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Hampton: “É uma luta de Classes, porra!”

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Texto Originalmente publicado no Site Nova Cultura 

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O que nós vamos tentar, é que vamos tentar praguejar e educar. Nós estamos felizes de tentar acrescentar mais alguma informação. E isso será algo difícil de fazer. A irmã fez um belo discurso até onde eu sei. Chaka, o Vice-Ministro de Informação, esse é seu trabalho – informação. Mas eu vou tentar informar vocês também.

Uma coisa que Chaka se esqueceu de informar: que irmãos e irmãs não fazem exatamente o mesmo. Nós não pedimos a qualquer irmão para engravidar ou coisa assim. Não pedimos a nenhum dos irmãos para que tenham bebês. Então isso é um pouco diferente também.

Depois que nós terminarmos de falar, para aquelas pessoas entre vocês que não acham que entenderam toda a ideologia exposta aqui até então, e as ideologias que irei expor, nós teremos uma sessão de perguntas e respostas. Para aquelas pessoas que têm seus sentimentos feridos por negros falando sobre armas, nós teremos sessão de choro depois da sessão de perguntas e respostas. E para aquelas pessoas brancas que estão aqui para mostrar algum tipo de grande manifestação de síndrome de culpa, e querem que as pessoas clamem seu amor por elas depois da sessão de choro, se nós tivermos tempo, nós permitiremos a todos vocês ter uma sessão de amor.

Então agora vamos ao que interessa. Em primeiro lugar, sobre o que algumas pessoas chamam de julgamento. Nós o chamamos uma hecatombe, nós o chamamos uma hecatombe. Que se soletra h-e-c-a-t-o-m-b-e. E eu sei que há dicionários suficientes circulando por aqui que provavelmente encheriam toda a sala, então vocês podem conferir isso. Isso significa um sacrifício. Isso geralmente significa um sacrifício de um animal. Então nós gostaríamos que vocês, se vocês viessem a gostar de fazê-lo, se as pessoas perguntarem: “vocês já estiveram no julgamento”, contem que vocês viram ou ouviram sobre a hecatombe, porque é isso que ele é. É um sacrifício público. É uma situação onde estão julgando injustamente, julgam ilegalmente nosso presidente.

Nós encaramos isso como uma manifestação de 1969 da Decisão de Dred Scott. Nós olhamos para o Presidente Bobby como sendo a manifestação de Dred Scott de 1857. E nós olhamos para o Juiz Hoffman como sendo uma manifestação do Juiz Taney em 1857. Porque em 1857 Dred Scott era um negro, um ex-escravo – era ainda um escravo, porque nós somos escravos – que foi à corte e evidentemente teve algum tipo de mal-entendido sobre o que ele era na sociedade americana, onde se encaixava.

Fred Hampton
Fred Hampton

Então ele foi à Suprema Corte para que o juiz Taney respondesse a ele e tentando esclarecer algumas ideias equivocadas que tivera rodando em volta de sua velha cabeça. E o juiz Taney fez exatamente isso. O juiz Taney explicou muito claramente que, “negro, você não é ninguém, você é uma propriedade, você é um escravo. Que os sistemas – o sistema legal, o sistema judicial – todos os tipos de sistemas que estão operando na América hoje foram estabelecidos muito antes de você chegar aqui, irmão. Porque nós aliciamos você para ganhar dinheiro para manter o que nós temos em funcionamento, esses avarentos, gananciosos homens de negócios, para manter o que nós temos funcionando, e funcionando”.

E Dred Scott não conseguiu entender isso. Houve uma grande rejeição. E naquela época, o juiz Taney fez uma declaração que se tornou famosa. E a declaração, talvez não nas mesmas palavras; mas através de ações e através de prática social, está sendo manifesta agora no novo Edifício Reigstag em Jackson e Dearborn. Está se manifestando através do juiz Hoffman dizendo a mesma coisa que o juiz Taney disse em 1857. Quando ele contou a Dred Scott que “negro, um homem preto na América não possui nenhum direito que um homem branco seja obrigado a respeitar”. E essa é a mesma coisa que o juiz Hoffman está contando a nosso presidente todo o dia.

E nós entendemos. Vocês sabem, muitas pessoas se irritam com o Partido porque fala sobre a luta de classes. E as pessoas que se irritam com isso são oportunistas, covardes e individualistas e tudo que são é qualquer coisa menos revolucionários. E usam essas coisas como desculpas para justificar e invocar um álibi e para bonificar sua falta de participação na luta revolucionária real. Então dizem, “bem, eu não posso entrar no Black Panther Party porque os Panteras estão ocupados em trabalhar com radicais do país opressor, ou pessoas brancas, ou bonitões ou o que quer que seja. Eles dizem que isso são algumas das desculpas que eu uso para negar realmente porque não estou na luta”.

Nós temos bastante respostas para essas pessoas. Primeiramente, nós dizemos primariamente que a prioridade dessa luta é a classe. Que Marx e Lenin, Che e Mao Tsé-tung e todo o resto que já disseram ou conheceu ou praticou alguma coisa sobre revolução, sempre disse que a revolução é uma luta de classes. Havia uma classe – a oprimida – e aquela outra classe – a opressora. E isso tem de ser um fato universal. Aqueles que não admitem isso são aqueles que não querem se envolver na revolução, porque sabem que enquanto estão lidando com coisas raciais, nunca estarão envolvidos na revolução. Eles podem falar sobre números, podem pendurar você em muitos, muitos meios, mas assim que você começar a falar sobre classe, então você tem que começar a falar de armas. E isso é o que o Partido tinha que fazer.

Quando o Partido começou a falar sobre luta de classes, nós achamos que tínhamos que falar sobre algumas armas. Se nós nunca negamos o fato de que havia racismo na América, mas dissemos que quando você, o subproduto, o que sai do racismo, que o capitalismo vem primeiro e depois vem o racismo. Que quando eles trouxeram escravos até aqui, o fizeram para ganhar dinheiro. Então a primeira ideia a surgir foi que nós queremos ganhar dinheiro, então os escravos vieram com o objetivo de gerar aquele dinheiro. Isso significa que, através de um fato histórico, o racismo tinha que vir do capitalismo. Tinha que ser o capitalismo primeiro e o racismo foi um subproduto daquilo.

Qualquer um que não admita que está mostrando através da sua não admissão e da sua não participação na luta, são pessoas que falham em estabelecer um compromisso; e a única coisa que procuram conseguir para eles é a educação que recebem nessas instituições – educação o suficiente para ensiná-los alguns álibis e ensiná-los que você tem que ser negro, e você tem que mudar o seu nome. E isso é maluco.

O ministro da educação do Partido, Raymond “Masai” Hewitt, e o Chefe de Gabinete, David Hilliard, há pouco voltaram da África visitando Eldridge Cleaver. E disseram que os negros lá nunca usarão o tipo de traje que alguns desses tolos africanizados usam por aqui. Eles estão usando andrajos ou senão usando nada. E se vocês querem se vestir como algumas pessoas africanas, então vocês têm que se vestir como os angolanos ou o povo do Moçambique. Esses são povos que estão fazendo alguma coisa. Vocês precisam se vestir como os povos que estão em lutas de libertação. Mas não, vocês não querem se tornar africanizados assim, porque assim que vocês se vestirem como alguém de Angola ou Moçambique, então depois de vocês vestirem o que quer seja que vistam, e isso pode ser qualquer coisa dos andrajos a alguma coisa da quinta Avenida Saks, vocês têm que colocar algumas bandoleiras e algumas AR-15 e alguns 38; vocês têm de vestir algumas Smith and Wessons e algumas Colts 45, porque é isso que estão usando em Moçambique. E qualquer negro por aqui dizendo para vocês que quando o seu cabelo está longo e vocês estão vestindo um dashiki, e vocês tem bubus e todas essas sandálias, e todas essas formas de ação, então vocês são revolucionários, e qualquer um que não pareça com vocês, não o é – aquele homem tem de sair de sua cabeça.

Porque nós sabemos que o poder político não flui da manga de um dashiki. Nós sabemos que o poder político nasce da ponta do fuzil. E isso é verdade. E isso tem que ser verdade. Nós sabemos que para sermos capazes de falar sobre o poder, que o que você tem de ser capaz de falar sobre é a habilidade de controlar e definir o fenômeno e fazê-lo agir de maneira desejada. Isso significa que se você não consegue controlar e definir um fenômeno e fazê-lo agir da maneira desejada, então você não tem mesmo quaisquer relações com o poder, você não sabe e provavelmente nunca saberá o que o poder é. E nós sabemos o que o poder é, e nós sabemos quem está fazendo mal ao povo – o inimigo.

E todo mundo quer falar sobre… os costeletas de porco contarão a você em um minuto. “Os porcos não querem que você fique negro. Eles não querem você tenha nenhum dos programas de estudos negros. Eles não querem que você use dashikis. Não querem que você aprenda sobre a terra natal e quais raízes comer do solo. Eles não querem isso porque assim que você tiver isso, assim que você voltar à cultura do século XI, você ficará bem”.

Confira as pessoas que voltaram à cultura do século XI. Confira as pessoas que estão usando dashikis e bubus e pense que isso vai libertá-las. Confira todas essas pessoas, perceba onde estão localizadas, encontre os endereços dos seus escritórios, escreva-as uma carta e pergunte-as se no ano passado quantas vezes o escritório delas foi atacado. E então escreva a qualquer Black Panther Party, em qualquer lugar dos Estados Unidos, qualquer um na Babilônia, e pergunte-os como muitas vezes os porcos a atacaram. Então você vai fazer sua estimativa de ambos, e descobrirá do que os porcos não gostam. É nesse momento que você descobre do que os porcos não gostam.

Nós fomos atacados três vezes desde junho. Nós sabemos do que os porcos não gostam. Temos pessoas fugindo do país às centenas. Nosso Ministro da defesa está na cadeia, nosso Presidente está na cadeia, nosso Ministro da Informação está exilado, nosso Tesoureiro, o primeiro membro do Partido, está morto. O Vice-Ministro da Defesa e Vice-Ministro da Informação, Alprentice Bunchy Carter, e John Huggins do Sul da Califórnia, assassinados por costeletas de porco, falando sobre um programa BSU. Sabemos do que os porcos não gostam.

Nós dissemos que ninguém atiraria em um Pantera exceto um porco, porque os Panteras não colocam em risco a ninguém exceto os porcos. E se as pessoas disserem a vocês que os Pante-ras representam ameaças, então as pergunte que tipo de sentido isso poderia ter, a não ser que seja acordar às 5 da manhã para alimentar o filho de alguém e então às 3 da tarde pegar uma refeição. Nós não precisamos fazer isso. Que sentido isso faz para nós abrir uma clínica gratuita onde o único pré-requisito para receber atendimento médico de graça é que você esteja doente. E nós temos estudantes que estão dançando por aí, falando sobre estarem fazendo algo pela luta, e eu quero saber o que mais vocês podem fazer? E vocês eu digo todas pessoas de Chicago.

As pessoas estão falando sobre o Partido ter sido cooptado por gente branca. Isso é o que aquele mini-fascista, Stokely Carmichael disse. Ele não é nada mais que um boçal. Até onde eu sei, é um boçal, porque eu venho conhecendo ele faz anos, e isso é tudo que ele pode ser, se seguir por aí atacando o Black Panther Party.

Se nós estamos cooptados por gente branca, então confira as localizações dos nossos escritórios, nosso programa de café da manhã, nossa clínica de saúde gratuita será aberta provavelmente este domingo na 16ª com a Springfield. Alguém não sabe onde a 16ª com Springfield fica? Não fica em Winnetka, você entende. Não fica em Dekalb, fica na Babilônia. Fica no coração da Babilônia, irmãos e irmãs.

E aquela clínica gratuita foi colocada lá porque sabemos onde está o problema. Nós sabemos que o povo negro é o mais oprimido. E se nós não soubéssemos disso, então porque diabos andamos por aí falando sobre a luta de libertação negra ser a vanguarda para a libertação de todas as lutas? Se houver algum dia qualquer libertação na terra natal, se houver qualquer libertação na colônia, então nós seremos libertados pela liderança do Black Panther Party e a luta de libertação negra. Nós não negamos esse fato.

Nós não estamos ligados a ninguém que não seja um Pantera. Nós queremos deixar vocês pensando isso, porque nós podemos estar com Fred, eu quero dizer Everett, nós podemos estar com ele. Mas nós não podemos estar com Ron Karenga e LeRoi Jones. Nós não podemos. Nós não conseguimos ver nenhuma prática social da parte deles, irmãos. Nós sabemos que ambos possuem nomes mais longos que o meu braço. E ambos supõem ser tão inteligentes e tão espertos. E esse é o problema agora mesmo.

Nós estamos falando sobre a destruição do sistema, e eles têm medo de fazê-lo porque estão comprando constantemente propriedades dentro do sistema. E é meio difícil queimar na terça o que você comprou na segunda. Porque eles são um bando de capitalistas impenitentes. Eles nunca se arrependerão. E sabem disso melhor. Nós tentamos criar desculpas para eles – “talvez eles tenham de passar por etapas, Fred”. Não, não é assim. Porque são muito mais velhos que nós somos. Eu estou com 21. Nós somos todos jovens. Então sobre etapas, eles não chegaram através delas. Ron Karenga tem mais graus do que um termômetro. Está certo, ele tem mais graus do que um termômetro e continua a fazer o que está fazendo. E como eles enganam vocês? Porque pegam os líderes que eles querem. E elevam essas pessoas e as pintam como seus líderes, mas de fato, não são líderes de ninguém.

Nós chamamos de apologistas oprimidos. Porque depois de alguma coisa acontecer, todos podem se desculpar por isso. Olhe nos jornais. Agora eles estão desenhando imagens do Presidente acorrentado e amordaçado. Você não sabe que se as notícias da mídia, a imprensa oficial, se movessem antes disso, que poderiam ter parado o surgimento da maré fascista anos atrás. Mas endossaram, se uniram, apoiaram o que os fascistas estavam fazendo naquele momento. E agora isso está se acumulando sobre todo o povo.

E um monte de pessoas pensa agora que suas mãos estão ficando sujas. Nós as chamamos de servos ideológicos do fascismo dos Estados Unidos. E é isso o que são, porque servem ao fascismo ao não fazer nada a respeito até que a lei recaia sobre eles e então se desculparem por isso, se tornam apologéticos. Mas nós dizemos que esta é a mesma imprensa que olhará e acreditará e pensará que é genuíno; a mesma imprensa que nos falou para acreditar que éramos alguém quando de fato não éramos ninguém.

Eu penso que não há nada mais importante. Eu penso que o que Malcolm diz é importante. Agora repensem. Aqueles estudantes estavam rindo de Malcolm. Vocês sacaram? Eles estavam rindo de Malcolm. Por quê? Regis Debray diz que os revolucionários estão no futuro. Aqueles militantes e costeletas de porco e todas essas pessoas, estudantes radicais, estão no presente, e que a maioria do resto das pessoas tenta permanecer no passado. É por isso que quando surge alguém que está no futuro muitos de nós não conseguem entendê-lo. E a mesma coisa que vocês não compreendem em Huey P. Newton agora, vocês não entenderam em Malcolm quando ele estava vivo. Mas sabemos que quando Malcolm se foi, o poço quase secou. Vocês não sentem a falta da água até o poço secar, e ele quase secou.

