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Marxismo e Libertação Africana

Discurso de Walter Rodney No Queen’s College, em Nova York, EUA, em 1975

Primeiro de tudo, devemos entender o pano de fundo para este tipo de debate. Quando algu√©m √© solicitado a falar sobre a relev√Ęncia do marxismo para a √Āfrica, neste momento em particular, est√° sendo convidada a se envolver em um debate hist√≥rico, um debate em curso neste pa√≠s,particularmente entre a popula√ß√£o negra. √Č um debate que se intensificou no √ļltimo ano e, a partir de minhas pr√≥prias observa√ß√Ķes, est√° sendo travado em um grande n√ļmero de lugares em todo o pa√≠s.

√Äs vezes aparece sob o disfarce do chamado nacionalismo versus marxismo; √†s vezes aparece sob o disfarce daqueles que afirmam defender uma posi√ß√£o de classe em oposi√ß√£o √†queles que afirmam defender uma posi√ß√£o de ra√ßa. Assim, n√£o seria poss√≠vel para n√≥s, em uma √ļnica sess√£o, entrar em todas as ramifica√ß√Ķes desse debate, mas ele forma o pano de fundo para nossa discuss√£o.

√Č um debate importante. √Č um fato importante que tais quest√Ķes est√£o sendo debatidas neste pa√≠s hoje, assim como est√£o sendo debatidas na √Āfrica, na √Āsia, na Am√©rica Latina e em muitas partes do mundo metropolitano na Europa Ocidental e no Jap√£o. Porque a natureza difundida do debate e sua intensidade neste momento √© um reflexo da crise no modo de produ√ß√£o capitalista-imperialista. Id√©ias e discuss√Ķes n√£o caem do c√©u. N√£o h√° simplesmente um enredo por parte de certos indiv√≠duos para envolver os outros em um debate sem sentido.

Seja qual for o resultado do debate, seja qual for a postura adotada pelos diferentes participantes, o pr√≥prio fato do debate √© representativo da crise no capitalismo e no imperialismo de hoje; e √† medida que a crise se aprofunda, as pessoas acham cada vez mais dif√≠cil aceitar os velhos modos de pensamento que racionalizam o sistema que est√° em colapso. Da√≠ a necessidade de buscar novas dire√ß√Ķes e, muito claramente, o marxismo, o socialismo cient√≠fico se apresenta como uma das mais √≥bvias das op√ß√Ķes dispon√≠veis.

A quest√£o n√£o √© nova para a √Āfrica ou para o povo negro como um todo – isso √© talvez essencial para entender. Muitos de n√≥s levantamos antes da quest√£o da relev√Ęncia do marxismo para isto ou aquilo. Sua relev√Ęncia para a Europa; muitos intelectuais europeus debateram sua relev√Ęncia para sua pr√≥pria sociedade. Sua relev√Ęncia para a √Āsia foi debatida pelos asi√°ticos. Sua relev√Ęncia para a Am√©rica Latina foi debatida pelos latino-americanos. Indiv√≠duos h√° muito tempo debatem a relev√Ęncia do marxismo para o seu pr√≥prio tempo. Foi relevante para o s√©culo XIX? Em caso afirmativo, ainda era relevante para o s√©culo XX? Pode-se debater sua relev√Ęncia para uma dada faceta da cultura da sociedade ou para a lei ou cultura da sociedade como um todo.

Todas essas s√£o quest√Ķes que foram debatidas antes e devemos ter algum senso de hist√≥ria quando abordarmos essa quest√£o hoje, porque com esse senso de hist√≥ria podemos perguntar, por que a quest√£o da relev√Ęncia do marxismo para a sociedade sempre surge?E, em uma resposta muito breve, eu sugeriria que o que √© comum √† aplica√ß√£o da quest√£o √©, antes de tudo, uma condi√ß√£o de luta, uma condi√ß√£o na qual as pessoas est√£o insatisfeitas com o modo dominante de perceber a realidade.

Nesse ponto, eles perguntam sobre a relev√Ęncia do marxismo.

Mais do que isso, a segunda condi√ß√£o √© que as pessoas fa√ßam a pergunta por causa de sua pr√≥pria estrutura burguesa. Come√ßamos localizados dentro do modo dominante de racioc√≠nio, que √© o modo de racioc√≠nio que sustenta o capitalismo e que chamaremos de estrutura burguesa de percep√ß√£o. E porque se come√ßa assim, torna-se necess√°rio levantar a quest√£o sobre a relev√Ęncia do marxismo.

Depois de avan√ßar, √© provavelmente mais preciso levantar a quest√£o da relev√Ęncia do pensamento burgu√™s, porque o sapato estaria no outro p√©!

Mas, inicialmente, √© verdade que, por mais que a burguesia discorde, h√° um fio condutor comum a todo pensamento burgu√™s: eles fazem causa comum ao questionar a relev√Ęncia, a l√≥gica e assim por diante do pensamento marxista. E, portanto, em certo sentido, infelizmente, quando fazemos essa pergunta, tamb√©m nos encaixamos nessa estrutura e padr√£o. Tamb√©m estamos, de alguma forma, ainda inseridos em maior ou menor grau no quadro do pensamento burgu√™s e, a partir desse quadro, pedimos com grande hesita√ß√£o e incerteza – qual √© a relev√Ęncia do marxismo?

Isso √© particularmente verdadeiro em nossa parte do mundo, isto √©, na parte de l√≠ngua inglesa do mundo, porque a tradi√ß√£o anglo-americana √© de intensa hostilidade, filosoficamente falando, em dire√ß√£o ao marxismo, uma hostilidade que se manifesta de uma maneira peculiar. . Ela se manifesta tentando dissociar-se at√© mesmo do estudo do marxismo. Se voc√™ verificasse a tradi√ß√£o continental na Europa, descobriria que n√£o √© a mesma coisa. Os intelectuais franceses, alem√£es e belgas, qualquer que seja sua perspectiva, compreendem a import√Ęncia do marxismo. Eles estudam, eles se relacionam com isso, eles entendem o corpo do pensamento que √© chamado marxismo e eles tomam uma posi√ß√£o em rela√ß√£o √†quele corpo de pensamento.

Na tradi√ß√£o inglesa, que tamb√©m foi transmitida a essa parte do mundo, ao Caribe, a muitas partes da √Āfrica, est√° na moda negar qualquer conhecimento do marxismo. √Č moda gloriar-se na pr√≥pria ignor√Ęncia, dizer que somos contra o marxismo. Quando pressionado sobre isso, diz – mas por que se preocupar em l√™-lo? √Č obviamente absurdo.

Assim, sabe-se que √© absurdo sem l√™-lo e n√£o se l√™ porque se sabe que √© absurdo e, portanto, se gloria na pr√≥pria ignor√Ęncia da posi√ß√£o.

√Č bastante dif√≠cil abordar seriamente a quest√£o da relev√Ęncia do marxismo, a menos que se fa√ßa o m√≠nimo b√°sico de aceitar que se deve tentar entrar nesse corpo inteiro de pensamento, porque √© um tremendo corpo de literatura e an√°lise, e do lado de fora, por assim dizer, √© extremamente dif√≠cil.

Na verdade, eu diria que √© in√ļtil, estritamente de fora, sem nunca ter tentado lidar com o que √©, para perguntar qual √© a sua relev√Ęncia. √Č quase uma quest√£o sem resposta; e penso, com toda a mod√©stia, que para aqueles de n√≥s que vieram de um certo background (e todos n√≥s viemos desse background), uma das primeiras coisas que temos que fazer √© estabelecer uma base de familiaridade com as diferentes tradi√ß√Ķes intelectuais, e √† medida que nos familiarizamos com eles, podemos estar em melhor posi√ß√£o para avaliar a relev√Ęncia ou a irrelev√Ęncia do marxismo, conforme o caso.

