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Nonagésimo aniversário de Fanon РA NEGRITUDE RADICAL

FANON VIDA E OBRA

Os textos de hoje problematizam as rela√ß√Ķes¬†entre Fanon e o Movimento de Negritude. Nas reflex√Ķes, s√£o apresentadas uma s√©rie de aspectos que indicariam proximidades e rupturas do autor com essa perspectiva de luta e com o nacionalismo. Assim, classificam classificam-no como express√£o de uma “negritude radical’.

Peau noire, masques blancs

O primeiro artigo √© ¬† A ¬ę√Āfrica (eternamente) renascida¬Ľ. Relendo tr√™s dos ¬ęseus¬Ľ insignes pensadores: L√©opold S√©dar Senghor, Frantz Fanon e Am√≠lcar Cabral , de ¬†Jos√© Carlos Ven√Ęncio

Resumo:¬†Partindo do pressuposto de que a ideia de √Āfrica √©, em muito, devedora do entendimento que os nacionalistas africanos tinham das suas sociedades, discute-se o contributo espec√≠fico de tr√™s nacionalistas, conquanto um deles, Frantz Fanon, n√£o seja de origem africana, mas sim antilhana. O nacionalismo √©, neste contexto, entendido como parte de um movimento mais vasto, o do renascimento africano, ciclicamente evocado pelos l√≠deres africanos e, deste modo, entendido como um movimento de longa dura√ß√£o (longue dur√©e).

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Negritude

 

O segundo é A construção do nacional: Entre a conciliação de L.S. Senghor e a revolução de Frantz Fanon no Congresso de Artistas e Escritores Negros de 1959, de Gustavo de Andrade Durão

Resumo: Pretende-se realizar um breve debate sobre os projetos de na√ß√£o presentes nos textos de L√©opold S√©dar Senghor e Frantz Fanon, escritores atuantes no ambito colonial da metade do s√©culo XX. Al√©m da import√Ęncia da trajet√≥ria pol√≠tica e intelectual na ambi√™ncia colonial senegalesa e argelina, em especial, estes dois pensadores estavam profundamente inseridos no debate dos estudos liter√°rios, pol√≠ticos e filos√≥ficos produzidos nos grandes centros metropolitanos europeus.

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CONTRA A REMO√á√ÉO DAS FAM√ćLIAS DA PRAIA DO SOCEGO¬†

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Rosa Parks e a pedagogia da desobediência

¬†Quando lutar √© a √ļnica op√ß√£o

A hist√≥ria oficial √© essencialmente masculina. Nos maiores e mais importantes eventos da humanidade a figura da mulher tem pouco destaque. No entanto, aos poucos, algumas repara√ß√Ķes come√ßam a ser feitas porque s√£o in√ļmeras as protagonistas na hist√≥ria. E o tra√ßo comum entre elas √© o da desobedi√™ncia, ou seja, uma teimosia militante contra a ordem vigente e que resultar√° em rompimento da dita normalidade. Este √© o caso da hist√≥ria de Rosa Lee Parks, uma das mais importantes ativistas pelos direitos civis e contra a discrimina√ß√£o racial nos Estados Unidos.

Rosa nasceu em fevereiro de 1913 no estado do Alabama, Estados Unidos, h√° 100 anos, mas ela mesma diz ter outra data de nascimento: 1¬ļ de dezembro de 1955. Mais adiante no texto se entender√° o porqu√™ dessa outra data. Parks teve forte influ√™ncia do av√ī, que a ensinou a enfrentar todas as circunst√Ęncias discriminat√≥rias por conta da cor com firme dignidade e jamais aceitar o preconceito como natural. Em sua inf√Ęncia, a lembran√ßa permanente era da Ku Klux Klan, um grupo branco que queimava as casas dos negros e enforcavam os que sobreviviam.

Ainda crian√ßa sentiu, na pr√°tica, a profunda divis√£o racial na sociedade norte-americana. Jovem ainda, engaja-se como costureira na Associa√ß√£o Nacional para o Desenvolvimento das Pessoas de Cor (NAACP ‚Äď sigla em ingl√™s), uma organiza√ß√£o de defesa dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. L√° conheceu seu marido, Raymond Parks, um mesti√ßo de grande influ√™ncia naquela associa√ß√£o. Os dois eram volunt√°rios na organiza√ß√£o e atuavam na forma√ß√£o e conscientiza√ß√£o dos marginalizados e buscavam, com apoio de advogados, atuar na defesa dos negros presos apenas por serem negros.

Em 1¬ļ de dezembro de 1955, depois de um dia inteiro de trabalho, principalmente fazendo costuras na associa√ß√£o, estava mo√≠da de dor e voltaria para casa de √īnibus. Rosa sofria de fortes crises reum√°ticas e o frio era de rachar. Em sua casa, m√£e e marido estavam febris. Mesmo assim, depois de cuidar dos dois, ainda iria naquela noite √† igreja Luterana onde rapazes e mo√ßas negras a esperavam para receber dela uma esp√©cie de introdu√ß√£o aos direitos civis. Nas reuni√Ķes os temas eram v√°rios: solidariedade paroquial, brutalidade patronal, empr√©stimos abusivos, situa√ß√£o da moradia, sa√ļde, etc.

