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Hack, política e cultura livre

Creaitive Commons

Uma comunidade cada vez maior, que dia a dia cutuca o calcanhar de Aquiles do mundo da acumulação capitalista


Por Jeferson Assumção

Simbolo Copy Letf
Copy Left

Acho muito interessantes dois princ√≠pios da cultura hacker*. O primeiro √© o da colabora√ß√£o, √†s vezes an√īnima, em rela√ß√£o a um objetivo comum. Em diversas ocasi√Ķes (e certamente isso est√° acontecendo neste momento) vinte ou mais meninos e meninas espalhados no mundo todo e trabalhando sob um mesmo c√≥digo fazem um game, uma tradu√ß√£o ou um programa de computador em semanas, de maneira l√ļdica e participativa. O resultado √© partilhado por todos e utilizado, muitas vezes por milhares (at√© milh√Ķes) de pessoas, as quais eles sequer t√™m ideia de quem existam.

Software Livre

O segundo princ√≠pio √© o seguinte: o que j√° est√° pronto, n√£o faremos de novo. Copiaremos. Usaremos esta ferramenta virtual para produzir coisas novas. Assim, frente a um problema ‚Äď um software para ajudar deficientes visuais a ouvirem livros, por exemplo ‚Äď o primeiro que fazem √© procurar em listas de correio ou num buscador de internet se um programa desses existe ou se est√° sendo desenvolvido em algum ponto do planeta. Se existe, √≥timo: ¬ībora copiar, usar e testamos se funciona realmente.

Se n√£o funciona bem, o que podemos fazer para melhor√°-lo? E s√≥ se ele n√£o existe √© que um praticante da filosofia hacker (hack s√£o truques, invers√Ķes e sacadas novas que podem ajudar a resolver um problema) vai come√ßar algo do zero. √Äs vezes passam meses, at√© anos, mergulhados em um gigante sistema de s√≠mbolos de uma cabala virtual indecifr√°vel para n√≥s mortais, a tricotarem um mundo absolutamente real, de ferramentas que podem ser utilizadas com nossos dedos e nossas mentes. E todo este esfor√ßo, de gra√ßa.

Mas o que eles ganham com isso, perguntariam o cético, o utilitarista e o pragmático? Por que se dedicam a fazer uma coisa dessas que não lhes dá nada em troca? Nada? Depende de que valores se está falando?

Este exército cada vez maior, que dia a dia cutuca o calcanhar de Aquiles do mundo da acumulação capitalista (por não estar nem aí para os seus valores), o faz pela vontade de colaborar, pela alegria de ver pronto, pela fruição de seu próprio espírito vivendo à margem da alienação do trabalho mercantilizado ou, finalmente, porque tudo isso, além do mais, dá prazer e vontade de continuar fazendo. Como um jogo do homo-ludens-sapiens-demens que somos quando não diminuímos o fim e o princípio de nós mesmos.

E a fonte desses sentimentos √© o oxig√™nio da criatividade, libert√°ria e bela. Por baixo de tudo isso est√° uma vis√£o de mundo com princ√≠pios arejados e arejadores e que, desde que encontrou condi√ß√Ķes tecnol√≥gicas para tal, se desenvolve √† margem dos viciados c√≥digos de um mundo real cada vez mais opaco e empobrecido.

Muitos desses hacktivistas o que querem √© simplesmente mostrar para os amigos seus feitos de ativistas rom√Ęnticos. E por isso, constituem-se em uma gera√ß√£o de pessoas com valores muitas vezes (mas n√£o necessariamente) √† margem da cultura de massa e da viol√™ncia subjetiva, simb√≥lica, dos grandes meios de comunica√ß√£o que falam com todo mundo, mas n√£o com eles. Esses, falam mais entre si. Em rede.

Uma imensa parcela deles n√£o tem televis√£o em casa, nem ter√°, porque acha este um equipamento eletr√īnico dinoss√°urico, muito pouco interativo. Softwares normais, propriet√°rios, idem. Afinal, n√£o os deixam mexer e fazer as coisas de maneira diferente, com sua criatividade e vis√£o de mundo. O que quereriam eles com isso? Pois acredite: tem a√≠ fora uma massa crescente de pessoas que passam a se relacionar com o mundo a partir de outros valores, concret√≠ssimos valores vividos e que v√™m deixando para tr√°s, no m√≠nimo no rid√≠culo, aqueles que tanto enfeiam o planeta com sua alma pesada, cansada de tanto acumular e nada colaborar.

E eles est√£o na periferia. N√£o apenas nos Estados Unidos ou na Inglaterra, mas na Espanha, no Brasil, na √ćndia, pa√≠ses em que o uso de plataformas livres vem se desenvolvendo aceleradamente. Hoje, por exemplo, em milhares de cidades do Brasil inteiro, qualquer crian√ßa que chegar na Biblioteca P√ļblica, e usar os computadores do telecentro estar√° entrando mesmo sem saber no mundo do software livre. Querendo ir atr√°s, poder√° fazer dessa uma porta de sa√≠da para situa√ß√Ķes de vulnerabilidade social √†s vezes extrema, porque nos softwares livres as portas n√£o est√£o cadeadas por c√≥digos-fonte fechados. Da√≠ a necessidade de se trabalhar com o conceito n√£o de inclus√£o digital (inclus√£o como passivos consumidores de softwares propriet√°rios), mas com o conceito de cultura digital, em que os usu√°rios s√£o participantes ativos da cultura livre.

