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Os crimes de maio e as manifesta√ß√Ķes de junho e o Amarildo: o exterm√≠nio nosso de cada dia

Por Deivison Nkosi – Grupo KILOMBAGEM e Rede Nacional de Controle Social e Sa√ļde da Popula√ß√£o Negra

Na semana passada um caso chamou a aten√ß√£o da opini√£o p√ļblica internacional: o julgamento e absolvi√ß√£o do vigia George Zimmerman pelo assassinato do jovem negro¬†Trayvon¬†Martin de 17 anos. ¬†O r√©u j√° havia confessado o crime, mas o ‚Äújustificou‚ÄĚ alegando que o jovem mantinha atitudes suspeitas no momento em que foi alvejado, pelo fato de estar vestindo uma blusa com capuz. O incidente, ocorrido em fevereiro de 2012 reaqueceu o debate racial nos EUA e motivou agora, com a absolvi√ß√£o do r√©u, a eclos√£o de intensos protestos em mais de 100 cidades do pa√≠s.

O caso foi amplamente noticiado pela imprensa brasileira e ofereceu uma pista importante para as similaridades entre o racismo daqui e o de l√°: O Negro √© suspeito at√© que prove o contr√°rio.¬† Ocorre que por aqui, o assassinato cotidiano de negros tende a ser naturalizado e de certa forma justificado pela chamada pol√≠tica de seguran√ßa p√ļblica. A triste hist√≥ria do pedreiro Amarildo, morador da rocinha desaparecido ap√≥s ser levados por policias da chamada Unidade de Pol√≠cia Pacificadora- UPP no dia 14 de julho √© apenas mais um caso entre milhares. A vasta hist√≥ria de chacinas e massacres no Brasil √© constantemente atualizada por acontecimentos assustadoramente macabros, como foi o ¬†assassinatos 497 pessoas durante o m√™s de maio de 2006 no Estado de S√£o Paulo, conhecido como ‚Äúos crimes de maio‚ÄĚ[1].¬†

Enquanto nos Estados Unidos as manifesta√ß√Ķes pela absolvi√ß√£o do assassino do jovem negro estadunidense resultam em violentos quebra-quebras em v√°rias cidades, ‚Äúcomemoramos‚ÄĚ aqui no Brasil o primeiro m√™s de anivers√°rio da onda de manifesta√ß√Ķes que se alastrou por todo o pa√≠s, conhecida como as manifesta√ß√Ķes de junho. A ressaca p√≥s-manifesta√ß√Ķes ainda n√£o permite saber com muita certeza qual √© a placa do(s) caminh√£o(s) que nos atropelou. Sabemos apenas, como ocorre com um(a) jovem na manh√£ seguinte √† sua primeira rela√ß√£o sexual, que nada ser√° como antes, e que por mais que disfarcemos, todos nos olham diferente, como se soubessem de algo ou percebessem alguma coisa diferente em n√≥s.¬† Mas de fato, ainda n√£o nos demos conta que tudo isto significou e o que mudou de fato.

Foi exatamente neste clima (de incertezas) que o Governo Dilma, anteriormente acuado pelo ascenso das massas (termo que se julgava ultrapassado) iniciou uma s√©ria de reuni√Ķes com alguns representantes dos chamados movimentos sociais. ¬†Entretanto, na medida em que se dilu√≠am os efeitos do √™xtase popular, as reuni√Ķes de press√£o e reivindica√ß√£o foram se convertendo em reuni√Ķes de apoio ao Governo que agora, passa a vivenciar em meio a muitos dilemas que n√£o estavam presentes na ‚ÄúEra Lula‚ÄĚ, uma queda expressiva em sua popularidade.

Analisando com cuidado √†s manifesta√ß√Ķes junho, constata-se curiosamente¬† que¬† o tema ¬†racial n√£o esteve ausente a este momento t√£o importante de ‚Äúinstabilidade‚ÄĚ. De um lado, a presen√ßa not√°vel de uma classe m√©dia majoritariamente branca nas manifesta√ß√Ķes levou alguns intelectuais mais exaltados a classificar esses manifestantes como filhinhos de papai alienados e massa de manobra da direita. Na medida em que o movimento passou a ser disputado pelos grandes meios de comunica√ß√£o, e foi ficando fora do controle dos organismos pol√≠ticos tradicionais da dita esquerda e mesmo dos organizadores iniciais das manifesta√ß√Ķes, a (nova???) classe m√©dia (branca???) passa a ser o bode expiat√≥rio dos limites do movimento.