Partirei da suposi√ß√£o de que o que estamos tentando discernir nessa discuss√£o √© se as variantes de tempo e lugar s√£o relevantes ou, deixe-me colocar de outra forma, se as variantes de tempo e lugar fazem diferen√ßa para se o marxismo √© relevante ou n√£o. De certo modo, quase ter√≠amos que assumir sua validade para o lugar em que se originou, a Europa Ocidental. N√≥s n√£o temos tempo para lidar com isso em detalhes. Mas podemos ent√£o perguntar, assumindo que o marxismo tem uma relev√Ęncia, tem um significado, tem uma aplicabilidade na Europa Ocidental, ou teve no s√©culo XIX, at√© que ponto sua validade se estende geograficamente? At√© que ponto a sua validade se estende ao longo do tempo?

Estas s√£o as duas vari√°veis, tempo e lugar; e essas podem ser traduzidas para significar circunst√Ęncias hist√≥ricas, tempo – e cultura que significa o lugar, e quais condi√ß√Ķes sociais e culturais existem em cada lugar espec√≠fico. Para n√≥s, para torn√°-lo mais preciso, os negros, sem d√ļvida os negros bem-intencionados, questionam se uma ideologia que foi gerada historicamente dentro da cultura da Europa Ocidental no s√©culo XIX √©, hoje, no terceiro trimestre do s√©culo XX, ainda v√°lida para outra parte do mundo, ou seja, a √Āfrica, ou o Caribe, ou negros neste pa√≠s; se √© v√°lido para outras sociedades em outros momentos. E este √© o tipo de formula√ß√£o que desejo apresentar para discuss√£o.

A Metodologia do Marxismo

A grande contribuição de Marx foi sua fantástica crítica de uma sociedade existente, a sociedade capitalista. Como surgiu em uma parte específica do mundo? A grande maioria de sua literatura diz respeito a essa questão.

Eu sugeriria duas raz√Ķes b√°sicas pelas quais acredito que o pensamento marxista, o pensamento socialista cient√≠fico, existiria em diferentes n√≠veis, em diferentes momentos, em diferentes lugares e manteria seu potencial como uma ferramenta, como um conjunto de concep√ß√Ķes que as pessoas deveriam compreender.

A primeira é olhar para o marxismo como uma metodologia, porque uma metodologia seria, virtualmente por definição, independente de tempo e lugar. Você usará a metodologia a qualquer momento, em qualquer lugar. Você pode obter resultados diferentes, é claro, mas a metodologia em si seria independente de tempo e lugar.

E, essencialmente, para me engajar em uma apresenta√ß√£o bastante truncada do marxismo, inevitavelmente simplificando demais, mas necess√°ria no contexto de tempo limitado, eu sugeriria que, uma das bases reais do pensamento marxista √© que ele parte de uma perspectiva da rela√ß√£o do homem com o mundo material; e que o marxismo, quando surgiu historicamente, dissociou-se conscientemente e op√īs-se a todos os outros modos de percep√ß√£o que come√ßaram com ideias, conceitos e palavras; e enraizou-se nas condi√ß√Ķes materiais e nas rela√ß√Ķes sociais na sociedade.

Essa √© a diferen√ßa com a qual vou come√ßar. Uma metodologia que inicia sua an√°lise de qualquer sociedade, de qualquer situa√ß√£o, buscando as rela√ß√Ķes que surgem na produ√ß√£o entre os homens. H√° toda uma variedade de coisas que decorrem disso: a consci√™ncia do homem √© formada na interven√ß√£o na natureza; a pr√≥pria natureza √© humanizada por sua intera√ß√£o com o trabalho do homem; e o trabalho do homem produz um fluxo constante de tecnologia que, por sua vez, cria outras mudan√ßas sociais.

Então este é o cerne da percepção Cientista Socialista. Uma metodologia que se dedica à relação do homem no processo de produção com base na suposição, que eu considero uma suposição válida, de que a produção não é apenas a base da existência do homem, mas a base para definir o homem como um tipo especial de ser com uma certa consciência.
√Č somente atrav√©s da produ√ß√£o que a ra√ßa humana se diferencia do resto dos primatas e do resto da vida.

O que o marxismo se op√Ķe? Ela se coloca contra v√°rias hip√≥teses, v√°rias vis√Ķes do mundo que come√ßam com palavras e conceitos. Para aqueles que est√£o familiarizados com a pr√≥pria evolu√ß√£o de Marx, √© bem sabido que ele come√ßou olhando primeiro para Hegel, um analista muito plaus√≠vel e perceptivo do s√©culo XIX que era culpado, na pr√≥pria avalia√ß√£o de Marx, de propor uma posi√ß√£o inteiramente idealista, que colocava ideias no centro do universo e via o mundo material virtualmente derivado dessas ideias.

Pensando nisso, senti que n√£o iria entrar em Hegel, mas eu iria para al√©m de Hegel. Para uma exposi√ß√£o cl√°ssica da vis√£o de mundo idealista. Eu tomo isso do Novo Testamento, o Livro de Jo√£o, onde ele afirmou: “No princ√≠pio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus. E o Verbo era Deus”. Essa √© a exposi√ß√£o cl√°ssica da posi√ß√£o idealista. Voc√™ tira todas as outras coisas de l√°: a Palavra era Deus!

Mas estamos sugerindo que a palavra √© em si uma emana√ß√£o da atividade das pessoas, na medida em que elas tentam se comunicar umas com as outras, √† medida que desenvolvem as rela√ß√Ķes sociais fora da produ√ß√£o e que n√£o devemos ser mistificados com palavras. Naturalmente, teremos que lidar com conceitos e com a for√ßa da consci√™ncia, que √© uma for√ßa muito poderosa e que at√© mesmo alguns marxistas foram tentados a subestimar.

Agora, Marx, seguindo essa ampla estrutura metodológica, tentou aplicá-lo à Europa Ocidental. Ele aplicou a uma série de sociedades em diferentes lugares e em diferentes momentos; mas ele concentrou sua atenção na Europa Ocidental. Se você examinar o corpo da literatura produzida por Marx e Engels, descobrirá que eles falam sobre escravidão, sobre a sociedade comunal, sobre o feudalismo, mas, em geral, concentram-se no capitalismo. Eles quase nem falam sobre socialismo.

A grande contribuição de Marx foi sua fantástica crítica de uma sociedade existente, a sociedade capitalista. Como surgiu em uma parte específica do mundo? A grande maioria de sua literatura diz respeito a essa questão.

Mas, como eu disse quando me referi à sociedade pré-capitalista, especialmente ao feudalismo, eles falaram sobre algumas outras partes do mundo. Ocasionalmente, Marx menciona o modo de produção asiático. Ocasionalmente, ele se deparou com os dados sobre os Estados Unidos. Então, ele tinha uma abrangência geográfica em um longo período de tempo.

Mas foi t√£o m√≠nimo em compara√ß√£o com a maior parte de seu trabalho que √© verdade que muitas pessoas tomaram o m√©todo e suas conclus√Ķes de Marx e os viram como uma e a mesma coisa – que o marxismo n√£o √© apenas uma certa metodologia aplicada a Europa Ocidental, mas √© em si uma ideologia sobre a Europa Ocidental, sobre o capitalismo no s√©culo XIX e n√£o pode transcender essas fronteiras, quando claramente Marx estava fazendo o trabalho que tinha que fazer. Ele estava olhando para sua pr√≥pria sociedade, ele estava fazendo isso sob algumas das condi√ß√Ķes mais adversas, ele estava fazendo isso dominando o conhecimento burgu√™s e colocando-o a servi√ßo da mudan√ßa e da revolu√ß√£o.

