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Resenha do livro What Fanon said, de Lewis Gordon

O que Fanon disse, afinal? Lewis Gordon e a defesa de uma abordagem fanoniana

Por Deivison Mendes Faustino (Deivison Nkosi) ¬†PLURAL, Revista do Programa de P√≥s‚ÄźGradua√ß√£o em Sociologia da USP, S√£o Paulo, v.22.2, 2015, p.247‚Äź253
O que Fanon disse, afinal?
Essa pergunta norteou a extensa pesquisa do¬†do fil√≥sofo jamaicano Lewis R. Gordon. A obra What Fanon Said: a philosophical introduction to his life and thought (‚ÄúO que Fanon disse: uma introdu√ß√£o filos√≥fica √† vida e obra de Fanon‚ÄĚ), ¬†oferece grandes contribui√ß√Ķes aos estudos sobre a vida e obra de Frantz Fanon. O autor, que tamb√©m √© conhecido pelas publica√ß√Ķes Bad Faith and Anti-black Racism (1995), Fanon and the Crisis of European Man: An Essay on Philosophy and the Human Sciences (1995) e por divulgar a obra fanoniana ao redor do mundo, dessa vez, vem a p√ļblico em 2015, ano que se celebra os 90 anos de Frantz Fanon para apresentar sua reflex√£o, adquirida ao longo de mais de 20 anos de pesquisa.

A partir de uma filosofia radical, que critica as ra√≠zes e os efeitos do racismo global, Lewis Gordon problematiza, de maneira singular, as categorias sujeito, raz√£o, racializa√ß√£o, subalterniza√ß√£o, colonialismo, viol√™ncia, desejo, pr√°xis, etc., abrindo, portanto, um di√°logo cr√≠tico com as principais vertentes te√≥ricas das ci√™ncias sociais contempor√Ęneas e apontando para a possibilidade de um novo humanismo p√≥s-colonial (Nissim-sabat, 2011).

Acesse o resumo na íntegra aqui 

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Racismo e Cultura por Frantz Fanon

FANON, Frantz. Racismo e Cultura. FANON, Frantz. Em defesa da revolução africana. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1980, p. 35-48.

1A reflex√£o sobre o valor normativo de certas culturas, decretado unilateralmente, merece que lhe prestemos aten√ß√£o. Um dos paradoxos que mais rapidamente encontramos √© o efeito de ricochete de defini√ß√Ķes egoc√™ntricas, s√≥cioc√™ntricas. Em primeiro lugar, afirma-se a exist√™ncia de grupos humanos sem cultura; depois, a exist√™ncia de culturas hierarquizadas; por fim, a no√ß√£o da relatividade¬†cultural.

Da nega√ß√£o global passa-se ao reconhecimento singular e espec√≠fico. √Č precisamente esta hist√≥ria esquartejada e sangrenta que nos falta esbo√ßar ao n√≠vel da antropologia¬†cultural.

Podemos dizer que existem certas constela√ß√Ķes de institui√ß√Ķes, vividas por homens determinados, no quadro de √°reas geogr√°ficas precisas que, num dado momento, sofreram o assalto directo e brutal de esquemas culturais diferentes. O desenvolvimento t√©cnico, geralmente elevado, do grupo social assim aparecido autoriza-o a instalar uma domina√ß√£o organizada. O empreendimento da descultura√ß√£o apresenta-se como o negativo de um trabalho, mais gigantesco, de escraviza√ß√£o econ√≥mica e mesmo¬†biol√≥gica.

A doutrina da hierarquia cultural não é, pois, mais do que uma modalidade da hierarquização sistematizada, prosseguida de maneira implacável.

A moderna teoria da ausência de integração cortical dos povos coloniais é a sua vertente anátomico-fisiológica. O surgimento do racismo não é fundamentalmente determinante. O racismo não é um todo, mas o elemento mais visível, mais quotidiano, para dizemos tudo, em certos momentos, mais grosseiro de uma estrutura dada.

Estudar as rela√ß√Ķes entre o racismo e a cultura √© levantar a quest√£o da sua ac√ß√£o rec√≠proca. Se a cultura √© o conjunto dos comportamentos motores e mentais nascido do encontro do homem com a natureza e com o seu semelhante, devemos dizer que o racismo √© sem sombra de d√ļvida um elemento cultural. Assim, h√° culturas com racismo e culturas sem¬†racismo.

Contudo, este elemento cultural preciso não se enquistou. O racismo não pode esclerosar-se. Teve de se renovar, de se matizar, de mudar de fisionomia. Teve de sofrer a sorte do conjunto cultural que o informava.

