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Kwame Nkrumah

E o socialismo africano

Por Kwame Nkrumah, via Marxists.org, traduzido por Gabriel Landi Fazzio

Nascido em 21 de setembro de 1909, Kwane Nkrumah foi o grande l√≠der da independ√™ncia de Ghana e um dos mais influentes pensadores do chamado ‚Äėsocialismo africano‚Äô.¬†Influenciado pelas ideias de Marcus Garvey, do marxista C.L.R. James, do exilado russo Raya Dunayevskaya e do sino-americano Grace Lee Boggs, Nkrumah desenvolveu sua obra em constante rela√ß√£o com os desenvolvimentos da luta independentista na √Āfrica.

O texto abaixo foi originalmente lido no Semin√°rio Africano que ocorreu no Cairo, sob o convite de dois √≥rg√£os, o ‚ÄúAt-Talia‚ÄĚ e o ‚ÄúProblemas da Paz e Socialismo‚ÄĚ.


O termo ‚Äúsocialismo‚ÄĚ tornou-se uma necessidade nos discursos de palanque e escritos pol√≠ticos de l√≠deres africanos. √Č um termo que nos une no reconhecimento de que a restaura√ß√£o dos princ√≠pios sociais humanistas e igualit√°rios da √Āfrica demandam o socialismo. Todos n√≥s, portanto, embora seguindo pol√≠ticas bastante contrastantes na tarefa de reconstruir nossos v√°rios Estados-na√ß√Ķes, ainda usamos o ‚Äúsocialismo‚ÄĚ para descrever nossos respectivos esfor√ßos. ‚ÄúA quest√£o deve, portanto, ser enfrentada : que significado real o termo ret√™m no contexto da pol√≠tica africana contempor√Ęnea?‚ÄĚ Eu alertei sobre isso em meu livro¬†Consciencism(Londres e Nova York, 1964, p. 105).

E, no entanto, o socialismo na √Āfrica de hoje tende a perder seu conte√ļdo objetivo em favor de uma terminologia diversionista e em favor de uma confus√£o geral. A discuss√£o centra-se mais sobre os v√°rios tipos poss√≠veis de socialismo do que sobre a necessidade de desenvolvimento socialista.

Alguns l√≠deres pol√≠ticos africanos e pensadores certamente usam o termo ‚Äúsocialismo‚ÄĚ como deveria, em minha opini√£o, ser utilizado: para descrever um conjunto de prop√≥sitos sociais e as pol√≠ticas econ√īmicas, padr√Ķes de organiza√ß√£o, estruturas do estatais e ideologias que podem levar √† concretiza√ß√£o esses prop√≥sitos. Para tais l√≠deres, o objetivo √© remodelar a sociedade africana na dire√ß√£o do socialismo; repensar a sociedade africana de tal maneira que o humanismo da vida tradicional Africano reafirme a si pr√≥prio em uma comunidade tecnicamente moderna.

Consequentemente, o socialismo na √Āfrica introduz uma nova s√≠ntese social em que a tecnologia moderna √© reconciliada com os valores humanos, na qual a sociedade tecnicamente avan√ßada √© realizada sem os espantosos malef√≠cios sociais e profundas cis√Ķes da sociedade capitalista industrial. Isso porque um verdadeiro desenvolvimento econ√īmico e social n√£o pode ser promovido sem a socializa√ß√£o real dos processos produtivos e distributivos. Os l√≠deres africanos que acreditam nestes princ√≠pios s√£o os socialistas na √Āfrica.

H√°, no entanto, outros l√≠deres pol√≠ticos africanos e os pensadores que usam o termo ‚Äúsocialismo‚ÄĚ porque acreditam que o socialismo, nas palavras de Chandler Morse, iria ‚Äúsuavizar o caminho para o desenvolvimento econ√īmico‚ÄĚ. Torna-se necess√°rio para eles empregar o termo em um ‚Äúesfor√ßo carism√°tico para conseguir apoio‚ÄĚ para pol√≠ticas que n√£o promovem realmente o desenvolvimento econ√īmico e social. Os l√≠deres africanos que acreditam nestes princ√≠pios, s√£o, supostamente, os ‚ÄúSocialistas Africanos‚ÄĚ.

√Č interessante lembrar que antes da cis√£o na Segunda Internacional, o marxismo era quase indistingu√≠vel da social-democracia. Na verdade, o Partido Social-Democrata alem√£o era mais ou menos o guardi√£o da doutrina do marxismo, e tanto Marx quanto Engels apoiaram esse partido. Lenin, tamb√©m, tornou-se membro do Partido Social Democrata. Ap√≥s a ruptura da Segunda Internacional, no entanto, o significado do termo ‚Äúsocial-democracia‚ÄĚ foi alterado e tornou-se poss√≠vel tra√ßar uma distin√ß√£o real entre socialismo e social-democracia. Uma situa√ß√£o semelhante ocorre na √Āfrica. Alguns anos atr√°s, os l√≠deres pol√≠ticos africanos e escritores usaram o termo ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ a fim de rotular as formas concretas que o socialismo poderia assumir na √Āfrica. Mas a realidade das diferentes e inconcili√°veis propostas pol√≠ticas, sociais e econ√īmicas sendo almejadas pelos estados africanos fizeram do termo ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ, hoje, algo sem sentido e irrelevante. Parece ser muito mais intimamente associada com a antropologia do que com a economia pol√≠tica. ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ j√° chegou a adquirir alguns dos seus maiores divulgadores na Europa e Am√©rica do Norte precisamente por causa de seu charme predominantemente antropol√≥gico. Seus publicistas estrangeiros incluem n√£o s√≥ os social-democratas remanescentes da Europa e da Am√©rica do Norte, mas outros intelectuais e liberais que se encontram mergulhados eles pr√≥prios na ideologia da social-democracia.

N√£o foi por acaso, deixe-me acrescentar, que o Col√≥quio de Dakar, em 1962, valorizou tanto o ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ, mas as incertezas quanto ao significado e pol√≠ticas espec√≠ficas do ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ levaram alguns de n√≥s a abandonar o termo, porque ele falha em expressar o seu significado original e porque tende a obscurecer o nosso compromisso socialista fundamental.