Eu sugeriria, então, que o método fosse independente de tempo e lugar. Está implícito em Marx e se torna explícito no desenvolvimento pós-marxista, usando marxiano no sentido literal da vida do próprio Marx. Após a morte de Marx, você terá a evolução ou o desenvolvimento do pensamento socialista científico com outros indivíduos, reconhecendo que a metodologia pode ser aplicada, deve ser aplicada em diferentes momentos a diferentes lugares.

Mais uma vez, apresentando nossa hist√≥ria de forma muito abreviada, podemos olhar para Lenin, em sua aplica√ß√£o da teoria marxista √† sociedade russa. Essa √© uma de suas principais contribui√ß√Ķes. A primeira grande tese do jovem Lenin foi o desenvolvimento do capitalismo na R√ļssia. Ele teve que lidar com sua pr√≥pria sociedade. Ele teve que tirar essas formula√ß√Ķes do contexto cultural e hist√≥rico espec√≠fico da Europa Ocidental e olhar para a Europa Oriental, na R√ļssia, que estava evoluindo de forma diferente, e aplic√°-las √† sua pr√≥pria sociedade. Isso ele fez.

Ele tinha ao mesmo tempo que considerar a dimensão do tempo que no século XIX Marx estava escrevendo sobre o que agora veio a ser chamado de período clássico do capitalismo, a versão empreendedora do capitalismo, e no final do século XIX isso deu lugar a capitalismo monopolista. Deu lugar ao imperialismo. Então Lenin teve que lidar com esse método aplicando-o a uma nova dimensão no tempo. Então ele escreveu sobre o capitalismo em seu estágio imperialista.

Ent√£o essas s√£o as duas variantes que operam: a ideologia; a metodologia disso (vamos nos ater √† metodologia por enquanto) sendo aplicada a diferentes sociedades em diferentes est√°gios. Tendo feito o ponto para Lenin, espero que fique claro para um n√ļmero de pessoas: Mao Ts√© Tung aplicando-o √† sociedade chinesa, que era uma sociedade diferente da sociedade russa. Compreender a din√Ęmica interna da sociedade chinesa, relacionando-se com a quest√£o do campesinato de uma forma diferente e mais profunda do que qualquer escritor anterior, porque essa era a natureza da sociedade chinesa e ele tinha se dedicado a isso.

E finalmente, para os nossos prop√≥sitos, o exemplo mais importante, o exemplo de Am√≠lcar Cabral, porque ele estava lidando com a √Āfrica. Cabral, em um de seus ensaios, o intitulado A Arma da Teoria , se bem me lembro, de um de seus ensaios mais importantes; Come√ßou por deixar claro que o melhor que podia fazer era voltar √† metodologia b√°sica de Marx e Engels. Mas n√£o foi poss√≠vel a Cabral iniciar a an√°lise da hist√≥ria da Guin√©-Bissau dizendo: “Vou procurar classes”, por exemplo. Ele disse. “se eu disser isso, negarei que meu povo tenha alguma hist√≥ria porque n√£o percebo as classes por um longo per√≠odo na g√™nese do meu pr√≥prio povo”:

Em seguida, ele se referiu √† afirma√ß√£o cl√°ssica de Marx e Engels de que “a hist√≥ria de todas as sociedades existentes √© a hist√≥ria da luta de classes”, √† qual Engels anexou uma nota dizendo que “toda a hist√≥ria” significa “toda hist√≥ria registrada anteriormente”. Acontece que a hist√≥ria do povo da Guin√©-Bissau n√£o foi registrada e Cabral diz: “Quero registrar essa hist√≥ria. Usaremos o m√©todo marxiano. N√£o seremos amarrados pelo conceito que surgiu historicamente na Europa Ocidental, quando Marx estava estudando essa sociedade “.

Marx usa o m√©todo e ele discerniu a evolu√ß√£o das classes e do pr√≥prio fen√īmeno das classes como sendo um dos principais determinantes, o principal determinante na hist√≥ria da Europa Ocidental em um determinado ponto no tempo. Cabral diz que vamos come√ßar no come√ßo. N√≥s nem nos preocuparemos inicialmente com as classes. Vamos simplesmente olhar para os homens no processo de produ√ß√£o. Veremos os modos de produ√ß√£o na hist√≥ria da Guin√© e veremos como nossa sociedade evoluiu. Ent√£o, sem muita fanfarra, ele mostrava a relev√Ęncia dessa metodologia para a sociedade africana.

Se, e quando, na hist√≥ria da Guin√©-Bissau, o aspecto da classe parece ter import√Ęncia hist√≥rica, Cabral tratou disso. At√© esse momento, ele simplesmente aderiu √† base da metodologia marxista que era olhar para o povo guineense no processo de produ√ß√£o, nos v√°rios modos de produ√ß√£o, forma√ß√Ķes sociais, forma√ß√Ķes culturais que surgiram historicamente e a dire√ß√£o na qual a sociedade estava tendendo.

Em muitos aspectos, quando fazemos a pergunta hoje sobre a relev√Ęncia do marxismo para os negros, j√° alcan√ßamos uma posi√ß√£o minorit√°ria, por assim dizer. Muitos dos envolvidos no debate apresentam o debate como se o marxismo fosse um fen√īmeno europeu e os negros que o respondem devem necessariamente ser alienados porque a aliena√ß√£o da ra√ßa deve entrar na discuss√£o.

Eles parecem n√£o levar em conta que essa metodologia e essa ideologia foram utilizadas, internalizadas, domesticadas em grandes partes do mundo n√£o europeu.

Que j√° √© a ideologia de oitocentos milh√Ķes de chineses; que j√° √© a ideologia que orientou o povo vietnamita para uma luta bem sucedida e para a derrota do imperialismo. Que j√° √© a ideologia que permite √† Coreia do Norte transformar-se de um terreno retr√≥grado, quase feudal e quase colonial numa pot√™ncia industrial independente. Que j√° √© a ideologia adotada na Am√©rica Latina, continente que serve de base para o desenvolvimento na Rep√ļblica de Cuba. Que j√° √© a ideologia usada por Cabral, usada por Samora Machel, que est√° em uso no pr√≥prio continente africano para sublinhar a luta e a constru√ß√£o de uma nova sociedade.

Por conseguinte, n√£o pode ser considerado um fen√īmeno europeu; e o √īnus certamente ser√° daqueles que argumentam que esse fen√īmeno, que j√° se universalizou, √© de algum modo inaplic√°vel a alguns negros. O √īnus sobre esses indiv√≠duos, eu sugiro, √© mostrar alguma raz√£o, talvez gen√©tica, por que os genes dos negros rejeitam essa posi√ß√£o ideol√≥gica.

Quando investigamos e tentamos centralizar ou manter central o conceito de relev√Ęncia, devemos nos questionar sobre o presente. Em que tipo de sociedade vivemos hoje? Em que tipo de sociedade os negros vivem hoje em diferentes partes do mundo? E enquanto, naturalmente, n√≥s, como negros neste pa√≠s, no Caribe e em diferentes partes da √Āfrica, temos nossa pr√≥pria experi√™ncia hist√≥rica independente, um dos fatos centrais √© que estamos todos de uma forma ou de outra, localizados dentro do sistema de produ√ß√£o capitalista.

A sociedade sobre a qual Marx escreveu, atrav√©s de um processo de crescimento, dominou a √Āfrica e as Am√©ricas na era do mercantilismo, per√≠odo em que o capitalismo estava amadurecendo. Dominou essas partes do mundo, e criou a sociedade escravista nas Am√©ricas.

Ap√≥s a era dos escravos, o capitalismo, ainda mais poderoso, foi capaz de incorporar o mundo inteiro em uma rede global de produ√ß√£o derivada da Europa Ocidental e da Am√©rica do Norte, um sistema que tinha um centro metropolitano ou conjunto de centros metropolitanos, e um conjunto de periferias, col√īnias e semi-col√īnias.

De modo que todos n√≥s, historicamente, fomos incorporados ao sistema capitalista de produ√ß√£o, e essa √© outra dimens√£o da relev√Ęncia do marxismo.

