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Compreendendo Steve Biko: ra√ßa, classe e luta na √Āfrica do Sul

No anivers√°rio do assassinato de Steve Biko, Remi Adekoya, do ROAPE, fala com o acad√™mico e ativista sul-africano Mosa Phadi. Phadi reflete sobre o legado do pensamento radical e importante de Biko, mas tamb√©m discute como ele n√£o considerou alternativas coesas que poderiam agora servir como um contraponto √†s ideias neoliberais. Em uma entrevista abrangente, a Phadi tamb√©m analisa a crise pol√≠tica e econ√īmica na √Āfrica do Sul, os Economic Freedom Fighters-EFF(Combatentes da Liberdade Econ√īmica), os fracassos do ANC e as possibilidades de uma solu√ß√£o na milit√Ęncia e consci√™ncia da luta da classe trabalhadora.

Remi Adekoya: Hoje √© o anivers√°rio do assassinato de Stephen Biko por agentes de seguran√ßa do Estado do apartheid. Desde ent√£o, ele se tornou uma figura de rally imensamente simb√≥lica para muitos negros, especialmente na √Āfrica, mas n√£o apenas. Qual √© a sua opini√£o sobre o legado de Biko hoje e como ele est√° sendo historicamente posicionado?

Mosa Phadi: Eu tenho um problema em como Stephen Biko √© posicionado por nomes como Donald Woods, seu amigo e bi√≥grafo, que atribui toda a filosofia da Consci√™ncia Negra a Biko como se ele emergisse em um v√°cuo. Seu argumento √© basicamente que na √©poca em que Biko emergiu, o Congresso Pan-Africano (PAC) e o Congresso Nacional Africano (ANC) foram ambos organiza√ß√Ķes proibidas, e assim a chegada de Biko preencheu um vazio na luta pela liberdade dos negros.

No entanto, se voc√™ pensar no contexto hist√≥rico da √©poca, esse n√£o foi o caso. Biko, juntamente com outros estudantes, iniciou o movimento da Organiza√ß√£o de Estudantes da √Āfrica do Sul (SASO) em 1968. Se voc√™ pensar em 1968, este foi um ano de protestos globais; voc√™ teve os protestos anti-guerra do Vietn√£, grandes manifesta√ß√Ķes de direitos civis, protestos estudantis. Tamb√©m voltando, havia o pano de fundo de Gana se tornando o primeiro pa√≠s africano a ganhar a independ√™ncia do dom√≠nio colonial em 1957, um evento que impulsionou outros movimentos pr√≥-independ√™ncia em todo o continente africano. Havia Julius Nyerere na Tanz√Ęnia falando sobre um “socialismo africano”.

Antes da d√©cada de 1960, havia a Carta das Mulheres de 1954 na √Āfrica do Sul exigindo igualdade entre homens e mulheres, houve a Marcha das Mulheres de 1956, o massacre de Sharpeville em 1960, a desobedi√™ncia civil durante esse per√≠odo e muitos outros exemplos de luta contra a opress√£o. Ent√£o, retratando a luta sul-africana como essencialmente travada pelo PAC e pelo CNA, e assim que essas organiza√ß√Ķes foram proibidas, houve algum tipo de tr√©gua na luta contra a opress√£o e o apartheid √© uma falsa an√°lise.

Outra quest√£o pouco relatada sobre Biko e a √©poca em que ele atingiu a idade adulta √© como ela foi pega nas contradi√ß√Ķes do stalinismo e da Uni√£o Sovi√©tica em geral. Claramente, isso n√£o era mais uma alternativa, como muitos imaginaram ap√≥s a Segunda Guerra Mundial e a maioria dos ativistas negros, incluindo os¬†Black Panther Party, estavam pensando em esticar o marxismo, usando suas id√©ias quando se tratava de organiza√ß√£o partid√°ria, mas vendo o lumpemproletariado em termos essencialmente raciais como Fanon fez.

Existem semelhan√ßas entre Biko e Stokely Carmichael em termos de organizar os alunos inicialmente usando t√°ticas n√£o-violentas, mas depois se tornando militantes e afirmando a negritude ou “reivindicando a negritude” como Stokely chamaria. Ao mesmo tempo, Malcolm X tamb√©m estava na cena, alegando que a negritude era o oprimido, mas tamb√©m como o agente revolucion√°rio. Os trabalhadores tamb√©m estavam organizando.

Agindo como se nada existisse antes, durante ou depois de Biko √© uma falha na an√°lise. √Č importante enfatizar que ele emergiu em um per√≠odo em que uma fragmenta√ß√£o de id√©ias e erup√ß√Ķes ideol√≥gicas estavam ocorrendo em outros lugares e estes, por sua vez, informavam suas id√©ias.

A id√©ia de Biko de Consci√™ncia Negra, embora original no contexto da √Āfrica do Sul, era muito semelhante √†s id√©ias de Carmichael. Meu ponto √© que sou cr√≠tico daqueles que tentam higienizar essa hist√≥ria descontextualizando a progress√£o de suas id√©ias pol√≠ticas.

Tendo dito tudo isso, Biko foi um pensador muito importante cujas id√©ias foram adotadas por muitos movimentos. Suas id√©ias sobre a consci√™ncia negra foram importantes para focar o que o apartheid fez com a psique dos negros. Ele falou sobre a recupera√ß√£o da negritude, mas tamb√©m pensou em como n√≥s, como negros na √Āfrica do Sul, devemos nos relacionar com os negros e os indianos como os oprimidos. Ele enfatizou que, embora houvesse uma hierarquia de opress√£o racial, todos n√≥s precis√°vamos abordar o sistema como um coletivo oprimido.

A consci√™ncia negra √© uma id√©ia que funciona melhor em um cen√°rio capitalista de supremacia racista. No entanto, sua interpreta√ß√£o hoje √© muito neoliberal. Voc√™ ouve falar de “excel√™ncia negra”, por exemplo, n√£o h√° nada de errado com isso, mas √© um conceito ligado a um enquadramento neoliberal que se concentra no indiv√≠duo. Tal abordagem n√£o ajudar√° a romper com o sistema, mas perpetua desigualdades, pois o capital, por natureza, produz essas desigualdades. Se voc√™ se v√™ como um indiv√≠duo focado em alcan√ßar a “excel√™ncia negra”, esquecendo-se de estruturas que produzem desigualdades, ent√£o voc√™ n√£o est√° ajudando a resolver o problema. Se tais vis√Ķes prevalecerem,

As solu√ß√Ķes de Biko para os problemas negros eram duas: a consci√™ncia negra e o empoderamento econ√īmico negro. A segunda parte √© muito enfatizada recentemente, vemos isso mesmo na agora popular “economia municipal” na √Āfrica do Sul, que √© fundamentalmente neoliberal em sua filosofia. O governo provincial no centro econ√īmico da √Āfrica do Sul procura incentivar a cultura empreendedora em v√°rios munic√≠pios. Por isso, quer apoiar as empresas negras. Essa ideia de crescimento dos neg√≥cios negros era parte da abordagem emancipat√≥ria de Biko. Biko queria criar mercados negros e expandir a propriedade de empresas negras. Uma vez uma id√©ia radical √© usada atualmente para justificar a forma√ß√£o de elite, especialmente entre indiv√≠duos politicamente conectados.

As ideias de Biko, embora radicais na √©poca, n√£o me entendem mal, apesar de jogarem nessa democracia burguesa em que nos encontramos, suas id√©ias eram radicais e importantes na √©poca, mas ele n√£o pensava muito em alternativas coesas que agora poderiam servir como contrap√Ķe-se a id√©ias neoliberais.

Quais das idéias de Biko são populares hoje entre os intelectuais sul-africanos?

Sua morte em 1977 provocou milit√Ęncia entre as pessoas, por exemplo, quando voc√™ pensa na insurg√™ncia dos anos 1980, acho que parte da coragem emergiu das id√©ias da Consci√™ncia Negra de recuperar a negritude. Seus pensamentos sobre como deve ser a liberdade negra, que tipo de mentalidade precisamos para alcan√ß√°-la e atrav√©s de quais m√©todos, ainda permeiam hoje atrav√©s de v√°rios movimentos sociais. Por exemplo, o movimento estudantil Fees Must Fall desencadeado em 2016 sobre est√°tuas que ainda perpetuam s√≠mbolos da inferioridade negra citou Biko extensivamente e suas vis√Ķes se manifestaram em suas demandas. Eles exigiram que as primeiras e mais importantes est√°tuas de pessoas como Cecil Rhodes tivessem que ir, o curr√≠culo deve mudar e deveria haver uma representa√ß√£o maior de intelectuais que se parecem conosco nos ensinando, por exemplo.

As pessoas ainda gravitam em torno de Biko hoje porque, quando voc√™ l√™ seu trabalho, pode se identificar com ele como uma pessoa negra. Mesmo n√£o sendo um tradicionalista que acreditava em culturas fixas, ele estava muito consciente do papel que normas e valores culturais desempenham para os africanos comuns em suas vidas cotidianas. Por exemplo, ele sabia que a religi√£o era importante para as pessoas e sua perspectiva espiritual foi al√©m do cristianismo e incorporou id√©ias de ancestrais. Ele falou sobre como a m√ļsica pode iluminar a alma ferida, ele aproveitou as experi√™ncias di√°rias para realizar o potencial da cultura cotidiana para radicalizar e galvanizar as pessoas para a a√ß√£o. Quando voc√™ o l√™, ele acende o esp√≠rito radical em voc√™ para dizer: ‘sim, n√≥s podemos lutar contra o sistema, sim, n√≥s temos o direito de lutar contra o sistema’. Mas depois disso, voc√™ precisa pensar em que tipo de mundo voc√™ quer substituir o sistema atual. Aqui √© onde estavam suas limita√ß√Ķes. Mas como uma luz para acender a a√ß√£o, ele era muito importante.

Quais são algumas das ideias mais populares entre os intelectuais sul-africanos hoje em relação ao caminho a seguir para o país?