Huey P. Newton tem leitura, e não é como muitos de nós. Muitos de nós lemos e lemos e lemos, mas não temos nenhuma prática. Nós temos um monte de conhecimento em nossas mãos, mas nunca o praticamos; e cometemos quaisquer erros e corrigimos aqueles erros para que nos tornemos capazes de fazer alguma coisa propriamente. Então nos parecemos, como dizemos, com mais graus do que um termômetro, mas nós não somos capazes de cruzar a rua e mascar chiclete ao mesmo tempo, porque temos todo aquele conhecimento, mas que nunca foi exercitado, nunca foi praticado. Nós nunca testamos como é que realmente funciona. Nós o chamamos isso de testá-lo com a realidade objetiva. Vocês devem ter qualquer tipo de pensamento em sua mente, mas têm de testar com o que está lá fora. Vocês veem o que eu quero dizer?

Eles nos falam em comprar barras de doce e jogar o doce fora e comer o papelão. Eles são as únicas pessoas no mundo, vocês compreendem, isso mesmo, que podem vender caixas de gelo para esquimós. Podem vender perucas naturais para negros que já tem cabelo natural. E vejam, essa é a vergonha. Eles conseguem vender para um homem de só uma perna provavelmente 24 bilhetes para um concurso de chutar o traseiro, que sabe que não tem nada com aquilo. Vejam, essa são as coisas que podem fazer por nós e então nos mantêm acreditando que o que estão dizendo é certo, que é genuíno, que é justificado. Nós dizemos que isso é errado, que é incorreto, que Malcolm, quando falou para os estudantes, e vocês provavelmente escutaram aquela gravação, fala a alguns judeus, algumas pessoas lisas, e contou a elas.

Vocês podem dizer, “bem, da forma como me sinto, as pessoas deveriam ser capazes de andar por aí nuas porque estupro é amor”. Isso é idealismo. Veem o que eu digo? Vocês estão lidando com metafísica. Estão lidando com subjetividade, porque não a estão testando com a realidade objetiva. E o que está realmente errado é que vocês não testam. Porque se vocês testarem, vocês vão chegar à objetividade. Porque tão logo vocês andem lá fora, um grande monte de realidade objetiva vomitará sobre os seus traseiros e o violará com o que quer que vocês tenham. Então sempre que isso acontece, é quando as pessoas chegam a um monte de ideias erradas. É por causa disso que muitos de vocês não conseguem entender e concordar com um monte de coisas que nós dizemos. Vocês nunca o tentaram.

Vocês não sabem se as pessoas apoiam o programa de café da manhã, porque vocês nunca alimentaram ninguém. Vocês não sabem nada sobre as clínicas de saúde gratuitas porque nunca perguntaram a ninguém. Vocês não sabem nada sobre o bem que uma arma faz a vocês, porque vocês nunca experimentaram uma. E nós dizemos que se nasceram e dizem que não gostam de peras e nunca as provaram, vocês têm que ser uns mentirosos. Vocês não sabem se gostam de peras, mas não podem afirmar que vocês não gostam de peras. O único meio que qualquer um consegue dizer o gosto de pera é se vocês mesmos as provarem. Esse é o único jeito. Isso é realidade objetiva. É com isso que o Black Panther Party lida. Nós não somos metafísicos, nós não somos idealistas, nós somos materialistas dialéticos. E nós lidamos com o que a realidade é, gostemos ou não.

Um monte de pessoas não consegue relacionar-se porque tudo o que eles fazem é amordaçado pela forma como as coisas deveriam ser. Nós dizemos que isso é incorreto. Vocês olham e veem como as coisas são e então vocês lidam com elas. Nós an-damos por aí falando sobre “nós vamos amar todas as pessoas negras. Nós temos um amor incondicional por todas as pessoas negras”. E vocês sabem de uma coisa? Que se Malcolm voltasse, passaria por um milhão de homens da Klan para chegar até Stokely e perseguiria aos gritos seus malditos traseiros. Você me ouviu? Eles não permitiriam nenhuma pessoa branca lá. Mas Malcolm está morto. Agora, o que aconteceu? O que tinha a aquele nome bobo, James Whitmore. Ele não fez a pelezinha?

Porque eles tinham nomes com 37 “X”, 15 “X”, mais negros do que os negros, e eram capazes de se esgueirar por causa desse potencial ignorante que estes maníacos estão tentando incitar sobre nós – “Nós vamos amar todas as pessoas negras porque todo negro é um homem preto em potencial”.

O homem que testemunhou contra o Presidente Bobby no julgamento conspiratório em andamento em Chicago era um homem negro. O homem que enviou o Presidente Bobby a um julgamento em Connecticut é um homem negro. O homem que assassinou Malcolm X é um homem negro. O juiz que negou a fiança de Eldridge Cleaver depois de um homem branco ter garantido a ele a fiança – um negro que investigou por sua própria conta e disse, “Nigger, eu não acho que você deve estar nas ruas”, era um homem negro, Thurgood Marshall, Thurgood ‘Not Good’ Mars-hall, aquele que a NAACP colocou lá. Essa é uma das coisas sobre as quais sentar e morrer, esperar e chorar nos pegou. Se Thurgood Marshall não estivesse lá, então Eldridge Cleaver provavelmente ainda poderia estar aqui com o povo.

Ele é um negro, um lambe botas, um tonto, um boçal. Vocês entendem? Vamos lá: “eu não acho que você deve estar nas ruas”. E nós correndo por aí e deixando negros nos contar que nós temos de amar a todas as pessoas negras.

Vocês ouviram falar sobre o julgamento conspiratório no West Side e que eram capazes de vencer, com Doug Andrews e Fat Crawford, quando tiveram o grande incêndio em West Side na manifestação de Martin Luther King? Perguntem a eles! Irmãos, o que há de errado com vocês? Perguntem a eles se era um homem branco? Não! Porque Doug e eles nos criticam por nossa posição liberal. Chamam de liberal. Então não deixam ninguém entrar na irmandade exceto pessoas negras. Mas eles não sabiam. Alguém já ouviu falar sobre Glove na parte sul de Chicago? Ele não é branco. Vocês acharam que Buckney era branco? Buckney, está pegando todos os seus irmãos e todas as suas irmãzinhas e todas as suas priminhas e priminhos e suas filhas, e vai continuar a pegá-los. E se vocês não fizerem nada, ele vai pegar seus filhos e filhas. E um monte de negros está indo à escola agora tentando fazer um nome. Nós não escutamos ninguém andando por aí e falando “eu sou Benedict Arnold III” porque os filhos de Bene-dict Arnold não querem falar sobre os filhos dele. Vocês ouviram pessoas falando sobre poderem ser filhos de Patrick Henry – pessoas que se insurgiram e disseram “me dê liberdade ou me dê a morte”. Ou primas de Paul Revere. Revere disse “pegue suas armas, os britânicos estão chegando”. Os britânicos eram a polícia.

Huey disse “pegue suas armas, os porcos estão chegando” A mesma coisa. Haverá um monte de Newtons andando por aí. Um monte de crianças se chamarão Huey P. Newton III. Elas não se chamarão de Ooga-Booga ou Karangatang Karenga, ou Mamalama Karenga – nada dessa merda. Elas não vão se chamar disso. Vocês veem, perguntem aos porcos da Califórnia. Perguntem a eles! Vocês estão vendo? Passe-me um pôster deles, irmão. Aquele bem ali. Agora se vocês pensam que estou mentindo, olhem para isso. Deem uma olhada para isso. Agora todas vocês irmãs aqui, digam-me o que parece melhor – um negro andando por aí em uma túnica e uma camisa polo de funcionário, parecendo com Moisés, ou bem assim – esse é o visual mais ruim… vocês podem pensar, vocês devem dizer que são chauvinistas, chauvi-nistas organizacionais vocês podem chamar assim. Vocês podem me chamar de envolvido no ego do próprio partido. Mas eu estou envolvido na verdade. E eu acho que a irmã pode verificar que esses são os mais ruins. Esses são estrelas de cinema da Babilônia, maldição. Hã? Foda-se John Wayne e as todas outras merdas.

Está certo. Mas vocês veem, se vocês olham para aquilo, é como nós ficamos bem. Nós não ligamos se negros usam dashikis. Vocês entendem? Isso não vai significar nada na análise final. Mas nós estamos dizendo que vocês precisam de algumas ferramentas.

Vocês já tiveram a ocasião de ter um médico chegando às suas casas, ou um encanador chegando às suas casas? Suponha que um encanador tenha chegado às suas casas, ele abriu sua bolsa e tinha estetoscópios e termômetros, agulhas hipodérmicas e seringas. Vocês diriam “Você veio consertar o encanamento? Irmão, você pegou as ferramentas erradas. Alguma coisa suspeita está ocorrendo porque você nem trouxe as ferramentas apropriadas”. Não é certo?

Suponha que alguém venha entregar seu bebê e tivesse ferramentas de encanador? Eu sei que vocês, irmãs, gritariam “assassinato sangrento”. Não, mas vocês diriam, “isso não está certo, irmão. Não podemos aceitar isso. Você tem que, entende, você tem de vir mais em uma boa, tem que me mostrar alguma coisa melhor. Você precisa ter algumas ferramentas que são mais apropriadas para essa ocasião, você entende, porque eu não tenho quaisquer torneiras vazando ou coisa parecida”.

Então quando pessoas chegam à nossa comunidade com tanques, quando chegam à Babilônia ou a Warsaw, ou o que quer que vocês queiram chamá-lo, como fizeram nos projetos Henry Horner – e essa é uma manifestação, uma manifestação muito clara do que está acontecendo na Babilônia. Quando fazem aquilo, quando chegam com tanques e aqueles tanques são ferramentas, são ferramentas de guerra, eles estão declarando guerra à comunidade. E se vocês, quando eles chegam na comunidade com tanques, chegam com dashikis e nada mais que dashikis, bubus e nada mais do que bubus e sandálias, então vocês estão no lugar errado e na hora errada e com as pessoas erradas. Seria melhor se vocês voltassem para casa, se tivessem que se despir, se tivessem de ficar de traseiro de fora, e colocasse nada mais que um coldre e uma arma e algumas munições. Ninguém tentará vocês, entendem, assobiar para vocês, ou coisa parecida. Porque isso desaparecerá a partir do minuto… qualquer tipo de atração sexual que vocês tiveram desaparecerá. Porque eles olharão para o Sr. e a Sra. Colt.45 e Sra. .357 Magnum. E as formas deles são as melhores formas que nós temos na Babilônia para lidar com isso. E vocês irmãos segurando uma .357 Magnum em suas mãos, não há nada parecido como sentir uma .357 Magnum, exceto por uma dessas bonitas irmãs negras. Mas nós precisamos das .357 Magnum também. Quando nós saímos por aí, nós seremos capazes de nos proteger. Huey P. Newton emitiu uma ordem muito tempo atrás. Foi a Ordem Executiva #3. Dizia que nós precisamos desenhar a linha de demarcação. E quando os porcos avançam sobre nossos berços, nós temos que protegê-los com força armada. Porcos não avançam sobre os berços dos Panteras. Quando avançam sobre nossos berços, eles têm certeza que os Panteras estão fora da cidade. Nós tivemos uma situação onde avançaram sobre um berço dos Panteras e tinham três helicópteros sobre seu berço. Eu falo sério. Eu falo sério. Vejam, eles vêm preparados. Porque sabem que quando estão chegando a um berço dos Panteras que nós podemos falar um monte de retórica, mas lidamos com o mesmo jargão básico que o povo na Babilônia lida. Se precisa de duas pessoas para dançar tango, filho da puta. Tão logo você arrombe a porta, eu terei de chutá-la de volta para você. Nós não trancamos nossas portas. Nós apenas temos algumas boas armas e as deixamos as malditas portas abertas e quando pessoas chegam lá, nós colocamos algo que as fará ir até loja de ferragens, comprar uma tranca, fechar a porta, trancá-la e te mandar para fora daqui!

Nós vamos nos mover tão rápido quanto for possível, nos movermos para pessoas com questões e respostas e as pessoas com síndrome de culpa e as pessoas que se sentem embaraçadas e envergonhadas e desgraçadas. E nós falamos sobre os seus líderes como LeRoi Jones e Mamalama Karangatang Karenga, um careca bazoomie até onde sabemos. Isso é o que ele é. E nós achamos que se vai continuar a usar dashikis, vai ter que parar de usar calças. Porque ele fica muito melhor em minissaias. Isso é tudo que um filho da puta que não tem nenhuma arma precisa na Babilônia, e isso é uma minissaia. E talvez possa se safar de alguma coisa. Porque não vai atirar caminho afora por nada. Não lutará contra a tentação, mas ele nunca assassinou ninguém exceto um membro dos Panteras Negras. Dê o nome de alguém. Defina para mim a época em que o escritório de Karangatang foi atacado. A única época que teve a oportunidade de usar uma arma foi contra Alprentice Bunchy Carter, um revolucionário. Este irmão tinha mais poesia revolucionária para um filho da puta do que qualquer outro. Cultura revolucionária. John Huggins. A única vez em que eles levantaram uma arma foi contra essas pessoas.

Como Huey disse na prisão, quando eles levantaram suas mãos contra Bunchy e quando levantaram suas mãos contra John, levantaram suas mãos contra o melhor que a Babilônia possui. E vocês devem dizer isso. Vocês devem sentir em qualquer momento em que um irmão revolucionário morre. Vocês nunca ouviram falar no Partido sair matando pessoas por aí. Vocês sacaram o que eu disse? Pensem sobre isso. Eu não vou se quer contar. Vocês pensem sobre isso por si mesmos.

Nós começamos o Black Panther Party em 1966. Eu vou contar para vocês toda a história em um minuto. Nós começamos lidando com porcos. Vocês acham que nós temíamos alguns ka-rangatangs, alguns estúpidos, alguns machos chauvinistas? Eles dizem às suas mulheres “Ande atrás de mim”. A única razão para uma mulher andar atrás de um marica como esse é para ela poder enfiar seu pé até o joelho bem fundo no rabo dele.

Nós não precisamos de nenhuma outra cultura a não ser que seja a cultura revolucionária. O que nós queremos dizer com isso é uma cultura que o libertará. Vocês ouviram seu oficial de campo falando sobre um incêndio na sala, não ouviram? Com o que vocês se preocupam quando vocês têm um incêndio nessa sala? Vocês se preocupam com água ou com fugirem. Vocês não se preocupam com nada mais. Se vocês dizem “Qual sua cultura durante um incêndio?” “Água, essa é minha cultura, irmão, essa é minha cultura”. Porque cultura é uma coisa que te mantêm. “Qual é sua política?” Fuga e água. “Qual é sua educação?” Fuga e água. Quando as pessoas nos perguntam sobre a nossa cultura, nós dizemos que nossa cultura são armas. Nossa cultura é arte revolucionária, algo assim. E quando você vê aqueles dois irmãos que pegaram suas armas e saíram pela Babilônia em 66 quando muitos de nós estávamos assustados para fazer qualquer coisa exceto nos trancar no armário e escutar Coltrane – e isso é algo para bater nesse filho da puta. E isso nos deixou ligados e nos fez negros o suficiente para sermos maus. Então isso nos transformou e nos fez negros o suficiente e nós éramos maus. Então isso nos deixou negros o bastante para sair e lançar uma acusação geral contra o assassinato do resto do povo negro. Negro, você não é nenhum pateta. Negro, como é que seu nome não mudou? Perguntem aos porcos da Califórnia. Perguntem a eles. “Quem você teme mais? Ron Mamalama Karenga ou Huey P. Newton, quem recebeu o nome em homenagem a um político mentiroso, e demagógico, Huey P. Long?” E os porcos não ligam para isso. Porque vocês não têm que chamar, se sua pistola é uma Browning, você não tem que dar a ela um nome africano, porque me acreditem, ela atira da mesma forma. Vocês entendem? Atira da mesma forma.