Hoje, a express√£o ‚ÄĚ Socialismo Africano‚ÄĚ parece se alinhar √† vis√£o de que a sociedade tradicional africana era uma sociedade sem classes, imbu√≠da do esp√≠rito de humanismo, e expressa uma nostalgia por esse esp√≠rito. Tal concep√ß√£o do socialismo produz uma imagem fetichista a sociedade comunal africana. Mas essa id√≠lica sociedade sem classes africana (em que n√£o havia ricos nem pobres) que desfrutaria de uma anestesiada serenidade, √© certamente uma simplifica√ß√£o f√°cil; n√£o h√° nenhuma evid√™ncia hist√≥rica ou mesmo antropol√≥gica da exist√™ncia de tal sociedade. Temo que a realidade das sociedades africanos fosse um pouco mais s√≥rdida.

Todas as evid√™ncias dispon√≠veis da hist√≥ria da √Āfrica at√© a v√©spera da coloniza√ß√£o europeia mostram que a sociedade africana n√£o era nem ‚Äúsem classes‚ÄĚ nem desprovida de uma hierarquia social. O feudalismo existia em algumas partes da √Āfrica antes da coloniza√ß√£o; e o feudalismo envolve uma estratifica√ß√£o social profunda e exploradora, fundada sobre a propriedade da terra. Tamb√©m deve-se notar que a escravid√£o existiu na √Āfrica antes da coloniza√ß√£o europeia, embora o contato anterior com os europeus tenha dado √† escravid√£o na √Āfrica algumas de suas caracter√≠sticas mais cru√©is. A verdade permanece, no entanto, que antes da coloniza√ß√£o, que se tornou difundida na √Āfrica apenas no s√©culo XIX, os africanos estavam dispostos a vender, muitas vezes por n√£o mais de trinta moedas de prata, companheiros de tribo e at√© mesmo membros da mesma ‚Äúfam√≠lia alargada‚ÄĚ e cl√£. O colonialismo merece ser responsabilizado por muitos dos males da √Āfrica, mas certamente n√£o foi precedida de uma Idade de Ouro africana ou de um para√≠so. Um retorno √†s sociedades africanas pr√©-coloniais n√£o √©, evidentemente, algo digno da criatividade e dos esfor√ßos de nosso povo.

N√£o obstante, ainda se poderia argumentar que a organiza√ß√£o b√°sica de muitas sociedades africanas em diferentes per√≠odos da hist√≥ria manifesta um certo comunalismo e que a filosofia e os prop√≥sitos humanistas por tr√°s dessa organiza√ß√£o s√£o dignos de serem retomados. A comunidade em que cada um via o seu bem-estar no bem-estar do grupo certamente foi louv√°vel, mesmo que a maneira pela qual o bem-estar do grupo fosse perseguido n√£o contribua para os nossos prop√≥sitos. Assim, o que o pensamento socialista na √Āfrica deve retomar n√£o √© a estrutura da ‚Äúsociedade tradicional africana‚ÄĚ, mas o seu esp√≠rito, porque o esp√≠rito do comunitarismo est√° cristalizado em seu humanismo e em sua reconcilia√ß√£o do progresso individual com o bem-estar do grupo. Mesmo se houver escassas evid√™ncias antropol√≥gicas para reconstituir a ‚Äúsociedade tradicional africana‚ÄĚ com precis√£o, ainda podemos recuperar os ricos valores humanos desta sociedade. Em suma, uma abordagem antropol√≥gica da ‚Äúsociedade tradicional africana‚ÄĚ carece demais de comprova√ß√£o; mas uma abordagem filos√≥fica est√° em um terreno muito mais firme, e torna vi√°vel a generaliza√ß√£o.

Um dos apuros da abordagem antropol√≥gica √© que h√° alguma disparidade de pontos de vista sobre as manifesta√ß√Ķes da ‚Äúaus√™ncia de classes‚ÄĚ na ‚Äúsociedade tradicional africana‚ÄĚ. Enquanto alguns afirmam que a sociedade era baseada na igualdade dos seus membros, outros sustentam que ela continha uma hierarquia e divis√£o de trabalho na qual a hierarquia ‚Äď e, portanto, o poder ‚Äď estava fundado em valores espirituais e democr√°ticas‚Ķ Claro, nenhuma sociedade pode basear-se na igualdade de seus membros, embora as sociedades possam ser fundadas sobre o igualitarismo, o que √© algo bem diferente. Da mesma forma, uma sociedade sem classes que, ao mesmo tempo, se regozija em uma hierarquia de poder (como distinta da¬†autoridade) deve ser contabilizada como uma maravilha de requinte sociopol√≠tico.

Sabemos que a ‚Äúsociedade tradicional africana‚ÄĚ se fundava em princ√≠pios de igualitarismo. Em seu funcionamento real, no entanto, tinha v√°rias defici√™ncias. Seu impulso humanista, ainda assim, √© algo que continua a exortar-nos para a nosso reconstru√ß√£o socialista de toda a √Āfrica. Postulamos que cada homem √© um fim em si mesmo, n√£o apenas um meio; e aceitamos a necessidade de garantir a cada um a igualdade de oportunidades para o seu desenvolvimento. As implica√ß√Ķes disso para a pr√°tica sociopol√≠tica t√™m que ser trabalhadas cientificamente, e as pol√≠ticas sociais e econ√īmicas necess√°rias perseguidas com resolu√ß√£o. Qualquer humanismo significativo deve come√ßar a partir de igualitarismo e deve levar a pol√≠ticas escolhidas objetivamente para salvaguardar e manter igualitarismo. Por isso o socialismo. Por isso, tamb√©m, o socialismo cient√≠fico.

Uma dificuldade adicional que surge da abordagem antropol√≥gica para o socialismo, ou ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ, √© a divis√£o gritante entre as sociedades africanas existentes e a sociedade comunal√≠stica que existiu. Eu avisei no meu livro¬†Consciencism¬†que ‚Äúa nossa sociedade n√£o √© a velha sociedade, mas uma nova sociedade alargada por influ√™ncias isl√Ęmicas e euro-crist√£os‚ÄĚ. Este √© um fato que qualquer pol√≠tica socioecon√īmica deve reconhecer e ter em conta. No entanto, a literatura do ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ chega perto de sugerir que as sociedades africanas de hoje s√£o comunal√≠stica. As duas sociedades n√£o s√£o coincidentes; e tal equa√ß√£o n√£o pode ser sustentada ante qualquer observa√ß√£o atenta. √Č verdade que essa disparidade √© reconhecida em parte da literatura do ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ; assim, meu amigo e colega Julius Nyerere, ao reconhecer o desequil√≠brio entre o que foi e o que √© em termos de sociedades africanas, atribui as diferen√ßas √†s importa√ß√Ķes de colonialismo europeu.

