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Coletivos: espaços tóxicos para a militância? (2)

É preciso exercitar o raciocínio, voltar-se mais uma vez à análise das práticas sociais, sair do tarefismo e da papagaiada, criar quadros de pensamento e formas de luta que permitam escapar da armadilha identitária. Por Passa Palavra

Leia a primeira parte clicando aqui!

Bradar aos quatro cantos que o identitarismo não oferece respostas não é suficiente, pois não aponta saídas práticas nem leva a outros modos de colocar a questão. A crítica ao identitarismo, enquanto crítica, não tem obrigação alguma de pautar o que quer que seja senão os limites lógicos e práticos daquilo que critica.

Por isto mesmo, como qualquer crítica política, deve ser complementada pela ação política coerente com os resultados da crítica “Mas que tendências apontam alternativas? A questão não diz respeito à perspectiva emocional, mas a uma análise das capacidades de transformação produzidas por meio de cada forma organizativa.

Um caminho, interessante mas ainda individual, é o de lidarmos com nossos próprios egos na atuação em coletivos. Há quem diga que é necessário restringir ao máximo nos coletivos o espaço dos egos e dos problemas pessoais trazidos a tais espaços.

A militância não pode exigir de um coletivo ou de um movimento social que ele abarque a totalidade da vida, que tenha soluções para todos os problemas do cotidiano e preencha todos os vazios existenciais. É preciso ser terno, sempre, mas sem perder a dureza jamais.

Alguns grupos com objetivos mais definidos, por exemplo, tendem a durar mais; por outro lado, eles podem se tornar rasos com facilidade. Paralelamente, surge uma questão: seria preciso haver algum tipo de procedimento de cuidado com a saúde física e mental dos militantes? Isto leva tempo para se construir, e pode terminar completando de outras formas o sequestro de pauta iniciado pelo identitarismo.

Há, por outro lado, quem queira coletivizar a questão. Note-se: coletivizar a questão, não coletivizar a punição.

Pois punir é fácil: basta xingar, “dar um gelo”, botar para fora dos espaços, tudo isto é simples. Complicado mesmo é buscar as raízes do problema: cortar na carne, assumir que cada caso de violência individual expressa um problema sistêmico, o que implica na participação, na busca por soluções coletivas, de todos os sujeitos envolvidos nos casos de violência.Uma analogia pode ajudar na compreensão.

As lutas entre trabalhadores e capitalistas fundam-se na exploração econômica, não raro acompanhada de violência física e psicológica.

Estas lutas tornam-se tanto mais fortes quanto mais trabalhadores de empresas diferentes, de setores econômicos diferentes etc. integram-se num só processo de lutas.

É a superação prática daquele individualismo a que nos referimos anteriormente.

A fragmentação entre os trabalhadores beneficia enormemente os capitalistas, porque podem, então, conter as lutas no espaço de uma empresa, de uma cadeia produtiva ou de um setor econômico, evitando, assim, tocar nos fundamentos da exploração da força de trabalho.

Os efeitos da analogia, entretanto, não são dos melhores. A relação entre capitalistas e trabalhadores é mediada por mercadorias: a força de trabalho no capitalismo é transformada em mercadoria, assim como os bens que os trabalhadores necessitam para viver bem. 

Parece mais simples despersonalizar a questão, objetivá-la, quando há algo que medeie a relação, que – neste caso – dê aos sujeitos a aparência de estarem apartados pelas forças do mercado.

É possível, entretanto, dizer que violências racistas e machistas são mediadas pelo que quer que seja? 

Há algo tão concreto como o salário que se interponha entre o racista ou o machista e sua vítima para que o racismo funcione?

Não; pode-se ser racista ou machista independentemente do assalariamento, de bens etc. É esta aparente imediatidade que dá ao racismo e ao machismo a aparência de problemas individuais, a serem tratados individualmente.

Não é por acaso que as ações punitivas defendidas pela militância identitária como formas de combate ao machismo e ao racismo, especialmente o escracho, todas tenham nos indivíduos seu ponto de referência.

Incapazes de ensaiar quaisquer outras respostas ao machismo e ao racismo que não as formas individualistas que lhe são próprias, a militância identitária, perdida na satisfação de seus próprios egos “empoderados”, sempre que se focam nos companheiros da militância anticapitalista terminam empurrando os alvos deste punitivismo a formas de defesa igualmente individualizadas, quando não a buscar proteção junto ao Estado.

Resultado: combate-se o racista, combate-se o machista, combate-se o indivíduo, enquanto suas práticas e seus fundamentos passam ao largo de qualquer enfrentamento, permanecem em circulação, e produzirão seus efeitos deletérios mais adiante.