Mudar o seu nome não vai mudar nosso conjunto de compromissos. A única coisa que vai mudar nosso conjunto de compromissos é o que nos trouxe a esse conjunto de compromissos. E o que nos trouxe foi o opressor. E ele se define em três estágios, nós os chamamos de “três em um”: gananciosos, avarentos homens de negócio; políticos demagógicos e mentirosos e racistas, porcos fascistas e policiais reacionários. Até que vocês lidem com essas três coisas, então seus conjuntos de compromissos permanecerão os mesmos. A única diferença será que vocês ainda estarão sob o fascismo, mas ao invés de Fred estar sob o fascismo, eu seria Oogabooga sob o fascismo. Mas eu sentirei a mesma coisa. Ao invés de eu estar indo para a câmara de gás, eu irei para a seção africana da câmara de gás. Nós estamos tão africanizados por aqui que se africanos viessem aqui, vocês teriam que dar a eles um catálogo para encontrar o que diabos estariam comprando. É isso mesmo, vocês teriam que dar a eles um catálogo para encontrar o que diabos eles estariam comparando. Vocês têm pôsteres, fotos e nomes, nós estamos dando nomes às coisas e a nós mesmos que eles jamais ouviram. E nós chamamos a nós mesmos africanizados. E isso não é algo? Vocês entendem?

Se você é um racista, deixa eu te contar uma coisa. Ou se você é um nacionalista reacionário. Brancos praticam isso. Vá para a África do Sul e pergunte a eles. Vá em frente. Se você quer um exemplo de nacionalismo cultural, o melhor que eu posso dar a você é Papa Doc Duvalier. No Haiti, todas as pessoas negras, “nós precisamos de alguma negritude”. Papa Doc – agora, Duvalier – disse “agora, nós precisamos de alguma negritude. Vamos retirar toda gente branca daqui”. Retiraram toda a gente branca, e agora está oprimindo todo povo negro. Quando a gente negra se queixa disso, ele diz, “bem, maldição, do que vocês estão reclamando agora? Eu sou negro. Eu não posso fazer nada de errado, irmão. Nós já qualificamos isso”. É por isso que esses apologistas como Wesley South vão ao ar, praguejando coisas que sofisticam o que a irmã estava falando. Falando a respeito, fazendo propaganda, na verdade. Apenas praguejando sobre nada porque são boçais em nossa comunidade permitidos a permanecer nela por conta da cor de suas peles.

Vocês têm Bobby Seale acorrentado e amordaçado no Edifício Federal. Vocês têm James e Michael Soto que foram assassinados em dois dias. A propósito, para todos vocês brancos que se afirmam radicais, que afirmam que vão apoiar o Partido. Nós entramos e estamos dizendo que não há melhor, ou mais avançado marxista do que Huey P. Newton. Não o presidente Mao Tsé-tung ou ninguém mais. Nós estamos dizendo que ao menos que as pessoas mostrem-nos através das suas práticas sociais que se identifiquem com a luta na Babilônia, isso quer dizer que não são internacionalistas, não são revolucionários, nem verdadeiramente revolucionários marxista-leninistas. Nós olhamos para Kim Il Sung. Nós olhamos para o camarada Marechal, Marechal Kim Il Sung da Coreia como se elevando em sua prática social assim como Mao Tsé-tung. Se vocês conseguem se identificar com isso, legal. Se vocês não conseguem se identificar com isso, caiam fora com seus traseiros limpos como fazem as galinhas, vocês sacaram? Se vocês não conseguem se identificar com isso. E nós estamos dizendo isso para vocês.

E vocês, filhos da puta, que pensam que são tão radicais e que estão tentando radicalizar tudo em Washington. E eu não sei o que diabos vocês poderiam radicalizar, porque vocês não vão fazer nada além de andar entre os corpos de dois homens mortos, Lincoln e Washington. E eu sei que vão se levantar e obter nenhuma reparação. E há tanta chance para Nixon dar-lhe alguma reparação. Se vocês não conseguem 200 mil pessoas para marchar em Washington por algo que está acontecendo no Vietnã, porque diabos vocês não conseguem 200 mil pessoas para vir para Jackson e Dearborn, o Edifício Federal, e marchar pelo Presidente da Babilônia, o homem que fez mais pela Babilônia, e mais pelo Vietnã do que sua marcha de maníacos jamais fará. Porque vocês não estão fazendo nada por ninguém exceto Florsheims e Ste-tsons ou Stacy Adams e ninguém mais, porque vocês vão gastar suas solas – suas almas metafísicas e as solas de seus sapatos. E nós dizemos que se vocês não conseguem se identificar com isso, então fodam-se.

Porque nossa linha tem sido consistente. Conhecemos o marxismo-leninismo. Pessoas que podem não querer se aprofundar, dizem que marxista-leninistas não xingam. Isso é algo que nós pegamos dos senhores de escravos. Nós sabemos que negros que inventaram a palavra filho da puta. Nós não estávamos fodendo a mãe de ninguém. Era o senhor que fodia as mães das pessoas. Nós criamos a palavra, vocês sacaram? Nós nos relacionamos a isso. Nós negros marxista-leninistas, e negros marxista-leninistas praguejadores, e continuaremos a praguejar, maldição. Porque é com isso que nos relacionamos, é isso que está acontecendo na Babilônia. Isso é realidade objetiva. Ninguém está andando por aí na Babilônia jorrando pela boca um monte de besteira acadêmica, masturbação intelectual, pregando diarreia pela boca. Nós dizemos para aqueles filhos da puta que se vocês querem pegar uma doença na boca, vocês veem e dizem essas merdas em uma comunidade onde os Panteras estão, e vocês vão ganhar uma doença na boca com certeza. Vocês vão ganhar um casco na boca, casco de Pantera na boca. Então se vocês radicais não conseguem se identificar com isso, então fodam-se, porque nós sabemos o que o Presidente Bobby fez pela luta.

E nós sabemos que o povo do Vietnã, elas sabem que a paz, assim como Huey P. Newton contou sobre nosso lema, que nós somos pela abolição da guerra. Nós não queremos guerra, mas entendemos que a guerra só pode ser abolida através da guerra. Que para baixar as armas, fazer um homem se livrar das armas, é necessário pegar uma arma. E vocês, filhos da puta, que estão pela paz no Vietnã, o Black Panther Party é pela vitória do Vietnã. Nós dizemos que eles são agressores, um bando de cães lacaios executores, que são imperialistas. Eles são um bando de belicistas de Wall Street. E devem ser expulsos de lá.

E o único meio de libertação do povo oprimido no Vietnã, ou que a liberdade do povo oprimido da Babilônia possa ser adquirida, é que tem de ser fundada com o sangue e os ossos desses porcos e cães agressivos que chegam a nossas comunidades como tropas ocupando um território estrangeiro em vão no Vietnã e lutam e combatem implacavelmente ao povo no Vietnã e seu direito de autodeterminação. Nós não ligamos se alguém gosta disso ou não. Essa é a nossa linha. Essa é uma linha marxista-leninista. Ela é consistente. E vai permanecer nesse rumo, esse tem sido o rumo.

Se vocês não conseguem que 200 mil pessoas venham se informar sobre Bobby, então dizemos que vocês são contrarrevolucionários. O que vocês estão fazendo é pegar algum tipo de uma rota a partir de DeKalb de onde vocês estiverem par chegar no Vietnã sem sequer passar pelo Henry Horner Projects na parte oeste de Chicago. Isso é impossível. Vocês acham que o Vietnã é ruim? Confiram as leis. No Vietnã se você perde um filho te permitem ficar com o outro. Eles dizem “aqui, querida mãe, segure-o, segure-o bem”. Ele pode ficar em casa, vocês entendem. Se você tem dois por lá e um morre, eles o embarcarão de volta. Eles o embarcarão de volta e vão tirá-lo da guerra onde não haverá nenhuma chance de morrer, porque “Sra., essa guerra não vai levar os seus dois filhos”. E então vocês estão marchando nessa guerra cruel em Washington, todos vocês radicais, e quanto ao Sr. Soto, que perdeu dois filhos em uma semana? Isso nos prova através de fatos históricos que a Babilônia é pior que o Vietnã, precisamos ter alguma moratória na comunidade negra na Babilônia e em todas as comunidades oprimidas.

E Charles Jackson, de Altgeld Gardens. Semana passada, um garoto de 14 anos que estava atirando pedras. Os porcos disseram a ele para parar, e os filhos da puta o balearam e mataram. O assassinaram a sangue frio. E então vocês, filhos da puta, tem a pachorra de vagabundear à Washington, marchando entre dois mortos. O Black Panther Party vai criticar vocês, filhos da puta. Nós vamos criticar vocês abertamente porque nós acreditamos na crítica revolucionária de massas. Nós vamos dizer que vocês estão errados, porque tivemos um monte de críticas direcionadas a nós por foder com você. Ou vocês farão parte do problema ou vão fazer parte da solução. E nós achamos que vocês, filhos da puta, são parte do problema, nós vamos começar a apontar nossas armas para vocês seus malditos.

Nós vamos ter algumas perguntas e respostas. Nós vamos fazer uma coisa também. E essa é outra coisa fora das vistas que mostra às pessoas de onde nos viemos. Nós viemos da Babilônia. O Black Panther Party funcionou unicamente pelo povo negro. Se vocês tiverem uma chance – eu não acho que vai ser este domingo, mas nós gravamos nesse domingo e mostramos no próximo sábado, eu tenho quase certeza. Vai ser gravado nesse domingo e mostrado próximo domingo. Haverá uma grande roda de debate que vai ser sobre “Apenas para Negros”, qualquer um de vocês pode conferir a coisa e ver como é. Ou eu mesmo ou Cha-ka estaremos lá. Nós estaremos apresentando o Black Panther Party. E se vocês tiverem uma chance, porque vocês não dão uma olhada nisso?

E se vocês querem fazer algo por mim, nós gostaríamos de fazer alguma coisa pelo Presidente Bobby, se vocês só baterem palmas para mim. Isso é o que chamamos – você não tem que bater palmas tão alto – é o que nós chamamos de batida popular. Essa é uma batida que foi iniciada em 1966 por Huey P. Newton e Bobby Seale. Essa é uma batida que nunca para porque essa é a batida que tinham porque sabiam que ela não poderia ser parada. Essa é a batida que está manifesta em vocês, o povo. O presidente Bobby Seale diz que enquanto houver o povo negro sempre haverá o Black Panther Party. Mas eles nunca podem parar o Partido a não ser que parem a batida. Enquanto vocês manifestarem a batida, nós nunca poderemos ser parados. Vocês acham que a batida é perigosa? Nós sabemos que ela é perigosa. Porque quando a batida começou na Costa Oeste, o chefe porco de lá, Mafioso Alioto, disse ao resto de seu povo que o ajudassem com o seu fascismo por lá, ele disse, “escutem a batida desse povo. Ei, eles estão batendo muito, rápido demais. Por que eles não voltam para casa onde pertencem?” Quando essa batida começou novembro passado, um ano atrás em Chicago, Illinois, na 2350 W. Madison, quando eu e Chaka e Bobby Rush e Che e alguns irmão e Jewel nos juntamos e dissemos nós vamos começar um Black Panther Party bem aqui. Porque isso é parte da Babilônia, o Partido existe bem aqui também. Que nós podemos estar na escola agora, podemos pensar que estamos no topo da montanha, mas vamos descer até o vale, porque o povo está no vale, o compromisso está no vale, a opressão está no vale, a agressão, a repressão, o fascismo, tudo existe no vale. Não importa quão bom seja no topo da montanha, nós temos um compromisso, então nós vamos voltar. Nós vamos voltar para o vale.

E quando nós fizemos isso, até mesmo Daley e Narahan e o juiz – nós o chamamos de ‘Adolph Hitler’ Hoffman – o chefe fascista que conhece a arte de tapista, a arte que Mussolini supunha ter dominado. Nós dizemos que Hoffmann é melhor na arte de tapista do que Mussolini jamais fora, porque sabemos o que é a arte de tapista é: a arte do bom timing. E quando nós começamos esta batida, o juiz Hoffman e o Governador Daley e o cabeça de martelo Hanrahan disse, “ei, escute o povo, é a batida de Chicago. Politicamente estão batendo mesmo muito rápido, batendo demais. Porque eles não voltam para casa?” Para viver com todo o povo negro onde eles pertencem, para viver em dashikis e bubus e ser costelas de porco nacionalistas e nacionalistas culturais. Por que não voltam para casa para pensar que “o que você está usando” vai mudar o que você é? Por que não voltam para o “poder político flui da maga de um dashiki?” E nós dissemos: Não! Conquanto que a batida continue, nós continuamos, porque isso nos dá no Partido um tipo de intoxicação, que nos deixa entender. Nós somos proletários revolucionários intoxicados e não podemos ser astronomicamente intimidados.

Não se preocupe com o Black Panther Party. Contanto que você mantenha a batida, nós seguiremos em frente. Se você acha que nós podemos ser apagados porque assassinaram Bobby Hutton e Alprendice Bunchy Carter e John Huggins, você está errado. E se você pensa que porque Huey foi preso o Partido vai parar, está vendo, você está errado. Se você acha que porque o Presidente Bobby foi preso o Partido vai parar, está vendo, você está errado. Se você acha que porque podem me prender e pensa que o Partido vai parar, você pensou errado. Porque eles podem “expulsar” Eldridge Cleaver país afora, você está errado. Porque nós já o dissemos antes de sairmos e nós dissemos hoje. Que você pode prender um revolucionário, mas você não pode não pode prender a revolução. Você pode trancafiar um lutador da liberdade como Huey P. Newton, mas você não pode trancafiar a luta pela liberdade. Você pode contratar alguns costelas de porco como Mamalama para assassinar Alprentice Bunchy Carter, um libertador, mas você não pode assassinar a libertação, porque se vocês o fizerem, terão perguntas que não respondem, explicações que não explicam, conclusões que não concluem.

Nós dizemos que se você ousa lutar, então você ousa vencer. Se você não ousa lutar, você não merece vencer. Nós não iríamos para um ringue com Muhammad Ali e não lutando imaginaríamos por que nós perdemos, não é mesmo? Se você não luta, então você não merece vencer. Se você não bota para correr esses fascistas, então você está louco. Nós dizemos que não é mais uma questão de violência e não violência. Nós dizemos que é uma questão de resistência ao fascismo ou não existência dentro do fascismo. Nós dizemos, vamos parar a guerra no Vietnã. Vamos pará-la adquirindo a vitória pelo espírito de Ho Chi Minh. Nós dizemos vamos parar a guerra na Babilônia. Vamos iniciar a descentralização da polícia.

