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Nonagésimo aniversário de Fanon РA NEGRITUDE RADICAL

FANON VIDA E OBRA

Os textos de hoje problematizam as rela√ß√Ķes¬†entre Fanon e o Movimento de Negritude. Nas reflex√Ķes, s√£o apresentadas uma s√©rie de aspectos que indicariam proximidades e rupturas do autor com essa perspectiva de luta e com o nacionalismo. Assim, classificam classificam-no como express√£o de uma “negritude radical’.

Peau noire, masques blancs

O primeiro artigo √© ¬† A ¬ę√Āfrica (eternamente) renascida¬Ľ. Relendo tr√™s dos ¬ęseus¬Ľ insignes pensadores: L√©opold S√©dar Senghor, Frantz Fanon e Am√≠lcar Cabral , de ¬†Jos√© Carlos Ven√Ęncio

Resumo:¬†Partindo do pressuposto de que a ideia de √Āfrica √©, em muito, devedora do entendimento que os nacionalistas africanos tinham das suas sociedades, discute-se o contributo espec√≠fico de tr√™s nacionalistas, conquanto um deles, Frantz Fanon, n√£o seja de origem africana, mas sim antilhana. O nacionalismo √©, neste contexto, entendido como parte de um movimento mais vasto, o do renascimento africano, ciclicamente evocado pelos l√≠deres africanos e, deste modo, entendido como um movimento de longa dura√ß√£o (longue dur√©e).

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Negritude

 

O segundo é A construção do nacional: Entre a conciliação de L.S. Senghor e a revolução de Frantz Fanon no Congresso de Artistas e Escritores Negros de 1959, de Gustavo de Andrade Durão

Resumo: Pretende-se realizar um breve debate sobre os projetos de na√ß√£o presentes nos textos de L√©opold S√©dar Senghor e Frantz Fanon, escritores atuantes no ambito colonial da metade do s√©culo XX. Al√©m da import√Ęncia da trajet√≥ria pol√≠tica e intelectual na ambi√™ncia colonial senegalesa e argelina, em especial, estes dois pensadores estavam profundamente inseridos no debate dos estudos liter√°rios, pol√≠ticos e filos√≥ficos produzidos nos grandes centros metropolitanos europeus.

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CONTRA A REMO√á√ÉO DAS FAM√ćLIAS DA PRAIA DO SOCEGO¬†

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Nonagésimo aniversário de Fanon РO NEGRO/AFRICANO E A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO

CURSO KILOMBAGEM – FANON VIDA E OBRA

Os textos de hoje n√£o s√£o de Fanon, mas sim, reflex√Ķes constru√≠das a partir de seu pensamento. O Assunto escolhido √© o Negro/Africano e a produ√ß√£o de conhecimento. Fanon ¬† O primeiro texto √© de Deivison Mendes Faustino (esse que vos escreve sob a alcunha de Deivison Nkosi), ¬†busca denunciar o quanto o racismo¬†n√£o se resume √† inferioriza√ß√£o de tudo que se entende por negro e africano, mas tamb√©m, se manifesta na impossibilidade de pensa-los¬†como sujeitos hist√≥ricos, produtores de conhecimento. O segundo, de Ivo Queiroz e Gilson Queluz, a discuss√£o aponta para um dialogo cr√≠tico¬†com os cl√°ssicos da teoria do reconhecimento, para em seguida, avan√ßar para al√©m da den√ļncia impl√≠cita ao primeiro artigo, de forma a provocar uma reflex√£o sobre as possibilidades de constru√ß√£o de c√≥digos t√©cnicos descolonizados.

Banner do Projeto OGUNTEC: Programa de Estímulo à Ciência para Jovens Negros e Negras РINSTITUTO STEVE BIKO РBA
FAUSTINO, D. M. . A emo√ß√£o √© negra e a raz√£o √© hel√™nica? Considera√ß√Ķes fanonianas sobre a (des)universaliza√ß√£o do. Revista Tecnologia e Sociedade (Online) , v. 1, p. 121-136, 2013
Resumo
Ao apresentar o colonialismo como espinha dorsal da sociabilidade moderna (capitalista) Frantz Fanon exp√Ķe as reifica√ß√Ķes presentes nas representa√ß√Ķes da ‚Äúciviliza√ß√£o ocidental‚ÄĚ como express√£o (universal) do g√™nero humano. Nestas figura√ß√Ķes, insiste o autor, o n√£o-europeu (O ‚Äúoutro‚ÄĚ), quando n√£o √© invisibilizado, √© reconhecido apenas como subcategoria (espec√≠fica), reduzido √†s suas express√Ķes l√ļdico-corp√≥reas, contrapostas √† ci√™ncia, moral e civilidade. Em contraposi√ß√£o a este esquema, o Negro se lan√ßa √† luta por autodetermina√ß√£o e reconhecimento, mas no meio do caminho est√° sujeito a enroscar-se em atraentes armadilhas criadas pelas contradi√ß√Ķes que deseja superar. Este paper seleciona alguns trechos escritos ao longo da vida de Fanon e discute as suas implica√ß√Ķes para o desvelamento da (des)universaliza√ß√£o do negro e a sua desvincula√ß√£o de temas como ci√™ncia e tecnologia.
Imagem: Cheiq Ant Diop em seu laboratório

