ‚ÄĘ doen√ßas cr√īnico-degenerativas: hipertens√£o e diabetes mellitus; ‚ÄĘ doen√ßas cardiovasculares; ‚ÄĘ doen√ßas mentais (depress√£o, alcoolismo); ‚ÄĘ desnutri√ß√£o (crian√ßa, gestante, idoso); ‚ÄĘ DST/Aids; ‚ÄĘ mortalidade por Aids em mulheres negras. 

Foto: Joquim Lima / Mídia NINJA

Vale informar que em 2017, na Abrasco (Associa√ß√£o Brasileira de Sa√ļde Coletiva), foi criado um GT (Racismo e Sa√ļde), com pesquisadores, profissionais de sa√ļde, movimentos sociais e gestores, que trabalha com as quest√Ķes relacionadas ao racismo como determinante de sa√ļde. Um dos objetivos do GT √© aglutinar esfor√ßos para realiza√ß√£o de estudos amplos e maximizar a difus√£o dos resultados de estudos e de interven√ß√Ķes/experi√™ncias. ‚ÄúO GT Racismo e Sa√ļde √© um espa√ßo de di√°logo e de articula√ß√£o entre pesquisadoras/es, profissionais de sa√ļde, gestores, movimentos que est√£o trabalhando com as tem√°ticas relacionadas ao racismo, seu impacto e sua forma de enfrentamento.‚ÄĚ (https://www.abrasco. org.br/site/gtracismoesaude/). 

Viol√™ncia e sa√ļde 

Em 1996, a 49a Assembleia Mundial da Sa√ļde declarou a viol√™ncia como importante problema de sa√ļde p√ļblica e convocou a OMS para desenvolver uma tipologia da viol√™ncia que caracterizasse ‚Äúos diferentes tipos de viol√™ncia e os elos que os conectariam‚ÄĚ. Nessa perspectiva, a sa√ļde p√ļblica parte do princ√≠pio da necessidade da compreens√£o da g√™nese e das formas de manifesta√ß√£o da viol√™ncia e especificamente dos comportamentos violentos para refletir sobre as possibilidades de preveni-los. Buscando, dessa forma, compreender os poss√≠veis fatores que permitem a emerg√™ncia de ocorr√™ncias desse tipo de causas externas. Algumas hip√≥teses foram produzidas, desde a quest√£o de comportamentos geradores de risco, o consumo abusivo de drogas l√≠citas e il√≠citas e o envolvimento com o com√©rcio ilegal de drogas t√™m sido apontados como os principais fatores de risco para a utiliza√ß√£o de armas de fogo e, consequentemente, respons√°veis por homic√≠dios. Mais recentemente pesquisas revelaram que o registro de antecedentes policiais pode, igualmente, ser apontado como fator de risco, tanto para a morte precoce quanto para a ocorr√™ncia de defici√™ncias f√≠sicas em jovens no come√ßo da idade produtiva. 

A mortalidade representa a viol√™ncia no grau extremo e √© uma das formas mais utilizadas pelo campo da sa√ļde para identificar a sua magnitude. Alguns autores reafirmam a mortalidade por homic√≠dio como resultante de complexo processo de determina√ß√£o, no qual atua uma s√©rie de fatores sociais, econ√īmicos, culturais, familiares e psicol√≥gicos. 

Cartazes com imagens dos jovens normalistas do México

O contingente de jovens existentes na Am√©rica Latina vivendo em situa√ß√£o de vulnerabilidade, aliado √†s turbulentas condi√ß√Ķes socioecon√īmicas de muitos pa√≠ses dessa regi√£o, provoca grande tens√£o, agravando diretamente os processos de integra√ß√£o social e, em algumas situa√ß√Ķes, fomentando o aumento da viol√™ncia e da criminalidade. Essa ordem dominante tem ampliado as condi√ß√Ķes de precariedade e de vulnerabilidade dos jovens, a partir de perspectivas classistas, racistas, homof√≥bicas e de ordem proibicionista, que, com o pretexto de combater o crime organizado, t√™m funcionado como estrat√©gia de limita√ß√£o dos espa√ßos sociais de liberdade. O conceito de Juvenic√≠dio tem sido utilizado para discutir a situa√ß√£o dos jovens que sobrevivem na Am√©rica Latina, sob a √©gide das pol√≠ticas neoliberais. 

No Brasil, o tema do juvenic√≠dio est√° intimamente relacionado com o que podemos denominar genoc√≠dio da juventude negra. O fen√īmeno do genoc√≠dio da juventude tem como fonte um conjunto de fatores que v√£o desde a expl√≠cita segrega√ß√£o social ao racismo velado. S√£o condi√ß√Ķes que inferiorizam o negro, submetendo-o, por exemplo, √†s piores condi√ß√Ķes empregat√≠cias e aos piores sal√°rios. O principal propulsor da constru√ß√£o desses estigmas, produzidos e refor√ßados pelos meios de comunica√ß√£o, est√° alicer√ßado no processo hist√≥rico das discrimina√ß√Ķes e racismo no Brasil. Os ind√≠cios desses estigmas se expressam no n√ļmero de mortes de jovens negros, na viol√™ncia legitimada do Estado, nas chacinas e no encarceramento em massa, que tira de circula√ß√£o in√ļmeros jovens, preferencialmente negros. 

Diante dessa subsun√ß√£o substancial de vida, os movimentos negros e ind√≠genas sempre lutaram, seja para afirmar a sua humanidade, seja para desarticular as for√ßas materiais que o negavam ontologicamente. Diante dessa luta, chama a aten√ß√£o a pr√≥pria disputa de narrativas em torno de qual morte poderia ter o privil√©gio de ser chorada ‚Äď ao inv√©s de invisibilizada. √Č nesse sentido que o memor√°vel Abdias do Nascimento escreve o livro Genoc√≠dio do negro brasileiro: processo de um racismo mas- carado, mostrando o quanto o processo de embarreiramento racial vivido pelo negro brasileiro explica-se integralmente a partir das descri√ß√Ķes da Conven√ß√£o de 1948. 

Desde ent√£o, uma s√©rie de estudos tem evidenciado cada vez mais o car√°ter racial das mortes intencionalmente provocadas, especialmente pelo bra√ßo armado do Estado, mas n√£o exclusivamente, haja vista as viola√ß√Ķes de direitos humanos no campo contra popula√ß√Ķes camponesas e quilombolas. Se √© necess√°rio falar em morte, para pensar o genoc√≠dio, √© necess√°rio considerar tamb√©m as mortes em vida denunciadas por Rico Dalassan no rap Mandume quando canta ‚Äúque eu j√° morri tantas antes de voc√™ me encher de bala‚ÄĚ. √Č nesse sentido que a colet√Ęnea Interfaces do ge- noc√≠dio no Brasil: ra√ßa, g√™nero e classe, organizada por Marisa Feffermann, Suzana Kalckmann, Dennis de Oliveira, Deivison Faustino (Nkosi), Maria Gl√≥ria Calado, Luis Eduardo Barbosa e Raiani Cheregatto, apresenta ao setor sa√ļde uma agenda de debates que n√£o √© nova, uma vez que os movi- mentos negros e ind√≠genas v√™m denunciando h√° s√©culos, mas ainda sem a recep√ß√£o adequada. O objetivo da colet√Ęnea √© trazer olhares distintos sobre a realidade da viol√™ncia que perpassa a vida e a morte dos jovens e suas interfaces com a sa√ļde. A an√°lise dessa situa√ß√£o sob v√°rios pontos de vista constitui um subs√≠dio para constru√ß√£o de pol√≠ticas p√ļblicas que possam enfrentar essa realidade. No sentido de ampliar essa discuss√£o e implementar a rede de prote√ß√£o aos jovens trazemos tamb√©m textos pro- duzidos para o I Semin√°rio Internacional Juventudes e Vulnerabilidade: Homic√≠dios, Encarceramento e Preconceitos, realizado nos dias 7, 8 e 9 de junho de 2017, em S√£o Paulo. O livro est√° organizado em sete blocos tem√°ticos, a saber: I – Juvenic√≠dio nas Am√©ricas; II – A cor do homic√≠dio; III – Meios de comunica√ß√£o como fomentadores do medo e do preconcei- to; IV – Encarceramento em massa; V – Criminaliza√ß√£o das drogas e ra√ßa; VI – Racismo institucional e estrutural; VII – G√™nero e ra√ßa. 

No primeiro bloco tem√°tico. Juvenic√≠dio nas Am√©ricas. Os autores v√£o abordar a forma como o juvenic√≠dio se apresenta em cada pa√≠s, um processo que implica em condi√ß√Ķes precarizadas e persistentes que t√™m custado a vida de centenas de milhares de jovens na Am√©rica. O conceito de juvenic√≠dio √© utilizado para descrever a situa√ß√£o das juventudes na Am√©rica Latina, que s√£o expostas √†s viol√™ncias estruturais exacerbadas pela ado√ß√£o de pol√≠ticas neoliberais. O conceito amplia a ideia da morte real ou do simples registro da morte de jovens para um complexo proces- so de criminaliza√ß√£o dos jovens, constru√≠da a partir do campo pol√≠tico e das ind√ļstrias culturais que estereotipam e estigmatizam as condutas e estilos juvenis, criando predisposi√ß√Ķes que desqualificam o mundo juve- nil e os identifica como violentos, perigosos e criminosos. A criminaliza√ß√£o dos jovens refor√ßa o preconceito, os estere√≥tipos e estigmas inscritos em processos estruturantes de racializa√ß√£o que constituem as condi√ß√Ķes de possibilidade de que produzam rela√ß√Ķes de produ√ß√£o e de reprodu√ß√£o das desigualdades sociais. Jos√© Manuel Valenzuela Arce, autor do concei- to de juvenic√≠dio, apresenta sua constru√ß√£o e rela√ß√£o com o conceito de feminic√≠dio, apontando a realidade do M√©xico e trazendo a morte dos 43 normalistas de Ayotzinapa como emblem√°tica dessa realidade. G√©rman Mu√Īoz apresenta a realidade da Col√īmbia com o conceito dos ‚Äúfalsos positivos‚ÄĚ em seu texto ‚ÄúJuvenic√≠dio na Colombia‚ÄĚ. Em ‚ÄúAs infantojuventu- des: ‚Äúmaras‚ÄĚ e ‚Äúgangues‚ÄĚ transnacionais no Tri√Ęngulo Norte-Americano- -Central (TNC) – El Salvador, Honduras e Guatemala‚ÄĚ Nateras discute as migra√ß√Ķes transnacionais e os atores desses processos, que ele denomina infantojuventudes. Kleaver Cruz contextualiza o genoc√≠dio nos Estados Unidos e a constru√ß√£o dos movimentos de resist√™ncia, especialmente dos movimentos ‚ÄúBlack Lives Matter‚ÄĚ. Por fim, Marisa Feffermann apresenta o genoc√≠dio como a forma de o juvenic√≠dio se manifestar no Brasil. 

No segundo bloco, nomeado A cor do homic√≠dio, problematiza-se as dimens√Ķes raciais do genoc√≠dio brasileiro. Em seu artigo intitulado ‚ÄúGenoc√≠dio dos povos ind√≠genas no Brasil: um instrumento de mais de 500 anos‚ÄĚ, Ant√īnio Fernandes de Jesus Vieira (Dinamam Tux√°) fala na primeira pessoa do plural para refletir sobre os processos de racismo e de genoc√≠dio enfrentados pelas popula√ß√Ķes ind√≠genas nesses mais de 500 anos desde a invas√£o europeia √†s suas terras. Deivison Faustino (Nkosi), por sua vez, apresenta um ensaio intitulado ‚ÄúReflex√Ķes indigestas sobre a cor da morte: as dimens√Ķes de classe e ra√ßa da viol√™ncia contempor√Ęnea‚ÄĚ, onde discute, a partir de um di√°logo entre a literatura, a epidemiologia e a filosofia, os padr√Ķes raciais das mortes provocadas no Brasil. Weber Lopes G√≥es, por sua vez, em seu ‚ÄúRacismo e viol√™ncia em face da eugenia contempor√Ęnea‚ÄĚ, retorna aos cl√°ssicos brasileiros da eugenia para argu- mentar que a mortalidade no pa√≠s, principalmente nos √ļltimos dez anos ‚Äď 2006-2016 ‚Äď tem sido uma das manifesta√ß√Ķes de eugenia contempor√Ęnea. 

O bloco III, Meios de comunica√ß√£o como fomentadores do medo e do preconceito, re√ļne tr√™s artigos que enfocam uma inst√Ęncia do poder que ganha cada vez mais import√Ęncia: os meios de comunica√ß√£o de massa. √Č fato que, uma das caracter√≠sticas da sociedade contempor√Ęnea √© a sua interconex√£o pelas tecnologias de informa√ß√£o e comunica√ß√£o e pela dissemina√ß√£o desenfreada de informa√ß√Ķes. Ao lado de um processo de sitiamento do indiv√≠duo com o esvaziamento da esfera p√ļblica, h√° uma profus√£o em escala nunca antes vista de informa√ß√Ķes, a ponto de estudos mostrarem que um cidad√£o m√©dio hoje tem acesso a uma quantidade de informa√ß√£o em um dia maior do que um ser humano que vivia nos tempos do √Āgora de Atenas durante toda a sua vida. Se isso √© produto do projeto de modernidade do s√©culo 18 que se cristalizou e gerou a demanda do cidad√£o por estar conectado √†s singularidades dos fatos cotidianos, √© fato que essa informa√ß√£o em excesso n√£o somente gera uma ansiedade enorme como tamb√©m cria mecanismos de poder por parte das elites que manejam o aparelho midi√°tico. E, de diferentes formas, os artigos que comp√Ķem essa parte do livro tratam disso em interface com o problema da viol√™ncia e do genoc√≠dio da popula√ß√£o negra. Isabel C. Clavelin Rosa enfoca o silenciamento midi√°tico ante os mecanismos de viol√™ncia e exterm√≠nio de jovens negros nas periferias, em particular os impactos junto √†s mulheres, m√£es desses jovens. Observa-se, nesse caso, uma ‚Äúexclus√£o do direito ao luto‚ÄĚ, produto da desclassifica√ß√£o dessas vidas ceifadas pelo sistema e todos os envolvidos. Assim, h√° uma a√ß√£o reativa por parte de mulheres negras impactadas nesse processo ao trans- formar o exerc√≠cio do luto em a√ß√£o de luta, rompendo um processo sis- t√™mico de dessensibiliza√ß√£o operada pela ind√ļstria da m√≠dia com esses assassinatos e, com isso, sinalizando para um reposicionamento pol√≠tico da viol√™ncia de Estado contra os jovens negros da periferia. As trajet√≥rias dessas mulheres negras s√£o totalmente ignoradas pelo discurso midi√°tico ao n√£o se encaixarem nas narrativas de espetaculariza√ß√£o da viol√™ncia. Por isso, o sensacionalismo da viol√™ncia que implica disciplinamento dos corpos se combina com o silenciamento da a√ß√£o dessas mulheres negras, compondo uma forma singular de exerc√≠cio do biopoder no sentido foucaultiano. Ricardo Alexino Ferreira prop√Ķe o conceito de Etnomidialogia como um campo de conhecimento voltado a refletir sobre os tensiona- mentos existentes entre a emerg√™ncia da agenda das diversidades (√©tnica, de g√™nero, de orienta√ß√£o sexual) e a concentra√ß√£o do poder midi√°tico. Enfatizando a diversidade √©tnica, em particular a situa√ß√£o do negro e da negra no Brasil. Alexino destaca o ano de 1988, do centen√°rio da Aboli√ß√£o e da promulga√ß√£o da Constituinte Cidad√£, como um ponto de inflex√£o em que esse tensionamento chega a um limite de visibilidade, obrigando a um reposicionamento dos dirigentes dos aparelhos midi√°ticos. Assim, parte da agenda da diversidade √©tnica foi sendo incorporada na narrativa midi√°tica. Para Alexino, a inst√Ęncia do poder midi√°tico se transforma em um novo l√≥cus de enfrentamentos, o autor defende a necessidade de um aprofundamento desses debates na forma√ß√£o dos profissionais de comunica√ß√£o, uma politiza√ß√£o desses na perspectiva do entendimento da agenda das diversidades. O artigo de Dennis de Oliveira defende a ideia de que as narrativas midi√°ticas, com as suas singularidades, criam uma sensa√ß√£o de inseguran√ßa plena e permanente. Essa inseguran√ßa permanente est√° presente, por exemplo, nos reality shows e nos concursos televisivos (como um pretenso modelo ‚Äúpedag√≥gico‚ÄĚ), no notici√°rio sobre viol√™ncia e nas l√≥gicas narrativas das teledramaturgias em que h√° o confronto entre her√≥is e vil√Ķes. Com isso, cria-se uma ambi√™ncia de disputa permanente, de responsabiliza√ß√£o individual pelo sucesso e fracasso, desmontando qualquer ideia de pactua√ß√£o social, de estruturas de soli- dariedade. Nessa ambi√™ncia se constitui uma tr√≠ade discursiva composta por narrativas salvacionistas (de cunho religioso), meritocr√°ticas e de securitiza√ß√£o. Essa sensa√ß√£o de inseguran√ßa perene condiciona os sujeitos a viver em ‚Äúestados de s√≠tio permanentes‚ÄĚ em que a viol√™ncia pode ser exercida sem qualquer controle, da√≠ a naturaliza√ß√£o dos mecanismos de exterm√≠nio da juventude negra na periferia. Enfim, os tr√™s artigos apresentam contribui√ß√Ķes densas e importantes para se refletir que o papel da m√≠dia em rela√ß√£o a esses processos de exterm√≠nio √© muito mais complexo do que simplesmente um problema de deforma√ß√£o t√©cnica da cobertura jornal√≠stica sobre esses eventos. S√£o quest√Ķes hist√≥ricas e estruturais que est√£o no √Ęmago do problema. 

O bloco IV trata sobre o Encarceramento em massa e aborda o tema a partir da √≥tica das vidas prec√°rias, da necropol√≠tica, do racismo e da identidade. Paulo Cesar Malvezzi Filho apresenta o artigo ‚ÄúMassacre e responsabilidade na democracia do encarceramento em massa‚ÄĚ, no qual o autor discute a crise prisional como um projeto cujo intuito √© manter as hierarquias sociais e traz nuan√ßas do encarceramento, tais como a tortura e massacres em pres√≠dios brasileiros. No artigo ‚ÄúRacismo, vidas prec√°rias e o sistema de justi√ßa criminal como m√°quina necropol√≠tica‚ÄĚ, Juliana Bor- ges defende que o Sistema de Justi√ßa Criminal √© uma engrenagem necro- pol√≠tica que conduz vidas prec√°rias √† pris√£o em um cen√°rio neoliberal. Borges tamb√©m analisa as rela√ß√Ķes entre interseccionalidade e sistema prisional. Ao longo do texto, a autora destaca ainda o racismo como uma das ideologias fundadoras da sociedade brasileira e, portanto, uma das bases vitais para as desigualdades. Em ‚ÄúEncarceramento em massa: S√≠mbolo do Estado Penal‚ÄĚ, Alfredo Nateras Dom√≠nguez debate a criminaliza√ß√£o ocasionada por vincula√ß√£o a identidades desacreditadas na Am√©rica Latina. O pesquisador traz dados sobre o encarceramento de moradores das periferias de pa√≠ses como Honduras e Guatemala, aborda as viola√ß√Ķes de direitos humanos sofridas por esses presos e compara os pres√≠dios a campos de concentra√ß√£o, nos quais ocorrem exterm√≠nios silenciosos. Dina Alves, em ‚ÄúR√©s negras, ju√≠zes brancos: uma an√°lise da intersecciona- lidade de g√™nero, ra√ßa e classe na produ√ß√£o da puni√ß√£o em uma pris√£o paulistana‚ÄĚ, discute como a necropol√≠tica e o racismo s√£o estruturados na sociedade. A partir da pergunta: O que o encarceramento desproporcional de mulheres negras tem a nos dizer sobre o padr√£o de rela√ß√Ķes raciais no Brasil contempor√Ęneo? A autora levanta quest√Ķes importantes sobre a su- bordina√ß√£o racial das mulheres negras. 

No bloco V, cujo tema √© Criminaliza√ß√£o das drogas e ra√ßa, Valenzuela Arce, no artigo ‚ÄúCriminaliza√ß√£o das juventudes‚ÄĚdiscute o tema tr√°fico de drogas sob o marco proibicionista, demonstra como √© constitu√≠do um conjunto de mecanismos que implica um processo intenso de juvenic√≠dio na Am√©rica Latina. No artigo ‚ÄúA proibi√ß√£o de entorpecentes na Rep√ļblica: notas sobre eugenia, urbaniza√ß√£o e o racismo cient√≠fico‚ÄĚ, Eduardo Ribeiro dos Santos buscou averiguar a potencialidade de alguns conceitos produzidos durante o processo de restri√ß√£o legal de determinadas subst√Ęncias, que seleciona categorias criminais, seja pela agenda legislativa ou judici√°ria. Assim como observar a produ√ß√£o de discursos na academia m√©dica e atrav√©s de peri√≥dicos populares, que, em alguns aspectos, nos sirva para a apreens√£o e an√°lise de determinados dispositivos selecionados e acio- nados pelas rela√ß√Ķes raciais no Brasil. 

No bloco VI, intitulado Racismo institucional e estrutural, Fellipe Rodrigues Sousa e Silvio Luiz de Almeida apresentam o artigo ‚ÄúRa√ßa e Ra- cismo no Brasil ‚Äď Uma Perspectiva Estrutural‚ÄĚ, onde apresentam o concei- to de racismo estrutural como o enraizamento da ideologia racista na estrutura√ß√£o do Estado brasileiro. Vilma Reis, em seu artigo intitulado ‚ÄúMu- lheres negras – enfrentamento da viol√™ncia e racismo institucional‚ÄĚ, discute o enfrentamento da viol√™ncia e racismo institucional a partir de a√ß√Ķes de mulheres negras com vistas a uma reflex√£o sobre os sofrimentos e injusti√ßas sociais, falas de muita dor, morte, pris√Ķes, humilha√ß√Ķes, ‚Äúpol√≠ticas de morte‚ÄĚ e outros temas correlatos em territ√≥rios com grande presen√ßa de negros na cidade de Salvador. Juarez Tadeu de Paula Xavier, por sua vez, apresenta o artigo ‚ÄúRacismo estrutural: produ√ß√£o industrial da des- trui√ß√£o de corpos negros e n√£o normatiz√°veis‚ÄĚ, onde retoma o conceito de genoc√≠dio e racismo estrutural para discutir a aus√™ncia de solidariedade e empatia no pa√≠s que mais mata negros, pobres, jovens, mulheres, gays, l√©sbicas e transg√™neros no mundo. 

No cap√≠tulo VII – G√™nero e ra√ßa os autores discutem e analisam as intersec√ß√Ķes entre ra√ßa/cor, g√™nero e classe social, permeadas pela orienta√ß√£o sexual. Alessandro de Oliveira Campos problematiza em ‚ÄúMasculinidades negras, subjetividades e suas (des)humanidades‚ÄĚ como a socieda- de interage com o ‚Äúhomem negro‚ÄĚ, trazendo-nos as diversidades identi- t√°rias e socialmente constru√≠das nesse grupo. Partindo do princ√≠pio que o saber √© constru√≠do socialmente, o autor real√ßa a import√Ęncia de n√£o se negligenciar nenhuma forma de rela√ß√£o, nenhum discurso ou forma de linguagem. Jackeline Aparecida Ferreira Romio, no artigo, ‚ÄúFeminic√≠dio reprodutivo: ciclos de vida, ra√ßa, corpo e viol√™ncia institucional‚ÄĚ, discute as mortes de mulheres relacionadas √†s limita√ß√Ķes legais no acesso e ga- rantia dos direitos reprodutivos, especialmente das mulheres negras. Reafirma que a maioria dessas mortes poderiam ser evit√°veis. Cl√©lia Prestes, em ‚ÄúJuventudes negras amefricanas: genoc√≠dio como regra, sa√ļde como resist√™ncia‚ÄĚ, amplia e aprofunda a discuss√£o sobre o genoc√≠dio dos jovens negros, apontando como a necropol√≠tica atinge de forma dram√°tica tam- b√©m outros sujeitos, especialmente as mulheres. Evidencia que o genoc√≠- dio √© muito maior do que o n√ļmero (j√° muito alto) registrado de mortes de jovens negros. Segundo a autora, cada uma das mortes atinge outras pessoas vinculadas ao jovem, acarretando muitos √≥bitos, que n√£o s√£o contabilizados. Fl√°via Rios, em ‚ÄúG√™nero e ra√ßa no Brasil (1978-2018) movimentos sociais, sociedade civil e Estado‚ÄĚ, traz elementos importantes para o apro- fundamento da quest√£o. 

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Boaventura: o Colonialismo e o século XXI

√Č hora de declarar incumprida uma das grandes promessas modernas. O homem branco jamais aceitou a igualdade. Novas lutas precisar√£o imp√ī-la

Por Boaventura de Sousa Santos

 

Para Marielle Franco, in memoriam

O termo alem√£o¬†Zeitgeist¬†√© hoje usado em diferentes l√≠nguas para designar o clima cultural, intelectual e moral de uma dada √©poca, literalmente, o esp√≠rito do tempo, o conjunto de cren√ßas e de ideias que comp√Ķem a especificidade de um per√≠odo hist√≥rico. Na Idade Moderna, dada a persist√™ncia da ideia do progresso, uma das maiores dificuldades em captar o esp√≠rito de uma dada √©poca reside em identificar as continuidades com √©pocas anteriores, quase sempre disfar√ßadas de descontinuidades, inova√ß√Ķes, rupturas. E para complicar ainda mais a an√°lise, o que permanece de per√≠odos anteriores √© sempre metamorfoseado em algo que simultaneamente o denuncia e dissimula e, por isso, permanece sempre como algo diferente do que foi sem deixar de ser o mesmo. As categorias que usamos para caracterizar uma dada √©poca s√£o demasiado toscas para captar esta complexidade, porque elas pr√≥prias s√£o parte do mesmo esp√≠rito do tempo que supostamente devem caracterizar a partir de fora. Correm sempre o risco de serem anacr√īnicas, pelo peso da in√©rcia, ou ut√≥picas, pela leveza da antecipa√ß√£o.

Tenho defendido que vivemos em sociedades capitalistas, coloniais e patriarcais, por refer√™ncia aos tr√™s principais modos de domina√ß√£o da era moderna: capitalismo, colonialismo e patriarcado ou, mais precisamente, hetero-patriarcado. Nenhuma destas categorias √© t√£o controversa, quer entre os movimentos sociais, quer na comunidade cient√≠fica, quanto a de colonialismo. Fomos todos t√£o socializados na ideia de que as lutas de liberta√ß√£o anti-colonial do s√©culo XX puseram fim ao colonialismo que √© quase uma heresia pensar que afinal o colonialismo n√£o acabou, apenas mudou de forma ou de roupagem, e que a nossa dificuldade √© sobretudo a de nomear adequadamente este complexo processo de continuidade e mudan√ßa. √Č certo que os analistas e os pol√≠ticos mais avisados dos √ļltimos cinquenta anos tiveram a percep√ß√£o aguda desta complexidade, mas as suas vozes n√£o foram suficientemente fortes para p√īr em causa a ideia convencional de que o colonialismo propriamente dito acabara, com exce√ß√£o de alguns poucos casos, os mais dram√°ticos sendo possivelmente o Sahara Ocidental, a col√īnia hispano-marroquina que continua subjugando o povo saharaui e a ocupa√ß√£o da Palestina por Israel. Entre essas vozes, √© de salientar a do grande soci√≥logo mexicano Pablo Gonzalez Casanova com o seu conceito de colonialismo interno para caraterizar a perman√™ncia de estruturas de poder colonial nas sociedades que emergiram no s√©culo XIX das lutas de independ√™ncia das antigas col√īnias americanas da Espanha. E tamb√©m a voz do grande l√≠der africano, Kwame Nkrumah,¬† primeiro presidente da Rep√ļblica do Gana, com o seu conceito de neocolonialismo para caracterizar o dom√≠nio que as antigas pot√™ncias coloniais continuavam a deter sobre as suas antigas col√īnias, agora pa√≠ses supostamente independentes.

união política africana(Julius Nyerere, Kwame Nkrumah, W.E.B Dubois, e Jomo kenyatta)

Uma reflex√£o mais aprofundada dos √ļltimos 60 anos leva-me a concluir que o que quase terminou com os processos de independ√™ncia do s√©culo XX foi uma forma espec√≠fica de colonialismo, e n√£o o colonialismo como modo de domina√ß√£o. A forma que quase terminou foi o que se pode designar por colonialismo hist√≥rico caracterizado pela ocupa√ß√£o territorial estrangeira. Mas o modo de domina√ß√£o colonial continuou sob outras formas e, se as considerarmos como tal, o colonialismo est√° talvez hoje t√£o vigente e violento como no passado. Para justificar esta asser√ß√£o √© necess√°rio especificar em que consiste o colonialismo enquanto modo de domina√ß√£o. Colonialismo √© todo o modo de domina√ß√£o assente na degrada√ß√£o ontol√≥gica das popula√ß√Ķes dominadas por raz√Ķes etno-raciais. √Äs popula√ß√Ķes e aos corpos racializados n√£o √© reconhecida a mesma dignidade humana que √© atribu√≠da aos que os dominam. S√£o popula√ß√Ķes e corpos que, apesar de todas as declara√ß√Ķes universais dos direitos humanos, s√£o existencialmente considerados sub-humanos, seres inferiores na escala do ser, e as suas vidas pouco valor t√™m para quem os oprime, sendo, por isso, facilmente descart√°veis. Foram inicialmente concebidos como parte da paisagem das terras ‚Äúdescobertas‚ÄĚ pelos conquistadores, terras que, apesar de habitadas por popula√ß√Ķes ind√≠genas desde tempos imemoriais, foram consideradas como terras de ningu√©m,¬†terra nullius. Foram tamb√©m considerados como objetos de propriedade individual, de que √© prova hist√≥rica a escravatura. E continuam hoje a ser popula√ß√Ķes e corpos v√≠timas do racismo, da xenofobia, da expuls√£o das suas terras para abrir caminho aos megaprojetos mineiros e agroindustriais e √† especula√ß√£o imobili√°ria, da viol√™ncia policial e das mil√≠cias paramilitares, do tr√°fico de pessoas e de √≥rg√£os, do trabalho escravo designado eufemisticamente como ‚Äútrabalho an√°logo ao trabalho escravo‚ÄĚ para satisfazer a hipocrisia¬† bem-pensante das rela√ß√Ķes internacionais, da convers√£o das suas comunidades de rios cristalinos e florestas id√≠licas em infernos t√≥xicos de degrada√ß√£o ambiental. Vivem em zonas de sacrif√≠cio, a cada momento em risco de se transformarem em zonas de n√£o-ser.

As novas formas de colonialismo s√£o mais insidiosas porque ocorrem no √Ęmago de rela√ß√Ķes sociais, econ√īmicas e pol√≠ticas dominadas pelas ideologias do anti-racismo, dos direitos humanos universais, da igualdade de todos perante a lei, da n√£o-discrimina√ß√£o, da igual dignidade dos filhos e filhas de qualquer deus ou deusa. O colonialismo insidioso √© gasoso e evanescente, t√£o invasivo quanto evasivo, em suma, ardiloso. Mas nem por isso engana ou minora o sofrimento de quem √© dele v√≠tima na sua vida quotidiana. Floresce em¬†apartheids¬†sociais n√£o institucionais, mesmo que sistem√°ticos. Tanto ocorre nas ruas como nas casas, nas pris√Ķes e nas universidades como nos supermercados e nos batalh√Ķes de pol√≠cia. Disfar√ßa-se facilmente de outras formas de domina√ß√£o tais como diferen√ßas de classe e de sexo ou sexualidade mesmo sendo sempre um componente constitutivo delas. Verdadeiramente s√≥ √© capt√°vel em¬†close-ups, instant√Ęneos do dia-a-dia. Em alguns deles, o colonialismo insidioso surge como saudade do colonialismo, como se fosse uma esp√©cie em extin√ß√£o que tem de ser protegida e multiplicada. Eis alguns desses instant√Ęneos.

Ojos de Sur Caricaturas Cartoons

Primeiro instant√Ęneo.¬†Um dos √ļltimos n√ļmeros de 2017 da respeit√°vel revista cient√≠fica¬†Third World Quarterly,¬†dedicada aos estudos p√≥s-coloniais, inclu√≠a um artigo de autoria de Bruce Gilley, da Universidade Estadual de Portland, intitulado ‚ÄúEm defesa do colonialismo‚ÄĚ. Eis o resumo do artigo: ‚ÄúNos √ļltimos cem anos, o colonialismo ocidental tem sido muito maltratado. √Č chegada a hora de contestar esta ortodoxia. Considerando realisticamente os respectivos conceitos, o colonialismo ocidental foi, em regra, tanto objetivamente ben√©fico como subjetivamente leg√≠timo na maior parte dos lugares onde ocorreu. Em geral, os pa√≠ses que abra√ßaram a sua heran√ßa colonial tiveram mais √™xito do que aqueles que a desprezaram. A ideologia anti-colonial imp√īs graves preju√≠zos aos povos a ela sujeitos e continua a impedir, em muitos lugares, um desenvolvimento sustentado e um encontro produtivo com a modernidade. H√° tr√™s formas de estados fracos e fr√°geis recuperarem hoje o colonialismo: reclamando modos coloniais de governa√ß√£o; recolonizando certas √°reas; e criando novas col√īnias ocidentais‚ÄĚ.¬†O artigo causou uma indigna√ß√£o geral e quinze membros¬†do conselho editorial da revista demitiram-se. A press√£o foi t√£o grande que o autor acabou por retirar o artigo da vers√£o eletr√īnica da revista, mas permaneceu na vers√£o j√° impressa. Foi um sinal dos tempos? Afinal, o artigo fora sujeito a revis√£o an√īnima por pares. A controv√©rsia mostrou que a defesa do colonialismo estava longe de ser um ato isolado de um autor tresloucado.¬† ¬†

A “LIGA DAS GAROTAS ALEM√ÉS” DE HITLER

Segundo instant√Ęneo.¬†O¬†Wall Street Journal¬†de 22 de mar√ßo passado publicou uma¬†reportagem¬†intitulada ‚ÄúProcura de s√™men americano disparou no Brasil‚ÄĚ.¬† Segundo a jornalista, a importa√ß√£o de s√™men americano por mulheres solteiras e casais de l√©sbicas brasileiras ricas aumentou extraordinariamente nos √ļltimos sete anos e os perfis dos doadores selecionados mostram a prefer√™ncia por crian√ßas brancas e com olhos azuis. E acrescenta: ‚ÄúA prefer√™ncia por dadores brancos reflete uma persistente preocupa√ß√£o com a ra√ßa num pa√≠s em que a classe social e a cor da pele coincidem com grande rigor. Mais de 50% dos brasileiros s√£o negros ou mesti√ßos, uma heran√ßa que resultou de o Brasil ter importado dez vezes mais escravos africanos do que os Estados Unidos; foi o √ļltimo pa√≠s a abolir a escravatura, em 1888. Os descendentes de colonos e imigrantes brancos ‚Äď muitos dos quais foram atra√≠dos para o Brasil no final do s√©culo XIX e princ√≠pio do s√©culo XX quando as elites no governo procuraram explicitamente ‚Äėbranquear‚Äô a popula√ß√£o ‚Äď controlam a maior parte do poder pol√≠tico e da riqueza do pa√≠s. Numa sociedade t√£o racialmente dividida, ter descend√™ncia de pele clara √© visto muitas vezes como um modo de providenciar √†s crian√ßas melhores perspectivas, seja um sal√°rio mais elevado ou um tratamento policial mais justo‚ÄĚ.¬†

Terceiro instant√Ęneo.¬†Em 24 de mar√ßo o mais influente jornal da Africa do Sul,¬†Mail & Guardian,¬†publicou uma reportagem intitulada ‚ÄúGenoc√≠dio branco: como a grande mentira se espalhou para os Estados Unidos e outros pa√≠ses‚ÄĚ. Segundo o jornalista, ‚ÄúO Suidlanders, um grupo sul-africano de extrema direita, tem estabelecido contato com outros grupos extremistas nos Estados Unidos e na Austr√°lia, fabricando uma teoria da conspira√ß√£o sobre genoc√≠dio branco com o objectivo de conseguir apoio internacional para sul-africanos brancos. O grupo, que se auto-descreve como ‚Äėuma iniciativa-plano de emerg√™ncia‚Äô para preparar uma minoria sul-africana de crist√£os protestantes para uma suposta revolu√ß√£o violenta, tem-se relacionado com v√°rios grupos extremistas (alt-right) e seus influentes contatos midi√°ticos nos Estados Unidos para erguer uma oposi√ß√£o global √† alegada persegui√ß√£o a brancos na √Āfrica do Sul‚Ķ Na semana passada, o, ministro australiano dos Assuntos Internos, disse ao¬†Daily Telegraphque estava considerando a concess√£o de vistos r√°pidos para agricultores sul-africanos brancos, os quais, alegava o ministro, precisavam de ‚Äėfugir de circunst√Ęncias atrozes‚Äô para ‚Äėum pa√≠s civilizado‚Äô. Segundo o ministro, os ditos agricultores ‚Äėmerecem aten√ß√£o especial‚Äô por causa de ocupa√ß√£o de terras e viol√™ncia ‚Ķ¬† Tem tamb√©m sido dada mais aten√ß√£o a agricultores sul-africanos brancos na Europa, onde pol√≠ticos da extrema direita com contatos diretos com a extrema direita (alt-right) nos Estados Unidos t√™m solicitado ao Parlamento Europeu que intervenha na √Āfrica do Sul. Agentes pol√≠ticos contra os refugiados no Reino Unido est√£o igualmente ligados √† causa‚ÄĚ.

A grande armadilha do colonialismo insidioso é dar a impressão de um regresso, quando o que regressa nunca deixou de estar.

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Originalmente publicado no site Outras Palavras Boaventura: o Colonialismo e o século XXI-02/04/2018

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Clóvis Moura: O racismo como arma ideológica de dominação

Salve! A um tempo quero publicar por aqui o pensamento do Cl√≥vis Moura! Intelectual preto que ainda esta a margem da sociologia brasileira e da branquitude como um todo. Meu objetivo √© simples na medida que vou me debru√ßando sobre seus textos, compartilho por aqui! Tem muitos estudos sobre o pensamento do Cl√≥vis Moura (ainda bem n√©) ūüôā e pretendo traze-los por aqui tamb√©m.

O convite esta feito! Boa leitura para todos/todas nós!