Como as Escrituras se revelaram insuficientes, o racismo vulgar, primitivo, simplista, pretendia encontrar no biol√≥gico a base material da doutrina. Seria fastidioso lembrar os esfor√ßos empreendidos nessa altura: forma comparada do cr√Ęnio, quantidade e configura√ß√£o dos sulcos do enc√©falo, caracter√≠sticas das camadas celulares do c√≥rtex, dimens√Ķes das v√©rtebras, aspecto microsc√≥pico da epiderme,¬†etc.

O primitivismo intelectual e emocional aparecia como uma consequência banal, um reconhecimento de existência.

Tais afirma√ß√Ķes, brutais e maci√ßas, d√£o lugar a uma argumenta√ß√£o mais fina. Contudo, aqui e ali, v√™m ao de cima algumas ressurg√™ncias. √Č assim que a ‚Äúlabilidade emocional do Negro‚ÄĚ, ‚Äúa integra√ß√£o subcortical do √Ārabe‚ÄĚ, ‚Äúa culpabilidade quase gen√©rica do Judeu‚ÄĚ, s√£o dados que se encontram em alguns escritores contempor√Ęneos. Por exemplo, a monografia de J. Carothers, patrocinada pela OMS, exibe, a partir de ‚Äúargumentos cient√≠ficos‚ÄĚ, uma lobotomia fisiol√≥gica do Negro de¬†√Āfrica.

Estas posi√ß√Ķes sequelares tendem, no entanto, a desaparecer. Este racismo que se pretende racional, individual, determinado, genot√≠pico e fenotip√≠co, transforma-se em racismo cultural. O objecto do racismo √©, n√£o descriminar o homem particular, mas uma certa forma de existir. No limite, fala-se de mensagem, de estilo cultural. Os ‚Äúvalores ocidentais‚ÄĚ unem-se singularmente ao j√° c√©lebre apelo √† luta da ‚Äúcruz contra o¬†crescente‚ÄĚ.

Sem d√ļvida, a equa√ß√£o morfol√≥gica n√£o desapareceu completamente, mas os acontecimentos dos √ļltimos trinta anos abalaram as convic√ß√Ķes mais firmes, subverteram o tabuleiro de xadrez, reestruturaram um grande n√ļmero de¬†rela√ß√Ķes.

A lembran√ßa do nazismo, a mis√©ria comum de homens diferentes, a escraviza√ß√£o comum de grupos sociais importantes, o surgimento de ‚Äúcol√≥nias europeias‚ÄĚ, quer dizer, a institui√ß√£o de um regime colonial em plena Europa, a tomada de consci√™ncia dos trabalhadores dos pa√≠ses colonizadores e racistas, a evolu√ß√£o das t√©cnicas, tudo isto alterou profundamente o aspecto do¬†problema.

Temos de procurar, ao nível da cultura, as consequências deste racismo.

O racismo, vimo-lo, não é mais do que um elemento de um conjunto mais vasto: a opressão sistematizada de um povo. Como se comporta um povo que oprime? Aqui, encontram-se constantes.

Assiste-se à destruição dos valores culturais, das modalidades de existência. A linguagem, o vestuário, as técnicas são desvalorizados. Como dar conta desta constante? Os psicólogos que tem tendência para tudo explicar por movimentos da alma pretendem colocar este comportamento ao nível dos contactos entre particulares: crítica de um chapéu original, de uma maneira de falar, de andar …

Semelhantes tentativas ignoram voluntariamente o car√°cter incompar√°vel da situa√ß√£o colonial. Na realidade, as na√ß√Ķes que empreendem uma guerra colonial n√£o se preocupam com o confronto das culturas. A guerra √© um neg√≥cio comercial gigantesco e toda a perspectiva deve ter isto em conta. A primeira necessidade √© a escraviza√ß√£o, no sentido mais rigoroso, da popula√ß√£o¬†aut√≥ctone.

Para isso, é preciso destruir os seus sistemas de referência.

A expropria√ß√£o, o despojamento, a razia, o assass√≠nio objectivo, desdobram-se numa pilhagem dos esquemas culturais ou, pelo menos, condicionam essa pilhagem. O panorama social √© desestruturado, os valores ridicularizados, esmagados, esvaziados. Desmoronadas, as linhas de for√ßa j√° n√£o ordenam. Frente a elas, um novo conjunto, imposto, n√£o proposto mas armado, com todo o seu peso de canh√Ķes e de¬†sabres.