Mesmo sem a tradução em termos de tempo e lugar, parece-me que, se nos tornamos parte do mundo capitalista-imperialista, então devemos a nós próprios relacionar-nos, seguir, compreender e, esperançosamente, adotar e adaptar uma crítica a esse sistema capitalista porque é essencialmente sobre isso que trata a escrita de Marx. Ele estava criticando esse sistema capitalista. Ele fez isso da forma mais eficaz do que qualquer escritor burguês, e se quisermos entender o mundo em que vivemos, que é o mundo dominado pelo capitalismo, então precisamos entender o centro desse sistema, o motor dentro desse sistema, os tipos de exploração que se encontram no modo de produção capitalista. Então isso é outro fator.

O marxismo como ideologia revolucion√°ria

Minha segunda consideração após a metodologia (e originalmente sugeri que havia duas coisas básicas, e uma era a metodologia), é olhar para o marxismo como uma ideologia revolucionária e como uma ideologia de classe.

Nas sociedades de classes, todas as ideologias s√£o ideologias de classe. Todas as ideologias derivam e suportam alguma classe particular. Ent√£o, para todos os prop√≥sitos pr√°ticos, crescemos na sociedade capitalista, e a ideologia burguesa √© dominante em nossa sociedade. Essas institui√ß√Ķes nas quais atuamos foram criadas para servir √† cria√ß√£o de id√©ias como mercadorias, id√©ias que fortalecer√£o o sistema capitalista.

Agora, eu sugeriria, historicamente, como Marx sugeriu, que o conjunto de idéias que chamamos de Socialismo Científico surgiu na sociedade capitalista para falar ao interesse dos produtores daquela sociedade, para falar aos interesses daqueles que são explorados e expropriados, para falar do interesse do oprimido, do alienado culturalmente; e devemos entender que dos dois grandes conjuntos de idéias diante de nós, idealismo e materialismo, filosofia burguesa e filosofia marxista, cada um dos dois é representativo de uma classe particular.

Eu n√£o tenho tempo para entrar em todas as ra√≠zes hist√≥ricas da forma√ß√£o do socialismo, mas brevemente, no s√©culo 19, foi na ascens√£o da sociedade capitalista que as condi√ß√Ķes foram criadas para o desenvolvimento de id√©ias socialistas. Das id√©ias socialistas diversas e n√£o sistematizadas, Marx foi capaz de formular uma teoria clara e sistem√°tica – o socialismo cient√≠fico. -Tinha uma base de classe em particular e porque tinha essa base de classe em particular, era revolucion√°ria, e procurou transformar as rela√ß√Ķes na sociedade.

A ideologia burguesa necessariamente preserva o status quo. Procura conservar, busca fortalecer o sistema de produ√ß√£o dado, as rela√ß√Ķes que fluem, e as rela√ß√Ķes que fluem de um certo sistema de produ√ß√£o.

Uma posi√ß√£o socialista cient√≠fica √© e continua a ser revolucion√°ria, porque visa conscientement minar o sistema de produ√ß√£o e as rela√ß√Ķes pol√≠ticas que decorrem dela. Isto √© o que quero dizer com revolucion√°rio.

De tempos em tempos, surgem marxistas que tentaram negar ou desmentir o marxismo de seu conte√ļdo revolucion√°rio. Isso √© verdade. H√° marxistas que se tornaram marxistas legais ou de bra√ßos cruzados, que gostariam de ver o marxismo como apenas outra variante da filosofia e trat√°-lo de uma maneira muito ecl√©tica, como se algu√©m estivesse livre para usar o marxismo como se fosse do pensamento grego equivalente, sem olhar para a base de classe e sem olhar se uma ideologia √© favor√°vel ao status quo ou n√£o.

No entanto, em geral, podemos ver o marxismo e o socialismo cient√≠fico como subversivos e antit√©ticos √† manuten√ß√£o do sistema de produ√ß√£o em que vivemos. Porque as id√©ias, deixe-me repetir, n√£o flutuam no c√©u, elas n√£o flutuam na atmosfera, elas est√£o relacionadas a rela√ß√Ķes concretas de produ√ß√£o. As id√©ias burguesas derivam das rela√ß√Ķes burguesas de produ√ß√£o. Eles s√£o destinadas a conservar e manter essas rela√ß√Ķes de produ√ß√£o. Id√©ias socialistas derivam da mesma produ√ß√£o, mas derivam de um interesse de classe diferente e seu objetivo √© derrubar esse sistema de produ√ß√£o

√Āfrica e Socialismo Cient√≠fico

As pessoas n√£o t√™m dificuldade em se relacionar com a eletricidade, mas dizem: “Marx e Engels, isso √© europeu!” Edison era racista? Mas eles fazem a pergunta: “Marx era racista?” Eles acreditam genuinamente que est√£o fazendo uma distin√ß√£o fundamental, ao passo que, na verdade, est√£o obscurecendo a totalidade do desenvolvimento social.

Mais uma vez, sugiro que os povos africanos, como outras pessoas do Terceiro Mundo, têm virtualmente um interesse no socialismo científico, porque se oferece a eles como uma arma da teoria. Oferece-se a eles como essa ferramenta, ao nível das ideias, que será utilizada para desmantelar a estrutura imperialista capitalista. Essa é a sua preocupação.

Com o que tentarei lidar da melhor maneira poss√≠vel, algumas perguntas surgem de indiv√≠duos que podem dizer sim √† maior parte do que eu disse e depois fazem a pergunta: “N√£o h√° outra alternativa? N√£o h√° outro sistema ideol√≥gico?” que n√£o √© nem capitalista nem socialista, mas √© anticapitalista, mas se dirige mais humanamente, se quiser, ao interesse dos africanos onde quer que estejam? “

Vale a pena investigar essas quest√Ķes porque h√° pessoas negras fazendo essas perguntas e temos que tentar resolv√™-las. Minha pr√≥pria formula√ß√£o ser√° sugerir que examinemos exemplos concretos de africanos ou negros que tentaram conceber sistemas que eles consideram ser n√£o-capitalistas e n√£o-socialistas, sistemas para os quais consideram alternativas v√°lidas. Socialismo Cient√≠fico para a emancipa√ß√£o do Povo africano.

Nesse sentido, temos v√°rios pan-africanistas, v√°rios nacionalistas africanos na √Āfrica, no Caribe e neste pa√≠s, que tomaram esse caminho. George Padmore fez isso no final de sua vida e fez uma distin√ß√£o entre o socialismo cient√≠fico e o pan-africanismo. Ele disse que este √© o caminho que seguiremos: o pan-africanismo. N√≥s n√£o queremos ir por esse caminho que √© capitalista, n√≥s n√£o queremos ir pelo caminho socialista, n√≥s iremos derivar para n√≥s mesmos algo que √© pan-africano.

De certo modo, Nkrumah seguiu isto; e embora em um momento ele se chamasse marxista, ele sempre teve o cuidado de qualificar isso dizendo que ele também era protestante. Ele acreditava no protestantismo, ao mesmo tempo. Então, ele estava tentando montar dois mundos ao mesmo tempo Рo mundo que diz no começo era a matéria e o mundo que diz que no começo havia a palavra.

E inevitavelmente ele caiu entre os dois. √Č imposs√≠vel ficar entre os dois. Mas l√° estava ele, e devemos conceder sua honestidade e devemos conceder a honestidade de muitas pessoas que tentaram fazer essa tarefa imposs√≠vel e segui-las para descobrir por que falharam.

Eles fracassaram porque sua concepção do que era uma variante diferente do pensamento burguês e diferente do pensamento socialista inevitavelmente acabou sendo apenas outro ramo do pensamento burguês.