Continuar lendo Clóvis Moura: O racismo como arma ideológica de dominação
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SEMIN√ĀRIO

TRADI√á√ēES AFRICANAS E RACISMO

Original post do Site Inzotumbansi.org

A liberdade de cren√ßa √© um direito assegurado na Constitui√ß√£o Federal que necessita urgentemente de validade pr√°tica. Ainda que intoler√Ęncia religiosa seja considerada um crime de √≥dio, ela continua acontecendo no Brasil e s√£o as religi√Ķes de matrizes africanas que mais sofrem persegui√ß√£o.
Se não fosse a bravura e resistência das sacerdotisas e sacerdotes, os Povos de Terreiros já teriam sido sepultados pelo racismo.

 


Neste dia 21 de Janeiro comemora-se o Dia Nacional de Combate √† Intoler√Ęncia Religiosa, que foi oficializada em 2007 para rememorar o dia do falecimento da Iyalorix√° M√£e Gilda, do terreiro Ax√© Abass√° de Ogum (BA), v√≠tima de intoler√Ęncia por ser praticante de religi√£o de matriz africana. A sacerdotisa foi acusada de charlatanismo, sua casa foi atacada e pessoas da comunidade foram agredidas.

Aproveitando a data para estimular o respeito, toler√Ęncia e o di√°logo inter-religioso, o mandato do vereador Toninho V√©spoli, o Ilabantu (Instituto Latino Americano de Tradi√ß√Ķes Bantu), a Associa√ß√£o de Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana Katina da Silva, e a Banda Mbeji¬†Ariane Molina, promove o semin√°rio ‚ÄúTradi√ß√Ķes Africanas e Racismo‚ÄĚ.

Dia: 21 de janeiro de 2017 Рàs 09:00 horas

Sindicato dos Metrovi√°rios – Rua Serra do Japi, 31 – Metr√ī Tatuap√© – S√£o Paulo/SP..

Programação

10h00: Abertura Tradicional/ Saudação aos ancestrais
Coordena√ß√£o: Tata Nkisi Katuvanjesi ‚Äď Walmir Damasceno ‚Äď Coordenador nacional do ILABANTU
10h30: O poder legislativo e as a√ß√Ķes politicas
Participa√ß√£o: Vereador Toninho V√©spoli e Roberto de Oliveira ‚Äď Chefe de Gabinete da Deputada Leci Brand√£o
11h00: Roda de Samba com Grupo Lim√£o Rosa ‚Äď sob coordena√ß√£o do Mestre Lim√£ozinho e Professora Rose
11h30: Debate: Tradição, Experiência, Saberes e Viveres Ancestrais
Coordenador: Deivison Nkosi ‚Äď Cientista Social e do Grupo Kilombagem
Participação:
1. Mam`etu Luijidi, M√£e Ofa, (Kupapa Nsaba/RJ);
2. √Ćy√† Wanda d`√ísun – Il√© √Ćy√† Mi √ísun Muiywa e Afox√© Ile Omo Dada;
3. Niyi Tokunbo Mon’a-Nzambi, especialista em línguas africanas;
4. Congolês Samba Tomba, especialista em história da tradição bantu-kongo;
5. Baba Mario Filho On√≠wind√© If√°ŠĻ£ŠĽćl√° If√°rin√ļ Olu – (Major da PM);
12h30: Almoço
14h30: Interven√ß√£o Cultural: Banda Mbeji ‚Äď sob coordena√ß√£o da Musicista e antrop√≥loga Ariane Molina
15h00: Debate: Garantia de Direitos, Respeito e Combate ao Racismo
Coordena√ß√£o: Liliane Braga ‚Äď Maganza Ndembwemin
Participação:
1. Haydée Paixão (Advogada) ativista do movimento negro e de povos de terreiros;
2. Dote José Almir, advogado criminalista e membro integrante do Terreiro do Bogun (Salvador, Bahia);
3. Tata Nkisi Mutadiamy ‚Äď Mauricio F Santos ‚Äď Inzo Mutaloomb√ī/SP
4. Damien-Adia Marassa, doutorando da Duke University(EUA);
5. Baba Anselmo Bara Sejy Esu Abyy
16h30: Intervenção Cultural: Cultura dos Tambores
17h30: Encerramento

Informa√ß√Ķes: 4165-4333 ou em https://www.facebook.com/events/1071253369686692/

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Mem√≥rias de Az√Ęnia! (√Āfrica do Sul e Nam√≠bia)

Celebração Kwanzaa, Data: 26 de Dezembro de 2015 Local: Johannesburgo.
Celebração Kwanzaa, data: 26 de dezembro de 2015, local: Johannesburgo.

Eu realmente gostaria de ter escrito muitos textos quando estava em Az√Ęnia, mas infelizmente nem sempre as coisas s√£o como planejamos, l√° eu n√£o tinha tempo de parar e escrever, e como estava com dificuldade de conex√£o com a internet, dificultou um pouco mais. Acredito que seja importante relatar este momento, pois de onde eu falo ainda somos muito poucos que tiveram e tem a oportunidade de fazer um interc√Ęmbio cultural desse tipo. Fiquei 4 meses na √Āfrica do Sul (nome denominado pelo colonizador), na cidade de Johanesburgo (entre 7 de setembro de 2015 a 1 de janeiro de 2016). A realiza√ß√£o desta incr√≠vel viagem foi atrav√©s de longos anos em um trampo (foi preciso 10 anos em um emprego para fazer um interc√Ęmbio), e atrav√©s tamb√©m do apoio do coletivo Kilombagem, do qual fa√ßo parte. Ir para o Continente Africano foi muito mais do que apenas um interc√Ęmbio: representou a volta de uma filha a terra origin√°ria, representou todos do coletivo Kilombagem, representou todos os afrodescendentes fora do continente africano, representou a for√ßa de todas as fam√≠lias africanas na di√°spora que lutam todos os dias para garantir o m√≠nimo de sobreviv√™ncia para os seus, como minha m√£e, mulher preta, guerreira, faxineira, que sonhava em ser psic√≥loga, mas devido a dureza que o sistema escravocrata e capitalista proporcionou para n√≥s, afrodescendentes, foi obrigada a trocar a sala de aula pelo trabalho na planta√ß√£o de caf√© com apenas 7 anos de idade.

Chegando em Johanesburgo uma organiza√ß√£o chamada Ebukhosini Solutions me recebeu com muito cuidado e alegria. Como eu tive a oportunidade de ficar hospeda nesta institui√ß√£o, hoje eu entendo que √© muito mais do que uma empresa empreendedora social, √© uma fam√≠lia pan-africanista, kemetism e vegana. O l√≠der, respons√°vel e diretor executivo da organiza√ß√£o √© um pan-africanista chamado Baba Buntu, nascido em uma ilha na Am√©rica Central, mas j√° vive h√° mais de 10 anos na √Āfrica do Sul. Esta organiza√ß√£o oferece consultas e servi√ßos relacionados como desenvolvimento da comunidade, capacita√ß√£o de jovens, treinamento de lideran√ßa, transforma√ß√£o social, eventos culturais, produ√ß√£o e educa√ß√£o centrada africana. Algumas atividades desenvolvidas s√£o: semin√°rios, palestras, Kemetic Yoga (√© uma forma eg√≠pcia africana de respira√ß√£o, movimento e medita√ß√£o) e o Kwanzaa. Eu aprendi muito nesta organiza√ß√£o, desde a sonhada disciplina revolucion√°ria que muitos coletivos se esfor√ßam e lutam para conseguir implantar, at√© um novo olhar para a quest√£o da alimenta√ß√£o, pois como a fam√≠lia √© vegana, eles n√£o v√™em a alimenta√ß√£o como algo √† parte da revolu√ß√£o, √© como se fosse uma coisa s√≥. Confesso que antes da viagem o m√°ximo que conseguia fazer era um ovo frito, hoje consigo cozinhar v√°rios saborosos legumes e lembro como se fosse hoje a fala da Mama T (esposa do Baba Buntu): ‚ÄúVoc√™ precisa aprender cozinhar, n√£o para fazer para algu√©m, mas sim para voc√™ mesma‚ÄĚ.

Ao chegar na √Āfrica do Sul passei pelo normal processo de adapta√ß√£o. Mesmo correndo o risco de ser mal interpretada querendo ou n√£o, meu contato com a cultura sul-africana foi atrav√©s de um olhar de uma afrodescendente na di√°spora, nascida em terras brasileiras, no continente sul americano, colonizado por portugueses, descendente de escravizados, de fam√≠lia da classe trabalhadora e humilde. Todos estes aspectos n√£o s√£o irrelevantes, pelo contr√°rio, influenciaram a forma que eu me deparei com a cultura sul-africana. Por mais que o povo negro compartilhe com muitas coisas similares em qualquer parte desse planeta, a coloniza√ß√£o deixou rastro em todas as partes que ela tenha se instalado. N√£o d√° para negar a influ√™ncia inglesa em alguns pratos, na forma de se vestir, na l√≠ngua falada comercialmente, na arquitetura das casas, escolas e pr√©dios (lembrava muito os filmes estadunidenses com aquelas escadas do lado de fora dos pr√©dios). Mas isto n√£o significa que aspectos tradicionais da cultura sul africana tenham se perdido ou n√£o existam mais, pelo contr√°rio, o contraste entre a cultura inglesa, europeia, indiana e a cultura sul africana √© muito presente e vis√≠vel de diferenciar. Outra coisa que n√£o d√° para negar (talvez muitos torcer√£o o nariz) √© que o continente africano n√£o √© mais o mesmo que 500 anos atr√°s, n√£o √© mais o mesmo quando nossos ancestrais foram sequestrados, n√£o √© mais o mesmo ap√≥s a invas√£o e a coloniza√ß√£o europeia, sem falar do processo de globaliza√ß√£o que n√£o poupou nenhum pa√≠s intitulado como democr√°tico.

Na √Āfrica do Sul h√° 11 l√≠nguas oficiais (zulu, ndebele, sesotho do sul, sesotho do norte, swazi, tswana, tsonga, venda, xhosa, afric√Ęner e ingl√™s). Nas ruas de Johanesburgo e Pretoria a maioria da popula√ß√£o sul africana negra fala zulu, j√° os sul africanos brancos falam afric√Ęner. Os sul africanos falam mais de 3 l√≠nguas na m√©dia, √© algo muito comum para eles. O ingl√™s √© reconhecido como l√≠ngua do com√©rcio e da ci√™ncia, mas n√£o necessariamente √© a l√≠ngua mais falada. Eu lembro que a primeira vez que eu peguei √īnibus em Johanesburgo, eu saudei um ‚ÄúBom dia‚ÄĚ para um motorista negro em ingl√™s, ele n√£o respondeu. Depois entendi como a quest√£o da l√≠ngua tradicional √© importante no continente africano, e o ingl√™s √© a l√≠ngua do colonizador. Se Crummell fosse do nosso tempo ela jamais defenderia a ado√ß√£o da l√≠ngua inglesa como a l√≠ngua a ser implantada na constru√ß√£o de um estado negro africano. J√° para n√≥s descendentes de africanos escravizados e colonizados a l√≠ngua que n√≥s falamos que √© a l√≠ngua do colonizador √© apenas uma l√≠ngua. Fiquei pensando em que momento e de qual forma a l√≠ngua tradicional falada pelos africanos escravizados se perdeu, pois se tivesse se mantido, talvez n√≥s saber√≠amos de quais reinos nossos ascendentes eram origin√°rios.

Na minha percep√ß√£o a l√≠ngua pode se tornar um dos fatores determinantes de separa√ß√£o e impedimento de unidade de um povo. Muitas vezes me sentia isolada dos interessantes debates que eles travavam pelo fato de n√£o dominar o ingl√™s ou o zulu. Ao que me parece, o Brasil tamb√©m est√° isolado do mundo, como se estivesse em uma ilhazinha bem distante, como se apenas pa√≠ses ‚Äď que, ali√°s, muito poucos – que falam portugu√™s conhecessem um pouco do tal pa√≠s chamado Brasil. Geograficamente, o Brasil est√° mais perto da √Āfrica do Sul do que os Estados Unidos, mas na pr√°tica est√° muito mais longe da √Āfrica do Sul do que os EUA, e n√£o √© s√≥ porque os Estados Unidos √© o imp√©rio dominante no mundo, a l√≠ngua √© um fator determinante tamb√©m de aproxima√ß√£o. Muitos sul africanos sabem da viol√™ncia policial contra a popula√ß√£o negra nos Estados Unidos, j√° ouviram falar do Movimento ‚ÄúBlack Lives Matter‚ÄĚ, mas n√£o sabem da viol√™ncia policial contra a popula√ß√£o negra no Brasil e nunca ouviram falar da ‚ÄúCampanha Reaja Ou Ser√° Morto, Reaja Ou Ser√° Morta!

Em Johanesburgo, no bairro de Braamfontein, estudei em uma escola de ingl√™s chamada ABC International e l√° tive grande a oportunidade de ter contato com jovens estudantes de outros pa√≠ses, como Angola, Mo√ßambique, Rep√ļblica Democr√°tica do Congo, Rep√ļblica do Congo, L√≠bia, Burkina Faso, Som√°lia, Gab√£o, Burundi e Turquia. A grande maioria destes estudantes era muito jovem, de classe m√©dia, que estava estudando primeiro ingl√™s l√° para depois ingressar em uma faculdade na √Āfrica do Sul. Tirando os estudantes da Turquia que eram a minoria, a maior parte dos estudantes era de negros. Conversando com muitos estudantes africanos, eles diziam que as universidades de seus pa√≠ses n√£o eram boas e reconhecidas em todo Continente Africano como as universidades da √Āfrica do Sul. Um dado importante √© que as universidades na √Āfrica do Sul s√£o todas pagas, seja p√ļblica ou privada, os estudantes pagam e os pre√ßos n√£o s√£o acess√≠veis. Em 21 de outubro de 2015, estudantes protestaram contra o aumento do pre√ßo das matr√≠culas universit√°rias[i], como a pol√≠cia √© igual em qualquer parte deste planeta, recebeu os estudantes com bala de borracha e bombas de g√°s lacrimog√™neo. Gostaria de ter acompanhado esta manifesta√ß√£o, e outras tamb√©m, pois os sul africanos s√£o muito ativos na luta por melhores condi√ß√Ķes, pois quase toda semana havia um protesto, mas em todas as vezes que estava acontecendo uma manifesta√ß√£o, eu estava tendo aula.

Na escola, teve v√°rios momentos que eu jamais esquecerei, um desses foi quando eu perguntei para uma senhora da L√≠bia o que ela achava do ex-presidente Gaddafi (como ela fala √°rabe, a nossa comunica√ß√£o era em ingl√™s, na verdade tentava me comunicar em ingl√™s, pois n√£o era algo f√°cil). Ela come√ßou a chorar, disse que o Gaddafi era louco, mas antes da derrubada dele, a L√≠bia tinha escolas, boa educa√ß√£o, n√£o tinha roubo, sequestro e as pessoas deixavam as portas abertas da casa e ningu√©m entrava para roubar, e hoje est√° tudo destru√≠do, n√£o d√° mais para viver l√°. Eu quase chorei junto com ela, e lembrei da esperan√ßa que muitos depositaram com a entrada do primeiro presidente negro nos Estados Unidos, at√© Nobel da Paz ele ganhou em 2009, e √© o mesmo presidente que autorizou a interven√ß√£o na L√≠bia. Independente das contradi√ß√Ķes que era o Gaddafi, a L√≠bia tinha o maior IDH ‚Äď √ćndice de Desenvolvimento Humano – de todo o Continente Africano.

A maioria dos professores na escola era brancos, desta forma o meu √ļnico contato com os brancos foi atrav√©s da escola. A rela√ß√£o entre professores e alunos era muito boa, saud√°vel, respeitosa e tranquila. Um exemplo que ilustra bem esta rela√ß√£o foi quando eu me despedi de uma atenciosa professora de origem europeia e ela me passou seu WhatsApp e me pediu o meu contato, e disse que se eu precisasse de alguma ajuda ou tivesse d√ļvida com o ingl√™s era para contat√°-la. Mas como nem tudo s√£o flores, a rela√ß√£o entre os sul africanos brancos de origem europeia com os sul africanos negros era bem diferente e isso se refletia dentro da sala de aula. O conflito e a divis√£o que o apartheid proporcionou √© bem vis√≠vel e muito presente ainda hoje. A mesma professora prestativa que se colocou √† disposi√ß√£o para me ajudar √© a mesma que em v√°rios momentos fez coment√°rios problem√°ticos e muitos entenderiam como racistas em rela√ß√£o aos sul africanos negros, na atual conjuntura, se fosse em alguns espa√ßos aqui no Brasil, j√° teria dado processo e nota de rep√ļdio. Mas entre os professores brancos o que mais me surpreendeu foi a rela√ß√£o que eles t√™m com a sua identidade europeia. Exceto um professor ingl√™s, todos os demais professores brancos que eu tive contato nasceram na √Āfrica do Sul e apenas seus av√≥s ou bisav√≥s n√£o tinham nascidos no continente africano, mas todos remetiam sua identidade europeia como se estivesse apenas de passagem no pa√≠s africano, como se fossem verdadeiros turistas que em uma determinada data regressariam para seus pa√≠ses de origem.

Algo tamb√©m muito presente dentro da sala de aula era a explicita desaprova√ß√£o que os professores brancos tinham em rela√ß√£o ao atual Presidente Jacob Zuma. (Zuma √© de origem Zulu e faz parte do mesmo partido do Nelson Mandela, ANC: Congresso Nacional Africano). Na escola tinha um professor branco, nascido na √Āfrica do Sul, mas de origem europeia, muito simp√°tico, n√£o tinha ideias reacion√°rias, era contra o Estado, contra o atual sistema e ateu, vivia se queixando da atual pol√≠tica do presidente Zuma que favorecia apenas a popula√ß√£o negra. Ele dizia que se voc√™ fosse negro voc√™ teria um emprego garantido, agora se voc√™ fosse branco n√£o seria f√°cil conseguir um emprego. Era un√Ęnime a ideia entre os professores brancos de que o Presidente Zuma era burro e sem compet√™ncia para administrar o pa√≠s. J√° o ex-presidente Nelson Mandela era bem visto, em nenhum momento eu presenciei algum coment√°rio negativo ou alguma cr√≠tica dos professores brancos ao Mandela.

Confesso que no in√≠cio estranhei bastante a vis√≠vel separa√ß√£o entre brancos e negros presente na √Āfrica do Sul, h√° bairros de brancos, negros e de indianos. N√£o que essa separa√ß√£o no Brasil n√£o esteja presente, mas voc√™ apenas consegue visualizar essa separa√ß√£o em espa√ßos elitizados. Para os brasileiros que n√£o tem a consci√™ncia de classe, ra√ßa e g√™nero, ou para os estrangeiros ou turistas que visitam o Brasil, realmente acreditam que o Brasil √© um para√≠so racial, o mito da democracia racial √© algo muito presente. Na √Āfrica do Sul o apartheid acabou oficialmente em 1994, mas ainda √© algo muito recente, minha gera√ß√£o vivenciou este desumano sistema, √© como se fosse uma mancha que paira no pa√≠s, que afeta todos, n√£o deixando ningu√©m imune. Na minha percep√ß√£o, √© algo que n√£o foi superado e resolvido. Para ilustrar como este tema √© muito complexo, um jovem estudante do Gab√£o chamado Axel, uma vez disse na sala de aula para uma professora que, para ele, o apartheid n√£o tinha acabado, s√≥ tinha mudado de forma, ela respondeu que n√£o era bem assim, pois hoje as pessoas est√£o juntas no supermercado.

O racismo est√° presente na √Āfrica do Sul e √© muito forte. Comparando o racismo no Brasil e o racismo na √Āfrica do Sul, entendo que √© algo que n√£o d√° para mensurar qual √© o pior ou qual √© o menos pior, pois o racismo √© racismo e √© ruim em qualquer lugar desta gal√°xia. Mas avalio que o racismo que existe na √Āfrica do Sul √© t√£o complexo quanto o racismo que existe no Brasil, √© claro que a forma como o racismo se articula e atua nos dois pa√≠ses √© bem diferente. Na √Āfrica do Sul h√° uma enorme quantidade de representatividade negra atuando em v√°rios espa√ßos, na televis√£o, na pol√≠tica, h√° uma classe m√©dia negra consider√°vel e mesmo correndo o risco de estar errada, entendo que h√° uma burguesia negra consolidada ou em processo de consolida√ß√£o. Nas ruas, v√°rias BMW dirigidas por negros, nos Shopping Center estilo JK Iguatemi e Cidade Jardim h√° v√°rios negros e n√£o trabalhando, e sim comprando e passeando, h√° bairros nobres e elitizados de negros… A representatividade est√° presente, mas o racismo tamb√©m est√°, h√° uma enorme desigualdade social e racial, muito negros e brancos pobres, mas √≥bvio que a pobreza se concentra em maior medida na popula√ß√£o negra, mas isso n√£o significa que n√£o tenha brancos pobres. H√° muitos moradores de rua, alto √≠ndice de criminalidade, muitos negros est√£o fora das universidades e desempregados. No Brasil os debates de empoderamento e representatividade para o povo negro est√£o muito presentes, e entendo que estes dois temas s√£o importantes, mas acredito que √© um erro focarmos apenas nestes dois temas para supera√ß√£o do racismo, pois j√° se mostraram insuficientes.

A √Āfrica do Sul √© considerada um pa√≠s em desenvolvimento, tem o 2¬ļ maior PIB do Continente Africano, s√≥ perdendo para a Nig√©ria e faz parte do BRICS. H√° casas, ruas, lojas, escolas, shopping, museus, hospitais, igrejas (a Igreja Universal tamb√©m est√° presente na √Āfrica do Sul) e casas noturnas de alt√≠ssimo padr√£o, como tamb√©m h√° bols√Ķes de pobreza, alto √≠ndice de criminalidade e desigualdade social. H√° uma enorme quantidade de estrangeiros africanos de outras partes do continente. H√° muitos estrangeiros que v√£o para estudar, ou em busca de melhores condi√ß√Ķes de vida e trabalho. Como a taxa de desemprego n√£o √© baixa, a procura por emprego entre sul africanos e estrangeiros acaba caminhando para uma disputa que se transforma em xenofobia. A mais recente onda de xenofobia ocorreu em mar√ßo de 2015, deixando 7 mortos e 307 presos[ii]. A divis√£o entre sul africanos negros e estrangeiros negros est√° presente na √Āfrica do Sul. Na escola, todas as vezes que eu perguntava para os estudantes estrangeiros o que eles achavam dos sul africanos as respostas eram sempre as mesmas coisas. Na vis√£o dos estudantes, os sul africanos n√£o s√£o pessoas do bem e muito racistas devido a onda de viol√™ncia contra estrangeiros negros. Eu perguntava se a onda de viol√™ncia contra os estrangeiros negros n√£o era uma quest√£o de xenofobia e n√£o racismo, muitos concordavam com minha reflex√£o, mas teve um jovem angolano que questionou argumentando a seguinte quest√£o: se √© apenas xenofobia, como voc√™ explica a onda de viol√™ncia apenas contra estrangeiros negros e n√£o com estrangeiros brancos? Analisando hoje essa quest√£o, entendo que ser apenas preto n√£o subentende que estaremos unidos enquanto povo em lugar algum, pois a escravid√£o e a coloniza√ß√£o nos dividiram e a luta de classes ainda nos divide.

Como em Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné Bissau falam o português, muitos sul africanos achavam que eu era de algum desses países e o tratamento que eles me davam era de um jeito, quando eu dizia que era brasileira, claramente o tratamento mudava. Vários africanos falavam que nunca tinham visto uma brasileira, de fato não há muitos brasileiros como angolanos ou moçambicanos, mas na verdade quando eles diziam que nunca tinham visto uma brasileira, eles estavam se referindo a brasileiros negros, pois mais de uma pessoa chegou a comentar que pensava que não existiam negros no Brasil. Essa questão nos fazem pensar qual a imagem que a elite brasileira passa de sua população lá fora, haja vista que o Brasil é o segundo país em população negra do mundo, só perdendo para a Nigéria. Outra questão para refletirmos é: quem são na sua grande maioria os brasileiros que viajam para fora do Brasil?

A quest√£o racial tamb√©m √© complexa na √Āfrica do Sul. No Brasil, os afrodescendentes que mais se aproximam do branco conseguem circular em alguns espa√ßos mais do que os afrodescendentes mais retintos como j√° bem estudado pelo Cl√≥vis Moura. J√° na √Āfrica do Sul, os miscigenados chamados de ‚Äúcolored‚ÄĚ tinham alguns privil√©gios na √©poca do apartheid, logo a separa√ß√£o entre miscigenado e sul africanos est√° presente no pa√≠s. N√£o s√£o todos os africanos que t√™m consci√™ncia racial, nem todos s√£o pan-africanista ou conhecem pouco sobre esta ideologia, logo deixando de lado o romantismo, n√£o s√£o todos os africanos que consideram os afrodescendentes na di√°spora como origin√°rios de um povo s√≥, e sim apenas americanos, latinos, brasileiros ou at√© mesmo ‚Äúcolored‚ÄĚ.

Eu tive a grande oportunidade de ter contato com africanos de outras nacionalidades dentro da organiza√ß√£o Ebukhosini Solutions. Fiquei muita pr√≥xima de dois talentosos m√ļsicos irm√£os ganenses chamados Ofoe e Tetteh. A intelig√™ncia, gentileza e sensibilidade deles eram incr√≠veis, n√≥s fal√°vamos sobre v√°rios temas complexos como machismo, feminismo, estupro, capitalismo, religi√£o, sexualidade…. A conex√£o com eles dois era t√£o especial que talvez meus ancestrais sejam da regi√£o que hoje √© denominada Gana, apesar de que algumas pessoas disseram para mim que meus tra√ßos s√£o parecidos com os africanos da regi√£o da Eti√≥pia. Fiquei muita pr√≥xima tamb√©m de uma linda e guerreira ruandesa chamada Ukwezi (Ukwezi significa lua em Kinyarwanda) e de sua irm√£ mais nova chamada Pamela. Fiquei muito amiga delas, a Ukwezi tem uma linda filhinha chamada Izaro. Sempre que poss√≠vel eu tinha aula de ingl√™s com a Ukwezi, na verdade era muito mais do que aulas de ingl√™s, eram aulas para a vida, ela era muito inteligente, n√≥s fal√°vamos de racismo, feminismo, movimento rastaf√°ri, l√≠deres revolucion√°rios, revolu√ß√£o e capitalismo. Ao contr√°rio de alguns grupos, organiza√ß√Ķes e coletivos negros aqui no Brasil que negam ou se recusam a falar sobre o estrago do capitalismo para o povo negro, em todas as conversas sobre capitalismo que eu tive com os africanos (sul africanos, ganenses e ruand√™s) esse tema est√° muito √≥bvio, eles entendem e visualizam nitidamente o problema que o sistema capitalista gerou para o continente africano.

Os jovens sul africanos usam roupas bem parecidas com o estilo estadunidense, mas as roupas tradicionais africanas est√£o presentes nas ruas, nas lojas e nos eventos que eu tive a oportunidade de participar. Achei muito bacana o estilo das sul africanas, elas usam aqueles chap√©us chiques que aqui no Brasil s√≥ vimos nos filmes estadunidenses. O estilo de cabelo varia bastante: cabelos com tran√ßas, cabelos raspados, cabelos alisados, cabelos naturais e cabelos colocados (brazilian hair √© o nome denominado pelas sul africanas, faz o maior sucesso no continente africano). H√° muitos sal√Ķes de beleza em Johanesburgo (eu vi bastante) e o interessante √© que a foto da modelo estampada na maioria dos sal√Ķes de beleza √© da Rihanna. Diferente do Brasil, a diva na √Āfrica do Sul √© a Rihanna, e n√£o a Beyonc√©. Para todas as meninas que eu perguntava, preferiam a Rihanna a Beyonc√©. Acredito que alguns dos motivos da prefer√™ncia pela Rihanna s√£o: primeiro, como elas falam tamb√©m ingl√™s, conseguem entender a mensagem que a Beyonc√© e a Rihanna passam; segundo, a Rihanna representa a ideia de supera√ß√£o e possibilidade, pois nasceu em uma pequena e desconhecida ilha chamada Barbados e hoje faz sucesso no mundo inteiro.

A √Āfrica do Sul tem uma vasta e rica cultura, al√©m das culturas tradicionais, h√° muitos estrangeiros de outros pa√≠ses do continente africano. Em Johanesburgo tem um importante e interessante bairro pan-africanista chamado Yeoville, neste bairro h√° muito afrodescendentes da di√°spora e africanos de outros pa√≠ses do continente africano como Nig√©ria, Gana, Congo, Angola, Mo√ßambique…. pelo que eu entendi √© considerado um bairro perif√©rico tamb√©m. Neste bairro tem uma livraria com v√°rios livros com pre√ßos acess√≠veis de autores pan-africanistas. √Č neste bairro que eu fazia Kemetic Yoga, essa atividade √© oferecida gratuitamente todos os s√°bados pela organiza√ß√£o Ebukhosini Solutions. Em cada encontro era um volunt√°rio que se dedicava a passar seus conhecimentos, eu tive alegria de fazer aulas com a Mama T, Siyabonga, Pitsira, Ursula e Ted Niacky (com ele eu fiz uma interessante aula de Kemetic Boxing). Nesse bairro tem muitos rastas tamb√©m, com muitas cores do reagge e do pan-africanismo, h√° imagens do Bob Marley e Fela Kuti.

Na primeira semana que eu cheguei na √Āfrica do Sul eu fui para um maravilhoso show de jazz em Johanesburgo. O jazz e soul est√£o muito presentes no pa√≠s, eu lembro que uma vez entrei em um √īnibus ao som de Billy Paul ‚Äď can√ß√£o Me and Mrs. Jones. √Č √≥bvio que o hip hop e os estilos musicais tradicionais africanos tamb√©m est√£o presentes no pa√≠s. Mas o estilo musical que os jovens escutam bastante √© o house music, na verdade n√£o conheci ningu√©m que n√£o gostasse de house music. Eu lembro que no dia do meu anivers√°rio eu fui para uma festa chamada ‚ÄúObrigado‚ÄĚ, nesta festa supostamente tocaria m√ļsicas brasileiras e latinas, os DJs tocaram algumas MPB e sambas, mas tudo no estilo eletr√īnico, eu n√£o sei como, mas sambei at√© n√£o aguentar mais, mesmo na batida eletr√īnica. No show da virada do ano em Johanesburgo o estilo musical mais tocado e dominante era o eletr√īnico, o house music √© uma verdadeira febre para os jovens. J√° dentro da organiza√ß√£o, os estilos que eles mais escutavam eram reggae, jazz e soul, mas a can√ß√£o que eu tive a felicidade de conhecer e que mais me marcou foi do ‚ÄúWambali ‚Äď Ndimba Ku Ndimba‚ÄĚ. [iii]

Na √Āfrica do Sul o transporte mais comum e usado pela popula√ß√£o negra s√£o os chamados t√°xis (s√£o parecido com lota√ß√Ķes para n√≥s), estas lota√ß√Ķes s√£o privadas, o custo n√£o √© muito caro e voc√™ vai sentado, (diferente do transporte p√ļblico aqui em S√£o Paulo, que voc√™ paga caro e com muita sorte, luta, briga e discuss√£o consegue um lugarzinho sentado). As lota√ß√Ķes geralmente n√£o est√£o em situa√ß√Ķes boas e, infelizmente, h√° muito acidentes. H√° √īnibus e trens tamb√©m, mais o que mais me chamou aten√ß√£o foi o trem bala chamado Gautrain que liga Sandton ao aeroporto, e liga tamb√©m Johanesburgo a Pret√≥ria. Foi a primeira vez que andei em um trem bala, o trem √© muito moderno, bonito e r√°pido, o problema que √© n√£o √© um transporte acess√≠vel √† popula√ß√£o local, h√° muitos turistas e brancos, voc√™ encontra negros tamb√©m, mas da classe m√©dia e alta.

Tive a oportunidade de visitar a Nam√≠bia atrav√©s de uma organiza√ß√£o chamada Namibian Brazil Friendship Association (NBFA). Esta organiza√ß√£o me convidou a fazer v√°rias apresenta√ß√Ķes sobre a situa√ß√£o da popula√ß√£o negra no Brasil (viol√™ncia policial, racismo e homic√≠dios do povo negro) em v√°rias universidades e organiza√ß√Ķes. Fiquei 4 dias na capital em Windhoek (entre os dias 19 a 23 de outubro de 2015), em uma pousada que tinha, na sua grande maioria, angolanos. A Angola faz fronteira com a Nam√≠bia, logo, h√° muitos angolanos estudando e morando na Nam√≠bia. Nas apresenta√ß√Ķes que eu fiz nas universidades, os estudantes eram muito poucos e conheciam praticamente nada sobre o Brasil. A apresenta√ß√£o que teve maior n√ļmero de jovens foi em uma organiza√ß√£o fora da universidade chamada Young Achievers Empowerment Project. O encontro foi na sede da organiza√ß√£o, foi a apresenta√ß√£o mais interativa, os jovens fizeram muitas perguntas. Entre v√°rias perguntas, uma que mais me chamou a aten√ß√£o foi a pergunta de uma linda jovem namibiana, ela perguntou se eu me considerava negra. Respondi que sim e perguntei porque n√£o me consideraria negra, ela respondeu que o motivo da pergunta era porque meu cabelo era diferente e agradeceu por eu me considerar negra.

A Rep√ļblica da Nam√≠bia tem uma linda hist√≥ria de luta e resist√™ncia, conseguiu sua independ√™ncia da √Āfrica do Sul atrav√©s de muita luta na d√©cada de 90. A l√≠ngua oficial √© o ingl√™s, mas muitos namibianos falam oshiwambo como sua primeira l√≠ngua, outras l√≠nguas faladas tamb√©m s√£o nama/damara, kavango,herer√≥, afric√Ęner e o alem√£o (estas duas √ļltimas falada pelos brancos). Eu vi muitas lojas e escolas com informa√ß√Ķes em alem√£o, h√° muitos alem√£es ou pessoas de origem alem√£ na Nam√≠bia. A arquitetura dos pr√©dios e o povo namibiano lembram muito os sul africanos, as ruas em Windhoek s√£o extremamente limpas, lembra a cidade de Pret√≥ria na √Āfrica do Sul. A forma comum de se locomover na capital da Nam√≠bia √© atrav√©s de t√°xi, diferente do Brasil, o t√°xi √© barato. √Č uma forma de transporte privado, mas a forma de utiliza√ß√£o lembra o transporte p√ļblico porque os taxistas n√£o atendem um passageiro apenas, em uma viagem eles geralmente atendem 4 passageiros ao mesmo tempo. H√° √īnibus, mas ainda s√£o muito poucos, o governo ainda est√° no processo de implanta√ß√£o de transporte p√ļblico que atenda a demanda da popula√ß√£o.

A incr√≠vel oportunidade de ter ficado com uma fam√≠lia pan-africanista foi uma das experi√™ncias mais significativas que eu tive em Azania. O caloroso acolhimento de toda a fam√≠lia, que morava e frequentava a eBukhosin, √© algo imposs√≠vel de descrever com apenas palavras. O cuidado que todos me receberam foram verdadeiros gestos de uma fam√≠lia que estava recebendo o regresso da filha mais nova, uma filha que estava de f√©rias em algum pa√≠s um pouco distante, mas que nunca deixou de ser esquecida e com prazo de retorno estabelecido. A cumplicidade e a viv√™ncia na casa ajudaram tamb√©m para o fortalecimento desse sentimento de filha, tendo como pais Baba Bantu e Mama T, tendo como irm√£os e irm√£s (correndo o risco de faltar algu√©m) Ofoe, Siyabonga Moringe, Tetteh, PitsiRa, Thabiso, Patrick, Siyabonga Lembede, Phumulani, Mabule, Thabo, Ukwezi, Disebo, Mbaliyethu, Pamela, Nonhlanhla… As atividades que eu tive a grande oportunidade de participar como semin√°rios, palestras, Afrikan Lunch, Yoga, eventos, Kwanzaa, debates e encontros com outros jovens l√≠deres foram fundamentais para refor√ßar o esp√≠rito e atos de unidade, solidariedade, disciplina, pr√°ticas revolucion√°rias e um org√Ęnico e ativo pan-africanismo como algo poss√≠vel e vi√°vel. Hoje visualizo que o conjunto de todas essas atividades foi para al√©m da aprendizagem, se tornou uma verdadeira transforma√ß√£o espiritual e mental. √Č algo que est√° e sempre estar√° presente em cada dire√ß√£o, passo e posicionamento na minha vida em diante. Sou grata a fam√≠lia eBukhosini e a todas que diretamente e indiretamente fizeram parte dessa maravilhosa oportunidade, experi√™ncia e aprendizado.

A experi√™ncia e aprendizado que eu tive na √Āfrica do Sul e na Namibia foram incr√≠veis, algo que levarei para vida toda. Uma das coisas que eu tive a oportunidade de vivenciar e participar foi do Kwanzaa (√© uma celebra√ß√£o comemorada entre os dias 26 de Dezembro a 1 de Janeiro por milhares de africanos e afrodescendentes ao redor do mundo). Desde 2002, a Ebukhosini Solutions junto com outras organiza√ß√Ķes realizam a celebra√ß√£o do Kwanzaa, entre v√°rias atividades tem m√ļsica, poesia e boa comida. Eu j√° tinha ouvido falar dessa celebra√ß√£o, mas confesso que conhecia muito pouco, n√£o entendia o real objetivo e nunca tinha participado. Hoje eu entendo a import√Ęncia dessa celebra√ß√£o, e entre os princ√≠pios do Kwanzaa (Umoja: uni√£o; Kujichagulia: auto-determina√ß√£o; Ujima: trabalho coletivo e responsabilidade; Ujamaa: economia cooperativa; Nia: prop√≥sito; Kuumba: criatividade; Imani: f√©), a uni√£o √© o que mais me chamou a aten√ß√£o. Na celebra√ß√£o havia muitos africanos de outras nacionalidades e de v√°rias religi√Ķes. A celebra√ß√£o do Kwanzaa no Brasil e em outras partes desse planeta pode ser o caminho ou uma das possibilidades para constru√ß√£o da sonhada unidade para o povo africano dentro e fora do continente africano.

Veja as fotos aqui: https://flic.kr/s/aHskuZ31C7

[i]http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2015/10/21/estudantes-enfrentam-policia-em-frente-ao-parlamento-na-africa-do-sul.htm

[ii]http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/04/1618597-ataques-xenofobos-na-africa-do-sul-deixam-7-mortos-e-307-presos.shtml

[iii] Wambali – Ndimba Ku Ndimba: https://www.youtube.com/watch?v=uFiWZceyRI4&feature=youtu.be

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Phil Anselmo: O ícone do Metal e a Alienação Coletiva

Por William Mumu Silva

Phil Anselmo - Pantera, advoga a supremacia branca
Phil Anselmo advogando a supremacia branca – CLICK NA IMAGEM PARA ASSISTIR O V√ćDEO

‚ÄúWhite Power‚ÄĚ! Bradou orgulhoso e de peito estufado enquanto fazia a sauda√ß√£o nazista, um dos √≠cones do metal mundial, o ex-vocalista do Pantera, Phil Anselmo. Sua atitude racista talvez se transforme em mais um ‚Äúarrependido‚ÄĚ pedido de desculpas feitos por um descontrolado beberr√£o que os headbangers[1] tanto adoram.