No entanto, a implanta√ß√£o do regime colonial n√£o traz consigo a morte da cultura aut√≥ctone. Pelo contr√°rio, a observa√ß√£o hist√≥rica diz-nos que o objectivo procurado √© mais uma agonia continuada do que um desaparecimento total da cultura preexistente. Esta cultura, outrora viva e aberta ao futuro, fecha-se, aprisionada no estatuto colonial, estrangulada pela canga da opress√£o. Presente e simultaneamente mumificada dep√Ķe contra os seus membros. Com efeito, define-os sem apelo. A mumifica√ß√£o cultural leva a uma mumifica√ß√£o do pensamento individual. A apatia t√£o universalmente apontada dos povos coloniais n√£o √© mais do que a consequ√™ncia l√≥gica desta opera√ß√£o. A acusa√ß√£o de in√©rcia que constantemente se faz ao ‚Äúind√≠gena‚ÄĚ √© o c√ļmulo da m√°-f√©. Como se fosse poss√≠vel que um homem evolu√≠sse de modo diferente que n√£o no quadro de uma cultura que o reconhece e que ele decide assumir. √Č assim que se assiste √† implanta√ß√£o dos organismos arcaicos, inertes, que funcionam sob a vigil√Ęncia do opressor e decalcados caricaturalmente sobre institui√ß√Ķes outrora¬†fecundas‚Ķ

Estes organismos traduzem aparentemente o respeito pela tradi√ß√£o, pelas especificidades culturais, pela personalidade do povo escravizado. Este pseudo-respeito identifica-se, com efeito, com o desprezo mais consequente, com o sadismo mais elaborado. A caracter√≠stica de uma cultura √© ser aberta, percorrida por linhas de for√ßa espont√Ęneas, generosas, fecundas. A instala√ß√£o de ‚Äúhomens seguros‚ÄĚ encarregados de executar certos gestos √© uma mistifica√ß√£o que n√£o engana ningu√©m. √Č assim que as¬†djemaas¬†cabilas nomeadas pelas autoridades francesas s√£o reconhecidas pelos aut√≥ctones. S√£o dobradas por uma outra¬†djemaa¬†eleita democraticamente. E naturalmente a segunda dita a maior parte das vezes a sua conduta √†¬†primeira.

A preocupa√ß√£o constantemente afirmada de ‚Äúrespeitar a cultura das popula√ß√Ķes aut√≥ctones‚ÄĚ n√£o significa, portanto, que se considerem os valores veiculados pela cultura, encarnados pelos homens. Bem depressa se adivinha, antes, nesta tentativa uma vontade de objectivar, de encaixar, de aprisionar, de enquistar. Frases como: ‚Äúeu conhe√ßo-os‚ÄĚ, ‚Äúeles s√£o assim‚ÄĚ, traduzem esta objectiva√ß√£o levada ao m√°ximo. Assim, conhe√ßo os gestos, os pensamentos, que definem estes¬†homens‚Ķ

 

O exotismo é uma das formas desta simplificação. Partindo daí nenhuma confrontação cultural pode existir. Por um lado, há uma cultura na qual se reconhecem qualidades de dinamismo, de desenvolvimento, de profundidade. Uma cultura em movimento, em perpétua renovação. Frente a esta, encontram-se características, curiosidades, coisas, nunca uma estrutura.

Assim, na primeira fase, o ocupante instala a sua dominação, afirma maciçamente a sua superioridade. O grupo social, subjugado militar e economicamente, é desumanizado segundo um método polidimensional.

Explora√ß√£o, torturas, razias, racismo, liquida√ß√Ķes colectivas, opress√£o racional, revezam-se a n√≠veis diferentes para fazerem, literalmente, do aut√≥ctone um objecto nas m√£os da na√ß√£o¬†ocupante.

Este homem objecto, sem meios de existir, sem raz√£o de ser, √© destru√≠do no mais profundo da sua exist√™ncia. O desejo de viver, de continuar, torna-se cada vez mais indeciso, cada vez mais fantasm√°tico. √Č neste est√°dio que aparece o famoso complexo de culpabilidade. Wright2¬†dedica-lhe nos seus primeiros romances uma descri√ß√£o muito¬†pormenorizada.

Contudo, progressivamente, a evolu√ß√£o das t√©cnicas de produ√ß√£o, a industrializa√ß√£o, ali√°s limitada, dos pa√≠ses escravizados, a exist√™ncia cada vez mais necess√°ria de colaboradores, imp√Ķem ao ocupante uma nova atitude. A complexidade dos meios de produ√ß√£o, a evolu√ß√£o das rela√ß√Ķes econ√≥micas, que, quer se queira quer n√£o, arrasta consigo a das ideologias, desequilibram o sistema. O racismo vulgar na sua forma biol√≥gica corresponde ao per√≠odo de explora√ß√£o brutal dos bra√ßos e das pernas do homem. A perfei√ß√£o dos meios de produ√ß√£o provoca fatalmente a camuflagem das t√©cnicas de explora√ß√£o do homem, logo das formas do¬†racismo.

Não é, pois, na sequência de uma evolução dos espíritos que o racismo perde a sua virulência. Nenhuma revolução interior explica esta obrigação de o racismo se matizar, de evoluir. Por toda a parte há homens que se libertam, abalando a letargia a que a opressão e o racismo os tinham condenado.

…)