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KARIBU MWALIMU RODNEY : UMA INTRODUÇÃO À VIDA E OBRA DE WALTER RODNEY, HISTORIADOR E MILITANTE PAN-AFRICANISTA

Por Kwesi Ta Fari (F. Gomes)

Walter Rodney foi um dos mais importantes historiadores do século XX, com um legado de inquestionável pertinência para o mundo africano.

Entre as d√©cadas de 1960 e 1970, as interven√ß√Ķes de Walter Rodney foram conhecidas nas Am√©ricas, √Āfrica, √Āsia e Europa, abrangendo uma audi√™ncia de investigadores, artistas, professores e temas envolvendo historiografia, pol√≠tica, hist√≥ria, cultura, economia e movimentos sociais. Por raz√Ķes pol√≠ticas, o historiador foi assassinado no ano de 1980, em sua terra natal, a Rep√ļblica Cooperativa da Guiana (ex-Guiana Inglesa ).

Neste artigo, apresentamos um panorama geral da trajet√≥ria de Walter Rodney, comentamos aspectos do seu livro Como a Europa Subdesenvolveu a √Āfrica e destacamos exemplos de men√ß√Ķes feitas a Walter Rodney em artigos e livros publicados no Brasil.

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Kwame Nkrumah

E o socialismo africano

Por Kwame Nkrumah, via Marxists.org, traduzido por Gabriel Landi Fazzio

Nascido em 21 de setembro de 1909, Kwane Nkrumah foi o grande l√≠der da independ√™ncia de Ghana e um dos mais influentes pensadores do chamado ‚Äėsocialismo africano‚Äô.¬†Influenciado pelas ideias de Marcus Garvey, do marxista C.L.R. James, do exilado russo Raya Dunayevskaya e do sino-americano Grace Lee Boggs, Nkrumah desenvolveu sua obra em constante rela√ß√£o com os desenvolvimentos da luta independentista na √Āfrica.

O texto abaixo foi originalmente lido no Semin√°rio Africano que ocorreu no Cairo, sob o convite de dois √≥rg√£os, o ‚ÄúAt-Talia‚ÄĚ e o ‚ÄúProblemas da Paz e Socialismo‚ÄĚ.


O termo ‚Äúsocialismo‚ÄĚ tornou-se uma necessidade nos discursos de palanque e escritos pol√≠ticos de l√≠deres africanos. √Č um termo que nos une no reconhecimento de que a restaura√ß√£o dos princ√≠pios sociais humanistas e igualit√°rios da √Āfrica demandam o socialismo. Todos n√≥s, portanto, embora seguindo pol√≠ticas bastante contrastantes na tarefa de reconstruir nossos v√°rios Estados-na√ß√Ķes, ainda usamos o ‚Äúsocialismo‚ÄĚ para descrever nossos respectivos esfor√ßos. ‚ÄúA quest√£o deve, portanto, ser enfrentada : que significado real o termo ret√™m no contexto da pol√≠tica africana contempor√Ęnea?‚ÄĚ Eu alertei sobre isso em meu livro¬†Consciencism(Londres e Nova York, 1964, p. 105).

E, no entanto, o socialismo na √Āfrica de hoje tende a perder seu conte√ļdo objetivo em favor de uma terminologia diversionista e em favor de uma confus√£o geral. A discuss√£o centra-se mais sobre os v√°rios tipos poss√≠veis de socialismo do que sobre a necessidade de desenvolvimento socialista.

Alguns l√≠deres pol√≠ticos africanos e pensadores certamente usam o termo ‚Äúsocialismo‚ÄĚ como deveria, em minha opini√£o, ser utilizado: para descrever um conjunto de prop√≥sitos sociais e as pol√≠ticas econ√īmicas, padr√Ķes de organiza√ß√£o, estruturas do estatais e ideologias que podem levar √† concretiza√ß√£o esses prop√≥sitos. Para tais l√≠deres, o objetivo √© remodelar a sociedade africana na dire√ß√£o do socialismo; repensar a sociedade africana de tal maneira que o humanismo da vida tradicional Africano reafirme a si pr√≥prio em uma comunidade tecnicamente moderna.