Abro meu computador e vejo todo tipo de mensagem saltando na tela, umas em rep√ļdio, outras em apoio a Phil Anselmo, que se tornou o trending topics[2] mundial como o mais novo famoso racista do momento.

Nos dias de hoje ser racista expl√≠cito n√£o chega a ser um problema t√£o grave, principalmente se voc√™ for famoso. Os caminhos tortuosos da intoler√Ęncia e o desejo de supremacia racial tomam corpo massivo nas ruas americanas e pasmem, nas brasileiras tamb√©m.

Nos EUA, terra de Phil Anselmo e da ‚ÄúLei de Lynch‚ÄĚ[3], muitos dir√£o que n√£o √© mesmo um problema a pr√°tica do extremismo racial. Por l√° temos Donald Trump concorrendo √† presid√™ncia da rep√ļblica e a volta das atividades midi√°ticas da Ku Klux Klan, entre outras coisas.

No Brasil temos as bancadas evang√©licas na c√Ęmara, Luciano Huck na TV e ex-militares como o deputado Bolsonaro, cumprindo o papel de fascistas tupiniquins. Por aqui o crime de racismo se quer existe, √© injuria racial, o que sabemos n√£o ser exatamente a mesma coisa, mas n√£o entrarei nessa seara.

Muitas pessoas n√£o enxergam viol√™ncia em um fato como esse executado pelo m√ļsico, ent√£o partindo desse ponto, posso dizer que, minimamente, esse tipo de a√ß√£o gera desconforto, mas lidar com o desconforto parece ser tarefa exclusiva para quem sofre a a√ß√£o de inj√ļria e viol√™ncia, por isso n√£o h√° tanta preocupa√ß√£o na tratativa da causa raiz do problema.

Scott Ian do Anthrax, que √© judeu, disse em suas redes sociais: ‚ÄúTudo isto √© perigoso, n√£o importa qual o contexto. Tenho toler√Ęncia zero para tudo isto e n√£o protestar contra √© t√£o perigoso quanto o ato em si‚ÄĚ. Dever√≠amos mesmo ter toler√Ęncia zero, mas na cena metal, n√£o √© bem assim. Os headbangers¬†foram se tornando conservadores ao longo dos anos e os casos de racismo s√£o cada vez mais frequentes e expl√≠citos, a intoler√Ęncia √© cada vez mais alta.

Pantera à frente da Bandeira dos Confederados, símbolo da supremacia branca nos E.U.A.
Pantera à frente da Bandeira dos Confederados, símbolo da supremacia branca nos E.U.A.

A Bandeira dos Estados Confederados da América virou adereço da nova moda Rock and Roll. As bandas, que obviamente entendem o real significado desse símbolo, espalham sua mensagem livremente pelo mundo, já os fãs, repetem discursos de ódio racial travestidos de símbolos de uma ideologia rebelde. Devemos aplaudir tamanha perspicácia na construção de um ecossistema tão bem elaborado e eficaz.

Phil Anselmo vendo o tamanho do barulho gerado, pediu desculpas, mesmo sabendo que n√£o teria grandes problemas a longo prazo, mas como um garoto mimado, colocou a culpa na bebedeira regada a ‚Äúvinho branco racista‚ÄĚ. Esse tipo de atitude mesquinha valida nessa sociedade atual o fato assombroso de que se estivermos supostamente b√™bados podemos praticar qualquer a√ß√£o violenta ou de injuria racial, bastando depois se desculpar na internet por beber um pouquinho demais.

Não podemos mais a apologia à supremacia racial com rebeldia, discursos de ódio com gritos de liberdade. Se continuamos fazendo isso, passo a acreditar que estamos vivendo um período de Alienação Coletiva no rock.

Rob Flynn, vocalista do Machine Head, fez um v√≠deo sobre o caso e nele acusa Phil Anselmo de racista baseado em seu relato pessoal dos fatos ocorridos nos bastidores do show. Por ser caucasiano e n√£o ter v√≠nculo emocional com o nazismo, como √© o caso de Scott Ian, acho louv√°vel a coragem e o posicionamento do vocalista, apesar de tamb√©m achar uma atitude deveras oportunista de marketing espont√Ęneo.

Analisando a naturalidade com que Phill Anselmo usa a sauda√ß√£o nazista, me d√° a entender que isso √© algo comum em seu cotidiano nos bastidores entre amigos, nesse caso, seria essa a primeira vez que Flynn ouvia essa ‚Äúpiada‚ÄĚ? Seria essa a primeira repreenda que ele daria em Phil Anselmo? N√£o tenho motiva√ß√£o em tentar demonizar a cr√≠tica feita por Flynn, respeito todos que se posicionam firmemente, seja l√° por qual motiva√ß√£o, contra atos racistas, por√©m, a aliena√ß√£o coletiva n√£o √© extirpada em um √ļnico e isolado posicionamento perante a fatos constantes e repetidos, somente mudan√ßa nas atitudes di√°rias podem tratar os sintomas dessa doen√ßa. A quest√£o √© saber se quem oprime se reconhece como racista, e se est√° disposto a se tratar verdadeiramente.

Down
Créditos William Mumu Silva!

Acredito que ningu√©m √© obrigado a apoiar uma causa espec√≠fica, mas o m√≠nimo do bom senso e respeito s√£o requeridos na conviv√™ncia em sociedade, omiss√£o tamb√©m √© crime, n√£o c√≠vel, mas moral. Nessa linha de pensamento Sebastian Bach, ex-vocalista do Skid Row, em seu Twitter demonstra um pouco de sanidade: ‚ÄúO rock deveria ser divers√£o. Perverter a m√ļsica em √≥dio? N√£o √© divertido. Pessoas que dizem ‚Äúwhite power‚ÄĚ s√£o idiotas. Assim como aqueles que concordam. Ou que ficam em silencio‚ÄĚ.

O Sil√™ncio e a mentira s√£o conven√ß√Ķes que afirmam privil√©gios sociais e s√£o as formas mais discretas para se tornar um racista ativo de boa √≠ndole na sociedade. Atitudes como a de Phil Anselmo permeiam o inconsciente coletivo e calcificam o pensamento racista que posteriormente tendem a transbordar nas ruas em forma de atitudes intolerantes e violentas.

Como alguns podem pensar, isso n√£o tem nada a ver com a costumeira m√° interpreta√ß√£o do termo ‚Äúpoliticamente correto‚ÄĚ, mas sim com uma sociedade doente sofrendo de aliena√ß√£o coletiva muitas vezes promovida por pessoas com grande alcance midi√°tico em seu pa√≠s, ou em seu nicho de conviv√™ncia social.

O psiquiatra e fil√≥sofo, Frantz Fanon, em ‚ÄúRacismo e Cultura‚ÄĚ nos ajuda a entender que a aliena√ß√£o √© um fato real. Para ele a aliena√ß√£o n√£o se limita a nossa subjetividade, √© algo concreto em nossas rela√ß√Ķes reais em todos os ambientes de conviv√™ncia, neste caso a tribo do Rock e Metal.

Apresentação do DOWN - Carioca Club, 2013 - William Mumu Silva!
Apresentação do DOWN РCarioca Club, 2013 РWilliam Mumu Silva!

Fanon também diz:

O racismo, não é mais do que um elemento de um conjunto mais vasto: a opressão sistematizada de um povo. O exotismo é uma das formas desta simplificação. Partindo daí nenhuma confrontação cultural pode existir. Por um lado, há uma cultura à qual se reconhecem qualidades de dinamismo, de desenvolvimento, de profundidade. Uma cultura em movimento, em perpétua renovação. Frente a esta, encontram-se características, curiosidades, coisas, nunca uma estrutura.

A fala de Frantz Fanon neste caso dialoga com o fato de que apesar da indigna√ß√£o por parte de outros m√ļsicos da cena rock e metal, n√£o h√° confronta√ß√£o cultural efetiva, pois tal atitude, mesmo para aqueles que se op√Ķem a sauda√ß√£o nazista, batem de frente com suas supostas conquistas e privil√©gios hist√≥ricos e sociais. N√£o basta romper em discurso √ļnico contra atitudes racistas, pois se no cotidiano n√£o houver a pr√°tica de respeito e igualdade s√≥cio cultural, n√£o haver√° mudan√ßas estruturais na sociedade, sendo assim, a benevol√™ncia e aceita√ß√£o de pedidos de desculpas em casos como esse, tendem a continuar se multiplicando.

Fiz muitos bons amigos na cena rock e metal, aprendi a andar nas ruas e a viver como um gladiador urbano sem pudores ou amarras por conta do Heavy Metal. Extravasei √≥dio, amor e tristeza na distor√ß√£o das guitarras, no rufar de bumbos duplos e nos guturais animalescos de m√ļsicos cheios de postura e atitude. Estive sempre ao lado de boas pessoas que respeitavam e ainda respeitam nossas diferen√ßas raciais e culturais, entendendo que enxergamos o mundo a partir de pontos de origem diferente, ainda hoje n√£o espero menos de qualquer amigo Headbanger.

Como Headbanger Negro, redator e fotógrafo de sites e revistas do gênero, porém consciente de minha história étino-cultural, tenho motivação natural para me posicionar estruturadamente ante um fato que considero de extrema violência, hoje psicológica, amanhã física e letal, contra meus semelhantes negros, índios e qualquer outro povo considerado como minoria a ser massacrada por extremistas de uma suposta supremacia branca.

J√° tive a oportunidade de fotografar Phil Anselmo com o Down duas vezes para revistas de Heavy Metal, e mesmo n√£o sendo f√£ de Pantera ou do Down, √© impressionante sua presen√ßa de palco e qualidade musical, por isso, como f√£ de m√ļsica acho uma pena ver um dos maiores √≠cones do metal dos anos 90 se destacando por atitudes racistas e intolerantes, ao inv√©s de ser por suas m√ļsicas.

Como cidad√£o africano em di√°spora, fico indignado com os n√≠veis de aliena√ß√£o coletiva dentro de uma cena que me acolheu quando adolescente, me tratando at√© ent√£o, como semelhante. Fico deveras indignado ao ver algu√©m tendo uma atitude explicitamente racista se safando por fazer um simples pedido de desculpas, transformando suas inspira√ß√Ķes racistas em uma simples bebedeira e brincadeira de mal gosto. Acredito que Phil Anselmo n√£o tem nada de inocente, e seu gesto n√£o merece o perd√£o pela simples atitude de perdoar.

Apesar de ver muitos exemplos de conduta semelhante à de Phil Anselmo na cena rock e metal, especialmente nas redes sociais, ainda prefiro não generalizá-la como racista, pois sempre haverá boas pessoas e o contraponto a qualquer mal comportamento, além do fato de não conseguir medir assertivamente se a sociedade racista influencia o rock ou se o rock fascista influencia a sociedade racista.

Independentemente de qualquer coisa, enquanto as pessoas n√£o estiverem dispostas a mudar a motiva√ß√£o de seus atos na vida real de forma cotidiana, ainda veremos muitos gritos pr√≥ supremacia branca vindos de futuros arrependidos beberr√Ķes como Phil Anselmo. Definitivamente estou velho e saudoso demais por estar afetivamente apegado ao s√©culo passado, quando falar de Phil Anselmo era somente falar de Heavy Metal.

[1] Headbanger (tamb√©m chamado de Metalhead): √Č a denomina√ß√£o em ingl√™s para os de f√£s de heavy metal e suas variantes. No Brasil s√£o chamamos Metaleiros, mas esse termo √© considerado pejorativo para muitos f√£s de Metal Extremo.

[2] Trending Topics: √Č uma lista gerada em tempo real das frases mais publicadas no Twitter ao redor do mundo. De forma simples s√£o os Assuntos do Momento na internet.

[3] Lei de Lynch: O termo linchamento surgiu em 1782 a partir da express√£o ‚ÄúLei de Lynch‚ÄĚ (H√° controv√©rsias), a mesmo referia-se a a√ß√Ķes praticadas pelo fazendeiro e pol√≠tico Charles Lynch. Charles teria usado a for√ßa contra suspeitos durante a Guerra Revolucion√°ria Americana liderando um grupamento da Virg√≠nia contra os suspeitos brit√Ęnicos durante a guerra. Os capturados que eram julgados pela Lei de Lynch, eram sentenciados a chicotadas em p√ļblico, pris√£o ou trabalho for√ßado. H√° quem afirme que a origem do termo tenha surgido n√£o de Charles, mas sim do capit√£o Willian Lynch. Que junto com aliados do condado Pittsylvania County, cunhou o termo ‚ÄúLei de Lynch‚ÄĚ, para penas severas que eles aplicavam.H√° ainda quem credite a origem do termo, ao nome do prefeito irland√™s, James Lynch Fitzstephen que em 1493, enforcou publicamente seu pr√≥prio filho na sacada de sua casa ap√≥s condena-lo pelo assassinato de um visitante espanhol.

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Clóvis Moura e Florestan Fernandes

O protesto escravo na derrocada do sistema escravista nas obras Rebeli√Ķes da senzala e Brancos e negros em S√£o Paulo

Por DIEGO RICARDO PACHECO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal de São Paulo como requisito parcial para obtenção do grau em Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais. Orientador: Prof. Dr. Diego Ambrosini

 

INTRODUÇÃO

 

 

 

Pensar o Brasil √© pensar o negro[1]brasileiro. Ou seja, √© pensar um Brasil negro. Todos aqueles que se voltaram √† hist√≥ria brasileira com a finalidade de contribuir para o debate de sua forma√ß√£o e desenvolvimento, tiveram que necessariamente atentar-se √†s contribui√ß√Ķes dadas pelo povo negro em solo nacional[2]. Por√©m, observamos que nem sempre esse ‚Äēresgate hist√≥rico foi feito com o intuito de consagrar ao negro contribui√ß√£o relevante na forma√ß√£o brasileira. Quando muito, sua contribui√ß√£o resulta em esfor√ßos √† cultura (m√ļsica, dan√ßa, comida etc.), fazendo com que o problema da ‚Äēintegra√ß√£o do negro ao regime de trabalho escravo no Brasil seja visto como um problema de acultura√ß√£o[3]. Destarte, a din√Ęmica das condi√ß√Ķes do negro sendo posto em rela√ß√£o direta com o modo de produ√ß√£o escravista √© substitu√≠da pela sua inadaptabilidade vindo da √Āfrica e sendo inserido nos padr√Ķes organizacionais europeus, manifestando-se em ‚Äēchoques culturais. Ou seja, um problema de n√£o adapta√ß√£o do negro africano √† cultura do colonizador europeu. Isso √© observ√°vel napredomin√Ęncia das interpreta√ß√Ķes que proliferaram na primeira metade do s√©culo XX que contemplavam o arcabou√ßo apenas do sincretismo das religi√Ķes, da l√≠ngua e at√© dos quilombos (vistos apenas como movimento de retorno √† organiza√ß√£o social africana). Esse pensamento se desdobrar√° e ser√° o suporte de uma das mais eficazes ideologias das rela√ß√Ķes raciais no Brasil: a democracia racial.

A express√£o ‚Äēdemocracia racial, embora tenha sido vulgarmente assimilada √† figura do antrop√≥logo pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987) n√£o √© encontrada em sua obra. Na verdade, ela s√≥ vem aparecer tardiamente na literatura sobre as rela√ß√Ķes raciais no Brasil, mais especificamente na d√©cada de 1950[4]. Nesse autor, encontraremos uma refer√™ncia similar, quando de um ciclo de palestras em que participa em Indiana, Estados Unidos.

‚Äē… o seu sistema excessivamente paternalista e mesmo autocr√°tico de educar os √≠ndios desenvolveu-se √†s vezes em oposi√ß√£o √†s primeiras tend√™ncias esbo√ßadas no Brasil no sentido de uma democracia √©tnica e social‚ÄĖ (FREYRE apud GUIMAR√ÉES, 2001, p, 148).

Mas a ideia de uma ‚Äēdemocracia √©tnical no Brasil, em que a cor n√£o seria um empecilho ao acesso √†s oportunidades e riquezas produzidas, j√° povoava o imagin√°rio dos pa√≠ses europeus e americanos a muito tempo antes dessas ideias ganharem espa√ßo no debate acad√™mico e pol√≠tico nacional. Podemos perceber isso em uma interven√ß√£o feita pelo abolicionista Frederic Douglas em uma palestra em 1858, como apresenta o professor Ant√īnio S√©rgio Alfredo Guimar√£es:

Mesmo um pa√≠s cat√≥lico como o Brasil ‚ÄĒ um pa√≠s que n√≥s, em nosso orgulho, estigmatizamos como semib√°rbaro ‚ÄĒ n√£o trata as suas pessoas de cor, livres ou escravas, do modo injusto, b√°rbaro e escandaloso como n√≥s tratamos. […] A Am√©rica democr√°tica e protestante faria bem em aprender a li√ß√£o de justi√ßa e liberdade vinda do Brasil cat√≥lico e desp√≥tico. (GUIMAR√ÉES, 2001, p, 149).

De fato, esse debate ganhar√° maior repercuss√£o no Brasil com o surgimento e vulgariza√ß√£o da ideia de ‚Äēcultural, que contrapondo-se √†s concep√ß√Ķes de ‚Äēra√ßal, nega o car√°cter irrevers√≠vel da inferioridade moral e psicol√≥gica do negro, como essa √ļltima apregoava. Ainda distante de representar uma melhoria na situa√ß√£o do negro no Brasil, ser√° uma maneira eficiente de incorporar essa parcela da popula√ß√£o ao plano econ√īmico e principalmente ideol√≥gico brasileiro.

Ap√≥s o ano de 1945 e com o fim da ditadura varguista, abre-se o per√≠odo democr√°tico no Brasil. √Č o momento em que teremos o avan√ßo do debate politico sobre os rumos da democracia no pa√≠s, seja ela econ√īmica, social, politica e tamb√©m racial (essa √ļltima na ordem do dia das pautas dos movimentos negros da √©poca). N√£o podemos perder de vista que a ideia de uma ‚Äēdemocracia racial‚ÄĖ no pa√≠s vai tamb√©m de encontro a demonstrar o avesso dos conflitos raciais que se reproduziam nos Estados Unidos. Somente com o projeto da UNESCO sobre as rela√ß√Ķes raciais no Brasil que durou entre 1952/55 (e que buscava encontrar em solo nacional os elementos de uma conviv√™ncia √©tnica n√£o conflituosa) que o debate sobre a exist√™ncia de uma democracia racial no pa√≠s ganha maior visibilidade. O soci√≥logo Cl√≥vis Moura (1925-2003) refere- se a esse debate da seguinte maneira:

Esses estudiosos, verdadeiros qu√≠micos antropol√≥gicos, sociol√≥gicos e historiadores analisavam os movimentos sociais dos escravos negros como se eles n√£o estivessem engastados em um modo de produ√ß√£o, mas se limitassem √† soma ou subtra√ß√£o de tra√ßos culturais africanos e ocidentais, para ver-se se esses movimentos antiaculturativos eram uma rejei√ß√£o completa aos padr√Ķes culturais ocidentais ou podiam ser compreendidos atrav√©s dos conceitos de sincretismo, acultura√ß√£o ou assimila√ß√£o (MOURA, 1988, p, 10).

Esse esfor√ßo voltado para a participa√ß√£o do negro na forma√ß√£o social brasileira enquanto contribuinte da cultura nacional nos revela importante passo dado na quebra dos paradigmas de um debate que tinha por principio elidir qualquer que seja a contribui√ß√£o do negro na forma√ß√£o nacional. Lembremos que o projeto politico brasileiro do fim do s√©culo XIX, o ‚Äēbranqueamento, tinha por pressuposto o desaparecimento gradativo do negro no seio da sociedade brasileira atrav√©s da miscigena√ß√£o.

A tese do branqueamento baseava-se na presun√ß√£o da superioridade branca, √†s vezes, pelo uso dos eufemismos ra√ßas ‚Äēmais adiantadas e ‚Äēmenos adiantadas‚ÄĖ e pelo fato de ficar em aberto a quest√£o de ser a inferioridade inata. √Ä suposi√ß√£o inicial, juntavam-se mais duas. Primeiro ‚Äď a popula√ß√£o negra diminu√≠a progressivamente em rela√ß√£o √† branca por motivos que inclu√≠am a suposta taxa de natalidade mais baixa, a maior incid√™ncia de doen√ßas, e a desorganiza√ß√£o social. Segundo ‚Äď a miscigena√ß√£o produzia ‚Äēnaturalmente‚ÄĖ uma popula√ß√£o mais clara, em parte porque as pessoas procurassem parceiros mais claros do que elas. (A imigra√ß√£o branca refor√ßaria a resultante predomin√Ęncia branca.) (SKIDMORE, 1976, p, 81).

Por outro lado, essa interpreta√ß√£o da ‚Äēintegra√ß√£o do negro sendo feita, como j√° foi dito, predominantemente pela via cultural, sem uma verdadeira ‚Äēintegra√ß√£o econ√īmica, social e politica, deita um v√©u sobre as contradi√ß√Ķes fundamentais do sistema escravista (as rela√ß√Ķes antag√īnicas entre a for√ßa de trabalho escrava ante os detentores dos meios de produ√ß√£o colonial), culminando em um entendimento do papel do negro na forma√ß√£o nacional em que seus esfor√ßos s√£o voltados, por todo o per√≠odo colonial e persistindo no p√≥s – aboli√ß√£o, aos elementos de sincretismo[5]na forma√ß√£o da cultura brasileira. Esta passagem bastante elucidativa da antrop√≥loga Lilian Schwarcz (1957-) n√£o deixar√° d√ļvidas sobre o ponto abordado:

O ‚Äēcadinho das ra√ßas aparecia como uma vers√£o atualizada do mito das tr√™s ra√ßas, mais evidente aqui do que em qualquer outro lugar. ‚ÄēTodo brasileiro, mesmo o alvo, de cabelo louro, traz na alma quando n√£o na alma e no corpo, a sombra, ou pelo menos a pinta, do ind√≠gena e ou do negro‚ÄĖ, afirmava Freyre, fazendo da mesti√ßagem uma quest√£o de ordem geral. Freyre mantinha intocados em sua obra, por√©m, os conceitos de superioridade e de inferioridade, assim como n√£o deixava de descrever e por vezes glamourizar a viol√™ncia e o sadismo presentes durante o per√≠odo escravista. Senhores severos mas paternais, ao lado de escravos fi√©is, pareciam simbolizar uma esp√©cie de boa escravid√£o, que mais servia para se contrapor √† realidade norte-americana. (SCHWARCZ, 2010, p, 12).

O grande problema evidenciado nessa interpreta√ß√£o, a nosso ver, √© o de que o negro √© incorporado como agente da forma√ß√£o nacional como sujeito ‚Äēpr√©-politico, no sentido em que toda a complexidade de sua din√Ęmica enquanto sujeito que faz a hist√≥ria a partir de sua inser√ß√£o nos modos de produ√ß√£o colonial, sua organiza√ß√£o para lidar com a viol√™ncia inerente ao sistema de produ√ß√£o vigente, suas t√°ticas de resist√™ncias diversas e outras variadas formas de constru√ß√£o de um novo meio politico e social em que pudesse gozar de melhor situa√ß√£o frente sua condi√ß√£o de escravo, √© abandonada. Isto √©, as formas as quais disp√īs para a constru√ß√£o de um novo projeto politico e social, sua contribui√ß√£o na derrocada do sistema escravista para a passagem ao capitalismo (mesmo que essa transi√ß√£o possa n√£o o ter beneficiado de fato) e consequente desenvolvimento nacional, haja vista a condi√ß√£o extrema de degrada√ß√£o do trabalho no qual encontrava- se, n√£o √© levado a status de elemento din√Ęmico quando retornamos, pela via dos autores culturalistas (em seu sentido pejorativo) √† hist√≥ria brasileira.

LEIA O TRABALHO NA √ćNTEGRA!!!

 

[1] Tanto Cl√≥vis Moura, quanto Florestan Fernandes n√£o divergiram na caracteriza√ß√£o do que entenderam por ser o ‚Äēnegro no Brasil, que de uma forma mais geral, seria aquele estrangeiro (africano) ou nacional e os seus descendentes. No seu Dicion√°rio da Escravid√£o Negra no Brasil, Cl√≥vis Moura nos diz, ‚ÄēNo in√≠cio da coloniza√ß√£o, o termo ‚Äēnegro‚ÄĖ n√£o servia para designar africanos, conforme documenta√ß√£o da √©poca, mas para denominar o ind√≠gena. Muitos historiadores confundiram o significado do voc√°bulo na forma como era aplicado, tomando o termo como designativo de africano. Pelo menos em S√£o Paulo, nos primeiros anos de coloniza√ß√£o, para designar um negro usava-se o termo tapanhumo ou pe√ßa-de-guin√©. Quando queriam designar o negro para diferenci√°-lo do √≠ndio, chamavam-no, tamb√©m, de ‚Äēgentio da Guin√©‚ÄĖ e aos √≠ndios, ‚Äēgentios da terra‚ÄĖ. Os jesu√≠tas ao se referirem √† popula√ß√£o da Col√īnia, sempre usavam o termo negro como sin√īnimo de √≠ndio. Padre Manoel da Nobrega, em carta datada de 1549, pouco depois, portanto, da chegada dos primeiros grupos africanos no Brasil, j√° escrevia: ‚Äēe uns casam com algumas mulheres, se acham outros com as mesmas negras e outros pedem tempo para vender as negras‚ÄĖ. O mesmo autor afirma depois: ‚Äēe √© desta maneira que fazem pares com os negros para lhe trazerem a vender o que tem e por engano enchem os navios deles e fogem com eles; e alguns dizem que o podem fazer por os negros j√° terem feito mal aos crist√£os‚ÄĖ. Nos invent√°rios e testamentos do primeiro s√©culo da coloniza√ß√£o, faz-se invariavelmente, a distin√ß√£o entre o negro e o √≠ndio, designando-se a sua origem, isto √©, se √© da terra ou da Guin√© (africano).‚ÄĖ (MOURA, 2013, p, 288). Para Florestan Fernandes, tamb√©m fica claro nesta passagem que veremos que o ‚Äēnegro, para o autor, √© aquele africano trazido para exercer o trabalho compuls√≥rio (tornando-se escravo) no Brasil. Nas palavras de Florestan, ‚ÄēA hist√≥ria do negro em S√£o Paulo se confunde, durante um largo per√≠odo de tempo, com a pr√≥pria hist√≥ria da economia paulista. Os africanos, transplantados como escravos para a Am√©rica, viram a sua vida e o seu destino associar-se a um terr√≠vel sistema de explora√ß√£o do homem pelo homem, em que n√£o contavam sen√£o como e enquanto instrumentos de trabalho e capital. Em S√£o Paulo, essa regra n√£o sofreu exce√ß√£o‚ÄĖ. (FERNANDES, 2008, p, 27). [2]Dentre diversos autores, podemos citar, Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Edson Carneiro, Abdias do Nascimento, Gilberto Freyre, Roger Bastide, Luiz Luna, e os autores aqui estudados, Cl√≥vis Moura e Florestan Fernandes. [3]Mudan√ßas sociais que se ocasionam quando s√£o colocados em rela√ß√Ķes grupos culturalmente distintos, resultando em elementos culturais caracter√≠sticos de ambos os grupos. Neste caso particular que estudamos, o aculturado seria aquele negro escravo que j√° teria assimilado a l√≠ngua, os h√°bitos e os costumes dos senhores, e comportava-se como adaptado ao sistema social vigente, a escravid√£o. [4]Ver, por exemplo, o livro do antrop√≥logo norte-americano Charles Wagley, Race and class in rural Brazil de 1952. ¬† [5]Sincretismo √© a fus√£o de diferentes elementos culturais que acaba por resultar em um fen√īmeno diverso de ambos. Nesse caso, o sincretismo vem ressaltar a ideia da miscigena√ß√£o na forma√ß√£o do Brasil.

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O racismo mascarado: Reflex√Ķes sobre o complexo penitenci√°rio industrial

Qual é o complexo penitenciário industrial? Por que isso Importa? Angela Y. Davis diz-nos. (De Seção Especial: Complexo Prisional Industrial)

Por Angela Davis**  (Originalmente publicado em 10 DE SETEMBRO DE 1998 Рhttp://www.colorlines.com/articles/masked-racism-reflections-prison-industrial-complex)

Tradução e revisão: Jaque Conceição **

 Prisoes

Qual é o complexo penitenciário industrial? Por que isso Importa? Angela Y. Davis diz-nos.

Pris√£o tornou-se a resposta pronta a muito dos problemas sociais para as pessoas em situa√ß√£o de pobreza.¬†Esses problemas muitas vezes s√£o velados por ser convenientemente agrupados sob o “crime” emquamto categoria e pela atribui√ß√£o autom√°tica de comportamento criminoso para pessoas de cor.¬†A inexist√™ncia de moradia, o desemprego, depend√™ncia qu√≠mica, a doen√ßa mental, e analfabetismo s√£o apenas alguns dos problemas que desaparecem da vista do p√ļblico quando os seres humanos em luta com eles, s√£o relegados para gaiolas.

Assim a pris√£o, acaba por ser um ‚Äúfeito de magia‚ÄĚ, ou melhor, as pessoas que defendem a pris√£o e tacitamente parecem favor√°veis a uma rede de prolifera√ß√£o de pris√Ķes e cadeias, s√£o levadas a acreditarem na magia do aprisionamento. Mas, nas pris√Ķes n√£o desaparecem os problemas, elas desaparecem com os seres humanos.¬†E a pr√°tica de desaparecer um grande n√ļmero de pessoas pobres, imigrantes e comunidades racialmente marginalizadas, literalmente se tornou um grande neg√≥cio.

A magia das pris√Ķes cria uma aus√™ncia de esfor√ßo para compreender os problemas sociais, escondendo assim, a realidade por tr√°s do encarceramento em massa.¬†As pris√Ķes desaparecem com os seres humanos, a fim de transmitir a ilus√£o de resolver os problemas sociais. Infra-estruturas penais devem ser criadas para acomodar uma popula√ß√£o em r√°pido crescimento para serem criadas em gaiolas.¬†Produtos e servi√ßos devem ser fornecidos para manter as popula√ß√Ķes carcer√°rias vivas.√Äs vezes, essas popula√ß√Ķes devem ser mantidas ocupados e em outras vezes – particularmente nas pris√Ķes de seguran√ßa m√°xima – devem ser privados de praticamente toda a atividade significativa.¬†Um vasto n√ļmero de pessoas algemadas e algemados s√£o movidos atrav√©s das fronteiras estaduais.

Todo este trabalho, que costumava ser responsabilidade do governo, agora tamb√©m √© realizado por empresas privadas, e formam o complexo industrial militar.¬†Os dividendos que se obt√™m a partir do investimento na ind√ļstria de puni√ß√£o, como aqueles que se beneficia de investimento na produ√ß√£o de armas, apenas elevar a destrui√ß√£o social.Tendo em conta as semelhan√ßas estruturais e rentabilidade de liga√ß√Ķes de governo com o mundo empresarial para a produ√ß√£o militar e industrial. O sistema penal expandindo, agora pela rela√ß√£o p√ļblico-privado, pode ser caracterizado como um “complexo industrial prisional”.

A cor das pris√Ķes
A cor das pris√Ķes

 

A Cor de Pris√£o

Quase dois milh√Ķes de pessoas est√£o atualmente presas na imensa rede de pris√Ķes e cadeias dos Estados Unidos.¬†Mais de 70 por cento da popula√ß√£o carcer√°ria s√£o pessoas de cor.¬†Raramente √© reconhecido que o grupo de crescimento mais r√°pido dos presos s√£o mulheres negras e que prisioneiros americanos nativos s√£o o maior grupo per capita.¬†Cerca de cinco milh√Ķes de pessoas – incluindo aqueles em liberdade condicional – est√£o diretamente sob a supervis√£o do sistema de justi√ßa criminal.

Tr√™s d√©cadas atr√°s, a popula√ß√£o carcer√°ria era de aproximadamente um oitavo de seu tamanho atual.¬†Enquanto as mulheres ainda constituem uma percentagem relativamente pequena de pessoas atr√°s das grades, hoje o n√ļmero de mulheres encarceradas na Calif√≥rnia sozinhaa √© quase o dobro do que a popula√ß√£o prisional feminino em todo o pa√≠s foi em 1970. De acordo com Elliott Currie, “[…] a presen√ßa da pris√£o tornou-se iminente em nossa sociedade, uma fato sem precedentes em nossa hist√≥ria – ou na hist√≥ria de qualquer outra democracia industrial.¬†Desde as grandes guerras, o encarceramento em massa tem sido o programa social do governo mais bem implementado em nosso tempo. ”

Para entregar corpos destinados √† puni√ß√£o rent√°vel, a economia pol√≠tica das pris√Ķes se baseia em pressupostos raciais da criminalidade – tais como imagens de m√£es pretas reproduzindo crian√ßas criminosas – e as pr√°ticas racistas nos padr√Ķes de pris√£o, condena√ß√£o e senten√ßa.¬†Corpos coloridos constituem a principal mat√©ria-prima humana nesta vasta experi√™ncia para desaparecer os principais problemas sociais do nosso tempo.¬†Uma vez que a aura da magia √© alimentada a partir da solu√ß√£o do encarceramento, o que √© revelado √© o racismo, preconceito de classe, e a sedu√ß√£o parasit√°ria do lucro capitalista.¬†O sistema industrial prisional √© material e moralmente empobrecedor de seus habitantes e devora a riqueza social necess√°ria para enfrentar os mesmos problemas que levaram ao espiral n√ļmero de presos, que cresce cada vez mais.

Como as pris√Ķes ocupam cada vez mais espa√ßo no cen√°rio social, outros programas governamentais que j√° procuraram responder √†s necessidades sociais – como a Assist√™ncia Tempor√°ria para Fam√≠lias Necessitadas – est√£o sendo exclu√≠dos da din√Ęmica social.¬†A deteriora√ß√£o da educa√ß√£o p√ļblica, incluindo a prioriza√ß√£o do controle disciplinar e controle sobre a aprendizagem nas escolas localizadas em comunidades pobres, est√° diretamente relacionado com a pris√£o como “solu√ß√£o”, ou seja, da magia prisional.

 

Lucrando com prisioneiros
Como pris√Ķes proliferam na sociedade norte-americana, o capital privado tornou-se enredado na ind√ļstria da puni√ß√£o.¬†E precisamente por causa de seu potencial de lucro, as pris√Ķes est√£o se tornando cada vez mais importante para a economia dos EUA.¬†Se a no√ß√£o de puni√ß√£o como uma fonte de lucros potencialmente estupendas √© preocupante, por si s√≥, ent√£o a depend√™ncia estrat√©gica em estruturas racistas e ideologias para tornar puni√ß√£o em massa palat√°vel e rent√°vel √© ainda mais preocupante.

A privatiza√ß√£o √© o exemplo mais √≥bvio do movimento atual do capital para a ind√ļstria de pris√£o.¬†Embora as pris√Ķes administradas pelo governo sejam muitas vezes espa√ßos de viola√ß√£o das normas internacionais de direitos humanos, pris√Ķes privadas s√£o ainda menos respons√°veis.¬†Em mar√ßo deste ano, a Corrections Corporation of America (CCA), a maior empresa norte-americana de pris√£o privada, alegou 54,944 camas em 68 instala√ß√Ķes sob contrato ou desenvolvimento em os EUA, Porto Rico, Reino Unido e Austr√°lia.¬†Seguindo a tend√™ncia mundial de submeter mais mulheres a puni√ß√£o p√ļblica, CCA abriu recentemente uma pris√£o de mulheres em Melbourne, e recentemente, a empresa identificou a Calif√≥rnia como seu “novo territ√≥rio”.

Wackenhut Corrections Corporation (WCC), a segunda maior empresa prisional norte-americana, alegou contratos e concess√Ķes para gerenciar 46 instala√ß√Ķes na Am√©rica do Norte, Reino Unido e Austr√°lia.¬†Vangloria-se de um total de 30,424 camas, bem como contratos de servi√ßos de sa√ļde do prisioneiro, transporte e seguran√ßa.

Atualmente, os estoques de ambos CCA e WCC est√£o muito bem.¬†Entre 1996 e 1997, as receitas da CCA aumentou 58 por cento, a partir de $ 293.000.000 para 462.000.000 $.¬†Seu lucro l√≠quido cresceu de US $ 30,9 milh√Ķes a $ 53900000.¬†WCC elevou sua receita de $ 138.000.000 em 1996 para US $ 210 milh√Ķes em 1997. Ao contr√°rio dos estabelecimentos prisionais p√ļblicos, os vastos lucros dessas instala√ß√Ķes privadas contam com o emprego de m√£o de obra prec√°ria.

Evolução do encarceramento  nos Estados Unidos
Evolução do encarceramento nos Estados Unidos

 

O Complexo Prisional industrial
Mas as empresas de c√°rceres privados s√£o apenas o componente mais vis√≠vel da crescente mercantiliza√ß√£o da puni√ß√£o.¬†Contratos com o governo para construir pris√Ķes t√™m refor√ßado a ind√ļstria da constru√ß√£o.¬†A comunidade arquitet√īnica identificou projeto pris√£o como um importante novo nicho.¬†Tecnologia desenvolvida para o ex√©rcito por empresas como Westinghouse est√° sendo comercializado para uso na aplica√ß√£o da lei e puni√ß√£o.

Al√©m disso, as empresas que parecem estar muito longe do neg√≥cio de puni√ß√£o est√£o intimamente envolvidas na expans√£o do complexo industrial da pris√£o.¬†T√≠tulos a constru√ß√£o de pris√Ķes s√£o uma das muitas fontes de investimento lucrativo para os financiadores l√≠deres como a Merrill Lynch.¬†A MCI cobra dos prisioneiros e suas fam√≠lias pre√ßos exorbitantes para as chamadas telef√īnicas: liga√ß√Ķes preciosas que muitas vezes s√£o o √ļnico contato de prisioneiros com suas fam√≠lias.