Mas o que se quer dizer com isto? Que é preciso exercitar o raciocínio, voltar-se mais uma vez à análise das práticas sociais, sair do tarefismo e da papagaiada, criar quadros de pensamento e formas de luta que permitam escapar desta armadilha.

Um exemplo, no que diz respeito aos quadros de pensamento, que é aquilo a que se pode limitar uma publicação sem ligações orgânicas com qualquer grupo militante.

Racismo e machismo são formas de violência expressivas de um desejo por superioridade, e portanto expressam igualmente o projeto de uma sociedade formada por elementos sociais explicitamente desiguais.

Numa sociedade onde se pretende que todos sejam tratados como iguais; onde se projeta a vigência da igualdade de acesso a cargos e funções públicas, a vigência da igualdade de emitir opinião sobre qualquer assunto nos espaços públicos e nas esferas públicas, e a vigência da submissão de todos às mesmas regras, sem distinções de qualquer tipo; numa tal sociedade, o que há é uma contradição entre este projeto de igualdade e o projeto de desigualdade defendido, explícita ou implicitamente, por racistas e machistas.

Há quem leia o parágrafo anterior e diga que se trata de um exercício cerebrino de raciocínio. Faltou dizer que não há raciocínio político digno de menção que não seja a síntese de tendências históricas.

Veja-se o racismo: ele interessa aos capitalistas, entre outras coisas, porque faz com que um negro trabalhando na mesma função que um branco ganhe menos que este último, estimulando as pressões por baixas salariais; ao mesmo tempo, o racismo estimula entre os negros a busca por maiores qualificações de sua força de trabalho, especialmente por meio da educação técnica ou universitária, e como o negro que superqualificou sua força de trabalho nos quadros de uma sociedade atravessada pelo racismo seguirá ganhando menos que um branco exercendo a mesma função, o resultado é a desvalorização da força de trabalho dos dois.

O mesmo raciocínio aplica-se, em igual situação, ao machismo. Isto sem falar, é claro, do uso da força de trabalho dos negros escravizados recém-libertos como exército industrial de reserva, da desvalorização do trabalho doméstico realizado por mulheres como forma de rebaixar os custos com a reprodução da força de trabalho (e, portanto, aumentando os lucros dos capitalistas nas empresas)…

O racismo, o machismo e outras formas de violência, portanto, não apenas nos formam enquanto sujeitos quando empregues pelos capitalistas para explorar melhor a nós todos que somos trabalhadores; vistos por esta perspectiva, é aos capitalistas que interessa mais a violência racista e machista, muito mais que a nós, trabalhadores.

Se tanto o racismo quanto o machismo nos formam enquanto sujeitos, combatê-los implica, entre outras coisas, formar novamente estes sujeitos, reorientar suas práticas de modo a implementar aquele projeto de igualdade a que nos referimos.

Isto implica trabalhar para esta reorientação em cada caso concreto de acordo com as possibilidades; este trabalho pode, inclusive, ter na ruptura de relações políticas uma consequência última, mas nunca uma ação imediata e prioritária.

Como se vê, não negamos a necessidade de ações disciplinares; o que negamos é o caráter estritamente punitivista e fratricida destas medidas, tal como vêm sendo adotadas nos “coletivos autônomos”.

Note-se: o fato de o racismo e o machismo interessarem mais aos capitalistas não significa que não haja trabalhadores que se beneficiem deles individualmente; o problema está na contradição entre os benefícios imediatos que estes trabalhadores possam eventualmente obter de suas práticas machistas e racistas e os prejuízos causados à classe inteira por estas duas formas de violência.

A explicitação desta contradição é tarefa constante dos coletivos anticapitalistas, não por “empatia” com os oprimidos ou qualquer sentimentalismo do tipo; trata-se da análise mais fria e dura das consequências políticas do racismo e do machismo, e por tal ótica o moralismo e o sentimentalismo característicos da militância identitária não têm vez.

Este é um exercício de interpretação da realidade, entre tantos outros; sua característica distintiva é a desindividualização da questão e a assunção de que se trata de um problema sistêmico do capitalismo.

Neste quadro, torna-se difícil recorrer à particularização de cada caso de violência, pois ele assume de imediato contornos mais amplos que os de cada caso concreto e dificulta a pura e simples punição individualizada.

É preciso reconhecer, entretanto, que o esforço para pautar as violências machista e racista de modo coletivizado pode tirar a pouca energia de grupos pequenos, que nem sempre dispõem da capacidade ou mesmo das competências necessárias para lidar com a questão.

Ainda mais quando se trata do esforço de ultrapassar os limites de cada coletivo e de buscar soluções mais amplas para o problema.