E esse era o problema, que o pensamento burguês e, na verdade, o pensamento socialista, quando chegamos a ele, pode ter uma variedade de desenvolvimentos ou estradas e aspectos ou caminhos. Com o pensamento burguês, por causa de sua natureza caprichosa, e por causa do modo como induz os excêntricos, você pode ter qualquer estrada, porque, afinal, quando não está indo a nenhum lugar, pode escolher qualquer caminho!

Ent√£o, era poss√≠vel que esses indiv√≠duos fizessem o que considero uma genu√≠na tentativa de romper com o dom√≠nio do pensamento burgu√™s e, ainda assim, descobrir, em √ļltima an√°lise, que eles haviam simplesmente abra√ßado outra manifesta√ß√£o daquilo que eles mesmos sugeriram que estavam confrontando no in√≠cio.

Há vários exemplos, alguns mais aptos que outros. Alguns dos exemplos, na verdade, são africanos que eu acho que foram flagrantemente desonestos desde o começo. Eu acho que a maioria dos ideólogos do socialismo africano que afirmam encontrar um terceiro caminho são na verdade apenas trapaceiros baratos, que são trapaceiros que estão tentando a enganar a maioria da população. Eu não acho que eles estão fora para desenvolver o socialismo. Eu não acho que eles estão fora para desenvolver qualquer coisa que se dirija ao interesse do povo africano. Mas, no entanto, é parte da necessidade de nossos tempos que nosso povo não esteja mais disposto a aceitar qualquer coisa que não seja colocada sob o disfarce do socialismo.

E, portanto, eu não vou de fato ao socialismo africano. O que farei é dar exemplos daqueles que, na minha opinião, estavam falando sério, sendo honestos. E certamente Kwame Nkrumah era um desses. Nkrumah passou vários anos durante os anos 50 e, até quando foi derrubado Рisso cobriria pelo menos dez anos Рem que ele procurava uma ideologia. Ele começou com essa mistura de marxismo e protestantismo, ele falou sobre o pan-africanismo; ele foi para o Consciencismo e depois para o Nkrumahismo, e havia tudo que não fosse uma compreensão direta do socialismo.

Quais foram as consequ√™ncias reais dessa percep√ß√£o? Isso √© o que importa para n√≥s. Vamos supor que ele estava procurando por algo Africano e que ele estava tentando evitar a armadilha de adotar algo estranho. Quais foram as conseq√ľ√™ncias pr√°ticas dessa tentativa de dissociar-se de uma tradi√ß√£o socialista internacional? Vimos em Gana que Nkrumah se recusou a aceitar que havia classes, que havia contradi√ß√Ķes de classe em Gana, que essas contradi√ß√Ķes de classe eram fundamentais.

Durante anos, Nkrumah acompanhou essa miscel√Ęnea de filosofia que tomou algumas premissas socialistas, mas que ele se recusou a seguir at√© sua conclus√£o l√≥gica – que ou se tinha um sistema capitalista baseado na propriedade privada dos meios de produ√ß√£o e na aliena√ß√£o do produto do trabalho das pessoas, ou algu√©m tinha um sistema alternativo que era completamente diferente e que n√£o havia maneira de justapor e misturar esses dois para criar algo que fosse novo e vi√°vel.

Um teste mais significativo desta posi√ß√£o foi quando o pr√≥prio Nkrumah foi derrubado! Depois que ele foi derrubado, ele viveu na Guin√©-Konakry e antes de sua morte, ele escreveu um pequeno texto, a luta de classes na √Āfrica. N√£o √© o maior tratado filos√≥fico, mas √© historicamente importante, porque √© l√° que o pr√≥prio Nkrumah admite as consequ√™ncias enganosas de uma ideologia que defendia uma causa africana, mas que sentia, por raz√Ķes que ele n√£o entendia; uma necessidade hist√≥rica de separar-se do socialismo cient√≠fico. Isso indicava claramente as consequ√™ncias desastrosas dessa posi√ß√£o.

Porque Nkrumah negou a exist√™ncia de classes em Gana at√© que a pequena burguesia como classe o derrubou. E ent√£o, na Guin√©, ele disse que foi um erro terr√≠vel. Sim, existem classes na √Āfrica. Sim, a pequena burguesia √© uma classe com interesses fundamentalmente opostos aos trabalhadores e camponeses da √Āfrica. Sim, o interesse de classe da pequena burguesia √© o mesmo ou pelo menos est√° ligado ao interesse de classe do capital monopolista internacional; e, portanto, temos na √Āfrica uma luta de classes dentro do continente africano e uma luta contra o imperialismo.

E se quisermos transcender essas contradi√ß√Ķes, trazer a vit√≥ria e a emancipa√ß√£o aos trabalhadores, os produtores da √Āfrica, teremos que lidar com essa ideologia que, antes de tudo, reconhece e desafia a exist√™ncia de classes exploradoras e opressoras.

√Č um documento hist√≥rico muito importante. √Č o mais pr√≥ximo que Nkrumah chega a uma autocr√≠tica. √Č o registro de um nacionalista genu√≠no, um nacionalista africano que vagou por anos com essa suposi√ß√£o e sentindo que, de alguma forma, ele deveria dissociar-se de uma maneira ou de outra do Socialismo Cient√≠fico porque se originava fora dos limites de sua pr√≥pria sociedade e o medo de suas implica√ß√Ķes culturais.

Isso é colocá-lo da maneira mais caridosa. Mas o medo se deve, de fato, aos aspectos da ideologia burguesa. Devido ao fato de que ele fez uma distinção entre teoria social e teoria científica, que não é uma distinção necessária. Essa é a distinção que sai da história do pensamento burguês.

As pessoas parecem n√£o ter dificuldade em decidir que v√£o usar facetas da cultura material que se originou no Ocidente, seja originada na sociedade capitalista ou socialista. As pessoas n√£o t√™m dificuldade em se relacionar com a eletricidade, mas dizem: “Marx e Engels, isso √© europeu!” Edison era racista? Mas eles fazem a pergunta: “Marx era racista?” Eles acreditam genuinamente que est√£o fazendo uma distin√ß√£o fundamental, ao passo que, na verdade, est√£o obscurecendo a totalidade do desenvolvimento social. E as ci√™ncias naturais n√£o devem ser separadas das ci√™ncias sociais. Nossa interpreta√ß√£o da realidade social pode similarmente derivar uma certa lei hist√≥rica e, portanto, uma lei cient√≠fica da sociedade que pode ser aplicada independentemente de sua origem ou de seus originadores.

√Č claro que √© verdade, e esta √© a nota mais apropriada para terminar, que qualquer ideologia, quando aplicada, deve ser aplicada com sensibilidade. Deve ser aplicado com uma compreens√£o completa das realidades internas de uma determinada sociedade.

O marxismo vem ao mundo como um fato hist√≥rico, e vem em um nexo cultural. Se, por exemplo, africanos ou, voltemos aos asi√°ticos; quando os chineses pegaram os textos marxistas, eles eram textos europeus. Eles vieram carregados de concep√ß√Ķes do desenvolvimento hist√≥rico da pr√≥pria Europa. Assim, esse m√©todo e os dados factuais estavam obviamente entrela√ßados, e as conclus√Ķes estavam, de fato, em um cen√°rio hist√≥rico e cultural espec√≠fico.

Era tarefa dos chineses lidarem com isso e adaptá-lo e examiná-lo e ver como ele se aplicava à sua sociedade. Em primeiro lugar, para ser científico, significava ter em devida consideração as especificidades do desenvolvimento histórico e social chinês.

J√° citei Cabral em outro contexto e ele reaparece nesse contexto. O modo como ele est√° sempre a olhar para as particularidades do desenvolvimento de classes na Guin√©-Bissau contempor√Ęnea. Olhando para o potencial das classes na Guin√©-Bissau neste momento. E, portanto, ele est√°, √© claro, certificando-se de que o marxismo n√£o apare√ßa simplesmente como a soma da hist√≥ria de outras pessoas, mas apare√ßa como uma for√ßa viva dentro de sua hist√≥ria.