Muitas empresas cujos produtos que consumimos diariamente nos ensinam que a for√ßa de trabalho na pris√£o pode ser t√£o rent√°vel como for√ßa de trabalho terceiro mundo explorada por corpora√ß√Ķes globais baseadas nos Estados Unidos.¬† Algumas das empresas que utilizam trabalho for√ßado nas pris√Ķes s√£o IBM, Motorola, Compaq, Texas Instruments, Honeywell, Microsoft e Boeing.¬†Mas n√£o √© s√≥ as ind√ļstrias de hi-tech que colhem os lucros do trabalho penitenci√°rio.¬†Lojas de departamentos como Nordstrom vendem jeans que s√£o comercializados como “Prison Blues”, bem como camisetas e jaquetas feitas nas pris√Ķes Oregon.¬†O slogan publicit√°rio para essas roupas √© “feito no interior para ser usado no exterior.” Prisioneiros de Maryland inspecionar garrafas de vidro e frascos usados ‚Äč‚Äčpor Revlon e Pierre Cardin e escolas em todo o mundo compram tamp√Ķes da gradua√ß√£o e vestidos feitos por prisioneiro da Carolina do Sul.

“Para as empresas privadas”, escrevem Eve Goldberg e Linda Evans (um preso pol√≠tico no interior do Federal Correctional Institution em Dublin, Calif√≥rnia) “trabalho prisional √© como um pote de ouro.¬†N√£o h√° greves.¬†Nenhuma organiza√ß√£o sindical.N√£o h√° benef√≠cios de sa√ļde, seguro de desemprego, ou compensa√ß√£o dos trabalhadores para pagar.¬†N√£o h√° barreiras lingu√≠sticas, como em pa√≠ses estrangeiros.¬†Novas pris√Ķes para√≠sos est√£o sendo constru√≠das em milhares de acres fantasmag√≥ricos de f√°bricas no interior das muralhas.Prisioneiros fazem entrada de dados para a Chevron, fazem reservas por telefone para TWA, criam su√≠nos, esterco, p√°, fazem placas de circuito, limusines, camas de √°gua, e lingerie para Victoria Secret – ‘. Trabalho livre a baix√≠ssimo custo.

Devorando a riqueza social
Embora o trabalho prisional – que em √ļltima an√°lise √© compensada a uma taxa muito inferior ao sal√°rio m√≠nimo – seja altamente lucrativo para as empresas privadas que utilizam o sistema penal como um todo, ele n√£o produz riqueza.¬†Ele devora a riqueza social que poderia ser usado para subsidiar moradia para os sem-teto, para melhorar a educa√ß√£o p√ļblica para as comunidades pobres e racialmente marginalizadas, para abrir os programas de reabilita√ß√£o de drogas livre para as pessoas que desejam chutar seus h√°bitos, para criar um sistema nacional de sa√ļde, para expandir os programas de combate ao HIV, para erradicar a viol√™ncia dom√©stica – e, no processo, para criar empregos bem remunerados para os desempregados.

Desde 1984 mais de vinte novas pris√Ķes foram abertas na Calif√≥rnia, enquanto apenas um novo campus foi adicionado ao sistema de Universidade Estadual da Calif√≥rnia e nenhum para o sistema da Universidade da Calif√≥rnia.¬†Em 1996-97, o ensino superior recebeu apenas 8,7 por cento do Fundo Geral do Estado enquanto as casas de corre√ß√Ķes receberam 9,6 por cento.¬†Agora que a a√ß√£o afirmativa foi declarada ilegal na Calif√≥rnia, √© √≥bvio que a educa√ß√£o √© cada vez mais reservada para certas pessoas, enquanto as pris√Ķes s√£o reservados para outros.¬†Cinco vezes mais homens negros est√£o atualmente na pris√£o em rela√ß√£o a faculdades e universidades de quatro anos.¬†Esta nova segrega√ß√£o tem implica√ß√Ķes perigosas para todo o pa√≠s.

Segregando as pessoas e rotulado-as como criminosos, a pris√£o fortalece simultaneamente e esconde o racismo estrutural da economia dos EUA.¬†Alega√ß√Ķes de baixas taxas de desemprego – mesmo em comunidades negras – s√≥ fazem sentido ao supor que o grande n√ļmero de pessoas na pris√£o realmente desapareceram e, portanto, n√£o t√™m reivindica√ß√Ķes leg√≠timas em rela√ß√£o ao emprego, por exemplo.¬†O n√ļmero de homens negros e latinos atualmente encarcerados representa dois por cento da for√ßa de trabalho masculina de todo os EUA.¬†De acordo com o criminologista David Downes, “[t] compreender o encarceramento como um tipo de desemprego oculto pode aumentar a taxa de desemprego para os homens por cerca de um ter√ßo, para 8 por cento.¬†O efeito sobre a for√ßa de trabalho negra √© ainda maior, elevando a taxa de desemprego [preta] do sexo masculino de 11 por cento para 19 por cento. ”

Hidden Agenda
Encarceramento em massa n√£o √© uma solu√ß√£o para o desemprego, nem √© uma solu√ß√£o para a vasta gama de problemas sociais que est√£o escondidos em uma rede crescente de pris√Ķes e cadeias.¬†No entanto, a grande maioria das pessoas t√™m sido levadas a acreditar na efic√°cia de pris√£o, mesmo que o registro hist√≥rico demonstre claramente que as pris√Ķes n√£o funcionam.¬†O racismo tem prejudicado nossa capacidade de criar um discurso popular cr√≠tico para contestar a trapa√ßa ideol√≥gica que postula a pris√£o como a chave para a seguran√ßa p√ļblica.¬†O foco da pol√≠tica do Estado est√° rapidamente mudando de bem-estar social para o controle social.

Preto, Latino, nativo americano, e muitos jovens asi√°ticos s√£o retratados como os fornecedores de viol√™ncia, os traficantes de drogas, e como invejos de uma vida que eles n√£o t√™m o direito de possuir.¬†Mulheres negras e latinas jovens s√£o representadas como beb√™s, pobreza, sexualmente prom√≠scuas e socialmente incapazes.¬†Criminalidade e desvio s√£o racializado.¬†Vigil√Ęncia √©, portanto, focada em comunidades de cor, os imigrantes, os desempregados, os fora da escola, os sem-teto, e em geral sobre aqueles que t√™m uma reivindica√ß√£o de diminui√ß√£o de recursos sociais.¬†O seu pedido de recursos sociais continua a diminuir em grande parte porque a aplica√ß√£o da lei e medidas penais devora cada vez mais esses recursos.¬†O complexo industrial da pris√£o criou assim um ciclo vicioso de puni√ß√£o que empobrece ainda mais aqueles cuja √ļnica sa√≠da √© supostamente a magia da pris√£o.

Portanto, como a √™nfase de mudan√ßas nas pol√≠ticas governamentais de bem-estar social para o controle da criminalidade, o racismo afunda mais profundamente as estruturas econ√īmicas e ideol√≥gicas da sociedade norte-americana.¬†Enquanto isso, os conservadores contra a a√ß√£o afirmativa e educa√ß√£o bil√≠ng√ľe proclamam o fim do racismo, e sugerem que os restos do racismo pode ser dissipado atrav√©s do di√°logo e conversa√ß√£o.¬†Mas conversas sobre “rela√ß√Ķes raciais” dificilmente v√£o desmantelar um complexo industrial prisional que prospera em nutrir o racismo escondido dentro das estruturas profundas da nossa sociedade.

O surgimento de um complexo industrial prisional dos EUA dentro de um contexto de conservadorismo em cascata marca um novo momento hist√≥rico, cujos perigos s√£o sem precedentes.Mas assim s√£o as suas oportunidades.¬†Considerando o n√ļmero impressionante de projetos de base que continuam a resistir √† expans√£o da ind√ļstria de puni√ß√£o, acredito que deve ser poss√≠vel aumentar os esfor√ßos em conjunto para criar movimentos radicais e nacionalmente vis√≠veis que podem legitimar as cr√≠ticas anti-capitalistas do complexo industrial da pris√£o.¬†Deve ser poss√≠vel a constru√ß√£o de movimentos em defesa dos direitos e que persuasivamente argumentam que o que precisamos n√£o √© de novas pris√Ķes, mas novos cuidados de sa√ļde, habita√ß√£o, educa√ß√£o, programas de drogas, empregos e educa√ß√£o humanizada para os prisioneiros.¬†Para salvaguardar um futuro democr√°tico, √© poss√≠vel e necess√°rio para tecer juntos as muitos, crescentes fios de resist√™ncia ao complexo industrial da pris√£o em um movimento poderoso para a transforma√ß√£o social.

*Angela Davis é um ex-prisioneiro político, ativista de longa data, educador e autor que dedicou sua vida à luta pela justiça social.

**Jaque Conceição é pedagoga, Mestre em Educação: História, Política, Sociedade pela PUC-SP, feminista, membro da comunidade tradicional dos povos de terreiro Ylê Asè Omo Oba Aganju, pesquisadora da Teoria Critica da Sociedade e Articuladora do Coletivo Di Jejê.

 

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Curso Kilombagem – Fanon; Vida e Obra, em Campinas

No dia 20 de julho Frantz Fanon completaria 90 anos.

Em rever√™ncia √† sua trajet√≥ria, mas tamb√©m, interessados/as em discutir a atualidade da sua obra para o entendimento do racismo na sociedade contempor√Ęnea, o Grupo Kilombagem oferecer√° o Mini-curso Fanon: vida e obra.

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Objetivo

O Mini Curso se prop√Ķe a apresentar e discutir o legado pol√≠tico e te√≥rico do autor enfatizando suas contribui√ß√Ķes para a compreens√£o das rela√ß√Ķes raciais na sociedade contempor√Ęnea.

Provocador: Deivison Faustino (Nkosi) РDoutorando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCAR e integrante do Grupo KILOMBAGEM

 

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Por que estudar Fanon?

Como psiquiatra, fil√≥sofo, cientista social e revolucion√°rio, Frantz Fanon √© sem d√ļvida um dos pensadores mais instigantes do s√©culo XX. Sua obra influenciou diversos movimentos pol√≠ticos e te√≥ricos na √Āfrica e Di√°spora Africana e segue reverberando em nossos dias como refer√™ncia obrigat√≥ria nos os estudos culturais e p√≥s-coloniais.

Sua trajetória política e teórica impressiona pela grandiosidade e o seu curto espaço de vida. Nasce em Forte de France, Martinica em 1925 no seio de uma família de classe média e patriota. Em 1944 se alista no exercito francês para lutar contra os alemães na segunda guerra mundial e posteriormente segue para Lyon para estudar medicina e psiquiatria. Neste período foi estudante ativo envolvido com a publicação periódica de um jornal mimeografado.

Em 1950 Frantz Fanon escreve o texto que seria a sua tese de douturado em psiquiatria: Peau noire, masques blancs(Peles Negras, M√°scaras Brancas), mas a tese, por confrontar as correntes hegem√īnicas, foi recusada pela comiss√£o julgadora o obrigando a escrever outra tese no ano seguinte em Lyon com o t√≠tulo de Troubles mentaux et syndromes psychiatriques dans l‚Äôh√©r√©dp-d√©g√©n√©ration-spino-c√©r√©belleuse – Um cas de maladie de Friereich avec d√©lire de possession (Problemas mentais e sindromes psiquiatricas em degenera√ß√£o espinocerebelar heredit√°ria ‚Äď Um caso de doen√ßa de Friereich com del√≠rio de posse).

Em 1952 participa de diversos debates universitários e seminários em que se confronta ou converge com os pensadores franceses da época. Neste mesmo ano publica uma série de ensaios sobre a situação do negro na França, escreve um drama sobre os trabalhadores de Lyon (Les Mains parallèles) e publica o texto da sua primeira tese rejeitada: Peau noir, masques blancs (Peles negras, máscaras brancas) livro que marcaria a história dos estudos o racismo.

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Artista: Cena 7

Neste livro o autor discute os impactos do racismo e do colonialismo na psique (de colonizadores e colonizados) e mostra o quanto as aliena√ß√Ķes coloniais s√£o incorporadas pelos colonizados, mesmo no contexto de elabora√ß√£o do protesto negro.

O ano seguinte é marcado por um casamento e a sua mudança para a Argélia a fim de estudar mais profundamente os problemas enfrentados pelos imigrantes africanos na França. Segundo Oto (2003) estes momento foi fundamental para Fanon compreender os impactos do colonialismo na estrutura psíquica humana:

Ao tentar ampliar suas percep√ß√Ķes sobre o problema dos pacientes em territ√≥rios coloniais, vinculando as enfermidade ao colonialismo, Fanon aceita neste mesmo ano o contrato com o Hospital Blida-Joinville na Arg√©lia. Durante sua resid√™ncia neste local os resultados de suas investiga√ß√Ķes o convenceram das dimens√Ķes assumiam o regime colonial e como este regime desarticula a estrutura ps√≠quica das pessoas.( Oto 2003:219)

O ano seguinte foi marcante para o autor ao assistir o nascimento da revolu√ß√£o argelina e a violenta repress√£o francesa. √Č neste contexto que Fanon renuncia ao seu cargo no Hospital psiqui√°trico para se filiar √† Frente de liberta√ß√£o Nacional – FLN (Front de Liberation Nationale) onde contribuir√° ativamente como escritor do jornal El Moudjahid, em T√ļnez.

Os anos seguintes foram marcados por intensa agita√ß√£o pol√≠tica e participa√ß√£o nos f√≥runs internacionais dos movimentos de liberta√ß√£o no continente africano. Em 1959 publica L‚Äôan V de la R√©volution Alg√©rienne, sem publica√ß√£o em portugu√™s, e em 1961 se encontra com J. P. Sartre e S. Beauvoir. Neste mesmo ano, ap√≥s escrever Les damm√©s de la terre, o √°pice de sua atividade pol√≠tica e intelectual seria interrompido por um problema de sa√ļde que levaria a morte.

Boa parte dos textos escritos por Fanon no jornal El Moudjahid foram reunidos por sua esposa e publicados postumamente no livro Pour la révolution africanie (1964), publicado em Portugal apenas em 1980 com o título Em defesa da revolução Africana.

A pesar de sua import√Ęncia para a compreens√£o das rela√ß√Ķes raciais contempor√Ęneas, 50 anos depois de sua morte, a Obra de Frantz Fanon ainda √© pouco estudada no Brasil. Espera-se com esta atividade despertar o interesse da comunidade acad√™mica como um todo para a discuss√£o dos elementos apresentados pelo autor.

Programação

Encontro 01 ‚Äď A aliena√ß√£o colonial (20/07/2015 – 14hs)

  • itiner√°rio¬†pol√≠tico de Frantz Fanon
  • Pele negra, m√°scaras brancas

(Leitura recomendada: Prefácio de Lewis Gordon РBaixe o arquivo! e  Capitulo V: Experiência vivida do negro РBaixe o arquivo! )

(Obra Completa para baixar: Peles Negras Mascaras Brancas РBaixe a obra!)

 

Encontro 02‚Äď Racismo e cultura (20/07/2015 – 17:hs)

  • Em defesa da revolu√ß√£o africana
  • Os escritos de El Moudjahid

(Leitura recomendada: Racismo e Cultura РBaixe o arquivo!)

 

Encontro 03‚Äď A Arg√©lia se desvela (21/07/2015 – 14hs)

  • Ano V da Revolu√ß√£o Argelina

(Leitura recomendada: Capitulo 1 : A Argélia se quito el velo РBaixe o arquivo!  Рem espanhol)

( Obra Completa em espanhol: Sociología de una Revolución РBaixe a obra!)

 

Encontro 04‚Äď A liberta√ß√£o nacional (21/07/2015 – 17hs)

  • Os condenados da terra

(Leitura recomendada:  Cap. I Da violência РBaixe o arquivo!)

(Obra Completa: Os Condenados da Terra РBaixe a obra! )

 

 

Como chegar

Local: Casa de Cultura Tainã ( http://www.taina.org.br) Campinas РSP

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Pan-africanismo, marxismo e as encruzilhadas nossas de cada dia

Tempos difíceis os nossos: Em uma época marcada por conservadorismos dos mais variados o ato de demonizar o Marx sempre garante aplausos calorosos em qualquer plateia. Esta é uma verdade incontornável desde o fim da guerra fria.

Por outro lado, somente um cego n√£o perceberia que os problemas enfrentados pelas(os) Pretas(os) s√£o marjoritariamente secundarizados – para n√£o dizer negligenciados – nas diversas agremia√ß√Ķes pol√≠tico-te√≥ricos de esquerda, centro ou direita. Somente um olhar inocente – ou muito mal intencionado – poderia atribuir √† esquerda marxista a exclusividade desta postura lament√°vel. Para quem n√£o havia percebido: Estamos em uma sociedade racista e por isso a palestra¬†do Professor Carlos Moore oferece uma cr√≠tica necess√°ria.

Isto posto √© importante lembrar que mesmo com essas limita√ß√Ķes ‚Äúindisfars√°veis” a dita “Esquerda” vem sendo apropriada a mais de um s√©culo por¬† valorosas(os) guerreiras(os) pretas(os) como um espa√ßo pol√≠tico/te√≥rico/ideol√≥gico privilegiado para potencializar a luta contra o racismo e o colonialismo. A Luta Negra n√£o nasceu e nem se encerra na Esquerda, mas √© fato que historicamente esse encontro de for√ßas possibilitou avan√ßos te√≥ricos e pol√≠ticos importantes uma vez que as(os) negras(os), gostemos ou n√£o, est√£o sujeitos √†s contradi√ß√Ķes da sociabilidade capitalista.¬† O outro lado da hist√≥ria √© que esse encontro entre anti-capitalismo e anti-racismo tamb√©m gerou uma s√©rie de equ√≠vocos catastr√≥ficos e a partir deles muitas(os)¬† l√≠deres negras(os) optaram por romper com o Marxismo em busca de posi√ß√Ķes mais nacionalistas e/ou internacionalistas: Uma postura justific√°vel que nas melhores situa√ß√Ķes contribuiu para enriquecer a forma de pensar o que √© o Negra(o) e o anti-racismo e nas piores situa√ß√Ķes o que se seguiu foram embates fratricidas seguidos por Golpes de Estados sanguin√°rios e necolonialistas.

√Č preciso dizer que o dito comunismo matou na Eti√≥pia ou em Cuba‚Ķ mas se dizemos isso e n√£o dizemos em seguida que¬† o anticomunismo matou na Arg√©lia, no Congo, em Angola; na Arg√©lia, no Iran, na Alemanha, nos Estados Unidos, no Brasil, no Chile, e em todos os lugares em que os Estados Unidos pode influenciar, a hist√≥ria do s√©culo XX corre o risco de seguir drasticamente maquiada: A lista de l√≠deres negros panafricanistas ou n√£o assassinados com a ajuda da CIA √© incrivelmente assustadora (inclusive dentro dos EUA).

A pergunta histórica que está posta para a nossa geração de intelectuais pretas(os) é: Conseguiremos estar suficientemente livres do maniqueísmo ocidental Рque dizemos combater Рa ponto de olhar criticamente para a tal do Ocidente e identificar no interior desta pseudo entidade os elementos que nos permitam confrontá-la? Ou estamos tão envoltos em seu suave veneno que acreditamos ser possível um pássaro voar sem a resistência do ar que o oprime?

Se √© verdade que as particularidades hist√≥rico-s√≥cio-culturais europeias nos foram falsamente apresentadas como universais a partir de sucessivas avalanches de roubo, saque, estupro e domina√ß√£o, mas ao mesmo tempo, e exatamente por isso condenou a todos os povos do planeta a viver sob a l√≥gica do deus mercado, conseguiremos negar a estas viol√™ncias ¬† ignorando que os pretos foram e s√£o as maiores v√≠timas do capitalismo? Se queremos criticar radicalmente a tal da esquerda ou do marxismo, o faremos negando a suas contribui√ß√Ķes te√≥ricas para a cr√≠tica ao Capitalismo (que √© essencialmente anti-negro?)? Se √© verdade que a maioria esmagadora das agremia√ß√Ķes de esquerda veem e tratam as(os) negras(os) apenas como ‚Äúap√™ndice‚ÄĚ dos processos pol√≠ticos,¬† o caminho para superar esses limites √© o anti-maxismo dogm√°tico?

N√£o se trata aqui de defender o indefens√°vel (veja a palestra hist√≥rica do Professor Carlos Moore), mas assusta perceber uma tentativa em curso de¬† tentar negar verbalmente a polariza√ß√£o esquerda/direita para substitu√≠-la por¬† outras polariza√ß√Ķes ainda mais empobrecedoras. √Č poss√≠vel um pensamento negro que critique o tal do ocidente e seus deuses sem criar novos dem√īnios?¬† Por qual ‚Äúemancipa√ß√£o‚ÄĚ lutamos:¬† ‚ÄúMais Obama e Menos Cuba!‚ÄĚ; ‚ÄúMenos Marx e mais‚Ķ‚ÄĚ o que? Nietzsche? Heidegger‚Ķ?

“Entre Direita e Esquerda eu continuo Preto”, mas e da√≠, qual √© o pr√≥ximo passo?¬† N√£o seria eu Preta(o), Sujeito o suficiente para me posicionar neste jogo podre que n√£o criei mas me influencia? Ser√° mesmo que o tal do ocidente √© t√£o presente em n√≥s que mesmo em nossas cr√≠ticas mais pretensamente profundas o m√°ximo que conseguimos fazer √© repetir o seu manique√≠smo tautol√≥gico barato: “O Marx era racista; eu sou anti-racista; logo, sou anti-marxista‚ÄĚ? √Č isso mesmo, Produ√ß√£o? Joga-se fora ent√£o as contribui√ß√Ķes de Marx para entender o capitalismo e posteriormente de todas(os) pretas(os) que se valeram mais ou menos desta tradi√ß√£o de pensamento – mesmo que seja para ir al√©m dela –¬† para pensar as sociedades em que viviam?

 

√Č necess√°rio entender que quando o Moore diz que deseja mais Obamas pelo mundo, n√£o se refere ao imperialismo norteamericano, mas a aus√™ncia de l√≠deres negros nos partidos e nos governos de direita e esquerda da Am√©rica e Europa; mais negros nos espa√ßos de poder. Essa √© uma cr√≠tica muito pertinente que n√£o deve ser descartada quando analisamos a hist√≥ria da esquerda mundial e a sua rela√ß√£o com os negros. Quando critica a dita pol√≠tica comunista implementada em Cuba e as persegui√ß√Ķes que sofreu oferece-nos um importante relato pessoal a respeito da do que √© a Pol√≠tica na sociedade moderna (informada por Maquiavel¬† e aprofundada por Fanon e Nkrumah).

O problema da√≠ resultante √© quando – seja por inoc√™ncia ou por m√° f√© – busca-se apresentar essa viol√™ncia como exclusividade das experi√™ncias revolucion√°rias de orienta√ß√£o marxista. Ter√≠amos que “voltar e apanhar o que ficou perdido‚ÄĚ nas experi√™ncias europeias fascistas e nazistas bem como nos golpes de estado apoiados pela CIA na √Āfrica- todos de orienta√ß√£o anti-marxista – para perceber o quanto qualquer transforma√ß√£o que n√£o tenha o “povo” como ponto de partida e horizonteleva a caminhos assombrosos. Para alem disso, olhar para a ‚Äúditadura cubana‚ÄĚ do p√≥s-revolu√ß√£o ignorando os processos contra-revolucion√°rios financiados pela direita cubana em¬† Maiami em sua rela√ß√£o carnal com os EUA √© bastante complicado e s√≥ se explica no contexto ideol√≥gico de direita (gostemos ou n√£o dessas classifica√ß√Ķes).

 

N√£o h√° nada mais ocidental do que o manique√≠smo e neste caso, a sabedoria das encruzilhadas tem mais a nos dizer do que a ‚Äúca√ßa as bruxas‚ÄĚ ocidentais: Apesar do Obama ser negro, e as crian√ßas da nossa gera√ß√£o terem nele um exemplo simb√≥lico poderoso; apesar de Cuba – que¬† na da d√©cada de 70 foi o destino predileto de muitos l√≠deres negros¬† mundiais importantes – cerceou o movimento negro interno a partir do mito da ‚Äúcor cubana” que lembra muito o nosso maldito mito da democracia racial; apesar de tudo isso, diante do Ebola, Cuba manda m√©dicos (a maioria negros) √† Lib√©ria e os Estados Unidos manda soldados (a maioria negros).¬† Enquanto essa mesma Cuba erradicou o analfabetismo¬† e durante o Mais M√©dicos vimos diante de nossos olhos milhares de m√©dicos negros desembarcarem para ajudar o Brasil, os Estados Unidos tem uma maioria absoluta de negros entre os seus 2 milh√Ķes de pessoas encarceradas. O Epis√≥dio do Furac√£o Catrina¬† mostrou o que fr√°gil s√£o os avan√ßos dessa sociedade que se acredita ter al√ßado √† categoria de p√≥s-racial s√≥ porque tem um presidente negro. Dito isto, fica a pergunta: Quem √© meu inimigo neste caso? Ser√° que o manique√≠smo (de direita de esquerda, de preto ou de branco) ajuda em alguma coisa?

 

Se olharmos a partir da Encruzilhada, a palestra do Professor Carlos Moore acaba de entrar para hist√≥ria como um marco na trajet√≥ria da luta negra brasileira ao oferecer subs√≠dios para reflex√Ķes muito profundas e necess√°rias sobre o racismo e os espa√ßos de poder, o ocidente, seus deuses e dem√īnios. Mas se n√£o “voltarmos atr√°s e apanhar o que ficou perdido” corremos o risco de atirar nos inimigos errados e desconsiderar uma parte da nossa pr√≥pria trajet√≥ria ‚Äúconfusa mas real e intensa‚ÄĚ (Racionais MCs).

N√£o nos esque√ßamos que o ar que oferece resist√™ncia ao voo de um p√°ssaro √© o mesmo que garante o o seu planar‚Ķ o segredo, para quem tem asas est√° em seu movimento adequado e na capacidade de mobilizar a seu favor aquilo que outrora poderia ser uma barreira. H√° uma sutileza aqui que pode se perder durante o calor das emo√ß√Ķes, mas n√£o sejamos inocentes ‚Äúentre direita e esquerda‚Ķ‚ÄĚ O Bolsonaro sabe muito bem quem ele √© (e n√£o vem s√≥).

 

Entre direita e esquerda eu sou preto, mas n√£o cego! ‚Äúpois sei fazer bem a diferencia√ß√£o, sofro pela cor, pelo patr√£o e o padr√£o” (GOG)

‚ÄúSe a esquerda n√£o trata da quest√£o racial, sejamos n√≥s a esquerda‚ÄĚ (Clovis Moura)

S√≥ Ex√ļ Salva!!!

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Manifesto de Rep√ļdio ao Racismo na PUC Campinas

O racismo √© uma viol√™ncia que mata, adoece, incapacita. √Č dever de toda institui√ß√£o educacional n√£o apenas entender mas garantir que o lugar do negro seja dentro da sala de aula como estudantes, professores e pesquisadores. Essa inclus√£o deve ser quantitativa e prezar pela qualidade, pela promo√ß√£o de um ambiente seguro onde cada estudante negro possa desenvolver todo seu potencial acad√™mico.

Negar o racismo é mais uma estratégia de manutenção do racismo. Num país como o nosso, onde o racismo é um elemento estruturante dessa sociedade, não se pode fechar os olhos para quando atitudes assim acontecem. O dever de uma instituição de ensino é promover o debate, fomentar a discussão e, acima de tudo, não ser conivente com tais práticas. Não pode incorrer em violentar duplamente quem está sendo a vítima.

Necess√°rio e urgente perceber que a popula√ß√£o negra vem sendo h√° s√©culos violentada e tendo seu acesso √† cidadania negado por conta desse sistema ideol√≥gico que visa mant√™-la √† margem da sociedade. Logo, quando uma den√ļncia √© feita, est√° se combatendo esse sistema e n√£o pessoas. Pessoas que sentem ofendidas com determinadas den√ļncias s√£o as mesmas que est√£o sendo privilegiadas h√° gera√ß√Ķes por esse mesmo sistema. Questionar privil√©gios √© o primeiro passo para se combater o racismo.

Como entender que uma institui√ß√£o universit√°ria que se diz compromissada com valores como solidariedade, compromisso social, pr√≥ atividade, responsabilidade com a forma√ß√£o integral da pessoa humana possa aceitar que atitudes racistas sejam repetidas vezes apresentadas por seus alunos? E, diante das den√ļncias deste racismo, argumentar cinicamente que aqueles que est√£o sendo denunciados est√£o se sentido prejudicados? Como essas pessoas podem se dizer ofendidas pelo fato de uma aluna negra denunciar o racismo que sofre? Por que se ofendem com a den√ļncia e n√£o com o racismo que violenta? Estes s√£o questionamentos necess√°rios para quem diz querer combater esse mal.

Stephanie Ribeiro, mulher, negra, feminista, √ļnica estudante de Arquitetura e Urbanismo numa turma com outros 200 n√£o negros teve sua liberdade de express√£o cerceada quando seus coment√°rios nas redes sociais sobre o racismo sofrido se tornaram conversas nos corredores da institui√ß√£o. Logo em seguida, algu√©m e sentiu confort√°vel o bastante para pixar em seu arm√°rio uma frase que em retrospecto parece prof√©tica ‚Äď ‚ÄúN√£o ligamos para as bostas que voc√™ posta no Facebook‚ÄĚ. Essa tamb√©m tem sido a resposta pr√≥pria PUC Campinas que, al√©m de n√£o verificar as den√ļncias sobre as viol√™ncias a que tem sido submetida a estudante e providenciar a devida assist√™ncia agora compactua para a promo√ß√£o do racismo ao retirar a jovem da sala de aula e submet√™-la a uma reuni√£o com diretores da institui√ß√£o, onde foi informada de que Pais, Alunos e Professores est√£o se sentindo prejudicados por suas den√ļncias.

Racismo jamais é um mal entendido da parte de quem o sofre, a preocupação destas pessoas e da própria PUC Campinas deveria ser com a existência de tamanha violência dentro da instituição, ao invés de possuírem a necessidade de mascará-lo com o argumento de que somos todos humanos e desta forma tratados da mesma maneira.

Utilizar a desculpa de que somos todos humanos s√≥ encoberta a quest√£o do racismo, n√£o se pode invocar o conceito de igualdade abstrata quando na pr√°tica, o que se verifica √© a desigualdade; a come√ßar pelo n√ļmero de estudantes negros e negras e do corpo docente. Apenas dizer ‚Äúsomos todos humanos‚ÄĚ, √© mais uma forma de manuten√ß√£o de poder e das opress√Ķes, porque sabemos que socialmente uns s√£o mais humanos do que outros. Que somos tratados desigualmente.

Negar o racismo √© ser conivente com ele. Exigimos que as den√ļncias feitas sejam averiguadas e que Stephanie Ribeiro tenha salvaguardado seu direito de frequentar a universidade sem ser hostilizada e intimidada.

Repudiamos as atitudes racistas sofridas por Stephanie Ribeiro e consequentemente a inércia da instituição PUC Campinas ao não tomar uma atitude condizente com o enfrentamento do racismo, ser conivente com ele.

N√£o admitiremos que mais uma v√≠tima seja silenciada, que mais um relato seja deslegitimado e que um crime seja tratado com a naturalidade de um sistema que cerceia direitos e violenta pessoas. ¬†N√£o aceitaremos que a hegemonia branca atinja e prejudique nosso direito a uma educa√ß√£o digna. Exigimos que as den√ļncias de racismo sejam apuradas bem como a integridade f√≠sica e psicol√≥gica da aluna seja garantida.

 

S√£o Paulo, 09 de Maio de 2014

 

SUBSCREVEM ESTE DOCUMENTO

 

Blogueiras Negras¬†‚Äď blogueirasnegras.org;

FPLP-SP¬†‚ÄstF√≥rum de Promotoras Legais Populares de S√£o Paulo;

FME-SP¬†‚Äď F√≥rum Municipal de Educa√ß√£o de S√£o Paulo;

Map√ī¬†‚Äď N√ļcleo de Estudos Interdisciplinar em Ra√ßa, G√™nero e Sexualidade da UNIFESP ‚Äď Guarulhos;

NNUG¬†‚Äď N√ļcleo Negro UNIFESP Guarulhos;

Coletivo de Mulheres da Baixada Santista;

Moce voc√™ √© Racista¬†‚Äď fb.com/ pages/Mo√ße-Voc√™-√Č-Racista/586164718067661;

Gorda e Sapat√£o¬†‚Äď gordaesapatao.com.br;

COEP¬†‚Äď Comunidade¬†de Olho na Escola P√ļblica;

Coletivo Meninas Black Power;

Coletiva das Vadias de Campinas;

Machismo Chato de Cada Dia¬†‚Äď fb.com/MachismoChatoDeCadaDia;

Blogueiras Feministas ;

APROPUCSP–¬†Associa√ß√£o dos Professores da PUCSP;

Coletivo Revide;

Marcha das Vadias Curitiba;

N√ļcleo de Consci√™ncia Negra na USP;

Coletivo Transfeminismo;

COMULHER –¬†Comunica√ß√£o Mulher;

N√ļcleo de Jornalistas Afrobrasileiro do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul;

Coletivo Negrada;

Entre Luma e Frida;

Centro Acad√™mico XXXI de Outubro –¬†Escola de Enfermagem da USP;

Juventude da CONEN;

Movimento PARATOD@S/PARATODAS;

Juventude Negra do PT (JN13);

Frente Perspectiva¬†‚Äď Mackenzie;

Juventude do PT;

Centro Acad√™mico de Psicologia¬†‚Äď PUC-Campinas;

Rede de Mulheres em Comunicação;

Intervozes¬†‚Äď Coletivo Brasil de Comunica√ß√£o Social;

LBL¬†‚Äď Liga Brasileira de L√©sbicas;

Frente Feminista da UNICAMP;

Coletivo Mulheres Negras;

Secretaria Nacional da Juventude do PT;

Coletivo At√© Quando ‚ÄstDireito PUC Campinas;

Movimento RUA Juventude Anticapitalista;

Insurgência;

Campanha Reaja ou Ser√° Morta , Reaja ou Ser√° Morto ;

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O lugar do racismo na luta de classes brasileira. O dilema do proletariado preto.

Apresentamos um texto do companheiro Gas-Pa que, como o t√≠tulo indica, aborda a quest√£o do racismo no Brasil, mas sob uma perspectiva mais ampla e profunda, situando o tema na perspectiva da luta de classes. Em tempos em que a tend√™ncia √© limitar esse debate ao n√≠vel das chamadas ‚Äúpol√≠ticas afirmativas‚ÄĚ (ser a favor ou contra cotas, por exemplo), uma contribui√ß√£o como a de Gas-Pa √© mais do que bem vinda. √Č fundamental tanto para avan√ßar na luta contra o racismo quanto para a luta anticapitalista. Gas-Pa √© rapper, militante social e pol√≠tico, membro do Coletivo Lutarmada, e desenvolve seu trabalho na periferia do Rio de Janeiro.

 

Publicado originalmente em  no site  socialismosemfronteiras.net

O Brasil √© o pa√≠s com a segunda maior popula√ß√£o preta do mundo, ficando atr√°s somente da Nig√©ria. Esse contingente afro-descendente √© resultado do com√©rcio negreiro de maior volume da hist√≥ria, que importou cerca de 6 milh√Ķes de africanos. O desenrolar hist√≥rico dessa rep√ļblica capitalista que n√£o fez sua revolu√ß√£o burguesa (nos moldes cl√°ssicos) imp√īs √† nossa luta de classes uma din√Ęmica diferenciada no que tange √† quest√£o racial. E essa particularidade √© ainda inc√≥gnita, ou emba√ßada, para o olhar de quem se organiza contra a explora√ß√£o e a opress√£o. Pra uns a luta contra o racismo √© fragment√°ria e, por isso mesmo, retarda o nosso triunfo sobre a burguesia, e a supera√ß√£o do racismo seria uma consequ√™ncia inevit√°vel e autom√°tica da revolu√ß√£o socialista. Pra outros o racismo √© a contradi√ß√£o central da nossa sociedade, e deve ser combatido pelas suas v√≠timas sem a interfer√™ncia de brancos que, no geral, se apresentam para conduzir a luta preta com pseudo-solu√ß√Ķes ‚Äď euro-centradas ‚Äď como o socialismo, que n√£o passaria de mais um projeto de supremacia branca. H√° tamb√©m aqueles que, divergindo dos dois outros grupos, admitem que as duas frentes de luta s√£o na verdade uma s√≥. Mas sem entender direito o porqu√™, n√£o conseguem ir al√©m de repetir frases de √≠cones dessa luta, como ‚Äúracismo e capitalismo s√£o duas faces da mesma moeda‚ÄĚ (Steve Biko), ou ‚Äún√£o h√° capitalismo sem racismo‚ÄĚ (Malcolm X). O que faremos daqui pra frente √© buscar a compreens√£o de porque essas duas lutas est√£o ligadas umbilicalmente, e que, por isso, nem o capitalismo e nem o racismo ser√£o superados se combatidos separadamente.

Apesar do consenso de que s√≥ existe uma ra√ßa ‚Äď a humana ‚Äď iremos debater sobre um fen√īmeno que tem nome, e esse nome √© ‚Äúracismo‚ÄĚ. Ent√£o, falaremos o tempo todo em ra√ßa, pra n√£o tornar o texto burocr√°tico, e pra n√£o sermos obrigados a recorrer a termos como etnicismo, fenotipismo, melaninismo, ou outras bizarrices ainda piores. E, como no resto do mundo, nos referiremos aos africanos e seus descendentes como¬†pretos, deixando o termonegro¬†somente para nos referirmos aos pretos escravizados (exceto quando tratamos das organiza√ß√Ķes do povo preto. Ex. ‚Äúmovimento negro‚ÄĚ). Da mesma forma, o que a historiografia oficial chamou de¬†tr√°fico negreiro, aqui daremos outro tratamento. At√© a Lei Euz√©bio de Queiroz, em 1850, o com√©rcio de escravos era livre, legal, o que torna incoerente a utiliza√ß√£o da palavra ‚Äútr√°fico‚ÄĚ. Por isso, todo o com√©rcio internacional de africanos anterior a essa lei, chamaremos de ‚Äúimporta√ß√£o‚ÄĚ.

A nossa primeira classe trabalhadora.

A primeira classe trabalhadora deste pa√≠s ‚Äď que nos impuseram chamar de Brasil ‚Äď foi a escrava, constitu√≠da por africanos, j√° que a tentativa de escravizar os povos nativos havia falhado. Por tanto, a exist√™ncia de pretos e do racismo no Brasil tem a ver diretamente com a escravid√£o. Por isso mesmo √© bom fazer uma distin√ß√£o. Racismo e escravid√£o n√£o est√£o necessariamente subordinados um ao outro. Escravid√£o existiu em sociedades antigas como Roma e Gr√©cia, mas n√£o como resultado de uma suposta superioridade de uma ra√ßa sobre a outra (at√© porque em ambos os casos tanto escravos e senhores eram brancos). As guerras entre povos africanos tamb√©m geravam escravos, mas estes eram, num certo prazo e por v√°rias vias diferentes, integrados √† sociedade √† qual serviam. Al√©m disso, sua condi√ß√£o humana n√£o lhe era negada e a escravid√£o¬†n√£o era um modo de produ√ß√£o. A novidade trazida pelo S√©culo XVI √© que no Novo Mundo, a escravid√£o, j√° como modo de produ√ß√£o, era justificada na origem do escravizado, que traria a reboque uma suposta inferioridade intelectual e cultural de um povo que tinha em comum o mesmo fen√≥tipo, numa ponta, e na outra, a superioridade do branco.