Mas quem disse que nos “coletivos autônomos” são os afetos que pautam as ações? Que eles foram criados para tratar dos problemas afetivos de seus integrantes? Os afetos entram nos coletivos de contrabando mesmo, ora como sequestro de pauta, ora como consequência de problemas mais sérios.

É difícil, por exemplo, organizar qualquer ação onde se trabalha sem envolver algum grau de afetividade e confiança pessoal; os critérios aí, todavia, não passam por qualquer exigência de pureza moral, como se dá nos “coletivos autônomos”.

Tudo se agrava ao constatar-se o sectarismo como traço comum da militância que constrói os tais “coletivos autônomos”.

A vontade de construir no presente aquilo que se quer ver construído no futuro – a tão falada política prefigurativa, importante contraponto à proposta das organizações políticas que pretendem resolver todos os problemas “depois da revolução”, e só depois dela – terminou resultando em que tais prefigurações perderam sua radicalidade e se transformaram em verdadeiras bolhas de convívio, como que sociedades secretas, daquelas cujos membros reconhecem-se mutuamente pela assinatura, pelo aperto de mão ou por algum xibolé.

Sucessivamente derrotados como estamos sendo – por enquanto – nas lutas contra os capitalistas, minguadas que andam nossas vitórias, muitos entre nós voltaram-se à construção de relações sociais novas entre si próprios, com mínima ou nenhuma luta com os capitalistas; os coletivos, sob a influência deste processo, transformam-se de instrumentos de luta em ilhas de pureza militante, tanto mais “puras” quanto mais “desviantes” forem as relações sociais novas que se pretende construir.

Os “coletivos autônomos” são o local que melhor acolhe os desviantes. Precisamente pela aparente radicalidade das relações sociais que pretendem instituir, não são poucos integrantes destes “coletivos” que, pelo acúmulo de rejeições e repressões em outros espaços de convívio somado a problemas sérios de autoestima, têm nos coletivos seus espaços preferenciais de sociabilidade.

É nele que vão desembocar as queixas quanto aos “reaças” e “pelegos” do lado de fora, e é nele onde se enraízam os reforços intergrupais.

Cedo se torna muito difícil, quando não impossível, dialogar com qualquer outra força política, grande ou pequena, “reformista” ou “revolucionária”, especialmente quando estas forças políticas organizam-se em modelos diferentes do solipsismo dos “coletivos autônomos”.

Como o círculo de convivência social desta militância é pequeno; melhor dizendo, como é pequeno o círculo onde suas ideias e práticas são tidas como legítimas, e em certos lugares tais círculos podem corresponder quase totalmente ao tamanho do “coletivo” ou da “cena”, a atuação política destes militantes tende a não mais se dar nos espaços públicos e na esfera pública comuns a toda a sociedade, mas ali naqueles espaços onde há legitimidade.

De companheiros de luta, militantes passam a colegas de terapia. Não é preciso muito para imaginar, num tal cenário, onde a militância vai buscar preferencialmente suas relações sociais, afetivas e sexuais.

De tanto lutar por construir relações novas, o que se conseguiu foi uma forma de narcisismo coletivo, “empoderador” dos narcisismos individuais… e onde há narcisismo, há incompreensão, o avesso da política.

***

É neste cenário que o punitivismo identitário faz a festa.

Não vamos tapar o sol com a peneira: já dissemos que não vamos nos calar diante de perseguições a integrantes do Passa Palavra promovidas pelo feminismo sectário e divisionista que temos denunciado desde há muitos anos, e mais outro caso nos levou a um pronunciamento público.

Diferentemente destas moças, entretanto, não nos interessa caluniar ninguém.

Elas que cuidem de destruir a própria reputação sozinhas; não vamos ajudá-las em seu suicídio político. Interessa-nos, isto sim, aproveitar a oportunidade para elevar o nível do debate e tratar de problemas mais amplos.

O escracho, por exemplo, é uma punição poderosa, assusta, não pela força de quem a pratica, mas pela fraqueza de quem a sofre.

Trata-se do assassinato moral de um sujeito em determinado meio, ou melhor dizendo, exatamente no meio onde se dão suas relações sociais e afetivas mais importantes.

Versão rediviva da morte civil prevista nas Ordenações Filipinas, o escracho padece do mesmo problema: só funciona lá onde o sujeito apenado submete-se sem mais ao poder e à influência de quem condena.

Quanto mais sectário é quem milita, quanto menos participa de outros grupos sociais além do “coletivo autônomo”, quanto mais depende do “coletivo autônomo” para obter legitimação política e afetiva, mais vulnerável está aos escrachos, aos isolamentos políticos, às chantagens emocionais.