A única coisa real é o povo, porque os porcos mordem a mão que os alimenta e eles precisam ser esbofeteados. E como Chaka disse, quando vocês os pegam em sua casa, os acertem com alguma coisa. Vocês não devem argumentar se atingi-los com uma cadeira ou uma mesa, porque eles estão fora de controle desde o início. Nós dizemos que o opressor – o fodido juiz Taney – o opressor não tem direitos os quais nós, os oprimidos, sejamos obrigados a seguir.

Se vocês tiverem a chance, venham se informar sobre Bobby. Vocês deveriam vir se informar sobre Bobby porque Bobby veio e se informou sobre vocês. Vocês deveriam vir e se informar sobre Bobby porque em 1966, quando nós nem sequer pensávamos que éramos importantes o suficiente para nos protegermos, Bobby e Huey pegaram suas armas e chegaram à comunidade. Eles deixaram a universidade. Eles eram estudantes engenheiros em formação, como Bobby, e Huey era um estudante advogado em formação. E o que eles leram, colocaram na prática. Vocês deveriam vir se informar sobre Bobby porque Bobby veio e se informou sobre vocês. Eu vou me informar sobre Bobby e se vocês tiverem qualquer coisa a dizer vocês virão se informar sobre Bobby. Desçam até Jackson e DearBorn e se informem sobre nosso Presidente, porque ele é o presidente da Babilônia. Ele é o pai e o fundador do programa de café da manhã e das clínicas de saúde gratuitas, não há nada de errado, nada de errado mesmo com isso.

Todo poder ao povo! Poder ao povo do norte de Illinois que vem aqui à Northern Illinois University.

Nós dizemos que precisamos de algumas armas. Não há nada errado com armas em nossa comunidade, há apenas uma má distribuição de armas em nossa comunidade. Por uma razão ou outra, os porcos têm todas as armas. Então todos nós temos de distribuí-las igualmente. Então se veem alguém que tem uma arma e vocês não, então quando vocês saírem vocês devem ter uma. A forma como nós seremos capazes de lidar com as coisas da forma certa. E me lembro de olhar para a TV e achar que não somente os porcos brutalizaram o povo no tempo do velho oeste, tiveram que contratar caçadores para ir caçá-los. Atiravam em alguém sem a intenção de prender. Precisamos de algumas armas. Precisamos de algumas armas. Precisamos de alguma força.

Obrigado.

Eu vou chamar Chaka e a Irmã Joana aqui de volta para lidar com qualquer questão que vocês queiram esclarecer, porque nós temos muito tempo para gastar, e não temos nenhum tempo a desperdiçar.

Como disse a irmã, “o tempo é curto, vamos aproveitar a oportunidade”. Obrigado.

Fred Hampton | Discurso na Nothern Illinois University | Novembro de 1969

Tradução de Gabriel Duccini

 

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Texto Originalmente publicado no Site Nova Cultura 

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Claudia Jones: Desconhecida Pan-Africanista, Feminista e Comunista

O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu à sua defesa para a libertação dos povos do Caribe e da África do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons
O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu à sua defesa para a libertação dos povos do Caribe e da África do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons

Traduzido por Rafaela Araujo Santana – Grupo Kilombagem

Por Ajamu Nangwaya

Jones utilizou o espaço organizacional do Partido Comunista para avançar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descolonização e na luta de classes.

Claudia Jones foi uma revolucionária, cujo ativismo alcançou dois continentes, América do Norte e Europa. Claudia Vera Cumberbatch nasceu em 21 de fevereiro de 1915 em Belmont, Trinidad e Tobago, a terra que tem dado origem a importantes políticos, como C.L.R. James, Eric Williams, George Padmore e Kwame Ture (anteriormente Stokely Carmichael). Ela e sua família foram forçados a migrar para Nova York durante os anos 1922-24, como resultado da dificuldade econômica que eles experimentaram como membros da classe trabalhadora em Trinidad.

Ela adotou o sobrenome “Jones”, como uma medida de proteção na realização de seu trabalho organizado com o Partido Comunista dos EUA (CPUSA). Essa mudança de nome não foi um incomum dada a histeria anticomunista e perseguição dos comunistas nos Estados Unidos. Claudia faleceu na terra de seu exílio, na Grã-Bretanha, em 25 de dezembro de 1964. Curiosamente, o local final de descanso de Jones está localizado justamente a esquerda de Karl Marx, no cemitério de Highgate, em Londres.

Ela contribuiu para o trabalho do Partido Comunista dos Estados Unidos – CPUSA como jornalista, editora, líder, teórica, educadora e organizadora de 1936 até sua deportação em dezembro de 1955. Ela trabalhou com o jornal do partido Diário Trabalhador, serviu como a editora da Liga da Juventude Comunista (UJC), na Revisão Semanal, funcionava como a diretora estadual YCL da educação e presidente do estado, tornou-se um membro pleno da CPUSA em 1945, eleita para o Comitê Nacional do CPUSA em 1948, assumiu o papel de Secretária de Comissão da Mulher, CPUSA, e trabalhou em várias funções em outras publicações do partido. Claudia foi presa três vezes por causa de seu trabalho na CPUSA. Ela foi condenada sob a Lei Smith que visava os líderes do CPUSA e serviu oito meses na prisão.

O Professor Errol Henderson da Universidade Estadual da Pensilvânia captura a relevância política da Claudia:

“Ela foi brilhante e incisiva. Ela forneceu ao feminismo componente da análise marxista juntamente com a incisiva incorporação da “cultura negra” de Haywood, no qual ela apoiou e estendeu … uma mente excepcional … e sua deportação para os EUA foi uma grande perda para a luta de libertação aqui, mas como um complemento para o Reino Unido, onde ela fez ainda mais contribuições “.

Jones utilizou o espaço organizacional do Partido Comunista estadunidense para avançar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descolonização e na luta de classes. Além disso, ela usou suas várias funções e recursos do partido comunista para avançar na libertação das mulheres em geral e das mulheres afro-americanos da classe trabalhadora, em particular.

É uma grande injustiça da história que o trabalho de Claudia Jones seja pouco conhecido entre os radicais que possam extrair ensinamentos da sua abordagem integrada para a eliminação do racismo, capitalismo, patriarcado e imperialismo. Em um período como nosso em que a política de identidade assume expressões vulgares, é fundamental para nós destacar a contribuição desta revolucionária cujo ativismo foi guiado por um anticapitalista, exigente anti-opressão e orientação política anti-imperialista.

O Professor Carole Boyce Davies, em seu livro “A esquerda de Karl Marx: A vida política da Comunista negra Claudia Jones,” oferece uma razão para a invisibilidade de Claudia:

“O estudo das mulheres negras comunistas permanece um dos mais negligenciados entre verificação contemporânea de mulheres negras para pelo menos, uma das razões que Joy James identifica: O revolucionário sob margem, mais do que qualquer outra forma o feminismo (negro). “Este tipo de negligência pela maioria das acadêmicas feministas não é surpreendente. A maioria destas pesquisadoras burguesas não são socialistas / comunistas e, como tal, não são atraídos para assuntos que estão associados com o comunismo.

A continua experiência de classe trabalhadora de Claudia e sua família na sociedade americana ajudou na formação da sua luta de classes, compromissos políticos feministas e antirracistas:

“Estava fora das minhas experiências de Jim Crow como uma jovem mulher negra, experiências igualmente nascido da pobreza da classe trabalhadora que me levou a juntar-se à União de Jovens Comunistas e escolher a filosofia da minha vida, a ciência do marxismo-leninismo – que a filosofia que não só rejeita ideias racistas, mas é a antítese deles. “

Como uma mulher africana da classe trabalhadora, a experiência vivida de Claudia lhe proporcionou um amplo entendimento do patriarcado. O exemplo mais claro de sua compreensão e análise da opressão das mulheres africanas está presente no artigo “Um fim à negligência dos Problemas da Mulher Negra! ”. Foi publicado em 1949. Muito antes do desenvolvimento da estrutura analítica interseccional na década de 1970 por feministas e lésbicas Afro-americanas como expresso na Declaração ColetivoRioCombahee, Jones já tinha essa abordagem para analisar as múltiplas formas de opressão que configura a vida das mulheres afro-americanas da classe trabalhadora.

A preocupação de Jones com a libertação das mulheres focava em mudanças nas condições econômicas, sociais e políticas desiguais e não a obsessão cultural psicológica encontrada dentro de círculos políticos de identidade vulgares atuais:

“Para o movimento das mulheres progressivas, a mulher negra, que combina em seu estatuto o trabalhador, o Negro, e a mulher, é o link vital para essa elevada consciência política. Na medida, além disso, que a causa da mulher negra trabalhadora é promovida, ela será habilitada para tomar seu lugar legítimo na liderança do proletariado negro do movimento de libertação nacional, e por sua participação ativa contribuem para toda a classe trabalhadora americana, cuja missão histórica é a conquista de uma América Socialista – a final e completa garantia da emancipação da mulher “.

O estado capitalista e corporações do Norte global explora os recursos e mão de obra e dominar as economias e sociedades no Sul global. De acordo com Davies em “A Esquerda de Karl Marx”, “política anti-imperialistas de Claudia ligada às lutas locais de pessoas negras e mulheres contra o racismo, e a opressão sexista às lutas internacionais contra o colonialismo e o imperialismo negros.” O Pan-africanismo de Claudia conduziu para sua defesa por liberdade dos povos do Caribe e da África do colonialismo.

Na Grã-Bretanha, dois das notáveis realizações de Claudia são a criação do Carnaval de Notting Hill e o Diário das Índias Ocidentais. Uma parte do epitáfio em sua lápide diz: “Valente lutadora contra o imperialismo e, o racismo que dedicou sua vida ao progresso do socialismo e a libertação do seu próprio povo negro.”

Deveria ter acrescentado: “defensora assertiva do feminismo socialista”.

Ajamu Nangwaya, PhD., é um educador, organizador e escritor. Ele é um organizador com a Rede para a Eliminação da Violência Policial

Artigo original disponível em: http://www.telesurtv.net/english/opinion/Claudia-Jones-Unknown-Pan-Africanist-Feminist-and-Communist–20160210-0020.html

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Nonagésimo aniversário de Fanon – OS CONDENADOS DA TERRA

CURSO KILOMBAGEM – FANON VIDA E OBRA

Reflexões retiradas do artigo: FAUSTINO, D. M. . Colonialismo, racismo e luta de classes: a atualidade de Frantz Fanon. In: V Simpósio Internacional Lutas Sociais na América Latina, 2013. Anais do V Simpósio Internacional Lutas Sociais na América Latina, 2013. p. 216-232. (não deixe de citar suas fontes quando compartilhar!!!)

O Texto de hoje é o mais famoso do que lido Os Condenados da Terra, escrito por Fanon em 1961. O livro, cercado de curiosidades e polêmicas, é comentado por diversos pensadores em todo o mundo. O título original do livro, Les damnés de la terre,  foi inspirado na primeira estrofe de L’INTERNATIONALE, hino  do movimento comunista internacional:

Debout! l’âme du prolétaire

(De pé! ó alma do proletário)

Travailleurs, groupons-nous enfin.

(Trabalhadores, agrupemo-nos finalmente)

Debout! les damnés de la terre!

(Levante-se! os miseráveis da terra!)

Debout! les forçats de la faim!

(Levante-se! condenados de fome!)

Pour vaincre la misère et l’ombre

(Para superar a pobreza e a sombra)

Foule esclave, debout ! debout!

(Multidão de escravos, de pé! de pé!)

C’est nous le droit, c’est nous le nombre:

(Este é o nosso direito, o nosso número)

Nous qui n’étions rien, soyons tout

(Nós, que não eram nada, sejamos tudo)

Mas para ele, diferentemente do que propunha o movimento comunista francês, a aposta para a superação radical da situação colonial não estaria no proletariado (industrial) – quase ausente nas colônias, e quando presente, na maioria das vezes,   comprometido com a manutenção da ordem colonial. Os Damnés, de que ele fala e apostou todas as cartas – estes que na sociedade colonial não eram nada – deveriam ser encontrados entre àqueles que realmente não tinham nada a perder – “a não ser os seus grilhões”.

De pé ó vítimas da fome
De pé ó vítimas da fome

Fanon sempre foi um ser humano intenso: com 25 anos já havia escrito Pele negra, máscaras brancas e com 29 havia se tornado chefe do hospital psiquiatra em Blida, Argélia. Agora, aos 36, já se encontrava entre os principais articuladores do pan-africanismo internacional junto à Frente de Libertação da Argélia.

Em dezembro de 1960, depois de circular por várias partes do continente africano fomentando a necessidade de expandir as Guerras de Libertação, Fanon inicia a escrita de um livro que problematizaria a relação entre revolução argelina e outros povos do Continente. No entanto, para a sua surpresa e no auge de sua atuação política, é diagnosticado é com leucemia – uma doença maligna nos glóbulos brancos – , e constata, mediante aos estágios da medicina na época, que lhe restava pouco tempo de vida.

Diante do fato de que seu corpo definhava, optou por alterar o curso da escrita que empreendia, direcionando-a para o que, sabidamente, seria o seu último texto. É neste contexto, lutando contra o próprio relógio biológico. que ele escreverá em questão de meses o famoso Os Condenados da terra. Enquanto escrevia o livro e revisava os trechos, chegou a voar para Itália a fim de encontrar Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, para encomendar a Sartre o Prefácio do seu livro.

Trágico é que até hoje, se considerarmos a presença incontestável do racismo na sociedade contemporânea, que o Prefácio de Sartre – embora tenha contribuído para popularizar o texto no contexto internacional – tenha se tornado mais famoso que o próprio livro. No prefácio, Sartre, inteligentemente, destaca a violência, objetivando, chamar a atenção dos europeus para a sua hipocrisia e culpa diante de todo sofrimento vivido fora da Europa.

Entretanto, lamentavelmente, muitos críticos importantes das Ciências Sociais destilaram duras críticas à Fanon, sem ter, contudo, avançado na leitura para além das páginas escritas por Sartre. Ocorre que o livro é muito mais complexo do que o Prefácio pretendeu ser, e a leitura que não o tome por completo está fadada à uma apreensão pobre e até distorcida.

O livro trata, entre outros assuntos, dos conflitos implícitos ao colonialismo e à luta anticolonial. Alerta que a violência é parte fundante da sociedade colonial, estando presente em todas as suas expressões materiais e simbólicas. Constata ainda que a superação da lógica colonial só seria viável naquelas situações em que os colonizados empreendessem força material proporcionalmente capaz de abalas as forças sociais a ponto de fazer surgir um homem novo:

A descolonização se propõe a mudar a ordem do mundo, é, como se vê, um programa de desordem abosoluta(…)é um processo histórico: isto é, ela só pode ser compreendida, só tem inteligibilidade, só se torna translúcida para si mesma na exata medida em que discerne o movimento historicizante que lhe dá forma e conteúdo. A descolonização é o encontro de duas forças congenitamente antagônicas, que têm precisamente a sua origem nessa espécie de substancialização que a situação colonial excreta e alimenta. (…) a descolonização é verdadeiramente a criação de homens novos. Mas essa criação não recebe a sua legitimidade de nenhuma potência sobrenatural: a “coisa” colonizada se torna homem no processo mesmo pelo qual ela se liberta. (Fanon)

Em um diálogo constante com os movimentos internacionais ligados ao panafricanismo e ao terceiro-mundismo, Frantz Fanon alerta que mesmo na África, o processo de revolução nacional não podem ignorar as especificidades de entificação da capitalismo, a composição das diferentes de classes sociais e seus interesses. Os países coloniais seriam economicamente atrasados e subdesenvolvidos a partir da relação histórica com suas metrópoles sanguessugas.

