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Nonagésimo aniversário de Fanon – A esquerda francesa e a revolução argelina

Como parte do CURSO FRANTZ FANON VIDA E OBRA, falaremos hoje sobre os escritos de Fanon para o Jornal El Moudjahid e de sua relação com a Esquerda francesa.

Capa do livro: Pour la révolution africaine

Em 1956, ao retornar do I Congresso de Escritores e Artistas Negros, Fanon depara-se com uma tensão social ainda maior, provocada pelo acirramento das contradições bélicas na Argélia. A tensão colocou Fanon em uma situação desconfortável: de um lado, como diretor de um hospital público, recebia os torturadores franceses que ficavam atordoados com o sofrimento que infringiam aos Nativos, e do outro, atendia sigilosamente os guerrilheiros vítimas da tortura (GIBSON, 2011). É neste contexto que Fanon escreve: “Há longos meses que a minha consciência é palco de debates imperdoáveis. E a conclusão que chego é a vontade de não desesperar do homem, isto é, de mim próprio” (FANON, 1980:59).

O desfecho do acirramento político, mas também do envolvimento de Fanon com a Frente de libertação da Argélia, resultou em uma carta de demissão, escrita por ele para denunciar a desumanidade do colonialismo francês e a impossibilidade de tratar o sofrimento psíquico em um ambiente social (colonial) produtor de loucura. A resposta do Governo colonial francês na Argélia foi a sua expulsão oficial.

Fanon com Omar Oussedik, ao centro, responsável pela FLN na Tunísia

A partir daí, Fanon ruma para Tunísia e se integra oficialmente às fileiras da FLN. Na Tunísia, continua trabalhando como pesquisador e psiquiatra clínico, mas paralelo a isso, assume a função de embaixador do Governo Provisório da República Argelina (GPRA) nos países da África subsaariana e se torna, ao mesmo tempo, correspondente do periódico El Moudjahid. Uma tradução possível do árabe argelino para o português seria “guerreiro santo” ou “guerreiro de fé”. O tom religioso do nome escolhido para o jornal buscava dialogar com o imaginário islâmico da maioria da população argelina, mas a facção política da FLN (a essa altura, nomeada GPRA) ao qual Fanon estava relacionado alejava uma revolução social de cunho secular, ao contrário do que ocorrerá na Argélia após a independência.

Os artigos escritos por Fanon neste jornal foram posteriormente reunidos a outros escritos e publicados no livro Pour La révolution africaine – écrits politiques-. François Maspero. 1964 por Josie Fanon, sua esposa. Há uma versão traduzida para o português de Portugal por Isabel Pascoal: Em defesa da Revolução Africana. In: Fanon (1980).

 

Órgão de divulgação da Frente de libertação Nacional da Argélia

O texto aqui divulgado é “Os intelectuais e os democratas franceses perante a Revolução Argelina” escrito em 1957. Nele, pode-se perceber o debate de Fanon com a esquerda e os setores mais democráticos da França, seja intelectuais, artísticos ou políticos. Para entender a posição de Fanon no artigo é importante lembrar que a resposta francesa ao à luta de libertação foi uma das mais violentas de todas as registradas. Isso levou a luta rapidamente a dimensões sangrentas, pautadas por estratégias de guerrilhas e terrorismo contra a população francesa que ocupava os territórios argelinos.

A crítica de Fanon, é que os intelectuais de esquerda, em um gesto que relembra o “somos todos Majú”, limitavam-se a escrever notas de repúdio à violência colonial, sem com isso, mobilizar consequentemente o conjunto de suas forças e influência para fazer frente às atrocidades cometidas pela administração colonial.

Essa postura ambigua da esquerda francesa levou Fanon a problematizar a exclusividade da “classe” para a luta anticolonial, já que o proletariado francês – seja o que vivia na França, seja o que vivia na Argélia – beneficiava-se de privilégios reais e simbólicos permitidos pela exploração colonial Segundo ele, “na Argélia, como em qualquer colônia, o opressor estrangeiro opõe-se ao autóctone como limite de sua dignidade, e define-se como contestação irredutível da existência nacional”.

Ao contrário do que se pode imaginar, para ele, essa posição não refuta a necessidade de pensar a dimensão de “classe” no interior das lutas de libertação no continente africano, mas sim, a necessidade de entender a suas particularidades nas colônias, onde o trabalhador francês, mesmo que explorado, assume nas colônias a posição de “ocupante” (invasor) e atuará, quase sempre, lamentávelmente, na perspectiva de manter seus privilégios.