Consequentemente, o socialismo na √Āfrica introduz uma nova s√≠ntese social em que a tecnologia moderna √© reconciliada com os valores humanos, na qual a sociedade tecnicamente avan√ßada √© realizada sem os espantosos malef√≠cios sociais e profundas cis√Ķes da sociedade capitalista industrial. Isso porque um verdadeiro desenvolvimento econ√īmico e social n√£o pode ser promovido sem a socializa√ß√£o real dos processos produtivos e distributivos. Os l√≠deres africanos que acreditam nestes princ√≠pios s√£o os socialistas na √Āfrica.

H√°, no entanto, outros l√≠deres pol√≠ticos africanos e os pensadores que usam o termo ‚Äúsocialismo‚ÄĚ porque acreditam que o socialismo, nas palavras de Chandler Morse, iria ‚Äúsuavizar o caminho para o desenvolvimento econ√īmico‚ÄĚ. Torna-se necess√°rio para eles empregar o termo em um ‚Äúesfor√ßo carism√°tico para conseguir apoio‚ÄĚ para pol√≠ticas que n√£o promovem realmente o desenvolvimento econ√īmico e social. Os l√≠deres africanos que acreditam nestes princ√≠pios, s√£o, supostamente, os ‚ÄúSocialistas Africanos‚ÄĚ.

√Č interessante lembrar que antes da cis√£o na Segunda Internacional, o marxismo era quase indistingu√≠vel da social-democracia. Na verdade, o Partido Social-Democrata alem√£o era mais ou menos o guardi√£o da doutrina do marxismo, e tanto Marx quanto Engels apoiaram esse partido. Lenin, tamb√©m, tornou-se membro do Partido Social Democrata. Ap√≥s a ruptura da Segunda Internacional, no entanto, o significado do termo ‚Äúsocial-democracia‚ÄĚ foi alterado e tornou-se poss√≠vel tra√ßar uma distin√ß√£o real entre socialismo e social-democracia. Uma situa√ß√£o semelhante ocorre na √Āfrica. Alguns anos atr√°s, os l√≠deres pol√≠ticos africanos e escritores usaram o termo ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ a fim de rotular as formas concretas que o socialismo poderia assumir na √Āfrica. Mas a realidade das diferentes e inconcili√°veis propostas pol√≠ticas, sociais e econ√īmicas sendo almejadas pelos estados africanos fizeram do termo ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ, hoje, algo sem sentido e irrelevante. Parece ser muito mais intimamente associada com a antropologia do que com a economia pol√≠tica. ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ j√° chegou a adquirir alguns dos seus maiores divulgadores na Europa e Am√©rica do Norte precisamente por causa de seu charme predominantemente antropol√≥gico. Seus publicistas estrangeiros incluem n√£o s√≥ os social-democratas remanescentes da Europa e da Am√©rica do Norte, mas outros intelectuais e liberais que se encontram mergulhados eles pr√≥prios na ideologia da social-democracia.

N√£o foi por acaso, deixe-me acrescentar, que o Col√≥quio de Dakar, em 1962, valorizou tanto o ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ, mas as incertezas quanto ao significado e pol√≠ticas espec√≠ficas do ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ levaram alguns de n√≥s a abandonar o termo, porque ele falha em expressar o seu significado original e porque tende a obscurecer o nosso compromisso socialista fundamental.