Esta realidade relegaria às colônias uma produção de bens primários voltados à exportação; uma classe operária insipiente; um campesinato pauperizado e analfabeto e uma burguesia local subordinada à interesses externos. Estas burguesias, forjadas no processo colonial, mesmo quando apoiem a independência, tendem a trair sua “vocação” de classe – como se assistiu nos séculos anteriores na Europa – e não assumirem a frente do processo produtivo de forma a acumular o excedente de produção no próprio país. Abrindo brecha, assim, ao neocolonialismo.

No capítulo III “Desventuras da consciência nacional” Fanon antecipa que a superação do colonialismo não depende apenas da eleição de lideres africanos, mas sim, da reorganização das relações de produção, orientada para e com o povo. Do contrário, todo o esforço dos movimentos de libertação se veriam afogados no neocolonialismo:

Essa burguesia que se afasta cada vez mais do povo em geral nem consegue arrancar do Ocidente concessões espetaculares: investimentos interessantes para a economia do país, instalações de certas indústrias. Em contrapartida, as fábricas de montagem se multiplicam, consagrando assim o tipo neocolonialista no qual se debate a economia nacional. Assim, não se deve dizer que a burguesia nacional retarda a evolução do país, que lhe faz perder tempo ou que ele pode conduzir a nação para caminhos sem saída. Efetivamente, a fase burguesa na história dos países subdesenvolvidos é uma fase inútil. Quando essa casta for suprimida, devorada por suas próprias contradições, nós percebemos que nada aconteceu depois da independência, que é preciso retomar tudo, partir outra vez do zero. A reconversão não será operada no nível das estruturas instaladas pela burguesia durante o seu reino, pois essa casta não fez outra coisa senão tomar, sem mudança, a herança da economia, de pensamento e das instituições coloniais .(FANON).

Em seu diálogo com o Movimento de Negritude, afirma que essa perspectiva é “a antítese afetiva, senão lógica, desse insulto que o homem branco fazia á humanidade”. E completa: “Essa negritude lançada contra o desprezo do branco se revelou, em certos setores, como o único fator capaz de derrubar interdições e maldições”. No entanto, essa contraposição, historicamente necessária, levou o movimento a um impasse: “ à afirmação incondicional da cultura europeia sucedeu a afirmação incondicional da cultura africana” .

Entretanto, se o colonialismo definiu como essencialmente negro a emoção, o corpo, a virilidade, ludicidade, mas, sobretudo, classificou hierarquicamente estes elementos como inferiores, frente à não menos fetichizada (e ilusória) imagem criada para o Europeu – Razão, civilização, cultura, universalidade -, o movimento de negritude, sem romper com estes fetichismos, apenas inverteu os polos da hierarquia, passando a considerar como positivo àquilo que o colonialismo classificou como inferior.

Assim a inocência, musicalidade, o ritmo “nato” do africano, passam a ser afirmados pelos movimentos anti-racistas como elementos essencialmente africanos, mas agora, vistos como superiores e desejáveis frente à frieza tecnicista ocidental (SENGHOR, 1939). As “almas da gente negra”passam a ser classificadas como essências metafísicas, ou no mínimo históricas, que precisariam ser resgatas e afirmadas para que o negro se reencontre consigo próprio.

Para Fanon, está aí uma armadilha que o movimento de negritude – e talvez o conjunto do movimento negro contemporâneo – corria o risco de ficar preso. Esta “essência negra” que se busca “restaurar” ou “libertar”, é, para ele, uma invenção do racismo colonial a serviço da desumanização do africano e aceitá-la, portanto, implicaria na não rejeição dos pressupostos que sustentam o colonialismo.

Para ele, os seres humanos são o que fazem e como fazem, e por isso, a prioridade na preservação  ou resgate cultural corre o risco de inverter a ordem de prioridade do mundo, tomando o secundário como primário,  na medida em que valoriza o produto em detrimento do produtor. Esta postura antropologicizadora, inicialmente legítima, poderia segundo Fanon levar os movimentos anti-racistas a alguns impasses perigosos, tais como: “meter todos os negros no mesmo saco”; buscar por um passado glorioso em detrimento de uma realidade objetivamente desumanizadora; valorizar acriticamente e de forma apaixonada a“tudo que for africano” (ou aquilo que se convencionou nomear como africano) e ao mesmo tempo,, negar de forma quase religiosa a tudo que for “ocidental”; aceitar o pressuposto racista de que a cultura negra é estática e fechada, portanto morta.

Para Fanon seria necessário ir além da – e não se limitar à – afirmação das especificidades culturais (historicamente negadas). Para ele, não é a cultura  que deve resistir mas sim as pessoas que a produzem, a partir de seus referenciais simbólicos sempre em transformação. É certo que o colonialismo nega ao colonizado a possibilidade de entificação de uma cultura autêntica, e por isto, a emancipação cultural, passaria pela emancipação das pessoas que produzem e se produzem a partir dela. É o colonialismo em seu ato negador e reificador que atribui uma ausência de movimento histórico à cultura colonizada, engessando-a em catálogos antropológicos, vendo-as e tratando-as como elementos mortos…

Agir pelo resgate de uma pretensa cultura passada, originalmente negada é secundarizar a emancipação dos indivíduos produtores da cultura. É o combate pelo fim mim material, cultural e epistêmico do colonialismo – e Fanon não nega a importância da afirmação cultural neste processo – que pode promover o surgimento de uma cultura autêntica. Ao invés de se lançar apaixonadamente sobre uma cultura engessada pelo colonialismo, “o dito combatente, o colonizado, depois de tentar perder-se no povo, com o povo, vai, ao contrário, sacudir o povo. Ao invés de privilegiar a letargia do povo, ele se transforma em despertador do povo” (FANON, 2010:256).

REAJA
Imagem: Militantes da Campanha Reaja ou será morto, Reaja ou será morta – Bahia – Br

O livro – que trás ainda uma análise sobre os impactos subjetivos da tortura e uma análise crítica a respeito dos limites do ódio para a luta política – foi recebido com amor e ódio em todas as partes do mundo. Dos movimentos terceiro-mundistas e a esquerda revolucionária nos países da América Latina aos intelectuais articuladores do IRA, ETA e a Revolução Aiatolá no Iran; das propostas de Amilcar Cabral e Sankara às reflexões e ações práticas de Ângela Davis e o movimento Black Power, oserva-se a influência explícita de Os condenados da Terra.

*

Desiludido, e abalado com o definhamento do próprio corpo, Fanon cede à insistência de amigos e familiares para tentar um tratamento nos EUA. Ele já havia recusado essa possibilidade anteriormente, afirmando que não iria para um país de linchadores, mas agora, já debilitado, permite-se à uma úlitma tentatica. Ao sexto dia de dezembro de 1961, ainda com 36 anos – e algumas semans depois de ter recebido os primeiros exemplares de Os condenados da terra -, Frantz Omar Fanon morre em um quarto de hospital em Washington.

Há rumores não partilhados pela família de que a CIA – que se envolveu no traslado de Fanon aos Estados Unidos – teria contribuído para sua morte, mas essa desconfiança nunca foi comprovada. O fato é que, dalí em diante, o nome de Fanon seguiria vivo, alimentando a experança no futuro, em qualquer lugar que haja injustiça.

 

Frantz Fanon

Para quem tiver coragem: Boa leitura!!!!

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Todo apoio à luta dos metroviários!

“Abusivo é o atual estado das coisas”. […]

“Quando um vira mil para salvar a milhares” (UAFRO)

“A  luta de um é a luta de todos” – UBUNTU.

Consciente de que greve não é escolha, mas falta de opção, de que o único bem inalienável do trabalhador é a sua força de trabalho, sendo este o único instrumento através do qual pode pressionar o patronato;

Consciente de que a greve dos metroviários foi uma reação diante de décadas de gestão sabidamente corrupta, ineficiente e contrária aos interesses da população paulista, e que a resposta do Governador Geraldo Alckmim às reivindicações dos metroviários é a mesma que vem dando aos clamores populares por moradia, saúde e educação: violência, truculência e repressão;

greve metroviario

Consciente de que a tropa de choque da Polícia Militar cumpriu ordens para reprimir o movimento e para isso não exitou em usar bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta, cassetetes, balas de borrachas, cárcere privado, prisões arbitrárias e até tortura;

Consciente de que a Justiça trabalhista em São Paulo  contrariou o direito constitucional à greve, ao punir o sindicato dos metroviários com multas de até R$ 500 mil diários, autorizando ainda a retirada do direito à estabilidade dos funcionários mobilizados, exibindo uma posição servil, parcial e corporativa;

Consciente também  de que transporte não é mercadoria, que o serviço precário oferecido pelo governo paulista não justifica as atuais tarifas abusivas e que os usuários são os mais prejudicados e desrespeitados pela superlotação sendo certo que, com a suspensão da greve dos metroviários, o caos no Metrô, assim como nos outros meios de transporte público permaneceu e permanecerá!

Consciente também estamos  da legalidade da greve prevista na  Constituição Federal, que em seu artigo 9º e a Lei nº 7.783/89 asseguram o direito de greve a todo trabalhador, competindo-lhe a oportunidade de exercê-lo sobre os interesses que devam por meio dele defender. 

Assim sendo, os trabalhadores têm:

LEGITIMIDADE DO EXERCÍCIO DA GREVE

Considera-se legítimo o exercício de greve, com a suspensão coletiva temporária e pacífica, total ou parcial, de prestação de serviços, quando o empregador ou a entidade patronal, correspondentes tiverem sido pré-avisadas 72 horas, nas atividades essenciais e 48 horas nas demais. 


DIREITO DOS GREVISTAS

São assegurados aos grevistas:
O emprego de meios pacíficos tendentes a persuadir ou aliciar os trabalhadores a aderirem a greve;
A arrecadação de fundos e a livre divulgação do movimento.

PROIBIÇÕES

Os meios adotados por empregados e empregadores em nenhuma hipótese poderão violar ou constranger os direitos e garantias fundamentais de outrem.  A empresa não poderá adotar meios para constranger o empregado ao comparecimento ao trabalho, bem como capazes de frustrar a divulgação do movimento.

Consciente ainda de que as demissões dos metroviários realizadas em pleno estado de greve, por justa causa, configuram num nítido assédio moral coletivo e são inadmissíveis;

Consciente, por fim, de que a luta dos metroviários é a luta de todos os trabalhadores e de que só a luta transforma, nós do  Kilombagem, coletivo negro, classista, feminista e anti-homofóbico, vem a público manifestar seu total apoio aos metroviários e repudiar a postura autoritária do Governador do Estado de São Paulo!

-greve-saopaulo

A mesma polícia que não cessou de matar impunemente a negros e pobres nas periferias foi mais uma vez mobilizada para agredir trabalhadores em luta legítima por direitos. O mesmo Governo –  suspeito de desviar pelo menos R$ 425 milhões dos cofres públicos com a máfia do metrô, contribuindo para o presente colapso do sistema público de transporte –  falta com a vergonha na cara ao afirma ser a greve a causa do trânsito da cidade de São Paulo! Enquanto omite há décadas de sangria empreendidas pelo PSDB ao estado de São Paulo, associadas a um projeto de expansão urbana e econômica que só privilegiou o transporte individual em detrimento do transporte público.

O metro num dia"normal" sem a greve
O metrô num dia”normal” sem a greve

Enquanto os grandes meios de comunicação – em que a Rede Esgoto é apenas o veículo mais visível de uma corja muito maior, beneficiários desse projeto homicida e autoritário de governo e sociedade – se apressam em criminalizar “exemplarmente”  os lutadores do povo com o objetivo nítido de jogar trabalhador contra trabalhador, nós apelamos ao conjunto dos movimentos sociais que tome partido desta luta, utilizando os meios disponíveis em solidariedade ao trabalhadores perseguidos, contribuindo para mobilizar a opinião pública em defesa da revogação das demissões.

Pela  readmissão imediata dos 42 funcionários injustamente demitidos e o fim do assédio moral aos demais funcionários que exercerem o seu direito garantido pela constituição.

 

Grupo KILOMBAGEM, por um mundo sem catracas!

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Colonialismo, racismo e luta de classes: a atualidade de Frantz Fanon

Artigo publicado em  GEPAL – Grupo de Estudos da Política da América Latina – Anais do V Simpósio Internacional Lutas Sociais na América Latina  “Revoluções nas Américas: passado, presente e futuro”  ISSN 2177-9503  10 a 13/09/2013 – GT 1. Lutas camponesas e indígenas na América Latina 216 (pp. 216-232).

Deivison Mendes Faustino (Deivison Nkosi) – Programa de Pós-Graduação em Sociologia – UFSCAR; Núcleo de pesquisa Afrikanidades (Grupo KILOMBAGEM)

Sdeivison@hotmail.com

Versão em pdf disponível em: http://www.uel.br/grupo-pesquisa/gepal/v16_deivison_GI.pdf

Resumo:

A presente comunicação apresenta a vida e obra de Frantz Fanon  enfatizando a atualidade de seu pensamento para pensar as relações entre racismo,  colonialismo e luta de classes. O autor seleciona algumas categorias discutidas por  Fanon, e as discute a luz de sua trajetória de vida, observando como o mesmo  respondeu às perguntas colocadas por seu tempo. Ao revisitar os escritos fanoninanos o autor identifica e problematiza as categorias: alienação colonial, narcisismo, sociogênese, luta de classes, práxis revolucionária, terceiro-mundismo, negritude, libertação nacional e emancipação. O autor encerra o texto questionando se ainda há espaço para Fanon na sociedade contemporânea, aproximando-se das concepções de Gibson (2007 e 2011), Wallerstein (2008), Rabaka (2011) ao concluir que a atualização do racismo sob a lógica das novas necessidades de acumulação capitalistas tornam os escritos de Fanon leitura obrigatória.

Palavras-chave: Frantz Fanon; Colonialismo; Racismo; Luta de classes.

Todas as vezes em que um homem fizer triunfar a dignidade do espírito, todas as vezes em que um homem disser não a qualquer tentativa de opressão do seu  semelhante, sinto-me solidário com seu ato.

Frantz Fanon

Introdução

Passados mais de cinquenta anos após a morte precoce de Frantz Fanon em 1961, quando tinha 36 anos, o pensamento do autor ainda é discutido por acadêmicos e ativistas políticos em diferentes línguas e regiões. Entretanto, essa presença no cenário atual é acompanhada por intensos debates sobre o que se considera como estatuto central de sua obra, e principalmente, quais categorias apresentadas por ele podem ser apropriadas como elementos relevantes para a compreensão da sociedade contemporânea (MBEMBE, 2011 e GORDON, SHARPLEY-WHITING E WHITE, 2000).