Sabemos, √© claro, que a derrota do colonialismo e at√© mesmo neocolonialismo n√£o ir√° resultar no desaparecimento autom√°tico dos padr√Ķes importados de pensamento e de organiza√ß√£o social. Isso porque esses padr√Ķes criaram ra√≠zes e s√£o, em diferentes graus, caracter√≠sticas sociol√≥gicas de nossa sociedade contempor√Ęnea. Nem um simples retorno √† sociedade comunal√≠stica da √Āfrica antiga pode oferecer uma solu√ß√£o. Porque defender um retorno, por assim dizer, para a rocha da qual fomos talhados √© um pensamento encantador, mas estamos diante de problemas contempor√Ęneos, que surgiram a partir da subjuga√ß√£o pol√≠tica, da explora√ß√£o econ√īmica, do atraso educacional e social, do aumento da popula√ß√£o, do contato com os m√©todos e produtos industriais, das modernas t√©cnicas agr√≠colas. Isso ‚Äď bem como uma s√©rie de outras complexidades ‚Äď n√£o pode ser resolvido por qualquer mera sociedade comunal√≠stica, n√£o importa o qu√£o sofisticada, e quem assim defende deve se ver capturado em dilemas insol√ļveis do tipo mais excruciante. Todas as provas dispon√≠veis da hist√≥ria sociopol√≠tica revelam que tal retorno a um status quo anterior √© algo sem qualquer precedente na evolu√ß√£o das sociedades. N√£o h√°, de fato, qualquer raz√£o te√≥rica ou hist√≥rica para indicar que isso √© poss√≠vel.

Quando uma sociedade se encontra com outra, a tend√™ncia hist√≥rica observada √© que a acultura√ß√£o resulta em um movimento de saldo progressivo, um movimento no qual cada sociedade assimila certos atributos √ļteis da outra. A evolu√ß√£o social √© um processo dial√©tico; ele tem altos e baixos, mas, no c√īmputo geral, ele sempre representa uma tend√™ncia ascendente.

Tanto a civiliza√ß√£o isl√Ęmica quanto o colonialismo europeu s√£o experi√™ncias hist√≥ricas da sociedade tradicional africana, profundas experi√™ncias que mudaram permanentemente a tez da sociedade tradicional africana. Eles introduziram novos valores e uma organiza√ß√£o social, cultural e econ√īmica na vida africana. As sociedades africanas modernas n√£o s√£o as tradicionais, mesmo se foram retr√≥gradas, e elas est√£o claramente em um estado de desequil√≠brio socioecon√īmico. Elas est√£o neste estado porque n√£o s√£o ancoradas a uma ideologia estabilizadora.

A sa√≠da n√£o √©, certamente, regurgitar todas as influ√™ncias isl√Ęmicas ou euro-coloniais em uma tentativa f√ļtil de recriar um passado que n√£o pode ser ressuscitado. A sa√≠da √© s√≥ para a frente, para a frente para uma forma mais elevada e reconciliada de sociedade, na qual a quintess√™ncia dos prop√≥sitos humanos da sociedade tradicional africana reafirmem-se em um moderno contexto progressivo, em suma, rumo ao socialismo, por meio de pol√≠ticas que sejam cientificamente concebidas e corretamente aplicadas. A inevitabilidade buscar uma rota de sa√≠da √© sentida por todos; assim, Leopold Sedor Senghor, apesar de favorecer algum tipo de retorno ao comunitarismo africano, insiste em que a sociedade africana remodelada deve acomodar a ‚Äúcontribui√ß√£o positiva‚ÄĚ do dom√≠nio colonial, ‚Äúcomo a infraestrutura econ√īmica e t√©cnica e o sistema educacional franc√™s‚ÄĚ. A infraestrutura econ√īmica e t√©cnica, mesmo a do colonialismo franc√™s e do sistema educacional franc√™s, deve ser apropriada, embora ela possa se apresentar imbu√≠da de uma filosofia sociopol√≠tica particular. Esta filosofia, como deve ser sabido, n√£o √© compat√≠vel com a filosofia subjacente ao comunalismo e o acomodamento desejado provaria ser apenas uma miragem sociopol√≠tica.

Senghor tem, em verdade, dado um panorama da natureza do retorno √† √Āfrica. Sua posi√ß√£o √© destacada por declara√ß√Ķes, usando algumas de suas pr√≥prias palavras: de que o africano √© ‚Äúum campo de sensa√ß√Ķes puras‚ÄĚ; que ele n√£o mede ou observa, mas ‚Äúvive‚ÄĚ as situa√ß√Ķes; e que esta forma de aquisi√ß√£o de ‚Äúconhecimento‚ÄĚ por confronta√ß√£o e intui√ß√£o √© ‚Äúnegro-africana‚ÄĚ; a aquisi√ß√£o de conhecimento pela raz√£o, ‚Äúhel√™nica‚ÄĚ. Em ‚ÄúSocialismo Africano‚ÄĚ [Londres e Nova York, 1964, pp.72-3], ele prop√Ķe:

‚ÄúQue n√≥s consideramos o negro-africano como ele se defronta com o Outro: Deus, homem, animal, √°rvore ou seixo, fen√īmeno natural ou social. Em contraste com o europeu cl√°ssico, o negro-africano n√£o desenha uma linha entre ele e o objeto, ele n√£o prende p√ī-lo √† dist√Ęncia, nem apenas olha para ele e o analisa. Depois de segur√°-lo √† dist√Ęncia, ap√≥s examin√°-lo sem analis√°-lo, ele o toma vibrante em suas m√£os, cuidando para n√£o mat√°-lo ou corrigi-lo. Ele o toca, o sente, o cheira. O negro-africano √© como um daqueles Vermes do Terceiro Dia, um campo de sensa√ß√Ķes ¬†puras‚Ķ Assim, o negro-africano se solidariza, abandona a sua personalidade para se identificar com o Outro, morre para renascer no Outro. Ele n√£o assimila; ele √© assimilado. Ele vive uma vida comum com o outro; ele vive em uma simbiose ‚Äú.