Hoje, a express√£o ‚ÄĚ Socialismo Africano‚ÄĚ parece se alinhar √† vis√£o de que a sociedade tradicional africana era uma sociedade sem classes, imbu√≠da do esp√≠rito de humanismo, e expressa uma nostalgia por esse esp√≠rito. Tal concep√ß√£o do socialismo produz uma imagem fetichista a sociedade comunal africana. Mas essa id√≠lica sociedade sem classes africana (em que n√£o havia ricos nem pobres) que desfrutaria de uma anestesiada serenidade, √© certamente uma simplifica√ß√£o f√°cil; n√£o h√° nenhuma evid√™ncia hist√≥rica ou mesmo antropol√≥gica da exist√™ncia de tal sociedade. Temo que a realidade das sociedades africanos fosse um pouco mais s√≥rdida.

Todas as evid√™ncias dispon√≠veis da hist√≥ria da √Āfrica at√© a v√©spera da coloniza√ß√£o europeia mostram que a sociedade africana n√£o era nem ‚Äúsem classes‚ÄĚ nem desprovida de uma hierarquia social. O feudalismo existia em algumas partes da √Āfrica antes da coloniza√ß√£o; e o feudalismo envolve uma estratifica√ß√£o social profunda e exploradora, fundada sobre a propriedade da terra. Tamb√©m deve-se notar que a escravid√£o existiu na √Āfrica antes da coloniza√ß√£o europeia, embora o contato anterior com os europeus tenha dado √† escravid√£o na √Āfrica algumas de suas caracter√≠sticas mais cru√©is. A verdade permanece, no entanto, que antes da coloniza√ß√£o, que se tornou difundida na √Āfrica apenas no s√©culo XIX, os africanos estavam dispostos a vender, muitas vezes por n√£o mais de trinta moedas de prata, companheiros de tribo e at√© mesmo membros da mesma ‚Äúfam√≠lia alargada‚ÄĚ e cl√£. O colonialismo merece ser responsabilizado por muitos dos males da √Āfrica, mas certamente n√£o foi precedida de uma Idade de Ouro africana ou de um para√≠so. Um retorno √†s sociedades africanas pr√©-coloniais n√£o √©, evidentemente, algo digno da criatividade e dos esfor√ßos de nosso povo.

N√£o obstante, ainda se poderia argumentar que a organiza√ß√£o b√°sica de muitas sociedades africanas em diferentes per√≠odos da hist√≥ria manifesta um certo comunalismo e que a filosofia e os prop√≥sitos humanistas por tr√°s dessa organiza√ß√£o s√£o dignos de serem retomados. A comunidade em que cada um via o seu bem-estar no bem-estar do grupo certamente foi louv√°vel, mesmo que a maneira pela qual o bem-estar do grupo fosse perseguido n√£o contribua para os nossos prop√≥sitos. Assim, o que o pensamento socialista na √Āfrica deve retomar n√£o √© a estrutura da ‚Äúsociedade tradicional africana‚ÄĚ, mas o seu esp√≠rito, porque o esp√≠rito do comunitarismo est√° cristalizado em seu humanismo e em sua reconcilia√ß√£o do progresso individual com o bem-estar do grupo. Mesmo se houver escassas evid√™ncias antropol√≥gicas para reconstituir a ‚Äúsociedade tradicional africana‚ÄĚ com precis√£o, ainda podemos recuperar os ricos valores humanos desta sociedade. Em suma, uma abordagem antropol√≥gica da ‚Äúsociedade tradicional africana‚ÄĚ carece demais de comprova√ß√£o; mas uma abordagem filos√≥fica est√° em um terreno muito mais firme, e torna vi√°vel a generaliza√ß√£o.

Um dos apuros da abordagem antropol√≥gica √© que h√° alguma disparidade de pontos de vista sobre as manifesta√ß√Ķes da ‚Äúaus√™ncia de classes‚ÄĚ na ‚Äúsociedade tradicional africana‚ÄĚ. Enquanto alguns afirmam que a sociedade era baseada na igualdade dos seus membros, outros sustentam que ela continha uma hierarquia e divis√£o de trabalho na qual a hierarquia ‚Äď e, portanto, o poder ‚Äď estava fundado em valores espirituais e democr√°ticas‚Ķ Claro, nenhuma sociedade pode basear-se na igualdade de seus membros, embora as sociedades possam ser fundadas sobre o igualitarismo, o que √© algo bem diferente. Da mesma forma, uma sociedade sem classes que, ao mesmo tempo, se regozija em uma hierarquia de poder (como distinta da¬†autoridade) deve ser contabilizada como uma maravilha de requinte sociopol√≠tico.