Os chamados estudos culturais ou pós-coloniais, embasados em uma perspectiva pós-estruturalista, têm retomado a leitura fanoniana a partir de uma leitura do colonialismo como “discurso” (ou paradigma) implícito à sociedade moderna, promotora de experiências racializadas. A contribuição central de Fanon, segundo esta corrente, seria a ruptura com uma noção essencialista de identidade (hegeliana) rumo a uma noção aberta aos jogos fluidos – como contraposição a ontológicos – da identificação (HALL, 1996 e 2009; APPIAH, 1997 e ÁLVARES, 2000).

Outra linha de estudos um pouco diversa desta anterior é uma corrente originalmente surgida na América Latina, autodenominada pensamiento decolonial. Esta vertente, também conhecida como proyecto decolonial ou proyecto de la modernidad/colonialidad, visualiza em Fanon a possibilidade de analisar o capitalismo (Sistema-Mundo) contemporâneo a partir de uma “perspectiva do Sul”. Pautadas em uma crítica ao pós−modernismo e o pós−estruturalismo, pelo que atribuem ser uma demasiada vinculação desses estudos à “matrizes de poder colonial”, esta corrente difere dos Estudos Pós-Coloniais ao divergir da ideia de superação do colonialismo que o termo “Pós” atribui.

Além disso, identifica nos estudos pós-coloniais uma subestimação dos aspectos econômicos da realidade social, em detrimento das dimensões culturais e subjetivas. Propõe nesse sentido, a noção de Heterarquia – relação entre as várias esferas sem uma atribuição prévia de hierarquia – entre economia, cultura, subjetividade e política (DUSSEL, 1977; MINGOLO 2000; MALDONADO-TORRES, 2005 e QUIJANO 1991, 1998, 2000).

Já entre os autores classificados como marxistas também é possível observar apreensões diversas em relação ao que se considera atual no pensamento fanoniano. Em Zizek (2011) a problematização fanoniana da dialética do senhor e do escravo, elaborada por Hegel é retomada em contraposição a uma abordagem multiculturalista para enfatizar uma perspectiva humanista que recoloque o debate sobre a relação entre indivíduo e generalidade humana, na medida em que o individuo se veja e se coloque na disputa pela definição do universal.

Para Gibson, a atualidade de Fanon estaria na ferramentas conceituais que oferece para compreender a renitência da violência colonial na sociedade contemporânea. As manifestações indígenas contra a privatização da água da Bolívia; o os conflitos na palestina e os acontecimentos em torno da chamada Primavera Árabe; as massivas manifestações em Atenas; Chipre e Espanha bem como a persistência da barreira de cor na África do Sul pós-apartheid seriam segundo ele elementos que colocam as preocupações de Fanon na ordem do dia. (GIBSON, 2007 e 2011)

Já Rabaka visualiza no que ele classifica como fanonismo revolucionário, a possibilidade de atualizar o marxismo a partir da abordagem as relações contemporâneas entre capitalismo e colonialismo. A constante subestimação do racismo – “narcisismo obsceno – pela esquerda convencional e a dificuldade desta em elaborar projetos políticos condizentes com as particularidades históricas e culturais dos povos colonizados devem ser enfrentados pela esquerda marxista conforme propõe, segundo ele a dialética Sankofiana de Fanon rumo a a libertação do ser a um nível mais elevado da vida humana (RABAKA, 2011).

Em Wallestain, Fanon é apropriado para discutir vários assuntos atuais, mas em um artigo intitulado Ler Fanon no século XXI, destaca-se a ideia de que a atualidade de Fanon está, para além de apontar o caráter intrinsicamente violento do colonialismo e os impactos dessa violência na subjetividade dos povos colonizados, está no questionamento às lutas identitárias como caminho emancipador quando estas não se dirigem à perspectiva da emancipação humana. A luta de classes é uma realidade que não se restringe ao universo europeu e deve ser observada em suas particularidades históricas, no contexto colonial (Wallestain, 2008).

Em estreita relação com esse debate, mas, sobretudo, visando à compreensão das categorias fanonianas à luz de seu contexto sócio-histórico, pretende-se apresentar alguns temas discutidos pelo autor  relacionando-os à sua trajetória.

“Nossos pais, os Gauleses”

Frantz Omar Fanon nasceu em Julho em 20 de julho de 1925, no seio de uma família de classe média em Forte de France, Martinica, região francesa no Caribe. A Martinica ainda hoje é considerada um departamento ultramarino insular francês, e os seus habitantes – a grande maioria composta por negros que se sentem franceses – aprendiam nas escolas assimiladas, frequentadas por Fanon, que os “pais de sua Pátria” eram os Gauleses. Em 1944, quando a França estava invadida pela Alemanha nazista, Fanon alistou-se no exercito francês para lutar contra a invasão, mas lá no front de guerra, junto aos franceses brancos nascidos na metrópole, percebeu que a sua cor o impedia de ser visto como igual pelos seus “compatriotas”. Por mais que pensava, sentia ou desejasse o contrário, em face do Branco era visto apenas como Preto:

Subjetivamente, intelectualmente, o antilhano se comporta como um branco. Ora, ele é um preto. E só o perceberá quando estiver na Europa; e quando por lá alguém falar de preto, ele saberá que está se referindo tanto a ele quanto ao senegalês. (FANON, 2008:132)

A percepção deste não-reconhecimento em face do branco francês exerceu grande influência em Fanon impactando os seus futuros escritos e prática política.

Em 1946 Fanon iniciou o seu curso de medicina em Lyon (França metropolitana) e neste período, participou de diversos seminários e debates universitários, onde entrou em contato com renomados pensadores discutidos na França nesta época como Sartre, Jaspers, Lacan, Marx, Hegel, Nietzsche entre outros. Em 1952, quando termina o seu curso, Fanon escreve a primeira versão da sua tese doutorado em psiquiatria, mas esta foi rejeitada por confrontar as correntes positivistas então hegemônicas na área. Decepcionado, escreve então uma segunda tese que nomeou como: Transtornos mentais e síndromes psiquiátricas em degeneração espino-cerebelar-hereditária. Um caso de doença de Friedereich com delírio de possessão[1]. Depois de intensos e acalorados debates com a banca examinadora, seu trabalho foi aprovado, e ele enfim, pôde exercer sua profissão.

Após doutorar-se, conhece François Tosquelles (1912-1994)[2] e segue para Saint Alban para estudar e trabalhar com ele, tornando-se seu aprendiz e amigo:

Durante dois anos, Fanon trabalhou em estreita relação com Tosquelles e publicou três trabalhos de investigação diretamente com o professor e outros tantos com outro discípulo. Os programas de reforma médica que (Fanon) introduzi(rá futuramente) nos hospitais em Blida, Argélia, e de Manuba, na Tunísia, foram o resultado de sua educação em Saint Alban (GUEISMAR, 1972:64).

Neste mesmo ano, Fanon publicou uma série de ensaios sobre a situação do negro na França e escreveu um drama sobre os trabalhadores de Lyon (FANON, 1950). Os estudos de Tosquelles marcaram profundamente a concepção de Fanon sobre a profissão psiquiátrica, e luta política como estratégia para superar as alienações psíquicas provocadas pelo colonialismo.

Neste momento, já avisado pelas circunstâncias históricas de que os “seus pais, os Gauleses” não o reconhecia como filho legítimo, o jovem antilhano inicia a revisão do texto de sua primeira tese, outrora rejeitada no doutorado, para discutir as alienações psíquicas vividas pelo negro.

A alienação colonial

A revisão de sua tese rejeitada dará origem ao célebre Peau noire, masques blancs:[3] livro que marcaria a história dos estudos sobre o racismo ao ser retomado por autores ingleses na década de 80 na chamada virada pós-colonial[4].

Neste livro Fanon apropria-se dos clássicos da psicologia, filosofia, sociologia e mesmo da literatura, buscando, nas relações sociais a explicação para alienações psíquicas. Vale ressaltar que a alienação para Fanon não se resumia, como ocorre no senso comum, a uma falta de conhecimento sobre algo ou sobre si, mas sim, a uma perda de si ou da capacidade – implicada em situações sociais concretas – se autodeterminar como indivíduo ou grupo social, subordinado ao colonialismo.

E possível cogitar neste ponto que a proximidade de Fanon com Hegel seja maior do que se presume. Num artigo intitulado o reconhecimento em Hegel: leituras de Labarrière, Theresa Calvet de Magalhães (2009) explica que para Hegel, diferentemente do que fazem supor algumas traduções latinas de Fenomenologia do Espírito, a Auto-consciência (Selbstbewusstsein) não pode ser resumida a um conhecimento subjetivo de si ou de determinada realidade. A alienação seria perda – objetiva – de si, da capacidade de estar em pé por si, ou se autodeterminar.

Essa perspectiva abre caminho no pensamento fanoniano para relacionar os complexos coloniais – enquanto efeitos psíquicos da situação colonial – com a estruturação da sociedade, de modo que sua superação depende não apenas de uma revisão paradigmática, mas antes de qualquer coisa da transformação radical da sociedade:

Reagindo contra a tendência constitucionalista em psicologia do fim do século XIX, Freud, através da psicanálise, exigiu que fosse levado em consideração o fator individual. Ele substituiu a tese filogenética pela perspectiva ontogenética. Veremos que a alienação do negro não é só uma questão individual. Ao lado da filogenia e da ontogenia, há a sociogenia. De certo modo, para responder à exigência de Leconte e Damey, digamos que o que pretendemos aqui é estabelecer um sócio-diagnóstico.

Qual o prognóstico?

A Sociedade, ao contrário dos processos bioquímicos, não escapa a influência humana. É pelo homem que a sociedade chega ao ser. O prognóstico está nas mãos daqueles que quiserem sacudir as raízes contaminadas do edifício (FANON, 2008:28)

Neste livro Fanon avisa que a alienação colonial, como forma específica de exploração capitalista, marca indiscutivelmente a configuração da sociedade moderna fazendo com que brancos (colonizadores) e negros (colonizados), vivenciem cada qual a seu modo, a negação de sua humanidade. A criação e racialização do Outro, bem como o estranhamento daí resultante, retiram do colonizado a possibilidade de ser visto (e, consequentemente, de se ver) como expressão universal do gênero humano.

É o colonialismo que cria (inventa) o Homem Negro, extraindo-lhe a possibilidade de reconhecer-se simplesmente como Humano:

“Olhe, um preto!” Era um stimulus externo, me futucando quando eu passava. Eu esboçava um sorriso.

“Olhe, um preto!” É verdade, eu me divertia.

“Olhe, um preto!” O círculo fechava-se pouco a pouco. Eu me divertia abertamente.

“Mamãe, olhe o preto, estou com medo!” Medo! Medo! E começavam a me temer. Quis gargalhar até sufocar, mas isso tornou-se impossível.

Eu não aguentava mais, já sabia que existiam lendas, histórias, a história e, sobretudo, a historicidade que Jaspers havia me ensinado.

Então o esquema corporal, atacado em vários pontos, desmoronou, cedendo lugar a um esquema epidérmico racial. No movimento, não se tratava mais de um conhecimento de meu corpo na terceira pessoa, mas em tripla pessoa. Ia ao encontro do outro… e o outro, evanescente, hostil mas não opaco, transparente, ausente, desaparecia. A náusea… (FANON, 2008: 105)

O colonizado, negado em sua humanidade genérica, é reduzido ao estatuto de Negro, entendido como o Outro: o específico, sempre contraposto ao Europeu afirmado como expressão do ser humano universal. É possível pensar em música indígena, cabelo afro, cosmovisão africana, cultura negra, mas nunca em música branca, cultura branca. O branco, a cultura branca, ou ocidental, ganham status de universalidade e não precisam ser especificadas. Uma pessoa considerada culta é alguém que domina a “norma culta”: a saber, alguém que detém os conhecimentos referentes à cultura europeia, sejam eles estéticos, filosóficos ou teóricos.

Esta reificação colonial mistifica o europeu, tomando-o como símbolo universal do humano, e aprisiona o colonizado naqueles referenciais fetichizados que se criaram para o Negro, esperando sempre deste que seja emotivo, sensual, viril, lúdico, colorido, infantil, banal… O mais próximo possível da natureza e distante da civilização. Quando não é exótico, ou inexistente em relação àquilo que se entende por Humano, o negro é apresentado apenas como expressão de tudo o que é ruim.

Estas imagens, alerta Fanon em um artigo publicado em 1956 (FANON, 1969), são criadas no seio da situação colonial, e tinham a função de desarticular os sistemas de referência do povo colonizado para que suas “linhas de força” não atuassem contra a imposição de uma forma específica de relação de produção, útil a determinadas fases de acumulação capitalista.

Como médico psiquiatra, Fanon não deixa de enfatizar que a reificação colonial tem efeitos devastadores na subjetividade do negro provocando-lhe impasses que lhe ocasionam um “desmoronamento do ego”:

(…) o negro vive uma ambigüidade extraordinariamente neurótica. Com vinte anos, isto é, no momento em que o inconsciente coletivo é mais ou menos perdido, ou pelo menos difícil de ser mantido no nível consciente, o antilhano percebe que vive no erro. Por quê? Apenas porque, e isso é muito importante, o antilhano se reconheceu como preto, mas, por uma derrapagem ética, percebeu (inconsciente coletivo) que era preto apenas na medida em que era ruim, indolente, malvado, instintivo. Tudo o que se opunha a esse modo de ser preto, era branco. Deve-se ver nisso a origem da negrofobia do antilhano. No inconsciente coletivo, negro = feio, pecado, trevas, imoral. Dito de outra maneira: preto é aquele que é imoral. Se, na minha vida, me comporto como um homem moral, não sou preto. Daí se origina o hábito de se dizer na Martinica, do branco que não presta, que ele tem uma alma de preto. A cor não é nada, nem mesmo a vejo, só reconheço uma coisa, a pureza da minha consciência e a brancura da minha alma. (P.162)

Por outro lado, avisa Fanon, que se o colonialismo reserva ao Negro um complexo de inferioridade, reserva ao Branco de igual maneira, um complexo de superioridade, fazendo com que, cada qual a partir de sua neurose, vivencie a alienação da sua humanidade. A subjetividade do Branco também é neuroticamente marcada pelo racismo, fazendo com que ele transfira ao Negro (ou Outro) àqueles tributos – considerados inferiores ou indesejáveis – próprios de todas as sociedades, mas que a sociedade ocidental quer negar em si própria.

É neste contexto que o Branco desenvolve uma fobia em relação ao negro. Este Outro amaldiçoado e inferiorizado assombra e atrai o imaginário racista com seus atributos –exatamente àqueles que o deixa de ver em si – exageradamente mistificados e animalizados. A sensualidade inata da mulata fogosa; o enorme pênis do negão comedor hiper-viril; a habilidade natural dos negros para atividades lúdicas, emotivas e corporais[5] em geral, assusta e atrai, justamente por corresponder àquilo que passou a faltar ao Branco, no processo de alienação colonial.