No Sul dos Estados Unidos existiam as leis Jim Crow, um conjunto de regras segregacionistas entre brancos e negros. Depois de colocar dez centavos na caixa do √īnibus perto do motorista, Rosa Parks √© obrigada a descer e entrar pela porta traseira. Muitas vezes, os motoristas arrancavam o √īnibus e deixavam v√°rios negros a p√© e sem dinheiro. N√£o aconteceu naquele dia 1¬ļ de dezembro. No fundo do √īnibus existiam apenas dez assentos destinados aos negros. Era a lei. Na frente do ve√≠culo s√≥ podia sentar os brancos e no meio existia uma ‚Äúzona de risco‚ÄĚ, isto √©, havia assentos onde os negros podiam se sentar, mas se chegasse um branco, era obrigado a ceder o lugar.

Quando Rosa entrou no √īnibus j√° n√£o tinha lugar para sentar ao fundo. O por√£o do navio negreiro estava cheio. Ela precisava sentar-se. Apenas alguns assentos livres na zona de risco e l√° ela se sentou. Na segunda parada, mesmo tendo assentos livres para os brancos, alguns deles se dirigiram a zona de risco e o motorista obrigou todos os negros a ceder os lugares. Rosa Parks desobedeceu. Mesmo sendo amea√ßada pelo motorista de ir para a cadeia, a costureira manteve-se em seu assento para o espanto de brancos e negros no √īnibus. ‚ÄúO senhor quer me prender? Tudo bem‚ÄĚ, disse ela bastante calma. Estava farta das humilha√ß√Ķes e para ela, a desobedi√™ncia civil, era a √ļnica alternativa.

‚ÄúAo dizer ‚Äėn√£o‚Äô, completamente desarmada, eu ficava em paz comigo mesma. N√£o tentava ser uma cidad√£-modelo: eu, a quem a lei exclu√≠a do direito ao voto, assim como da liberdade de beber √°gua em qualquer bebedouro, de me sentar num lugar mesmo que ele estivesse livre, de usar banheiros p√ļblicos, ou seja, de pertencer a um pa√≠s cujos valores eu n√£o compartilhava. Ao contr√°rio dos humanos, os animais bebiam na mesma fonte, qualquer que fosse a cor de seu pelo‚ÄĚ, escreveu Rosa Parks.

Na delegacia, tiraram as impress√Ķes digitais da ‚Äúcriminosa‚ÄĚ. Ela pediu √°gua, mas o bebedouro era apenas para brancos. Era a primeira vez que tinha sido presa. Na fria, escura e suja cela, Rosa e outras mulheres negras, Chris e Rebecca. As tr√™s presas por desobedi√™ncia a lei branca. Gra√ßas a uma mobiliza√ß√£o do seu marido e apoio de advogados militantes da causa racial, foi paga uma fian√ßa e Rosa Parks foi libertada na mesma noite, deixando as outras duas mulheres na cadeia. Sua revolta e indigna√ß√£o ganharam corpo com aquele quadro. ‚ÄúVivia a noite mais agitada de minha vida. A noite da inicia√ß√£o, onde tudo come√ßou‚ÄĚ, dizia ela, que n√£o se esquecia de Chris e Rebecca.

Parks n√£o se contentava mais com a√ß√Ķes conciliat√≥rias da NAACP. Era preciso fazer mais. O limite j√° havia sido ultrapassado. Com alguns amigos, resolveu prestar queixa contra a companhia de √īnibus. Um esc√Ęndalo. Foi duramente criticada pela imprensa. Numa reuni√£o na associa√ß√£o, gritava amea√ßando nunca mais pegar √īnibus, indo e voltando do trabalho a p√©. Em dias, talvez o maior e mais longo boicote (protesto) contra a situa√ß√£o de discrimina√ß√£o racial nos √īnibus tomou conta do Alabama. E o ato come√ßou no dia 5 de dezembro, data do julgamento de Rosa, que foi condenada a pagar dez d√≥lares pela infra√ß√£o de ter se recusado a ceder o assento a um branco.

Como numa a√ß√£o viral impressionante, os negros boicotavam os √īnibus. Centenas eram visto andando juntos e p√©. Era uma marcha di√°ria de terror para o Estado, al√©m do preju√≠zo econ√īmico de √īnibus quase vazios e escoltados pela pol√≠cia. Vale registrar a participa√ß√£o ativa de pastores batistas na luta. Rosa organizava caronas, convoca t√°xis dirigidos por negros que, por solidariedade, cobraram apenas dez d√≥lares. O movimento crescia e tomava enorme dimens√£o. Rosa e o marido foram demitidos. Um jovem pastor de 28 anos, Martin Luther King Jr. engajou-se na luta e passa a coordenar o boicote dos √īnibus do Alabama.

Mesmo com o desemprego, com grandes necessidades, as intensas amea√ßas de morte, Rosa Parks se manteve firme na desobedi√™ncia e no boicote, que abalou a supremacia branca do Sul dos Estados Unidos. O protesto durou um ano e 16 dias e terminou com o fim da aboli√ß√£o total e definitiva da segrega√ß√£o racial nos √īnibus do Alabama. Por conta do boicote, Rosa e Raymond foram condenados judicialmente a pagar 800 d√≥lares. Sem mais condi√ß√Ķes mais de sobreviv√™ncia na pequena cidade de Montgomery, eles foram obrigados a se mudar para Michigan. ‚Äú√Č hora de nos afastarmos do Alabama. O Sul tem √≥dio demais do negro‚ÄĚ, lembra Rosa Parks.

Poucos sabem, mas quando da marcha de um milhão de pessoas em Washington em 1963, lideradas por Martin Luther King, quem estava nas primeiras fileiras e em destaque era Rosa Parks, que se tornou figura central. Ela morreu em outubro de 2005, aos 92 anos, mas entrou para a história como uma mulher que mostrou ao mundo o papel revolucionário e pedagógico da desobediência, da transgressão e da resistência.

José Cristian Góes