Sabemos que a ‚Äúsociedade tradicional africana‚ÄĚ se fundava em princ√≠pios de igualitarismo. Em seu funcionamento real, no entanto, tinha v√°rias defici√™ncias. Seu impulso humanista, ainda assim, √© algo que continua a exortar-nos para a nosso reconstru√ß√£o socialista de toda a √Āfrica. Postulamos que cada homem √© um fim em si mesmo, n√£o apenas um meio; e aceitamos a necessidade de garantir a cada um a igualdade de oportunidades para o seu desenvolvimento. As implica√ß√Ķes disso para a pr√°tica sociopol√≠tica t√™m que ser trabalhadas cientificamente, e as pol√≠ticas sociais e econ√īmicas necess√°rias perseguidas com resolu√ß√£o. Qualquer humanismo significativo deve come√ßar a partir de igualitarismo e deve levar a pol√≠ticas escolhidas objetivamente para salvaguardar e manter igualitarismo. Por isso o socialismo. Por isso, tamb√©m, o socialismo cient√≠fico.

Uma dificuldade adicional que surge da abordagem antropol√≥gica para o socialismo, ou ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ, √© a divis√£o gritante entre as sociedades africanas existentes e a sociedade comunal√≠stica que existiu. Eu avisei no meu livro¬†Consciencism¬†que ‚Äúa nossa sociedade n√£o √© a velha sociedade, mas uma nova sociedade alargada por influ√™ncias isl√Ęmicas e euro-crist√£os‚ÄĚ. Este √© um fato que qualquer pol√≠tica socioecon√īmica deve reconhecer e ter em conta. No entanto, a literatura do ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ chega perto de sugerir que as sociedades africanas de hoje s√£o comunal√≠stica. As duas sociedades n√£o s√£o coincidentes; e tal equa√ß√£o n√£o pode ser sustentada ante qualquer observa√ß√£o atenta. √Č verdade que essa disparidade √© reconhecida em parte da literatura do ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ; assim, meu amigo e colega Julius Nyerere, ao reconhecer o desequil√≠brio entre o que foi e o que √© em termos de sociedades africanas, atribui as diferen√ßas √†s importa√ß√Ķes de colonialismo europeu.

Sabemos, √© claro, que a derrota do colonialismo e at√© mesmo neocolonialismo n√£o ir√° resultar no desaparecimento autom√°tico dos padr√Ķes importados de pensamento e de organiza√ß√£o social. Isso porque esses padr√Ķes criaram ra√≠zes e s√£o, em diferentes graus, caracter√≠sticas sociol√≥gicas de nossa sociedade contempor√Ęnea. Nem um simples retorno √† sociedade comunal√≠stica da √Āfrica antiga pode oferecer uma solu√ß√£o. Porque defender um retorno, por assim dizer, para a rocha da qual fomos talhados √© um pensamento encantador, mas estamos diante de problemas contempor√Ęneos, que surgiram a partir da subjuga√ß√£o pol√≠tica, da explora√ß√£o econ√īmica, do atraso educacional e social, do aumento da popula√ß√£o, do contato com os m√©todos e produtos industriais, das modernas t√©cnicas agr√≠colas. Isso ‚Äď bem como uma s√©rie de outras complexidades ‚Äď n√£o pode ser resolvido por qualquer mera sociedade comunal√≠stica, n√£o importa o qu√£o sofisticada, e quem assim defende deve se ver capturado em dilemas insol√ļveis do tipo mais excruciante. Todas as provas dispon√≠veis da hist√≥ria sociopol√≠tica revelam que tal retorno a um status quo anterior √© algo sem qualquer precedente na evolu√ß√£o das sociedades. N√£o h√°, de fato, qualquer raz√£o te√≥rica ou hist√≥rica para indicar que isso √© poss√≠vel.