O grande hack da cultura digital est√° em sua no√ß√£o de propriedade privada. Como no mundo virtual, n√£o h√° restri√ß√£o material para a posse de um objeto (que pode ser copiado indefinidamente), na cultura colaborativa se fala ‚Äď com um pouco de ironia, √© claro ‚Äď √© da radicaliza√ß√£o da propriedade privada, em vez de sua aboli√ß√£o. O mesmo com a liberdade‚Ķ

E a cultura colaborativa come√ßa a descer do mundo hakcer para o mundo real. Cada vez mais, em diferentes √°reas, conceitos como de copyleft (o contr√°rio de copyright, restritivo) e a√ß√£o cidad√£ em rede s√£o aplicados a outros cantos do conhecer e do fazer. Aqui no Rio Grande do Sul, desde o 1¬ļ F√≥rum Social Mundial at√© o descentralizado, em 2010, temos o privil√©gio de conhecer v√°rias dessas alternativas concretas em curso. Pra ficar em alguns: Zaira Machado e Antonio Martins (no jornalismo), Senhor F, √Čverton Rodrigues, Teatro M√°gico, GOG e as Bandas Independentes Locais ‚Äď BIL (no mundo da m√ļsica independente e da M√ļsica para Baixar ‚Äď MPB) enfim‚Ķ

Mas tamb√©m nas sementes, na agricultura org√Ęnica e no mundo jur√≠dico (sim, h√° hacks jur√≠dicos, como os do advogado espanhol Javier de la Cueva, em termos de propriedade intelectual), outros hacks come√ßam a aparecer. √Č a aplica√ß√£o da ‚Äúregra de tr√™s‚ÄĚ de Vicente Jurado (ourproject.org), programador e ativista ecol√≥gico espanhol. Passagem do mundo virtual para o concreto: se para softwares privados temos softwares livres, para sementes privadas temos sementes livres, para outros problemas, temos outros X, tamb√©m: enfim este √© o mundo das alternativas que come√ßa a se formar.

E com rela√ß√£o √† arte? √Ä produ√ß√£o, distribui√ß√£o e frui√ß√£o art√≠stica? Se tem como copiar e distribuir gratuitamente, por que n√£o faz√™-lo? S√≥ se o autor n√£o o permitir, usando uma licen√ßa que pro√≠ba a troca (o copyright restritivo), para acumular sabe-se l√° o que, em tempos de fal√™ncia m√ļltipla das ind√ļstrias culturais tradicionais. Gravadoras e empresas de cinema est√£o indo para o belel√©u h√° anos, e s√≥ quem n√£o viu isso √© que segue alimentando o cad√°ver, confundindo o copyright (ced√™ncia dos direito aos donos dos meios de reprodu√ß√£o), com direito autoral (direito moral do autor).

Mas, e a√≠? √Č poss√≠vel o artista viver de copyleft? O copyleft faz mal √† cultura? O copyleft acaba com o direito moral do autor em rela√ß√£o a sua obra? Claro que n√£o. Dos cinco pontos elencados no Manual de Copyleft (que o leitor pode baixar de gra√ßa na¬†www.traficantes.net, da editora madrilenha Traficantes de Sue√Īos), um seria suficiente para esclarecer de vez a situa√ß√£o.

Trata-se do chamado ‚Äúefeito de ser conhecido‚ÄĚ, que se amplia vigorosamente com o uso de licen√ßas livres na compara√ß√£o com o direito de c√≥pia das majors, que restringe a circula√ß√£o das obras intelectuais etc. Se se quer ser colaborativo (e ainda ganhar uma grana, muitas vezes a √ļnica para sobreviver), pode-se usar licen√ßas para este fim, como creative commons.

E continuar sendo o dono de sua obra intelectual sem precisar vend√™-la por m√≠seros trocados √† moribunda¬† ind√ļstria tradicional ‚Äď trocados que s√≥ s√£o pagos em dia aos mais famosos, pois o restante dos escritores e m√ļsicos menos conhecidos vive mais √© de fontes indiretas, como palestras e shows.

Dentro de um √ļltimo grupo, h√° os ainda mais radicais. S√£o aqueles que produzem colaborativamente e distribuem seus produtos de maneira gratuita porque querem ‚Äď simplesmente porque querem ‚Äď  ver algumas rachaduras se formando no falido sistema de interpreta√ß√£o do mundo atual. Recolocam a utopia, num outro patamar, pois sabem que assim como a ponta do discurso da esperan√ßa √© a ingenuidade, a ponta do ceticismo √© o cinismo. E o cinismo √© imobilizador. De minha parte, tamb√©m prefiro o primeiro ao segundo.

* Hackers s√£o programadores e desenvolvedores de softwares livres se diferenciam dos crackers, os que usam seu conhecimento em inform√°tica para quebrar e n√£o para construir colaborativamente.