√Č claro que o socialismo n√£o pode ser fundado sobre este tipo de metaf√≠sica do conhecimento. Para elucidar, existe uma liga√ß√£o entre o comunitarismo e do socialismo. O socialismo est√° para comunitarismo como o capitalismo est√° para a escravid√£o. No socialismo, os princ√≠pios inerentes ao comunalismo s√£o expressados em circunst√Ęncias modernas. Assim, enquanto o comunalismo em uma sociedade n√£o-t√©cnica pode ser¬†laissez-faire, deixado livremente a se fazer, em uma sociedade t√©cnica onde sofisticados meios de produ√ß√£o est√£o √† m√£o a situa√ß√£o √© diferente; pois se os princ√≠pios inerentes ao comunitarismo n√£o recebem uma express√£o correlacionada, clivagens de classe surgir√£o, que est√£o relacionadas com as disparidades econ√īmicas e, assim, com as desigualdades pol√≠ticas. O socialismo, por conseguinte, pode ser, e √©, a defesa dos princ√≠pios do comunalismo em um ambiente moderno; √© uma forma de organiza√ß√£o social que, guiada pelos princ√≠pios inerente aos comunalismo, adota procedimentos e medidas tornadas necess√°rias pela evolu√ß√£o demogr√°fica e tecnol√≥gica. Somente no socialismo pode se desenvolver de forma confi√°vel as for√ßas produtivas dais quais precisamos para o nosso desenvolvimento e ao mesmo tempo garantir que os ganhos de tais investimentos sejam aplicados para o bem-estar geral.

O socialismo n√£o √© espont√Ęneo. Ele n√£o surge por si s√≥. Ele tem princ√≠pios palp√°veis segundo os quais os grandes meios de produ√ß√£o e distribui√ß√£o devem ser socializados se queremos evitar a explora√ß√£o de muitos por poucos; isto √©, se o igualitarismo na economia deve ser preservado. Pa√≠ses socialistas na √Āfrica podem diferir neste ou naquele detalhe das suas pol√≠ticas, mas essas mesmas diferen√ßas n√£o devem ser arbitr√°rias ou sujeitas a caprichos de prefer√™ncias. Elas devem ser explicadas cientificamente, como necessidades decorrentes das diferen√ßas nas circunst√Ęncias particulares dos pr√≥prios pa√≠ses.

Existe apenas uma forma de atingir o socialismo: pela elabora√ß√£o de pol√≠ticas voltadas para os objetivos socialistas gerais, cada uma das quais demandando uma forma particular nas circunst√Ęncias espec√≠ficas de um determinado estado em um per√≠odo hist√≥rico definido. O socialismo depende do materialismo dial√©tico e hist√≥rico, na vis√£o de que h√° apenas uma natureza, sujeita em todas as suas manifesta√ß√Ķes √†s leis naturais e que a sociedade humana √©, nesse sentido, parte da natureza e sujeita √†s suas pr√≥prias leis de desenvolvimento.
√Č a elimina√ß√£o das fantasias de cada a√ß√£o socialista que faz do socialismo cient√≠fico. Supor que existem socialismos tribais, nacionais ou raciais √© abandonar a objetividade em favor do chauvinismo.

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Dr. Kwame Nkrumah: O Panafricanismo e a luta contra o Imperialismo, por um mundo melhor

XVIII Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes.

Organização: Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD)

Quito, Equador, de 14 à 18 de dezembro de 2013.

Tradu√ß√£o: Leila Maria de Oliveira ‚Äď Grupo KILOMBAGEM

 Autor: B.F.Bankie

bankiebf@gmail.com

1. Dr Kwame Nkrumah. ANTECEDENTES:

Kwame Nkrumah nasceu provavelmente em 21 de setembro de 1909, no povoado Gan√™s de Nkroful, Costa do Ouro.¬† Ele foi batizado com o nome de Francis pela Igreja Cat√≥lica Apost√≥lica Romana. Ele era ¬†filho √ļnico por parte de m√£e.¬† Estudou durante oito anos na escola cat√≥lica romana em Half-Assini, onde seu pai trabalhava como ourives. J√° naquela √©poca, o jovem Nkrumah era promessa, e por este motivo, foi recomendado para frequentar um curso de forma√ß√£o para professores na escola de forma√ß√£o de governo em Accra. Acredita-se que foi em 1927, quando Dr. Nkrumah chegou ao¬†Achimota College. Nesse mesmo ano, Kwegyr Aggrey, tamb√©m conhecido como “Aparecida da √Āfrica”, pelo ent√£o Director-adjunto asistentente, foi para os Estados Unidos para completar seu doutorado. Para Nkrumah, Aparecida foi modelo a imitar, e foi tamb√©m quem o convenceu a ir para a Am√©rica.

Nkrumah estudou na Achimota College durante quatro anos, o que equivaleria ao atual ensino médio. Em 1930 foi nomeado Professor na escola primária católica romana de Elmina. E no ano seguinte, foi nomeado diretor da escola primária católica romana de Axim. Dois anos mais tarde, mudou-se para o recém-inaugurado Seminário em Amessano, perto de Elmina. Durante sua estadia no Seminário considerou a possibilidade de se tornar um padre.

De acordo com Marika Sherwood, durante este período os mentores de Nkrumah foram o líder sindical S. R. Wood e Kobina Sekyi, Nacionalista Africana e homem de letras. Ele provavelmente leu os editoriais de Nnamdi Azikiwe no Post Manhã Africana, em Gold Coast, onde Azikiwe foi editor-chefe, antes que Dr. Nkrumah partisse em direção aos Estados Unidos em dezembro de 1934. Mas tarde, Azikiwe foi o Presidente da Nigéria, mas nunca alcançou qualquer realização de objectivos Pan-africanistas durante a sua Presidência.

O historiador Sherwood em seu livro,¬†¬†‚ÄúKwame Nkrumah: no exterior de seus anos, 1935-1947‚ÄĚ, ¬†apresenta os estudos e investiga√ß√Ķes com profundidade, realizadas sobre as temporadas que o Dr. Nkumah passou nos EUA e no Reino Unido. O autor relata que, em ambos os pa√≠ses, Nkrumah recebeu aten√ß√£o especial dos servi√ßos secretos americanos e brit√Ęnicos e que mantinham contato, retornando √† sua terra. O fato de que eventualmente levou √† derrubada de seu governo em 1966, com o apoio da Ag√™ncia Central de intelig√™ncia dos Estados Unidos. Sherwood (1996, p. 3) exp√Ķe:

Nkrumah n√£o foi apenas um produto de influ√™ncias da di√°spora, mas tamb√©m um filho da √Āfrica, especificamente a Costa do Ouro. Durante seus anos de juventude, como professor, herdou certas pol√≠ticas de tradi√ß√Ķes de rela√ß√Ķes estabelecidas em Cape Coast, por ent√£o, centro pol√≠tico e intelectual no pa√≠s. Muitas dessas pessoas que o influenciaram, reapareceram em sua vida doze anos mais tarde.