Durante tr√™s s√©culos o principal inc√īmodo causado ao escravismo brasileiro era a rebeldia de sua classe escrava, que se manifestava de v√°rias formas, indo do suic√≠dio, passando pelo assassinato de seus senhores, resvalando nas greves [1]chegando √† quilombagem ‚Äď com direito a resgate de escravos nas fazendas ‚Äď ou, v√°rias dessas formas combinadas. Dentre elas, a quilombagem foi a que mais contribuiu para enfraquecer o escravismo. Cada grupo de escravos ‚Äď por menor que fosse ‚Äď fugido das fazendas significava preju√≠zo ao seu senhor que havia pagado por cada um deles. Al√©m disso, mais dinheiro era gasto pra se remunerar as mil√≠cias e custear as incurs√Ķes nas matas para capturar os fugitivos e desarticular os quilombos. Cada escravo fugido era um escravo a menos produzindo para o sistema. E, dependendo do n√≠vel de organiza√ß√£o de um determinado quilombo, ele produzia o suficiente para comercializar com o mundo branco, concorrendo com os senhores escravocratas. E assim a quilombagem contribuiu muit√≠ssimo para desorganizar a economia escravista, tornando-se a primeira forma expressiva de organiza√ß√£o combativa da classe trabalhadora brasileira. E j√° data dessa √©poca a pr√°tica de negar ao preto rebelde o car√°ter de preso pol√≠tico. Por mais que sua a√ß√£o organizada e coletiva tenha como fim a subvers√£o de uma ordem, o preto subversivo sempre foi relegado ao status de bandido comum.

Por√©m, j√° na metade do S√©culo XIX a resist√™ncia dos escravos n√£o era a √ļnica preocupa√ß√£o dos escravistas do Brasil. A press√£o da principal pot√™ncia pol√≠tico-militar e econ√īmica da √©poca, criava muitos problemas para o futuro do escravismo brasileiro. Com sua revolu√ß√£o industrial realizada um s√©culo antes, a Inglaterra precisava expandir seu mercado. E essa expans√£o √© imposs√≠vel para regi√Ķes onde trabalhadores n√£o recebem sal√°rio.

E os senhores s√£o libertos de seus escravos.

No apagar das luzes do s√©culo XVIII a classe escrava do Haiti mostrou do que os negros eram capazes ao fazer sua revolu√ß√£o. Principalmente porque para isso eles tiveram que derrotar o poderoso ex√©rcito napole√īnico. O efeito desse importante feito ‚Äď que, mesmo seguindo o rastro da Revolu√ß√£o Francesa n√£o consta nos livros de hist√≥ria entre as grandes revolu√ß√Ķes ‚Äď foi que toda a classe senhorial do continente americano teve que come√ßar a pensar na possibilidade de uma aboli√ß√£o sem o radicalismo com que ocorreu na pequena ilha caribenha. No que toca ao Brasil era importante redobrar os cuidados j√° que foi pra c√° que o maior contingente de africanos havia sido importado desde o S√©culo XVI. S√≥ pra se ter uma id√©ia, em 1849 o Rio de Janeiro era a capital mais ‚Äúafricana‚ÄĚ das Am√©ricas. O susto foi tamanho que o termo¬†haitianismo¬†passou a ser empregado a tudo que era considerado risco de uma rebeli√£o escrava. A paran√≥ia se agravou depois da Revolta dos Mal√™s, em 1835, quando negros islamizados se valeram de seu dom√≠nio da escrita √°rabe para organizar, durante meses, um levante na prov√≠ncia da Bahia.

Alguns setores da classe dominante ainda defendiam a manuten√ß√£o do escravismo. Mas mesmo os que faziam campanha pela aboli√ß√£o foram se precavendo para que ela acontecesse sem sustos. Por isso, j√° a partir de 1850 legisladores come√ßam a tomar suas provid√™ncias e uma s√©rie de Projetos de Leis (PLs) foram criados no sentido da aboli√ß√£o gradual e controlada. Esses PLs tratavam da aboli√ß√£o dos castigos f√≠sicos, liberta√ß√£o dos filhos de m√£es escravas, o direito aos escravos de comprar sua alforria, liberta√ß√£o dos escravos pertencentes ao governo, proibi√ß√£o do trabalho escravo nas cidades, a proibi√ß√£o de se desfazer fam√≠lias de escravos no com√©rcio interno, liberta√ß√£o de escravos com mais de sessenta anos‚Ķ Entre outros. √Č desse ano tanto a primeira lei relevante abolicionista ‚Äď a que proibia a importa√ß√£o de africanos ‚Äď como a importante lei N¬ļ 601, a Lei de Terras. Antes dela a aquisi√ß√£o de terras s√≥ era poss√≠vel atrav√©s da doa√ß√£o pelo Rei. Este concedia os lotes segundo alguns crit√©rios, dentre os quais, servi√ßos prestados √† Coroa. A Lei de Terras altera essa rela√ß√£o que deixa de ser de concess√£o para ser de venda. A partir de ent√£o s√≥ seria propriet√°rio de terra quem tivesse dinheiro pra compr√°-la. Aos negros, que na √Āfrica eram agricultores e aqui vieram pra trabalhar na agricultura, foi eliminada qualquer possibilidade de acesso √† terra. Dinheiro pra comprar, por raz√Ķes √≥bvias, n√£o tinha. Agora tamb√©m j√° n√£o h√° chances de adquiri-las em fun√ß√£o de seus¬†servi√ßos prestados √† Coroa. Na possibilidade da liberta√ß√£o dos escravos, a esses o acesso √†s terras j√° estava blindado.

A queda no pre√ßo do a√ß√ļcar cria grandes dificuldades para os fazendeiros do Nordeste. Quatro anos antes da assinatura da Lei √Āurea a prov√≠ncia do Cear√° j√° tinha abolido a escravid√£o, sendo seguida por outras. As vantagens de se pagar sal√°rios ao inv√©s de comprar e manter escravos j√° apareciam com mais nitidez ante os olhos das elites brasileiras. As revoltas, as leis abolicionistas e a inviabilidade de alguns senhores manterem seus escravos, j√° tinham liberado a maior parte da m√£o de obra escrava antes de maio de 1888 (em 1887 a popula√ß√£o brasileira passava dos 13 milh√Ķes, dos quais, pouco mais de 720 mil eram escravos). N√£o tardou para que os egressos das senzalas entendessem que a tal ‚Äúliberta√ß√£o‚ÄĚ na verdade era uma condena√ß√£o √† mis√©ria. A √ļltima preocupa√ß√£o dessa lei foi com os negros. Tanto √© verdade que a eles n√£o foi dada nenhuma garantia de sustento, de manuten√ß√£o das pr√≥prias vidas. A Lei N¬ļ 601 impediu a aquisi√ß√£o de terra pelos pretos ‚Äď que tantos servi√ßos prestaram √† Coroa ‚Äď mas garantiu lotes para algumas fam√≠lias de europeus que imigravam pra c√° √† custa de fundos arrecadados pela venda dessas terras. Para se importar 6 milh√Ķes de africanos, foi preciso mais de trezentos anos. Mas bastaram algumas d√©cadas entre o fim do S√©culo XIX e o come√ßo do XX para que cerca de quatro milh√Ķes de trabalhadores europeus entrassem no Brasil.

Com tanta gente liberada das senzalas, pra que trazer trabalhadores da Europa? Uma boa parte da nossa esquerda se esfor√ßa pra negar que tenha sido por racismo, mas o faz, at√© agora, com argumentos fr√°geis. Uma¬†pol√≠tica¬†de branqueamento do pa√≠s entrou em curso a partir da segunda metade do s√©culo XIX. E foi essa mentalidade tamb√©m que deu mais f√īlego √† campanha abolicionista, que refletiu o desejo de muitos brancos de se livrarem da ‚Äúmancha negra‚ÄĚ, dessa marca do atraso do pa√≠s.

 Política de embranquecimento.

Alguns ‚Äúmaterialistas‚ÄĚ afirmam que essa sangria de trabalhadores europeus pra c√°, ao inv√©s de motiva√ß√Ķes racistas, se deveu ao fato de que mesmo lenta, a industrializa√ß√£o brasileira carecia do emprego de trabalhadores j√° habituados a lidar com o maquin√°rio fabril. S√≥ que a maior parte dos imigrantes n√£o veio para trabalhar na ind√ļstria. Al√©m disso, devemos considerar a reorganiza√ß√£o da produ√ß√£o. Os artes√£os transformados em trabalhadores assalariados dominavam o conhecimento de todas as fases do processo produtivo. Suas habilidades eram imprescind√≠veis ao patr√£o. Mas com a divis√£o do processo em v√°rias opera√ß√Ķes distintas, e com um oper√°rio realizando cada uma delas, o aprendizado de cada tarefa se torna bem mais breve. Muito mais ainda com a introdu√ß√£o da m√°quina que veio dispensar as habilidades espec√≠ficas do antigo artes√£o. Assim sendo, capacitar a for√ßa de trabalho liberada da escravid√£o seria bem mais plaus√≠vel do que importar trabalhadores da Europa. Mas n√£o para por a√≠. Para os africanos que aqui chegavam, os horrores do escravismo eram uma aberra√ß√£o nunca vista antes. Para eles rebelar-se era uma necessidade imperativa. Mas muitos dos escravos do ultimo per√≠odo do Imp√©rio nasceram no Brasil escravista e n√£o tinham vivenciado a liberdade ainda. Para esses, o cativeiro era muito mais f√°cil de ser assimilado. Desde 1850 o parlamento produzia, debatia e aprovava leis abolicionistas. Isso criava nesses negros uma expectativa de serem libertados a qualquer momento por vias legais. Para isso as elites deliberantes n√£o poderiam se sentir amea√ßadas. Do contr√°rio, a liberdade dos negros √© que correria perigo. N√£o foi a toa que esses anos que se seguiram de 1850 at√© 1888 n√£o registraram grandes rebeli√Ķes, ao contr√°rio dos anteriores. O mesmo n√£o se podia dizer dos europeus que vieram. Uma parte deles j√° atuava no movimento sindical de seus pa√≠ses e j√° havia criado muito problema para seus burgueses. Pra que ent√£o trocar o novo comportamento mais brando que vinha se verificando entre os negros pela j√° conhecida rebeldia dos trabalhadores do Velho Mundo? Atribui-se tamb√©m essa pol√≠tica imigrantista √† ideia de que para modernizar o Brasil era necess√°rio romper os v√≠nculos com o anacronismo da escravid√£o. E de fato o pa√≠s estava t√£o atrasado que enquanto aqui ainda se discutia se libertava ou n√£o os filhos de m√£es escravas, em Paris a classe oper√°ria j√° tomava o poder. Ora, se o Brasil foi condenado ao atraso por insistir no escravismo, o negro n√£o pode ser responsabilizado por isso j√° que foi ele o principal e mais combativo inimigo desse modo de produ√ß√£o defendido pela elite branca com todas as armas poss√≠veis e necess√°rias. Assim sendo, de acordo com essa tese que associa o atraso ao escravismo, era a classe senhorial a √ļnica e exclusiva respons√°vel por este. Por√©m, como vimos, na decad√™ncia do modo de produ√ß√£o escravista, esse atraso era diretamente vinculado √† figura do negro.¬†Que nome damos a isso se n√£o racismo? Lembremos que uma das fun√ß√Ķes da ideologia √© naturalizar o que n√£o √© natural, alguma situa√ß√£o de explora√ß√£o e opress√£o constru√≠da pela pr√≥pria humanidade no decorrer de sua hist√≥ria. Trezentos anos de domina√ß√£o senhorial s√£o mais do que suficientes para naturalizar a ‚Äúinferioridade do negro‚ÄĚ. Mesmo movida por raz√Ķes econ√īmicas, a classe dominante n√£o est√° isenta de ver o mundo distorcido pela ideologia que ela mesma criou e alimenta. Ali√°s, √© pra isso que existe a ideologia. [2]Ent√£o, a pol√≠tica de imigra√ß√£o foi sim uma pol√≠tica¬†racista. √Č importante sermos materialistas, ainda mais se tamb√©m formos hist√≥ricos e dial√©ticos.

Definitivamente o povo preto estava descartado dos planos da rep√ļblica que nascia em 1889. Em 1911 o Brasil envia para o Congresso Universal das Ra√ßas, em Londres, o m√©dico Jo√£o Batista Lacerda que, preconizando uma superioridade da ra√ßa branca, previu a extin√ß√£o do preto no Brasil at√© o ano 2012. Sendo a preta uma ra√ßa mais fraca, no processo de miscigena√ß√£o, j√° em curso desde o escravismo, um s√©culo bastaria para que a ra√ßa branca prevalecesse absoluta. Assim explicou Jo√£o:
‚ÄúA sele√ß√£o sexual cont√≠nua aperfei√ßoa sempre ao subjugar o atavismo e purga os descendentes de mesti√ßos de todos os tra√ßos caracter√≠sticos do negro. Gra√ßas a este procedimento de redu√ß√£o √©tnica, √© l√≥gico supor que, no espa√ßo de um novo s√©culo, os mesti√ßos desaparecer√£o do Brasil, fato que coincidir√° com a extin√ß√£o paralela da ra√ßa negra entre n√≥s‚ÄĚ

E segue a profecia:

‚ÄúA popula√ß√£o mista do Brasil dever√° ent√£o ter, dentro de um s√©culo, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigra√ß√£o europ√©ia, que aumentam a cada dia e em maior grau o elemento branco desta popula√ß√£o, terminar√£o, ao fim de certo tempo, por sufocar os elementos dentro dos quais poderiam persistir ainda alguns tra√ßos do negro.‚ÄĚ

A miscigena√ß√£o sozinha n√£o daria conta de tal fa√ßanha. Ent√£o nosso intelectual discorre sobre outros aspectos que nos levaria a essa ‚Äúpurifica√ß√£o‚ÄĚ racial no pa√≠s mais preto fora da √Āfrica:

‚ÄúDepois da aboli√ß√£o, o negro entregue a ele pr√≥prio come√ßou por sair dos grandes centros civilizados, sem procurar melhorar, no entanto sua posi√ß√£o social, fugindo do movimento e do progresso ao qual n√£o poderia se adaptar. Vivendo uma exist√™ncia quase selvagem, sujeito a todas as causas de destrui√ß√£o, sem recursos suficientes para se manter, refrat√°rio a qualquer disciplina que seja, o negro se propaga pelas regi√Ķes pouco povoadas e tende a desaparecer de nosso territ√≥rio, como uma ra√ßa destinada √† vida selvagem e rebelde √† civiliza√ß√£o.‚ÄĚ

O interessante dessas √ļltimas linhas √© que, assim como se atribuiu ao ex-escravo o atraso do pa√≠s resultante do escravismo mantido pelo branco, agora, de novo, o preto √© responsabilizado por sua pr√≥pria marginaliza√ß√£o. N√£o foi que as portas do novo modo de produ√ß√£o lhes foram fechadas em favor do embranquecimento do Brasil que priorizou importa√ß√£o de for√ßa de trabalho europ√©ia. Ao inv√©s disso, afirma o pseudo-cientista, o povo preto que, ‚Äúsem procurar melhorar sua posi√ß√£o social‚ÄĚ, optou por ‚Äúuma exist√™ncia quase selvagem, sujeito a todas as causas de destrui√ß√£o, sem recursos suficientes para se manter‚ÄĚ

Já prestes a encerrar sua comunicação científica, um quase clamor:

‚ÄúSuas [do Brasil] quest√Ķes lim√≠trofes est√£o resolvidas, e as leis votadas ultimamente em favor da imigra√ß√£o, a fim de assegurar os direitos dos estrangeiros diante dos tribunais da na√ß√£o, s√£o as melhores garantias dos capitais estrangeiros empregados nos trabalhos de utilidade nacional. Pode-se, portanto afirmar, sem medo de faltar √† verdade, que o Brasil est√° pronto, nesse momento, para acolher em seu vasto seio o √™xodo dos povos europeus.

Eles descobrir√£o, como fim √† sua atividade, e para constituir a base da riqueza de suas fam√≠lias, as grandes culturas de caf√©, de cana-de-a√ß√ļcar, de cacau, a explora√ß√£o de borracha, a cultura de frutas tropicais, da videira e do trigo, as ind√ļstrias de fabrica√ß√Ķes diversas, a cultura do bicho-da-seda, a explora√ß√£o de minerais, a cria√ß√£o dos rebanhos de bois e cavalos, a ind√ļstria leiteira etc., fonte de riquezas as quais as leis do pa√≠s prestam ainda mais seguros e assist√™ncia, pela concess√£o de terras e pela promessa de garantia em dinheiro.‚ÄĚ

A participação do médico racista nesse encontro foi patrocinada pelo presidente marechal Hermes da Fonseca. O embranquecimento do Brasil não era uma teoria, mas sim um projeto.

Racismo. Um bom negócio.

A transi√ß√£o escravismo/capitalismo ao inv√©s de uma ruptura revolucion√°ria, fez manter de p√© a hegemonia da oligarquia agr√°ria. E essa hegemonia perdurou at√© a d√©cada de 1930. S√≥ ent√£o, com a chamada Revolu√ß√£o de 30, se p√Ķe fim √† ‚Äúfarra do caf√© com leite‚ÄĚ e os caminhos se abrem para a burguesia industrial, para a consolida√ß√£o do capitalismo no Brasil. E isso vai mudar a cara do racismo brasileiro.

Para o capital a fun√ß√£o do ex√©rcito industrial de reserva √© manter sempre favor√°vel ao patr√£o a lei de oferta e procura da mercadoria for√ßa de trabalho. Mas o que acontece quando uma enorme massa encontra-se alijada at√© desse ex√©rcito, e que nem na reserva est√°? Pois bem. Para al√©m da delinqu√™ncia e de outros recursos que n√£o nos interessa agora, h√° poucas alternativas. Duas delas s√£o disputar no mercado de trabalho aquelas fun√ß√Ķes de menores prest√≠gio e remunera√ß√£o, ou exercer as mesmas fun√ß√Ķes que os trabalhadores brancos, mas por um sal√°rio menor.[3] Ora. J√° vimos que essa nova rep√ļblica que pretende se modernizar quer faz√™-lo livre da¬†presen√ßa repugnante¬†do povo preto, cuja figura remete imediatamente ao atraso. Vimos que a situa√ß√£o de mis√©ria √† qual os pretos foram relegados era t√£o intensa que cientistas previam que essa ra√ßa n√£o resistiria mais que um s√©culo a tamanhas adversidades. A exist√™ncia cont√≠nua de uma grande e determinada parcela do proletariado que por tais condi√ß√Ķes √© obrigada a vender sua for√ßa de trabalho por um pre√ßo abaixo do praticado com os trabalhadores brancos ‚Äď quase que exclusivos no mercado ‚Äď faz constante press√£o pra baixo nos sal√°rios gerais. O trabalhador branco vive entre o baixo sal√°rio e a amea√ßa de ser substitu√≠do por um outro trabalhador disposto a ganhar menos do que ele. Se a raz√£o de ser do capitalismo √© cada vez maiores lucros, ent√£o o racismo n√£o se encaixa perfeitamente aos seus objetivos? Pois √©. Por mais que as esquerdas n√£o tenham notado isso at√© hoje, para o capital n√£o passou despercebido. E ele se utiliza do racismo para se fortalecer cada vez mais. Isso no campo econ√īmico, mas e no pol√≠tico? A manuten√ß√£o do racismo acirra disputas que n√£o deveriam existir no interior da classe, deixando-a dividida (isso sim fragmenta a nossa classe), dificultando a identifica√ß√£o e a√ß√£o unit√°ria contra o inimigo comum.

A democracia racial.

Um cen√°rio como este n√£o √© compat√≠vel com a¬†pol√≠tica de embranquecimento¬†do pa√≠s. Como as classes dominantes v√£o deixar que se extinga uma parcela da popula√ß√£o que √© pe√ßa fundamental de um mecanismo que fortalece sua domina√ß√£o? N√£o foi a toa que na d√©cada de 1930 surgiu a farsa da¬†democracia racial, que vinha substituir a¬†pol√≠tica de embranquecimento[4]. A¬†democracia racial¬†deriva de uma corrente de pensamento que pretendeu vender ao mundo a imagem de perfeita harmonia na rela√ß√£o entre as ra√ßas no Brasil. Na base dessa inven√ß√£o h√° o argumento de que, ao contr√°rio da Am√©rica protestante, a Am√©rica cat√≥lica era mais benevolente com seus escravos, permitindo uma conviv√™ncia t√£o √≠ntima que possibilitou que as ra√ßas se misturassem, miscigenando como em nenhum outro canto do mundo[5]. Portanto, num ambiente como esse, o racismo n√£o encontraria terreno. A partir da√≠ o Brasil passa a configurar como laborat√≥rio de rela√ß√Ķes raciais para o mundo. Todas as ra√ßas teriam iguais oportunidades, sendo de responsabilidade √ļnica de cada indiv√≠duo seu sucesso ou o fracasso, n√£o importando seu fen√≥tipo. De acordo com essa ideologia a barreira entre o preto e sua dignidade seria o pr√≥prio preto. Tal farsa ecoou pelo exterior a ponto de a Unesco patrocinar uma pesquisa cujo resultado deveria servir de manual pr√°tico das boas rela√ß√Ķes raciais para o mundo. Assinado por Florestan Fernandes, Otavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso e Roger Bastide, o estudo desvelou a verdadeira face racista do Brasil, contrariando a propaganda que se fazia das nossas ‚Äúboas rela√ß√Ķes raciais‚ÄĚ. S√≥ que a pesquisa repercutiu muito menos do que a fal√°cia que ela desmentiu. E assim o mito da democracia racial sobrevive at√© hoje, resistindo √†s estat√≠sticas que s√£o divulgadas anualmente no dia 20 de novembro, quando se evidencia o abismo que separa o ‚ÄúBrasil preto‚ÄĚ do ‚ÄúBrasil branco‚ÄĚ [6].

Opor a ‚ÄúAm√©rica cat√≥lica‚ÄĚ a ‚ÄúAm√©rica protestante‚ÄĚ, dentro desse contexto, √© opor Brasil aos EUA. Os defensores da fal√°cia da democracia racial gostam dessa compara√ß√£o por serem os Estados Unidos um pa√≠s onde a legisla√ß√£o segregou pretos e brancos at√© a d√©cada de 1960. Na vig√™ncia dessas leis o preto estadunidense precisou criar seus pr√≥prios espa√ßos de sociabilidade, assim como se submeter a outros que o Estado lhe reservava. Eram escolas pra pretos, igrejas pra pretos, clubes pra pretos, bebedouros pra pretos, bairros pra pretos, etc pra pretos. Essa segrega√ß√£o escancarada permitiu ao preto de l√° preservar e fortalecer sua identidade racial. Isso propiciou uma unidade na luta que lhes proporcionou conquistas e avan√ßos[7]. Aqui, com o racismo fantasiado de¬†democracia racial, onde a segrega√ß√£o n√£o tem respaldo jur√≠dico, ele incide com muito mais for√ßa e efic√°cia na informalidade. O racismo brasileiro esconde o antes, o durante, e maquia o depois do seu processo, de forma que nem suas v√≠timas conseguem perceber que sua condi√ß√£o de precariedade ‚Äď que atinge a um percentual maior da sua popula√ß√£o e com maior intensidade que ao proletariado branco ‚Äď tem liga√ß√£o direta com algumas caracter√≠sticas f√≠sicas que elas herdaram de seus antepassados escravizados. E um dos fatores que dificultam essa percep√ß√£o √© justamente aquele que serviu de base pros defensores da democracia racial: A miscigena√ß√£o. Ela fez da popula√ß√£o brasileira um povo de muitas cores. E se nos EUA preto √© preto e branco √© branco, aqui essa diversidade responde por uma hierarquiza√ß√£o crom√°tica que coloca em p√≥los opostos o branco e o preto, mudando o tratamento que a sociedade vai dar aos indiv√≠duos de acordo com a proximidade que cada qual tem com um dos p√≥los. Se o que a sociedade tem de pior est√° reservado pra quem tem a pele mais escura, logo, na medida em que a pessoa se distancia dessa tonalidade, menos incide nela a discrimina√ß√£o que se funda na origem racial. Mecanismos sociais simb√≥licos t√™m sido usados como recurso de fuga dessa realidade t√£o adversa. Por exemplo, no recenseamento de 1980, quando os pesquisadores do IBGE perguntavam pela cor, os entrevistados respondiam com muitos subterf√ļgios, que iam do ‚Äúbege‚ÄĚ, passando pelo ‚Äúcinza‚ÄĚ, resvalando no ‚Äúmorena bem chegada‚ÄĚ indo at√© o ‚Äúroxa‚ÄĚ, totalizando 136 cores diferentes (e bem bizarras). Essa pesquisa mostra que miscigena√ß√£o n√£o iguala ningu√©m. Ao contr√°rio, cria uma hierarquia que n√£o tem mais tamanho. Se viv√™ssemos de fato numa democracia racial n√£o haveria necessidade de ningu√©m querer escamotear sua verdadeira identidade buscando se aproximar o m√°ximo poss√≠vel de um modelo entendido como o certo, o belo, o limpo, o puro, o honesto, o inteligente‚Ķ Em fim, o padr√£o (branco). E o pior de tudo √© que, como s√£o simb√≥licos, esses subterf√ļgios surtem pouco efeito na rela√ß√£o com o opressor, pois para o departamento pessoal das empresas, pro cano do fuzil do policial, pro elevador de servi√ßo, pro poder judici√°rio, pro sistema penitenci√°rio, etc., n√£o existe ‚Äúbege‚ÄĚ, ‚Äúmelada‚ÄĚ, ‚Äúfogoi√≥‚ÄĚ, ‚Äúcor de ouro‚ÄĚ, ‚Äúmorena bem chegada‚Ä̂Ķ N√£o. √Č tudo preto.

Se a oposi√ß√£o que fazemos ao Projeto Democr√°tico Popular (e √† sua variante, o Projeto Popular para o Brasil) nos imp√Ķe uma postura cr√≠tica √† exalta√ß√£o das identidades, a luta socialista, dialeticamente, nos exige batalhar pela aquisi√ß√£o e afirma√ß√£o da identidade do prolet√°rio preto. Numa sociedade dividida em classes e com uma classe subalterna dividida em ra√ßas, a identidade racial √© uma identidade grupal, que por sua vez √© precondi√ß√£o para supera√ß√£o da aliena√ß√£o. Assim diz o professor da UFRJ, Mauro Iasi, no seu trabalhoEnsaios sobre consci√™ncia e emancipa√ß√£o:

‚ÄúQuando uma pessoa vive uma injusti√ßa solitariamente, tende √† revolta, mas em certas circunst√Ęncias pode ver em outra pessoa sua pr√≥pria contradi√ß√£o. Esse tamb√©m √© um mecanismo de identifica√ß√£o da primeira forma [de consci√™ncia], mas aqui a identidade com o outro produz um salto de qualidade.‚ÄĚ

Mas como um afro-descendente vai ver num outro preto a sua pr√≥pria contradi√ß√£o se ele nem se v√™ como tal, mas sim como um ‚Äúfogoi√≥‚ÄĚ, um ‚Äúcinza‚ÄĚ, um ‚Äúmarrom bombom‚ÄĚ, um ‚Äúmoreninho‚ÄĚ, um ‚Äúpardinho‚ÄĚ, um ‚Äúmelado‚Ä̂Ķ?[8] Num pa√≠s com o hist√≥rico que o Brasil tem nas suas rela√ß√Ķes raciais, a luta contra o racismo perpassa por uma batalha extremamente √°rdua pela identidade racial. Identidade de um determinado¬†grupo¬†de pessoas que se assemelham em determinados tra√ßos f√≠sicos que lhes inferioriza perante o outro grupo que¬†guarda as caracter√≠sticas f√≠sicas da classe dominante. E se o grupo √© precondi√ß√£o para a supera√ß√£o da aliena√ß√£o rumo √† consci√™ncia de classe para si, negligenciar a luta contra o racismo no pa√≠s com o racismo mais eficaz do mundo, √© frear o avan√ßo da luta prolet√°ria contra o capital.

Conceitos como mais-valia, valor de uso, valor de troca, capital constante, capital vari√°vel, entre outros necess√°rios para um entendimento b√°sico de economia pol√≠tica ainda s√£o caros √†s massas. S√£o rela√ß√Ķes vividas cotidianamente por quem produz a riqueza desse pa√≠s, mas imposs√≠vel de serem vistas a ‚Äúolhos nus‚ÄĚ. Por√©m, a companhia indesej√°vel dos seguran√ßas dos shoppings e lojas de departamento; a demora pra ser atendido nesses mesmos espa√ßos, assim como em restaurantes; a sua cor como sin√īnimo de ruim, feio, perigoso, sujo, sombrio, l√ļgubre, mal√©volo, impuro, etc.; as constantes revistas policiais e, nelas ter que fingir que √© inocente mesmo sendo inocente; as piadas ‚Äď nada inocentes, diga-se de passagem ‚Äď referentes aos tra√ßos f√≠sicos; a maior precariedade no acesso √† sa√ļde[9]; o desemprego ou o trabalho precarizado; a baixa escolaridade‚Ķ S√£o todos inc√īmodos sentidos na pele no dia-a-dia do trabalhador preto, mesmo que ele n√£o perceba que h√° algo em comum entre ele e a grande maioria das v√≠timas dessas mazelas. Na aus√™ncia de uma esquerda que discuta e atue seriamente na quest√£o racial com um recorte de classe, esses trabalhadores seguem na in√©rcia pol√≠tica. E essa pode ser a melhor das hip√≥teses. Pior ainda √© quando aos poucos eles v√£o sendo cooptados por um setor do Movimento Negro que nega a luta de classes e que prega contra o comunismo alegando que ele √© uma proposta de luta euroc√™ntrica, que desconsidera o ethos negro, e que no fim das contas, n√£o passa de mais um projeto de domina√ß√£o branca. Al√©m disso, acusam os militantes dos movimentos e partidos de esquerda de serem racistas ‚Äď acusa√ß√£o que procede em muitos casos.

O racismo √© uma das manifesta√ß√Ķes da luta de classes. Portanto, podemos afirmar que a luta anti-racismo n√£o fragmenta a luta prolet√°ria. Mas, ao contr√°rio, fragmentamos o proletariado quando deixamos de incorporar efetivamente a luta anti-racismo, pois assim deixamos de trazer pras nossas trincheiras parte da parcela maior da nossa classe. E ainda corremos o risco de empurrar muitos trabalhadores pretos pra dentro de organiza√ß√Ķes que atuam no sentido de integr√°-los na sociedade burguesa, inverter os p√≥los de opress√£o e explora√ß√£o, e que elegeram a n√≥s comunistas inimigos preferenciais.

 O racismo da nossa esquerda.

“Muitos são racistas e dizem não ser
Talvez voc√™ seja mesmo sem voc√™ saber‚ÄĚ
Consciência Urbana

Somos uma ilha de democracia racial, cercada de racistas por todos os lados. O preconceito √© t√£o abomin√°vel que at√© os preconceituosos o condenam (pelo menos teoricamente). Uma pesquisa organizada pela antrop√≥loga Lilia Moritz Schwarcz perguntou aos entrevistados se ‚Äúvoc√™ tem preconceito?‚ÄĚ. A essa pergunta 96% responderam que n√£o. Agora √© que vem o absurdo. A segunda pergunta era: ‚ÄúVoc√™ conhece algu√©m que tenha preconceito?‚ÄĚ. Curiosamente 99% das pessoas responderam que sim (!). O preconceito ‚Äď e no caso do objeto do nosso debate, o racismo ‚Äď √© sempre um defeito ‚Äúdo outro‚ÄĚ, mas nunca ‚Äúmeu‚ÄĚ.

Como j√° foi dito antes, uma das fun√ß√Ķes da ideologia √© naturalizar a opress√£o e a explora√ß√£o. Como somos formados dentro de uma sociedade racista √© quase inevit√°vel a reprodu√ß√£o de atitudes e discursos racistas, sem que eles sejam percebidos como tal. Assim sendo, o racismo √© praticado por in√ļmeros militantes que o condenam. Combater o racismo n√£o pode ser entendido simplesmente como reconhecer sua exist√™ncia, se posicionar contra ele e exibir como trof√©u um preto que ocupe cargo de dire√ß√£o dentro do seu partido, sindicato, movimento ou instrumento de organiza√ß√£o e luta da nossa classe.

Para essas pessoas um importante primeiro passo √© reconhecer ‚Äď sem culpa ‚Äď os privil√©gios que a sociedade lhes reserva,¬†com rela√ß√£o √† parcela preta do proletariado. Pra quem se enxerga no cume da consci√™ncia revolucion√°ria, isso vai parecer constrangedor. Por√©m, pra quem deseja sinceramente a supera√ß√£o de uma sociedade que explora/oprime, esse √© um movimento necess√°rio. √Č cat√°rtico. √Č libertador. Reconhecidos esses privil√©gios, eles podem, inclusive, serem colocados a servi√ßo do fim dos pr√≥prios privil√©gios. Basta o comprometimento com a luta revolucion√°ria.

A simbologia √© um campo tamb√©m f√©rtil para o nosso debate. A esquerda n√£o abre m√£o de vestir vermelho, por exemplo, sendo fiel a uma simbologia pr√≥pria da nossa luta. Assim √© tamb√©m com o hino d‚ÄôA Internacional¬†(cada vez menos freq√ľente nos nossos espa√ßos, √© verdade), e tamb√©m com um linguajar que √© comum somente no nosso meio. Isso prova que n√£o estamos, em setor algum da nossa sociedade, imune ao poder dos s√≠mbolos. Por√©m, se tratando das palavras ‚Äď sejam elas faladas ou escritas ‚Äď no nosso meio muitas vezes v√™m carregadas de conte√ļdo racista. O problema √© que a ideologia dominante tratou de naturalizar essas express√Ķes de tal forma que seu potencial ofensivo √© artificialmente minimizado. N√£o podemos perder de vista que a viol√™ncia simb√≥lica √© a que justifica a viol√™ncia f√≠sica. A viol√™ncia com a qual a m√≠dia burguesa trata as favelas prepara o terreno para a viol√™ncia f√≠sica do Estado nessas comunidades. Ela produz nos moradores ‚Äúdo asfalto‚ÄĚ um alto n√≠vel de aprova√ß√£o das opera√ß√Ķes policiais que aniquilam favelados ‚Äď pretos, em sua maioria. Do mesmo modo a viol√™ncia simb√≥lica das express√Ķes, dos termos, das piadas racistas, refor√ßa a naturaliza√ß√£o de uma inferioridade que legitima a viol√™ncia f√≠sica praticada contra o prolet√°rio preto. Por isso em pesquisa recente 55,8% dos entrevistados afirmaram que a morte de jovens ‚Äúnegros‚ÄĚ choca menos do que a de jovens brancos. S√£o n√ļmeros que refletem situa√ß√Ķes j√° conhecidas, como a do jovem preto, acusado de roubo, espancado e preso pelo pesco√ßo a um poste ‚Äď como seus antepassados escravos presos no pelourinho ‚Äď na mesma capital onde um jovem branco que passa com seu carro importando por cima de um ciclista preto, matando-o, √© condenado a prestar dois anos de servi√ßos comunit√°rios.

√Č prov√°vel que os companheiros brancos se surpreendam e se incomodem com as queixas dos militantes pretos com rela√ß√£o √†s pr√°ticas racistas verificadas nos espa√ßos comuns de milit√Ęncia. Onde a quest√£o racial n√£o √© devidamente discutida √© perfeitamente compreens√≠vel tanto as den√ļncias feitas pelos pretos quanto o inc√īmodo dos brancos com as den√ļncias. Essa √© a hora em que o companheirismo deve prevalecer, assim como a confian√ßa pol√≠tica dos militantes brancos naqueles companheiros que sentem na pele os efeitos nocivos de todo o preconceito produzido e propagado contra os africanos e descendentes nesses 500 anos de hist√≥ria.

Materialistas que somos, não cremos na superação do racismo simplesmente monitorando as palavras usadas no nosso cotidiano. Mas como nossa luta também se dá no campo das ideias (caso contrário não perderíamos tempo com cursos de formação política, e produzindo material de propaganda), é prudente ser vigilante com as próprias palavras pra não reproduzir o discurso racial da classe dominante, poupando o companheiro preto que poderá canalizar suas energias militantes somente contra o inimigo comum.

Sem teoria revolucion√°ria n√£o h√° a√ß√£o revolucion√°ria, dizia o camarada Lenin. Por isso os estudos s√£o tarefa imperativa para melhor qualificar a luta contra o capital. Por√©m, √© mister compreender o tempo do revolucion√°rio preto no cumprimento dessa tarefa. Por uma n√≠tida op√ß√£o, aos brancos basta a produ√ß√£o te√≥rica de seus pares. Mas, al√©m de se apropriar das mesmas fontes que os camaradas brancos, aos pretos √© necess√°ria ainda a apreens√£o do que j√° foi produzido pelos autores da di√°spora africana. E como na maioria das vezes essa produ√ß√£o te√≥rica dos pretos n√£o leva em considera√ß√£o o fator ‚Äúclasse‚ÄĚ, ainda recai sobre o militante preto produzir combinando esses v√°rios legados. Mas n√£o termina a√≠. Aos militantes pretos cabe ainda a tarefa de ler o que setores do Movimento Negro escrevem contra o marxismo, pra poder tecer a cr√≠tica sobre essas obras. N√£o √© f√°cil!

Dado o quadro das rela√ß√Ķes entre as ra√ßas no Brasil, o simples fato de desestimular o debate, os estudos e a a√ß√£o sobre as quest√Ķes espec√≠ficas do prolet√°rio preto, j√° se configura em postura racista. √Č importante a compreens√£o de que, com base em tudo que foi escrito acima, o fortalecimento da identidade preta, quando conduzido por quem est√° comprometido com o socialismo, ao contr√°rio de enfraquecer, s√≥ fortalece a identidade de classe. Por isso √© importante evitar o paternalismo e, ao mesmo tempo, entender que a forma√ß√£o de n√ļcleos de militantes pretos em nossos partidos, instrumentos e movimentos n√£o significa a constru√ß√£o de guetos internos. Ao inv√©s disso, √© certo enxerg√°-los como espa√ßos de elabora√ß√£o de t√°ticas que, considerando nossas especificidades na luta de classes, buscar√° uma maior ades√£o da popula√ß√£o preta prolet√°ria, com um n√≠vel de comprometimento e de consci√™ncia revolucion√°ria cada vez maior.