Apesar da dura crítica à essa esquerda (colonial), a posição de Fanon não vai no sentido de uma ruptura radical com ela, mas, em primeiro lugar, na elucidação dos seus limites concretos (Gourmet) – poderia-se dizer em referência à posturas ainda presentes no que tange aos vínculos da esquerda com a supremacia branca/europeia – , e em segundo lugar, no apelo à que essa força política – que mesmo limitada não deve ser despresada – “supere as contradições (gurmês) que esterilizam suas posições” e apoiem “sem reserva”o esforço de descolonização empreendidos pelos principais “condenados da terra”.

Ao que tudo indica, quando se pensa a postura – ou o silêncio e a omissão – da esquerda brasileira diante do sistemático assassinato de pretos/as, ou quando mesmo a sua mais agressiva manifestação de apoio se limita a uma notinha no cantinho de um jornal, vê-se que o texto é bastante atual.

À quem interessar, boa leitura:

Os intelectuais e os democratas franceses perante à revolução argelina – Fanon (1957)

 

 

Ato Contra o Golpe de Cunha – Contra Redução 
Terça | 07 de Julho | 17h30 | Masp
Evento no Face: goo.gl/RoQM3p
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Ato Contra a Redução e Celebração dos 25 anos do ECA
Segunda | 13 de julho | Praça da Sé – 

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Nonagésimo aniversário de Fanon – Racismo e Cultura

O texto de hoje é Racismo e cultura, elaborado por Fanon para a sua conferência no I Congresso de Escritores e Artistas Negros, em Paris. O texto também será abordado no Curso Fanon

Artista Michel Cena 7

O encontro foi realizado em 1956, quando Fanon, que nasceu na Martinica, já atuava como médico psiquiatra em Blida na Argélia. Essa informação é importante porque na Argélia da época, iniciava-se um amplo processo de mobilização popular e protestos contra o colonialismo francês. Esta mobilização foi recebida com muita violência pela França colonialista, e com isso, o clima político do país ficava cada vez mais tenso.

A esse momento, Fanon já mantinha contato com os integrantes da Frente de libertação Nacional da Argélia e com o Movimento de Negritude francês, liderado por Alaine Diop, Aimé Cesaire, Leon Damás, Leopold Senghor e outros.

A relação de Fanon com o Movimento de Negritude sempre gerou muitas polêmicas entre os estudiosos de seu pensamento. Para uns, ele comporia uma ala mais radical da negritude que buscou ir além da sua dimensão cultural, para outros, a sua crítica apontavam para uma ruptura.

O fato é que a presença de Fanon ao Congresso, contribuiu tanto para que as suas ideias ficassem conhecidas internacionalmente  quanto para que ele estabelecesse contato com outros intelectuais africanos que identificavam nas vias revolucionárias, o caminho para a descolonização do continente. Entre esses intelectuais, destacam-seJacques Rabemananjara e Mario de Andrade, que anos depois, se tornaria o principal articulador da independência angolana.

O Congresso de Escritores e Artistas Negros foi organizado pela Revista Présence Africaine, coordenada por Alaine Diop, e contou com a participação de mais de 600 pessoas de diversas nacionalidade. Um fato pouco comentado, é que havia um brasileiro nesse encontro.

I Congresso de Escritores Negros - KILOMBAGEM

A comunicação de Fanon para o Congresso resultou no famoso texto Racismo e Cultura, publicado em seguida pela Revista Présence Africaine e , posteriormente em 1964 na coletânea de textos Pour la révolution africaine. Ficam nítidas ao longo da comunicação algumas de suas diferencas em relação ao movimento de negritude, e a sua preocupação em apontar os nexos entre economia, cultura e subjetividade na análise da situação colonial.

Para além disso, destaca-se na comunicação a preocupação de Fanon com o caráter mutante do racismo. Para ele, o antigo racismo “científico” – baseado em argumentos biológicos  – já estava sendo questionado pelos próprios órgãos de poder que dele se beneficiaram. Em seu lugar, desenvolvia-se novas formas de racismo, que apesar de baseadas na anterior, passavam a identificar na culturais elementos de sustentação. Essa mutação, para Fanon não representava um avanço para a luta antirracista, mas sim, a capacidade do racismo se adequar à novas necessidades e contextos, sem com isso deixar de ser um elemento de manutenção de poder e privilégios.

O texto é um clássico, e leitura obrigatória para entender o pensamento de Fanon.

Você pode acessá-lo aqui

Boa leitura!!!

 

Para os desavisados: 18 razões para dizer não à redução da idade penal no Brasil 

 

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