E esta é uma transformação difícil. Essa é a tarefa de qualquer um que se considera marxista. No entanto, por estar repleta de tantas dificuldades e obstáculos, muitas pessoas optam pelo caminho mais fácil, que consiste em tomá-lo como um produto acabado, em vez de um produto social contínuo que deve ser adaptado à sua própria sociedade.

Verifica-se que ao olhar para a teoria marxista, em sua relev√Ęncia para a ra√ßa, olhando para a relev√Ęncia da teoria marxista para a emancipa√ß√£o nacional, chegamos a um paradoxo muito importante. E √© isto: que o nacionalista, no sentido estrito da palavra, que √© o nacionalista pequeno-burgu√™s, que visa meramente a recupera√ß√£o da independ√™ncia nacional em nossa √©poca, √© incapaz de dar ao povo da √Āfrica ou aos povos do pa√≠s qualquer participa√ß√£o na democracia liberal.

O pequeno burguês não pode cumprir essas tarefas históricas. Pois a libertação nacional requer uma ideologia socialista. Nós não podemos separar os dois.

Mesmo para a liberta√ß√£o nacional na √Āfrica, a Guin√©-Bissau e Mo√ßambique demonstraram muito claramente a necessidade de um desenvolvimento ideol√≥gico, para a conscientiza√ß√£o, como se diz na Am√©rica Latina; e a luta nacionalista foi vencida porque veio sob a rubrica da perspectiva Cientista Socialista.

Como disse Cabral: “Pode haver revolu√ß√Ķes que tiveram uma teoria revolucion√°ria e que falharam. Mas certamente n√£o houve revolu√ß√£o que tenha conseguido sem uma teoria revolucion√°ria”.

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Claudia Jones: Desconhecida Pan-Africanista, Feminista e Comunista

O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu √† sua defesa para a liberta√ß√£o dos povos do Caribe e da √Āfrica do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons
O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu √† sua defesa para a liberta√ß√£o dos povos do Caribe e da √Āfrica do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons

Traduzido por Rafaela Araujo Santana ‚Äď Grupo Kilombagem

Por Ajamu Nangwaya

Jones utilizou o espaço organizacional do Partido Comunista para avançar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descolonização e na luta de classes.

Claudia Jones foi uma revolucion√°ria, cujo ativismo alcan√ßou dois continentes, Am√©rica do Norte e Europa. Claudia Vera Cumberbatch nasceu em 21 de fevereiro de 1915 em Belmont, Trinidad e Tobago, a terra que tem dado origem a importantes pol√≠ticos, como C.L.R. James, Eric Williams, George Padmore e Kwame Ture (anteriormente Stokely Carmichael). Ela e sua fam√≠lia foram for√ßados a migrar para Nova York durante os anos 1922-24, como resultado da dificuldade econ√īmica que eles experimentaram como membros da classe trabalhadora em Trinidad.

Ela adotou o sobrenome “Jones”, como uma medida de prote√ß√£o na realiza√ß√£o de seu trabalho organizado com o Partido Comunista dos EUA (CPUSA). Essa mudan√ßa de nome n√£o foi um incomum dada a histeria anticomunista e persegui√ß√£o dos comunistas nos Estados Unidos. Claudia faleceu na terra de seu ex√≠lio, na Gr√£-Bretanha, em 25 de dezembro de 1964. Curiosamente, o local final de descanso de Jones est√° localizado justamente a esquerda de Karl Marx, no cemit√©rio de Highgate, em Londres.

Ela contribuiu para o trabalho do Partido Comunista dos Estados Unidos – CPUSA como jornalista, editora, l√≠der, te√≥rica, educadora e organizadora de 1936 at√© sua deporta√ß√£o em dezembro de 1955. Ela trabalhou com o jornal do partido Di√°rio Trabalhador, serviu como a editora da Liga da Juventude Comunista (UJC), na Revis√£o Semanal, funcionava como a diretora estadual YCL da educa√ß√£o e presidente do estado, tornou-se um membro pleno da CPUSA em 1945, eleita para o Comit√™ Nacional do CPUSA em 1948, assumiu o papel de Secret√°ria de Comiss√£o da Mulher, CPUSA, e trabalhou em v√°rias fun√ß√Ķes em outras publica√ß√Ķes do partido. Claudia foi presa tr√™s vezes por causa de seu trabalho na CPUSA. Ela foi condenada sob a Lei Smith que visava os l√≠deres do CPUSA e serviu oito meses na pris√£o.

O Professor Errol Henderson da Universidade Estadual da Pensilv√Ęnia captura a relev√Ęncia pol√≠tica da Claudia:

“Ela foi brilhante e incisiva. Ela forneceu ao feminismo componente da an√°lise marxista juntamente com a incisiva incorpora√ß√£o da “cultura negra” de Haywood, no qual ela apoiou e estendeu … uma mente excepcional … e sua deporta√ß√£o para os EUA foi uma grande perda para a luta de liberta√ß√£o aqui, mas como um complemento para o Reino Unido, onde ela fez ainda mais contribui√ß√Ķes “.

Jones utilizou o espa√ßo organizacional do Partido Comunista estadunidense para avan√ßar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descoloniza√ß√£o e na luta de classes. Al√©m disso, ela usou suas v√°rias fun√ß√Ķes e recursos do partido comunista para avan√ßar na liberta√ß√£o das mulheres em geral e das mulheres afro-americanos da classe trabalhadora, em particular.

√Č uma grande injusti√ßa da hist√≥ria que o trabalho de Claudia Jones seja pouco conhecido entre os radicais que possam extrair ensinamentos da sua abordagem integrada para a elimina√ß√£o do racismo, capitalismo, patriarcado e imperialismo. Em um per√≠odo como nosso em que a pol√≠tica de identidade assume express√Ķes vulgares, √© fundamental para n√≥s destacar a contribui√ß√£o desta revolucion√°ria cujo ativismo foi guiado por um anticapitalista, exigente anti-opress√£o e orienta√ß√£o pol√≠tica anti-imperialista.

O Professor Carole Boyce Davies, em seu livro “A esquerda de Karl Marx: A vida pol√≠tica da Comunista negra Claudia Jones,” oferece uma raz√£o para a invisibilidade de Claudia:

“O estudo das mulheres negras comunistas permanece um dos mais negligenciados entre verifica√ß√£o contempor√Ęnea de mulheres negras para pelo menos, uma das raz√Ķes que Joy James identifica: O revolucion√°rio sob margem, mais do que qualquer outra forma o feminismo (negro). “Este tipo de neglig√™ncia pela maioria das acad√™micas feministas n√£o √© surpreendente. A maioria destas pesquisadoras burguesas n√£o s√£o socialistas / comunistas e, como tal, n√£o s√£o atra√≠dos para assuntos que est√£o associados com o comunismo.

A continua experiência de classe trabalhadora de Claudia e sua família na sociedade americana ajudou na formação da sua luta de classes, compromissos políticos feministas e antirracistas:

“Estava fora das minhas experi√™ncias de Jim Crow como uma jovem mulher negra, experi√™ncias igualmente nascido da pobreza da classe trabalhadora que me levou a juntar-se √† Uni√£o de Jovens Comunistas e escolher a filosofia da minha vida, a ci√™ncia do marxismo-leninismo – que a filosofia que n√£o s√≥ rejeita ideias racistas, mas √© a ant√≠tese deles. “

Como uma mulher africana da classe trabalhadora, a experi√™ncia vivida de Claudia lhe proporcionou um amplo entendimento do patriarcado. O exemplo mais claro de sua compreens√£o e an√°lise da opress√£o das mulheres africanas est√° presente no artigo ‚ÄúUm fim √† neglig√™ncia dos Problemas da Mulher Negra! ‚ÄĚ. Foi publicado em 1949. Muito antes do desenvolvimento da estrutura anal√≠tica interseccional na d√©cada de 1970 por feministas e l√©sbicas Afro-americanas como expresso na Declara√ß√£o ColetivoRioCombahee, Jones j√° tinha essa abordagem para analisar as m√ļltiplas formas de opress√£o que configura a vida das mulheres afro-americanas da classe trabalhadora.