Cada vez mais vermelho, sem deixar de ser preto,                                                        Gas-PA

09-03-2014

[1] Mesmo antes da chegada dos imigrantes, os negros j√° realizavam seus movimentos paredistas.

[2] ‚ÄúAt√© agora os homens formaram sempre ideias falsas sobre si mesmos, sobre aquilo que s√£o ou deveriam ser (‚Ķ). Os filhos de suas cabe√ßas cresceram-lhes acima da cabe√ßa. Curvaram-se, eles que s√£o os criadores, diante das suas criaturas.‚ÄĚ (Marx e Engels, no pref√°cio de A Ideologia Alem√£.)

[3] Ainda hoje a diferença entre o salário do trabalhador branco para o trabalhador preto orbita entre os 45%

[4] Isso n√£o significa que estejamos, por exemplo, negando um processo de exterm√≠nio da popula√ß√£o preta (de acordo com Karl Marx nenhuma transforma√ß√£o social ocorre sem que as for√ßas produtivas se desenvolvam a ponto de se chocarem com as rela√ß√Ķes de produ√ß√£o existentes. Quando isso acontece apresenta-se um per√≠odo revolucion√°rio. Para tentar impedir a revolu√ß√£o, cabe √† classe dominante barrar a evolu√ß√£o das for√ßas produtivas, destruindo-as. Segundo a soci√≥loga Vera Malaguti Batista estima-se que 20% da for√ßa de trabalho hoje existente deem conta de mover a economia no mundo. Os 80% restante s√£o um percentual exagerado pra ser comportado dentro do ex√©rcito industrial de reserva. Ent√£o, o que fazer com o que sobra? Pesquisa divulgada em 2013 revela que aqui se mata 139% a mais de pretos do que de pessoas brancas. No Brasil coube ao afro descendente o papel de excedente do ex√©rcito industrial de reserva. A for√ßa de trabalho preta √© parte significativa das for√ßas produtivas que o inimigo aniquila para impedir o choque delas com as rela√ß√Ķes de produ√ß√£o capitalista). O que negamos, ent√£o, √© que qualquer pol√≠tica racista corrente tenha como finalidade a extin√ß√£o do preto no Brasil capitalista, assim como o Brasil escravista n√£o podia abrir m√£o de seus negros, ainda que os massacrasse.

[5] A partir de 1908 essa miscigenação ganha mais um elemento com a imigração japonesa.

[6] Em 2005 o Brasil era o 63¬ļ no ranking do √ćndice de Desenvolvimento Humano (IDH). Analisando dados de ent√£o, o economista Marcelo Paix√£o revelou que se divid√≠ssemos o Brasil em dois, um preto e um branco, e compar√°ssemos ambos os IDHs com os dos outros pa√≠ses, o Brasil branco subiria para 47¬™ posi√ß√£o, enquanto o Brasil preto cairia para 92¬ļ.

[7] Vejamo o que diz Darcy Ribeiro, no seu cl√°ssico¬†O povo brasileiro: ¬ī¬ī√Č preciso reconhecer, entretanto, que o apartheid tem conte√ļdos de toler√Ęncia que aqui se ignora. Quem afasta o alterno (diferente) e o p√Ķe √† dist√Ęncia maior poss√≠vel, admite que ele conserve, l√° longe, sua identidade, continuando a ser ele mesmo. Em consequ√™ncia, induz √† profunda solidariedade interna do grupo discriminado, o que o capacita a lutar claramente por seus direitos sem admitir paternalismos.¬ī¬ī

[8] Ainda no mesmo par√°grafo da obra citada na nota anterior: ¬ī¬īNas conjunturas assimilacionistas, ao contr√°rio, se dilui a negritude numa vasta escala de gradua√ß√Ķes, que quebra s solidariedade, reduz a combatividade (‚Ķ)¬ī¬ī. (S√≥ para ilustrar, o ent√£o jogador Ronaldo (fen√īmeno), em entrevista sobre o racismo na Europa, disse que at√© ele que n√£o √© negro (sic) se sente profundamente incomodado e solid√°rio ao problema de seus companheiros v√≠timas do preconceito racial. Tal declara√ß√£o foi condenada publicamente por seu pai, um ‚Äúnegro‚ÄĚ assumido.)

[9] Por exemplo, pesquisa da Fiocruz que entrevistou 10 mil mulheres, conclui que 11,1% das pretas n√£o receberam anestesia no parto. Mais que o dobre do percentual de mulheres brancas (5,1%)

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Sobre Cl√°udias e Adelaides: se ‚Äúuma piada √© s√≥ uma piada‚ÄĚ por que ningu√©m ri do tombo da pr√≥pria m√£e?

Sobre Cl√°udias e Adelaides: se ‚Äúuma piada √© s√≥ uma piada‚ÄĚ por que ningu√©m ri do tombo da pr√≥pria m√£e? [1]

in: http://kamugere.wordpress.com/tag/claudia/

Por: Deivison Mendes Faustino (Deivison Nkosi)[1]

‚ÄúMuito engra√ßado a bandida sendo arrastada. Lembrei do camarada fazendo isso com um cachorro esses tempos atras‚Ķkkkkkkkkkkkkkkkkkkk‚ÄĚ[2].

‚ÄúAten√ß√£o, n√£o √© a inten√ß√£o do site formar aqui atitudes preconceituosas e nem ser preconceituoso. S√£o apenas piadas, assim como existe sobre loiras, machismo, portugueses, japoneses, gordos, gagos, b√™bados, entre outros temas.[3]‚ÄĚ

No dia 16 de mar√ßo, um caso desastroso toma conta dos notici√°rios: policiais militares sobem o Morro de Madureira para mais uma incurs√£o b√©lica, e ao atirarem aleatoriamente,¬†atingem gravemente uma mulher e dois jovens. Ao perceberem se tratar de¬† uma mulher de meia idade ‚Äď perfil tipol√≥gico de dif√≠cil enquadramento nos estere√≥tipos reservados aos jovens vitimados por policiais nos morros ‚Äď os policiais “pegam” a mulher ferida e a jogam no porta-malas da viatura policial. A pesar do protesto de familiares e vizinhos, a viatura segue em alta velocidade pelas ruas do Rio de Janeiro¬†num trajeto¬†que segundo os moradores da Regi√£o n√£o √© o mais r√°pido para o Pronto-Socorro‚Ķ durante a viagem –¬†como se fosse um¬†filme antigo de com√©dia – ¬†o porta-malas da viatura se abre deixando a v√≠tima cair no asfalto como um saco de batatas. Como se n√£o bastasse, a sua roupa se enrosca no para-choque traseiro da viatura, enquanto a viatura policial a arrastou por 350 metros, dilacerando sua carne no asfalto.

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Seria c√īmico…

Se não estivéssemos falando de um ser humano ou alguma outra forma de vida que merecesse o nosso sentimento de alteridade. Aparentemente aqui, o que se viu foi o tratamento reservado a qualquer outra coisa ontologicamente distinta de nós, o suficiente para não despertar em nenhum momento a pergunta: e se fosse a minha mãe?

Entretanto, ao assistir √† trag√©dia – instantaneamente filmada e projetada pelas novas m√≠dias espetaculares – ¬† em um site de not√≠cias, um internauta que¬†provavelmente n√£o sabia de¬†quem se tratava, mas de porte dos estere√≥tipos ao qual os(as) negros(as) s√£o frequentemente representados,¬†escreve: ‚ÄúMuito engra√ßado a bandida sendo arrastada. Lembrei do camarada fazendo isso com um cachorro esses tempos atras‚Ķkkkkkkkkkkkkkkkkkkk‚ÄĚ (Sic).

Em outro local, ¬†em um site de piadas, vemos um aviso ¬†logo abaixo da¬†barra de menu¬†¬† informando que as anedotas contidas na p√°gina ‚ÄúPiada de preto‚ÄĚ n√£o tem intens√£o de formar ‚Äúatitudes preconceituosas e nem ser preconceituoso‚ÄĚ, pois se trata apenas de piadas ‚Äúassim como existe sobre loiras, machismo, portugueses, japoneses, gordos, gagos, b√™bados, entre outros temas‚ÄĚ.

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A reflex√£o sobre esses dois coment√°rios virtuais nos levantam as seguintes perguntas: Existe riso inocente? Pode um simples riso ser recriminado ( “POLITICAMENTE POLICIADO”) ou ter o mesmo status pol√≠tico¬†de¬†um tapa¬†ou um tiro? Supondo que sim, que o riso assuma dimens√Ķes pol√≠ticas, a busca por uma conviv√™ncia solid√°ria entre os seres humanos justificaria a sua interdi√ß√£o ou “censura”? Existem temas sob o qual n√£o se deve rir? Ou o riso tem¬†licen√ßa po√©tica¬†para ignorar ou transgredir (auto)censuras¬†impostas pelas diversas coer√ß√Ķes s√≥cio individuais que se colocam a frente daquilo que¬†realmente¬†desejamos, sentimos e pensamos? N√£o seria “for√ßar a barra”, trazer a reflex√£o do riso para o campo pol√≠tico, atribuindo-lhe causas e consequ√™ncias sociais?

Em um texto intitulado¬†Ensaio sobre a significa√ß√£o do c√īmico,¬†Henri Bergson (2004) afirma que o riso √© sempre um dado social. Independente de suas rea√ß√Ķes fisiol√≥gicas, ¬†h√° que se entender que √© apenas em sociedade que ele surge e √© poss√≠vel. O riso para ele assume a dimens√£o de uma san√ß√£o social, na medida em que apenas o que √© considerado um desvio ou uma coisa negativa ¬†pode ser ridicularizado. O c√īmico √© sempre o que foge a ordem e isso significa que o riso √© uma puni√ß√£o social que visa, em ultima inst√Ęncia reestabelecer a ordem social.

Pressup√Ķe-se neste sentido que a pessoa alvo do riso ficar√° envergonhada e voltar√° √† ordem normal. N√£o √© a mudan√ßa brusca da ordem que causa o riso, mas o involunt√°rio da mudan√ßa: trope√ßar, por exemplo, √© n√£o conseguir acompanhar a fluidez da vida pela rigidez do seu corpo, como o tombo de algu√©m pulou do √īnibus em movimento.¬† A rigidez √© socialmente suspeita e a ¬†deformidade (do corpo ou da mente), ris√≠vel por que deforma a norma, desviando a nossa aten√ß√£o para al√©m daquilo que conhecemos. Rimos sempre de uma coisa que se parece humana, ou de uma pessoa que aparente ser outra coisa que n√£o humana, e √© neste aspecto a quest√£o racial se torna relevante √† nossa an√°lise, pois nem sempre uma pessoa negra √© considerada uma pessoa. Para o padr√£o euroc√™ntrico de ser humano, o Branco (europeu, ocidental) √© a √ļnica express√£o poss√≠vel de homem e mulher e o Negro, por vezes √© representado como se fosse uma pessoa branca, comicamente pintada de negra.

Em ¬†1579 o m√©dico franc√™s Laurent¬†Joubert vai escrever um tratado sobre o riso, sustentando essa sua dimens√£o eminentemente pol√≠tica (ALBERTI, 1995). Segundo ele, n√≥s rimos antes de qualquer coisa, daquilo que √© feio e impr√≥prio e n√£o merece compaix√£o. O rid√≠culo √© aquele que se torna alvo do¬†riso dos outros. Para Elias (1993), o ‚Äúprocesso civilizador‚ÄĚ caracter√≠stico da modernidade destaca-se por sua busca de controle do corpo e ridiculariza√ß√£o daqueles sujeitos que ‚Äún√£o conseguiam se controlar‚ÄĚ. O indiv√≠duo que n√£o se controlava ou aparenta estar fora dos crit√©rios de controle socialmente descritos, ser√° alvo de uma distin√ß√£o hierarquizada que o desvaloriza diante dos outros, ridicularizando-se.

O ato de ridicularizar algu√©m, seja pelas normas de etiquetas ou por outros atributos socialmente desvalorizados, vai assumindo na modernidade a mesma import√Ęncia que os embates f√≠sicos e podiam ter como consequ√™ncia a exclus√£o social da pessoa alvo do riso. Aquele que fosse ridicularizado poderia perder suas formas de sustento.¬† Na Fran√ßa pr√©-revolu√ß√£o, por exemplo, o pecado n√£o tem nenhum valor, mas a ridiculariza√ß√£o poderia levar um indiv√≠duo √† morte.

Assim, a dimensão política do riso é destacada por autores diversos, como é o caso de George Minois (2003) quando nos explica em seu estudo sobre os Bobos da Corte que o seu papel era expressar verdades que ferem.  O Bobo tinha autorização social para falar de forma risível aquilo que ninguém mais tinha coragem de dizer, alertando a corte de seus limites e equívocos, conformando-se numa figura bastante importante para a manutenção da ordem. A piada, ou outras formas de se fazer rir, aparecem aqui como uma forma de falar a verdade, ou pelo menos, de se falar o que se realmente pensa, e não pode ser dito.

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√Č sempre de algu√©m ou de alguma coisa que rimos, e neste sentido, a piada aparece como um entre outros meios de se fazer rir.¬† Em sua ultima pe√ßa, intitulada¬†Doente imagin√°rio¬†(2003), Moli√©re descreve uma est√≥ria que revela a perspectiva da corte em rela√ß√£o √† (j√° concorrente) burguesia ascendente. Na pe√ßa, o autor conta a hist√≥ria da¬†filha de um rico e avarento burgu√™s, que¬†se apaixona a contragosto de seu pai por um rapaz, enquanto o pai deseja que ela se case com um m√©dico, a fim de ganhar consultas gratuitas. Dessa forma o autor ridicularizava os burgueses que queriam adquirir h√°bitos corteses, mostrando como os m√©dicos v√£o se aproveitar de sua inoc√™ncia para ganhar poder. O riso assume aqui a dimens√£o do confronto entre a nobreza amea√ßada, onde se posicionava Moli√©re, e a burguesia ascendente, colocando-a como express√£o do rid√≠culo.

No mesmo sentido, mas por outros caminhos, Baktin (1987) afirmar√° que o riso faz parte de uma vis√£o de mundo. Em sua pesquisa ele mostra como que o riso pode representar a rebeli√£o contra o tom s√©rio e solene das institui√ß√Ķes oficiais e os seus aparatos de repress√£o b√©lica e ideol√≥gica. ¬†Assim, analisa o carnaval medieval como momento em que a ordem se inverte. O Carnaval √© visto como uma festa dos loucos; um momento profano em que se pode inclusive criticar o sagrado, ou pelo menos, aquilo que se imp√Ķe oficialmente como sagrado.¬† Ele fala do quanto essas festas populares s√£o uma critica a essa oficialidade. Em conson√Ęncia com essa reflex√£o o professor Jorge Leite nos relembra em suas aulas que n√£o foi a toa que durante a ditadura no Brasil, a Pornochanchada foi o g√™nero est√©tico mais f√©rtil. Enquanto o Estado ¬†a partir dos militares e dos grandes empres√°rios dizia:¬†o Brasil √© feito por n√≥s¬†a pornochanchada devolvia toda uma produ√ß√£o que dizia impl√≠cita ou explicitamente¬†o Brasil √© feito porn√īs,romantizando as pessoas¬† que n√£o queriam trabalhar e preferiam ficar a cortejando garotas para o sexo.

O ponto onde quero chegar √© que o riso exprimido por pessoas, ou indiv√≠duos, que est√£o sempre e inescapavelmente relacionados ao seu tempo, cultura, hist√≥ria e dilemas pol√≠ticos de toda ordem e em todas as suas dimens√Ķes de poder.¬† Se a pol√≠tica √© a guerra empreendida por outros meios, como diria o fil√≥sofo franc√™s Michael Foucault, qual √© o lugar do riso em sua dimens√£o pol√≠tica, em uma sociedade marcada pela nega√ß√£o radical da humanidade daqueles que se¬† consideram ‚Äúoutros‚ÄĚ?¬† Ao me deparar com o coment√°rio alocado no inicio deste texto sou obrigado a questionar:¬† quem √© pass√≠vel de ser ridicularizado e o que essa ridiculariza√ß√£o tem em comum com a recusa de enxergar no ‚ÄúOutro‚ÄĚ (ou pelo menos em¬†alguns tipos de outros)¬†um humano como ‚Äúeu‚ÄĚ.

‚ÄúNingu√©m ri do tombo da pr√≥pria m√£e‚ÄĚ

O prov√©rbio africano que nomeia esse cap√≠tulo √© aqui retomado para introduzir o seguinte questionamento: at√© que ponto o inocente ato de rir de (ou fazer) uma piada racista sustenta ou expressa uma¬†nega√ß√£o racializada da humanidade¬†daqueles que s√£o objeto do riso?¬† ¬†N√£o pretendo com isso dizer que o riso √© sempre repudi√°vel e muito menos que existam temas-tabus (acima da piada do bem e do mal), mas refletir como muitas vezes o humor desavisado (ou muito bem direcionado) se coloca a servi√ßo da nega√ß√£o da humanidade do “outro”.

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O filme¬†Bamboozled,¬†de Spike Lee, oferece um cen√°rio inquietante para pensarmos essas quest√Ķes: Em um mundo nada diferente do nosso, produtores televisivos discutem como alavancar a audi√™ncia de sua programa√ß√£o, at√© que um dos profissionais ‚Äď n√£o por acaso um homem negro ‚Äď tem a ideia de recuperar os j√° socialmente repudiados personagens¬†Black Face[4],¬†de forma que fosse poss√≠vel reconfigurar o seu teor originalmente racista e ao mesmo tempo, dialogar com o imagin√°rio estadunidense a cerca dos estere√≥tipos relacionados ao Negro. Entretanto, dado √†s press√Ķes econ√īmicas pela audi√™ncia, os jogos de poder a ela relacionados e os caminhos escolhidos pelos indiv√≠duos envolvidos, v√™-se o surgimento de um programa que retoma e atualiza os preconceitos raciais mais profundos naquele pa√≠s, recuperando e atualizando as caracter√≠sticas essencializantes atribu√≠das aos negros ‚Äď muito corpo e pouco c√©rebro ‚Äst para leva-las ao limite em uma express√£o caricaturadamente ris√≠vel.

O nome do filme[5] se torna intelig√≠vel quando os personagens negros percebem que suas cria√ß√Ķes est√©ticas ¬†t√™m o poder de voltar-se contra eles pr√≥prios, na medida em que o riso provocado, em sua dimens√£o eminentemente pol√≠tica, n√£o √© algo que se faz com eles, mas contra eles, legitimando a sua pr√≥pria nega√ß√£o. A pergunta que proponho lan√ßar √© a seguinte: por que diabos, o negro precisa ser considerado rid√≠culo? Se¬†rid√≠culo¬†√© sempre¬†a m√£e dos ‚ÄúOutros‚ÄĚ, e nunca a ‚Äúnossa‚ÄĚ, como se produz esse processo de¬†outrifica√ß√£o¬†do Negro, a ponto de os n√£o-negros (e muitas vezes os negros socializados nessa forma de ver o mundo) n√£o se ofenderem, ou pior, n√£o visualizarem nenhuma ofensa nesse processo de outrifica√ß√£o? Ou se quisermos colocar a pergunta de outra forma, at√© que ponto a¬†piada de negro¬†n√£o esconderia, e de certa forma legitimaria, a mesma indiferen√ßa que autoriza a rir de uma¬†m√£e¬†sendo arrastada viva[6] por uma viatura policial em plena via p√ļblica?

Frantz Fanon, importante pensador martinicano do racismo, oferece um importante aporte para pensar essa questão. Para ele a sociedade racista nos relega ao seguinte esquema de interpretação: ser Negro é estar distante do Branco e, portanto, distante de toda concepção de humanidade. O extranhamento em relação à humanidade do Negro surge exatamente quando o Branco não o reconhece como igual, mas como Outro:

‚ÄúPreto sujo!‚ÄĚ Ou simplesmente: ‚ÄúOlhe, um preto!‚ÄĚ

Cheguei ao mundo pretendendo descobrir um sentido nas coisas, minha alma cheia do desejo de estar na origem do mundo, e eis que me descubro¬†objeto em meio a outros objetos. Enclausurado nesta objetividade esmagadora, implorei ao outro. Seu olhar libertador, percorrendo meu corpo subitamente livre de asperezas, me devolveu uma leveza que eu pensava perdida e, extraindo-me do mundo, me entregou ao mundo. Mas, no novo mundo, logo me choquei com a outra vertente, e o outro, atrav√©s de gestos, atitudes, olhares, fixou-me como se fixa uma solu√ß√£o com um estabilizador. Fiquei furioso, exigi explica√ß√Ķes‚Ķ N√£o adiantou nada. Explodi. Aqui est√£o os farelos reunidos por um outro eu. (FANON, 2008, p.103. Grifos nossos.)

‚Äú√Č o Branco que cria o Negro‚ÄĚ (FANON, 1968) na medida em que desconsidera sua humanidade, tornando-o ‚Äúobjeto em meio a outros objetos‚ÄĚ, aprisionando-o naqueles referenciaisfetichizados¬†que deixou de reconhecer em si. Espera-se assim que o Negro (o Outro) seja sempre¬†emotivo, sensual, viril, l√ļdico, colorido, infantil, banal; o mais pr√≥ximo poss√≠vel da natureza (animal) e distante da civiliza√ß√£o.¬† Estas imagens criadas no seio da situa√ß√£o colonial tinham a fun√ß√£o de desarticular os sistemas de refer√™ncia do povo colonizado para que suas ‚Äúlinhas de for√ßa‚ÄĚ n√£o atuassem contra a imposi√ß√£o de uma forma espec√≠fica de rela√ß√£o de produ√ß√£o, √ļtil a determinadas fases de acumula√ß√£o capitalista.

No universo c√īmico, espera-se que o negro seja sempre um¬†Mussum alc√≥lotra¬†e inocente, umTi√£o Macal√© desdentado e ris√≠vel[7], porque aqui, se h√° alguma valoriza√ß√£o do ‚Äúoutro‚ÄĚ, ela se faz pela mistifica√ß√£o fantasmag√≥rica de seus atributos, de forma a confirmar, mesmo que pela valoriza√ß√£o reificada a superioridade do branco. O negro s√≥ pode ser sublime na medida em que se revele o mais¬†grotesco¬†poss√≠vel diante de uma raz√£o, beleza e ¬†verdade¬†brancas. De sublime na verdade s√≥ resta o prazer do riso que a sua imagem jocosa proporciona ao¬† espectador informado pelos estere√≥tipos que ele personifica e refor√ßa. Se o grotesco √© aquilo est√° confinado √†s grutas quaresm√°ticas do processo civilizador, resta ao Negro esperar o carnaval para surgir em p√ļblico e lembrar ao ocidente o seu eu negado, antes que a quarta-feira de cinzas o relegue novamente √†s sobras da humanidade ocidental.

O Negro √©¬†suspeito “nato”¬†at√© que se prove o contr√°rio, pois “espia” para dentro de grutas imagin√°rias aquilo que o ocidente tr√°s de mais selvagem, s√°dico e desumano.¬† √Č a figura que permite √† sociedade carioca, algumas poucas d√©cadas depois da ditatura, dormir sossegada com a not√≠cia de ocupa√ß√£o das ruas (das favelas) por tanques de guerra militares. √Č a figura animalizada que refor√ßa o qu√£o humano, belo, bom e verdadeiro √© todo aquele que se afasta deste referencial macaqueado. O Negro √© o outro e, portanto, o riso do tombo de sua m√£e, ou dos seus filhos ¬†n√£o exige grandes conflitos √©ticos: n√£o se trata de um ser humano como eu, mas um¬†Outro, radicalmente oposto ao¬†N√≥s, ‚Äúcidad√£os de bem‚ÄĚ.

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A pol√≠tica √© a guerra feita por outros meios, e neste sentido, sou obrigado a concluir que o diretor do¬†Zorra Total¬†e o policial que arrastou Cl√°udia Silva Ferreira pelo asfalto de Madureira t√™m muito em comum porque ambos, embora por meios distintos anulam, cada um com sua arma, a possibilidade efetiva de nos vermos e fazermos uns nos outros como humanos. A causa-morte de Cl√°udia deve ser compreendida para al√©m do asfalto que lhe consumiu a carne em frente das c√Ęmeras port√°teis; deve ser compreendida para al√©m dos tiros que interromperam violentamente o seu trajeto de casa √† padaria, para ser explicada em cadaMussum, Adelaide, Ti√£o Macal√©¬†e tantas outras representa√ß√Ķes animalizadas ou coisificadoras que autorizaram, direta ou indiretamente, um tratamento aos moradores da favela que despreze qualquer sentimento de alteridade.

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Morro com Claudia em sua agonia de dor contra o asfalto cinza do Rio de Janeiro‚Ķ Morro, mas de uma morte que n√£o se inicia com o tiro perpetrado pelo policial, mas¬†a cada piada desferida quase sempre contra a humanidade do ‚ÄúOutro‚ÄĚ, seja ele(a) l√° quem for.

Referências

Alberti, Verena. ‚ÄúO riso, as paix√Ķes e as faculdades da alma‚ÄĚ. Textos de Hist√≥ria. Revista da P√≥s-Gradua√ß√£o em Hist√≥ria da Universidade de Bras√≠lia. Bras√≠lia, UnB, v.3, n.1, 1995, p.5-25.

BAKHTIN, Mikhail, A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, São Paulo, Hucitec/ UNB, 1987

BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significa√ß√£o do c√īmico. S√£o Paulo: Martins¬† Fontes, 2004.

ELIAS, N. O processo civilizador: Formação do Estado e Civilização. Rio de Janeiro:  Jorge Zahar Ed., 1993, v. II.

 FANON. F. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Editora Fator, 1983.

_______.¬†Sociologia d√ļne r√©volution.¬†¬ęL‚Äôan V de la Rev√≥lution algerienne¬†¬Ľ. Fran√ßois Maspero. Par√≠s. 1968 (petite collection maspero)

MINOIS, Georges, O riso sensato do bobo da corte in História do riso e do  escárnio, São Paulo, Unesp, 2003

Molière. Jean-Baptiste Pocquelin Le Malade maginaire. Paris: Bordas. 2003.

Filmes utilizados: 

Bamboozled. Diretor: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee  Ano: 2000. Disponível emhttps://www.youtube.com/watch?v=VnCkHKlwFnA. Acesso em 23 de fevereiro de 2014.

O riso dos outros. Diretor: Pedro Arantez. Ano 200. Disponível emhttps://www.youtube.com/watch?v=uVyKY_qgd54. Acesso em 20 de fevereiro de 2014.

[1] Grupo KILOMBAGEM.

[2] Comentários escritos por um leitor do jornal G1.Globo a respeito das imagens de auxiliar de limpeza Cláudia Silva Ferreira sendo arrastada pelo asfalto por uma viatura policial no Rio de Janeiro. http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/03/arrastada-por-carro-da-pm-do-rio-foi-morta-por-tiro-diz-atestado.html. Acesso em 17 de março de 2013.

[3] Anuncio de destaque na p√°gina PIADA DE PRETO, de um site de piadas ‚Äútem√°ticas‚ÄĚ escolhidas por t√≥picos:¬†http://selecaodepiadas.webnode.com.br/piadas-de-pretos/.

[4] A Black Face é uma performance teatral estadunidense que se apropriava dos estereótipos racistas para representar os negros. Ver nesse sentido:http://en.wikipedia.org/wiki/Blackface.

[5] A palavra¬†bamboozled¬†pode ser traduzida como:¬†¬†‚ÄúAHH! PEGADINHA DO MALANDRO!!!!‚ÄĚ,

[6] O caso em quest√£o gerou muita pol√™mica e em resposta, foi divulgado um atestado de √≥bito aferindo os tiros anteriormente recebidos como verdadeira causa da morte de Claudia. O laudo no entanto, n√£o comenta, e nem poderia ser diferente diante da repercuss√£o negativa que o caso assumiu, se o fato de a mulher ter sido arrastada antecipou sua morte por ferimento a bala ou se ela j√° estava morta no momento em que o seu corpo rola dentro do porta-malas da viatura em movimento em dire√ß√£o ao asfalto. Por um caminho ou por outro, ‚Äúa trapalhada‚ÄĚ policial n√£o resultou apenas na interrup√ß√£o de uma vida, mas na anula√ß√£o de sua dignidade.

[7] Referencia a dois personagens bastantes presentes no imagin√°rio social brasileiro: o primeiro interpretado pelo ator de¬†Ant√īnio Carlos Bernardes Gomes (1941-1994) representa o Musum, uma das personagens do programa¬†Os Trapalh√Ķes, veiculado pela¬†Rede Globo.¬†E o segundo, o Ti√£o Macal√©, interpretado pelo ator Augusto Tem√≠stocles da Silva Costa (1926-1993).

[1] Texto apresentado como trabalho de conclus√£o de curso para a disciplina Sociologia do Riso, com o Prof. Dr. Jorge Leite ‚Äď UFSCAR 2014

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Contra o Racismo deve estar a nossa Localidade Afrocentrada

Nea Onnim No Sua A, Ohu "Quem não sabe pode estar aprendendo", símbolo do conhecimento, da aprendizagem permanente e da busca contínua do saber. (Adinkras  - ideogramas que incorporam e transmitem história, filosofia, ciência, valores, dos povos da Gana).
Nea Onnim No Sua A, Ohu “Quem n√£o sabe pode estar aprendendo”, s√≠mbolo do conhecimento, da aprendizagem permanente e da busca cont√≠nua do saber. (Adinkras – ideogramas que incorporam e transmitem hist√≥ria, filosofia, ci√™ncia, valores, dos povos da Gana).

O Racismo segue se manifestando, mostrando que esta mais forte do que nunca e a humanidade perdida no limbo das mentes colonizadas frente as express√Ķes racistas que surgem diariamente. Eu n√£o vou me prestar a essa idiotiza√ß√£o, mesmo para contestar a express√£o debiloide de que somos macacos.

Os aparelhos do Estado que deveriam mover mecanismos de jurisprud√™ncia sobre estas quest√Ķes que amea√ßam o senso global do que vem a ser o conceito “humanidade”, nem se manifestam; o governo brasileiro na figura da presidente e demais pol√≠ticos se limitam a postar seus coment√°rios idiotas no twitter e no facebook, e pior, muitos postando fotos segurando bananas.

Enquanto isso a pol√≠cia (corpora√ß√£o policial) segue matando pessoas pretas e cometendo todo o tipo de injusti√ßa social e abusos, sofisticando a viol√™ncia racista que, desde o sistema de escravid√£o, organiza¬†os sistemas de valores, cren√ßas, medos, gostos, √©tica, educa√ß√£o, sa√ļde, pol√≠tica, economia, governos, e, por que n√£o, o esporte.

Quando entende-se que¬†o racismo se “complexificou”, e que temos que entender suas redes ‘neurais’ cerebrais e tamb√©m suas interconex√Ķes com a mente humana, significa dizer tamb√©m que temos que come√ßar a fazer um forte exerc√≠cio de apropria√ß√£o da nossa hist√≥ria, e de localiza√ß√£o da nossa centralidade africana. √Č preciso para de agir em resposta das demandas para encontrarmos a √Āfrica em n√≥s, que nos dar√° poder atrav√©s de nossa ci√™ncia, historicamente acumulada ao longo da hist√≥ria da humanidade, e recentemente roubada, violentada, escamoteada, ressignificada, pelas sociedades que financiaram as grandes guerras mundiais, e a enorme viol√™ncia aos pa√≠ses ao sul.

O futebol √© hoje o campo por onde o racismo est√° manifestando com bastante for√ßa justamente porque devido aos pequenos (por√©m significativos) avan√ßos nos direitos humanos contra o racismo, o racismo enquanto mecanismo complexo e criativo – que cria, ele pr√≥prio redes e interconex√Ķes n√£o-locais, e descont√≠nuas – por meio das emo√ß√Ķes humanas, das paix√Ķes e frustra√ß√Ķes intensamente vividas no contexto esportivo, encontrou terreno f√©rtil de afirma√ß√£o e adapta√ß√£o.

Daniel Alves comendo a banana atirada em campo por torcedores racistas, na partida entre o Barcelona e Villarreal.
Daniel Alves comendo a banana atirada em campo por torcedores racistas, na partida entre o Barcelona e Villarreal.

No contexto do esporte, e em especial no futebol, o xingamento sempre foi autorizado, e o racismo nunca foi um absurdo porque, afinal de contas, √© a cultura do futebol. Ali se xinga, mas n√£o se perde a amizade porque as desaven√ßas ficam no campo. Chama-se de macaco porque se estava nervoso, e quem n√£o entende paix√£o de futebol? L√≥gico que o esporte tamb√©m √© terreno de luta pol√≠tica, mas os casos de manifesta√ß√Ķes de racismo e outros mecanismos de desigualdades s√£o muito mais numerosos do que os casos onde estes mecanismos s√£o problematizados e questionados.

√Č da criatividade enegrecida que encontraremos caminhos de luta e supera√ß√£o do racismo. A criatividade enegrecida, de localidade afrocentrada, capaz de repensar a sociedade e propor um projeto social verdadeiramente humanizado n√£o se dar√° se n√£o fizermos o exerc√≠cio (inclusive f√≠sico, de disp√™ndio energ√©tico mesmo) de solidariedade e sincronia qu√Ęntica das nossas mentes para a busca de uma orienta√ß√£o coerente dadas as regras do jogo social em que estamos submetidos.

Ubuntu √© uma √©tica ou ideologia do idioma banto Ng√ļni. √Č uma filosofia africana que existe em v√°rios pa√≠ses de √Āfrica que foca nas alian√ßas e relacionamento das pessoas umas com as outras. A palavra vem das l√≠nguas dos povos Bantos; na √Āfrica do Sul nas l√≠nguas Zulu e Xhosa. Ubuntu √© tido como um conceito tradicional africano, que remete ao complexo entendimento de "humanidade para com os outros", ou "a cren√ßa no compartilhamento que conecta toda a humanidade", e ainda "Sou o que sou pelo que n√≥s somos". Portanto, um profundo e complexo comprometimento o ser humano com a humanidade de que ele √© produtor e produto, em rela√ß√£o rec√≠proca de causa din√Ęmica.
Ubuntu √© uma √©tica ou ideologia do idioma banto Ng√ļni. √Č uma filosofia africana que existe em v√°rios pa√≠ses de √Āfrica que foca nas alian√ßas e relacionamento das pessoas umas com as outras. A palavra vem das l√≠nguas dos povos Bantos; na √Āfrica do Sul nas l√≠nguas Zulu e Xhosa. Ubuntu √© tido como um conceito tradicional africano, que remete ao complexo entendimento de “humanidade para com os outros”, ou “a cren√ßa no compartilhamento que conecta toda a humanidade”, e ainda “Sou o que sou pelo que n√≥s somos”. Portanto, um profundo e complexo comprometimento o ser humano com a humanidade de que ele √© produtor e produto, em rela√ß√£o rec√≠proca de causa din√Ęmica.

Jévaristo

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INTELECTUAIS NEGRAS – Bell Hooks

¬†O texto fala da import√Ęncia pol√≠tica da teoria e aponta para a necessidade de se estimular homens negros e ( sobretudo) as mulheres negras √† produ√ß√£o te√≥rica comprometida com transforma√ß√Ķes sociais radicais.

O texto denuncia as vis√Ķes que reduzem os(as) negros(as) ao corpo (animalizado) e discute os diversos processos que os desestimulam a atividade intelectual, enfatizando um cruzamento perverso entre contradi√ß√Ķes de ra√ßa,classe e g√™nero, associados a uma equivocada desvaloriza√ß√£o do trabalho intelectual nos espa√ßos negros militantes.

O espaço intelectual, tradicionalmente reservado aos homens brancos, torna-se ainda mais inacessível às mulheres negras que aos homens negros, na medida em que não encontram estímulos durante o seu processo de socialização para tal empreitada.

O texto oferece uma √≥tima oportunidade para se refletir sobre a as intersec√ß√Ķes entre g√™nero, ra√ßa e classe e, e principalmente, sobre a import√Ęncia de se refor√ßar o est√≠mulo junto a popula√ß√£o negra (sobretudo as mulheres negras) √† atividade intelectual.

“Entre os grupos de mulheres assassinadas como bruxas na sociedade colonial americana as negras t√™m sido historicamente vistas como encarna√ß√£o de uma perigosa natureza feminina que deve ser governada. Mais que qualquer grupo de mulheres nesta sociedade AS NEGRAS T√äM SIDO CONSIDERADAS SOMENTE COMO CORPO SEM MENTE A utiliza√ß√£o de corpos femininos negros na escravid√£o como incubadoras para a gera√ß√£o de outros escravos era a exemplifica√ß√£o pratica da ideia de que as mulheres desregradas deviam ser controladas. Para justificara explora√ß√£o masculina branca e o estupro das negras durante a escravid√£o a cultura branca teve de produzir uma iconografia de corpos de negras que insistia em representa-las como ALTAMENTE DOTADAS DE SEXO, A PERFEITA ENCARNA√á√ÉO DE UM EROTISMO PRIMITIVO E DESENFREADO. Essas representa√ß√Ķes incutiram na consci√™ncia de todos A IDEIA DE QUE AS NEGRAS ERAM S√ď CORPO SEM MENTE A aceita√ß√£o cultural dessas representa√ß√Ķes continua a informar a maneira como as negras s√£o encaradas. Vistos como simbolo sexual os corpos femininos negros s√£o postos numa categoria em termos culturais tida como bastante distante da vida mental. Dentro das hierarquias de sexo/ra√ßa/classe dos Estados Unidos as negras sempre estiveram no n√≠vel mais baixo O status inferior nessa cultura e reservado aos julgados incapazes de mobilidade social por serem vistos em termos sexistas racistas e classistas como deficientes incompetentes e inferiores”

Confira o texto na íntegra:

http://gpsufrb.files.wordpress.com/2012/04/intelectuais-negras.pdf

 

Nucle de Estudos Afrikanidades: Grupo KILOMBAGEM

 

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Nota P√ļblica sobre Persegui√ß√Ķes e Amea√ßas Contra Militantes do Comit√™ Contra o Genoc√≠dio da Juventude Preta, Pobre e Perif√©rica de S√£o Paulo.