Presença africana e teoria crítica da tecnologia: reconhecimento, designer tecnológico e códigos técnicos

Queiroz, Ivo, E Queluz, Gilson. “Presen√ßa africana e teoria cr√≠tica da tecnologia: reconhecimento, designer tecnol√≥gico e c√≥digos t√©cnicos”. ¬†Simp√≥sios Nacionais de Tecnologia e Sociedade (2011): n. p√°g. Web. 2 Jul. 2015
Resumo
Este trabalho desdobra-se a partir a partir da audi√™ncia desta quest√£o: haveria alguma conex√£o poss√≠vel entre o conceito de reconhecimento, levantado por Frantz Fanon, em Pele negra m√°scaras brancas e debatido na sociologia contempor√Ęnea e uma participa√ß√£o efetiva do povo negro na tecnologia subversivamente democratizada? O arrazoado sobre este problema contempla as teorias do reconhecimento, a partir da formula√ß√£o de Hegel, no livro Fenomenologia do esp√≠rito, da viol√™ncia, conforme sistematiza√ß√£o de Marcelo Perine e do design t√©cnico, via Enrique Dussel e Andrew Feenberg. Deste √ļltimo, contempla-se tamb√©m a teoria dos c√≥digos t√©cnicos. A inten√ß√£o do racioc√≠nio √© argumentar que o design tecnol√≥gico e os c√≥digos t√©cnicos estabelecidos para a tecnologia e a educa√ß√£o tecnol√≥gica praticam viol√™ncia contra o negro ao n√£o reconhec√™-lo e o deixando por sua pr√≥pria conta.

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Nonagésimo aniversário de Fanon РOS CONDENADOS DA TERRA

CURSO KILOMBAGEM ‚Äď FANON VIDA E OBRA

Reflex√Ķes retiradas¬†do artigo: FAUSTINO, D. M. . Colonialismo, racismo e luta de classes: a atualidade de Frantz Fanon. In: V Simp√≥sio Internacional Lutas Sociais na Am√©rica Latina, 2013. Anais do V Simp√≥sio Internacional Lutas Sociais na Am√©rica Latina, 2013. p. 216-232. (n√£o deixe de citar suas fontes quando compartilhar!!!)

O Texto de hoje √© o mais famoso do que lido¬†Os Condenados da Terra, escrito por Fanon em 1961. O livro, cercado de curiosidades e pol√™micas, √© comentado por diversos pensadores em todo o mundo. O t√≠tulo original do livro, Les damn√©s de la terre, ¬†foi inspirado na primeira estrofe de¬†L’INTERNATIONALE,¬†hino ¬†do movimento comunista internacional:

Debout! l’√Ęme du prol√©taire

(De pé! ó alma do proletário)

Travailleurs, groupons-nous enfin.

(Trabalhadores, agrupemo-nos finalmente)

Debout! les damnés de la terre!

(Levante-se! os miser√°veis da terra!)

Debout! les forçats de la faim!

(Levante-se! condenados de fome!)

Pour vaincre la mis√®re et l’ombre

(Para superar a pobreza e a sombra)

Foule esclave, debout ! debout!

(Multidão de escravos, de pé! de pé!)

C’est nous le droit, c’est nous le nombre:

(Este √© o nosso direito, o nosso n√ļmero)

Nous qui n’√©tions rien, soyons tout

(Nós, que não eram nada, sejamos tudo)

Mas para ele, diferentemente do que propunha o movimento comunista franc√™s, a aposta para a supera√ß√£o radical da situa√ß√£o colonial n√£o estaria no proletariado (industrial) – quase ausente nas col√īnias, e quando presente, na maioria das vezes, ¬† comprometido com a manuten√ß√£o da ordem colonial. Os Damn√©s, de que ele fala e apostou todas as cartas – estes que na sociedade colonial n√£o eram nada –¬†deveriam ser encontrados entre √†queles que realmente n√£o tinham nada a perder – “a n√£o ser os seus grilh√Ķes”.

De pé ó vítimas da fome
De pé ó vítimas da fome

Fanon sempre foi um ser humano intenso: com 25 anos já havia escrito Pele negra, máscaras brancas e com 29 havia se tornado chefe do hospital psiquiatra em Blida, Argélia. Agora, aos 36, já se encontrava entre os principais articuladores do pan-africanismo internacional junto à Frente de Libertação da Argélia.

Em dezembro de 1960, depois de circular por v√°rias partes do continente africano fomentando a necessidade de expandir as Guerras de Liberta√ß√£o, Fanon inicia a escrita de um livro que problematizaria a rela√ß√£o entre¬†revolu√ß√£o argelina e¬†outros povos do Continente. No entanto, para a sua surpresa e no auge de sua atua√ß√£o pol√≠tica, √© diagnosticado √© com leucemia ‚Äď uma doen√ßa maligna nos gl√≥bulos brancos – , e constata, mediante aos est√°gios da medicina na √©poca, que lhe restava pouco tempo de vida.