Nkrumah chegou aos Estados Unidos em 1935 e partiu dez anos mais tarde, em 1945. Todos aqueles que estavam lá, testemunharam como a experiência Afro Рamericana o ajudou a aguçar sua visão da vida.

Um destaque sobre a estadia de Dr. Nkrumah na Am√©rica do Norte foi que submergiu com imparcialidade na situa√ß√£o dos africanos e afro descendentes que conheceu por l√°.¬† Muitos atravessaram o Atl√Ęntico para estudar e ao chegar, foram for√ßados a permanecer em pequenas comunidades da mesma etnia e pa√≠s de origem. Quando Nkrumah deixou a Am√©rica j√° tinha completado os primeiros cursos de seus estudos de doutoramento.

Em maio de 1945, ao inv√©s de retornar para a Costa do Ouro, Dr. Nkrumah partiu para o Reino Unido, onde chegou com cartas de apresenta√ß√£o para liderar os Pan – africanistas, com a inten√ß√£o de qualificar a pr√°tica como um advogado (por exemplo: ser admitido no col√©gio dos advogados brit√Ęnicos). Dedicado aos estudos jur√≠dicos, e em maior medida ao ativismo estudantil. No Reino Unido, ele trabalhou com George Padmore, C.L.R. James, Ras Makonnen e outros que mais tarde iriam ajud√°-lo a moldar a pol√≠tica africana.

Após a sua estadia na Inglaterra e sua participação ativa no V Congresso Pan-africanista de 1945, juntamente com Jomo Kenyatta, Du Bois e outros, Nkrumah retorna à Costa do Ouro em 1947 e imediatamente se envolveu nos assuntos do país.

Naquela √©poca, latino-americanos e asi√°ticos nacionalista eram nomeados como comunistas. J√° que estamos na guerra fria, ap√≥s a segunda guerra mundial, quando o equil√≠brio de poder nas rela√ß√Ķes internacionais girava em torno de duas for√ßas: o capitalismo e o comunismo. Em retrospectiva, observou-se que os Estados alinhados com o capitalismo receberam abundante investimentos, e os n√£o-alinhados, n√£o. A t√≠tulo de exemplo, o n√≠vel de desenvolvimento, ap√≥s 1945, de pa√≠ses como a Coreia do Sul e Taiwan estava por tr√°s do plano Marshall. Nenhum dos pa√≠ses independentes emergentes em √Āfrica recebeu tantas ajudas.

Estudos que comparam o desenvolvimento da √Āfrica √† √Āsia t√™m estado em moda, mas s√£o compara√ß√Ķes baseadas na psicologia ocidental onde est√° subjacente que os africanos s√£o incapazes de desenvolver-se devido a sua pregui√ßa ou incapacidade de or√ßamento. A experi√™ncia do partido Conven√ß√£o Popular Party (CPP) que Nkrumah fazia parte, partia dessa perspectiva e seu lugar em estudos de desenvolvimento, conforme analisado na m√≠dia ocidental.

O sul asi√°tico Ho Chi Minh foi √† mesma escola ideol√≥gica Dr. Nkrumah. Para ele a √Āsia estava √† frente de √Āfrica em seu caminho para o desenvolvimento, devido √†s prefer√™ncias geogr√°ficas e geoestrat√©gica dos colonialistas. A independ√™ncia do Gana sob o CPP em 1957 marcou o processo de descoloniza√ß√£o africana.

Dr. Nkrumah foi socialista e nacionalista africano. Sua definição de nação africana foi continental, provavelmente devido a sua afinidade com o socialismo e o internacionalismo proletário. A maioria de seus conselheiros tinham uma orientação política de centro-esquerda. Todos compartilhavam a ideia de uma União afro-arabe europeia. Na verdade, o termo continentalismo foi definido após o V Congresso Pan-africanista de 1945, o qual Nkrumah tinha certas responsabilidades como secretário. Antes de 1945, já era conhecida a interpretação da União Africana de Cheikh Anta Diop  que foi forjada desde que surgiu na América do norte o movimento Panafricanista nas mãos de descendentes de escravos africanos.

Se olharmos para o interior da pol√≠tica de Dr. Nkrumah podemos tirar conclus√Ķes quanto √† sua orienta√ß√£o ideol√≥gica. A partir destas constata√ß√Ķes, poderemos avaliar melhor o seu plano de pol√≠tica externa. H√° uma cren√ßa de que a pol√≠tica externa de Pan-africanista do CPP substitu√≠a considera√ß√Ķes internos, principalmente no que diz respeito a rentabilidade.

Com base no que precede, a experi√™ncia do desenvolvimento de Gana sob o CPP n√£o era √ļnica na √Āfrica. Na verdade, Gana liderou o caminho e muitos tomaram como refer√™ncia em muitos aspectos. Por exemplo, todos estavam interessados na industrializa√ß√£o em vez de importa√ß√£o. Dr. Nkrumah foi guiado por aquilo que ele acreditava que foram os melhores interesses do Gana. Enquanto a √Āsia foi o centro da disputa entre Oriente e Ocidente, √Āfrica teve um papel relevante. Desde ent√£o, apenas a √Āfrica tinha √°reas estrat√©gicas como a cidade sul-africana de Simonstown, o Canal de Suez e mar vermelho. Era de se esperar que pa√≠ses como o Gana mantivessem suas economias de monocultura, que pa√≠ses desenvolvidos poderiam ser refor√ßados com a explora√ß√£o de minerais.

Metade do s√©culo mais tarde, pouco progresso para desenvolvimento econ√īmico auto -suficiente de Gana. Entendemos que o pa√≠s precisa trabalhar no √Ęmbito da Uni√£o Africana, para ser capaz de progredir em sua tentativa de liberar-se do sistema neo-colonial e a luta pela integra√ß√£o econ√īmica auto – suficiente e unidade panafricana.