O branco está convencido de que o negro é um animal; se não for o comprimento do pênis, é a potência sexual que o impressiona. Ele tem necessidade de se defender deste “diferente”, isto é, de caracterizar o Outro. O Outro será o suporte de suas preocupações e de seus desejos. (FANON, 2008147)

O livro segue enigmaticamente poético até o final, suscitando mais dúvidas do que certezas[6], mas ao mesmo tempo, deixa precisas sobre sua propositura. Se o colonialismo ou a alienação colonial não podem ser resumidos a um estado mental, e mesmo a subjetividade individual só é inteligível no contexto social em que emerge… a desalienação só seria possível mediante a superação das condições sociais alienadoras: veremos que uma outra solução é possível. Ela implica uma reestruturação do mundo.” (FANON, 2008:82)

Termina o livro – depois de afirmar a necessidade de um novo humanismo amparado na defesa de uma sociedade em que não haja mais exploração do homem pelo homem – com uma frase provocadora: “ó meu corpo faça sempre de mim um homem que questiona” (FANON, 2008:191)

*

Em 1953, depois de trabalhar como Chef de service em um hospital psiquiátrico localizado em uma cidade pequena e chuvosa em Pontorson, no interior da França, Frantz Fanon se muda para Argélia para assumir a direção de um hospital psiquiátrico na cidade de Blida, a trinta milhas de distância da capital Argel. Segundo Alejandro Oto (2003) esta nova fase foi fundamental para Fanon compreender os impactos do colonialismo na estrutura psíquica humana, pois se depara com diversos pacientes franceses e argelinos com transtornos mentais provocados pela violência vivida na luta anticolonial que se desenvolvia no país.

A presença centenária do colonialismo fazia-se sentir também na área da saúde. As pessoas vítimas de doenças psíquicas, segundo o conhecimento da época, eram isoladas e abandonadas em hospitais psiquiátricos, presas a camisas de força. No entanto, como era de se esperar em uma sociedade assumidamente colonial, o hospital era dividido em asilos diferenciados para franceses e Nativos. Frantz Fanon, inspirado nos ensinamentos de Toscquelles mudou radicalmente esta relação e introduziu reformas estruturais extraordinárias neste hospital. (GEISMAR, 1972:73)

Este lado profissional de Fanon ainda é pouco explorado pela literatura especializada, mas o insere, à inspiração de seu mentor, nos primórdios dos movimento de reforma psiquiátrica[7].

A práxis revolucionária

Em 1952, ao revisar o texto de Pele Negra, máscaras brancas para a publicação, Fanon escrevera a seguinte frase:

Não levamos a ingenuidade até o ponto de acreditar que os apelos à razão ou ao respeito pelo homem possam mudar a realidade. Para o preto que trabalha nas plantações de cana em Robert só há uma solução, a luta. E essa luta, ele a empreenderá e a conduzirá não após uma análise marxista ou idealista, mas porque, simplesmente, ele só poderá conceber sua existência através de um combate contra a exploração, a miséria e a fome. (p.185-6)

Posteriormente, já em sua estadia em Blida estas aspirações revolucionárias vão encontrar guarida na realidade concreta que se apresentou com o desenvolvimento da guerra de libertação (GIBSON, 2011). Com o desenvolvimento das lutas anticoloniais logo após a chegada de Fanon ao país e a intensa repressão que seguiu, a situação ficou bastante tensa, e se refletiu no hospital psiquiátrico, colocando Fanon em uma situação desconfortável. De um lado Fanon passava a atender, como diretor de um hospital público, os torturadores franceses que ficavam atordoados com o sofrimento que infringiam aos Nativos, e do outro, atendia as vítimas da tortura, e de forma clandestina e sigilosa, atendia também aos membros da Front de Liberation Nationale – FLN (GIBSON, 2011).

Há longos meses que a minha consciência é palco de debates imperdoáveis. E a conclusão que chego é a vontade de não desesperar (desésperér) do homem, isto é, de mim próprio. (FANON, 1980:59)

Em 1956 a situação de Fanon já estava politicamente insustentável e a polícia começou a vigiá-lo. Ele que já mantinha contatos com Randame Abane, líder cabila do FLN, provavelmente para não ser preso, se desliga oficialmente do hospital para aderir oficialmente à revolução. É neste momento que escreve uma carta pública ao Ministro Residente, uma espécie de representante administrativo do colonialismo Frances na Argélia, que remonta mais uma vez às suas origens tosquellianas:

A loucura é um dos meios que o homem tem de perder a sua liberdade. E posso dizer que, colocado nesta intersecção, medi com horror a amplitude da alienação dos habitantes deste país.

Se a psiquiatria é a técnica médica que se propõe permitir ao home deixar de ser estranho ao que o rodeia, devo afirmar que o Árabe, alienado permanentemente no seu país, vive num estado de despersonalização absoluta. (FANON, 1980:58)

Após de desligar do Hospital em Blida, Fanon muda clandestinamente com a família para a Tunísia, onde continua trabalho como psiquiatra, mas focará a sua atuação política nos esforços para o fim daquilo, que segundo ele na carta acima, seria a raiz do sofrimento psíquico da Argélia, o Colonialismo. Neste período Fanon se torna correspondente do principal instrumento de propaganda ideológica da FLN, o Jornal El Moudjahid[8].

Os anos seguintes foram marcados por intensa agitação política e participação em fóruns internacionais organizados pelos movimentos de libertação no continente africano. Neste momento Fanon se converte num revolucionário, militante clandestino da FLN, e seu representante internacional no diálogo com os demais países africanos. Em 1959 publica L’ an V de La Révolution Algérienne (O quinto ano da Revolução Argelina). Neste livro, também conhecido como Sociologia de uma revolução, Fanon faz uma descrição fantástica do processo de mobilização social em curso na Argélia.

Discute os dilemas e conflitos vividos em processo de libertação nacional. Afirma que o colonialismo, para ser economicamente viável necessitava negar todos os elementos culturais dos povos subsumidos, a fim de destruir os seus sistemas de referências. Neste cenário a resistência sócio-cultural deve ter em vista não a simples preservação da cultura (negada pelo colonialismo), mas a libertação do povo. Resistir ao colonialismo exige, em determinadas situações concretas, contrapor-se á cultura colonial, sem desconsiderar nela os elementos universais que possam contribuir para o “progresso da nação”.

Os meios de comunicação, os saberes médicos ocidentais, a língua e os valores culturais europeus, outrora instrumentos de opressão colonial, podem se apropriados e (desde que) re-significados pelos povos em luta, possibilitando-os avançar em sua luta por emancipação:

A rádio, o aparato receptor perde seu coeficiente de hostilidade, se despoja de seu caráter estranho e se organiza na ordem coerente da nação em luta. Na psicose alucinatória, depois de 1956, as vozes radiofônicas se converterem em protetoras e cúmplices. Os insultos e as acusações desaparecem e cedem seu lugar às palavras de estímulo e fôlego. A técnica estrangeira, “digerida” pela de luta nacional, se converteu em um instrumento de combate para o povo e em um órgão protetor contra a angústia (FANON, 1968:73. Tradução própria).

O fato de observar-se durante o colonialismo a negação ontológica da cultura dos povos colonizados, não significa que estas culturas não devam por outro lado, serem questionadas, criticadas e reinventadas pelos povos em luta, tendo em vista e emancipação humana.

O véu utilizado pela mulher argelina, segundo Fanon é uma indumentária que reflete a visão de mundo patriarcal árabe, na medida em que é ao mesmo tempo a proteção, isolamento e privação da mulher em relação ao mundo público, entendo como espaço dos homens. Em determinadas situações ele pode ser converter em fator de resistência, mas em outras situações é justamente a sua retirada que permite o avanço da luta. Era resistência nas situações em que foi perseguido pelo colonialismo francês, principalmente quando a mulher argelina passou a fazer parte do processo revolucionário.

Nas ocasiões em que era preciso despistar os agentes repressivos, e se infiltrar entre a população francesa para empreender a luta armada, retirar o véu e fingir assimilar a cultura francesa passa a ser taticamente necessário. Entretanto, alerta Fanon: esta mulher que retira o próprio véu (dévoile) para passar despercebida com uma submetralhadora na bolsa, terá que vivenciar emoções que transformarão irreversivelmente a sua personalidade.

Estas transformações são comemoradas por Fanon, na medida em que esta tradição, embora originalmente negada pelo colonialismo, também se voltava contra as mulheres, limitando a sua vivência enquanto ser humano. Resistir socialmente não implica necessariamente a preservação da cultura inicialmente negada pelo colonialismo. O fato é que para Fanon não havia outra escolha para os povos colonizados, que não seja a via revolucionária:

De facto, a Revolução Argelina restitui à existência nacional os seus direitos. De facto, é testemunho da vontade do povo. Mas o interesse e o valor da nossa Revolução residem na mensagem de que é portadora (…)A Revolução Argelina, propondo-se a libertação do território nacional, visa não só à morte deste conjunto, como à elaboração de uma sociedade nova. A independência da Argélia não é apenas fim do colonialismo, mas desaparecimento, nesta parte do mundo, de um gérmem de gangrena e de uma fonte de epidemia. A libertação do território nacional argelino é uma derrota para o racismo e para a exploração do homem; inaugura o reino incondicional da justiça. (El Moudjahid, n. 10; in FANON1980:72)

E seria este processo revolucionário – ato consciente e arriscadaao negro da Martinica quando Fanon escreve o Pele Negra, máscaras brancas – promovido pelo colonizado é o único que teria o poder de derrubar o colonialismo, tanto na mente do colonizado, quanto nas relações sociais objetivamente postas. Como consequência, possibilitaria ao colonizado, ascender do status de objeto a sujeito histórico de sua própria história.

Se é verdade, como afirma Walter D. Mignolo (2007) que ainda não se pode dizer que estamos em uma época pós-colonial na América Latina, ainda presa aos pressupostos econômicos, culturais e epistêmicos do colonialismo, a pergunta que fica é: quais são as nossas tarefas históricas, para usar um termo cunhado por Fanon, rumo a uma efetiva emancipação?

O terceiro-mundismo e a luta de classes

Em dezembro de 1960, depois de circular por várias partes do continente africano fomentando a necessidade de expandir a guerra de libertação a outros países, no auge de sua atuação política, Fanon inicia a escrita de um livro que problematizaria a relação da revolução argelina com outros povos do Continente. No entanto, para a sua surpresa é diagnosticado é diagnisticado com leucemia, e percebe, mediante aos estágios a medicina se encontra nesta época, que lhe resta pouco tempo de via.

Inicia assim a escrita apressada do que sabidamente seria o seu livro, alterando o curso da escrita de forma a sintetizar seus acúmulos teóricos antes que seu tempo esgote. É neste contexto, que será escrito em questão de meses o famoso Les damnés de la terre[9] . Enquanto escrevia o livro e revisava os trechos, chegou a voar para Itália a fim de encontrar Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, para encomendar a Sartre o Prefácio do seu livro.

O livro trata, entre outros assuntos, dos conflitos implícitos ao colonialismo e à luta anticolonial. Alerta que a violência é parte fundante da sociedade colonial, estando presente em todas as suas expressões materiais e simbólicas. Constata ainda que a superação da lógica colonial só seria viável náquelas situações em que os colonizados empreendessem força material proporcionalmente capaz de abalas as forças sociais a ponto de fazer surgir um homem novo:

A descolonização se propõe a mudar a ordem do mundo, é, como se vê, um programa de desordem abosoluta(…)é um processo histórico: isto é, ela só pode ser compreendida, só tem inteligibilidade, só se torna translúcida para si mesma na exata medida em que discerne o movimento historicizante que lhe dá forma e conteúdo. A descolonização é o encontro de duas forças congenitamente antagônicas, que têm precisamente a sua origem nessa espécie de substancialização que a situação colonial excreta e alimenta. (…) a descolonização é verdadeiramente a criação de homens novos. Mas essa criação não recebe a sua legitimidade de nenhuma potência sobrenatural: a “coisa” colonizada se torna homem no processo mesmo pelo qual ela se liberta. (FANON, 2010:52-3)

Num diálogo constante com os movimentos internacionais ligados ao terceiro-mundismo, Frantz Fanon alerta que mesmo na África, o processo de revolução nacional não podem ignorar as especificidades de entificação da capitalismo, a composição das diferentes de classes sociais e seus interesses. Os países coloniais são economicamente mente mortal, tal como descreve Hegel em sua metáfora do senhorio e do servo, e que parecia impossível atrasados e subdesenvolvidos a partir da relação histórica com suas metrópoles sanguessugas. Esta realidade relega as colônias uma produção de bens primários voltados à exportação, uma classe operária insipiente, um campesinato palperizado e analfabeto e uma burguesia local subordinada à interesses externos.

Estas burguesias, forjada no processo colonial, mesmo quando apoiam a independência, tendem a trair sua “vocação” de classe – como se assistiu nos séculos anteriores na Europa – e não assumirem a frente do processo produtivo de forma a acumular o excedente de produção no próprio país. Contenta-se, voltando-se contra os interesses de toda a nação, a se colocar como (nova) dos interesses imperialistas e a continuidade dos processos de hiper-exploração da força de trabalho. O capítulo III Desventuras da consciência nacional, antecipa que a superação do colonialismo não depende apenas da eleição de lideres africanos, mas sim, de uma reorganização das relações de produção, orientada para e com o povo. Do contrario, todo o esforço dos movimentos de libertação se veriam afogados no neocolonialismo:

Essa burguesia que se afasta cada vez mais do povo em geral nem consegue arrancar do Ocidente concessões espetaculares: investimentos interessantes para a economia do país, instalações de certas indústrias. Em contrapartida, as fábricas de montagem se multiplicam, consagrando assim o tipo neocolonialista no qual se debate a economia nacional. Assim, não se deve dizer que a burguesia nacional retarda a evolução do país, que lhe faz perder tempo ou que ele pode conduzir a nação para caminhos sem saída. Efetivamente, a fase burguesa na história dos países subdesenvolvidos é uma fase inútil. Quando essa casta for suprimida, devorada por suas próprias contradições, nós percebemos que nada aconteceu depois da independência, que é preciso retomar tudo, partir outra vez do zero. A reconversão não será operada no nível das estruturas instaladas pela burguesia durante o seu reino, pois essa casta não fez outra coisa senão tomar, sem mudança, a herança da economia, de pensamento e das instituições coloniais .(FANON, 2010:204-5).

Fanon não seria adepto das teorias que advogam que a luta de classes não diz respeito ao continente africano. Pelo contrário, é exatamente pela sua centralidade, que a realidade particular dos países africanos deve se consideradas, sob o risco de se ver fracassar qualquer projeto político, econômico e social alternativo. Neste sentido, Fanon não poupara críticas aos partidos de esquerda europeus e mesmo russos, bem como os seus braços políticos presente nos países subdesenvolvidos, que presos a “modelos prontos” de luta social, impõe aos africanos lógicas que não dialogam que as reais particularidades históricas, culturais e econômicas destes povos, procurando o sujeito revolucionário entre os operários, num país onde 98% da classe trabalhadora é composta por camponeses hiper-explorados.

A crítica à Negritude

Os povos colonizados, não seguiram inertes à colonização e buscaram desenvolver estratégias diversas de resistência e emancipação. É o Branco que cria o Negro, mas é, por outro lado “o negro que cria a negritude” (FANON, 1968:20), afirmando-se na luta por um reconhecimento objetivo.