Do outro lado, na √©poca das manifesta√ß√Ķes era poss√≠vel ouvir em s√£o Paulo, no √īnibus lotado √†s 6 horas da manh√£ ou mesmo entre importantes mobilizadores do Movimento Negro depoimentos amb√≠guos em rela√ß√£o √†s manifesta√ß√Ķes, demonstrando certa desconfian√ßa e at√© descr√©dito por parte de alguns. A ideia comum de que ‚Äúesses playboys n√£o est√£o nem a√≠ pra gente‚ÄĚ, ou ‚Äús√≥ quero chegar em casa logo antes que o tr√Ęnsito pare‚ÄĚ e mesmo ¬†‚Äúa viol√™ncia que eles est√£o vivenciando na manifesta√ß√£o √© rotineira na periferia e eles nunca se indignaram‚ÄĚ conviveram ambiguamente nas periferias com um aumento nos √≠ndices de aprova√ß√£o popular ao protesto.

√Č verdade (felizmente) que havia diversos coletivos e indiv√≠duos negros e perif√©ricos nas manifesta√ß√Ķes. No dia que antecedeu a chacina perpetrada pela pol√≠cia carioca na favela da Mar√© matando 11 pessoas, viu-se nas redes sociais uma s√©rie de chamadas p√ļblicas organizadas por organiza√ß√Ķes negras e de movimento de moradia para que o Morro descesse ao Asfalto durante as manifesta√ß√Ķes, tanto no Rio de Janeiro quanto em S√£o Paulo. E at√© onde se pode registrar, o morro desceu em muitos lugares como a Zona Sul de S√£o Paulo, as cidades de Mau√° e S√£o Bernardo do Campo, as periferias do munic√≠pio de Sorocaba, e Belo Horizonte e principalmente a comunidade da Mar√© (entre outras) no Rio de Janeiro.

Protestavam contra a viol√™ncia policial nas comunidades (no caso do Rio de Janeiro, contra a ditadura s√≥cio-racial seletiva perpetrada pelas UPPs), contra as remo√ß√Ķes for√ßadas de comunidades inteiras das √°reas alvo da especula√ß√£o imobili√°ria nos chamados crimes da copa, contra o racismo e pela valoriza√ß√£o da cultura negra, como se viu na Marcha dos Turbantes no Rio e no DF. Entretanto, estas movimenta√ß√Ķes e demandas n√£o foram cobertas pelos grandes oligop√≥lios da comunica√ß√£o, e passaram batidas em meio √† criminaliza√ß√£o do movimento.

Ao mesmo tempo, nas ocasi√Ķes em que algum rep√≥rter era ferido em pleno front de batalha (e muitos o foram), observou-se tamb√©m uma postura amb√≠gua: Os mesmos ve√≠culos que historicamente omitiam ou distorciam as manifesta√ß√Ķes, contribuindo muitas vezes para a sua criminaliza√ß√£o, se viram em alguns momentos, v√≠timas da mesma viol√™ncia que outrora apoiaram. Isto, associado a ampla ades√£o populacional √†s manifesta√ß√Ķes, possibilitou um tipo de cobertura diferente do que est√°vamos acostumado durante este tipo de evento.

Foi not√°vel inclusive que as manifesta√ß√Ķes tiraram proveito desta como√ß√£o midi√°tica. As aglomera√ß√Ķes cresciam absurdamente a cada vez que se veiculavam as imagens de rep√≥rteres feridos ou espancados gratuitamente. O pico da como√ß√£o social se deu com a massiva veicula√ß√£o da imagem de uma rep√≥rter branca com o rosto desfigurado por uma bala de borracha. A ‚Äúsociedade‚ÄĚ nunca gostou de ver seus filhos apanhando no espetacular (DEBORD, 1997) Big Brother (ORWELL, 1982) da vida real e as imagens, bem como a viv√™ncia corporal da viol√™ncia policial levantou grande indigna√ß√£o por todo o Brasil, inclusive naqueles que estavam participando de uma manifesta√ß√£o pela primeira vez.