2. Dr. Kwame Nkrumah: Política externa Pan РAfricana.

“A independ√™ncia de Gana n√£o tem sentido sem a liberta√ß√£o total de √Āfrica” (Nkrumah (1967) p. 4)

No ano passado um dos “Top Four” da Nam√≠bia foi ouvido dizendo que Nkrumah n√£o sabia nada sobre a √Āfrica at√© chegar nos EUA. √Č improv√°vel que tenha sido diferente. A influ√™ncia de Pan-africanistas norteamericanos como John Hendrik Clarke sobre os africanos e os de ascend√™ncia Africano n√£o √© bem conhecida ou compreendida internacionalmente.

Esta inicia√ß√£o ao mundo americano foi experimentada na Am√©rica do Norte por estrangeiros de todo o continente africano como Duse Mohamed Ali do Sud√£o/Egito, Sul-Africano Pixley Seme ou Kwame Nkrumah. Cada um deles retornou √† √Āfrica, com uma vis√£o do que seria a Uni√£o Africana e autonomia. Dr Nkrumah foi diferente neste aspecto, j√° que, como chefe de Estado mais tarde em √Āfrica tinha uma boa posi√ß√£o para materializar a id√©ia do pan-africanismo e a fez com dedica√ß√£o exemplar. Muitos lideres africanos sucessores cuidadosamente evitaram o exemplo de Nkrumah.

O compromisso do Dr. Nkrumah para a liberta√ß√£o de √Āfrica era inabal√°vel. Na verdade, alguns ganeses vieram queixar-se, uma vez que considerou que as despesas do CPP durante o seu mandato foi excessiva tanto em assuntos internacionais como nacionais. Todos os nacionalistas africanos que podiam, tomaram parte na Confer√™ncia de Povos Africanos e na primeira confer√™ncia para a independ√™ncia dos pa√≠ses africanos, que teve lugar em Accra, logo ap√≥s sua independ√™ncia. Ambas as confer√™ncias reafirmaram o nacionalismo Africano e a descoloniza√ß√£o em √Āfrica. Nesses dias era esperado que, pelo menos na √Āfrica anglo-sax√£, o n√ļmero de pa√≠ses independentes, equivalente √†queles que ainda estavam sujeitos a governantes de soberania.

Nkrumah preferiu dizer que a “independ√™ncia” n√£o foi nada mais do que um passo no sentido de neo-colonialismo, o √ļltimo degrau do imperialismo, no caminho para a unidade Pan-Africano. No momento em que Gana conseguiu o governo no √Ęmbito do partido CPP em 1957, n√£o seria nenhum exagero dizer que o Dr. Kwame Nkrumah foi esclarecido um Pan-africanista. Sua estadia na costa nordeste dos Estados Unidos e mais tarde em Londres, permitiu que ele absorva o nacionalismo Africano nas m√£os de uma gera√ß√£o de brit√Ęnico Africano-americanos, Caribe e Pan-africanistas muito especial. Que posteriormente, apareceu como Julius Nyerere n√£o tiveram tanta sorte. Porque foi essa exposi√ß√£o, que mais tarde, levou-o em sua abordagem para o movimento de unidade.

Nkrumah n√£o s√≥ se voltou para ensino, durante seus dias de estudante, mas tamb√©m destacou voltar √† sua terra, convidando outros professores, como Du Bois, Parker e Makonnen, que se juntaram a ele, para se estabelecerem em Gana e juntos permitir o melhor uso de suas sabedorias. Esta era sua estrat√©gia para o estudo e formula√ß√£o de uma pol√≠tica externa, que nenhum dos seus colegas seguiu, nem mesmo o Azikiwe nigeriano. Demora um tempo explicando a posi√ß√£o √ļnica de Nkrumah na pol√≠tica africana contempor√Ęnea.¬† Tudo indica que a rela√ß√£o de Nkrumah com seus assessores em pol√≠tica externa africana baseou-se em uma profunda humildade e respeito m√ļtuo.

Durante sua estadia na Europa e América do Norte, o Dr.Nkrumah estudou em profundidade a situação global africana. Contou com a ajuda de outros estudiosos da área. Na abertura da biblioteca em memória George Padmore ocorrida em Acra, em 30 de junho de 1961, o Dr. Nkrumah desenvolveu a visão do nacionalismo Africano. Padmore subiu para os mais altos patamares na formulação da política externa no sistema soviético, para se tornar um membro da Internacional Comunista em Moscou durante vários anos. Na medida em que o Dr. Nkrumah é saudado nos dias de hoje como um Pan-africanista, pode ser que no futuro ele será lembrado principalmente como essencialmente um Nacionalista Africano, que teve uma compreensão inicial do significado do nacionalismo Africano na mobilização coletiva da comunidade Africano global.

Em seu discurso e homenagem a Padmore Dr. Nkruma disse: “Camarada Padmore dedicou toda a sua vida para o desenvolvimento do nacionalismo Africano”.

Kwame Nkrumah, pai do pan-africanismo de Estado, discursa no Harlem (Nova Iorque, 1960

Dr. Nkrumah declarou que ele tinha uma rela√ß√£o de “verdadeira lealdade espiritual e intelectual” com o caribenho Padmore. A biblioteca continua a ser hoje um centro de pesquisa e um santu√°rio de cultura e sabedoria. Dr. Nkrumah nunca deixou de promover o poder da “leitura inteligente”, desde que, segundo ele, o progresso depende da leitura.

Personalidades de destaque da política estrangeira em Gana, como Hackman Owusu-Arantes, Victor James Gbeho e K.B.Asante, têm argumentado que a política externa de Gana não sofreu qualquer alteração do que foi estabelecido pelo CPP em 1957.

O embaixador Debrah confirma que o Dr. Nkrumah levou a cabo uma política externa ativa e agressiva:

–¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† Ele liderou a luta contra o colonialismo para a liberta√ß√£o total da √Āfrica.

–¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† -Sensibilizo os Estados africanos e os combatentes pela liberdade da necessidade de uma √Āfrica livre, atrav√©s de palestras em toda a √Āfrica.

–¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† ¬†Deu o exemplo da integra√ß√£o nacional, unindo, Gana, Guin√© e Mali. Ele tamb√©m criou o projeto do Volta, que foi a base para a industrializa√ß√£o de Gana.