Na academia, especialmente depois do movimento Fees Must Fall, a quest√£o mais popular √© a da descoloniza√ß√£o. Semin√°rio ap√≥s semin√°rio, confer√™ncia ap√≥s confer√™ncia e artigo ap√≥s artigo foram escritos sobre isso. A inspira√ß√£o principal vem da bolsa de estudos latino-americana enfatizando a necessidade de descolonizar, por exemplo, o sistema de conhecimento entre outras quest√Ķes estruturais mais amplas na √Āfrica do Sul, que s√£o inerentemente orientadas para o Ocidente e impregnadas de racismo. Esta √© a escola mais popular de pensamento hoje.

As id√©ias marxistas foram rejeitadas, como de fato Biko as rejeitou em seus dias. A liga√ß√£o entre classe e ra√ßa n√£o foi integral em nossa an√°lise, o marxismo n√£o conseguiu incorporar a ra√ßa na equa√ß√£o. Enquanto isso, quest√Ķes centradas em torno de nossa hist√≥ria e opress√£o s√£o muito importantes para as pessoas. As pessoas usam termos como “gatilhos” para se referir √† dor que nos foi infligida no passado e enfatizam que precisamos remediar isso. No entanto, o marxismo na √Āfrica do Sul √© incapaz de oferecer uma an√°lise de como uma hist√≥ria de opress√£o racial e ser negro enquadra como as pessoas se relacionam com v√°rias lutas al√©m da abordagem oper√°ria.

Os Combatentes da Liberdade Econ√īmica (EFF) de Julius Malema s√£o bastante populares hoje entre as classes trabalhadoras e alguns intelectuais negros. Isso se deve ao fracasso da ANC em mudar radicalmente a vida das pessoas nos munic√≠pios onde h√° enorme desemprego. Eu venho de uma cidade chamada Kagiso. Quando eu vou para casa, em um dia de semana, parece um fim de semana l√°, jovens homens e mulheres nas ruas sem emprego. H√° protestos praticamente ininterruptos, pessoas exigindo servi√ßos. Na d√©cada de 1990, as pessoas esperavam pacientemente pela mudan√ßa, mas, nos anos 2000, come√ßaram a perceber que isso n√£o estava acontecendo. Isso desencadeou alguns ataques xen√≥fobos, como os recentes, contra donos de lojas paquistanesas, que foram saqueados por pessoas que se queixavam de que estavam vendendo comida estragada. Os impostos aumentaram, o IVA foi aumentado em abril levando a aumentos acentuados nos pre√ßos dos alimentos. H√° tens√£o em todos os lugares.

Essa √© a crise em que estamos desde que Ramaphosa se tornou o presidente, apertando n√£o apenas os pobres, mas tamb√©m a classe m√©dia. Isso criou espa√ßo para a EFF, especialmente com Malema for√ßando a conversa sobre a corrida no f√≥rum p√ļblico. At√© ent√£o, a esquerda tinha ficado obcecada com a aula, enquanto a conversa sobre ra√ßa tinha sido silenciada. A esquerda concentrou-se nas estruturas econ√īmicas, negligenciando a manifesta√ß√£o cotidiana de ser negro. Eles sentiram falta dos sentimentos que os jovens tinham sobre n√£o ser apenas pobres, mas pobres e negros tamb√©m. Malema explorou isso muito bem. Ele tamb√©m usa a metodologia dos Black Panther Party, utilizando um modelo marxista-leninista de estruturas partid√°rias combinadas com elementos Fanonianos incorporando ra√ßa e tratando o indiv√≠duo racialmente oprimido como um sujeito revolucion√°rio. Novamente, isso remonta √†s id√©ias dos anos 60 antes e durante o per√≠odo ativista de Biko. Embora envolvidos em alguns esc√Ęndalos de corrup√ß√£o, a EFF tem atra√≠do jovens desempregados, principalmente homens, mas tamb√©m algumas pessoas de classe m√©dia que experimentaram racismo nas corpora√ß√Ķes em que trabalham, que ainda s√£o em grande parte propriedade de pessoas brancas. Alguns intelectuais negros tamb√©m foram atra√≠dos para a EFF.

No entanto, muitos dos protestos nas ruas exigindo servi√ßos b√°sicos como √°gua e eletricidade n√£o s√£o organizados por nenhum partido pol√≠tico ou movimento, eles n√£o t√™m pol√≠ticas espec√≠ficas, eles simplesmente querem servi√ßos. Os novos movimentos estudantis, enquanto isso, n√£o est√£o apenas usando o Biko como um s√≠mbolo, mas tamb√©m desafiando a din√Ęmica de g√™nero, as ideias de feminismo se tornaram um debate fundamental nas lutas com o poder e o patriarcado. As mulheres est√£o protestando contra a viol√™ncia dom√©stica e o patriarcado, mais uma vez nos levando de volta √†s id√©ias dos anos 1960, que est√£o voltando de maneiras diferentes. Em geral, id√©ias revolucion√°rias sobre ra√ßa e g√™nero que remontam aos anos 50 e 60 est√£o retornando, a √ļnica diferen√ßa √© que elas est√£o emergindo hoje em forma e estilo modernos, especialmente com a prolifera√ß√£o de m√≠dias sociais que podem ser usadas para espalhar uma mensagem muito rapidamente.

Existe alguma parte que, na sua opini√£o, se eles chegaram ao poder, seria melhor implantar esse poder para a melhoria das pessoas? Voc√™ mencionou a EFF de uma forma bastante positiva, mas disse que eles tamb√©m foram implicados em esc√Ęndalos de corrup√ß√£o. Com base em que voc√™ os associa a quaisquer esperan√ßas de mudan√ßa positiva para os sul-africanos oprimidos? Como voc√™ sabe, a hist√≥ria est√° repleta de exemplos, muitos na √Āfrica, infelizmente, de pessoas subindo ao poder com o apoio de todos os tipos de slogans igualit√°rios, apenas para se empanturrarem com os recursos do estado quando chegarem l√°.

Bem, quais s√£o as op√ß√Ķes? Existe a Alian√ßa Democr√°tica, que √© um partido muito liberal, ent√£o voc√™ tem a garantia de um conjunto de pol√≠ticas econ√īmicas liberais se elas chegarem ao poder. Al√©m disso, eles parecem n√£o dar √™nfase √† nossa hist√≥ria e n√£o reconhecem as cicatrizes psicol√≥gicas que o apartheid deixou nos negros. Ideologicamente, esta n√£o √© uma op√ß√£o vi√°vel para mim. Ent√£o voc√™ tem o ANC e o EFF. A EFF quer o capitalismo de estado. Eles devem ser entendidos como uma parte que resta do ANC, n√£o aquela de esquerda que voc√™ entende, mas simplesmente deixada do ANC. Eu votarei neles. N√£o porque eu acredite que eles, ou qualquer outra parte, possam emancipar a classe trabalhadora. N√£o, a classe trabalhadora precisa encontrar a ag√™ncia em si para lutar por si mesma.

Nenhum pol√≠tico ou partido pol√≠tico salvar√° a classe trabalhadora ou os pobres, n√£o sejamos delirantes. Para mim, a esperan√ßa √© que a classe trabalhadora se organize e lute por si mesma. A EFF quer o capitalismo de estado e isso pode acontecer de duas maneiras, como mostra a hist√≥ria. Pode se tornar muito autorit√°rio ou focar na constru√ß√£o de novas formas de elites. A EFF √© importante para os debates entre as ra√ßas, mas n√£o acredito ingenuamente que eles ser√£o nossos salvadores. Como sempre, a classe trabalhadora continuar√° tentando novos partidos, esperando algo melhor. Mas apenas sua milit√Ęncia pode for√ßar a mudan√ßa. A EFF √© filha do ANC e n√£o pode romper com os elos corruptos do ANC.

Qual seria ent√£o o valor agregado da EFF para os sul-africanos regulares se um dia eles ganhassem poder?

Se eles chegarem ao poder, √© claro que haver√° reformas, eles n√£o seriam capazes de simplesmente governar de uma maneira normal. Eles teriam que fazer concess√Ķes aos pobres. A quest√£o da terra seria abordada, a terra se tornaria estatal. Com rela√ß√£o aos principais setores financeiros, como a minera√ß√£o, eles est√£o atualmente tentando propagar um sistema de propriedade de tr√™s vias, no qual o Estado teria, digamos, 50% de uma mina, a comunidade 10% e o restante seria privatizado. Eles querem mostrar que est√£o prontos para negociar com ele e, ao mesmo tempo, tentar sustentar sua imagem radical.

Mas eles abriram um espa√ßo no debate, encorajaram as pessoas a acreditarem que t√™m o direito de pressionar. Sei que a milit√Ęncia com a qual eles vieram n√£o pode ser sustentada se eles ganharem poder. Se vencerem, haver√° algumas grandes reformas, mas haveria contradi√ß√Ķes tamb√©m, sem d√ļvida. E sim, h√° o perigo de tend√™ncias ditatoriais neles. Esse √© o risco envolvido com eles. No entanto, eu ainda acho que a classe trabalhadora deve votar para o EFF exigindo algumas reformas espec√≠ficas.

Então, basicamente você aceita que eles são um risco, mas acha que eles são um risco que vale a pena correr?

Sim eu quero. Al√©m disso, uma quest√£o importante que merece cr√©dito por adotar a agenda tamb√©m √© a da reforma agr√°ria, a id√©ia da expropria√ß√£o de terras sem compensa√ß√£o. Embora tenha havido v√°rios movimentos de sem-terra nos anos 2000, a EFF encorajou essa demanda e agora o parlamento aprovou uma resolu√ß√£o para emendar a constitui√ß√£o que permite a desapropria√ß√£o de terras sem compensa√ß√£o. No entanto, neste momento, est√£o em andamento consultas p√ļblicas, que devem terminar com um relat√≥rio at√© o final de setembro.

Se o presidente Ramaphosa eventualmente assina essa emenda em lei, existe algum plano para como exatamente esse processo seria?