Diante do fato de que seu corpo definhava, optou por alterar o curso da escrita que empreendia, direcionando-a para o que, sabidamente, seria o seu √ļltimo texto. √Č neste contexto, lutando contra o pr√≥prio rel√≥gio biol√≥gico. que ele escrever√° em quest√£o de meses o famoso Os Condenados da terra. Enquanto escrevia o livro e revisava os trechos, chegou a voar para It√°lia a fim de encontrar Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, para encomendar a Sartre o Pref√°cio do seu livro.

Tr√°gico √© que at√© hoje, se considerarmos a presen√ßa incontest√°vel do racismo na sociedade contempor√Ęnea, que o Pref√°cio de Sartre – embora tenha contribu√≠do para popularizar o texto no contexto internacional ‚Äď tenha se tornado mais famoso que o pr√≥prio livro. No pref√°cio, Sartre, inteligentemente, destaca a viol√™ncia, objetivando, chamar a aten√ß√£o dos europeus para a sua hipocrisia e culpa diante de todo sofrimento vivido fora da Europa.

Entretanto, lamentavelmente, muitos críticos importantes das Ciências Sociais destilaram duras críticas à Fanon, sem ter, contudo, avançado na leitura para além das páginas escritas por Sartre. Ocorre que o livro é muito mais complexo do que o Prefácio pretendeu ser, e a leitura que não o tome por completo está fadada à uma apreensão pobre e até distorcida.

O livro trata, entre outros assuntos, dos conflitos impl√≠citos ao colonialismo e √† luta anticolonial. Alerta que a viol√™ncia √© parte fundante da sociedade colonial, estando presente em todas as suas express√Ķes materiais e simb√≥licas. Constata ainda que a supera√ß√£o da l√≥gica colonial s√≥ seria vi√°vel naquelas situa√ß√Ķes em que os colonizados empreendessem for√ßa material proporcionalmente capaz de abalas as for√ßas sociais a ponto de fazer surgir um homem novo:

A descoloniza√ß√£o se prop√Ķe a mudar a ordem do mundo, √©, como se v√™, um programa de desordem abosoluta(…)√© um processo hist√≥rico: isto √©, ela s√≥ pode ser compreendida, s√≥ tem inteligibilidade, s√≥ se torna transl√ļcida para si mesma na exata medida em que discerne o movimento historicizante que lhe d√° forma e conte√ļdo. A descoloniza√ß√£o √© o encontro de duas for√ßas congenitamente antag√īnicas, que t√™m precisamente a sua origem nessa esp√©cie de substancializa√ß√£o que a situa√ß√£o colonial excreta e alimenta. (…) a descoloniza√ß√£o √© verdadeiramente a cria√ß√£o de homens novos. Mas essa cria√ß√£o n√£o recebe a sua legitimidade de nenhuma pot√™ncia sobrenatural: a ‚Äúcoisa‚ÄĚ colonizada se torna homem no processo mesmo pelo qual ela se liberta. (Fanon)

Em um di√°logo constante com os movimentos internacionais ligados ao panafricanismo e ao terceiro-mundismo, Frantz Fanon alerta que mesmo na √Āfrica, o processo de revolu√ß√£o nacional n√£o podem ignorar as especificidades de entifica√ß√£o da capitalismo, a composi√ß√£o das diferentes de classes sociais e seus interesses. Os pa√≠ses coloniais seriam economicamente atrasados e subdesenvolvidos a partir da rela√ß√£o hist√≥rica com suas metr√≥poles sanguessugas.

Esta realidade relegaria √†s col√īnias uma produ√ß√£o de bens prim√°rios voltados √† exporta√ß√£o; uma classe oper√°ria insipiente; um campesinato pauperizado e analfabeto e uma burguesia local subordinada √† interesses externos. Estas burguesias, forjadas no processo colonial, mesmo quando apoiem a independ√™ncia, tendem a trair sua ‚Äúvoca√ß√£o‚ÄĚ de classe ‚Äď como se assistiu nos s√©culos anteriores na Europa ‚Äď e n√£o assumirem a frente do processo produtivo de forma a acumular o excedente de produ√ß√£o no pr√≥prio pa√≠s. Abrindo brecha, assim, ao neocolonialismo.