√Č perfeitamente normal nos emocionarmos ao ver um ser humano ter o seu corpo intencionalmente dilacerado por outrem. √Č normal que as imagens de viol√™ncia policial contra os manifestantes (e rep√≥rteres) tenham despertado tanta indigna√ß√£o. Mas a pergunta que n√£o quer calar, j√° que optamos neste texto por iniciar falando do assassinato de mais ‚Äúum suspeito‚ÄĚ (negro), √©: ser√° que a chacina policial na favela da Mar√© durante as manifesta√ß√Ķes causaram tanta como√ß√£o quanto √†s balas de borracha nos corpos dos manifestantes, jovens estes que se convencionou classificar como brancos de classe m√©dia?

Insistindo um pouco mais com as perguntas indigestas: porque a morte sistem√°tica de jovens negros pelo Brasil, n√£o causam como√ß√£o na chamada ‚Äúopini√£o p√ļblica‚ÄĚ? Ou, se quisermos ser mais espec√≠ficos, j√° que a opini√£o p√ļblica √© quase sempre manipulada pelos grandes oligop√≥lios da comunica√ß√£o: porque a morte de jovens negros n√£o √© digna de aten√ß√£o por parte dos partidos e grupos da chamada esquerda? Estar√≠amos diante de um racismo generalizado que cega os nossos combatentes mais valorosos? E o Movimento Negro, ser√° que tem dado aten√ß√£o suficiente a este problema?¬† Porque ser√° que mesmo nos governos ditos de esquerda, ‚Äúa carne mais barata do mercado‚ÄĚ continua sendo ‚Äúa carne negra‚ÄĚ?

O assassinato de um ser humano √© sempre um acontecimento tr√°gico que nos mobiliza. Ocorre que em uma sociedade racista, como alerta Frantz Fanon o Negro n√£o √© um Homem, √© apenas um Homem negro, para o qual o status de Humano s√≥ √© disponibilizado parcialmente, e na exata medida em que este nega a si pr√≥prio, aproximando-se do Branco, tido como express√£o universal do g√™nero humano. Esta nega√ß√£o n√£o √© cria√ß√£o da cabe√ßa do Negro, est√° presente em todas as rela√ß√Ķes sociais, reduzindo-o de sujeito √† condi√ß√£o de ‚Äúobjeto em meio a outros objetos‚ÄĚ (FANON, 2008).

Objeto √© coisa, e coisa, Eu (sujeito) uso, manipulo e/ou descarto quando n√£o mais me √© √ļtil. Fanon alerta que em nossa sociedade, a dial√©tica do reconhecimento (ser-para-o-outro) hegeliano √© impossibilitada, j√° que a coisifica√ß√£o (reifica√ß√£o) racista pelo qual o negro √© v√≠tima impede que o branco (e logo a sociedade como um todo, organizada sob sua √≥tica) veja o negro como um seu-outro (outro-sujeito) se n√£o como outro-objeto.

Isso talvez ajude entender porque as 11 mortes da Mar√© em junho, as 497 em maio e as milhares mortes de jovens negros intencionalmente provocadas n√£o¬† geraram ainda um motim generalizado em todo o pa√≠s. O que aconteceria com o pa√≠s, se a pol√≠cia tivesse no calor das emo√ß√Ķes atirado em 10 jovens brancos de classe m√©dia durante os dias mais tensos das manifesta√ß√Ķes?

Foi poss√≠vel perceber nas manifesta√ß√Ķes que se seguiram √† chacina, principalmente √†quelas que passaram a se dirigir contra o Governador do Estado do Rio de Janeiro,¬† faixas de falando que ¬†‚Äúnas periferias as balas n√£o s√£o de borracha‚ÄĚ. Mas o questionamento que se segue √©: at√© que ponto, as diversas Organiza√ß√Ķes dos chamados movimentos sociais est√£o dispostas a assumir a exist√™ncia de um processo teleologicamente orientado para o exterm√≠nio de parte significativa da juventude negra e pobre do pa√≠s?¬† At√© que ponto, este item ser√° levado a s√©rio a ponto de se converter em demandas concretas dos diversos grupos e organiza√ß√Ķes? O que seriam demandas concretas contra o exterm√≠nio da juventude negra?