De acordo com Lemelle (1992) a import√Ęncia hist√≥rica do Dr. Nkrumah dentro do Movimento Panafricanista √©:

Ele √© a ponte entre o V Congresso Pan-africanista, Secretaria Nacional de √Āfrica Ocidental, com sede em Londres e o Movimento de Independ√™ncia da √Āfrica. Conectou a sua experi√™ncia de Pan-africanista com suas atividades internacionais subsequentes como primeiro presidente de Gana. Para Nkrumah, o seu objetivo Pan-africanista ultrapassava barreiras geogr√°ficas e culturais nacionais impostas pelo colonialismo. (p.136)

Em 1958 o l√≠der da Tanz√Ęnia, Julius Nyerere formou o movimento Pan – africanista para leste e √Āfrica Central (PAFMECA), atrav√©s do Comit√© de liberta√ß√£o da organiza√ß√£o para a Uni√£o Africana, durante a descoloniza√ß√£o da √Āfrica do Sul. No VI Congresso Pan-africanista (Dar es Salaam, 1974), Mwalimu Nyerere, apesar de suas diferen√ßas iniciais com Nkrumah sobre a interpreta√ß√£o do Pan-africanismo, em seu discurso de abertura homenageou Nkrumah e Kenyatta por suas contribui√ß√Ķes no V Congresso Pan africanista, igual a Garvey, Makonnen e outros √† sua contribui√ß√£o para o movimento Pan-africanista.

A lideran√ßa de Dr. Nkrumah de Gana, para a constru√ß√£o de uma significativa Uni√£o Africana, atrav√©s da Organiza√ß√£o para a Unidade Africana (OUA) e a aceita√ß√£o de que estes esfor√ßos se trope√ßaram, foi uma li√ß√£o de determina√ß√£o, coragem e for√ßa. Apesar da hostilidade e da resist√™ncia de algumas comunidades que sua iniciativa foi encontrada, como a comunidade franc√≥fona (excluindo a Guin√© e Mali), que poderia ter levado ao des√Ęnimo e cinismo, desde o momento que atacaram a sua pessoa e questionaram sua integridade, Nkrumah recusou-se a render-se e continuou a trabalhar para unir a √Āfrica e os africanos.

Atualmente na √Āfrica se ouve pouco sobre este projeto. Diz-se que o mais l√≥gico em termos de rela√ß√Ķes entre os Estados em √Āfrica hoje √© o Pan-africanismo. Neste momento est√° a celebrar o 50¬ļ anivers√°rio da OUA sob o t√≠tulo: “Pan ‚Äď africanismo / o renascimento africano”. A ideologia do movimento sindical tem sido estudada por P. Olisanwuche Esedebe (1994), que afirma que “podemos dizer que o Pan-africanismo √© um fen√īmeno pol√≠tico e cultural que v√™ a √Āfrica, os africanos e afro descendentes no exterior como uma unidade. Busca regenerar e unificar a √Āfrica e promete um sentimento de identidade dos povos africanos”. (p. 5)

Nas reuni√Ķes de Pan-africanistas, continental ou regional, n√£o ouvimos a voz de pan-africanismo e suas autoridades como Rodney, Cabral e Glausk. Mas ouvimos os clich√™s e palavras da burocracia. Isto n√£o √© um bom sinal para a nossa mem√≥ria coletiva nem para¬† efetivar a cabo a ideologia.

Enquanto Nkrumah viajava na √Āsia, a fim de mediar o Guerra do Vietnam, seu governo sob a governan√ßa do CPP foi derrubado pela Ag√™ncia Central de Intelig√™ncia Americana (CIA). Quando o avi√£o pousou em Pequim, na China, foi relatado que as for√ßas armadas e pol√≠cia tinha feito com o poder em Gana. Ele foi exilado na Guin√©, na √Āfrica Ocidental, desde que o l√≠der deles, Sekou Ture nomeado co-presidente honor√°rio, um t√≠tulo que ele manteve at√© sua morte em 1972. Seu ex√≠lio consolidou sua experi√™ncia de vida e durante esse tempo dedicou a escrever retrospectivamente a partir de sua experi√™ncia pol√≠tica.

3. Pan – africanismo

Homens e mulheres migraram para fora da √Āfrica Oriental, especialmente do grande Vale do Rift, para povoar √Āfrica e o mundo. Ao longo do tempo os negros africanos mudaram sua pigmenta√ß√£o devido a condi√ß√Ķes meteorol√≥gicas que sofreram.¬† Hoje n√≥s podemos ainda encontrar pessoas negras em partes da √Āsia e no sul da √Āsia, ou ainda se lembrar de sua presen√ßa.

No Caribe h√° uns 40 milh√Ķes de descendentes de africanos, cerca de 50 milh√Ķes na Uni√£o Europeia, estima-se cerca de 40 milh√Ķes nos EUA e Canad√° e entre 130 milh√Ķes de descendentes de africanos vivem na Am√©rica Latina. Eles s√£o descendentes de africanos, que vivem na di√°spora de √Āfrica Oriental, cujas origens remontam √†s migra√ß√Ķes for√ßadas devido √† escravid√£o. As causas das recentes migra√ß√Ķes de africanos para os Estados Unidos e o Canad√° s√£o na maior parte por raz√Ķes econ√īmicas.

Em rela√ß√£o √† di√°spora Africana Oriental no Oriente M√©dio, Palestina, os Estados do Golfo e pontos mais a leste, bem como norte da √Āfrica, algumas delas s√£o as mem√≥rias daqueles que povoaram o norte da √Āfrica, antes dos √°rabes cruzarem o Sinai e entrarem em √Āfrica entre 630 e 640 a. C. Estes s√£o cidad√£os africanos, que s√≥ agora est√£o conscientes do africanismo, como j√° vimos em Darfur, no Sud√£o.¬† Eles s√£o como uma onda de consci√™ncia da civiliza√ß√£o do mundo, depois de ter sido despojado de suas ra√≠zes africanas. Em geral o √Ārabe n√£o suporta admitir suas ra√≠zes africanas, uma vez que diz que sempre foi do Egito.

A migra√ß√£o for√ßada de africanos fora da √Āfrica veio a leste da √Āsia. S√≥ depois, a migra√ß√£o se desviou parcialmente em dire√ß√£o a oeste, Caribe e nas Am√©ricas, enquanto continuava seu ritmo tamb√©m no sentido do Oriente M√©dio e Egito. Aqueles que foram para o leste foram islamizados e arabizados. As longas e intermin√°veis guerras no Sud√£o, que os meios de comunica√ß√£o ocidentais tentaram cobrir, representam a resist√™ncia hist√≥rica dos africanos a arabiza√ß√£o. Os acontecimentos recentes na Rep√ļblica Africana Central ensinam-nos que estas lutas continuar√£o e que a hegemonia √°rabe vai avan√ßar ao sul perto do Equador, devido √† passividade africana.