No cap√≠tulo III “Desventuras da consci√™ncia nacional” Fanon antecipa que a supera√ß√£o do colonialismo n√£o depende apenas da elei√ß√£o de lideres africanos, mas sim, da reorganiza√ß√£o das rela√ß√Ķes de produ√ß√£o, orientada para e com o povo. Do contr√°rio, todo o esfor√ßo dos movimentos de liberta√ß√£o se veriam afogados no neocolonialismo:

Essa burguesia que se afasta cada vez mais do povo em geral nem consegue arrancar do Ocidente concess√Ķes espetaculares: investimentos interessantes para a economia do pa√≠s, instala√ß√Ķes de certas ind√ļstrias. Em contrapartida, as f√°bricas de montagem se multiplicam, consagrando assim o tipo neocolonialista no qual se debate a economia nacional. Assim, n√£o se deve dizer que a burguesia nacional retarda a evolu√ß√£o do pa√≠s, que lhe faz perder tempo ou que ele pode conduzir a na√ß√£o para caminhos sem sa√≠da. Efetivamente, a fase burguesa na hist√≥ria dos pa√≠ses subdesenvolvidos √© uma fase in√ļtil. Quando essa casta for suprimida, devorada por suas pr√≥prias contradi√ß√Ķes, n√≥s percebemos que nada aconteceu depois da independ√™ncia, que √© preciso retomar tudo, partir outra vez do zero. A reconvers√£o n√£o ser√° operada no n√≠vel das estruturas instaladas pela burguesia durante o seu reino, pois essa casta n√£o fez outra coisa sen√£o tomar, sem mudan√ßa, a heran√ßa da economia, de pensamento e das institui√ß√Ķes coloniais .(FANON).

Em seu di√°logo com o Movimento de¬†Negritude, afirma que essa perspectiva √© ‚Äúa ant√≠tese afetiva, sen√£o l√≥gica, desse insulto que o homem branco fazia √° humanidade‚ÄĚ. E completa: ‚ÄúEssa negritude lan√ßada contra o desprezo do branco se revelou, em certos setores, como o √ļnico fator capaz de derrubar interdi√ß√Ķes e maldi√ß√Ķes‚ÄĚ. No entanto, essa contraposi√ß√£o, historicamente necess√°ria, levou o movimento a um impasse: ‚Äú √† afirma√ß√£o incondicional da cultura europeia sucedeu a afirma√ß√£o incondicional da cultura africana‚ÄĚ .

Entretanto, se¬†o colonialismo definiu como essencialmente negro a emo√ß√£o, o corpo, a virilidade, ludicidade, mas, sobretudo, classificou hierarquicamente estes elementos como inferiores, frente √† n√£o menos fetichizada (e ilus√≥ria) imagem criada para o Europeu ‚Äď Raz√£o, civiliza√ß√£o, cultura, universalidade -, o movimento de negritude, sem romper com estes fetichismos, apenas inverteu os polos da hierarquia, passando a considerar como positivo √†quilo que o colonialismo classificou como inferior.

Assim a inoc√™ncia, musicalidade, o ritmo ‚Äúnato‚ÄĚ do africano, passam a ser afirmados pelos movimentos anti-racistas como elementos essencialmente africanos, mas agora, vistos como superiores e desej√°veis frente √† frieza tecnicista ocidental (SENGHOR, 1939). As ‚Äúalmas da gente negra‚ÄĚpassam a ser classificadas como ess√™ncias metaf√≠sicas, ou no m√≠nimo hist√≥ricas, que precisariam ser resgatas e afirmadas para que o negro se reencontre consigo pr√≥prio.

Para Fanon, est√° a√≠ uma armadilha que o movimento de negritude ‚Äď e talvez o conjunto do movimento negro contempor√Ęneo – corria o risco de ficar preso. Esta ‚Äúess√™ncia negra‚ÄĚ que se busca “restaurar” ou “libertar”, √©, para ele, uma inven√ß√£o do racismo colonial a servi√ßo da desumaniza√ß√£o do africano e aceit√°-la, portanto,¬†implicaria na n√£o rejei√ß√£o dos pressupostos que sustentam o colonialismo.

Para ele, os seres humanos s√£o o que fazem e como fazem, e por isso, a prioridade¬†na preserva√ß√£o ¬†ou resgate cultural corre o risco de¬†inverter a ordem de prioridade do mundo, tomando o secund√°rio como prim√°rio, ¬†na medida em que valoriza o produto em detrimento do produtor. Esta postura antropologicizadora, inicialmente leg√≠tima, poderia segundo Fanon levar os movimentos anti-racistas a alguns impasses perigosos, tais como: “meter todos os negros no mesmo saco”; buscar por um passado glorioso em detrimento de uma realidade objetivamente desumanizadora; valorizar acriticamente e de forma¬†apaixonada¬†a‚Äútudo que for africano‚ÄĚ (ou aquilo que se convencionou nomear como africano) e ao mesmo tempo,, negar¬†de forma quase religiosa a¬†tudo que for ‚Äúocidental‚ÄĚ; aceitar o¬†pressuposto racista de que a cultura negra √© est√°tica e fechada, portanto morta.