A Polícia Militar(?) e o extermínio nosso de cada dia

No final de 2012 os notici√°rios jornal√≠sticos cobriram com entusiasmo (dado √† audi√™ncia gerada) a exist√™ncia de mais uma ‚Äúescalada de viol√™ncia no Estado de S√£o Paulo‚ÄĚ. Para al√©m do olhar parcial e distorcido que s√≥ enxerga a viol√™ncia como sin√īnimo de ‚Äúcrime contra o patrim√īnio‚ÄĚ, ou quando o crime √© cometido contra os detentores de patrim√īnio, o foco passou a ser temporariamente direcionado ao ‚Äúassassinato violento de policiais‚ÄĚ perpetrados ‚Äúpor uma quadrilha que age dentro e fora dos pres√≠dios‚ÄĚ, bem como √† ‚Äúmorte de suspeitos em confronto com a pol√≠cia‚ÄĚ.

A (aparente) inoc√™ncia no emprego dos termos assassinato e morte esconde as distintas significa√ß√Ķes reservadas ao ato de matar em nossa sociedade. Enquanto o assassinato de Alguns √©, como n√£o poderia deixar de ser, indesej√°vel e desprez√≠vel, a morte (tamb√©m intencionalmente provocada) de Outros, a depender da posi√ß√£o que ocupem nesta escala social de valores (mais tamb√©m de classe, ra√ßa e g√™nero) √©, sen√£o desej√°vel, tratada como ‚Äúnormal‚ÄĚ e ‚Äúinevit√°vel‚ÄĚ.

O Mapa da Viol√™ncia (2013) aponta perman√™ncia de um padr√£o macabro: t√™m reduzido os √≠ndices de homic√≠dios de brancos enquanto aumenta os √≠ndices de homic√≠dios de negros. Segundo o documento, o n√ļmero de brancos assassinados caiu de de 18.867 em 2002 para 14.047 em 2010, enquanto o assassinato de negros¬† subiu de 26.952 para 34.983 no mesmo per√≠odo.¬† Quando se analisa o mesmo dado entre jovens de 12 a 21 anos (por 100 mil habitantes) observa-se que os homic√≠dios cresceram para brancos e negros, mas os homic√≠dios de jovens brancos subiram de 1,3 (2002) para 37,3 (2012) aumentando 29 vezes enquanto entre os jovens negros subiram de 2,0 (2002) para 89,6, (2012) aumentando de 46 vezes.

O gr√°fico abaixo, extra√≠do do Mapa da Viol√™ncia 2013, mostra a despropor√ß√£o racial no n√ļmero de homic√≠dios. Em n√ļmeros absolutos, o n√ļmero de pretos assassinados em 2010 (2.828) √© menor que o de brancos (9.478). Mas controlando os dados pela sua propor√ß√£o populacional observa-se que¬† a taxa de homic√≠dios √© de 19,7 enquanto a de brancos √© de 10,5. No caso dos pardos a situa√ß√£o ainda √© mais gritante. O n√ļmero absoluto de mortes foi 22.198, proporcionando uma taxa de morte de 26,8.

Como se sabe, a viol√™ncia urbana √© fen√īmeno multifacetado ¬†explicado (at√© onde se consegue), considerando a media√ß√£o de diversos fatores de ordem pol√≠tica, social, cultural, econ√īmica e ps√≠quica que n√£o poderemos explorar neste breve texto. Fica aqui como sugest√£o de leitura a revis√£o bibliogr√°fica de Michel Misse¬†, para evidenciar o quanto a pr√≥pria classifica√ß√£o do que se considera viol√™ncia ou n√£o j√° √© em si algo que deva ser criticamente analisado.

O fato é que existe em muitas comunidades o que se convencionou classificar como sociabilidade violenta (MISSE, 1999), e para ela, uma série de iniciativas tanto governamentais quanto as neo-governamenais vem sendo criadas.  Entretanto, o que chama a atenção é o pouco debate sobre o papel da polícia na produção destas mortes.

O desaparecimento do Amarildo revela tr√™s problemas que precisaremos enfrentar se quisermos discutir o tema com seriedade. O primeiro ponto, √© que este desaparecimento est√° longe de ser um fato isolado e representa uma pr√°tica comum desta pol√≠cia militar (herdeira da ditadura). O segundo ponto √© que o incidente, diferente do que os governos estaduais repetem a exaust√£o n√£o revelam despreparo deste ou daquele policial, mas expressam sim a pol√≠tica de uma pol√≠cia treinada para reprimir e matar pobre[2]. Em terceiro lugar as pr√°ticas esp√ļrias, bem como a localiza√ß√£o geogr√°fica das UPPs tem revelado uma Ditadura S√≥cio Racial Seletiva a servi√ßo da segrega√ß√£o urbana voltada aos interesses da especula√ß√£o imobili√°ria[3].

