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Coletivos: espa√ßos t√≥xicos para a milit√Ęncia? (2)

√Č preciso exercitar o racioc√≠nio, voltar-se mais uma vez √† an√°lise das pr√°ticas sociais, sair do tarefismo e da papagaiada, criar quadros de pensamento e formas de luta que permitam escapar da armadilha identit√°ria. Por Passa Palavra

Leia a primeira parte clicando aqui!

Bradar aos quatro cantos que o identitarismo não oferece respostas não é suficiente, pois não aponta saídas práticas nem leva a outros modos de colocar a questão. A crítica ao identitarismo, enquanto crítica, não tem obrigação alguma de pautar o que quer que seja senão os limites lógicos e práticos daquilo que critica.

Por isto mesmo, como qualquer cr√≠tica pol√≠tica, deve ser complementada pela a√ß√£o pol√≠tica coerente com os resultados da cr√≠tica “Mas que tend√™ncias apontam alternativas? A quest√£o n√£o diz respeito √† perspectiva emocional, mas a uma an√°lise das capacidades de transforma√ß√£o produzidas por meio de cada forma organizativa.

Um caminho, interessante mas ainda individual, √© o de lidarmos com nossos pr√≥prios egos na atua√ß√£o em coletivos. H√° quem diga que √© necess√°rio restringir ao m√°ximo nos coletivos o espa√ßo dos egos e dos problemas pessoais trazidos a tais espa√ßos.

A milit√Ęncia n√£o pode exigir de um coletivo ou de um movimento social que ele abarque a totalidade da vida, que tenha solu√ß√Ķes para todos os problemas do cotidiano e preencha todos os vazios existenciais. √Č preciso ser terno, sempre, mas sem perder a dureza jamais.

Alguns grupos com objetivos mais definidos, por exemplo, tendem a durar mais; por outro lado, eles podem se tornar rasos com facilidade. Paralelamente, surge uma quest√£o: seria preciso haver algum tipo de procedimento de cuidado com a sa√ļde f√≠sica e mental dos militantes? Isto leva tempo para se construir, e pode terminar completando de outras formas o sequestro de pauta iniciado pelo identitarismo.

H√°, por outro lado, quem queira coletivizar a quest√£o. Note-se: coletivizar a quest√£o, n√£o coletivizar a puni√ß√£o.

Pois punir √© f√°cil: basta xingar, ‚Äúdar um gelo‚ÄĚ, botar para fora dos espa√ßos, tudo isto √© simples. Complicado mesmo √© buscar as ra√≠zes do problema: cortar na carne, assumir que cada caso de viol√™ncia individual expressa um problema sist√™mico, o que implica na participa√ß√£o, na busca por solu√ß√Ķes coletivas, de todos os sujeitos envolvidos nos casos de viol√™ncia.Uma analogia pode ajudar na compreens√£o.

As lutas entre trabalhadores e capitalistas fundam-se na explora√ß√£o econ√īmica, n√£o raro acompanhada de viol√™ncia f√≠sica e psicol√≥gica.

Estas lutas tornam-se tanto mais fortes quanto mais trabalhadores de empresas diferentes, de setores econ√īmicos diferentes etc. integram-se num s√≥ processo de lutas.

√Č a supera√ß√£o pr√°tica daquele individualismo a que nos referimos anteriormente.

A fragmenta√ß√£o entre os trabalhadores beneficia enormemente os capitalistas, porque podem, ent√£o, conter as lutas no espa√ßo de uma empresa, de uma cadeia produtiva ou de um setor econ√īmico, evitando, assim, tocar nos fundamentos da explora√ß√£o da for√ßa de trabalho.

Os efeitos da analogia, entretanto, n√£o s√£o dos melhores. A rela√ß√£o entre capitalistas e trabalhadores √© mediada por mercadorias: a for√ßa de trabalho no capitalismo √© transformada em mercadoria, assim como os bens que os trabalhadores necessitam para viver bem. 

Parece mais simples despersonalizar a quest√£o, objetiv√°-la, quando h√° algo que medeie a rela√ß√£o, que ‚Äď neste caso ‚Äď d√™ aos sujeitos a apar√™ncia de estarem apartados pelas for√ßas do mercado.