Para Fanon seria necess√°rio ir al√©m da ‚Äď e n√£o se limitar √† – afirma√ß√£o das especificidades culturais (historicamente negadas). Para ele, n√£o √© a cultura ¬†que deve resistir mas sim as pessoas que a produzem, a partir de seus referenciais simb√≥licos sempre em transforma√ß√£o. √Č certo que o colonialismo nega ao colonizado a possibilidade de entifica√ß√£o de uma cultura aut√™ntica, e por isto, a emancipa√ß√£o cultural, passaria pela emancipa√ß√£o das pessoas que produzem e se produzem a partir dela. √Č o colonialismo em seu ato negador e reificador que atribui uma aus√™ncia de movimento hist√≥rico √† cultura colonizada, engessando-a em cat√°logos antropol√≥gicos, vendo-as e tratando-as como elementos mortos…

Agir pelo resgate de uma pretensa cultura passada, originalmente negada √© secundarizar a emancipa√ß√£o dos indiv√≠duos produtores da cultura. √Č o combate pelo fim mim material, cultural e epist√™mico do colonialismo ‚Äď e Fanon n√£o nega a import√Ęncia da afirma√ß√£o cultural neste processo ‚Äď que pode promover o surgimento de uma cultura aut√™ntica. Ao inv√©s de se lan√ßar apaixonadamente sobre uma cultura engessada pelo colonialismo, ‚Äúo dito combatente, o colonizado, depois de tentar perder-se no povo, com o povo, vai, ao contr√°rio, sacudir o povo. Ao inv√©s de privilegiar a letargia do povo, ele se transforma em despertador do povo‚ÄĚ (FANON, 2010:256).

REAJA
Imagem: Militantes da Campanha Reaja ou ser√° morto, Reaja ou ser√° morta – Bahia – Br

O livro – que tr√°s ainda uma an√°lise sobre os impactos subjetivos da tortura e uma an√°lise cr√≠tica a respeito dos limites do √≥dio para a luta pol√≠tica ‚Äď foi recebido com amor e √≥dio em todas as partes do mundo. Dos movimentos terceiro-mundistas e a esquerda revolucion√°ria nos pa√≠ses da Am√©rica Latina aos intelectuais articuladores do IRA, ETA e a Revolu√ß√£o Aiatol√° no Iran; das propostas de Amilcar Cabral e Sankara √†s reflex√Ķes e a√ß√Ķes pr√°ticas de √āngela Davis e o movimento Black Power, oserva-se a influ√™ncia expl√≠cita de Os condenados da Terra.

*

Desiludido, e abalado com o definhamento do pr√≥prio corpo, Fanon cede √† insist√™ncia de amigos e familiares para tentar um tratamento nos EUA. Ele j√° havia recusado essa possibilidade anteriormente, afirmando que n√£o iria para um pa√≠s de linchadores, mas agora, j√° debilitado, permite-se √† uma √ļlitma tentatica. Ao sexto dia de dezembro de 1961, ainda com 36 anos – e algumas semans depois de ter recebido os primeiros exemplares de Os condenados da terra -, Frantz Omar Fanon morre em um quarto de hospital em Washington.

H√° rumores n√£o partilhados pela fam√≠lia de que a CIA ‚Äď que se envolveu no traslado de Fanon aos Estados Unidos – teria contribu√≠do para sua morte, mas essa desconfian√ßa nunca foi comprovada. O fato √© que, dal√≠ em diante, o nome de Fanon seguiria vivo, alimentando a experan√ßa no futuro, em qualquer lugar que haja injusti√ßa.

 

Frantz Fanon

Para quem tiver coragem: Boa leitura!!!!

Livro pdf na íntegra

Livro online html

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Curso Kilombagem – Fanon; Vida e Obra, em Campinas

No dia 20 de julho Frantz Fanon completaria 90 anos.

Em rever√™ncia √† sua trajet√≥ria, mas tamb√©m, interessados/as em discutir a atualidade da sua obra para o entendimento do racismo na sociedade contempor√Ęnea, o Grupo Kilombagem oferecer√° o Mini-curso Fanon: vida e obra.

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Objetivo

O Mini Curso se prop√Ķe a apresentar e discutir o legado pol√≠tico e te√≥rico do autor enfatizando suas contribui√ß√Ķes para a compreens√£o das rela√ß√Ķes raciais na sociedade contempor√Ęnea.

Provocador: Deivison Faustino (Nkosi) РDoutorando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCAR e integrante do Grupo KILOMBAGEM

 

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Por que estudar Fanon?

Como psiquiatra, fil√≥sofo, cientista social e revolucion√°rio, Frantz Fanon √© sem d√ļvida um dos pensadores mais instigantes do s√©culo XX. Sua obra influenciou diversos movimentos pol√≠ticos e te√≥ricos na √Āfrica e Di√°spora Africana e segue reverberando em nossos dias como refer√™ncia obrigat√≥ria nos os estudos culturais e p√≥s-coloniais.

Sua trajetória política e teórica impressiona pela grandiosidade e o seu curto espaço de vida. Nasce em Forte de France, Martinica em 1925 no seio de uma família de classe média e patriota. Em 1944 se alista no exercito francês para lutar contra os alemães na segunda guerra mundial e posteriormente segue para Lyon para estudar medicina e psiquiatria. Neste período foi estudante ativo envolvido com a publicação periódica de um jornal mimeografado.