N√£o, neste momento n√£o houve nenhum debate sobre quem conseguiria o qu√™ e com que base. Os pol√≠ticos s√£o simplesmente apanhados na milit√Ęncia das pessoas que est√£o exigindo reformas. Toda essa quest√£o da terra tamb√©m reflete id√©ias popularizadas por Biko anos atr√°s. Al√©m do desejo f√≠sico que as pessoas t√™m de recuperar suas terras, isso tamb√©m faz parte de um reconhecimento psicol√≥gico de que esta √© a sua terra.. O planejamento de nossas cidades hoje ainda √© o mesmo que era sob o apartheid, com os desenvolvedores capazes de manter certas √°reas exclusivamente ricas e brancas. Ou mesmo nas √°reas rurais, voc√™ tem uma situa√ß√£o em que todas as melhores terras agr√≠colas s√£o de propriedade dos brancos, ent√£o eles s√£o os fazendeiros, enquanto os negros s√£o simples residentes da aldeia com alguns negros que conseguiram dividir seu espa√ßo no setor agr√≠cola. As pessoas agora est√£o imaginando um tipo diferente de espa√ßo; um tipo diferente de √Āfrica do Sul e pol√≠ticos est√£o correndo para responder porque querem votos. Mas a discuss√£o sobre quem obter√° o qu√™ e se esse processo realmente fortalecer√° os sul-africanos mais pobres ainda n√£o foi iniciado.

Mosa Phadi concluiu seu doutorado na Universidade de Joanesburgo em 2017. Ela trabalhou durante anos em quest√Ķes raciais e de classe, incluindo dois relat√≥rios inovadores sobre os munic√≠pios locais de Mogalakwena e Lephalale. Ela trabalha como pesquisadora h√° mais de seis anos, publicou artigos revisados por pares e produziu um document√°rio de pesquisa com foco na ideia de classe m√©dia em Soweto.

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Publicado no site¬†ROAPE 12, de setembro, 2018¬†Compreendendo Steve Biko: ra√ßa, classe e luta na √Āfrica do Sul

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Mem√≥rias de Az√Ęnia! (√Āfrica do Sul e Nam√≠bia)

Celebração Kwanzaa, Data: 26 de Dezembro de 2015 Local: Johannesburgo.
Celebração Kwanzaa, data: 26 de dezembro de 2015, local: Johannesburgo.

Eu realmente gostaria de ter escrito muitos textos quando estava em Az√Ęnia, mas infelizmente nem sempre as coisas s√£o como planejamos, l√° eu n√£o tinha tempo de parar e escrever, e como estava com dificuldade de conex√£o com a internet, dificultou um pouco mais. Acredito que seja importante relatar este momento, pois de onde eu falo ainda somos muito poucos que tiveram e tem a oportunidade de fazer um interc√Ęmbio cultural desse tipo. Fiquei 4 meses na √Āfrica do Sul (nome denominado pelo colonizador), na cidade de Johanesburgo (entre 7 de setembro de 2015 a 1 de janeiro de 2016). A realiza√ß√£o desta incr√≠vel viagem foi atrav√©s de longos anos em um trampo (foi preciso 10 anos em um emprego para fazer um interc√Ęmbio), e atrav√©s tamb√©m do apoio do coletivo Kilombagem, do qual fa√ßo parte. Ir para o Continente Africano foi muito mais do que apenas um interc√Ęmbio: representou a volta de uma filha a terra origin√°ria, representou todos do coletivo Kilombagem, representou todos os afrodescendentes fora do continente africano, representou a for√ßa de todas as fam√≠lias africanas na di√°spora que lutam todos os dias para garantir o m√≠nimo de sobreviv√™ncia para os seus, como minha m√£e, mulher preta, guerreira, faxineira, que sonhava em ser psic√≥loga, mas devido a dureza que o sistema escravocrata e capitalista proporcionou para n√≥s, afrodescendentes, foi obrigada a trocar a sala de aula pelo trabalho na planta√ß√£o de caf√© com apenas 7 anos de idade.

Chegando em Johanesburgo uma organiza√ß√£o chamada Ebukhosini Solutions me recebeu com muito cuidado e alegria. Como eu tive a oportunidade de ficar hospeda nesta institui√ß√£o, hoje eu entendo que √© muito mais do que uma empresa empreendedora social, √© uma fam√≠lia pan-africanista, kemetism e vegana. O l√≠der, respons√°vel e diretor executivo da organiza√ß√£o √© um pan-africanista chamado Baba Buntu, nascido em uma ilha na Am√©rica Central, mas j√° vive h√° mais de 10 anos na √Āfrica do Sul. Esta organiza√ß√£o oferece consultas e servi√ßos relacionados como desenvolvimento da comunidade, capacita√ß√£o de jovens, treinamento de lideran√ßa, transforma√ß√£o social, eventos culturais, produ√ß√£o e educa√ß√£o centrada africana. Algumas atividades desenvolvidas s√£o: semin√°rios, palestras, Kemetic Yoga (√© uma forma eg√≠pcia africana de respira√ß√£o, movimento e medita√ß√£o) e o Kwanzaa. Eu aprendi muito nesta organiza√ß√£o, desde a sonhada disciplina revolucion√°ria que muitos coletivos se esfor√ßam e lutam para conseguir implantar, at√© um novo olhar para a quest√£o da alimenta√ß√£o, pois como a fam√≠lia √© vegana, eles n√£o v√™em a alimenta√ß√£o como algo √† parte da revolu√ß√£o, √© como se fosse uma coisa s√≥. Confesso que antes da viagem o m√°ximo que conseguia fazer era um ovo frito, hoje consigo cozinhar v√°rios saborosos legumes e lembro como se fosse hoje a fala da Mama T (esposa do Baba Buntu): ‚ÄúVoc√™ precisa aprender cozinhar, n√£o para fazer para algu√©m, mas sim para voc√™ mesma‚ÄĚ.

Ao chegar na √Āfrica do Sul passei pelo normal processo de adapta√ß√£o. Mesmo correndo o risco de ser mal interpretada querendo ou n√£o, meu contato com a cultura sul-africana foi atrav√©s de um olhar de uma afrodescendente na di√°spora, nascida em terras brasileiras, no continente sul americano, colonizado por portugueses, descendente de escravizados, de fam√≠lia da classe trabalhadora e humilde. Todos estes aspectos n√£o s√£o irrelevantes, pelo contr√°rio, influenciaram a forma que eu me deparei com a cultura sul-africana. Por mais que o povo negro compartilhe com muitas coisas similares em qualquer parte desse planeta, a coloniza√ß√£o deixou rastro em todas as partes que ela tenha se instalado. N√£o d√° para negar a influ√™ncia inglesa em alguns pratos, na forma de se vestir, na l√≠ngua falada comercialmente, na arquitetura das casas, escolas e pr√©dios (lembrava muito os filmes estadunidenses com aquelas escadas do lado de fora dos pr√©dios). Mas isto n√£o significa que aspectos tradicionais da cultura sul africana tenham se perdido ou n√£o existam mais, pelo contr√°rio, o contraste entre a cultura inglesa, europeia, indiana e a cultura sul africana √© muito presente e vis√≠vel de diferenciar. Outra coisa que n√£o d√° para negar (talvez muitos torcer√£o o nariz) √© que o continente africano n√£o √© mais o mesmo que 500 anos atr√°s, n√£o √© mais o mesmo quando nossos ancestrais foram sequestrados, n√£o √© mais o mesmo ap√≥s a invas√£o e a coloniza√ß√£o europeia, sem falar do processo de globaliza√ß√£o que n√£o poupou nenhum pa√≠s intitulado como democr√°tico.

Na √Āfrica do Sul h√° 11 l√≠nguas oficiais (zulu, ndebele, sesotho do sul, sesotho do norte, swazi, tswana, tsonga, venda, xhosa, afric√Ęner e ingl√™s). Nas ruas de Johanesburgo e Pretoria a maioria da popula√ß√£o sul africana negra fala zulu, j√° os sul africanos brancos falam afric√Ęner. Os sul africanos falam mais de 3 l√≠nguas na m√©dia, √© algo muito comum para eles. O ingl√™s √© reconhecido como l√≠ngua do com√©rcio e da ci√™ncia, mas n√£o necessariamente √© a l√≠ngua mais falada. Eu lembro que a primeira vez que eu peguei √īnibus em Johanesburgo, eu saudei um ‚ÄúBom dia‚ÄĚ para um motorista negro em ingl√™s, ele n√£o respondeu. Depois entendi como a quest√£o da l√≠ngua tradicional √© importante no continente africano, e o ingl√™s √© a l√≠ngua do colonizador. Se Crummell fosse do nosso tempo ela jamais defenderia a ado√ß√£o da l√≠ngua inglesa como a l√≠ngua a ser implantada na constru√ß√£o de um estado negro africano. J√° para n√≥s descendentes de africanos escravizados e colonizados a l√≠ngua que n√≥s falamos que √© a l√≠ngua do colonizador √© apenas uma l√≠ngua. Fiquei pensando em que momento e de qual forma a l√≠ngua tradicional falada pelos africanos escravizados se perdeu, pois se tivesse se mantido, talvez n√≥s saber√≠amos de quais reinos nossos ascendentes eram origin√°rios.

Na minha percep√ß√£o a l√≠ngua pode se tornar um dos fatores determinantes de separa√ß√£o e impedimento de unidade de um povo. Muitas vezes me sentia isolada dos interessantes debates que eles travavam pelo fato de n√£o dominar o ingl√™s ou o zulu. Ao que me parece, o Brasil tamb√©m est√° isolado do mundo, como se estivesse em uma ilhazinha bem distante, como se apenas pa√≠ses ‚Äď que, ali√°s, muito poucos – que falam portugu√™s conhecessem um pouco do tal pa√≠s chamado Brasil. Geograficamente, o Brasil est√° mais perto da √Āfrica do Sul do que os Estados Unidos, mas na pr√°tica est√° muito mais longe da √Āfrica do Sul do que os EUA, e n√£o √© s√≥ porque os Estados Unidos √© o imp√©rio dominante no mundo, a l√≠ngua √© um fator determinante tamb√©m de aproxima√ß√£o. Muitos sul africanos sabem da viol√™ncia policial contra a popula√ß√£o negra nos Estados Unidos, j√° ouviram falar do Movimento ‚ÄúBlack Lives Matter‚ÄĚ, mas n√£o sabem da viol√™ncia policial contra a popula√ß√£o negra no Brasil e nunca ouviram falar da ‚ÄúCampanha Reaja Ou Ser√° Morto, Reaja Ou Ser√° Morta!