√Č poss√≠vel, entretanto, dizer que viol√™ncias racistas e machistas s√£o mediadas pelo que quer que seja? 

Há algo tão concreto como o salário que se interponha entre o racista ou o machista e sua vítima para que o racismo funcione?

N√£o; pode-se ser racista ou machista independentemente do assalariamento, de bens etc. √Č esta aparente imediatidade que d√° ao racismo e ao machismo a apar√™ncia de problemas individuais, a serem tratados individualmente.

N√£o √© por acaso que as a√ß√Ķes punitivas defendidas pela milit√Ęncia identit√°ria como formas de combate ao machismo e ao racismo, especialmente o escracho, todas tenham nos indiv√≠duos seu ponto de refer√™ncia.

Incapazes de ensaiar quaisquer outras respostas ao machismo e ao racismo que n√£o as formas individualistas que lhe s√£o pr√≥prias, a milit√Ęncia identit√°ria, perdida na satisfa√ß√£o de seus pr√≥prios egos ‚Äúempoderados‚ÄĚ, sempre que se focam nos companheiros da milit√Ęncia anticapitalista terminam empurrando os alvos deste punitivismo a formas de defesa igualmente individualizadas, quando n√£o a buscar prote√ß√£o junto ao Estado.

Resultado: combate-se o racista, combate-se o machista, combate-se o indiv√≠duo, enquanto suas pr√°ticas e seus fundamentos passam ao largo de qualquer enfrentamento, permanecem em circula√ß√£o, e produzir√£o seus efeitos delet√©rios mais adiante.

Mas o que se quer dizer com isto? Que √© preciso exercitar o racioc√≠nio, voltar-se mais uma vez √† an√°lise das pr√°ticas sociais, sair do tarefismo e da papagaiada, criar quadros de pensamento e formas de luta que permitam escapar desta armadilha.

Um exemplo, no que diz respeito aos quadros de pensamento, que √© aquilo a que se pode limitar uma publica√ß√£o sem liga√ß√Ķes org√Ęnicas com qualquer grupo militante.

Racismo e machismo são formas de violência expressivas de um desejo por superioridade, e portanto expressam igualmente o projeto de uma sociedade formada por elementos sociais explicitamente desiguais.

Numa sociedade onde se pretende que todos sejam tratados como iguais; onde se projeta a vig√™ncia da igualdade de acesso a cargos e fun√ß√Ķes p√ļblicas, a vig√™ncia da igualdade de emitir opini√£o sobre qualquer assunto nos espa√ßos p√ļblicos e nas esferas p√ļblicas, e a vig√™ncia da submiss√£o de todos √†s mesmas regras, sem distin√ß√Ķes de qualquer tipo; numa tal sociedade, o que h√° √© uma contradi√ß√£o entre este projeto de igualdade e o projeto de desigualdade defendido, expl√≠cita ou implicitamente, por racistas e machistas.

Há quem leia o parágrafo anterior e diga que se trata de um exercício cerebrino de raciocínio. Faltou dizer que não há raciocínio político digno de menção que não seja a síntese de tendências históricas.

Veja-se o racismo: ele interessa aos capitalistas, entre outras coisas, porque faz com que um negro trabalhando na mesma fun√ß√£o que um branco ganhe menos que este √ļltimo, estimulando as press√Ķes por baixas salariais; ao mesmo tempo, o racismo estimula entre os negros a busca por maiores qualifica√ß√Ķes de sua for√ßa de trabalho, especialmente por meio da educa√ß√£o t√©cnica ou universit√°ria, e como o negro que superqualificou sua for√ßa de trabalho nos quadros de uma sociedade atravessada pelo racismo seguir√° ganhando menos que um branco exercendo a mesma fun√ß√£o, o resultado √© a desvaloriza√ß√£o da for√ßa de trabalho dos dois.