O relat√≥rio da Humana Rights Watch revela ainda que a Pol√≠cia Militar brasileira, n√£o por despreparo mas pela l√≥gica que a estrutura, tem promovido execu√ß√Ķes extrajudiciais sistem√°ticas:

Identificamos provas confi√°veis de que muitas pessoas mortas nos supostos confrontos com a pol√≠cia foram, na realidade, executadas por policiais. Na maioria dos 51 casos de ‚Äúresist√™ncia seguida de morte‚ÄĚ ou ‚Äúautos de resist√™ncia‚ÄĚ estudados pela Human Rights Watch, os supostos tiroteios alegados por policiais parecem ser incompat√≠veis com os tipos de ferimentos das v√≠timas documentados nos laudos necrosc√≥picos. Em muitos desses casos, determinadas les√Ķes demonstravam que a v√≠tima fora atingida √† queima-roupa. (Human Rights Watch , 2009, p. 3-4)

O relat√≥rio analisa a postura das policias fluminense e paulista, mas oferecem um cen√°rio interessante para compreendermos a pol√≠cia militar brasileira, inclusive em seus pelot√Ķes de elite, como √© o caso da ROTA em S√£o Paulo:

(…) entre os anos de 2004 e 2008, o Comando de Policiamento de Choque de S√£o Paulo, grupo de opera√ß√Ķes especiais da pol√≠cia militar que cont√©m as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA), matou 305 pessoas e deixou somente 20 feridos. Em todos esses casos de supostos tiroteios, um √ļnico √≥bito de policial foi registrado. De maneira semelhante, em 2008, unidades operando em dez zonas espec√≠ficas de policiamento militar do Rio foram respons√°veis por 825 v√≠timas fatais, em casos designados como ‚Äúresist√™ncia‚ÄĚ, ao passo que 12 policiais foram mortos no mesmo per√≠odo. A situa√ß√£o √© t√£o grave que em uma zona de opera√ß√Ķes de um desses batalh√Ķes o n√ļmero de v√≠timas em supostos casos de ‚Äúresist√™ncia seguida de morte‚ÄĚ ultrapassou o n√ļmero total de outros homic√≠dios dolosos registrados em 2007. (Human Rights Watch , 2009, p.4)

Corrobora para piorar este cen√°rio o fato de que a Pol√≠cia Militar, o principal bra√ßo do Estado nas comunidades pobres, herda da ditadura uma estrutura arcaica (ruim at√© para os policiais) que dificulta algum controle por parte da sociedade. Isto n√£o quer dizer que as outras Pol√≠cias (n√£o militares como a Civil) Pol√≠cia Civil estejam imunes a estes problemas, mas sim, que estaremos brincando de democracia, se todo o debate se resumir a oficinas de cidadania para sensibiliza√ß√£o dos ‚Äúmaus‚ÄĚ policiais.

A Pol√≠tica Nacional de Sa√ļde Integral da Popula√ß√£o Negra fala da necessidade de se criar no √Ęmbito governamental, pol√≠ticas que resultem na redu√ß√£o dos √≠ndices de homic√≠dio da popula√ß√£o negra, mas o fato √© que estamos diante de um dilema que precisa ser enfrentado: A pol√≠cia mata impunemente no Brasil, e o faz de forma seletiva.

Enquanto os 497 assassinatos de jovens negros cometidos em maio de 2006 ainda seguem sem apuração; enquanto a PM na Bahia continua matando tanto quanto matava na era do ACM; enquanto o índice de assassinatos de jovens brancos continua caindo na mesma proporção em que aumentam os assassinatos de jovens negros; fica a pergunta: quantos Amarildos ainda terão que desaparecer para a nossa indignação virar revolta?

 

Referências bibliográficas:

BRITO, Gisele. Maio sem fim. REVISTA DO BRASIL РEDIÇÃO 81 РMARÇO DE 2013. Disponível em http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/81/cidadania . Acesso 27/03/2013.

CONECTAS DIREITOS HUMANOS. An√°lise dos impactos dos ataques do PCC em S√£o Paulo em maio de 2006. Laborat√≥rio de An√°lise da Viol√™ncia. Relat√≥rio Final ‚Äď Junho de 2008. Coord. Ign√°cio Cano e Alberto Alvadia.¬† 2008

DEBORD, GUY A Sociedade do Espet√°culo. Rio de Janeiro: Contraponto. 1997.