“Os moradores dos morros, desde o fim da escravid√£o, criaram in√ļmeros grupos que se organizavam em v√°rios n√≠veis, objetivando fins diversos. Dentro da situa√ß√£o social concreta em que se encontrava, que era o da marginalidade, o negro do morro, favelado, tinha de organizar-se para que, dentro da situa√ß√£o que lhe impuseram, pudesse sobreviver e praticar uma s√©rie de atividades que o preservariam de um estado de anomia total.” Clovis Moura, in Sociologia do Negro Brasileiro

Tornamos p√ļblico atrav√©s desta, amea√ßas e persegui√ß√Ķes sofridas nos √ļltimos meses contra militantes que comp√Ķem o Comit√™ Contra o Genoc√≠dio da Juventude Preta, Pobre e Perif√©rica de S√£o Paulo, uma frente ampla de den√ļncia contra a viol√™ncia do Estado dirigida a popula√ß√£o negra pobre e perif√©rica, composta por diversas organiza√ß√Ķes, movimentos populares e movimento negro. O aumento da viol√™ncia contra a popula√ß√£o preta, sobretudo no ano de 2012, onde mais de cinco mil pessoas foram mortas (executadas), √© reflexo do projeto Genocida do Estado brasileiro, que historicamente condenou essa popula√ß√£o. Sabemos que a repress√£o aos movimentos sociais e a seus militantes faz parte desse processo e √© por isso que n√≥s militantes que diariamente convivemos com a viol√™ncia instaurada pelo Estado nas periferias, viemos tornar p√ļblico amea√ßas e persegui√ß√Ķes pelas quais alguns de n√≥s estamos passando.

No dia 22 de agosto, realizamos em S√£o Paulo a vers√£o regional da Marcha Nacional Contra o Genoc√≠dio da Popula√ß√£o Negra, cujo foco foi denunciar o alto √≠ndice de mortes letais (genoc√≠dio) da juventude preta e se posicionar contra a militariza√ß√£o dos √≥rg√£os p√ļblicos da cidade como, por exemplo, a C√Ęmara Municipal, que abriga parlamentares ligados ao universo militar. Durante a concentra√ß√£o do ato, em frente ao Teatro Municipal – regi√£o central da cidade, nos deparamos com v√°rios policiais portando m√°quinas fotogr√°ficas e c√Ęmeras digitais, registrando imagens dos participantes. Notamos que a partir desta ocasi√£o, alguns dos militantes do Comit√™ passaram a perceber amea√ßas. Na mesma noite do ato, um jovem negro que seguia sozinho para metr√ī (morador de periferia e integrante do movimento Hip- Hop) foi abordado por dois policiais ap√≥s a dispers√£o da Marcha. Durante a abordagem policial, ele quase foi atropelado por uma viatura da guarni√ß√£o.

Outro epis√≥dio aconteceu no m√™s de setembro, na C√Ęmara Municipal de S√£o Paulo, em que militantes do Comit√™ se posicionaram contra a entrega da homenagem ‚ÄúSalva de Prata‚ÄĚ, √† ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), criado durante a Ditadura Militar para reprimir a guerrilha urbana e mais tarde os cidad√£os moradores das periferias.

Durante a sess√£o, um dos policiais presentes na Casa Legislativa anotou o n√ļmero de telefone e o endere√ßo residencial de um dos militantes em papel a parte e o guardou dentro do pr√≥prio bolso, sendo esse um procedimento inadequado, segundo alguns vereadores da casa.

Na √ļltima semana, mais uma fam√≠lia passou por uma assustadora viol√™ncia: desta vez, foi uma tentativa de homic√≠dio (n√£o se sabe se a v√≠tima foi confundida com outra pessoa). Entretanto, o que sabemos √© que dois homens em uma moto seguiram e dispararam contra um carro guiado por um casal negro, atingindo o bra√ßo da mulher (m√£e de um jovem negro de 15 anos). O referido casal √© parente de um dos militantes do Comit√™.

Recentemente tr√™s militantes ligados a organiza√ß√Ķes que comp√Ķem o Comit√™ foram alvos de racismo, sendo hostilizados, com ataques verbais e amea√ßas tamb√©m vindas de agentes policiais.

Infelizmente tais fatos n√£o s√£o epis√≥dios isolados. Militantes ligados a movimentos sociais e sobretudo ao movimento negro em todo pais est√£o sofrendo diariamente com retalia√ß√Ķes, persegui√ß√Ķes, amea√ßas e atentados √† vida, inclusive tendo suas casas invadidas pela pol√≠cia, sem mandado, no meio a madrugada – como ocorreu recentemente com um militante em Salvador.

Diante de tudo isso, percebemos a necessidade de expor e tornar p√ļblico os fatos para que todos tenham conhecimento da covarde pol√≠tica de criminaliza√ß√£o dos movimentos sociais, movimentos negros e seus militantes. J√° encaminhamos den√ļncias formais aos departamentos competentes, seguiremos nossa pr√°tica de den√ļncia da viol√™ncia e de cobran√ßa do papel ao qual o pr√≥prio Estado, em nossa Carta Magna se reserva: a prote√ß√£o e o bem estar dos cidad√£os.

Comitê Contra o Genocídio da Juventude Preta, Pobre e Periférica
Apoiam: | A√ß√£o Comunit√°ria | Adunesp (Sindicato dos Docentes da Unesp) ‚Äď Se√ß√£o Sindical Mar√≠lia | Agentes de Pastoral Negros do Brasil ‚Äď APNs | Amparar – Associa√ß√£o de Amigos e Familiares de Presos | Ana Karla Moreira Silva – Estudante de Servi√ßo Social – PUC/SP | ANEL | Associa√ß√£o de Favelas de S√£o Jos√© dos Campos | Associa√ß√£o de Mulheres Negras Acotirene | Blog – Sp Que Vc N√£o V√™|¬† Bruna Lasevicius Carreira – Estudante de Direito – FMU/SP | Campanha Reaja ou Ser√° Morta, Reaja ou Ser√° Morto| Carlos Latuff| CEDECA Interlagos | CEN ‚Äď Coletivo de Entidades Negras | Centro de Mem√≥ria do Grande ABC | Ciranda Internacional da Comunica√ß√£o Compartilhada| COADE (Coletivo Advogados para a Democracia) | Coletivo Anarcafeminista Mar√£na | Coletivo de Mulheres Negras Louva Deusas| Coletivo Pr√°xis| Comit√™ pela Desmilitariza√ß√£o | Comit√™ Popular da Copa SP | Comuna Aurora Negra | Coordena√ß√£o Nacional de Estudantes de Psicologia ‚Äď CONEP | CONEN | Escola de Governo | Federa√ß√£o Nacional dos Advogados| F√≥rum de Hip Hop MSP| F√≥rum Latino Americano de Combate a Discrimina√ß√£o Racial | F√≥rum Nacional 13 de Maio | F√≥rum Nacional de Mulheres Negras | F√≥rum Sindical dos Trabalhadores-SP | Frente da Feminista USP | Grupo de Mulheres Negras Nzinga Mbandi | Grupo Margens Cl√≠nicas| Grupo Tortura Nunca Mais – SP| Instituto Pr√°xis de Direitos Humanos| Intersindical ‚Äď SP | Juventude √†s Ruas | Juventude da CONEN| Kilombagem | M√£es de Maio | Ma√ß√£s Podres | MAP-SP Movimento Anarcopunk de S√£o Paulo | Movimento Terra Livre | Movimento Negro Unificado | MSP ‚Äď Movimento Pela Sa√ļde dos Povos ‚Äď Brasil | Nucleo Anarco-Rap | N√ļcleo de Consci√™ncia Negra da USP | P√£o e Rosas | Periferia Ativa | Profa Joana Aparecida Coutinho ‚Äď UFMA | Profa. Laura Camargo Macruz Feuerwerker FSP/USP | Profa. Maria Fernanda| Prof. Jos√© Henrique Vi√©gas Lemos ‚Äď Bi√≥logo da Rede P√ļblica Municipal e Estadual de Educa√ß√£o | Prof. Milton Pinheiro ‚Äď UNEB | Quilombo Ra√ßa e Classe | Quilombo Xis | Rede 2 de Outubro| Rede Lai Lai Apejo Soweto Organiza√ß√£o Negra| TRIBUNAL POPULAR:O Estado Brasileiro no Banco dos R√©us| UJS ‚Äď SP | UNEafro-Brasil |

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Colonialismo, racismo e luta de classes: a atualidade de Frantz Fanon

Artigo publicado em ¬†GEPAL ‚Äď Grupo de Estudos da Pol√≠tica da Am√©rica Latina – Anais do V Simp√≥sio Internacional Lutas Sociais na Am√©rica Latina¬† ‚ÄúRevolu√ß√Ķes nas Am√©ricas: passado, presente e futuro‚Ä̬† ISSN 2177-9503¬† 10 a 13/09/2013 – GT 1. Lutas camponesas e ind√≠genas na Am√©rica Latina 216 (pp. 216-232).

Deivison Mendes Faustino (Deivison Nkosi) ‚Äď Programa de P√≥s-Gradua√ß√£o em Sociologia ‚Äď UFSCAR; N√ļcleo de pesquisa Afrikanidades (Grupo KILOMBAGEM)

Sdeivison@hotmail.com

Versão em pdf disponível em: http://www.uel.br/grupo-pesquisa/gepal/v16_deivison_GI.pdf

Resumo:

A presente comunica√ß√£o apresenta a vida e obra de Frantz Fanon¬† enfatizando a atualidade de seu pensamento para pensar as rela√ß√Ķes entre racismo,¬† colonialismo e luta de classes. O autor seleciona algumas categorias discutidas por¬† Fanon, e as discute a luz de sua trajet√≥ria de vida, observando como o mesmo¬† respondeu √†s perguntas colocadas por seu tempo. Ao revisitar os escritos fanoninanos o autor identifica e problematiza as categorias: aliena√ß√£o colonial, narcisismo, sociog√™nese, luta de classes, pr√°xis revolucion√°ria, terceiro-mundismo, negritude, liberta√ß√£o nacional e emancipa√ß√£o. O autor encerra o texto questionando se ainda h√° espa√ßo para Fanon na sociedade contempor√Ęnea, aproximando-se das concep√ß√Ķes de Gibson (2007 e 2011), Wallerstein (2008), Rabaka (2011) ao concluir que a atualiza√ß√£o do racismo sob a l√≥gica das novas necessidades de acumula√ß√£o capitalistas tornam os escritos de Fanon leitura obrigat√≥ria.

Palavras-chave: Frantz Fanon; Colonialismo; Racismo; Luta de classes.

Todas as vezes em que um homem fizer triunfar a dignidade do espírito, todas as vezes em que um homem disser não a qualquer tentativa de opressão do seu  semelhante, sinto-me solidário com seu ato.

Frantz Fanon

Introdução

Passados mais de cinquenta anos ap√≥s a morte precoce de Frantz Fanon em 1961, quando tinha 36 anos, o pensamento do autor ainda √© discutido por acad√™micos e ativistas pol√≠ticos em diferentes l√≠nguas e regi√Ķes. Entretanto, essa presen√ßa no cen√°rio atual √© acompanhada por intensos debates sobre o que se considera como estatuto central de sua obra, e principalmente, quais categorias apresentadas por ele podem ser apropriadas como elementos relevantes para a compreens√£o da sociedade contempor√Ęnea (MBEMBE, 2011 e GORDON, SHARPLEY-WHITING E WHITE, 2000).

Os chamados estudos culturais ou p√≥s-coloniais, embasados em uma perspectiva p√≥s-estruturalista, t√™m retomado a leitura fanoniana a partir de uma leitura do colonialismo como ‚Äúdiscurso‚ÄĚ (ou paradigma) impl√≠cito √† sociedade moderna, promotora de experi√™ncias racializadas. A contribui√ß√£o central de Fanon, segundo esta corrente, seria a ruptura com uma no√ß√£o essencialista de identidade (hegeliana) rumo a uma no√ß√£o aberta aos jogos fluidos ‚Äď como contraposi√ß√£o a ontol√≥gicos – da identifica√ß√£o (HALL, 1996 e 2009; APPIAH, 1997 e √ĀLVARES, 2000).

Outra linha de estudos um pouco diversa desta anterior √© uma corrente originalmente surgida na Am√©rica Latina, autodenominada pensamiento decolonial. Esta vertente, tamb√©m conhecida como proyecto decolonial ou proyecto de la modernidad/colonialidad, visualiza em Fanon a possibilidade de analisar o capitalismo (Sistema-Mundo) contempor√Ęneo a partir de uma ‚Äúperspectiva do Sul‚ÄĚ. Pautadas em uma cr√≠tica ao p√≥s‚ąímodernismo e o p√≥s‚ąíestruturalismo, pelo que atribuem ser uma demasiada vincula√ß√£o desses estudos √† ‚Äúmatrizes de poder colonial‚ÄĚ, esta corrente difere dos Estudos P√≥s-Coloniais ao divergir da ideia de supera√ß√£o do colonialismo que o termo ‚ÄúP√≥s‚ÄĚ atribui.

Al√©m disso, identifica nos estudos p√≥s-coloniais uma subestima√ß√£o dos aspectos econ√īmicos da realidade social, em detrimento das dimens√Ķes culturais e subjetivas. Prop√Ķe nesse sentido, a no√ß√£o de Heterarquia ‚Äď rela√ß√£o entre as v√°rias esferas sem uma atribui√ß√£o pr√©via de hierarquia – entre economia, cultura, subjetividade e pol√≠tica (DUSSEL, 1977; MINGOLO 2000; MALDONADO-TORRES, 2005 e QUIJANO 1991, 1998, 2000).

J√° entre os autores classificados como marxistas tamb√©m √© poss√≠vel observar apreens√Ķes diversas em rela√ß√£o ao que se considera atual no pensamento fanoniano. Em Zizek (2011) a problematiza√ß√£o fanoniana da dial√©tica do senhor e do escravo, elaborada por Hegel √© retomada em contraposi√ß√£o a uma abordagem multiculturalista para enfatizar uma perspectiva humanista que recoloque o debate sobre a rela√ß√£o entre indiv√≠duo e generalidade humana, na medida em que o individuo se veja e se coloque na disputa pela defini√ß√£o do universal.

Para Gibson, a atualidade de Fanon estaria na ferramentas conceituais que oferece para compreender a renit√™ncia da viol√™ncia colonial na sociedade contempor√Ęnea. As manifesta√ß√Ķes ind√≠genas contra a privatiza√ß√£o da √°gua da Bol√≠via; o os conflitos na palestina e os acontecimentos em torno da chamada Primavera √Ārabe; as massivas manifesta√ß√Ķes em Atenas; Chipre e Espanha bem como a persist√™ncia da barreira de cor na √Āfrica do Sul p√≥s-apartheid seriam segundo ele elementos que colocam as preocupa√ß√Ķes de Fanon na ordem do dia. (GIBSON, 2007 e 2011)

J√° Rabaka visualiza no que ele classifica como fanonismo revolucion√°rio, a possibilidade de atualizar o marxismo a partir da abordagem as rela√ß√Ķes contempor√Ęneas entre capitalismo e colonialismo. A constante subestima√ß√£o do racismo ‚Äď ‚Äúnarcisismo obsceno – pela esquerda convencional e a dificuldade desta em elaborar projetos pol√≠ticos condizentes com as particularidades hist√≥ricas e culturais dos povos colonizados devem ser enfrentados pela esquerda marxista conforme prop√Ķe, segundo ele a dial√©tica Sankofiana de Fanon rumo a a liberta√ß√£o do ser a um n√≠vel mais elevado da vida humana (RABAKA, 2011).

Em Wallestain, Fanon é apropriado para discutir vários assuntos atuais, mas em um artigo intitulado Ler Fanon no século XXI, destaca-se a ideia de que a atualidade de Fanon está, para além de apontar o caráter intrinsicamente violento do colonialismo e os impactos dessa violência na subjetividade dos povos colonizados, está no questionamento às lutas identitárias como caminho emancipador quando estas não se dirigem à perspectiva da emancipação humana. A luta de classes é uma realidade que não se restringe ao universo europeu e deve ser observada em suas particularidades históricas, no contexto colonial (Wallestain, 2008).

Em estreita relação com esse debate, mas, sobretudo, visando à compreensão das categorias fanonianas à luz de seu contexto sócio-histórico, pretende-se apresentar alguns temas discutidos pelo autor  relacionando-os à sua trajetória.

‚ÄúNossos pais, os Gauleses‚ÄĚ

Frantz Omar Fanon nasceu em Julho em 20 de julho de 1925, no seio de uma fam√≠lia de classe m√©dia em Forte de France, Martinica, regi√£o francesa no Caribe. A Martinica ainda hoje √© considerada um departamento ultramarino insular franc√™s, e os seus habitantes ‚Äď a grande maioria composta por negros que se sentem franceses – aprendiam nas escolas assimiladas, frequentadas por Fanon, que os ‚Äúpais de sua P√°tria‚ÄĚ eram os Gauleses. Em 1944, quando a Fran√ßa estava invadida pela Alemanha nazista, Fanon alistou-se no exercito franc√™s para lutar contra a invas√£o, mas l√° no front de guerra, junto aos franceses brancos nascidos na metr√≥pole, percebeu que a sua cor o impedia de ser visto como igual pelos seus ‚Äúcompatriotas‚ÄĚ. Por mais que pensava, sentia ou desejasse o contr√°rio, em face do Branco era visto apenas como Preto:

Subjetivamente, intelectualmente, o antilhano se comporta como um branco. Ora, ele é um preto. E só o perceberá quando estiver na Europa; e quando por lá alguém falar de preto, ele saberá que está se referindo tanto a ele quanto ao senegalês. (FANON, 2008:132)

A percepção deste não-reconhecimento em face do branco francês exerceu grande influência em Fanon impactando os seus futuros escritos e prática política.

Em 1946 Fanon iniciou o seu curso de medicina em Lyon (Fran√ßa metropolitana) e neste per√≠odo, participou de diversos semin√°rios e debates universit√°rios, onde entrou em contato com renomados pensadores discutidos na Fran√ßa nesta √©poca como Sartre, Jaspers, Lacan, Marx, Hegel, Nietzsche entre outros. Em 1952, quando termina o seu curso, Fanon escreve a primeira vers√£o da sua tese doutorado em psiquiatria, mas esta foi rejeitada por confrontar as correntes positivistas ent√£o hegem√īnicas na √°rea. Decepcionado, escreve ent√£o uma segunda tese que nomeou como: Transtornos mentais e s√≠ndromes psiqui√°tricas em degenera√ß√£o espino-cerebelar-heredit√°ria. Um caso de doen√ßa de Friedereich com del√≠rio de possess√£o[1]. Depois de intensos e acalorados debates com a banca examinadora, seu trabalho foi aprovado, e ele enfim, p√īde exercer sua profiss√£o.

Após doutorar-se, conhece François Tosquelles (1912-1994)[2] e segue para Saint Alban para estudar e trabalhar com ele, tornando-se seu aprendiz e amigo:

Durante dois anos, Fanon trabalhou em estreita relação com Tosquelles e publicou três trabalhos de investigação diretamente com o professor e outros tantos com outro discípulo. Os programas de reforma médica que (Fanon) introduzi(rá futuramente) nos hospitais em Blida, Argélia, e de Manuba, na Tunísia, foram o resultado de sua educação em Saint Alban (GUEISMAR, 1972:64).

Neste mesmo ano, Fanon publicou uma s√©rie de ensaios sobre a situa√ß√£o do negro na Fran√ßa e escreveu um drama sobre os trabalhadores de Lyon (FANON, 1950). Os estudos de Tosquelles marcaram profundamente a concep√ß√£o de Fanon sobre a profiss√£o psiqui√°trica, e luta pol√≠tica como estrat√©gia para superar as aliena√ß√Ķes ps√≠quicas provocadas pelo colonialismo.

Neste momento, j√° avisado pelas circunst√Ęncias hist√≥ricas de que os ‚Äúseus pais, os Gauleses‚ÄĚ n√£o o reconhecia como filho leg√≠timo, o jovem antilhano inicia a revis√£o do texto de sua primeira tese, outrora rejeitada no doutorado, para discutir as aliena√ß√Ķes ps√≠quicas vividas pelo negro.

A alienação colonial

A revisão de sua tese rejeitada dará origem ao célebre Peau noire, masques blancs:[3] livro que marcaria a história dos estudos sobre o racismo ao ser retomado por autores ingleses na década de 80 na chamada virada pós-colonial[4].

Neste livro Fanon apropria-se dos cl√°ssicos da psicologia, filosofia, sociologia e mesmo da literatura, buscando, nas rela√ß√Ķes sociais a explica√ß√£o para aliena√ß√Ķes ps√≠quicas. Vale ressaltar que a aliena√ß√£o para Fanon n√£o se resumia, como ocorre no senso comum, a uma falta de conhecimento sobre algo ou sobre si, mas sim, a uma perda de si ou da capacidade ‚Äď implicada em situa√ß√Ķes sociais concretas – se autodeterminar como indiv√≠duo ou grupo social, subordinado ao colonialismo.

E poss√≠vel cogitar neste ponto que a proximidade de Fanon com Hegel seja maior do que se presume. Num artigo intitulado o reconhecimento em Hegel: leituras de Labarri√®re, Theresa Calvet de Magalh√£es (2009) explica que para Hegel, diferentemente do que fazem supor algumas tradu√ß√Ķes latinas de Fenomenologia do Esp√≠rito, a Auto-consci√™ncia (Selbstbewusstsein) n√£o pode ser resumida a um conhecimento subjetivo de si ou de determinada realidade. A aliena√ß√£o seria perda ‚Äď objetiva ‚Äď de si, da capacidade de estar em p√© por si, ou se autodeterminar.

Essa perspectiva abre caminho no pensamento fanoniano para relacionar os complexos coloniais ‚Äď enquanto efeitos ps√≠quicos da situa√ß√£o colonial ‚Äď com a estrutura√ß√£o da sociedade, de modo que sua supera√ß√£o depende n√£o apenas de uma revis√£o paradigm√°tica, mas antes de qualquer coisa da transforma√ß√£o radical da sociedade:

Reagindo contra a tendência constitucionalista em psicologia do fim do século XIX, Freud, através da psicanálise, exigiu que fosse levado em consideração o fator individual. Ele substituiu a tese filogenética pela perspectiva ontogenética. Veremos que a alienação do negro não é só uma questão individual. Ao lado da filogenia e da ontogenia, há a sociogenia. De certo modo, para responder à exigência de Leconte e Damey, digamos que o que pretendemos aqui é estabelecer um sócio-diagnóstico.

Qual o prognóstico?

A Sociedade, ao contr√°rio dos processos bioqu√≠micos, n√£o escapa a influ√™ncia humana. √Č pelo homem que a sociedade chega ao ser. O progn√≥stico est√° nas m√£os daqueles que quiserem sacudir as ra√≠zes contaminadas do edif√≠cio (FANON, 2008:28)

Neste livro Fanon avisa que a alienação colonial, como forma específica de exploração capitalista, marca indiscutivelmente a configuração da sociedade moderna fazendo com que brancos (colonizadores) e negros (colonizados), vivenciem cada qual a seu modo, a negação de sua humanidade. A criação e racialização do Outro, bem como o estranhamento daí resultante, retiram do colonizado a possibilidade de ser visto (e, consequentemente, de se ver) como expressão universal do gênero humano.

√Č o colonialismo que cria (inventa) o Homem Negro, extraindo-lhe a possibilidade de reconhecer-se simplesmente como Humano:

‚ÄúOlhe, um preto!‚ÄĚ Era um stimulus externo, me futucando quando eu passava. Eu esbo√ßava um sorriso.

‚ÄúOlhe, um preto!‚ÄĚ √Č verdade, eu me divertia.

‚ÄúOlhe, um preto!‚ÄĚ O c√≠rculo fechava-se pouco a pouco. Eu me divertia abertamente.

‚ÄúMam√£e, olhe o preto, estou com medo!‚ÄĚ Medo! Medo! E come√ßavam a me temer. Quis gargalhar at√© sufocar, mas isso tornou-se imposs√≠vel.

Eu não aguentava mais, já sabia que existiam lendas, histórias, a história e, sobretudo, a historicidade que Jaspers havia me ensinado.

Ent√£o o esquema corporal, atacado em v√°rios pontos, desmoronou, cedendo lugar a um esquema epid√©rmico racial. No movimento, n√£o se tratava mais de um conhecimento de meu corpo na terceira pessoa, mas em tripla pessoa. Ia ao encontro do outro… e o outro, evanescente, hostil mas n√£o opaco, transparente, ausente, desaparecia. A n√°usea… (FANON, 2008: 105)

O colonizado, negado em sua humanidade gen√©rica, √© reduzido ao estatuto de Negro, entendido como o Outro: o espec√≠fico, sempre contraposto ao Europeu afirmado como express√£o do ser humano universal. √Č poss√≠vel pensar em m√ļsica ind√≠gena, cabelo afro, cosmovis√£o africana, cultura negra, mas nunca em m√ļsica branca, cultura branca. O branco, a cultura branca, ou ocidental, ganham status de universalidade e n√£o precisam ser especificadas. Uma pessoa considerada culta √© algu√©m que domina a ‚Äúnorma culta‚ÄĚ: a saber, algu√©m que det√©m os conhecimentos referentes √† cultura europeia, sejam eles est√©ticos, filos√≥ficos ou te√≥ricos.

Esta reifica√ß√£o colonial mistifica o europeu, tomando-o como s√≠mbolo universal do humano, e aprisiona o colonizado naqueles referenciais fetichizados que se criaram para o Negro, esperando sempre deste que seja emotivo, sensual, viril, l√ļdico, colorido, infantil, banal… O mais pr√≥ximo poss√≠vel da natureza e distante da civiliza√ß√£o. Quando n√£o √© ex√≥tico, ou inexistente em rela√ß√£o √†quilo que se entende por Humano, o negro √© apresentado apenas como express√£o de tudo o que √© ruim.

Estas imagens, alerta Fanon em um artigo publicado em 1956 (FANON, 1969), s√£o criadas no seio da situa√ß√£o colonial, e tinham a fun√ß√£o de desarticular os sistemas de refer√™ncia do povo colonizado para que suas ‚Äúlinhas de for√ßa‚ÄĚ n√£o atuassem contra a imposi√ß√£o de uma forma espec√≠fica de rela√ß√£o de produ√ß√£o, √ļtil a determinadas fases de acumula√ß√£o capitalista.

Como m√©dico psiquiatra, Fanon n√£o deixa de enfatizar que a reifica√ß√£o colonial tem efeitos devastadores na subjetividade do negro provocando-lhe impasses que lhe ocasionam um ‚Äúdesmoronamento do ego‚ÄĚ:

(…) o negro vive uma ambig√ľidade extraordinariamente neur√≥tica. Com vinte anos, isto √©, no momento em que o inconsciente coletivo √© mais ou menos perdido, ou pelo menos dif√≠cil de ser mantido no n√≠vel consciente, o antilhano percebe que vive no erro. Por qu√™? Apenas porque, e isso √© muito importante, o antilhano se reconheceu como preto, mas, por uma derrapagem √©tica, percebeu (inconsciente coletivo) que era preto apenas na medida em que era ruim, indolente, malvado, instintivo. Tudo o que se opunha a esse modo de ser preto, era branco. Deve-se ver nisso a origem da negrofobia do antilhano. No inconsciente coletivo, negro = feio, pecado, trevas, imoral. Dito de outra maneira: preto √© aquele que √© imoral. Se, na minha vida, me comporto como um homem moral, n√£o sou preto. Da√≠ se origina o h√°bito de se dizer na Martinica, do branco que n√£o presta, que ele tem uma alma de preto. A cor n√£o √© nada, nem mesmo a vejo, s√≥ reconhe√ßo uma coisa, a pureza da minha consci√™ncia e a brancura da minha alma. (P.162)

Por outro lado, avisa Fanon, que se o colonialismo reserva ao Negro um complexo de inferioridade, reserva ao Branco de igual maneira, um complexo de superioridade, fazendo com que, cada qual a partir de sua neurose, vivencie a aliena√ß√£o da sua humanidade. A subjetividade do Branco tamb√©m √© neuroticamente marcada pelo racismo, fazendo com que ele transfira ao Negro (ou Outro) √†queles tributos ‚Äď considerados inferiores ou indesej√°veis ‚Äď pr√≥prios de todas as sociedades, mas que a sociedade ocidental quer negar em si pr√≥pria.

√Č neste contexto que o Branco desenvolve uma fobia em rela√ß√£o ao negro. Este Outro amaldi√ßoado e inferiorizado assombra e atrai o imagin√°rio racista com seus atributos ‚Äďexatamente √†queles que o deixa de ver em si – exageradamente mistificados e animalizados. A sensualidade inata da mulata fogosa; o enorme p√™nis do neg√£o comedor hiper-viril; a habilidade natural dos negros para atividades l√ļdicas, emotivas e corporais[5] em geral, assusta e atrai, justamente por corresponder √†quilo que passou a faltar ao Branco, no processo de aliena√ß√£o colonial.

O branco est√° convencido de que o negro √© um animal; se n√£o for o comprimento do p√™nis, √© a pot√™ncia sexual que o impressiona. Ele tem necessidade de se defender deste ‚Äúdiferente‚ÄĚ, isto √©, de caracterizar o Outro. O Outro ser√° o suporte de suas preocupa√ß√Ķes e de seus desejos. (FANON, 2008147)

O livro segue enigmaticamente po√©tico at√© o final, suscitando mais d√ļvidas do que certezas[6], mas ao mesmo tempo, deixa precisas sobre sua propositura. Se o colonialismo ou a aliena√ß√£o colonial n√£o podem ser resumidos a um estado mental, e mesmo a subjetividade individual s√≥ √© intelig√≠vel no contexto social em que emerge… a desaliena√ß√£o s√≥ seria poss√≠vel mediante a supera√ß√£o das condi√ß√Ķes sociais alienadoras: veremos que uma outra solu√ß√£o √© poss√≠vel. Ela implica uma reestrutura√ß√£o do mundo.‚ÄĚ (FANON, 2008:82)

Termina o livro – depois de afirmar a necessidade de um novo humanismo amparado na defesa de uma sociedade em que n√£o haja mais explora√ß√£o do homem pelo homem – com uma frase provocadora: ‚Äú√≥ meu corpo fa√ßa sempre de mim um homem que questiona‚ÄĚ (FANON, 2008:191)

*

Em 1953, depois de trabalhar como Chef de service em um hospital psiqui√°trico localizado em uma cidade pequena e chuvosa em Pontorson, no interior da Fran√ßa, Frantz Fanon se muda para Arg√©lia para assumir a dire√ß√£o de um hospital psiqui√°trico na cidade de Blida, a trinta milhas de dist√Ęncia da capital Argel. Segundo Alejandro Oto (2003) esta nova fase foi fundamental para Fanon compreender os impactos do colonialismo na estrutura ps√≠quica humana, pois se depara com diversos pacientes franceses e argelinos com transtornos mentais provocados pela viol√™ncia vivida na luta anticolonial que se desenvolvia no pa√≠s.

A presen√ßa centen√°ria do colonialismo fazia-se sentir tamb√©m na √°rea da sa√ļde. As pessoas v√≠timas de doen√ßas ps√≠quicas, segundo o conhecimento da √©poca, eram isoladas e abandonadas em hospitais psiqui√°tricos, presas a camisas de for√ßa. No entanto, como era de se esperar em uma sociedade assumidamente colonial, o hospital era dividido em asilos diferenciados para franceses e Nativos. Frantz Fanon, inspirado nos ensinamentos de Toscquelles mudou radicalmente esta rela√ß√£o e introduziu reformas estruturais extraordin√°rias neste hospital. (GEISMAR, 1972:73)

Este lado profissional de Fanon ainda é pouco explorado pela literatura especializada, mas o insere, à inspiração de seu mentor, nos primórdios dos movimento de reforma psiquiátrica[7].

A pr√°xis revolucion√°ria

Em 1952, ao revisar o texto de Pele Negra, máscaras brancas para a publicação, Fanon escrevera a seguinte frase:

N√£o levamos a ingenuidade at√© o ponto de acreditar que os apelos √† raz√£o ou ao respeito pelo homem possam mudar a realidade. Para o preto que trabalha nas planta√ß√Ķes de cana em Robert s√≥ h√° uma solu√ß√£o, a luta. E essa luta, ele a empreender√° e a conduzir√° n√£o ap√≥s uma an√°lise marxista ou idealista, mas porque, simplesmente, ele s√≥ poder√° conceber sua exist√™ncia atrav√©s de um combate contra a explora√ß√£o, a mis√©ria e a fome. (p.185-6)

Posteriormente, j√° em sua estadia em Blida estas aspira√ß√Ķes revolucion√°rias v√£o encontrar guarida na realidade concreta que se apresentou com o desenvolvimento da guerra de liberta√ß√£o (GIBSON, 2011). Com o desenvolvimento das lutas anticoloniais logo ap√≥s a chegada de Fanon ao pa√≠s e a intensa repress√£o que seguiu, a situa√ß√£o ficou bastante tensa, e se refletiu no hospital psiqui√°trico, colocando Fanon em uma situa√ß√£o desconfort√°vel. De um lado Fanon passava a atender, como diretor de um hospital p√ļblico, os torturadores franceses que ficavam atordoados com o sofrimento que infringiam aos Nativos, e do outro, atendia as v√≠timas da tortura, e de forma clandestina e sigilosa, atendia tamb√©m aos membros da Front de Liberation Nationale ‚Äď FLN (GIBSON, 2011).

Há longos meses que a minha consciência é palco de debates imperdoáveis. E a conclusão que chego é a vontade de não desesperar (desésperér) do homem, isto é, de mim próprio. (FANON, 1980:59)

Em 1956 a situa√ß√£o de Fanon j√° estava politicamente insustent√°vel e a pol√≠cia come√ßou a vigi√°-lo. Ele que j√° mantinha contatos com Randame Abane, l√≠der cabila do FLN, provavelmente para n√£o ser preso, se desliga oficialmente do hospital para aderir oficialmente √† revolu√ß√£o. √Č neste momento que escreve uma carta p√ļblica ao Ministro Residente, uma esp√©cie de representante administrativo do colonialismo Frances na Arg√©lia, que remonta mais uma vez √†s suas origens tosquellianas:

A loucura é um dos meios que o homem tem de perder a sua liberdade. E posso dizer que, colocado nesta intersecção, medi com horror a amplitude da alienação dos habitantes deste país.

Se a psiquiatria √© a t√©cnica m√©dica que se prop√Ķe permitir ao home deixar de ser estranho ao que o rodeia, devo afirmar que o √Ārabe, alienado permanentemente no seu pa√≠s, vive num estado de despersonaliza√ß√£o absoluta. (FANON, 1980:58)

Após de desligar do Hospital em Blida, Fanon muda clandestinamente com a família para a Tunísia, onde continua trabalho como psiquiatra, mas focará a sua atuação política nos esforços para o fim daquilo, que segundo ele na carta acima, seria a raiz do sofrimento psíquico da Argélia, o Colonialismo. Neste período Fanon se torna correspondente do principal instrumento de propaganda ideológica da FLN, o Jornal El Moudjahid[8].

Os anos seguintes foram marcados por intensa agitação política e participação em fóruns internacionais organizados pelos movimentos de libertação no continente africano. Neste momento Fanon se converte num revolucionário, militante clandestino da FLN, e seu representante internacional no diálogo com os demais países africanos. Em 1959 publica L’ an V de La Révolution Algérienne (O quinto ano da Revolução Argelina). Neste livro, também conhecido como Sociologia de uma revolução, Fanon faz uma descrição fantástica do processo de mobilização social em curso na Argélia.

Discute os dilemas e conflitos vividos em processo de liberta√ß√£o nacional. Afirma que o colonialismo, para ser economicamente vi√°vel necessitava negar todos os elementos culturais dos povos subsumidos, a fim de destruir os seus sistemas de refer√™ncias. Neste cen√°rio a resist√™ncia s√≥cio-cultural deve ter em vista n√£o a simples preserva√ß√£o da cultura (negada pelo colonialismo), mas a liberta√ß√£o do povo. Resistir ao colonialismo exige, em determinadas situa√ß√Ķes concretas, contrapor-se √° cultura colonial, sem desconsiderar nela os elementos universais que possam contribuir para o ‚Äúprogresso da na√ß√£o‚ÄĚ.

Os meios de comunicação, os saberes médicos ocidentais, a língua e os valores culturais europeus, outrora instrumentos de opressão colonial, podem se apropriados e (desde que) re-significados pelos povos em luta, possibilitando-os avançar em sua luta por emancipação:

A r√°dio, o aparato receptor perde seu coeficiente de hostilidade, se despoja de seu car√°ter estranho e se organiza na ordem coerente da na√ß√£o em luta. Na psicose alucinat√≥ria, depois de 1956, as vozes radiof√īnicas se converterem em protetoras e c√ļmplices. Os insultos e as acusa√ß√Ķes desaparecem e cedem seu lugar √†s palavras de est√≠mulo e f√īlego. A t√©cnica estrangeira, ‚Äúdigerida‚ÄĚ pela de luta nacional, se converteu em um instrumento de combate para o povo e em um √≥rg√£o protetor contra a ang√ļstia (FANON, 1968:73. Tradu√ß√£o pr√≥pria).

O fato de observar-se durante o colonialismo a negação ontológica da cultura dos povos colonizados, não significa que estas culturas não devam por outro lado, serem questionadas, criticadas e reinventadas pelos povos em luta, tendo em vista e emancipação humana.

O v√©u utilizado pela mulher argelina, segundo Fanon √© uma indument√°ria que reflete a vis√£o de mundo patriarcal √°rabe, na medida em que √© ao mesmo tempo a prote√ß√£o, isolamento e priva√ß√£o da mulher em rela√ß√£o ao mundo p√ļblico, entendo como espa√ßo dos homens. Em determinadas situa√ß√Ķes ele pode ser converter em fator de resist√™ncia, mas em outras situa√ß√Ķes √© justamente a sua retirada que permite o avan√ßo da luta. Era resist√™ncia nas situa√ß√Ķes em que foi perseguido pelo colonialismo franc√™s, principalmente quando a mulher argelina passou a fazer parte do processo revolucion√°rio.

Nas ocasi√Ķes em que era preciso despistar os agentes repressivos, e se infiltrar entre a popula√ß√£o francesa para empreender a luta armada, retirar o v√©u e fingir assimilar a cultura francesa passa a ser taticamente necess√°rio. Entretanto, alerta Fanon: esta mulher que retira o pr√≥prio v√©u (d√©voile) para passar despercebida com uma submetralhadora na bolsa, ter√° que vivenciar emo√ß√Ķes que transformar√£o irreversivelmente a sua personalidade.