O mesmo raciocínio aplica-se, em igual situação, ao machismo. Isto sem falar, é claro, do uso da força de trabalho dos negros escravizados recém-libertos como exército industrial de reserva, da desvalorização do trabalho doméstico realizado por mulheres como forma de rebaixar os custos com a reprodução da força de trabalho (e, portanto, aumentando os lucros dos capitalistas nas empresas)…

O racismo, o machismo e outras formas de violência, portanto, não apenas nos formam enquanto sujeitos quando empregues pelos capitalistas para explorar melhor a nós todos que somos trabalhadores; vistos por esta perspectiva, é aos capitalistas que interessa mais a violência racista e machista, muito mais que a nós, trabalhadores.

Se tanto o racismo quanto o machismo nos formam enquanto sujeitos, combat√™-los implica, entre outras coisas, formar novamente estes sujeitos, reorientar suas pr√°ticas de modo a implementar aquele projeto de igualdade a que nos referimos.

Isto implica trabalhar para esta reorienta√ß√£o em cada caso concreto de acordo com as possibilidades; este trabalho pode, inclusive, ter na ruptura de rela√ß√Ķes pol√≠ticas uma consequ√™ncia √ļltima, mas nunca uma a√ß√£o imediata e priorit√°ria.

Como se v√™, n√£o negamos a necessidade de a√ß√Ķes disciplinares; o que negamos √© o car√°ter estritamente punitivista e fratricida destas medidas, tal como v√™m sendo adotadas nos ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ.

Note-se: o fato de o racismo e o machismo interessarem mais aos capitalistas não significa que não haja trabalhadores que se beneficiem deles individualmente; o problema está na contradição entre os benefícios imediatos que estes trabalhadores possam eventualmente obter de suas práticas machistas e racistas e os prejuízos causados à classe inteira por estas duas formas de violência.

A¬†explicita√ß√£o desta contradi√ß√£o¬†√© tarefa constante dos coletivos anticapitalistas, n√£o por ‚Äúempatia‚ÄĚ com os oprimidos ou qualquer sentimentalismo do tipo; trata-se da an√°lise mais fria e dura das consequ√™ncias pol√≠ticas do racismo e do machismo, e por tal √≥tica o moralismo e o sentimentalismo caracter√≠sticos da milit√Ęncia identit√°ria n√£o t√™m vez.

Este é um exercício de interpretação da realidade, entre tantos outros; sua característica distintiva é a desindividualização da questão e a assunção de que se trata de um problema sistêmico do capitalismo.

Neste quadro, torna-se difícil recorrer à particularização de cada caso de violência, pois ele assume de imediato contornos mais amplos que os de cada caso concreto e dificulta a pura e simples punição individualizada.

√Č preciso reconhecer, entretanto, que o esfor√ßo para pautar as viol√™ncias machista e racista de modo coletivizado pode tirar a pouca energia de grupos pequenos, que nem sempre disp√Ķem da capacidade ou mesmo das compet√™ncias necess√°rias para lidar com a quest√£o.

Ainda mais quando se trata do esfor√ßo de ultrapassar os limites de cada coletivo e de buscar solu√ß√Ķes mais amplas para o problema.

Mas quem disse que nos ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ s√£o os afetos que pautam as a√ß√Ķes? Que eles foram criados para tratar dos problemas afetivos de seus integrantes? Os afetos entram nos coletivos de contrabando mesmo, ora como sequestro de pauta, ora como consequ√™ncia de problemas mais s√©rios.

√Č dif√≠cil, por exemplo, organizar qualquer a√ß√£o onde se trabalha sem envolver algum grau de afetividade e confian√ßa pessoal; os crit√©rios a√≠, todavia, n√£o passam por qualquer exig√™ncia de pureza moral, como se d√° nos ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ.

Tudo se agrava ao constatar-se o¬†sectarismo¬†como tra√ßo comum da milit√Ęncia que constr√≥i os tais ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ.

A vontade de construir no presente aquilo que se quer ver constru√≠do no futuro ‚Äď a t√£o falada¬†pol√≠tica prefigurativa, importante contraponto √† proposta das organiza√ß√Ķes pol√≠ticas que pretendem resolver todos os problemas ‚Äúdepois da revolu√ß√£o‚ÄĚ, e s√≥ depois dela ‚Äď terminou resultando em que tais prefigura√ß√Ķes perderam sua radicalidade e se transformaram em verdadeiras bolhas de conv√≠vio, como que sociedades secretas, daquelas cujos membros reconhecem-se mutuamente pela assinatura, pelo aperto de m√£o ou por algum xibol√©.