Em Johanesburgo, no bairro de Braamfontein, estudei em uma escola de ingl√™s chamada ABC International e l√° tive grande a oportunidade de ter contato com jovens estudantes de outros pa√≠ses, como Angola, Mo√ßambique, Rep√ļblica Democr√°tica do Congo, Rep√ļblica do Congo, L√≠bia, Burkina Faso, Som√°lia, Gab√£o, Burundi e Turquia. A grande maioria destes estudantes era muito jovem, de classe m√©dia, que estava estudando primeiro ingl√™s l√° para depois ingressar em uma faculdade na √Āfrica do Sul. Tirando os estudantes da Turquia que eram a minoria, a maior parte dos estudantes era de negros. Conversando com muitos estudantes africanos, eles diziam que as universidades de seus pa√≠ses n√£o eram boas e reconhecidas em todo Continente Africano como as universidades da √Āfrica do Sul. Um dado importante √© que as universidades na √Āfrica do Sul s√£o todas pagas, seja p√ļblica ou privada, os estudantes pagam e os pre√ßos n√£o s√£o acess√≠veis. Em 21 de outubro de 2015, estudantes protestaram contra o aumento do pre√ßo das matr√≠culas universit√°rias[i], como a pol√≠cia √© igual em qualquer parte deste planeta, recebeu os estudantes com bala de borracha e bombas de g√°s lacrimog√™neo. Gostaria de ter acompanhado esta manifesta√ß√£o, e outras tamb√©m, pois os sul africanos s√£o muito ativos na luta por melhores condi√ß√Ķes, pois quase toda semana havia um protesto, mas em todas as vezes que estava acontecendo uma manifesta√ß√£o, eu estava tendo aula.

Na escola, teve v√°rios momentos que eu jamais esquecerei, um desses foi quando eu perguntei para uma senhora da L√≠bia o que ela achava do ex-presidente Gaddafi (como ela fala √°rabe, a nossa comunica√ß√£o era em ingl√™s, na verdade tentava me comunicar em ingl√™s, pois n√£o era algo f√°cil). Ela come√ßou a chorar, disse que o Gaddafi era louco, mas antes da derrubada dele, a L√≠bia tinha escolas, boa educa√ß√£o, n√£o tinha roubo, sequestro e as pessoas deixavam as portas abertas da casa e ningu√©m entrava para roubar, e hoje est√° tudo destru√≠do, n√£o d√° mais para viver l√°. Eu quase chorei junto com ela, e lembrei da esperan√ßa que muitos depositaram com a entrada do primeiro presidente negro nos Estados Unidos, at√© Nobel da Paz ele ganhou em 2009, e √© o mesmo presidente que autorizou a interven√ß√£o na L√≠bia. Independente das contradi√ß√Ķes que era o Gaddafi, a L√≠bia tinha o maior IDH ‚Äď √ćndice de Desenvolvimento Humano – de todo o Continente Africano.

A maioria dos professores na escola era brancos, desta forma o meu √ļnico contato com os brancos foi atrav√©s da escola. A rela√ß√£o entre professores e alunos era muito boa, saud√°vel, respeitosa e tranquila. Um exemplo que ilustra bem esta rela√ß√£o foi quando eu me despedi de uma atenciosa professora de origem europeia e ela me passou seu WhatsApp e me pediu o meu contato, e disse que se eu precisasse de alguma ajuda ou tivesse d√ļvida com o ingl√™s era para contat√°-la. Mas como nem tudo s√£o flores, a rela√ß√£o entre os sul africanos brancos de origem europeia com os sul africanos negros era bem diferente e isso se refletia dentro da sala de aula. O conflito e a divis√£o que o apartheid proporcionou √© bem vis√≠vel e muito presente ainda hoje. A mesma professora prestativa que se colocou √† disposi√ß√£o para me ajudar √© a mesma que em v√°rios momentos fez coment√°rios problem√°ticos e muitos entenderiam como racistas em rela√ß√£o aos sul africanos negros, na atual conjuntura, se fosse em alguns espa√ßos aqui no Brasil, j√° teria dado processo e nota de rep√ļdio. Mas entre os professores brancos o que mais me surpreendeu foi a rela√ß√£o que eles t√™m com a sua identidade europeia. Exceto um professor ingl√™s, todos os demais professores brancos que eu tive contato nasceram na √Āfrica do Sul e apenas seus av√≥s ou bisav√≥s n√£o tinham nascidos no continente africano, mas todos remetiam sua identidade europeia como se estivesse apenas de passagem no pa√≠s africano, como se fossem verdadeiros turistas que em uma determinada data regressariam para seus pa√≠ses de origem.

Algo tamb√©m muito presente dentro da sala de aula era a explicita desaprova√ß√£o que os professores brancos tinham em rela√ß√£o ao atual Presidente Jacob Zuma. (Zuma √© de origem Zulu e faz parte do mesmo partido do Nelson Mandela, ANC: Congresso Nacional Africano). Na escola tinha um professor branco, nascido na √Āfrica do Sul, mas de origem europeia, muito simp√°tico, n√£o tinha ideias reacion√°rias, era contra o Estado, contra o atual sistema e ateu, vivia se queixando da atual pol√≠tica do presidente Zuma que favorecia apenas a popula√ß√£o negra. Ele dizia que se voc√™ fosse negro voc√™ teria um emprego garantido, agora se voc√™ fosse branco n√£o seria f√°cil conseguir um emprego. Era un√Ęnime a ideia entre os professores brancos de que o Presidente Zuma era burro e sem compet√™ncia para administrar o pa√≠s. J√° o ex-presidente Nelson Mandela era bem visto, em nenhum momento eu presenciei algum coment√°rio negativo ou alguma cr√≠tica dos professores brancos ao Mandela.

Confesso que no in√≠cio estranhei bastante a vis√≠vel separa√ß√£o entre brancos e negros presente na √Āfrica do Sul, h√° bairros de brancos, negros e de indianos. N√£o que essa separa√ß√£o no Brasil n√£o esteja presente, mas voc√™ apenas consegue visualizar essa separa√ß√£o em espa√ßos elitizados. Para os brasileiros que n√£o tem a consci√™ncia de classe, ra√ßa e g√™nero, ou para os estrangeiros ou turistas que visitam o Brasil, realmente acreditam que o Brasil √© um para√≠so racial, o mito da democracia racial √© algo muito presente. Na √Āfrica do Sul o apartheid acabou oficialmente em 1994, mas ainda √© algo muito recente, minha gera√ß√£o vivenciou este desumano sistema, √© como se fosse uma mancha que paira no pa√≠s, que afeta todos, n√£o deixando ningu√©m imune. Na minha percep√ß√£o, √© algo que n√£o foi superado e resolvido. Para ilustrar como este tema √© muito complexo, um jovem estudante do Gab√£o chamado Axel, uma vez disse na sala de aula para uma professora que, para ele, o apartheid n√£o tinha acabado, s√≥ tinha mudado de forma, ela respondeu que n√£o era bem assim, pois hoje as pessoas est√£o juntas no supermercado.

O racismo est√° presente na √Āfrica do Sul e √© muito forte. Comparando o racismo no Brasil e o racismo na √Āfrica do Sul, entendo que √© algo que n√£o d√° para mensurar qual √© o pior ou qual √© o menos pior, pois o racismo √© racismo e √© ruim em qualquer lugar desta gal√°xia. Mas avalio que o racismo que existe na √Āfrica do Sul √© t√£o complexo quanto o racismo que existe no Brasil, √© claro que a forma como o racismo se articula e atua nos dois pa√≠ses √© bem diferente. Na √Āfrica do Sul h√° uma enorme quantidade de representatividade negra atuando em v√°rios espa√ßos, na televis√£o, na pol√≠tica, h√° uma classe m√©dia negra consider√°vel e mesmo correndo o risco de estar errada, entendo que h√° uma burguesia negra consolidada ou em processo de consolida√ß√£o. Nas ruas, v√°rias BMW dirigidas por negros, nos Shopping Center estilo JK Iguatemi e Cidade Jardim h√° v√°rios negros e n√£o trabalhando, e sim comprando e passeando, h√° bairros nobres e elitizados de negros… A representatividade est√° presente, mas o racismo tamb√©m est√°, h√° uma enorme desigualdade social e racial, muito negros e brancos pobres, mas √≥bvio que a pobreza se concentra em maior medida na popula√ß√£o negra, mas isso n√£o significa que n√£o tenha brancos pobres. H√° muitos moradores de rua, alto √≠ndice de criminalidade, muitos negros est√£o fora das universidades e desempregados. No Brasil os debates de empoderamento e representatividade para o povo negro est√£o muito presentes, e entendo que estes dois temas s√£o importantes, mas acredito que √© um erro focarmos apenas nestes dois temas para supera√ß√£o do racismo, pois j√° se mostraram insuficientes.