Em 1950 Frantz Fanon escreve o texto que seria a sua tese de douturado em psiquiatria: Peau noire, masques blancs(Peles Negras, M√°scaras Brancas), mas a tese, por confrontar as correntes hegem√īnicas, foi recusada pela comiss√£o julgadora o obrigando a escrever outra tese no ano seguinte em Lyon com o t√≠tulo de Troubles mentaux et syndromes psychiatriques dans l‚Äôh√©r√©dp-d√©g√©n√©ration-spino-c√©r√©belleuse – Um cas de maladie de Friereich avec d√©lire de possession (Problemas mentais e sindromes psiquiatricas em degenera√ß√£o espinocerebelar heredit√°ria ‚Äď Um caso de doen√ßa de Friereich com del√≠rio de posse).

Em 1952 participa de diversos debates universitários e seminários em que se confronta ou converge com os pensadores franceses da época. Neste mesmo ano publica uma série de ensaios sobre a situação do negro na França, escreve um drama sobre os trabalhadores de Lyon (Les Mains parallèles) e publica o texto da sua primeira tese rejeitada: Peau noir, masques blancs (Peles negras, máscaras brancas) livro que marcaria a história dos estudos o racismo.

mascarasbrancas
Artista: Cena 7

Neste livro o autor discute os impactos do racismo e do colonialismo na psique (de colonizadores e colonizados) e mostra o quanto as aliena√ß√Ķes coloniais s√£o incorporadas pelos colonizados, mesmo no contexto de elabora√ß√£o do protesto negro.

O ano seguinte é marcado por um casamento e a sua mudança para a Argélia a fim de estudar mais profundamente os problemas enfrentados pelos imigrantes africanos na França. Segundo Oto (2003) estes momento foi fundamental para Fanon compreender os impactos do colonialismo na estrutura psíquica humana:

Ao tentar ampliar suas percep√ß√Ķes sobre o problema dos pacientes em territ√≥rios coloniais, vinculando as enfermidade ao colonialismo, Fanon aceita neste mesmo ano o contrato com o Hospital Blida-Joinville na Arg√©lia. Durante sua resid√™ncia neste local os resultados de suas investiga√ß√Ķes o convenceram das dimens√Ķes assumiam o regime colonial e como este regime desarticula a estrutura ps√≠quica das pessoas.( Oto 2003:219)

O ano seguinte foi marcante para o autor ao assistir o nascimento da revolu√ß√£o argelina e a violenta repress√£o francesa. √Č neste contexto que Fanon renuncia ao seu cargo no Hospital psiqui√°trico para se filiar √† Frente de liberta√ß√£o Nacional – FLN (Front de Liberation Nationale) onde contribuir√° ativamente como escritor do jornal El Moudjahid, em T√ļnez.

Os anos seguintes foram marcados por intensa agita√ß√£o pol√≠tica e participa√ß√£o nos f√≥runs internacionais dos movimentos de liberta√ß√£o no continente africano. Em 1959 publica L‚Äôan V de la R√©volution Alg√©rienne, sem publica√ß√£o em portugu√™s, e em 1961 se encontra com J. P. Sartre e S. Beauvoir. Neste mesmo ano, ap√≥s escrever Les damm√©s de la terre, o √°pice de sua atividade pol√≠tica e intelectual seria interrompido por um problema de sa√ļde que levaria a morte.

Boa parte dos textos escritos por Fanon no jornal El Moudjahid foram reunidos por sua esposa e publicados postumamente no livro Pour la révolution africanie (1964), publicado em Portugal apenas em 1980 com o título Em defesa da revolução Africana.

A pesar de sua import√Ęncia para a compreens√£o das rela√ß√Ķes raciais contempor√Ęneas, 50 anos depois de sua morte, a Obra de Frantz Fanon ainda √© pouco estudada no Brasil. Espera-se com esta atividade despertar o interesse da comunidade acad√™mica como um todo para a discuss√£o dos elementos apresentados pelo autor.

Programação

Encontro 01 ‚Äď A aliena√ß√£o colonial (20/07/2015 – 14hs)

  • itiner√°rio¬†pol√≠tico de Frantz Fanon
  • Pele negra, m√°scaras brancas

(Leitura recomendada: Prefácio de Lewis Gordon РBaixe o arquivo! e  Capitulo V: Experiência vivida do negro РBaixe o arquivo! )

(Obra Completa para baixar: Peles Negras Mascaras Brancas РBaixe a obra!)

 

Encontro 02‚Äď Racismo e cultura (20/07/2015 – 17:hs)

  • Em defesa da revolu√ß√£o africana
  • Os escritos de El Moudjahid

(Leitura recomendada: Racismo e Cultura РBaixe o arquivo!)

 

Encontro 03‚Äď A Arg√©lia se desvela (21/07/2015 – 14hs)

  • Ano V da Revolu√ß√£o Argelina

(Leitura recomendada: Capitulo 1 : A Argélia se quito el velo РBaixe o arquivo!  Рem espanhol)

( Obra Completa em espanhol: Sociología de una Revolución РBaixe a obra!)

 

Encontro 04‚Äď A liberta√ß√£o nacional (21/07/2015 – 17hs)

  • Os condenados da terra

(Leitura recomendada:  Cap. I Da violência РBaixe o arquivo!)