Estas transforma√ß√Ķes s√£o comemoradas por Fanon, na medida em que esta tradi√ß√£o, embora originalmente negada pelo colonialismo, tamb√©m se voltava contra as mulheres, limitando a sua viv√™ncia enquanto ser humano. Resistir socialmente n√£o implica necessariamente a preserva√ß√£o da cultura inicialmente negada pelo colonialismo. O fato √© que para Fanon n√£o havia outra escolha para os povos colonizados, que n√£o seja a via revolucion√°ria:

De facto, a Revolu√ß√£o Argelina restitui √† exist√™ncia nacional os seus direitos. De facto, √© testemunho da vontade do povo. Mas o interesse e o valor da nossa Revolu√ß√£o residem na mensagem de que √© portadora (…)A Revolu√ß√£o Argelina, propondo-se a liberta√ß√£o do territ√≥rio nacional, visa n√£o s√≥ √† morte deste conjunto, como √† elabora√ß√£o de uma sociedade nova. A independ√™ncia da Arg√©lia n√£o √© apenas fim do colonialismo, mas desaparecimento, nesta parte do mundo, de um g√©rmem de gangrena e de uma fonte de epidemia. A liberta√ß√£o do territ√≥rio nacional argelino √© uma derrota para o racismo e para a explora√ß√£o do homem; inaugura o reino incondicional da justi√ßa. (El Moudjahid, n. 10; in FANON1980:72)

E seria este processo revolucion√°rio – ato consciente e arriscadaao negro da Martinica quando Fanon escreve o Pele Negra, m√°scaras brancas – promovido pelo colonizado √© o √ļnico que teria o poder de derrubar o colonialismo, tanto na mente do colonizado, quanto nas rela√ß√Ķes sociais objetivamente postas. Como consequ√™ncia, possibilitaria ao colonizado, ascender do status de objeto a sujeito hist√≥rico de sua pr√≥pria hist√≥ria.

Se √© verdade, como afirma Walter D. Mignolo (2007) que ainda n√£o se pode dizer que estamos em uma √©poca p√≥s-colonial na Am√©rica Latina, ainda presa aos pressupostos econ√īmicos, culturais e epist√™micos do colonialismo, a pergunta que fica √©: quais s√£o as nossas tarefas hist√≥ricas, para usar um termo cunhado por Fanon, rumo a uma efetiva emancipa√ß√£o?

O terceiro-mundismo e a luta de classes

Em dezembro de 1960, depois de circular por várias partes do continente africano fomentando a necessidade de expandir a guerra de libertação a outros países, no auge de sua atuação política, Fanon inicia a escrita de um livro que problematizaria a relação da revolução argelina com outros povos do Continente. No entanto, para a sua surpresa é diagnosticado é diagnisticado com leucemia, e percebe, mediante aos estágios a medicina se encontra nesta época, que lhe resta pouco tempo de via.

Inicia assim a escrita apressada do que sabidamente seria o seu livro, alterando o curso da escrita de forma a sintetizar seus ac√ļmulos te√≥ricos antes que seu tempo esgote. √Č neste contexto, que ser√° escrito em quest√£o de meses o famoso Les damn√©s de la terre[9] . Enquanto escrevia o livro e revisava os trechos, chegou a voar para It√°lia a fim de encontrar Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, para encomendar a Sartre o Pref√°cio do seu livro.

O livro trata, entre outros assuntos, dos conflitos impl√≠citos ao colonialismo e √† luta anticolonial. Alerta que a viol√™ncia √© parte fundante da sociedade colonial, estando presente em todas as suas express√Ķes materiais e simb√≥licas. Constata ainda que a supera√ß√£o da l√≥gica colonial s√≥ seria vi√°vel n√°quelas situa√ß√Ķes em que os colonizados empreendessem for√ßa material proporcionalmente capaz de abalas as for√ßas sociais a ponto de fazer surgir um homem novo:

A descoloniza√ß√£o se prop√Ķe a mudar a ordem do mundo, √©, como se v√™, um programa de desordem abosoluta(…)√© um processo hist√≥rico: isto √©, ela s√≥ pode ser compreendida, s√≥ tem inteligibilidade, s√≥ se torna transl√ļcida para si mesma na exata medida em que discerne o movimento historicizante que lhe d√° forma e conte√ļdo. A descoloniza√ß√£o √© o encontro de duas for√ßas congenitamente antag√īnicas, que t√™m precisamente a sua origem nessa esp√©cie de substancializa√ß√£o que a situa√ß√£o colonial excreta e alimenta. (…) a descoloniza√ß√£o √© verdadeiramente a cria√ß√£o de homens novos. Mas essa cria√ß√£o n√£o recebe a sua legitimidade de nenhuma pot√™ncia sobrenatural: a ‚Äúcoisa‚ÄĚ colonizada se torna homem no processo mesmo pelo qual ela se liberta. (FANON, 2010:52-3)

Num di√°logo constante com os movimentos internacionais ligados ao terceiro-mundismo, Frantz Fanon alerta que mesmo na √Āfrica, o processo de revolu√ß√£o nacional n√£o podem ignorar as especificidades de entifica√ß√£o da capitalismo, a composi√ß√£o das diferentes de classes sociais e seus interesses. Os pa√≠ses coloniais s√£o economicamente mente mortal, tal como descreve Hegel em sua met√°fora do senhorio e do servo, e que parecia imposs√≠vel atrasados e subdesenvolvidos a partir da rela√ß√£o hist√≥rica com suas metr√≥poles sanguessugas. Esta realidade relega as col√īnias uma produ√ß√£o de bens prim√°rios voltados √† exporta√ß√£o, uma classe oper√°ria insipiente, um campesinato palperizado e analfabeto e uma burguesia local subordinada √† interesses externos.

Estas burguesias, forjada no processo colonial, mesmo quando apoiam a independ√™ncia, tendem a trair sua ‚Äúvoca√ß√£o‚ÄĚ de classe ‚Äď como se assistiu nos s√©culos anteriores na Europa ‚Äď e n√£o assumirem a frente do processo produtivo de forma a acumular o excedente de produ√ß√£o no pr√≥prio pa√≠s. Contenta-se, voltando-se contra os interesses de toda a na√ß√£o, a se colocar como (nova) dos interesses imperialistas e a continuidade dos processos de hiper-explora√ß√£o da for√ßa de trabalho. O cap√≠tulo III Desventuras da consci√™ncia nacional, antecipa que a supera√ß√£o do colonialismo n√£o depende apenas da elei√ß√£o de lideres africanos, mas sim, de uma reorganiza√ß√£o das rela√ß√Ķes de produ√ß√£o, orientada para e com o povo. Do contrario, todo o esfor√ßo dos movimentos de liberta√ß√£o se veriam afogados no neocolonialismo:

Essa burguesia que se afasta cada vez mais do povo em geral nem consegue arrancar do Ocidente concess√Ķes espetaculares: investimentos interessantes para a economia do pa√≠s, instala√ß√Ķes de certas ind√ļstrias. Em contrapartida, as f√°bricas de montagem se multiplicam, consagrando assim o tipo neocolonialista no qual se debate a economia nacional. Assim, n√£o se deve dizer que a burguesia nacional retarda a evolu√ß√£o do pa√≠s, que lhe faz perder tempo ou que ele pode conduzir a na√ß√£o para caminhos sem sa√≠da. Efetivamente, a fase burguesa na hist√≥ria dos pa√≠ses subdesenvolvidos √© uma fase in√ļtil. Quando essa casta for suprimida, devorada por suas pr√≥prias contradi√ß√Ķes, n√≥s percebemos que nada aconteceu depois da independ√™ncia, que √© preciso retomar tudo, partir outra vez do zero. A reconvers√£o n√£o ser√° operada no n√≠vel das estruturas instaladas pela burguesia durante o seu reino, pois essa casta n√£o fez outra coisa sen√£o tomar, sem mudan√ßa, a heran√ßa da economia, de pensamento e das institui√ß√Ķes coloniais .(FANON, 2010:204-5).

Fanon n√£o seria adepto das teorias que advogam que a luta de classes n√£o diz respeito ao continente africano. Pelo contr√°rio, √© exatamente pela sua centralidade, que a realidade particular dos pa√≠ses africanos deve se consideradas, sob o risco de se ver fracassar qualquer projeto pol√≠tico, econ√īmico e social alternativo. Neste sentido, Fanon n√£o poupara cr√≠ticas aos partidos de esquerda europeus e mesmo russos, bem como os seus bra√ßos pol√≠ticos presente nos pa√≠ses subdesenvolvidos, que presos a ‚Äúmodelos prontos‚ÄĚ de luta social, imp√Ķe aos africanos l√≥gicas que n√£o dialogam que as reais particularidades hist√≥ricas, culturais e econ√īmicas destes povos, procurando o sujeito revolucion√°rio entre os oper√°rios, num pa√≠s onde 98% da classe trabalhadora √© composta por camponeses hiper-explorados.

A crítica à Negritude

Os povos colonizados, n√£o seguiram inertes √† coloniza√ß√£o e buscaram desenvolver estrat√©gias diversas de resist√™ncia e emancipa√ß√£o. √Č o Branco que cria o Negro, mas √©, por outro lado ‚Äúo negro que cria a negritude‚ÄĚ (FANON, 1968:20), afirmando-se na luta por um reconhecimento objetivo.

A pesar de reconhecer a legitimidade hist√≥rica da luta anti-racista e dos movimentos de afirma√ß√£o cultural (FANON, 2010:244), na medida em que promovem o questionamento dos valores racistas europeus, Fano alerta que muitas vezes a luta anti-racista[10] – classificada por ele como ‚Äúracismo anti-racista‚ÄĚ ‚Äď ou de afirma√ß√£o cultural n√£o consegue superar os limites e contradi√ß√Ķes hist√≥ricas que a forjaram.

O ‚Äúconceito de negritude‚ÄĚ admite, ‚Äú√© a ant√≠tese afetiva, sen√£o l√≥gica, desse insulto que o homem branco fazia √° humanidade‚ÄĚ. E completa: ‚ÄúEssa negritude lan√ßada contra o desprezo do branco se revelou, em certos setores, como o √ļnico fator capaz de derrubar interdi√ß√Ķes e maldi√ß√Ķes‚ÄĚ (FANON, 2010:246). No entanto, essa contraposi√ß√£o, historicamente necess√°ria, levou o movimento a um impasse: ‚Äú √† afirma√ß√£o incondicional da cultura europeia sucedeu a afirma√ß√£o incondicional da cultura africana‚ÄĚ (Idem).

Se o colonialismo definiu como essencialmente negro a emo√ß√£o, o corpo, a virilidade, ludicidade, mas, sobretudo, classificou hierarquicamente estes elementos como inferiores, frente √† n√£o menos fetichizada (e ilus√≥ria) imagem criada para o Europeu ‚Äď Raz√£o, civiliza√ß√£o, cultura, universalidade -, o movimento de negritude, sem romper com estes fetichismos, apenas inverteu os polos da hierarquia, passando a considerar como positivo √†quilo que o colonialismo classificou como inferior.

Assim a inoc√™ncia, musicalidade, o ritmo ‚Äúnato‚ÄĚ do africano, passam a ser afirmados pelos movimentos anti-racistas como elementos essencialmente africanos, mas agora, vistos como superiores e desej√°veis frente √† frieza tecnicista ocidental (SENGHOR, 1939). As ‚Äúalmas da gente negra‚ÄĚ[11] passam a ser classificadas como ess√™ncias metaf√≠sicas, ou no m√≠nimo hist√≥ricas, que precisariam ser resgatas e afirmadas para que o negro se reencontre consigo pr√≥prio.

Para Fanon, est√° a√≠ uma armadilha que o movimento de negritude ‚Äď e talvez o conjunto do movimento negro contempor√Ęneo – corria o risco de ficar preso. Esta ‚Äúess√™ncia negra‚ÄĚ que se busca restaurar ou libertar, √© na verdade uma inven√ß√£o do racismo colonial, a servi√ßo da desumaniza√ß√£o do africano escravizado nas Am√©ricas e aceit√°-la, √© afirmar retoricamente a rejei√ß√£o aos pressupostos coloniais, sem rejeit√°-los de fato. (FANON, 2010:253)

Os seres humanos s√£o o que fazem e como fazem, mas ter como objetivo √ļltimo a preserva√ß√£o ou resgate cultural √© inverter a ordem de prioridade do mundo, tomando o secund√°rio como prim√°rio, valorizando o produto em detrimento do produtor. Esta postura, inicialmente leg√≠tima, poderia segundo Fanon levar os movimentos anti-racistas a alguns impasses perigosos, tais como: meter todos os negros no mesmo saco; busca por um passado glorioso em detrimento de uma realidade objetivamente desumanizadora; valoriza√ß√£o acr√≠tica e apaixonada de ‚Äútudo que for africano‚ÄĚ, acompanhada por uma nega√ß√£o quase religiosa de tudo que for ‚Äúocidental‚ÄĚ; aceita√ß√£o do pressuposto racista de que a cultura negra √© est√°tica e fechada, portanto morta; valoriza√ß√£o cultural tomada por central.

Para Fanon seria necess√°rio ir al√©m da ‚Äď e n√£o se limitar √† – afirma√ß√£o das especificidades culturais historicamente negadas, mas n√£o se limitar a ela. N√£o √© a cultura ‚Äď historicamente negada – que deve resistir mas sim as pessoas que a produzem, a partir de seus referenciais que est√£o em constante transforma√ß√£o. √Č certo que o colonialismo nega ao colonizado a possibilidade de entifica√ß√£o de uma cultura aut√™ntica, e por isto, a emancipa√ß√£o cultural, passa pela emancipa√ß√£o das pessoas que produzem e se produzem pela cultura. √Č o colonialismo em seu ato negador e reificador que atribui uma aus√™ncia de movimento hist√≥rico √† cultura colonizada, engessando-a em cat√°logos antropol√≥gicos, vendo-as e tratando-as como elementos mortos…

Agir pelo resgate de uma pretensa cultura passada, originalmente negada √© secundarizar a emancipa√ß√£o dos indiv√≠duos produtores da cultura. √Č o combate pelo fim mim material, cultural e epist√™mico do colonialismo ‚Äď e Fanon n√£o nega a import√Ęncia da afirma√ß√£o cultural neste processo ‚Äď que pode promover o surgimento de uma cultura aut√™ntica. Ao inv√©s de se lan√ßar apaixonadamente sobre uma cultura engessada pelo colonialismo, ‚Äúo dito combatente, o colonizado, depois de tentar perder-se no povo, com o povo, vai, ao contr√°rio, sacudir o povo. Ao inv√©s de privilegiar a letargia do povo, ele se transforma em despertador do povo‚ÄĚ (FANON, 2010:256). Trata-se, portanto, n√£o de preservar culturas, mas ressignific√°-las, na luta, em busca da emancipa√ß√£o:

O homem de cultura, ao inv√©s de partir √† procura dessa subst√Ęncia, deixa-se hipnotizar por esses farrapos mumificados que, estabilizados, significam, pelo contr√°rio, a nega√ß√£o, a supera√ß√£o, a inven√ß√£o. A cultura nunca tem a translucidez do costume. A cultura foge, eminentemente, de toda simplifica√ß√£o. Na sua ess√™ncia, ela est√° no oposto ao costume, que √© sempre uma deteriora√ß√£o da cultura. Querer colar na tradi√ß√£o ou reatualizar as tradi√ß√Ķes abandonadas, √© n√£o ir apenas contra a hist√≥ria, mas contra o povo. Quando um povo apoia uma luta armada ou mesmo pol√≠tica contra um colonialismo implac√°vel, a tradi√ß√£o muda de significado. O que era t√©cnica de resist√™ncia passiva, pode ser nesse per√≠odo radicalmente condenado. Num pa√≠s subdesenvolvido em fase de luta, as tradi√ß√Ķes s√£o fundamentalmente inst√°veis e sulcadas por correntes centr√≠fugas. (FANON, 2010:258)

Outro ponto destacado por Fanon é que o movimento de negritude, muitas vezes, assume a posição colonial segundo o qual o Branco/europeu é universal e o Negro/africano específico. O movimento de negritude, preso a um presente desesperançado, sem perspectiva no futuro segue afirmando um passado específico ao invés de atuar para desmistificar a ilusão colonial que exclui os africanos e seus descendentes da possibilidade de serem reconhecidos (e se reconhecerem) como universalidade.

Nas palavras de Fanon, devemos ao contr√°rio, trabalhar para ‚Äúa dissolu√ß√£o total deste complexo m√≥rbido (aliena√ß√£o colonial). Estimamos que o indiv√≠duo deva tender ao universalismo inerente √† condi√ß√£o humana‚ÄĚ (FANON, 2008:28).

Sair dos impasses criados pelo colonialismo exigir-nos-ia, como afirma Fanon, descer aos ‚Äúverdadeiros infernos‚ÄĚ, indo al√©m da mera afirma√ß√£o da identidade historicamente negada em dire√ß√£o ao humano-gen√©rico. A desaliena√ß√£o √© poss√≠vel mediante a reestrutura√ß√£o do mundo.

Eu, homem de cor, só quero uma coisa:

Que jamais o instrumento domine o homem. Que cesse para sempre a servid√£o do homem pelo homem. Ou seja, de mim por um outro. Que me seja permitido descobrir e querer bem ao homem, onde quer que ele se encontre. (FANON, 2008:190)

Fanon almejava a revolu√ß√£o social como possibilidade hist√≥rica, e principalmente, como condi√ß√£o para supera√ß√£o das aliena√ß√Ķes psico-sociais. Mas sabia que as lutas sociais n√£o poderiam ter √™xito sem terem como ponto de partida, a realidade concreta em que surgem.

Em setembro de 1961, alguns meses depois de escrever seu ultimo livro, o seu estado de sa√ļde de Fanon volta a ficar cr√≠tico. Ele ent√£o aceita a contragosto um convite para se tratar em Washington. Sabia que sua doen√ßa n√£o tinha cura, mas esperava que o tratamento por La prolongasse mais algum tempo os seus dias de vida. Ao ver sua sa√ļde cada vez mais debilitada, escreve uma carta a um amigo afirmando que o que mais o entristecia n√£o ser√° saber que estava morrendo, mas morrer de Leucemia em Washington quando poderia estar fora do front de batalha. (GEISMAR, 1972:181)

Aos 6 de dezembro de 1961 morre bastante debilitado, algumas semanas depois ter tido uma aparente melhora no quadro de sa√ļde e visto os primeiros exemplares de Os condenados da terra impressos.

Há espaço para Fanon no século XXI?

Recuperar Fanon na atualidade √© como afirma Wallerstein (2008:11), apostar numa ‚Äúluta cujo desfecho √© completamente incerto‚ÄĚ. Muitos acontecimentos hist√≥ricos posteriores √† morte de Fanon nos levantam o questionamento de como ele analisaria ou confrontaria o colonialismo no s√©culo XXI? Os retrocessos pol√≠ticos observados na Arg√©lia com a islamiza√ß√£o do Estado ap√≥s a independ√™ncia; as diversas e sucessivas ditaduras e decapita√ß√£o de lideres anti-imperialistas nos pa√≠ses africanos rec√©m-libertos; a queda do Muro de Berlin e o surgimento de uma gera√ß√£o para o qual a perspectiva de futuro est√° ausente; as conquistas democr√°ticas ( relativas) obtidas sem viol√™ncia nos pa√≠ses subdesenvolvidos; e mesmo as dr√°sticas altera√ß√Ķes na sociedade moderna, provocada pela reestrutura√ß√£o produtiva e sua crescente financeiriza√ß√£o da economia e readequa√ß√£o das fronteiras nacionais; o surgimento dos Novos Movimentos Sociais, suas viradas paradigm√°ticas e o pr√≥prio Neoliberalismo. Todos estes novos conflitos e contradi√ß√Ķes, impens√°veis √† √©poca de Fanon levantam o questionamento se o autor estaria ultrapassado.

Por outro lado, um olhar mais atento tanto sobre sua produ√ß√£o quanto sobre a realidade presente sugerir exatamente o contr√°rio. O ‚Äúcar√°ter constante, renovado e transformado‚ÄĚ que o racismo adquire fez com que a racializa√ß√£o se tornasse uma realidade global na sociedade contempor√Ęnea (SILV√ČRIO, 1999). Do genoc√≠dio perpetrado pelo Estado de Israel aos palestinos √† Erup√ß√£o da Primavera √Ārabe; do alto e desproporcional √≠ndice de mortalidade materna das mulheres negras no Brasil, em rela√ß√£o √†s mulheres brancas √†s pol√≠ticas higienistas de faxina urbana, tirando de circula√ß√£o a for√ßa usu√°rios de drogas e moradores de rua indigestos √† especula√ß√£o imobili√°ria de determinadas √°reas; da persist√™ncia do racismo no Brasil ao atual e violento processo de exterm√≠nio vivenciado pela juventude negra no Brasil; da manuten√ß√£o atualizada da ‚Äúexplora√ß√£o do homem pelo homem‚ÄĚ, reconfigurada e ressignificada n√£o para se desfazer, mas para se intensificar… Em todos estes e outros problemas sociais presentes e latentes, colocam-nos diante de dilemas para os quais Frantz Fanon tenha muito a dizer.

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[1] O título original é: Troubles mentaux et syndromes psychiatriques dans l’hérédo-dégénération-spino-cérébelleuse: Um cas de maladie de Friereich avec délire de possession

[2] O psiquiatra espanhol Fran√ßois Tosquelles nasceu na Catalunia e chegou a participar da Guerra Civil Espanhola. Fugido do franquismo, instala-se na Fran√ßa onde inicia diversos estudos alternativos de psiquiatria em Saint Alban, onde Fanon Fanon trabalhou. Vision√°rio e anticolonialista, Tosquelles criou a psicoterapia institucional, que poderia ser traduzido como terapia comunit√°ria. A partir da influ√™ncia de Freud, Reich, Politzer e Marx, pensava a loucura ‚Äď aliena√ß√£o psiquica ‚Äď ou o sofrimento ps√≠quico em sua rela√ß√£o com o meio social em que o doente est√° inserido. Num outro polo, a desaliena√ß√£o ps√≠quica dependeria da reorganiza√ß√£o da sociedade, e portanto, as terapias de tratamento introduziam experimentos alternativos como assembleias democr√°ticas entre profissionais e pacientes, trabalhos comunit√°rios etc. (RODRIGUES, 2007)

[3] Publicado em Língua Portuguesa pela EDUBA sob o título: Pele negra, máscaras brancas. (2008).

[4] Os Estudos P√≥s-Coloniais configuram-se como uma corrente contempor√Ęnea interdisciplinar, fortemente inspirada nos estudos de Frantz Fanon e influenciada pelas √°reas da Filosofia, Historiografia, Estudos Liter√°rios, Sociologia, Antropologia e Ci√™ncias Pol√≠ticas. De acordo com √Ālvares (2000:222) ‚Äú Os te√≥ricos p√≥s-coloniais distinguem-se pela tentativa constante de repensar a estrutura epistemol√≥gica das ci√™ncias humanas, estrutura essa que ter√° sido moldada de acordo com padr√Ķes ocidentais que se tornaram globalmente hegem√īnicos devido ao facto hist√≥rico do colonialismo. (…) Pela √™nfase colocada na tem√°tica da alteridade, a Teoria P√≥s-Colonial tende a transcender as conseq√ľ√™ncias do colonialismo, servindo como frente de combate a qualquer grupo que se sinta discriminado em rela√ß√£o √† norma prevalecente ‚Äď seja esta √©tnica, social ou sexual -, e que procure implementar uma pol√≠tica de identidade atrav√©s da afirma√ß√£o da diferen√ßa.‚ÄĚ. Entre os seus principais expoentes, destacam-se Said (2004), Brah (1996), Hall (1996 e 2009), Bhabha (1998) entre outros.

[5] Ver neste sentido a brilhante descrição A mitose originária de E. Cleaver (1971)

[6] Para uma análise bem mais detalhada de Pele negra, máscaras brancas, principalmente no que concerne às neuroses provocadas pelo colonialismo, ver: SAPEDE (S/data) .

[7] Na literatura de l√≠ngua Francesa, destaca-se a psiquiatra psicanalista Alice Cherki, que busca, a partir da conviv√™ncia que teve com Fanon, recuperar o seu legado como psicanalista, bem como desmistificar as distor√ß√Ķes que foram criadas em seu nome (CHERKI, 2006).

[8] Uma tradu√ß√£o poss√≠vel do √°rabe argelino para o portugu√™s seria ‚Äúguerreiro santo‚ÄĚ. Estes artigos foram posteriormente reunidos a outros escritos de Fanon e publicados no livro Pour La r√©volution africaine – √©crits politiques-. Fran√ßois Maspero. 1964. H√° uma vers√£o traduzida para o portugu√™s de Portugal por Isabel Pascoal: Em defesa da Revolu√ß√£o Africana. In: Fanon (1980).

[9] O t√≠tulo original do livro Les damn√©s de La terre (Os condenados da terra) √© visivelmente inspirado na primeira estrofe da vers√£o francesa de A Internacinal, hino do movimento comunista internacional, que inicia da seguinte forma: ‚ÄúDebout les damn√©s de la terre/ Debout les for√ßats de la faim/ La raison tonne en son crat√®re/ C’est l’√©ruption de la fin.‚ÄĚ Ver: http://letras.mus.br/ogeret-marc/1246295/. Acesso em 02 de Dezembro de 2012.

[10] Fanon toma como exemplo o movimento de negritude cultural, do qual ele mesmo foi em grande parte influenciadao, encabe√ßado por Aim√© Cesaire, Leopold S. Sengor, Alaine Diop etc a partir da d√©cada de 30 nas col√īnias francesas.

[11] Título em português do livro The Souls of Black Filk de William Edward Burghardt Du Bois, publicado no Brasil como As almas da gente negra (DU BOIS, 1999).

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Provocação e masturbação cognitiva: sobre corporeidade

 José Evaristo Silvério Netto

Gosto da id√©ia de ressignificar o termo exerc√≠cio f√≠sico, trazendo-o para um entendimento somatops√≠quico do movimento corporal (produ√ß√£o cultural de sentidos do corpo que se movimenta) contextualizado na din√Ęmica cultural e ao momento hist√≥rico.

Neste sentido, penso que √© importante exercitarmo-nos fisicamente, sendo este exerc√≠cio formado de a√ß√Ķes que nos eduquem para a constru√ß√£o de uma realidade que nos seja saud√°vel, favor√°vel. As a√ß√Ķes f√≠sico-motrizes trazem express√Ķes afetivas e emocionais do esp√≠rito humano, al√©m de sentidos e sentimentos, de modo que o movimento nunca se encerra nele mesmo. Da√≠ a import√Ęncia de fazer do corpo em movimento um instrumento de educa√ß√£o e fortalecimento hol√≠stico (caminho somatops√≠quico).

Questiono-me: de que maneira lidamos com nossos sentimentos, com nossas necessidades afetivas e emocionais, com nossas inten√ß√Ķes, vontades, desejos, com nossos projetos e esquemas para os cursos de a√ß√£o das nossas vidas, quando estamos interagindo com outra pessoa na complexidade de uma rela√ß√£o em constru√ß√£o? Somos honestos conosco, com o que sentimos? Somos honestos com a outra pessoa, somos verdadeiros na exposi√ß√£o das nossas inten√ß√Ķes, do que pretendemos ou desejamos? Este √© apenas um ponto. A outra pessoa esta sendo sincera conosco, e com os seus pr√≥prios projetos, sentidos e sentimentos? Ser√° que esta √© uma rela√ß√£o profunda ‚Äď entendendo a profundidade como ‚Äėhonestidade de se mostrar em sentidos e inten√ß√Ķes verdadeiras‚Äô ‚Äď ou uma rela√ß√£o rasa, mesmo sendo duradoura, onde as pessoas fingem sentimentos, e n√£o expressam aquilo que para elas faz sentido? Este √© outro ponto.

Pensar o exerc√≠cio f√≠sico nesta seara seria entend√™-lo como um meio pedag√≥gico para uma educa√ß√£o emocional e moral, um recurso pedag√≥gico da envergadura de uma educa√ß√£o integral. E o corpo enquanto ve√≠culo de divulga√ß√£o e express√£o do nosso esp√≠rito e consci√™ncia, por meio do movimento, do exerc√≠cio f√≠sico de se expressar, dialogando com a realidade √† sua volta e lutando contra a imposi√ß√£o dos est√≠gmas e estere√≥tipos racistas implementaria esta educa√ß√£o de corpo inteiro, integral e “pr√°xica”.

Adinkra que trás o significado de resistência, desafio às dificuldades, perseverança.

Faz-se tamb√©m importante conceber o corpo enquanto instrumento de luta para emancipa√ß√£o das estruturas de opress√£o, um territ√≥rio de luta de propor√ß√Ķes gigantescas. O corpo negro tr√°s consigo as estruturas socioculturais, sentidos, ci√™ncia, hist√≥ria, lembran√ßas, espiritualidade e magnetismos, acumulados historicamente, que d√£o sentido ao conceito de Ancestralidade. Corpos Africanos que, corroborando com a ancestralidade, n√£o se dissociam da consci√™ncia indivis√≠vel do indiv√≠duo, mas vivem em uma sociedade que tem como valor positivo o corpo subjulgado por uma entidade consciente, a mente, como se corpo e mente n√£o fossem a mesma estrutura, no limite do m√≠nimo, consci√™ncia.

Daqui sai um entendimento curioso: at√© que ponto √© poss√≠vel pensarmos em pessoas conscientes, se seus corpos est√£o separados de suas mentes, dissociados? Isso √© poss√≠vel? Trago o debate de que o corpo √© a mente, o corpo √© a consci√™ncia, n√£o h√° como entendermos o corpo dissociado da mente. Isso √© a morte. O corpo sem consci√™ncia √© um amontoado de tecido em processo de decomposi√ß√£o, sem possibilidades de di√°logo com a realidade circunscrita, sem possibilidades de causar colapsos na realidade. Sendo mais enf√°tico para marcar o sentido e enviesar propositalmente o debate, o corpo sem consci√™ncia n√£o √© mais corpo (Corpo Vivo) √© t√£o somente material org√Ęnico.

Dialogando e construindo entendimento do mundo pelo movimento significativo, que é consciente e consciência porque é do corpo em movimento que brota a ciência..

√Č ou n√£o interessante pensar o exerc√≠cio f√≠sico nestes meandros, entendendo que a pr√°tica de atitudes e condutas f√≠sico-motrizes imbu√≠das de inten√ß√£o pol√≠tica e emo√ß√£o podem operar mudan√ßas nas nossas estruturas cognitivas, afetivas e emocionais? Este √© o mote epistemol√≥gico. Come√ßo meus estudos recentes (bem recentes mesmo!) trazendo uma ressignifica√ß√£o do termo exerc√≠cio f√≠sico, transgredindo a l√≥gica cartesiana de dissocia√ß√£o mente-corpo, e entendendo o corpo como consci√™ncia, assim como a mente, sendo corpo e mente a mesma estrutura, a mesma consci√™ncia, desconstruindo a subjuga√ß√£o de um pelo outro. As implica√ß√Ķes deste entendimento de corpo, corporeidade (produ√ß√£o corporal ‚Äď cultura corporal), e exerc√≠cio f√≠sico, s√£o de tal ordem importante que poderia provocar uma enxurrada de novas proposituras e teses sobre v√°rios temas espinhosos como conscientiza√ß√£o, sensibiliza√ß√£o e educa√ß√£o antirracista.

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Apropriação Privada do Conhecimento e outras histórias

José Evaristo Silvério Netto

Nos encontramos em um momento na hist√≥ria da humanidade onde a crise nos setores da sociedade √© evidente. O colapso no setor educacional, considerando os aparelhos p√ļblicos de escolariza√ß√£o, est√£o expressos na luta dos professores e demais profissionais da educa√ß√£o por melhores condi√ß√Ķes de trabalho e de vida. N√£o s√≥ o setor educacional, mas quando pensamos na sociedade como um todo, percebemos v√°rios processos de ruptura da nefanda ordem social.

Protesto dos professores em S√£o Paulo.

Entendo que o capitalismo e o racismo estrangulam as sociedades exploradas do planeta, e nesta conjuntura ampliando e intensificando a explora√ß√£o e a gera√ß√£o de riquezas para compensar a crise mundial do sistema monet√°rio. A explora√ß√£o se d√° de forma muito ampla e complexa, por meio dos diversos aparelhos de controle social do Estado e das industrias que det√™m o controle dos processos pol√≠ticos e sociais da humanidade. Uma face importante desta explora√ß√£o se d√° atrav√©s apropria√ß√£o privada do conhecimento humano, onde a l√≥gica do capital tenta se vestir de leis da natureza, de modo que o senso comum perceba as express√Ķes do racismo e do capitalismo como fatos naturais na hist√≥ria da humanidade. Assim, todos os aparelhos “oficiais” de produ√ß√£o de cultura e conhecimento em alguma medida dialogam com esta l√≥gica, produzindo e reproduzindo o racismo e suas desigualdades, dentro do processo j√° mencionado acima, descrito por Roberto da Silva, quando discutindo sobre as bases cient√≠ficas da Pedagogia Social (consultar livro: Pedagogia Social – Roberto da Silva, Jo√£o Clemente de Souza Neto, Rog√©rio Adolfo de Moura (orgs.). — S√£o Paulo : Express√£o e Arte Editora, vol. 1. 2¬™ edi√ß√£o, 2011).

De certa forma, a Apropria√ß√£o Privada do Conhecimento trata do modo como as industrias constroem a realidade (a nossa realidade – como uma “matrix”) a partir dos produtos que vendem, de modo a n√£o permitir aos explorados SER (express√£o livre do esp√≠rito em comunh√£o com as identidades √©tnicas e humanas, por exemplo) sem possuir estes produtos. T√£o forte √© a penetra√ß√£o desta l√≥gica nos nossos esp√≠ritos, que mesmo as teorias que problematizam o racismo e a l√≥gica do capital, ainda assim continuamos presos √† necessidade de comprar, de possuir estes produtos. A l√≥gica do capital, o racismo, e seus res√≠duos valorativos e judicativos se imbricam na nossa estrutura afetivo-emocional; orientam a constru√ß√£o da nossa estrutura cognitiva, e tornam-se l√≥cus interno da percep√ß√£o da causalidade da nossa motiva√ß√£o e a√ß√£o.

As industrias do setor aliment√≠cio forjam a realidade e a verdade que pretendem para n√≥s a partir da manipula√ß√£o dos nossos sentidos gustativos desde quando nascemos, ou at√© antes disso, “normatizando” e ajustando-nos para entender a realidade a partir do que oferecem de est√≠mulos, de par√Ęmetros valorativos, e de conhecimento sobre o mundo, transformando-nos finalmente em consumidores vital√≠cios. Da mesma forma, as industrias do olfato, do tato, da vis√£o e audi√ß√£o, que se apropriam das nossas possibilidades de compreens√£o da realidade para, uma vez nos fazendo consumidores programados, manterem a l√≥gica da explora√ß√£o e do poder. Somos v√≠timas deste processo antes de tomarmos consci√™ncia do mundo que nos rodeia, e, talvez por isso seja t√£o dif√≠cil descortinar este esquema do qual somos pe√ßas fundamentais. Aqui, os conceitos de REVOLU√á√ÉO e de EMANCIPA√á√ÉO t√™m muita import√Ęncia, mas sobre estes cabe outro texto, com outra orienta√ß√£o. (Neste texto, busco opinar, dentro das minhas possibilidades, sobre a condi√ß√£o de explorados pelo processo de Apropria√ß√£o Privada do Conhecimento perpetrada pelas industrias e os aparelhos ideol√≥gicos do Estado).

A grande responsável pela sedimentação e consolidação deste processo perverso de Apropriação do Conhecimento pelo Capital, nas figuras das industrias que privatizam os sentidos Humanos, são as mídias televisivas. Estas industrias utilizam predominantemente os estímulos audiovisuais, e a LINGUAGEM (ai cabe outra discussão, sobre o papel da linguagem e da língua para a dominação e colonização), para introjetar a ideologia das elites mundiais de modo a estabelecer o controle social necessário para administrar a miséria e gestão do sistema de exploração. As propagandas, os programas de auditório e de outros gêneros, os programas de noticias, as novelas, os filmes, os desenhos, e outras tantas tecnologias desta industria geram uma gigantesca inércia de introjeção ideológica à serviço da lógica do capital e do racismo, dando ares de verdade universal ao conhecimento forjado desde o nosso nascimento (ou antes) pelos estímulos das industrias do palato, do tato, da audição, da visão e do olfato.

Penso que é necessário uma ruptura profunda do tecido social para gerar uma conjuntura social que seja solo fértil para a organização revolucionária do povo. Segundo Roberto da Silva (2011), houve no Brasil uma ruptura que provocou o processo de redemocratização do país, localizando a constituição de 88 como marco normativo. Porém, o professor afirma que esta Constituição Cidadã não significou uma ruptura de carácter revolucionário. Pelo contrário, representou a volta do Estado de Direito, antes fora interrompido pelo golpe militar de 64.

Abaixo faço uma pequena proposição de algo que ainda quero me apropriar.

Uma vez que o racismo tenha sido o motor do capitalismo, e dadas as demandas atuais grav√≠ssimas – genoc√≠dio da juventude negra, redu√ß√£o da maioridade penal, racismo institucional, resist√™ncia e descaracteriza√ß√£o de pol√≠ticas de a√ß√£o afirmativa, desapropria√ß√Ķes criminosas de comunidades perif√©ricas, crimes do Estado Brasileiro contra comunidades Quilombolas, entre tantas demandas – acredito que a ruptura do tecido social se dar√° a partir das desigualdades raciais das classes sociais para uma mudan√ßa da ordem estrutural da sociedade. O protagonismo dos explorados no processo de radicaliza√ß√£o e endurecimento da luta de emancipa√ß√£o dever√° levar em conta um projeto pol√≠tico de sociedade que contemple uma outra estrutura de sociedade, onde ser√° poss√≠vel inclusive implementar outras tecnologias educacionais e, onde a Lei 10639/03 poder√° ser encaminhada na pr√°xis, para al√©m do papel.

Campanha Contra o Genocídio da Juventude Negra

Termino aqui esta opinião, mas sinalizando para o que penso ser um caminho interessante (pretendo escrever sobre isso): que a educação precisa passar por um processo de desconstrução dos seus sustentáculos estruturais historicamente forjados pelas demandas das classe dominante, para que seja possível implantar uma educação social Рapoiada na Pedagogia Social Рque tenha uma orientação política em acordo com a lei 10639/03, uma perspectiva afrocentrada de análise da realidade, e outras fontes de mudanças construturais para a reconfiguração da mente colonizada que possuímos.

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O Racismo como arma de dominação РClóvis Moura

Ao longo da hist√≥ria, o racismo foi a justifica√ß√£o dos privil√©gios das elites e dos infort√ļnios das classes subalternas. Agora ele se renova como instrumento de domina√ß√£o

Sobre o racismo um dos temas mais pol√™micos, instigantes e inesgot√°veis do mundo moderno, concentram-se opini√Ķes contradit√≥rias, que discutem em v√°rios n√≠veis, as consequ√™ncias de sua pr√°tica. A discuss√£o sobre as diversas formas de sua atua√ß√£o, significado e fun√ß√£o vem sempre acompanhada de uma carga emocional, o que demonstra como a pol√™mica que se monta em torno de seu significado transcende em muito as quest√Ķes acad√™micas, para atingir um significado mais abrangente, da ideologia de domina√ß√£o. Somente admitindo o papel social, ideol√≥gico e pol√≠tico do racismo poderemos compreender sua for√ßa permanente e seu significado polim√≥rfico e ambivalente…

veja o texto na íntegra:

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