A √Āfrica do Sul √© considerada um pa√≠s em desenvolvimento, tem o 2¬ļ maior PIB do Continente Africano, s√≥ perdendo para a Nig√©ria e faz parte do BRICS. H√° casas, ruas, lojas, escolas, shopping, museus, hospitais, igrejas (a Igreja Universal tamb√©m est√° presente na √Āfrica do Sul) e casas noturnas de alt√≠ssimo padr√£o, como tamb√©m h√° bols√Ķes de pobreza, alto √≠ndice de criminalidade e desigualdade social. H√° uma enorme quantidade de estrangeiros africanos de outras partes do continente. H√° muitos estrangeiros que v√£o para estudar, ou em busca de melhores condi√ß√Ķes de vida e trabalho. Como a taxa de desemprego n√£o √© baixa, a procura por emprego entre sul africanos e estrangeiros acaba caminhando para uma disputa que se transforma em xenofobia. A mais recente onda de xenofobia ocorreu em mar√ßo de 2015, deixando 7 mortos e 307 presos[ii]. A divis√£o entre sul africanos negros e estrangeiros negros est√° presente na √Āfrica do Sul. Na escola, todas as vezes que eu perguntava para os estudantes estrangeiros o que eles achavam dos sul africanos as respostas eram sempre as mesmas coisas. Na vis√£o dos estudantes, os sul africanos n√£o s√£o pessoas do bem e muito racistas devido a onda de viol√™ncia contra estrangeiros negros. Eu perguntava se a onda de viol√™ncia contra os estrangeiros negros n√£o era uma quest√£o de xenofobia e n√£o racismo, muitos concordavam com minha reflex√£o, mas teve um jovem angolano que questionou argumentando a seguinte quest√£o: se √© apenas xenofobia, como voc√™ explica a onda de viol√™ncia apenas contra estrangeiros negros e n√£o com estrangeiros brancos? Analisando hoje essa quest√£o, entendo que ser apenas preto n√£o subentende que estaremos unidos enquanto povo em lugar algum, pois a escravid√£o e a coloniza√ß√£o nos dividiram e a luta de classes ainda nos divide.

Como em Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné Bissau falam o português, muitos sul africanos achavam que eu era de algum desses países e o tratamento que eles me davam era de um jeito, quando eu dizia que era brasileira, claramente o tratamento mudava. Vários africanos falavam que nunca tinham visto uma brasileira, de fato não há muitos brasileiros como angolanos ou moçambicanos, mas na verdade quando eles diziam que nunca tinham visto uma brasileira, eles estavam se referindo a brasileiros negros, pois mais de uma pessoa chegou a comentar que pensava que não existiam negros no Brasil. Essa questão nos fazem pensar qual a imagem que a elite brasileira passa de sua população lá fora, haja vista que o Brasil é o segundo país em população negra do mundo, só perdendo para a Nigéria. Outra questão para refletirmos é: quem são na sua grande maioria os brasileiros que viajam para fora do Brasil?

A quest√£o racial tamb√©m √© complexa na √Āfrica do Sul. No Brasil, os afrodescendentes que mais se aproximam do branco conseguem circular em alguns espa√ßos mais do que os afrodescendentes mais retintos como j√° bem estudado pelo Cl√≥vis Moura. J√° na √Āfrica do Sul, os miscigenados chamados de ‚Äúcolored‚ÄĚ tinham alguns privil√©gios na √©poca do apartheid, logo a separa√ß√£o entre miscigenado e sul africanos est√° presente no pa√≠s. N√£o s√£o todos os africanos que t√™m consci√™ncia racial, nem todos s√£o pan-africanista ou conhecem pouco sobre esta ideologia, logo deixando de lado o romantismo, n√£o s√£o todos os africanos que consideram os afrodescendentes na di√°spora como origin√°rios de um povo s√≥, e sim apenas americanos, latinos, brasileiros ou at√© mesmo ‚Äúcolored‚ÄĚ.

Eu tive a grande oportunidade de ter contato com africanos de outras nacionalidades dentro da organiza√ß√£o Ebukhosini Solutions. Fiquei muita pr√≥xima de dois talentosos m√ļsicos irm√£os ganenses chamados Ofoe e Tetteh. A intelig√™ncia, gentileza e sensibilidade deles eram incr√≠veis, n√≥s fal√°vamos sobre v√°rios temas complexos como machismo, feminismo, estupro, capitalismo, religi√£o, sexualidade…. A conex√£o com eles dois era t√£o especial que talvez meus ancestrais sejam da regi√£o que hoje √© denominada Gana, apesar de que algumas pessoas disseram para mim que meus tra√ßos s√£o parecidos com os africanos da regi√£o da Eti√≥pia. Fiquei muita pr√≥xima tamb√©m de uma linda e guerreira ruandesa chamada Ukwezi (Ukwezi significa lua em Kinyarwanda) e de sua irm√£ mais nova chamada Pamela. Fiquei muito amiga delas, a Ukwezi tem uma linda filhinha chamada Izaro. Sempre que poss√≠vel eu tinha aula de ingl√™s com a Ukwezi, na verdade era muito mais do que aulas de ingl√™s, eram aulas para a vida, ela era muito inteligente, n√≥s fal√°vamos de racismo, feminismo, movimento rastaf√°ri, l√≠deres revolucion√°rios, revolu√ß√£o e capitalismo. Ao contr√°rio de alguns grupos, organiza√ß√Ķes e coletivos negros aqui no Brasil que negam ou se recusam a falar sobre o estrago do capitalismo para o povo negro, em todas as conversas sobre capitalismo que eu tive com os africanos (sul africanos, ganenses e ruand√™s) esse tema est√° muito √≥bvio, eles entendem e visualizam nitidamente o problema que o sistema capitalista gerou para o continente africano.

Os jovens sul africanos usam roupas bem parecidas com o estilo estadunidense, mas as roupas tradicionais africanas est√£o presentes nas ruas, nas lojas e nos eventos que eu tive a oportunidade de participar. Achei muito bacana o estilo das sul africanas, elas usam aqueles chap√©us chiques que aqui no Brasil s√≥ vimos nos filmes estadunidenses. O estilo de cabelo varia bastante: cabelos com tran√ßas, cabelos raspados, cabelos alisados, cabelos naturais e cabelos colocados (brazilian hair √© o nome denominado pelas sul africanas, faz o maior sucesso no continente africano). H√° muitos sal√Ķes de beleza em Johanesburgo (eu vi bastante) e o interessante √© que a foto da modelo estampada na maioria dos sal√Ķes de beleza √© da Rihanna. Diferente do Brasil, a diva na √Āfrica do Sul √© a Rihanna, e n√£o a Beyonc√©. Para todas as meninas que eu perguntava, preferiam a Rihanna a Beyonc√©. Acredito que alguns dos motivos da prefer√™ncia pela Rihanna s√£o: primeiro, como elas falam tamb√©m ingl√™s, conseguem entender a mensagem que a Beyonc√© e a Rihanna passam; segundo, a Rihanna representa a ideia de supera√ß√£o e possibilidade, pois nasceu em uma pequena e desconhecida ilha chamada Barbados e hoje faz sucesso no mundo inteiro.

A √Āfrica do Sul tem uma vasta e rica cultura, al√©m das culturas tradicionais, h√° muitos estrangeiros de outros pa√≠ses do continente africano. Em Johanesburgo tem um importante e interessante bairro pan-africanista chamado Yeoville, neste bairro h√° muito afrodescendentes da di√°spora e africanos de outros pa√≠ses do continente africano como Nig√©ria, Gana, Congo, Angola, Mo√ßambique…. pelo que eu entendi √© considerado um bairro perif√©rico tamb√©m. Neste bairro tem uma livraria com v√°rios livros com pre√ßos acess√≠veis de autores pan-africanistas. √Č neste bairro que eu fazia Kemetic Yoga, essa atividade √© oferecida gratuitamente todos os s√°bados pela organiza√ß√£o Ebukhosini Solutions. Em cada encontro era um volunt√°rio que se dedicava a passar seus conhecimentos, eu tive alegria de fazer aulas com a Mama T, Siyabonga, Pitsira, Ursula e Ted Niacky (com ele eu fiz uma interessante aula de Kemetic Boxing). Nesse bairro tem muitos rastas tamb√©m, com muitas cores do reagge e do pan-africanismo, h√° imagens do Bob Marley e Fela Kuti.

Na primeira semana que eu cheguei na √Āfrica do Sul eu fui para um maravilhoso show de jazz em Johanesburgo. O jazz e soul est√£o muito presentes no pa√≠s, eu lembro que uma vez entrei em um √īnibus ao som de Billy Paul ‚Äď can√ß√£o Me and Mrs. Jones. √Č √≥bvio que o hip hop e os estilos musicais tradicionais africanos tamb√©m est√£o presentes no pa√≠s. Mas o estilo musical que os jovens escutam bastante √© o house music, na verdade n√£o conheci ningu√©m que n√£o gostasse de house music. Eu lembro que no dia do meu anivers√°rio eu fui para uma festa chamada ‚ÄúObrigado‚ÄĚ, nesta festa supostamente tocaria m√ļsicas brasileiras e latinas, os DJs tocaram algumas MPB e sambas, mas tudo no estilo eletr√īnico, eu n√£o sei como, mas sambei at√© n√£o aguentar mais, mesmo na batida eletr√īnica. No show da virada do ano em Johanesburgo o estilo musical mais tocado e dominante era o eletr√īnico, o house music √© uma verdadeira febre para os jovens. J√° dentro da organiza√ß√£o, os estilos que eles mais escutavam eram reggae, jazz e soul, mas a can√ß√£o que eu tive a felicidade de conhecer e que mais me marcou foi do ‚ÄúWambali ‚Äď Ndimba Ku Ndimba‚ÄĚ. [iii]

Na √Āfrica do Sul o transporte mais comum e usado pela popula√ß√£o negra s√£o os chamados t√°xis (s√£o parecido com lota√ß√Ķes para n√≥s), estas lota√ß√Ķes s√£o privadas, o custo n√£o √© muito caro e voc√™ vai sentado, (diferente do transporte p√ļblico aqui em S√£o Paulo, que voc√™ paga caro e com muita sorte, luta, briga e discuss√£o consegue um lugarzinho sentado). As lota√ß√Ķes geralmente n√£o est√£o em situa√ß√Ķes boas e, infelizmente, h√° muito acidentes. H√° √īnibus e trens tamb√©m, mais o que mais me chamou aten√ß√£o foi o trem bala chamado Gautrain que liga Sandton ao aeroporto, e liga tamb√©m Johanesburgo a Pret√≥ria. Foi a primeira vez que andei em um trem bala, o trem √© muito moderno, bonito e r√°pido, o problema que √© n√£o √© um transporte acess√≠vel √† popula√ß√£o local, h√° muitos turistas e brancos, voc√™ encontra negros tamb√©m, mas da classe m√©dia e alta.