(Obra Completa: Os Condenados da Terra РBaixe a obra! )

 

 

Como chegar

Local: Casa de Cultura Tainã ( http://www.taina.org.br) Campinas РSP

Rua Inhambu, 645 РVila Padre Manoel da Nóbrega, Campinas РSP, 13060-280
Quem vem de Onibus
Linhas 241, 24o e 249
perguntar pela Praça dos Trabalhadores ou Pinicão
A Tainã encontra-se dentro da Praça

 

 

 

A REDU√á√ÉO N√ÉO √Č A SOLU√á√ÉO!!!

 

 

 

 

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‚ÄúPreto √© cor, negro √© ra√ßa‚ÄĚ. Ser√° mesmo?

Por Gas-PA: Coletivo de Hip Hop Lutarmada

Essa frase ‚Äď leg√≠tima express√£o do senso comum ‚Äď j√° estampou at√© camisas que ainda podem ser vistas vestindo corpos que estariam combatendo o racismo impregnado na nossa fala cotidiana. Estariam, se n√£o fosse por um importante detalhe: Se ‚Äúpreto‚ÄĚ n√£o √© ra√ßa, ‚Äúnegro‚ÄĚ muito menos.

Pra muito al√©m da velha quest√£o de s√≥ haver, ou n√£o, uma ra√ßa ‚Äď a humana ‚Äď, o que nos interessa agora √© somente o emprego da palavra ‚Äúnegro‚ÄĚ para designar mulheres ou homens africanos e seus descendentes na di√°spora. Por se tratar de uma palavra da l√≠ngua portuguesa, procuremos por seu significado no dicion√°rio mais popular desse idioma no Brasil, o Aur√©lio (1985). E l√° consta: Da cor preta, diz-se do indiv√≠duo de ra√ßa negra, preto, sujo, encardido, sombrio, l√ļgubres, funesto, escravo.

√Č flagrante a carga pejorativa dessa palavra usada na l√≠ngua oficial do pa√≠s para se referirem a n√≥s africanos e afrodescendentes. Mas n√£o para por a√≠, porque os √ļltimos ser√£o os primeiros. No caso, a √ļltima palavra que aparece √© a primeira, √© o princ√≠pio de tudo.

Quando os portugueses invadiram essa terra que hoje chamamos Brasil, houve a tentativa de escravizar os nativos. Por quest√Ķes que n√£o nos cabe abordar nesse momento, esse empreendimento n√£o vingou e o escravizado nativo foi substitu√≠do pelo africano. Mas para se distinguir um do outro, ao se referir aos escravizados ind√≠genas, os portugueses diziam ‚Äúnegros da terra‚ÄĚ, ou seja, negros da pr√≥pria terra sobre a qual trabalhavam. Os outros negros vinham de fora, de outra terra, vinham de √Āfrica. Como o pr√≥prio dicion√°rio diz, negro √© sin√īnimo de escravo.

O com√©rcio de escravizados prosperou, e o Brasil foi o pa√≠s que mais recebeu africanos no mundo. Durante s√©culos todo africano que aqui chegava, chegava na condi√ß√£o de escravo, logo, todo africano que aqui chegava era negro. Depois que a lei Euz√©bio de Queiroz proibiu a importa√ß√£o de africanos, a procria√ß√£o nas senzalas foi uma das sa√≠das para se tentar suprir a demanda de m√£o de obra negra. √Č nesse contexto hist√≥rico que emerge com for√ßa a figura do escravo reprodutor. Era sistema de produ√ß√£o em s√©rie. Dentro desse esquema todo filho de africanos j√° nascia escravo, logo, era tudo negro. Para acelerar o processo para melhor e mais r√°pido abastecer o mercado, os pr√≥prios senhores auxiliavam na produ√ß√£o. Houve situa√ß√Ķes em que o homem branco, senhor n√£o s√≥ do escravo como tamb√©m de sua esposa, a obrigava a ter rela√ß√Ķes sexuais com seu negro reprodutor para que ela tamb√©m pudesse gerar em seu ventre mais um escravo que, independendo da sua cor, j√° nascia escravo, j√° nascia negro (deixemos pra uma outra ocasi√£o o debate sobre o termo ‚Äúmulato‚ÄĚ, que √© o resultado do cruzamento de cavalo com mula). Essa l√≥gica, que no Brasil durante s√©culos associou africanos e seus descendentes √† escravid√£o, foi respons√°vel por transformar a palavra negro ‚Äď que significa escravo ‚Äď em sin√īnimo de africanos e afrodescendentes. Por isso muitos de n√≥s (um n√ļmero cada vez maior de) descendentes de escravos e escravizados no Brasil vimos negando o termo negro em favor de preto.

Etimologicamente negro vem do latim niger, que vem a significar: preto, sombrio, tenebroso, tempestuoso, infeliz, de mau agouro, enlutado, f√ļnebre, triste, melanc√≥lico, mau, perverso, mal√©volo, p√©rfido.

Agora vejamos o que os dicion√°rios etimol√≥gicos dizem de preto: perto, pr√≥ximo, ‚Äėnegro‚Äô.