Inversamente, quanto maior a capacidade de articulação política de quem milita, quanto mais conhece e se faz conhecer, quanto mais supera a prisão solipsista e fragmentária do “coletivo” (mesmo tendo-o como referência), menor é a chance de se deixar vitimar pelo escracho.

Em suma: quer livrar-se de um escracho? Ignore-o. Pior.

Os escrachos costumam ser escudados na mais pura covardia, principalmente quando são empregues como forma de eliminar alguém de determinado espaço político com base em boatos e disse me disse.

Denúncias bem fundamentadas de fatos abjetos como surras, estupros e outras formas de violência costumam causar escândalo público, e são feitas em aberto.

Mesmo considerando a tendência das autoridades policiais de fazer pouco do problema, de insinuar responsabilidade por parte da vítima etc., feliz ou infelizmente é nas delegacias que casos realmente graves vão parar.

Quando as provas não são seguras – ou pior, quando os fatos nunca existiram – tem início um trabalho sujo de calúnia, difamação e injúria, típico de quem optou por esta forma tipicamente individualista e particularmente mesquinha de ação política.

Nos meios onde se pode registrar de alguma maneira as provas de calúnia, difamação ou injúria, como redes sociais e correios eletrônicos, nenhuma denúncia é feita de forma explícita; brotam, por outro lado, indiretas e referências veladas, que remetem a conversas e acordos feitos em espaços informais presenciais – por isto mesmo torna-se muito difícil, quando não impossível, qualquer forma de contestação ou contraditório das denúncias.

Reais ou não os fatos, as denúncias só são feitas em grupos de amigos, em especial naqueles onde se supõe haver “confiança política” – não por acaso, trata-se de espaços onde militam pessoas ligadas aos “coletivos autônomos” em comum à pessoa denunciada, para que reverberem também nestes espaços.

Construída deste modo a denúncia, com todas as evidências de quem recebeu boa orientação jurídica para não deixar rastros, pouco importa se ela é verdadeira ou não; está preparada uma armadilha capaz de destruir a reputação de qualquer militante sem qualquer possibilidade de defesa.

Que tipo de sociedade uma tal prática prefigura?

***

O tipo de “solipsismo coletivo” que, numa perspectiva puramente individualista e burguesa, se poderia atribuir pura e tão somente a alguma “imaturidade”, quando visto de um ponto de vista simultaneamente político e sociológico mostra-se um potentíssimo instrumento de controle social.

Uma geração inteira de militantes arrisca envenenar-se nos coletivos, tornados espaços tóxicos para a militância, se não for capaz de reverter as tendências apontadas.

Por Passa Palavra

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Claudia Jones: Desconhecida Pan-Africanista, Feminista e Comunista

O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu à sua defesa para a libertação dos povos do Caribe e da África do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons
O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu à sua defesa para a libertação dos povos do Caribe e da África do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons

Traduzido por Rafaela Araujo Santana – Grupo Kilombagem

Por Ajamu Nangwaya

Jones utilizou o espaço organizacional do Partido Comunista para avançar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descolonização e na luta de classes.

Claudia Jones foi uma revolucionária, cujo ativismo alcançou dois continentes, América do Norte e Europa. Claudia Vera Cumberbatch nasceu em 21 de fevereiro de 1915 em Belmont, Trinidad e Tobago, a terra que tem dado origem a importantes políticos, como C.L.R. James, Eric Williams, George Padmore e Kwame Ture (anteriormente Stokely Carmichael). Ela e sua família foram forçados a migrar para Nova York durante os anos 1922-24, como resultado da dificuldade econômica que eles experimentaram como membros da classe trabalhadora em Trinidad.

Ela adotou o sobrenome “Jones”, como uma medida de proteção na realização de seu trabalho organizado com o Partido Comunista dos EUA (CPUSA). Essa mudança de nome não foi um incomum dada a histeria anticomunista e perseguição dos comunistas nos Estados Unidos. Claudia faleceu na terra de seu exílio, na Grã-Bretanha, em 25 de dezembro de 1964. Curiosamente, o local final de descanso de Jones está localizado justamente a esquerda de Karl Marx, no cemitério de Highgate, em Londres.

Ela contribuiu para o trabalho do Partido Comunista dos Estados Unidos – CPUSA como jornalista, editora, líder, teórica, educadora e organizadora de 1936 até sua deportação em dezembro de 1955. Ela trabalhou com o jornal do partido Diário Trabalhador, serviu como a editora da Liga da Juventude Comunista (UJC), na Revisão Semanal, funcionava como a diretora estadual YCL da educação e presidente do estado, tornou-se um membro pleno da CPUSA em 1945, eleita para o Comitê Nacional do CPUSA em 1948, assumiu o papel de Secretária de Comissão da Mulher, CPUSA, e trabalhou em várias funções em outras publicações do partido. Claudia foi presa três vezes por causa de seu trabalho na CPUSA. Ela foi condenada sob a Lei Smith que visava os líderes do CPUSA e serviu oito meses na prisão.