Sucessivamente derrotados como estamos sendo ‚Äď por enquanto ‚Äď nas lutas contra os capitalistas, minguadas que andam nossas vit√≥rias, muitos entre n√≥s voltaram-se √† constru√ß√£o de rela√ß√Ķes sociais novas¬†entre si pr√≥prios, com m√≠nima ou nenhuma luta com os capitalistas; os coletivos, sob a influ√™ncia deste processo, transformam-se de¬†instrumentos de luta¬†em¬†ilhas de pureza militante, tanto mais ‚Äúpuras‚ÄĚ quanto mais ‚Äúdesviantes‚ÄĚ forem as rela√ß√Ķes sociais novas que se pretende construir.

Os ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ s√£o o local que melhor acolhe os desviantes. Precisamente pela aparente radicalidade das rela√ß√Ķes sociais que pretendem instituir, n√£o s√£o poucos integrantes destes ‚Äúcoletivos‚ÄĚ que, pelo ac√ļmulo de rejei√ß√Ķes e repress√Ķes em outros espa√ßos de conv√≠vio somado a problemas s√©rios de autoestima, t√™m nos coletivos seus espa√ßos preferenciais de sociabilidade.

√Č nele que v√£o desembocar as queixas quanto aos ‚Äúrea√ßas‚ÄĚ e ‚Äúpelegos‚ÄĚ do lado de fora, e √© nele onde se enra√≠zam os refor√ßos intergrupais.

Cedo se torna muito dif√≠cil, quando n√£o imposs√≠vel, dialogar com qualquer outra for√ßa pol√≠tica, grande ou pequena, ‚Äúreformista‚ÄĚ ou ‚Äúrevolucion√°ria‚ÄĚ, especialmente quando estas for√ßas pol√≠ticas organizam-se em modelos diferentes do solipsismo dos ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ.

Como o c√≠rculo de conviv√™ncia social desta milit√Ęncia √© pequeno; melhor dizendo, como √© pequeno o c√≠rculo onde suas ideias e pr√°ticas s√£o tidas como leg√≠timas, e em certos lugares tais c√≠rculos podem corresponder quase totalmente ao tamanho do ‚Äúcoletivo‚ÄĚ ou da ‚Äúcena‚ÄĚ, a atua√ß√£o pol√≠tica destes militantes tende a n√£o mais se dar¬†nos espa√ßos p√ļblicos e na esfera p√ļblica comuns a toda a sociedade, mas¬†ali naqueles espa√ßos onde h√° legitimidade.

De companheiros de luta, militantes passam a colegas de terapia. N√£o √© preciso muito para imaginar, num tal cen√°rio, onde a milit√Ęncia vai buscar preferencialmente suas rela√ß√Ķes sociais, afetivas e sexuais.

De tanto lutar por construir rela√ß√Ķes novas, o que se conseguiu foi uma forma de narcisismo coletivo, ‚Äúempoderador‚ÄĚ dos narcisismos individuais‚Ķ e onde h√° narcisismo, h√° incompreens√£o, o avesso da pol√≠tica.

***

√Č neste cen√°rio que o punitivismo identit√°rio faz a festa.

N√£o vamos tapar o sol com a peneira:¬†j√° dissemos que n√£o vamos nos calar diante de persegui√ß√Ķes a integrantes do Passa Palavra¬†promovidas pelo feminismo sect√°rio e divisionista que temos denunciado desde h√° muitos anos, e¬†mais outro caso nos levou a um pronunciamento p√ļblico.

Diferentemente destas moças, entretanto, não nos interessa caluniar ninguém.

Elas que cuidem de destruir a própria reputação sozinhas; não vamos ajudá-las em seu suicídio político. Interessa-nos, isto sim, aproveitar a oportunidade para elevar o nível do debate e tratar de problemas mais amplos.

O escracho, por exemplo, é uma punição poderosa, assusta, não pela força de quem a pratica, mas pela fraqueza de quem a sofre.

Trata-se do assassinato moral de um sujeito em determinado meio, ou melhor dizendo, exatamente no meio onde se d√£o suas rela√ß√Ķes sociais e afetivas mais importantes.