Quando uma sociedade se encontra com outra, a tend√™ncia hist√≥rica observada √© que a acultura√ß√£o resulta em um movimento de saldo progressivo, um movimento no qual cada sociedade assimila certos atributos √ļteis da outra. A evolu√ß√£o social √© um processo dial√©tico; ele tem altos e baixos, mas, no c√īmputo geral, ele sempre representa uma tend√™ncia ascendente.

Tanto a civiliza√ß√£o isl√Ęmica quanto o colonialismo europeu s√£o experi√™ncias hist√≥ricas da sociedade tradicional africana, profundas experi√™ncias que mudaram permanentemente a tez da sociedade tradicional africana. Eles introduziram novos valores e uma organiza√ß√£o social, cultural e econ√īmica na vida africana. As sociedades africanas modernas n√£o s√£o as tradicionais, mesmo se foram retr√≥gradas, e elas est√£o claramente em um estado de desequil√≠brio socioecon√īmico. Elas est√£o neste estado porque n√£o s√£o ancoradas a uma ideologia estabilizadora.

A sa√≠da n√£o √©, certamente, regurgitar todas as influ√™ncias isl√Ęmicas ou euro-coloniais em uma tentativa f√ļtil de recriar um passado que n√£o pode ser ressuscitado. A sa√≠da √© s√≥ para a frente, para a frente para uma forma mais elevada e reconciliada de sociedade, na qual a quintess√™ncia dos prop√≥sitos humanos da sociedade tradicional africana reafirmem-se em um moderno contexto progressivo, em suma, rumo ao socialismo, por meio de pol√≠ticas que sejam cientificamente concebidas e corretamente aplicadas. A inevitabilidade buscar uma rota de sa√≠da √© sentida por todos; assim, Leopold Sedor Senghor, apesar de favorecer algum tipo de retorno ao comunitarismo africano, insiste em que a sociedade africana remodelada deve acomodar a ‚Äúcontribui√ß√£o positiva‚ÄĚ do dom√≠nio colonial, ‚Äúcomo a infraestrutura econ√īmica e t√©cnica e o sistema educacional franc√™s‚ÄĚ. A infraestrutura econ√īmica e t√©cnica, mesmo a do colonialismo franc√™s e do sistema educacional franc√™s, deve ser apropriada, embora ela possa se apresentar imbu√≠da de uma filosofia sociopol√≠tica particular. Esta filosofia, como deve ser sabido, n√£o √© compat√≠vel com a filosofia subjacente ao comunalismo e o acomodamento desejado provaria ser apenas uma miragem sociopol√≠tica.

Senghor tem, em verdade, dado um panorama da natureza do retorno √† √Āfrica. Sua posi√ß√£o √© destacada por declara√ß√Ķes, usando algumas de suas pr√≥prias palavras: de que o africano √© ‚Äúum campo de sensa√ß√Ķes puras‚ÄĚ; que ele n√£o mede ou observa, mas ‚Äúvive‚ÄĚ as situa√ß√Ķes; e que esta forma de aquisi√ß√£o de ‚Äúconhecimento‚ÄĚ por confronta√ß√£o e intui√ß√£o √© ‚Äúnegro-africana‚ÄĚ; a aquisi√ß√£o de conhecimento pela raz√£o, ‚Äúhel√™nica‚ÄĚ. Em ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ [Londres e Nova York, 1964, pp.72-3], ele prop√Ķe:

‚ÄúQue n√≥s consideramos o negro-africano como ele se defronta com o Outro: Deus, homem, animal, √°rvore ou seixo, fen√īmeno natural ou social. Em contraste com o europeu cl√°ssico, o negro-africano n√£o desenha uma linha entre ele e o objeto, ele n√£o prende p√ī-lo √† dist√Ęncia, nem apenas olha para ele e o analisa. Depois de segur√°-lo √† dist√Ęncia, ap√≥s examin√°-lo sem analis√°-lo, ele o toma vibrante em suas m√£os, cuidando para n√£o mat√°-lo ou corrigi-lo. Ele o toca, o sente, o cheira. O negro-africano √© como um daqueles Vermes do Terceiro Dia, um campo de sensa√ß√Ķes ¬†puras‚Ķ Assim, o negro-africano se solidariza, abandona a sua personalidade para se identificar com o Outro, morre para renascer no Outro. Ele n√£o assimila; ele √© assimilado. Ele vive uma vida comum com o outro; ele vive em uma simbiose ‚Äú.

√Č claro que o socialismo n√£o pode ser fundado sobre este tipo de metaf√≠sica do conhecimento. Para elucidar, existe uma liga√ß√£o entre o comunitarismo e do socialismo. O socialismo est√° para comunitarismo como o capitalismo est√° para a escravid√£o. No socialismo, os princ√≠pios inerentes ao comunalismo s√£o expressados em circunst√Ęncias modernas. Assim, enquanto o comunalismo em uma sociedade n√£o-t√©cnica pode ser¬†laissez-faire, deixado livremente a se fazer, em uma sociedade t√©cnica onde sofisticados meios de produ√ß√£o est√£o √† m√£o a situa√ß√£o √© diferente; pois se os princ√≠pios inerentes ao comunitarismo n√£o recebem uma express√£o correlacionada, clivagens de classe surgir√£o, que est√£o relacionadas com as disparidades econ√īmicas e, assim, com as desigualdades pol√≠ticas. O socialismo, por conseguinte, pode ser, e √©, a defesa dos princ√≠pios do comunalismo em um ambiente moderno; √© uma forma de organiza√ß√£o social que, guiada pelos princ√≠pios inerente aos comunalismo, adota procedimentos e medidas tornadas necess√°rias pela evolu√ß√£o demogr√°fica e tecnol√≥gica. Somente no socialismo pode se desenvolver de forma confi√°vel as for√ßas produtivas dais quais precisamos para o nosso desenvolvimento e ao mesmo tempo garantir que os ganhos de tais investimentos sejam aplicados para o bem-estar geral.

O socialismo n√£o √© espont√Ęneo. Ele n√£o surge por si s√≥. Ele tem princ√≠pios palp√°veis segundo os quais os grandes meios de produ√ß√£o e distribui√ß√£o devem ser socializados se queremos evitar a explora√ß√£o de muitos por poucos; isto √©, se o igualitarismo na economia deve ser preservado. Pa√≠ses socialistas na √Āfrica podem diferir neste ou naquele detalhe das suas pol√≠ticas, mas essas mesmas diferen√ßas n√£o devem ser arbitr√°rias ou sujeitas a caprichos de prefer√™ncias. Elas devem ser explicadas cientificamente, como necessidades decorrentes das diferen√ßas nas circunst√Ęncias particulares dos pr√≥prios pa√≠ses.

Existe apenas uma forma de atingir o socialismo: pela elabora√ß√£o de pol√≠ticas voltadas para os objetivos socialistas gerais, cada uma das quais demandando uma forma particular nas circunst√Ęncias espec√≠ficas de um determinado estado em um per√≠odo hist√≥rico definido. O socialismo depende do materialismo dial√©tico e hist√≥rico, na vis√£o de que h√° apenas uma natureza, sujeita em todas as suas manifesta√ß√Ķes √†s leis naturais e que a sociedade humana √©, nesse sentido, parte da natureza e sujeita √†s suas pr√≥prias leis de desenvolvimento.
√Č a elimina√ß√£o das fantasias de cada a√ß√£o socialista que faz do socialismo cient√≠fico. Supor que existem socialismos tribais, nacionais ou raciais √© abandonar a objetividade em favor do chauvinismo.