Tive a oportunidade de visitar a Nam√≠bia atrav√©s de uma organiza√ß√£o chamada Namibian Brazil Friendship Association (NBFA). Esta organiza√ß√£o me convidou a fazer v√°rias apresenta√ß√Ķes sobre a situa√ß√£o da popula√ß√£o negra no Brasil (viol√™ncia policial, racismo e homic√≠dios do povo negro) em v√°rias universidades e organiza√ß√Ķes. Fiquei 4 dias na capital em Windhoek (entre os dias 19 a 23 de outubro de 2015), em uma pousada que tinha, na sua grande maioria, angolanos. A Angola faz fronteira com a Nam√≠bia, logo, h√° muitos angolanos estudando e morando na Nam√≠bia. Nas apresenta√ß√Ķes que eu fiz nas universidades, os estudantes eram muito poucos e conheciam praticamente nada sobre o Brasil. A apresenta√ß√£o que teve maior n√ļmero de jovens foi em uma organiza√ß√£o fora da universidade chamada Young Achievers Empowerment Project. O encontro foi na sede da organiza√ß√£o, foi a apresenta√ß√£o mais interativa, os jovens fizeram muitas perguntas. Entre v√°rias perguntas, uma que mais me chamou a aten√ß√£o foi a pergunta de uma linda jovem namibiana, ela perguntou se eu me considerava negra. Respondi que sim e perguntei porque n√£o me consideraria negra, ela respondeu que o motivo da pergunta era porque meu cabelo era diferente e agradeceu por eu me considerar negra.

A Rep√ļblica da Nam√≠bia tem uma linda hist√≥ria de luta e resist√™ncia, conseguiu sua independ√™ncia da √Āfrica do Sul atrav√©s de muita luta na d√©cada de 90. A l√≠ngua oficial √© o ingl√™s, mas muitos namibianos falam oshiwambo como sua primeira l√≠ngua, outras l√≠nguas faladas tamb√©m s√£o nama/damara, kavango,herer√≥, afric√Ęner e o alem√£o (estas duas √ļltimas falada pelos brancos). Eu vi muitas lojas e escolas com informa√ß√Ķes em alem√£o, h√° muitos alem√£es ou pessoas de origem alem√£ na Nam√≠bia. A arquitetura dos pr√©dios e o povo namibiano lembram muito os sul africanos, as ruas em Windhoek s√£o extremamente limpas, lembra a cidade de Pret√≥ria na √Āfrica do Sul. A forma comum de se locomover na capital da Nam√≠bia √© atrav√©s de t√°xi, diferente do Brasil, o t√°xi √© barato. √Č uma forma de transporte privado, mas a forma de utiliza√ß√£o lembra o transporte p√ļblico porque os taxistas n√£o atendem um passageiro apenas, em uma viagem eles geralmente atendem 4 passageiros ao mesmo tempo. H√° √īnibus, mas ainda s√£o muito poucos, o governo ainda est√° no processo de implanta√ß√£o de transporte p√ļblico que atenda a demanda da popula√ß√£o.

A incr√≠vel oportunidade de ter ficado com uma fam√≠lia pan-africanista foi uma das experi√™ncias mais significativas que eu tive em Azania. O caloroso acolhimento de toda a fam√≠lia, que morava e frequentava a eBukhosin, √© algo imposs√≠vel de descrever com apenas palavras. O cuidado que todos me receberam foram verdadeiros gestos de uma fam√≠lia que estava recebendo o regresso da filha mais nova, uma filha que estava de f√©rias em algum pa√≠s um pouco distante, mas que nunca deixou de ser esquecida e com prazo de retorno estabelecido. A cumplicidade e a viv√™ncia na casa ajudaram tamb√©m para o fortalecimento desse sentimento de filha, tendo como pais Baba Bantu e Mama T, tendo como irm√£os e irm√£s (correndo o risco de faltar algu√©m) Ofoe, Siyabonga Moringe, Tetteh, PitsiRa, Thabiso, Patrick, Siyabonga Lembede, Phumulani, Mabule, Thabo, Ukwezi, Disebo, Mbaliyethu, Pamela, Nonhlanhla… As atividades que eu tive a grande oportunidade de participar como semin√°rios, palestras, Afrikan Lunch, Yoga, eventos, Kwanzaa, debates e encontros com outros jovens l√≠deres foram fundamentais para refor√ßar o esp√≠rito e atos de unidade, solidariedade, disciplina, pr√°ticas revolucion√°rias e um org√Ęnico e ativo pan-africanismo como algo poss√≠vel e vi√°vel. Hoje visualizo que o conjunto de todas essas atividades foi para al√©m da aprendizagem, se tornou uma verdadeira transforma√ß√£o espiritual e mental. √Č algo que est√° e sempre estar√° presente em cada dire√ß√£o, passo e posicionamento na minha vida em diante. Sou grata a fam√≠lia eBukhosini e a todas que diretamente e indiretamente fizeram parte dessa maravilhosa oportunidade, experi√™ncia e aprendizado.

A experi√™ncia e aprendizado que eu tive na √Āfrica do Sul e na Namibia foram incr√≠veis, algo que levarei para vida toda. Uma das coisas que eu tive a oportunidade de vivenciar e participar foi do Kwanzaa (√© uma celebra√ß√£o comemorada entre os dias 26 de Dezembro a 1 de Janeiro por milhares de africanos e afrodescendentes ao redor do mundo). Desde 2002, a Ebukhosini Solutions junto com outras organiza√ß√Ķes realizam a celebra√ß√£o do Kwanzaa, entre v√°rias atividades tem m√ļsica, poesia e boa comida. Eu j√° tinha ouvido falar dessa celebra√ß√£o, mas confesso que conhecia muito pouco, n√£o entendia o real objetivo e nunca tinha participado. Hoje eu entendo a import√Ęncia dessa celebra√ß√£o, e entre os princ√≠pios do Kwanzaa (Umoja: uni√£o; Kujichagulia: auto-determina√ß√£o; Ujima: trabalho coletivo e responsabilidade; Ujamaa: economia cooperativa; Nia: prop√≥sito; Kuumba: criatividade; Imani: f√©), a uni√£o √© o que mais me chamou a aten√ß√£o. Na celebra√ß√£o havia muitos africanos de outras nacionalidades e de v√°rias religi√Ķes. A celebra√ß√£o do Kwanzaa no Brasil e em outras partes desse planeta pode ser o caminho ou uma das possibilidades para constru√ß√£o da sonhada unidade para o povo africano dentro e fora do continente africano.

Veja as fotos aqui: https://flic.kr/s/aHskuZ31C7

[i]http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2015/10/21/estudantes-enfrentam-policia-em-frente-ao-parlamento-na-africa-do-sul.htm

[ii]http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/04/1618597-ataques-xenofobos-na-africa-do-sul-deixam-7-mortos-e-307-presos.shtml

[iii] Wambali – Ndimba Ku Ndimba: https://www.youtube.com/watch?v=uFiWZceyRI4&feature=youtu.be

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CURSO NEGRO: MOVIMENTOS DE LIBERTA√á√ÉO NA √ĀFRICA

De segunda-feira a sexta-feira  (18 a 22 de janeiro de 2016) Hor√°rio: 19h30 √†s 22h00.

Coordena√ß√£o e organiza√ß√£o: Danilo Ramos ‚Äď Curador do Espa√ßo Cultural Dona Leonor (CCDL) e Deivison Nkosi (Grupo Kilombagem).

Nossos passos vem de Longe!

O curso tem a finalidade de apresentar os debates te√≥ricos e pol√≠ticos presentes nas lutas de liberta√ß√£o dos pa√≠ses africanos a partir da segunda metade do s√©culo XX e, sobretudo, refletir sobre  a validade desse debate para o entendimento do racismo contempor√Ęneo.  No curso ser√£o apresentadas as biografias de algumas das principais lideran√ßas e correntes que disputaram o interior do movimento pan-africanista, tais como o marxismo, o nacionalismo ‚Äúafricano‚ÄĚ, a negritude cultural e cient√≠fica, entre outros.

Ser√£o problematizados ainda os dilemas e escolhas tomadas diante da chamada Guerra Fria, em especial as barganhas e interven√ß√Ķes dos pa√≠ses imperialistas como a Inglaterra e os Estados Unidos da Am√©rica na contrarrevolu√ß√£o e para o desmantelamento dos movimentos de liberta√ß√£o africanos, bem como as t√°ticas efetivadas para manter o dom√≠nio do continente africano subordinado ao capital monopolista.

Por fim, o curso ainda se prop√Ķe a abordar o impacto dos movimentos negros no Brasil, principalmente no per√≠odo das d√©cadas de 1960 e 1970.

PanAfrican

 

Cronograma 

Dia 18/01/2016 – Como a Europa subdesenvolveu a √Āfrica

Objetivo: Compreender quais foram √†s pr√°ticas que os pa√≠ses de forma√ß√£o de capitalismo cl√°ssico fizeram para poder monopolizar a riqueza social explorando o continente africano; o Congresso de Berlim, convocado pelo Chanceler Otto von Bismarck, de 1878 que reuniu os principais representantes das pot√™ncias europeias que partilharam o continente africano; nesse m√≥dulo ter√° como refer√™ncia os estudos de Walter Rodney ‚Äď Como a Europa subdesenvolveu a √Āfrica ‚Äď e, Kwame N‚ÄôKrumah ‚Äď Neocolonialismo: √ļltimo est√°gio do Imperialismo. Ainda, ser√° tematizado as quest√Ķes em torno do imperialismo e seu impacto nos pa√≠ses do continente africano.

Expositor: Marcio Farias ‚Äď Possui gradua√ß√£o em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2011), mestrado em Psicologia Social na PUC-SP (2015), coordenador do N√ļcleo de Estudos Afro Americanos (Nepafro). Atua como Auxiliar de Coordena√ß√£o para acessibilidade no MuseuAfroBrasil.

Indica√ß√£o de leitura:     GOMES, F. F. Mwalimu Rodney. Uma introdu√ß√£o a vida e obra de Walter Rodney.