Curioso √© que o sin√īnimo mais singelo pra negro √© preto, e o mais depreciativo pra preto √© negro. Assim deve ficar mais f√°cil de entender o que se quer dizer com a palavra ‚Äúdenegrir‚ÄĚ.

O movimento de negritude e as palavraschave do inimigo.

Negro/Preto/Negro/Preto/Negro/Preto/Negro/Preto/Negro/Preto/Negro/Preto/Negro/Preto/Negro/Preto

Uma das maiores express√Ķes da ideologia da superioridade de uma ra√ßa foi o nazismo. A sua ascens√£o a partir da Alemanha pra outros pa√≠ses se deu nos anos 30 e durou at√© 1945 aos ser derrotada pelo ex√©rcito da Uni√£o das Rep√ļblicas Socialistas Sovi√©ticas. Foi nesse contexto de profunda inferioriza√ß√£o do mundo n√£o branco que nasceu em Paris, por volta de 1934, o Movimento de Negritude.

Uma das formas mais comuns de se agredir verbalmente os pretos que viviam na Fran√ßa nesse momento hist√≥rico era xing√°-los de negros. O Movimento de Negritude foi uma forma bem peculiar de se reagir a esses ataques. O que esse movimento tentou fazer foi ressignificar, esvaziar a palavra ‚Äúnegro‚ÄĚ de todo o seu car√°ter pejorativo, para convert√™-la num termo positivo, e assim neutralizar o poder ofensivo da arma mais usual do racista: a linguagem. Francamente n√£o sei at√© que ponto isso significou algum avan√ßo na luta antirracismo na Fran√ßa ou em suas antigas col√īnias, mas me parece que s√≥ no Brasil os pretos gostam de ser chamados de negros. Tomemos como exemplo os pa√≠ses cujo idioma oficial √© a l√≠ngua mais falada do ocidente, o ingl√™s. √Č flagrante tanto a autodefini√ß√£o de ‚Äúblack‚ÄĚ, quanto a recusa em ser chamado de ‚Äúnegger‚ÄĚ (ou, na sua forma mais popular, ‚Äúnigga‚ÄĚ)[1]. O problema para entendermos a quest√£o √© que quem traduz os livros, textos, ou as falas dos filmes de l√≠ngua inglesa que chegam at√© n√≥s, traduzem ‚Äúblack‚ÄĚ como sendo ‚Äúnegro‚ÄĚ, o que est√° errad√≠ssimo, j√° que pra eles o termo ‚Äúblack‚ÄĚ (preto) √© justamente uma forma de resistir ao termo ‚Äúnegger‚ÄĚ (negro). Assim, ao nos referirmos aos nossos irm√£os pretos dos Estados Unidos ou √Āfrica do Sul, por exemplo, como ‚Äúnegros‚ÄĚ, estamos fazendo com eles exatamente o que os racistas de l√° fazem. E no nosso antirracismo vulgar achamos que com isso estamos contribuindo enormemente para combater o racismo no universo.

Hoje principalmente nas arenas esportivas vemos o quanto √© comum sermos xingados de macaco. Temo que chegue o dia em que surja o Movimento de Macaquismo, para ressignificar a palavra macaco e assumirmos tal identidade exaltando o que o termo tem de bom. Parece exagero, n√£o √©? Mas n√£o esque√ßamos da campanha ‚ÄúSomos todos macacos‚ÄĚ, criada pelo oportunista Luciano Huck no caso de racismo sofrido pelo jogador Daniel Alves. Quem estava minimamente atento entendeu que ele s√≥ queria lucrar com a desgra√ßa do racismo vendendo camisas, mas n√£o se pode negar que a campanha teve ades√£o de muitos pretos espalhados pelo pa√≠s.

Sabemos que n√£o √© monitorando palavras que vamos extinguir o racismo da face da Terra. ‚ÄúCorrigir‚ÄĚ quem diz ‚Äúesclarecer‚ÄĚ ao inv√©s de ‚Äúescurecer‚ÄĚ (ou pior: ‚Äúenegrecer‚ÄĚ) √© p√≠fio demais perto das tarefas que temos pela frente at√© a destrui√ß√£o total dessa sociedade dividida em explorados e exploradores, oprimidos e opressores. O que n√£o deve ser confundido com o cuidado de n√£o usar as palavras-chave do inimigo. Como muito bem disse Florestan Fernandes, ‚Äúos debates terminol√≥gicos n√£o nos interessam por si mesmo. √Č que o uso das palavras traduz rela√ß√Ķes de domina√ß√£o‚ÄĚ.

[1] Nigga vem sendo usado em alguns c√≠rculos da comunidade preta estadunidense como uma autorrefer√™ncia depreciativa aceit√°vel. Eles se tratam por nigga da mesma forma que entre si se chamam de mudafuka, o que equivaleria ao nosso filho da puta. O que n√£o significa que n√£o haja resist√™ncia entre os pr√≥prios pretos ao uso desse termo. Um bom exemplo √© a m√ļsica I don‚Äôt wanna be called yo nigga, do Public Enemy, grupo que est√° para o RAP como Bob Marley est√° para o Raggae.