A preocupa√ß√£o de Jones com a liberta√ß√£o das mulheres focava em mudan√ßas nas condi√ß√Ķes econ√īmicas, sociais e pol√≠ticas desiguais e n√£o a obsess√£o cultural psicol√≥gica encontrada dentro de c√≠rculos pol√≠ticos de identidade vulgares atuais:

“Para o movimento das mulheres progressivas, a mulher negra, que combina em seu estatuto o trabalhador, o Negro, e a mulher, √© o link vital para essa elevada consci√™ncia pol√≠tica. Na medida, al√©m disso, que a causa da mulher negra trabalhadora √© promovida, ela ser√° habilitada para tomar seu lugar leg√≠timo na lideran√ßa do proletariado negro do movimento de liberta√ß√£o nacional, e por sua participa√ß√£o ativa contribuem para toda a classe trabalhadora americana, cuja miss√£o hist√≥rica √© a conquista de uma Am√©rica Socialista – a final e completa garantia da emancipa√ß√£o da mulher “.

O estado capitalista e corpora√ß√Ķes do Norte global explora os recursos e m√£o de obra e dominar as economias e sociedades no Sul global. De acordo com Davies em “A Esquerda de Karl Marx”, “pol√≠tica anti-imperialistas de Claudia ligada √†s lutas locais de pessoas negras e mulheres contra o racismo, e a opress√£o sexista √†s lutas internacionais contra o colonialismo e o imperialismo negros.” O Pan-africanismo de Claudia conduziu para sua defesa por liberdade dos povos do Caribe e da √Āfrica do colonialismo.

Na Gr√£-Bretanha, dois das not√°veis realiza√ß√Ķes de Claudia s√£o a cria√ß√£o do Carnaval de Notting Hill e o Di√°rio das √ćndias Ocidentais. Uma parte do epit√°fio em sua l√°pide diz: “Valente lutadora contra o imperialismo e, o racismo que dedicou sua vida ao progresso do socialismo e a liberta√ß√£o do seu pr√≥prio povo negro.”

Deveria ter acrescentado: “defensora assertiva do feminismo socialista”.

Ajamu Nangwaya, PhD., é um educador, organizador e escritor. Ele é um organizador com a Rede para a Eliminação da Violência Policial

Artigo original dispon√≠vel em: http://www.telesurtv.net/english/opinion/Claudia-Jones-Unknown-Pan-Africanist-Feminist-and-Communist–20160210-0020.html

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Pan-africanismo, marxismo e as encruzilhadas nossas de cada dia

Tempos difíceis os nossos: Em uma época marcada por conservadorismos dos mais variados o ato de demonizar o Marx sempre garante aplausos calorosos em qualquer plateia. Esta é uma verdade incontornável desde o fim da guerra fria.

Por outro lado, somente um cego n√£o perceberia que os problemas enfrentados pelas(os) Pretas(os) s√£o marjoritariamente secundarizados – para n√£o dizer negligenciados – nas diversas agremia√ß√Ķes pol√≠tico-te√≥ricos de esquerda, centro ou direita. Somente um olhar inocente – ou muito mal intencionado – poderia atribuir √† esquerda marxista a exclusividade desta postura lament√°vel. Para quem n√£o havia percebido: Estamos em uma sociedade racista e por isso a palestra¬†do Professor Carlos Moore oferece uma cr√≠tica necess√°ria.

Isto posto √© importante lembrar que mesmo com essas limita√ß√Ķes ‚Äúindisfars√°veis” a dita “Esquerda” vem sendo apropriada a mais de um s√©culo por¬† valorosas(os) guerreiras(os) pretas(os) como um espa√ßo pol√≠tico/te√≥rico/ideol√≥gico privilegiado para potencializar a luta contra o racismo e o colonialismo. A Luta Negra n√£o nasceu e nem se encerra na Esquerda, mas √© fato que historicamente esse encontro de for√ßas possibilitou avan√ßos te√≥ricos e pol√≠ticos importantes uma vez que as(os) negras(os), gostemos ou n√£o, est√£o sujeitos √†s contradi√ß√Ķes da sociabilidade capitalista.¬† O outro lado da hist√≥ria √© que esse encontro entre anti-capitalismo e anti-racismo tamb√©m gerou uma s√©rie de equ√≠vocos catastr√≥ficos e a partir deles muitas(os)¬† l√≠deres negras(os) optaram por romper com o Marxismo em busca de posi√ß√Ķes mais nacionalistas e/ou internacionalistas: Uma postura justific√°vel que nas melhores situa√ß√Ķes contribuiu para enriquecer a forma de pensar o que √© o Negra(o) e o anti-racismo e nas piores situa√ß√Ķes o que se seguiu foram embates fratricidas seguidos por Golpes de Estados sanguin√°rios e necolonialistas.

√Č preciso dizer que o dito comunismo matou na Eti√≥pia ou em Cuba‚Ķ mas se dizemos isso e n√£o dizemos em seguida que¬† o anticomunismo matou na Arg√©lia, no Congo, em Angola; na Arg√©lia, no Iran, na Alemanha, nos Estados Unidos, no Brasil, no Chile, e em todos os lugares em que os Estados Unidos pode influenciar, a hist√≥ria do s√©culo XX corre o risco de seguir drasticamente maquiada: A lista de l√≠deres negros panafricanistas ou n√£o assassinados com a ajuda da CIA √© incrivelmente assustadora (inclusive dentro dos EUA).

A pergunta histórica que está posta para a nossa geração de intelectuais pretas(os) é: Conseguiremos estar suficientemente livres do maniqueísmo ocidental Рque dizemos combater Рa ponto de olhar criticamente para a tal do Ocidente e identificar no interior desta pseudo entidade os elementos que nos permitam confrontá-la? Ou estamos tão envoltos em seu suave veneno que acreditamos ser possível um pássaro voar sem a resistência do ar que o oprime?

Se √© verdade que as particularidades hist√≥rico-s√≥cio-culturais europeias nos foram falsamente apresentadas como universais a partir de sucessivas avalanches de roubo, saque, estupro e domina√ß√£o, mas ao mesmo tempo, e exatamente por isso condenou a todos os povos do planeta a viver sob a l√≥gica do deus mercado, conseguiremos negar a estas viol√™ncias ¬† ignorando que os pretos foram e s√£o as maiores v√≠timas do capitalismo? Se queremos criticar radicalmente a tal da esquerda ou do marxismo, o faremos negando a suas contribui√ß√Ķes te√≥ricas para a cr√≠tica ao Capitalismo (que √© essencialmente anti-negro?)? Se √© verdade que a maioria esmagadora das agremia√ß√Ķes de esquerda veem e tratam as(os) negras(os) apenas como ‚Äúap√™ndice‚ÄĚ dos processos pol√≠ticos,¬† o caminho para superar esses limites √© o anti-maxismo dogm√°tico?

N√£o se trata aqui de defender o indefens√°vel (veja a palestra hist√≥rica do Professor Carlos Moore), mas assusta perceber uma tentativa em curso de¬† tentar negar verbalmente a polariza√ß√£o esquerda/direita para substitu√≠-la por¬† outras polariza√ß√Ķes ainda mais empobrecedoras. √Č poss√≠vel um pensamento negro que critique o tal do ocidente e seus deuses sem criar novos dem√īnios?¬† Por qual ‚Äúemancipa√ß√£o‚ÄĚ lutamos:¬† ‚ÄúMais Obama e Menos Cuba!‚ÄĚ; ‚ÄúMenos Marx e mais‚Ķ‚ÄĚ o que? Nietzsche? Heidegger‚Ķ?