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Dia 19/01/2016 – Em defesa da revolu√ß√£o africana e o Pan-africanismo

Objetivo: a partir dos movimentos de liberta√ß√£o na √Āfrica o encontro apresentar√° as correntes no interior do movimento pan-africanista, os projetos que estavam em voga no momento das lutas de liberta√ß√£o; ainda, priorizar√° as lutas existentes na Arg√©lia, Burkina Faso e Angola.

Expositor: Deivison Faustino ‚Äď Formado em Ci√™ncias Sociais pelo Centro Universit√°rio Funda√ß√£o Santo Andr√© (CUFSA), mestrado em Ci√™ncias da Sa√ļde pela FMABC e doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de S√£o Carlos (UFSCAR); Integrante do Kilombagem

Indicação de Leitura: FANNON, F. Racismo e Cultura.

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20/01/2016 – Pol√≠tica, Cultura e Emancipa√ß√£o Humana: o caso de Cabo Verde e Guin√©-Bissau e Mo√ßambique.

Objetivo: A partir das lutas sociais em Cabo Verde e Guiné-Bissau e em Moçambique, será considerado os processos de lutas travadas contra o imperialismo; a luta dos Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO); a partir dos escritos de Amílcar Cabral e Samora Machel, qual a relação entre cultura e política, visto que a articulação entre essas duas esferas foram fundamentais, não somente nos referidos países, mas nos demais territórios que se opuseram contra o neocolonialismo.

Expositor: Weber Lopes G√≥es ‚Äď Bacharel em Hist√≥ria e Especialista em Ci√™ncias sociais pelo Centro Universit√°rio Funda√ß√£o Santo Andr√© (CUFSA) e mestrado em Ci√™ncias Sociais (UNESP/Mar√≠lia).

Indicação de leitura: CHASIN, José. Sobre Moçambique.

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 FREIRE, Paulo. Am√≠lcar Cabral: o pedagogo da revolu√ß√£o.

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21/01/2016 – A Seneg√Ęmbia no contexto da luta anticolonial

Objetivo: considerando as lutas de libertação africana, quais foram as estratégias de combates ao imperialismo efetivados em Senegal e, ao mesmo tempo, as influências do movimento negritude e do marxismo enquanto ferramentas de libertação no referido país.

Expositor: Sallomão Jovino da Silva РPossui mestrado e doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com estágio no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Atualmente professor do Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA) e é Consultor da Secretaria de Educação do Município de São Paulo.

Indica√ß√£o de leitura: DOMINGUES, Petr√īnio. Movimento da negritude: uma breve reconstru√ß√£o hist√≥rica.

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22/01/2016 – Discurso sobre o colonialismo: o movimento negritude e seu impacto no movimento negro brasileiro nos anos de 1970.

Objetivos: ser√° abordado quais as cr√≠ticas contra o neocolonialismo na √Āfrica a partir do fundador do movimento negritude Aim√© C√©sare; ainda, a partir das lutas do movimento negro brasileiro qual a influ√™ncia das lutas de liberta√ß√£o na √Āfrica no movimento negro do Brasil.

Expositor: Milton Barbosa ‚Äď Fundador do Movimento Negro Unificado (MNU).

Indica√ß√£o de leitura: C√ČSARE, Aim√©. Discurso sobre o colonialismo.

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Pacote Zipado com todos os textos

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Informa√ß√Ķes gerais 

P√ļblico Alvo: Estudantes de Ci√™ncias Sociais, Geografia, Pedagogia, Servi√ßo Social, Hist√≥ria e √°reas afins; educadores sociais, profissionais da √°rea da educa√ß√£o, educador comunit√°rio e interessado nas tem√°ticas.

Crit√©rios de participa√ß√£o: Os interessados devem se comprometer a ler os textos indicados para cada encontro.

Estrutura do Curso: A dura√ß√£o do curso ser√° de 15 horas dividido em cinco m√≥dulos, sendo que cada um ter√° a dura√ß√£o de 3 horas.

Metodologia: Leitura de textos, exposi√ß√£o e discuss√£o junto aos participantes.

Ser√° emitido certificado para os participantes, uma vez que tenham frequentado ao menos 75% do curso.

Informa√ß√Ķes: cursoformacao@kilombagem.net.br

Local

Espa√ßo Cultural DONA LEONOR 

Rua San Juan, 121, Parque das Américas (Mauá/SP). Cinco minutos da Estação de Trem Guaquituba da CPTM, linha Turquesa.


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Como Thomas Sankara mudou Burkina Faso

Tradução: Jomo O. Campos

Texto original em: http://africanleadership.co.uk/how-thomas-sankara-changed-…/

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O Presidente Burkina Faso Thomas Sankara foi um líder revolucionário marxista, Pan-africanista, que foi assassinado em um golpe de Estado apenas quatro anos depois que ele assumiu o poder.

Em 15 de outubro, 1987, o presidente Burkina Faso Thomas Sankara foi assassinado. Uma semana antes de sua morte, Sankara disse, em refer√™ncia a Che Guevara, “Enquanto revolucion√°rios podem ser mortos como indiv√≠duos, as id√©ias nunca morrem.”

Ele mudou o nome do pa√≠s a partir do nome colonial franc√™s Volta Superior para Burkina Faso, que significa “terra dos justos.”

Ele trabalhou nos quatro curtos anos em que foi presidente para criar uma “terceira via”, durante a Guerra Fria, de forma a separar o caminho de Burkina Faso dos interesses da Fran√ßa e dos RUA. Ele confrontou o poder hegem√īnico da Fran√ßa na √Āfrica Ocidental, conclamando o fim da d√≠vida das na√ß√Ķes africanas junto a bancos internacionais e na√ß√Ķes coloniais do Ocidente. ele se recusou a pedir empr√©stimos no Banco Mundial, fortalecendo, ao contr√°rio, a produ√ß√£o regional de comida e tecidos. Sankara tamb√©m aboliu o trabalho compuls√≥rio e pagamentos de tributos a chefes de vilas, circuncis√£o feminina e poligamia. Ele iniciou a vacina√ß√£o nacional e programas para oncocercose*, construiu transporte b√°sico e infra-estrutura habitacional, e promoveu programas de alfabetiza√ß√£o. Eram as mulheres e os camponeses pobres o foco de sua revolu√ß√£o e quem mais se beneficiaram com sua presid√™ncia.

Ele via trabalhadores do governo como servos do povo. Ele apenas permitiu a si mesmo ganhar $ 450,00 por mês e se recusou a permitir servidores civis de terem Mercedes dirigidas por choferes ou voarem de primeira classe.

Ele é criticado por não tolerar oposição política, banir sindicatos ou permitir uma imprensa mais livre.

Ele assumiu o papel de presidente por meio de um golpe militar conduzido por ele mesmo e o Capit√£o Blaise Compaore.

Em 1983 e quatro anos depois Compaore conduziu o golpe bem sucedido contra Sankara. Até o presente dia, Compaore, que era apoiado pelo Ocidente e rapidamente anulou a maior parte das reformas almejadas por Sankara, é o presidente de Burkina Faso.

“Voc√™ n√£o pode realizar mudan√ßas fundamentais sem uma certa dose de loucura. Neste caso, se trata de n√£o-conformidade, a coragem de virar as costas para as velhas f√≥rmulas, a coragem de inventar o futuro. Levou os loucos de ontem para que sejamos capazes de agir com extrema clareza hoje. Eu quero ser um daqueles loucos. N√≥s devemos ousar inventar o futuro. “

(Thomas Sankara)

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* Oncocercose: A oncocercose, tamb√©m conhecida como “cegueira dos rios”, √© uma infec√ß√£o parasit√°ria que ocorre ap√≥s a picada de um mosquito preto, encontrado nas proximidades de rios de √°gua corrente forte. Um verme parasita entra no corpo humano e produz milhares de larvas que infectam a pele e os olhos.

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Pan-africanismo, marxismo e as encruzilhadas nossas de cada dia

Tempos difíceis os nossos: Em uma época marcada por conservadorismos dos mais variados o ato de demonizar o Marx sempre garante aplausos calorosos em qualquer plateia. Esta é uma verdade incontornável desde o fim da guerra fria.

Por outro lado, somente um cego n√£o perceberia que os problemas enfrentados pelas(os) Pretas(os) s√£o marjoritariamente secundarizados – para n√£o dizer negligenciados – nas diversas agremia√ß√Ķes pol√≠tico-te√≥ricos de esquerda, centro ou direita. Somente um olhar inocente – ou muito mal intencionado – poderia atribuir √† esquerda marxista a exclusividade desta postura lament√°vel. Para quem n√£o havia percebido: Estamos em uma sociedade racista e por isso a palestra¬†do Professor Carlos Moore oferece uma cr√≠tica necess√°ria.

Isto posto √© importante lembrar que mesmo com essas limita√ß√Ķes ‚Äúindisfars√°veis” a dita “Esquerda” vem sendo apropriada a mais de um s√©culo por¬† valorosas(os) guerreiras(os) pretas(os) como um espa√ßo pol√≠tico/te√≥rico/ideol√≥gico privilegiado para potencializar a luta contra o racismo e o colonialismo. A Luta Negra n√£o nasceu e nem se encerra na Esquerda, mas √© fato que historicamente esse encontro de for√ßas possibilitou avan√ßos te√≥ricos e pol√≠ticos importantes uma vez que as(os) negras(os), gostemos ou n√£o, est√£o sujeitos √†s contradi√ß√Ķes da sociabilidade capitalista.¬† O outro lado da hist√≥ria √© que esse encontro entre anti-capitalismo e anti-racismo tamb√©m gerou uma s√©rie de equ√≠vocos catastr√≥ficos e a partir deles muitas(os)¬† l√≠deres negras(os) optaram por romper com o Marxismo em busca de posi√ß√Ķes mais nacionalistas e/ou internacionalistas: Uma postura justific√°vel que nas melhores situa√ß√Ķes contribuiu para enriquecer a forma de pensar o que √© o Negra(o) e o anti-racismo e nas piores situa√ß√Ķes o que se seguiu foram embates fratricidas seguidos por Golpes de Estados sanguin√°rios e necolonialistas.