Vers√£o rediviva da¬†morte civil¬†prevista nas Ordena√ß√Ķes Filipinas, o escracho padece do mesmo problema:¬†s√≥ funciona l√° onde o sujeito apenado submete-se sem mais ao poder e √† influ√™ncia de quem condena.

Quanto mais sect√°rio √© quem milita, quanto menos participa de outros grupos sociais al√©m do ‚Äúcoletivo aut√īnomo‚ÄĚ, quanto mais depende do ‚Äúcoletivo aut√īnomo‚ÄĚ para obter legitima√ß√£o pol√≠tica e afetiva, mais vulner√°vel est√° aos escrachos, aos isolamentos pol√≠ticos, √†s chantagens emocionais.

Inversamente, quanto maior a capacidade de articula√ß√£o pol√≠tica de quem milita, quanto mais conhece e se faz conhecer, quanto mais supera a pris√£o solipsista e fragment√°ria do ‚Äúcoletivo‚ÄĚ (mesmo tendo-o como refer√™ncia), menor √© a chance de se deixar vitimar pelo escracho.

Em suma: quer livrar-se de um escracho? Ignore-o. Pior.

Os escrachos costumam ser escudados na mais pura covardia, principalmente quando são empregues como forma de eliminar alguém de determinado espaço político com base em boatos e disse me disse.

Den√ļncias bem fundamentadas de fatos abjetos como surras, estupros e outras formas de viol√™ncia costumam causar esc√Ęndalo p√ļblico, e s√£o feitas em aberto.

Mesmo considerando a tendência das autoridades policiais de fazer pouco do problema, de insinuar responsabilidade por parte da vítima etc., feliz ou infelizmente é nas delegacias que casos realmente graves vão parar.

Quando as provas n√£o s√£o seguras ‚Äď ou pior, quando os fatos nunca existiram ‚Äď tem in√≠cio um trabalho sujo de cal√ļnia, difama√ß√£o e inj√ļria, t√≠pico de quem optou por esta forma tipicamente individualista e particularmente mesquinha de a√ß√£o pol√≠tica.

Nos meios onde se pode registrar de alguma maneira as provas de cal√ļnia, difama√ß√£o ou inj√ļria, como redes sociais e correios eletr√īnicos, nenhuma den√ļncia √© feita de forma expl√≠cita; brotam, por outro lado, indiretas e refer√™ncias veladas, que remetem a conversas e acordos feitos em espa√ßos informais presenciais ‚Äď por isto mesmo torna-se muito dif√≠cil, quando n√£o imposs√≠vel, qualquer forma de contesta√ß√£o ou contradit√≥rio das den√ļncias.

Reais ou n√£o os fatos, as den√ļncias s√≥ s√£o feitas em grupos de amigos, em especial naqueles onde se sup√Ķe haver ‚Äúconfian√ßa pol√≠tica‚ÄĚ ‚Äď n√£o por acaso, trata-se de espa√ßos onde militam pessoas ligadas aos ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ em comum √† pessoa denunciada, para que reverberem tamb√©m nestes espa√ßos.

Constru√≠da deste modo a den√ļncia, com todas as evid√™ncias de quem recebeu boa orienta√ß√£o jur√≠dica para n√£o deixar rastros, pouco importa se ela √© verdadeira ou n√£o; est√° preparada uma armadilha capaz de destruir a reputa√ß√£o de qualquer militante sem qualquer possibilidade de defesa.

Que tipo de sociedade uma tal pr√°tica prefigura?

***

O tipo de ‚Äúsolipsismo coletivo‚ÄĚ que, numa perspectiva puramente individualista e burguesa, se poderia atribuir pura e t√£o somente a alguma ‚Äúimaturidade‚ÄĚ, quando visto de um ponto de vista simultaneamente pol√≠tico e sociol√≥gico mostra-se um potent√≠ssimo instrumento de controle social.

Uma gera√ß√£o inteira de militantes arrisca envenenar-se nos coletivos, tornados espa√ßos t√≥xicos para a milit√Ęncia, se n√£o for capaz de reverter as tend√™ncias apontadas.

Por Passa Palavra

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