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Pan-africanismo, marxismo e as encruzilhadas nossas de cada dia

Tempos difíceis os nossos: Em uma época marcada por conservadorismos dos mais variados o ato de demonizar o Marx sempre garante aplausos calorosos em qualquer plateia. Esta é uma verdade incontornável desde o fim da guerra fria.

Por outro lado, somente um cego n√£o perceberia que os problemas enfrentados pelas(os) Pretas(os) s√£o marjoritariamente secundarizados – para n√£o dizer negligenciados – nas diversas agremia√ß√Ķes pol√≠tico-te√≥ricos de esquerda, centro ou direita. Somente um olhar inocente – ou muito mal intencionado – poderia atribuir √† esquerda marxista a exclusividade desta postura lament√°vel. Para quem n√£o havia percebido: Estamos em uma sociedade racista e por isso a palestra¬†do Professor Carlos Moore oferece uma cr√≠tica necess√°ria.

Isto posto √© importante lembrar que mesmo com essas limita√ß√Ķes ‚Äúindisfars√°veis” a dita “Esquerda” vem sendo apropriada a mais de um s√©culo por¬† valorosas(os) guerreiras(os) pretas(os) como um espa√ßo pol√≠tico/te√≥rico/ideol√≥gico privilegiado para potencializar a luta contra o racismo e o colonialismo. A Luta Negra n√£o nasceu e nem se encerra na Esquerda, mas √© fato que historicamente esse encontro de for√ßas possibilitou avan√ßos te√≥ricos e pol√≠ticos importantes uma vez que as(os) negras(os), gostemos ou n√£o, est√£o sujeitos √†s contradi√ß√Ķes da sociabilidade capitalista.¬† O outro lado da hist√≥ria √© que esse encontro entre anti-capitalismo e anti-racismo tamb√©m gerou uma s√©rie de equ√≠vocos catastr√≥ficos e a partir deles muitas(os)¬† l√≠deres negras(os) optaram por romper com o Marxismo em busca de posi√ß√Ķes mais nacionalistas e/ou internacionalistas: Uma postura justific√°vel que nas melhores situa√ß√Ķes contribuiu para enriquecer a forma de pensar o que √© o Negra(o) e o anti-racismo e nas piores situa√ß√Ķes o que se seguiu foram embates fratricidas seguidos por Golpes de Estados sanguin√°rios e necolonialistas.

√Č preciso dizer que o dito comunismo matou na Eti√≥pia ou em Cuba‚Ķ mas se dizemos isso e n√£o dizemos em seguida que¬† o anticomunismo matou na Arg√©lia, no Congo, em Angola; na Arg√©lia, no Iran, na Alemanha, nos Estados Unidos, no Brasil, no Chile, e em todos os lugares em que os Estados Unidos pode influenciar, a hist√≥ria do s√©culo XX corre o risco de seguir drasticamente maquiada: A lista de l√≠deres negros panafricanistas ou n√£o assassinados com a ajuda da CIA √© incrivelmente assustadora (inclusive dentro dos EUA).

A pergunta histórica que está posta para a nossa geração de intelectuais pretas(os) é: Conseguiremos estar suficientemente livres do maniqueísmo ocidental Рque dizemos combater Рa ponto de olhar criticamente para a tal do Ocidente e identificar no interior desta pseudo entidade os elementos que nos permitam confrontá-la? Ou estamos tão envoltos em seu suave veneno que acreditamos ser possível um pássaro voar sem a resistência do ar que o oprime?

Se √© verdade que as particularidades hist√≥rico-s√≥cio-culturais europeias nos foram falsamente apresentadas como universais a partir de sucessivas avalanches de roubo, saque, estupro e domina√ß√£o, mas ao mesmo tempo, e exatamente por isso condenou a todos os povos do planeta a viver sob a l√≥gica do deus mercado, conseguiremos negar a estas viol√™ncias ¬† ignorando que os pretos foram e s√£o as maiores v√≠timas do capitalismo? Se queremos criticar radicalmente a tal da esquerda ou do marxismo, o faremos negando a suas contribui√ß√Ķes te√≥ricas para a cr√≠tica ao Capitalismo (que √© essencialmente anti-negro?)? Se √© verdade que a maioria esmagadora das agremia√ß√Ķes de esquerda veem e tratam as(os) negras(os) apenas como ‚Äúap√™ndice‚ÄĚ dos processos pol√≠ticos,¬† o caminho para superar esses limites √© o anti-maxismo dogm√°tico?

N√£o se trata aqui de defender o indefens√°vel (veja a palestra hist√≥rica do Professor Carlos Moore), mas assusta perceber uma tentativa em curso de¬† tentar negar verbalmente a polariza√ß√£o esquerda/direita para substitu√≠-la por¬† outras polariza√ß√Ķes ainda mais empobrecedoras. √Č poss√≠vel um pensamento negro que critique o tal do ocidente e seus deuses sem criar novos dem√īnios?¬† Por qual ‚Äúemancipa√ß√£o‚ÄĚ lutamos:¬† ‚ÄúMais Obama e Menos Cuba!‚ÄĚ; ‚ÄúMenos Marx e mais‚Ķ‚ÄĚ o que? Nietzsche? Heidegger‚Ķ?