√Č preciso dizer que o dito comunismo matou na Eti√≥pia ou em Cuba‚Ķ mas se dizemos isso e n√£o dizemos em seguida que¬† o anticomunismo matou na Arg√©lia, no Congo, em Angola; na Arg√©lia, no Iran, na Alemanha, nos Estados Unidos, no Brasil, no Chile, e em todos os lugares em que os Estados Unidos pode influenciar, a hist√≥ria do s√©culo XX corre o risco de seguir drasticamente maquiada: A lista de l√≠deres negros panafricanistas ou n√£o assassinados com a ajuda da CIA √© incrivelmente assustadora (inclusive dentro dos EUA).

A pergunta histórica que está posta para a nossa geração de intelectuais pretas(os) é: Conseguiremos estar suficientemente livres do maniqueísmo ocidental Рque dizemos combater Рa ponto de olhar criticamente para a tal do Ocidente e identificar no interior desta pseudo entidade os elementos que nos permitam confrontá-la? Ou estamos tão envoltos em seu suave veneno que acreditamos ser possível um pássaro voar sem a resistência do ar que o oprime?

Se √© verdade que as particularidades hist√≥rico-s√≥cio-culturais europeias nos foram falsamente apresentadas como universais a partir de sucessivas avalanches de roubo, saque, estupro e domina√ß√£o, mas ao mesmo tempo, e exatamente por isso condenou a todos os povos do planeta a viver sob a l√≥gica do deus mercado, conseguiremos negar a estas viol√™ncias ¬† ignorando que os pretos foram e s√£o as maiores v√≠timas do capitalismo? Se queremos criticar radicalmente a tal da esquerda ou do marxismo, o faremos negando a suas contribui√ß√Ķes te√≥ricas para a cr√≠tica ao Capitalismo (que √© essencialmente anti-negro?)? Se √© verdade que a maioria esmagadora das agremia√ß√Ķes de esquerda veem e tratam as(os) negras(os) apenas como ‚Äúap√™ndice‚ÄĚ dos processos pol√≠ticos,¬† o caminho para superar esses limites √© o anti-maxismo dogm√°tico?

N√£o se trata aqui de defender o indefens√°vel (veja a palestra hist√≥rica do Professor Carlos Moore), mas assusta perceber uma tentativa em curso de¬† tentar negar verbalmente a polariza√ß√£o esquerda/direita para substitu√≠-la por¬† outras polariza√ß√Ķes ainda mais empobrecedoras. √Č poss√≠vel um pensamento negro que critique o tal do ocidente e seus deuses sem criar novos dem√īnios?¬† Por qual ‚Äúemancipa√ß√£o‚ÄĚ lutamos:¬† ‚ÄúMais Obama e Menos Cuba!‚ÄĚ; ‚ÄúMenos Marx e mais‚Ķ‚ÄĚ o que? Nietzsche? Heidegger‚Ķ?

“Entre Direita e Esquerda eu continuo Preto”, mas e da√≠, qual √© o pr√≥ximo passo?¬† N√£o seria eu Preta(o), Sujeito o suficiente para me posicionar neste jogo podre que n√£o criei mas me influencia? Ser√° mesmo que o tal do ocidente √© t√£o presente em n√≥s que mesmo em nossas cr√≠ticas mais pretensamente profundas o m√°ximo que conseguimos fazer √© repetir o seu manique√≠smo tautol√≥gico barato: “O Marx era racista; eu sou anti-racista; logo, sou anti-marxista‚ÄĚ? √Č isso mesmo, Produ√ß√£o? Joga-se fora ent√£o as contribui√ß√Ķes de Marx para entender o capitalismo e posteriormente de todas(os) pretas(os) que se valeram mais ou menos desta tradi√ß√£o de pensamento – mesmo que seja para ir al√©m dela –¬† para pensar as sociedades em que viviam?

 

√Č necess√°rio entender que quando o Moore diz que deseja mais Obamas pelo mundo, n√£o se refere ao imperialismo norteamericano, mas a aus√™ncia de l√≠deres negros nos partidos e nos governos de direita e esquerda da Am√©rica e Europa; mais negros nos espa√ßos de poder. Essa √© uma cr√≠tica muito pertinente que n√£o deve ser descartada quando analisamos a hist√≥ria da esquerda mundial e a sua rela√ß√£o com os negros. Quando critica a dita pol√≠tica comunista implementada em Cuba e as persegui√ß√Ķes que sofreu oferece-nos um importante relato pessoal a respeito da do que √© a Pol√≠tica na sociedade moderna (informada por Maquiavel¬† e aprofundada por Fanon e Nkrumah).

O problema da√≠ resultante √© quando – seja por inoc√™ncia ou por m√° f√© – busca-se apresentar essa viol√™ncia como exclusividade das experi√™ncias revolucion√°rias de orienta√ß√£o marxista. Ter√≠amos que “voltar e apanhar o que ficou perdido‚ÄĚ nas experi√™ncias europeias fascistas e nazistas bem como nos golpes de estado apoiados pela CIA na √Āfrica- todos de orienta√ß√£o anti-marxista – para perceber o quanto qualquer transforma√ß√£o que n√£o tenha o “povo” como ponto de partida e horizonteleva a caminhos assombrosos. Para alem disso, olhar para a ‚Äúditadura cubana‚ÄĚ do p√≥s-revolu√ß√£o ignorando os processos contra-revolucion√°rios financiados pela direita cubana em¬† Maiami em sua rela√ß√£o carnal com os EUA √© bastante complicado e s√≥ se explica no contexto ideol√≥gico de direita (gostemos ou n√£o dessas classifica√ß√Ķes).

 

N√£o h√° nada mais ocidental do que o manique√≠smo e neste caso, a sabedoria das encruzilhadas tem mais a nos dizer do que a ‚Äúca√ßa as bruxas‚ÄĚ ocidentais: Apesar do Obama ser negro, e as crian√ßas da nossa gera√ß√£o terem nele um exemplo simb√≥lico poderoso; apesar de Cuba – que¬† na da d√©cada de 70 foi o destino predileto de muitos l√≠deres negros¬† mundiais importantes – cerceou o movimento negro interno a partir do mito da ‚Äúcor cubana” que lembra muito o nosso maldito mito da democracia racial; apesar de tudo isso, diante do Ebola, Cuba manda m√©dicos (a maioria negros) √† Lib√©ria e os Estados Unidos manda soldados (a maioria negros).¬† Enquanto essa mesma Cuba erradicou o analfabetismo¬† e durante o Mais M√©dicos vimos diante de nossos olhos milhares de m√©dicos negros desembarcarem para ajudar o Brasil, os Estados Unidos tem uma maioria absoluta de negros entre os seus 2 milh√Ķes de pessoas encarceradas. O Epis√≥dio do Furac√£o Catrina¬† mostrou o que fr√°gil s√£o os avan√ßos dessa sociedade que se acredita ter al√ßado √† categoria de p√≥s-racial s√≥ porque tem um presidente negro. Dito isto, fica a pergunta: Quem √© meu inimigo neste caso? Ser√° que o manique√≠smo (de direita de esquerda, de preto ou de branco) ajuda em alguma coisa?

 

Se olharmos a partir da Encruzilhada, a palestra do Professor Carlos Moore acaba de entrar para hist√≥ria como um marco na trajet√≥ria da luta negra brasileira ao oferecer subs√≠dios para reflex√Ķes muito profundas e necess√°rias sobre o racismo e os espa√ßos de poder, o ocidente, seus deuses e dem√īnios. Mas se n√£o “voltarmos atr√°s e apanhar o que ficou perdido” corremos o risco de atirar nos inimigos errados e desconsiderar uma parte da nossa pr√≥pria trajet√≥ria ‚Äúconfusa mas real e intensa‚ÄĚ (Racionais MCs).

N√£o nos esque√ßamos que o ar que oferece resist√™ncia ao voo de um p√°ssaro √© o mesmo que garante o o seu planar‚Ķ o segredo, para quem tem asas est√° em seu movimento adequado e na capacidade de mobilizar a seu favor aquilo que outrora poderia ser uma barreira. H√° uma sutileza aqui que pode se perder durante o calor das emo√ß√Ķes, mas n√£o sejamos inocentes ‚Äúentre direita e esquerda‚Ķ‚ÄĚ O Bolsonaro sabe muito bem quem ele √© (e n√£o vem s√≥).

 

Entre direita e esquerda eu sou preto, mas n√£o cego! ‚Äúpois sei fazer bem a diferencia√ß√£o, sofro pela cor, pelo patr√£o e o padr√£o” (GOG)

‚ÄúSe a esquerda n√£o trata da quest√£o racial, sejamos n√≥s a esquerda‚ÄĚ (Clovis Moura)

S√≥ Ex√ļ Salva!!!

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A Consciência Negra e a Busca de uma Verdadeira Humanidade РBantu Stephen Biko

Bantu Stephen Biko. A consci√™ncia negra e a busca de uma verdadeira humanidade. In: Escrevo o que eu quero: uma Sele√ß√£o dos principais textos do l√≠der negro Esteve Biko. Trad. Grupo S√£o Domingos. S√£o Paulo: √Ātica, 1990. 184pgs

Steve Biko

Talvez seja conveniente come√ßar examinando por que √© preciso pensarmos coletivamente sobre um problema que nunca criamos. Ao fazer isso, n√£o quero me ocupar desnecessariamente com as pessoas brancas da √Āfrica do Sul, mas para conseguir as respostas certas precisamos fazer as perguntas certas; temos de descobrir o que deu errado – onde e quando; e precisamos verificar se nossa situa√ß√£o √© uma cria√ß√£o deliberada de Deus ou uma inven√ß√£o artificial da verdade por indiv√≠duos √°vidos pelo poder, cuja motiva√ß√£o √© a autoridade, a seguran√ßa, a riqueza e o conforto. Em outras palavras, a abordagem da Consci√™ncia Negra seria irrelevante numa sociedade igualit√°ria, sem distin√ß√£o de cor e sem explora√ß√£o…

Acesse aqui o texto na íntegra:

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