A Uni√£o Africana, resultado estatal/burocr√°tico do trabalho pioneiro de Nkrumah, durante as comemora√ß√Ķes do seu 50¬ļ anivers√°rio, esta refletindo sobre como ser√° a √Āfrica de 2063. Ainda com dificuldades, se reconhece a di√°spora ocidental como a sexta regi√£o do continente. Afro-descendentes do M√©dio Oriente e a Am√©rica Latina ainda devem ser identificados como parte desta regi√£o sexta. Tamb√©m faz parte do debate de retorno √† √Āfrica, atrav√©s de transfer√™ncias da di√°spora, aproveitando o ideal libertador do pan-africanismo em sentido material, como uma constru√ß√£o da Uni√£o Africana, desta forma.

Esta abordagem √© articulada por Mbungeni Ngulube do ‘Global Native’ em Leeds, Reino Unido. Esta abordagem implica que a di√°spora pode ser respons√°vel pelos custos de implementa√ß√£o do pan-africanismo. Diz-se que, em 2012, uns 50 bilh√Ķes de d√≥lares foram enviados por transfer√™ncia banc√°ria pela di√°spora africana para a √Āfrica. Gana nos anos 90 incentivou o direito de regresso atrav√©s da gera√ß√£o de renda atrav√©s do turismo.

A rela√ß√£o de √Āfrica com a sua di√°spora, com base em estudos hist√≥ricos, foi uma rela√ß√£o de m√ļtua complementaridade. √Č importante ter isto em mente. A abordagem da Sexta regi√£o n√£o reconhece esta regra. Na verdade, ap√≥s a cria√ß√£o da Organiza√ß√£o para a Uni√£o Africana, entre 1963 e 1964, ag√™ncias controladas pelo Estado, que n√£o representava a ideologia dos √ļltimos anos de Nkrumah, perdeu contato com sua di√°spora ocidental e implantou o projeto continental, tamb√©m conhecido como Continentalismo.

O com√©rcio de escravo com o Hemisf√©rio Ocidental teve o pan-africanismo como resposta, esta rea√ß√£o pol√≠tica e filos√≥fica de √Āfrica contra o imperialismo e o mundo exterior. Isto deu origem ao movimento de repara√ß√£o, especialmente em √°reas, como Nam√≠bia, onde o exterm√≠nio foi usado como uma pol√≠tica de coloniza√ß√£o. Para os povos que foram demitidos de sua pr√≥pria hist√≥ria por estrangeiros, as compensa√ß√Ķes s√£o uma forma atraente de reconhecimento. Os danos psicol√≥gicos causados pela escravid√£o eram t√£o ruins que a maioria dos africanos e seus descendentes automaticamente escolheram o lado do mestre que do servo.

Estas s√£o as li√ß√Ķes que devem ser ensinadas na luta contra o imperialismo.¬† A di√°spora Latina ainda devem ser sensibilizada sobre o pan-africanismo. A OUA n√£o atingiu toda a comunidade africana, temerosa do triste status-quo. Enfim, a di√°spora Latino tamb√©m tem responsabilidades, o processo n√£o √© linear, mas circular. E no entanto, o livro do escritor Ivan Sertima foi intitulado ‚ÄúEles chegaram antes que Colombo‚ÄĚ.¬†A Comiss√£o da Uni√£o Africana obt√©m 42% de seu sal√°rio anual de coopera√ß√£o internacional.

O¬†Darfuriano (nascido em Dafur)¬†que cresceu ao longo do mar vermelho, postula que somente quando a √Āfrica for um parceiro igualmente em toda a Comunidade ( descendentes de africanos vivendo na Ar√°bia) iriam recorrer ao pan-africanismo em n√ļmeros significativos. Atualmente vivem na marginaliza√ß√£o, na periferia da comunidade africana. Apesar de serem os benefici√°rios do pan-africanismo, desde que alguns africanos mudaram e ajustaram suas rela√ß√Ķes com a Ar√°bia. Nestas √°reas, as pr√°ticas culturais africanas tais como m√ļsica, dan√ßa e linguagem s√£o os √ļnicos la√ßos de Uni√£o com a √Āfrica.

O Pan-africanismo deve ser levado a s√©rio pelas elites africanas, especialmente nas esferas pol√≠ticas. Walter Rodney j√° previa isso. Pan-africanismo √© a express√£o pol√≠tico-africana de pensamento, englobando a materializa√ß√£o da integridade da na√ß√£o africana, unindo todos os descendentes de africanos com ou sem a √Āfrica. √Č o bra√ßo da pol√≠tica diplom√°tica e estrangeiro do nacionalismo Africano. O Pan-africanismo assume esse papel por causa de sua flexibilidade, criatividade e sua capacidade de transformar e tomar novos rumos, dependendo das exig√™ncias e das circunst√Ęncias. √Č uma tese din√Ęmica, pronta e capaz de incorporar novos eleitores e levar a uma nova forma de pensar.

Referencias bibliogr√°ficas

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· Lemelle, Sidney (1992) Pan-Africanism for beginners, Nueva York:  Writers and Readers Publishing Inc.

¬∑ Ngulube, Mbongeni (2013)¬†Diaspora as dilemma ‚Äď ‚ÄėDevelopmentalising‚Äô The African Union‚Äôs Sixth Region?,¬†Reino Unido:¬†Pambazuka News 639 17/ 07/2013.

www.pambazuka.org/en/category/features/88292.

¬∑ Nkrumah, Kamwe (1967)¬†Axioms of Kwame Nkrumah ‚Äď Freedom Fighters Edition, Londres: PANAF Books Ltd.

¬∑ Rodney, Walter (1976) ‚ÄúTowards the Sixth Pan-African Congress : aspects of the international class¬†¬†¬†¬† struggle in Africa, the Caribbean and America‚ÄĚ,¬†¬†Resolutions and¬†selected speeches from the Sixth Pan-African Congress, Dar es Salaam: Tanzania Publishing House.

¬∑ Sherwood, Marika (1996)¬†Kwame Nkrumah ‚Äď The years abroad 1935-1947, Legon, Ghana: Freedom Publications.

¬∑ Smertin, Yuri (1987)¬†Kwame Nkrumah, Mosc√ļ: Progress Publishers.