O Professor Errol Henderson da Universidade Estadual da Pensilvânia captura a relevância política da Claudia:

“Ela foi brilhante e incisiva. Ela forneceu ao feminismo componente da análise marxista juntamente com a incisiva incorporação da “cultura negra” de Haywood, no qual ela apoiou e estendeu … uma mente excepcional … e sua deportação para os EUA foi uma grande perda para a luta de libertação aqui, mas como um complemento para o Reino Unido, onde ela fez ainda mais contribuições “.

Jones utilizou o espaço organizacional do Partido Comunista estadunidense para avançar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descolonização e na luta de classes. Além disso, ela usou suas várias funções e recursos do partido comunista para avançar na libertação das mulheres em geral e das mulheres afro-americanos da classe trabalhadora, em particular.

É uma grande injustiça da história que o trabalho de Claudia Jones seja pouco conhecido entre os radicais que possam extrair ensinamentos da sua abordagem integrada para a eliminação do racismo, capitalismo, patriarcado e imperialismo. Em um período como nosso em que a política de identidade assume expressões vulgares, é fundamental para nós destacar a contribuição desta revolucionária cujo ativismo foi guiado por um anticapitalista, exigente anti-opressão e orientação política anti-imperialista.

O Professor Carole Boyce Davies, em seu livro “A esquerda de Karl Marx: A vida política da Comunista negra Claudia Jones,” oferece uma razão para a invisibilidade de Claudia:

“O estudo das mulheres negras comunistas permanece um dos mais negligenciados entre verificação contemporânea de mulheres negras para pelo menos, uma das razões que Joy James identifica: O revolucionário sob margem, mais do que qualquer outra forma o feminismo (negro). “Este tipo de negligência pela maioria das acadêmicas feministas não é surpreendente. A maioria destas pesquisadoras burguesas não são socialistas / comunistas e, como tal, não são atraídos para assuntos que estão associados com o comunismo.

A continua experiência de classe trabalhadora de Claudia e sua família na sociedade americana ajudou na formação da sua luta de classes, compromissos políticos feministas e antirracistas:

“Estava fora das minhas experiências de Jim Crow como uma jovem mulher negra, experiências igualmente nascido da pobreza da classe trabalhadora que me levou a juntar-se à União de Jovens Comunistas e escolher a filosofia da minha vida, a ciência do marxismo-leninismo – que a filosofia que não só rejeita ideias racistas, mas é a antítese deles. “

Como uma mulher africana da classe trabalhadora, a experiência vivida de Claudia lhe proporcionou um amplo entendimento do patriarcado. O exemplo mais claro de sua compreensão e análise da opressão das mulheres africanas está presente no artigo “Um fim à negligência dos Problemas da Mulher Negra! ”. Foi publicado em 1949. Muito antes do desenvolvimento da estrutura analítica interseccional na década de 1970 por feministas e lésbicas Afro-americanas como expresso na Declaração ColetivoRioCombahee, Jones já tinha essa abordagem para analisar as múltiplas formas de opressão que configura a vida das mulheres afro-americanas da classe trabalhadora.

A preocupação de Jones com a libertação das mulheres focava em mudanças nas condições econômicas, sociais e políticas desiguais e não a obsessão cultural psicológica encontrada dentro de círculos políticos de identidade vulgares atuais:

“Para o movimento das mulheres progressivas, a mulher negra, que combina em seu estatuto o trabalhador, o Negro, e a mulher, é o link vital para essa elevada consciência política. Na medida, além disso, que a causa da mulher negra trabalhadora é promovida, ela será habilitada para tomar seu lugar legítimo na liderança do proletariado negro do movimento de libertação nacional, e por sua participação ativa contribuem para toda a classe trabalhadora americana, cuja missão histórica é a conquista de uma América Socialista – a final e completa garantia da emancipação da mulher “.

O estado capitalista e corporações do Norte global explora os recursos e mão de obra e dominar as economias e sociedades no Sul global. De acordo com Davies em “A Esquerda de Karl Marx”, “política anti-imperialistas de Claudia ligada às lutas locais de pessoas negras e mulheres contra o racismo, e a opressão sexista às lutas internacionais contra o colonialismo e o imperialismo negros.” O Pan-africanismo de Claudia conduziu para sua defesa por liberdade dos povos do Caribe e da África do colonialismo.