“Entre Direita e Esquerda eu continuo Preto”, mas e da√≠, qual √© o pr√≥ximo passo?¬† N√£o seria eu Preta(o), Sujeito o suficiente para me posicionar neste jogo podre que n√£o criei mas me influencia? Ser√° mesmo que o tal do ocidente √© t√£o presente em n√≥s que mesmo em nossas cr√≠ticas mais pretensamente profundas o m√°ximo que conseguimos fazer √© repetir o seu manique√≠smo tautol√≥gico barato: “O Marx era racista; eu sou anti-racista; logo, sou anti-marxista‚ÄĚ? √Č isso mesmo, Produ√ß√£o? Joga-se fora ent√£o as contribui√ß√Ķes de Marx para entender o capitalismo e posteriormente de todas(os) pretas(os) que se valeram mais ou menos desta tradi√ß√£o de pensamento – mesmo que seja para ir al√©m dela –¬† para pensar as sociedades em que viviam?

 

√Č necess√°rio entender que quando o Moore diz que deseja mais Obamas pelo mundo, n√£o se refere ao imperialismo norteamericano, mas a aus√™ncia de l√≠deres negros nos partidos e nos governos de direita e esquerda da Am√©rica e Europa; mais negros nos espa√ßos de poder. Essa √© uma cr√≠tica muito pertinente que n√£o deve ser descartada quando analisamos a hist√≥ria da esquerda mundial e a sua rela√ß√£o com os negros. Quando critica a dita pol√≠tica comunista implementada em Cuba e as persegui√ß√Ķes que sofreu oferece-nos um importante relato pessoal a respeito da do que √© a Pol√≠tica na sociedade moderna (informada por Maquiavel¬† e aprofundada por Fanon e Nkrumah).

O problema da√≠ resultante √© quando – seja por inoc√™ncia ou por m√° f√© – busca-se apresentar essa viol√™ncia como exclusividade das experi√™ncias revolucion√°rias de orienta√ß√£o marxista. Ter√≠amos que “voltar e apanhar o que ficou perdido‚ÄĚ nas experi√™ncias europeias fascistas e nazistas bem como nos golpes de estado apoiados pela CIA na √Āfrica- todos de orienta√ß√£o anti-marxista – para perceber o quanto qualquer transforma√ß√£o que n√£o tenha o “povo” como ponto de partida e horizonteleva a caminhos assombrosos. Para alem disso, olhar para a ‚Äúditadura cubana‚ÄĚ do p√≥s-revolu√ß√£o ignorando os processos contra-revolucion√°rios financiados pela direita cubana em¬† Maiami em sua rela√ß√£o carnal com os EUA √© bastante complicado e s√≥ se explica no contexto ideol√≥gico de direita (gostemos ou n√£o dessas classifica√ß√Ķes).

 

N√£o h√° nada mais ocidental do que o manique√≠smo e neste caso, a sabedoria das encruzilhadas tem mais a nos dizer do que a ‚Äúca√ßa as bruxas‚ÄĚ ocidentais: Apesar do Obama ser negro, e as crian√ßas da nossa gera√ß√£o terem nele um exemplo simb√≥lico poderoso; apesar de Cuba – que¬† na da d√©cada de 70 foi o destino predileto de muitos l√≠deres negros¬† mundiais importantes – cerceou o movimento negro interno a partir do mito da ‚Äúcor cubana” que lembra muito o nosso maldito mito da democracia racial; apesar de tudo isso, diante do Ebola, Cuba manda m√©dicos (a maioria negros) √† Lib√©ria e os Estados Unidos manda soldados (a maioria negros).¬† Enquanto essa mesma Cuba erradicou o analfabetismo¬† e durante o Mais M√©dicos vimos diante de nossos olhos milhares de m√©dicos negros desembarcarem para ajudar o Brasil, os Estados Unidos tem uma maioria absoluta de negros entre os seus 2 milh√Ķes de pessoas encarceradas. O Epis√≥dio do Furac√£o Catrina¬† mostrou o que fr√°gil s√£o os avan√ßos dessa sociedade que se acredita ter al√ßado √† categoria de p√≥s-racial s√≥ porque tem um presidente negro. Dito isto, fica a pergunta: Quem √© meu inimigo neste caso? Ser√° que o manique√≠smo (de direita de esquerda, de preto ou de branco) ajuda em alguma coisa?

 

Se olharmos a partir da Encruzilhada, a palestra do Professor Carlos Moore acaba de entrar para hist√≥ria como um marco na trajet√≥ria da luta negra brasileira ao oferecer subs√≠dios para reflex√Ķes muito profundas e necess√°rias sobre o racismo e os espa√ßos de poder, o ocidente, seus deuses e dem√īnios. Mas se n√£o “voltarmos atr√°s e apanhar o que ficou perdido” corremos o risco de atirar nos inimigos errados e desconsiderar uma parte da nossa pr√≥pria trajet√≥ria ‚Äúconfusa mas real e intensa‚ÄĚ (Racionais MCs).

N√£o nos esque√ßamos que o ar que oferece resist√™ncia ao voo de um p√°ssaro √© o mesmo que garante o o seu planar‚Ķ o segredo, para quem tem asas est√° em seu movimento adequado e na capacidade de mobilizar a seu favor aquilo que outrora poderia ser uma barreira. H√° uma sutileza aqui que pode se perder durante o calor das emo√ß√Ķes, mas n√£o sejamos inocentes ‚Äúentre direita e esquerda‚Ķ‚ÄĚ O Bolsonaro sabe muito bem quem ele √© (e n√£o vem s√≥).

 

Entre direita e esquerda eu sou preto, mas n√£o cego! ‚Äúpois sei fazer bem a diferencia√ß√£o, sofro pela cor, pelo patr√£o e o padr√£o” (GOG)

‚ÄúSe a esquerda n√£o trata da quest√£o racial, sejamos n√≥s a esquerda‚ÄĚ (Clovis Moura)

S√≥ Ex√ļ Salva!!!

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Domenico Lossurdo

Entrevista realizada no ver√£o de Julho de 2011 em Urbino, It√°lia.
Losurdo n√£o √© mais um divulgador do marxismo entre muitos. √Č um criador. Tal como os materialistas gregos, n√£o desconhece que o objectivo supremo do homem na aventura da vida √© a procura da felicidade poss√≠vel. E sabe tamb√©m que em poucas √©pocas ter√° sido t√£o dif√≠cil como hoje perseguir essa meta. N√£o √© de estranhar que o fil√≥sofo, nessa √Ęnsia de compreender para ensinar, tenha escrito sobre autores t√£o diferentes como Nietzsche, Hegel, Marx e L√©nine. Mas Domenico tem os p√©s bem fincados na terra. A teoria e a pr√°tica s√£o para ele complementares. Consciente dessa interac√ß√£o, o historiador est√°, como intelectual revolucion√°rio, permanentemente envolvido na solidariedade com as grandes causas da humanidade e na luta dos povos contra o imperialismo. Os seus artigos correm mundo na cr√≠tica √†s guerras de agress√£o imperiais contra os povos da Palestina, do Iraque, do Afeganist√£o, da L√≠bia e outros, na den√ļncia da participa√ß√£o do golpe dos EUA nas Honduras, na solidariedade com as FARC colombianas e com o povo iraniano. √Č reconfortante que neste mundo em crise de civiliza√ß√£o haja pensadores revolucion√°rios como Domenico Losurdo. Vai completar 70 anos e preparam-lhe merecidas homenagens em diferentes pa√≠ses. (fonte: Miguel Urbano Rodrigues)

 

 

 

 

Domenico Losurdo: O início com Hegel. Parte 1/12
Contato:
www.domenicolosurdoinfobrasil.blogspot.com

 

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