“Entre Direita e Esquerda eu continuo Preto”, mas e da√≠, qual √© o pr√≥ximo passo?¬† N√£o seria eu Preta(o), Sujeito o suficiente para me posicionar neste jogo podre que n√£o criei mas me influencia? Ser√° mesmo que o tal do ocidente √© t√£o presente em n√≥s que mesmo em nossas cr√≠ticas mais pretensamente profundas o m√°ximo que conseguimos fazer √© repetir o seu manique√≠smo tautol√≥gico barato: “O Marx era racista; eu sou anti-racista; logo, sou anti-marxista‚ÄĚ? √Č isso mesmo, Produ√ß√£o? Joga-se fora ent√£o as contribui√ß√Ķes de Marx para entender o capitalismo e posteriormente de todas(os) pretas(os) que se valeram mais ou menos desta tradi√ß√£o de pensamento – mesmo que seja para ir al√©m dela –¬† para pensar as sociedades em que viviam?

 

√Č necess√°rio entender que quando o Moore diz que deseja mais Obamas pelo mundo, n√£o se refere ao imperialismo norteamericano, mas a aus√™ncia de l√≠deres negros nos partidos e nos governos de direita e esquerda da Am√©rica e Europa; mais negros nos espa√ßos de poder. Essa √© uma cr√≠tica muito pertinente que n√£o deve ser descartada quando analisamos a hist√≥ria da esquerda mundial e a sua rela√ß√£o com os negros. Quando critica a dita pol√≠tica comunista implementada em Cuba e as persegui√ß√Ķes que sofreu oferece-nos um importante relato pessoal a respeito da do que √© a Pol√≠tica na sociedade moderna (informada por Maquiavel¬† e aprofundada por Fanon e Nkrumah).

O problema da√≠ resultante √© quando – seja por inoc√™ncia ou por m√° f√© – busca-se apresentar essa viol√™ncia como exclusividade das experi√™ncias revolucion√°rias de orienta√ß√£o marxista. Ter√≠amos que “voltar e apanhar o que ficou perdido‚ÄĚ nas experi√™ncias europeias fascistas e nazistas bem como nos golpes de estado apoiados pela CIA na √Āfrica- todos de orienta√ß√£o anti-marxista – para perceber o quanto qualquer transforma√ß√£o que n√£o tenha o “povo” como ponto de partida e horizonteleva a caminhos assombrosos. Para alem disso, olhar para a ‚Äúditadura cubana‚ÄĚ do p√≥s-revolu√ß√£o ignorando os processos contra-revolucion√°rios financiados pela direita cubana em¬† Maiami em sua rela√ß√£o carnal com os EUA √© bastante complicado e s√≥ se explica no contexto ideol√≥gico de direita (gostemos ou n√£o dessas classifica√ß√Ķes).

 

N√£o h√° nada mais ocidental do que o manique√≠smo e neste caso, a sabedoria das encruzilhadas tem mais a nos dizer do que a ‚Äúca√ßa as bruxas‚ÄĚ ocidentais: Apesar do Obama ser negro, e as crian√ßas da nossa gera√ß√£o terem nele um exemplo simb√≥lico poderoso; apesar de Cuba – que¬† na da d√©cada de 70 foi o destino predileto de muitos l√≠deres negros¬† mundiais importantes – cerceou o movimento negro interno a partir do mito da ‚Äúcor cubana” que lembra muito o nosso maldito mito da democracia racial; apesar de tudo isso, diante do Ebola, Cuba manda m√©dicos (a maioria negros) √† Lib√©ria e os Estados Unidos manda soldados (a maioria negros).¬† Enquanto essa mesma Cuba erradicou o analfabetismo¬† e durante o Mais M√©dicos vimos diante de nossos olhos milhares de m√©dicos negros desembarcarem para ajudar o Brasil, os Estados Unidos tem uma maioria absoluta de negros entre os seus 2 milh√Ķes de pessoas encarceradas. O Epis√≥dio do Furac√£o Catrina¬† mostrou o que fr√°gil s√£o os avan√ßos dessa sociedade que se acredita ter al√ßado √† categoria de p√≥s-racial s√≥ porque tem um presidente negro. Dito isto, fica a pergunta: Quem √© meu inimigo neste caso? Ser√° que o manique√≠smo (de direita de esquerda, de preto ou de branco) ajuda em alguma coisa?

 

Se olharmos a partir da Encruzilhada, a palestra do Professor Carlos Moore acaba de entrar para hist√≥ria como um marco na trajet√≥ria da luta negra brasileira ao oferecer subs√≠dios para reflex√Ķes muito profundas e necess√°rias sobre o racismo e os espa√ßos de poder, o ocidente, seus deuses e dem√īnios. Mas se n√£o “voltarmos atr√°s e apanhar o que ficou perdido” corremos o risco de atirar nos inimigos errados e desconsiderar uma parte da nossa pr√≥pria trajet√≥ria ‚Äúconfusa mas real e intensa‚ÄĚ (Racionais MCs).

N√£o nos esque√ßamos que o ar que oferece resist√™ncia ao voo de um p√°ssaro √© o mesmo que garante o o seu planar‚Ķ o segredo, para quem tem asas est√° em seu movimento adequado e na capacidade de mobilizar a seu favor aquilo que outrora poderia ser uma barreira. H√° uma sutileza aqui que pode se perder durante o calor das emo√ß√Ķes, mas n√£o sejamos inocentes ‚Äúentre direita e esquerda‚Ķ‚ÄĚ O Bolsonaro sabe muito bem quem ele √© (e n√£o vem s√≥).

 

Entre direita e esquerda eu sou preto, mas n√£o cego! ‚Äúpois sei fazer bem a diferencia√ß√£o, sofro pela cor, pelo patr√£o e o padr√£o” (GOG)

‚ÄúSe a esquerda n√£o trata da quest√£o racial, sejamos n√≥s a esquerda‚ÄĚ (Clovis Moura)

S√≥ Ex√ļ Salva!!!