Na Grã-Bretanha, dois das notáveis realizações de Claudia são a criação do Carnaval de Notting Hill e o Diário das Índias Ocidentais. Uma parte do epitáfio em sua lápide diz: “Valente lutadora contra o imperialismo e, o racismo que dedicou sua vida ao progresso do socialismo e a libertação do seu próprio povo negro.”

Deveria ter acrescentado: “defensora assertiva do feminismo socialista”.

Ajamu Nangwaya, PhD., é um educador, organizador e escritor. Ele é um organizador com a Rede para a Eliminação da Violência Policial

Artigo original disponível em: http://www.telesurtv.net/english/opinion/Claudia-Jones-Unknown-Pan-Africanist-Feminist-and-Communist–20160210-0020.html

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Nota Pública sobre Perseguições e Ameaças Contra Militantes do Comitê Contra o Genocídio da Juventude Preta, Pobre e Periférica de São Paulo.

“Os moradores dos morros, desde o fim da escravidão, criaram inúmeros grupos que se organizavam em vários níveis, objetivando fins diversos. Dentro da situação social concreta em que se encontrava, que era o da marginalidade, o negro do morro, favelado, tinha de organizar-se para que, dentro da situação que lhe impuseram, pudesse sobreviver e praticar uma série de atividades que o preservariam de um estado de anomia total.” Clovis Moura, in Sociologia do Negro Brasileiro

Tornamos público através desta, ameaças e perseguições sofridas nos últimos meses contra militantes que compõem o Comitê Contra o Genocídio da Juventude Preta, Pobre e Periférica de São Paulo, uma frente ampla de denúncia contra a violência do Estado dirigida a população negra pobre e periférica, composta por diversas organizações, movimentos populares e movimento negro. O aumento da violência contra a população preta, sobretudo no ano de 2012, onde mais de cinco mil pessoas foram mortas (executadas), é reflexo do projeto Genocida do Estado brasileiro, que historicamente condenou essa população. Sabemos que a repressão aos movimentos sociais e a seus militantes faz parte desse processo e é por isso que nós militantes que diariamente convivemos com a violência instaurada pelo Estado nas periferias, viemos tornar público ameaças e perseguições pelas quais alguns de nós estamos passando.

No dia 22 de agosto, realizamos em São Paulo a versão regional da Marcha Nacional Contra o Genocídio da População Negra, cujo foco foi denunciar o alto índice de mortes letais (genocídio) da juventude preta e se posicionar contra a militarização dos órgãos públicos da cidade como, por exemplo, a Câmara Municipal, que abriga parlamentares ligados ao universo militar. Durante a concentração do ato, em frente ao Teatro Municipal – região central da cidade, nos deparamos com vários policiais portando máquinas fotográficas e câmeras digitais, registrando imagens dos participantes. Notamos que a partir desta ocasião, alguns dos militantes do Comitê passaram a perceber ameaças. Na mesma noite do ato, um jovem negro que seguia sozinho para metrô (morador de periferia e integrante do movimento Hip- Hop) foi abordado por dois policiais após a dispersão da Marcha. Durante a abordagem policial, ele quase foi atropelado por uma viatura da guarnição.

Outro episódio aconteceu no mês de setembro, na Câmara Municipal de São Paulo, em que militantes do Comitê se posicionaram contra a entrega da homenagem “Salva de Prata”, à ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), criado durante a Ditadura Militar para reprimir a guerrilha urbana e mais tarde os cidadãos moradores das periferias.

Durante a sessão, um dos policiais presentes na Casa Legislativa anotou o número de telefone e o endereço residencial de um dos militantes em papel a parte e o guardou dentro do próprio bolso, sendo esse um procedimento inadequado, segundo alguns vereadores da casa.

Na última semana, mais uma família passou por uma assustadora violência: desta vez, foi uma tentativa de homicídio (não se sabe se a vítima foi confundida com outra pessoa). Entretanto, o que sabemos é que dois homens em uma moto seguiram e dispararam contra um carro guiado por um casal negro, atingindo o braço da mulher (mãe de um jovem negro de 15 anos). O referido casal é parente de um dos militantes do Comitê.

Recentemente três militantes ligados a organizações que compõem o Comitê foram alvos de racismo, sendo hostilizados, com ataques verbais e ameaças também vindas de agentes policiais.

Infelizmente tais fatos não são episódios isolados. Militantes ligados a movimentos sociais e sobretudo ao movimento negro em todo pais estão sofrendo diariamente com retaliações, perseguições, ameaças e atentados à vida, inclusive tendo suas casas invadidas pela polícia, sem mandado, no meio a madrugada – como ocorreu recentemente com um militante em Salvador.