A pesar de reconhecer a legitimidade histórica da luta anti-racista e dos movimentos de afirmação cultural (FANON, 2010:244), na medida em que promovem o questionamento dos valores racistas europeus, Fano alerta que muitas vezes a luta anti-racista[10] – classificada por ele como “racismo anti-racista” – ou de afirmação cultural não consegue superar os limites e contradições históricas que a forjaram.

O “conceito de negritude” admite, “é a antítese afetiva, senão lógica, desse insulto que o homem branco fazia á humanidade”. E completa: “Essa negritude lançada contra o desprezo do branco se revelou, em certos setores, como o único fator capaz de derrubar interdições e maldições” (FANON, 2010:246). No entanto, essa contraposição, historicamente necessária, levou o movimento a um impasse: “ à afirmação incondicional da cultura europeia sucedeu a afirmação incondicional da cultura africana” (Idem).

Se o colonialismo definiu como essencialmente negro a emoção, o corpo, a virilidade, ludicidade, mas, sobretudo, classificou hierarquicamente estes elementos como inferiores, frente à não menos fetichizada (e ilusória) imagem criada para o Europeu – Razão, civilização, cultura, universalidade -, o movimento de negritude, sem romper com estes fetichismos, apenas inverteu os polos da hierarquia, passando a considerar como positivo àquilo que o colonialismo classificou como inferior.

Assim a inocência, musicalidade, o ritmo “nato” do africano, passam a ser afirmados pelos movimentos anti-racistas como elementos essencialmente africanos, mas agora, vistos como superiores e desejáveis frente à frieza tecnicista ocidental (SENGHOR, 1939). As “almas da gente negra”[11] passam a ser classificadas como essências metafísicas, ou no mínimo históricas, que precisariam ser resgatas e afirmadas para que o negro se reencontre consigo próprio.

Para Fanon, está aí uma armadilha que o movimento de negritude – e talvez o conjunto do movimento negro contemporâneo – corria o risco de ficar preso. Esta “essência negra” que se busca restaurar ou libertar, é na verdade uma invenção do racismo colonial, a serviço da desumanização do africano escravizado nas Américas e aceitá-la, é afirmar retoricamente a rejeição aos pressupostos coloniais, sem rejeitá-los de fato. (FANON, 2010:253)

Os seres humanos são o que fazem e como fazem, mas ter como objetivo último a preservação ou resgate cultural é inverter a ordem de prioridade do mundo, tomando o secundário como primário, valorizando o produto em detrimento do produtor. Esta postura, inicialmente legítima, poderia segundo Fanon levar os movimentos anti-racistas a alguns impasses perigosos, tais como: meter todos os negros no mesmo saco; busca por um passado glorioso em detrimento de uma realidade objetivamente desumanizadora; valorização acrítica e apaixonada de “tudo que for africano”, acompanhada por uma negação quase religiosa de tudo que for “ocidental”; aceitação do pressuposto racista de que a cultura negra é estática e fechada, portanto morta; valorização cultural tomada por central.

Para Fanon seria necessário ir além da – e não se limitar à – afirmação das especificidades culturais historicamente negadas, mas não se limitar a ela. Não é a cultura – historicamente negada – que deve resistir mas sim as pessoas que a produzem, a partir de seus referenciais que estão em constante transformação. É certo que o colonialismo nega ao colonizado a possibilidade de entificação de uma cultura autêntica, e por isto, a emancipação cultural, passa pela emancipação das pessoas que produzem e se produzem pela cultura. É o colonialismo em seu ato negador e reificador que atribui uma ausência de movimento histórico à cultura colonizada, engessando-a em catálogos antropológicos, vendo-as e tratando-as como elementos mortos…

Agir pelo resgate de uma pretensa cultura passada, originalmente negada é secundarizar a emancipação dos indivíduos produtores da cultura. É o combate pelo fim mim material, cultural e epistêmico do colonialismo – e Fanon não nega a importância da afirmação cultural neste processo – que pode promover o surgimento de uma cultura autêntica. Ao invés de se lançar apaixonadamente sobre uma cultura engessada pelo colonialismo, “o dito combatente, o colonizado, depois de tentar perder-se no povo, com o povo, vai, ao contrário, sacudir o povo. Ao invés de privilegiar a letargia do povo, ele se transforma em despertador do povo” (FANON, 2010:256). Trata-se, portanto, não de preservar culturas, mas ressignificá-las, na luta, em busca da emancipação:

O homem de cultura, ao invés de partir à procura dessa substância, deixa-se hipnotizar por esses farrapos mumificados que, estabilizados, significam, pelo contrário, a negação, a superação, a invenção. A cultura nunca tem a translucidez do costume. A cultura foge, eminentemente, de toda simplificação. Na sua essência, ela está no oposto ao costume, que é sempre uma deterioração da cultura. Querer colar na tradição ou reatualizar as tradições abandonadas, é não ir apenas contra a história, mas contra o povo. Quando um povo apoia uma luta armada ou mesmo política contra um colonialismo implacável, a tradição muda de significado. O que era técnica de resistência passiva, pode ser nesse período radicalmente condenado. Num país subdesenvolvido em fase de luta, as tradições são fundamentalmente instáveis e sulcadas por correntes centrífugas. (FANON, 2010:258)

Outro ponto destacado por Fanon é que o movimento de negritude, muitas vezes, assume a posição colonial segundo o qual o Branco/europeu é universal e o Negro/africano específico. O movimento de negritude, preso a um presente desesperançado, sem perspectiva no futuro segue afirmando um passado específico ao invés de atuar para desmistificar a ilusão colonial que exclui os africanos e seus descendentes da possibilidade de serem reconhecidos (e se reconhecerem) como universalidade.

Nas palavras de Fanon, devemos ao contrário, trabalhar para “a dissolução total deste complexo mórbido (alienação colonial). Estimamos que o indivíduo deva tender ao universalismo inerente à condição humana” (FANON, 2008:28).

Sair dos impasses criados pelo colonialismo exigir-nos-ia, como afirma Fanon, descer aos “verdadeiros infernos”, indo além da mera afirmação da identidade historicamente negada em direção ao humano-genérico. A desalienação é possível mediante a reestruturação do mundo.

Eu, homem de cor, só quero uma coisa:

Que jamais o instrumento domine o homem. Que cesse para sempre a servidão do homem pelo homem. Ou seja, de mim por um outro. Que me seja permitido descobrir e querer bem ao homem, onde quer que ele se encontre. (FANON, 2008:190)

Fanon almejava a revolução social como possibilidade histórica, e principalmente, como condição para superação das alienações psico-sociais. Mas sabia que as lutas sociais não poderiam ter êxito sem terem como ponto de partida, a realidade concreta em que surgem.

Em setembro de 1961, alguns meses depois de escrever seu ultimo livro, o seu estado de saúde de Fanon volta a ficar crítico. Ele então aceita a contragosto um convite para se tratar em Washington. Sabia que sua doença não tinha cura, mas esperava que o tratamento por La prolongasse mais algum tempo os seus dias de vida. Ao ver sua saúde cada vez mais debilitada, escreve uma carta a um amigo afirmando que o que mais o entristecia não será saber que estava morrendo, mas morrer de Leucemia em Washington quando poderia estar fora do front de batalha. (GEISMAR, 1972:181)

Aos 6 de dezembro de 1961 morre bastante debilitado, algumas semanas depois ter tido uma aparente melhora no quadro de saúde e visto os primeiros exemplares de Os condenados da terra impressos.

Há espaço para Fanon no século XXI?

Recuperar Fanon na atualidade é como afirma Wallerstein (2008:11), apostar numa “luta cujo desfecho é completamente incerto”. Muitos acontecimentos históricos posteriores à morte de Fanon nos levantam o questionamento de como ele analisaria ou confrontaria o colonialismo no século XXI? Os retrocessos políticos observados na Argélia com a islamização do Estado após a independência; as diversas e sucessivas ditaduras e decapitação de lideres anti-imperialistas nos países africanos recém-libertos; a queda do Muro de Berlin e o surgimento de uma geração para o qual a perspectiva de futuro está ausente; as conquistas democráticas ( relativas) obtidas sem violência nos países subdesenvolvidos; e mesmo as drásticas alterações na sociedade moderna, provocada pela reestruturação produtiva e sua crescente financeirização da economia e readequação das fronteiras nacionais; o surgimento dos Novos Movimentos Sociais, suas viradas paradigmáticas e o próprio Neoliberalismo. Todos estes novos conflitos e contradições, impensáveis à época de Fanon levantam o questionamento se o autor estaria ultrapassado.

Por outro lado, um olhar mais atento tanto sobre sua produção quanto sobre a realidade presente sugerir exatamente o contrário. O “caráter constante, renovado e transformado” que o racismo adquire fez com que a racialização se tornasse uma realidade global na sociedade contemporânea (SILVÉRIO, 1999). Do genocídio perpetrado pelo Estado de Israel aos palestinos à Erupção da Primavera Árabe; do alto e desproporcional índice de mortalidade materna das mulheres negras no Brasil, em relação às mulheres brancas às políticas higienistas de faxina urbana, tirando de circulação a força usuários de drogas e moradores de rua indigestos à especulação imobiliária de determinadas áreas; da persistência do racismo no Brasil ao atual e violento processo de extermínio vivenciado pela juventude negra no Brasil; da manutenção atualizada da “exploração do homem pelo homem”, reconfigurada e ressignificada não para se desfazer, mas para se intensificar… Em todos estes e outros problemas sociais presentes e latentes, colocam-nos diante de dilemas para os quais Frantz Fanon tenha muito a dizer.

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[1] O título original é: Troubles mentaux et syndromes psychiatriques dans l’hérédo-dégénération-spino-cérébelleuse: Um cas de maladie de Friereich avec délire de possession

[2] O psiquiatra espanhol François Tosquelles nasceu na Catalunia e chegou a participar da Guerra Civil Espanhola. Fugido do franquismo, instala-se na França onde inicia diversos estudos alternativos de psiquiatria em Saint Alban, onde Fanon Fanon trabalhou. Visionário e anticolonialista, Tosquelles criou a psicoterapia institucional, que poderia ser traduzido como terapia comunitária. A partir da influência de Freud, Reich, Politzer e Marx, pensava a loucura – alienação psiquica – ou o sofrimento psíquico em sua relação com o meio social em que o doente está inserido. Num outro polo, a desalienação psíquica dependeria da reorganização da sociedade, e portanto, as terapias de tratamento introduziam experimentos alternativos como assembleias democráticas entre profissionais e pacientes, trabalhos comunitários etc. (RODRIGUES, 2007)

[3] Publicado em Língua Portuguesa pela EDUBA sob o título: Pele negra, máscaras brancas. (2008).

[4] Os Estudos Pós-Coloniais configuram-se como uma corrente contemporânea interdisciplinar, fortemente inspirada nos estudos de Frantz Fanon e influenciada pelas áreas da Filosofia, Historiografia, Estudos Literários, Sociologia, Antropologia e Ciências Políticas. De acordo com Álvares (2000:222) “ Os teóricos pós-coloniais distinguem-se pela tentativa constante de repensar a estrutura epistemológica das ciências humanas, estrutura essa que terá sido moldada de acordo com padrões ocidentais que se tornaram globalmente hegemônicos devido ao facto histórico do colonialismo. (…) Pela ênfase colocada na temática da alteridade, a Teoria Pós-Colonial tende a transcender as conseqüências do colonialismo, servindo como frente de combate a qualquer grupo que se sinta discriminado em relação à norma prevalecente – seja esta étnica, social ou sexual -, e que procure implementar uma política de identidade através da afirmação da diferença.”. Entre os seus principais expoentes, destacam-se Said (2004), Brah (1996), Hall (1996 e 2009), Bhabha (1998) entre outros.

[5] Ver neste sentido a brilhante descrição A mitose originária de E. Cleaver (1971)

[6] Para uma análise bem mais detalhada de Pele negra, máscaras brancas, principalmente no que concerne às neuroses provocadas pelo colonialismo, ver: SAPEDE (S/data) .

[7] Na literatura de língua Francesa, destaca-se a psiquiatra psicanalista Alice Cherki, que busca, a partir da convivência que teve com Fanon, recuperar o seu legado como psicanalista, bem como desmistificar as distorções que foram criadas em seu nome (CHERKI, 2006).

[8] Uma tradução possível do árabe argelino para o português seria “guerreiro santo”. Estes artigos foram posteriormente reunidos a outros escritos de Fanon e publicados no livro Pour La révolution africaine – écrits politiques-. François Maspero. 1964. Há uma versão traduzida para o português de Portugal por Isabel Pascoal: Em defesa da Revolução Africana. In: Fanon (1980).

[9] O título original do livro Les damnés de La terre (Os condenados da terra) é visivelmente inspirado na primeira estrofe da versão francesa de A Internacinal, hino do movimento comunista internacional, que inicia da seguinte forma: “Debout les damnés de la terre/ Debout les forçats de la faim/ La raison tonne en son cratère/ C’est l’éruption de la fin.” Ver: http://letras.mus.br/ogeret-marc/1246295/. Acesso em 02 de Dezembro de 2012.

[10] Fanon toma como exemplo o movimento de negritude cultural, do qual ele mesmo foi em grande parte influenciadao, encabeçado por Aimé Cesaire, Leopold S. Sengor, Alaine Diop etc a partir da década de 30 nas colônias francesas.

[11] Título em português do livro The Souls of Black Filk de William Edward Burghardt Du Bois, publicado no Brasil como As almas da gente negra (DU BOIS, 1999).

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II Curso: Pan Africanismo e a esquerda diante da luta de classes

O Grupo KILOMBAGEM  e o Núcleo de Consciência Negra da USP têm a honra de convidar-te para o II Curso : Pan Africanismo e a esqueda duante da luta de classes.

O Curso tem o objetivo de oferecer subsídios históricos e sociológicos para o entendimento das relações entre o racismo e o capitalismo,  bem como as tensões, antagonismos e  convergências entre  a chamada esquerda e o internacionalismo negro.

 

Comente e avalie os encontros aqui!!!

 

 

Baixe aqui os textos para cada os encontros (clique no link em azul)

Atenção!!!

Alteração de ordem na Programação (19hs às 22hs): 

22/01 – O Racismo e a Luta de Classes – Weber Lopes Goes

Textos de apoio:
Origens, modalidades e formas de racismo – Martiniano José da Silva

O racismo como arma de dominação – Clóvis Moura

23/01 A Esquerda: Brasil  e Mundo no Pós-Guerra –  Teresinha Ferrari

Textos de apoio:

 

24/01 Os movimentos de libertação na África e suas influências no Movimento Negro brasileiro – Deivison Mendes Faustino (Deivison Nkosi)

textos de apoio:

A consciência negra e a busca da verdadeira humanidade – Bantu Stephen Biko

O Pan-africanismo e a formação da OUA – Érica Reis de Almeida

 

 

Local: 

Núcleo de Consciência Negra na USP

Av. Professor Lúcio Martins Rodrigues, Travessa  4. Bloco 3, Cidade Universitária – São Paulo – SP

Informações:

nucleodeconsciencianegra@gmail.com

3091`-7746