FANON, Frantz. Pele negra, m√°scaras brancas. Rio de Janeiro: Editora Fator, 1983.

FAUSTINO. Deivison Mendes (Deivison Nkosi).¬† O Encarceramento em massa e os aspectos raciais da explora√ß√£o de classe no Brasil. In: Encarceramento em Massa, s√≠mbolo do Estado Penal. PUC Viva, ano 11 ‚Äď N.39. Setembro a Dezembro de 2010 / ISSN 1806-3667. Dispon√≠vel em: http://kilombagem.org/o-encarceramento-em-massa-e-os-aspectos-raciais-da-exploracao-de-classe-no-brasil-deivison-nkosi/

Human Rights Watch. For√ßa Letal Viol√™ncia Policial e Seguran√ßa P√ļblica no Rio de Janeiro e em S√£o Paulo.¬† 1-56432-580-6. Dezembro 2009. Dispon√≠vel em: http://www.hrw.org/sites/default/files/reports/brazil1209ptweb.pdf

MISSE, Michel. Crime urbano, sociabilidade violenta e ordem legítima. Comentários sobre as hipóte- ses de Machado da Silva. Mimeo. Rio de Janeiro, 1997. Disponível em: http://www.necvu.ifcs.ufrj.br/images/7Sobre%20a%20sociabilidade%20violenta%20de%20Machado.pdf

Orwell, George. 1984 ‚Äď Mil novecentos e oitenta e quatro. Tradu√ß√£o de Wilson Velloso. 15. Ed. ‚Äď S√£o Paulo: Ed. Nacional. 1982

WAISELFISZ.  Julio Jacobo MAPA DA VIOLÊNCIA 2013: Mortes Matadas por Armas de Fogo. FALSCO BRASIL. Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos. 2013.  Disponível em: http://mapadaviolencia.org.br/pdf2013/MapaViolencia2013_armas.pdf

 


[1] ‚ÄúCrimes de Maio‚Ä̬† √© o nome dado a um confronto entre realizado em maio de 2006 no Estado entre a Pol√≠cia e uma organiza√ß√£o de criminosos que atua dentro dos pres√≠dios chamada¬† Primeiro Comando da Capital e a Pol√≠cia.¬† Ao que tudo indica os Agentes P√ļblicos, em aparente retalia√ß√£o aos atentados praticados contra policiais , sa√≠ram a ca√ßa dos ‚Äúbandidos‚ÄĚ para vingar os colegas mortos.¬† Essa atitude resultou no assassinato de 493 pessoas, sendo estas na maioria jovens negros e pobres de periferia apressadamente nomeados pela m√≠dia sensacionalista como ‚Äúsuspeitos‚ÄĚ. ‚ÄúDe acordo com evid√™ncias levantadas por organismos n√£o governamentais, as demais 450 pessoas teriam sido executadas por policiais. Relat√≥rios do Conselho Estadual de Defesa da Pessoa Humana (CONDEPE), do Conselho Regional de Medicina de S√£o Paulo, da Justi√ßa Global e da Cl√≠nica Internacional de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard revelam que as execu√ß√Ķes ocorreram em repres√°lia √†s a√ß√Ķes do PCC (…) Os sinais de execu√ß√£o: 60% dos mortos tinham pelo menos uma bala na cabe√ßa, 46% tinham proj√©teis em outras regi√Ķes de alta letalidade e 57% das v√≠timas foram baleadas pelas costas‚ÄĚ(BRITO, 20013). No mesmo sentido, ver documento produzido pelo Laborat√≥rio de An√°lise da Viol√™ncia -LAV-UERJ (CONECTAS, 2006)

 

[2] Ver nesse sentido algumas propagandas para cursos de treinamento de policiais para o que se nomeia ‚Äúinvas√£o t√°tica‚ÄĚ: http://pessoas.hsw.uol.com.br/policias-de-elite3.htm: http://catve.tv/noticia/6/29930/atiradores-passam-por-treinamento-em-cenario-de-favela.

 

[3] Ver nesse sentido: http://www.cecac.org.br/MATERIAS/UPP_segregacao_urbana_criminalizacao-20.9.10.htm