Diante de tudo isso, percebemos a necessidade de expor e tornar público os fatos para que todos tenham conhecimento da covarde política de criminalização dos movimentos sociais, movimentos negros e seus militantes. Já encaminhamos denúncias formais aos departamentos competentes, seguiremos nossa prática de denúncia da violência e de cobrança do papel ao qual o próprio Estado, em nossa Carta Magna se reserva: a proteção e o bem estar dos cidadãos.

Comitê Contra o Genocídio da Juventude Preta, Pobre e Periférica
Apoiam: | Ação Comunitária | Adunesp (Sindicato dos Docentes da Unesp) – Seção Sindical Marília | Agentes de Pastoral Negros do Brasil – APNs | Amparar – Associação de Amigos e Familiares de Presos | Ana Karla Moreira Silva – Estudante de Serviço Social – PUC/SP | ANEL | Associação de Favelas de São José dos Campos | Associação de Mulheres Negras Acotirene | Blog – Sp Que Vc Não Vê|  Bruna Lasevicius Carreira – Estudante de Direito – FMU/SP | Campanha Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto| Carlos Latuff| CEDECA Interlagos | CEN – Coletivo de Entidades Negras | Centro de Memória do Grande ABC | Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada| COADE (Coletivo Advogados para a Democracia) | Coletivo Anarcafeminista Marãna | Coletivo de Mulheres Negras Louva Deusas| Coletivo Práxis| Comitê pela Desmilitarização | Comitê Popular da Copa SP | Comuna Aurora Negra | Coordenação Nacional de Estudantes de Psicologia – CONEP | CONEN | Escola de Governo | Federação Nacional dos Advogados| Fórum de Hip Hop MSP| Fórum Latino Americano de Combate a Discriminação Racial | Fórum Nacional 13 de Maio | Fórum Nacional de Mulheres Negras | Fórum Sindical dos Trabalhadores-SP | Frente da Feminista USP | Grupo de Mulheres Negras Nzinga Mbandi | Grupo Margens Clínicas| Grupo Tortura Nunca Mais – SP| Instituto Práxis de Direitos Humanos| Intersindical – SP | Juventude às Ruas | Juventude da CONEN| Kilombagem | Mães de Maio | Maçãs Podres | MAP-SP Movimento Anarcopunk de São Paulo | Movimento Terra Livre | Movimento Negro Unificado | MSP – Movimento Pela Saúde dos Povos – Brasil | Nucleo Anarco-Rap | Núcleo de Consciência Negra da USP | Pão e Rosas | Periferia Ativa | Profa Joana Aparecida Coutinho – UFMA | Profa. Laura Camargo Macruz Feuerwerker FSP/USP | Profa. Maria Fernanda| Prof. José Henrique Viégas Lemos – Biólogo da Rede Pública Municipal e Estadual de Educação | Prof. Milton Pinheiro – UNEB | Quilombo Raça e Classe | Quilombo Xis | Rede 2 de Outubro| Rede Lai Lai Apejo Soweto Organização Negra| TRIBUNAL POPULAR:O Estado Brasileiro no Banco dos Réus| UJS – SP | UNEafro-Brasil |

ADESÕES DE ASSINATURAS EM APOIO À NOTA FAVOR ENVIAR PARA: c.genocidiojppp@gmail.com

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Liberdade e Educação

José Evaristo Silvério Netto

Para a Educação, o debate sobre da liberdade é fundamental e sua promoção não se faz sem autonomia. Autonomia (vocábulos: auto – próprio; nomos – regra) é entendida como a capacidade de definir suas próprias regras sem a necessidade de imposição de alguém. A autonomia trabalha com a ideia de uma liberdade estruturada Em-Relação com a cultura e com o outro (os outros). Ainda, autonomia trás implícita uma liberdade relativa por um lado, e por outro a limitação, da relação com o mundo social. Desta forma, eu construo minha autonomia na medida que estruturo minha liberdade na e Em-Relação com a cultura e com os outros.

A estruturação da autonomia nos molda o comportamento através da maneira determinada como nos é sugerido relacionar com a cultura e com os outros.

Em muitos artigos que li, principalmente aqueles balizados por teorias Sócio-Cognitivas, o entendimento é de que a liberdade é uma tendência inata do ser-humano que precisa se relacionar com limites para se estruturar Em-Relação, e daí se discute a função da autoridade para a educação e outras questões importantes. Orientado politica e filosoficamente por tendências críticas, me sinto comprometido com a pergunta: Que, define os limites para a estruturação da liberdade dos nossos alunos, na escola? Com que propósitos? Quem define os limites que balizam a estruturação da liberdade (e da autonomia) das pessoas nos territórios dos movimentos sociais? Com que propósitos? Estes limites são frutos de uma relação necessária com o meio natural e social, ou na verdade esconde em seu bojo interesses de exploração e conquista do Eu?

O Brasil acordou! Quem acordou no Brasil, não acordou por que estava dormindo, por que teve tantos privilégios que pode ter se dado o luxo de dormir? E aqueles que nunca dormiram no Brasil? Como estão sendo moldadas as subjetividades e o senso de autonomia nos territórios do ativismo por justiça e direitos humanos.

Penso que estes são elementos que podem nos dar subsídios para uma intervenção pedagógica crítica. Ainda, contribuem muito para melhor compreensão da lógica de apropriação privada do conhecimento e para o fortalecimento da Teoria Geral da Educação Social, a Pedagogia Social.

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Algumas palavras sobre Praticismo Revolucionário, demandas imediatas e a urgência de um Projeto Político

José Evaristo Silvério Netto

(responsabilidade do autor)

Construção de Acúmulos e debate sobre a práxis:
Crítica ao Praticismo Revolucionário
, texto do professor Sergio Lessa (Universidade Federal de Alagoas)

O texto aborda questões centrais para a tomada de consciência crítica sobre a militância social e as lógicas e armadilhas que podem nos conduzir a práticas contrarrevolucionárias. Nesta toada, a discussão que texto trás discorre sobre a “práxis stalinista e o novo militante”, “voluntarismo”, “o praticista e a teoria” (capítulos do texto) e a necessidade de síntese de teorias para a revolução. Entendo ser interessante, com base no texto, problematizar a militância submissa às demandas imediatas e pontuais, identificando o praticismo, o voluntarismo (cego, alienado) e a disputa burocratizada pelo poder nos partidos, sindicatos e outras esferas dos aparelhos políticos, como importantes fatores limitantes à luta de massas contra a exploração racista e capitalista. Os fragmentos a seguir trazem focos discursivos interessantes para atiçar a libido:

 

Desconhecedores da história, mesmo da história brasileira mais recente, os praticistas são incapazes de um projeto estratégico. Não lhes resta outra alternativa, por isso, senão responder aos acontecimentos correndo atrás dos fatos como jumentos atrás da cenoura: não há possibilidade de alcançá-los (pag. 12).

 

Como toda ação é desprovida de uma orientação estratégica, apenas um enorme volume de prática pode manter o militante à tona na luta política. Busca-se, antes de mais nada, conquistar ou manter «postos» em sindicatos, associações ou no poder Legislativo e Executivo. Isto requer uma politicagem cotidiana, de conchavos e articulações, que exaure as suas energias. Além disso, nas «frentes de massa», a luta por um lugar ao sol não é menos esgotante, tornando o cotidiano impermeável à «prática teórica». Ao invés do revolucionário elevar o nível teórico das massas oprimidas (ou, se isto não é possível em todos os momentos históricos, ao menos de suas lideranças), o praticista termina por se rebaixar ao nível cultural a que a alienação burguesa reduziu os trabalhadores. Desse modo, os pretensos revolucionários –tal como ocorreu no stalinismo — são individualidades cuja reprodução social se dá sem qualquer reflexão teórica digna do nome. Cegos, sem enxergarem a essência da realidade, articulam suas atividades tendo por eixo aspectos fugazes, fenomênicos, secundários, do processo histórico: o reformismo a que nos referimos acima se articula, de forma reflexivamente determinante, a uma prática ineficiente, tanto do ponto de vista reformista como do revolucionário (pag. 13).

 

Os debates e a construção coletiva de conhecimento para a práxis da militância, focando não só no acúmulo teórico, e menos ainda somente na contemplação das demandas de ordem prática e imediata e no acúmulo de intervenções políticas na prática, mas sim na construção de um projeto político coerente e com intenções revolucionárias evidentes que subsidiem a intervenção prática de rua, é fundamental para entendermos a influência do stalinismo e comunismo vulgar na prática militante contemporânea e para superarmos esta condição.

Uma forma de subverter esta prática contrarrevolucionária é através de uma produção teórica suficientemente radical e significativa que subsidie uma prática revolucionária. Identifico o Projeto Político como esta produção teórica que, se construída coletivamente, se estiver coerente com a história e de fato orientada aos interesses e a uma direção transgressora da lógica geradora das desigualdades, irá nos orientar e respaldar nas intenções e ações, não para nos prender em uma camisa de força dogmática, mas para nos situar no tempo e no espaço de forma coerente e produtiva para o enfrentamento da exploração racista e capitalista.