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Liberdade e Educação

José Evaristo Silvério Netto

Para a Educação, o debate sobre da liberdade é fundamental e sua promoção não se faz sem autonomia. Autonomia (vocábulos: auto – próprio; nomos – regra) é entendida como a capacidade de definir suas próprias regras sem a necessidade de imposição de alguém. A autonomia trabalha com a ideia de uma liberdade estruturada Em-Relação com a cultura e com o outro (os outros). Ainda, autonomia trás implícita uma liberdade relativa por um lado, e por outro a limitação, da relação com o mundo social. Desta forma, eu construo minha autonomia na medida que estruturo minha liberdade na e Em-Relação com a cultura e com os outros.

A estruturação da autonomia nos molda o comportamento através da maneira determinada como nos é sugerido relacionar com a cultura e com os outros.

Em muitos artigos que li, principalmente aqueles balizados por teorias Sócio-Cognitivas, o entendimento é de que a liberdade é uma tendência inata do ser-humano que precisa se relacionar com limites para se estruturar Em-Relação, e daí se discute a função da autoridade para a educação e outras questões importantes. Orientado politica e filosoficamente por tendências críticas, me sinto comprometido com a pergunta: Que, define os limites para a estruturação da liberdade dos nossos alunos, na escola? Com que propósitos? Quem define os limites que balizam a estruturação da liberdade (e da autonomia) das pessoas nos territórios dos movimentos sociais? Com que propósitos? Estes limites são frutos de uma relação necessária com o meio natural e social, ou na verdade esconde em seu bojo interesses de exploração e conquista do Eu?

O Brasil acordou! Quem acordou no Brasil, não acordou por que estava dormindo, por que teve tantos privilégios que pode ter se dado o luxo de dormir? E aqueles que nunca dormiram no Brasil? Como estão sendo moldadas as subjetividades e o senso de autonomia nos territórios do ativismo por justiça e direitos humanos.

Penso que estes são elementos que podem nos dar subsídios para uma intervenção pedagógica crítica. Ainda, contribuem muito para melhor compreensão da lógica de apropriação privada do conhecimento e para o fortalecimento da Teoria Geral da Educação Social, a Pedagogia Social.

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Provocação e masturbação cognitiva: sobre corporeidade

 José Evaristo Silvério Netto

Gosto da idéia de ressignificar o termo exercício físico, trazendo-o para um entendimento somatopsíquico do movimento corporal (produção cultural de sentidos do corpo que se movimenta) contextualizado na dinâmica cultural e ao momento histórico.

Neste sentido, penso que é importante exercitarmo-nos fisicamente, sendo este exercício formado de ações que nos eduquem para a construção de uma realidade que nos seja saudável, favorável. As ações físico-motrizes trazem expressões afetivas e emocionais do espírito humano, além de sentidos e sentimentos, de modo que o movimento nunca se encerra nele mesmo. Daí a importância de fazer do corpo em movimento um instrumento de educação e fortalecimento holístico (caminho somatopsíquico).

Questiono-me: de que maneira lidamos com nossos sentimentos, com nossas necessidades afetivas e emocionais, com nossas intenções, vontades, desejos, com nossos projetos e esquemas para os cursos de ação das nossas vidas, quando estamos interagindo com outra pessoa na complexidade de uma relação em construção? Somos honestos conosco, com o que sentimos? Somos honestos com a outra pessoa, somos verdadeiros na exposição das nossas intenções, do que pretendemos ou desejamos? Este é apenas um ponto. A outra pessoa esta sendo sincera conosco, e com os seus próprios projetos, sentidos e sentimentos? Será que esta é uma relação profunda – entendendo a profundidade como ‘honestidade de se mostrar em sentidos e intenções verdadeiras’ – ou uma relação rasa, mesmo sendo duradoura, onde as pessoas fingem sentimentos, e não expressam aquilo que para elas faz sentido? Este é outro ponto.

Pensar o exercício físico nesta seara seria entendê-lo como um meio pedagógico para uma educação emocional e moral, um recurso pedagógico da envergadura de uma educação integral. E o corpo enquanto veículo de divulgação e expressão do nosso espírito e consciência, por meio do movimento, do exercício físico de se expressar, dialogando com a realidade à sua volta e lutando contra a imposição dos estígmas e estereótipos racistas implementaria esta educação de corpo inteiro, integral e “práxica”.

Adinkra que trás o significado de resistência, desafio às dificuldades, perseverança.

Faz-se também importante conceber o corpo enquanto instrumento de luta para emancipação das estruturas de opressão, um território de luta de proporções gigantescas. O corpo negro trás consigo as estruturas socioculturais, sentidos, ciência, história, lembranças, espiritualidade e magnetismos, acumulados historicamente, que dão sentido ao conceito de Ancestralidade. Corpos Africanos que, corroborando com a ancestralidade, não se dissociam da consciência indivisível do indivíduo, mas vivem em uma sociedade que tem como valor positivo o corpo subjulgado por uma entidade consciente, a mente, como se corpo e mente não fossem a mesma estrutura, no limite do mínimo, consciência.

Daqui sai um entendimento curioso: até que ponto é possível pensarmos em pessoas conscientes, se seus corpos estão separados de suas mentes, dissociados? Isso é possível? Trago o debate de que o corpo é a mente, o corpo é a consciência, não há como entendermos o corpo dissociado da mente. Isso é a morte. O corpo sem consciência é um amontoado de tecido em processo de decomposição, sem possibilidades de diálogo com a realidade circunscrita, sem possibilidades de causar colapsos na realidade. Sendo mais enfático para marcar o sentido e enviesar propositalmente o debate, o corpo sem consciência não é mais corpo (Corpo Vivo) é tão somente material orgânico.

Dialogando e construindo entendimento do mundo pelo movimento significativo, que é consciente e consciência porque é do corpo em movimento que brota a ciência..

É ou não interessante pensar o exercício físico nestes meandros, entendendo que a prática de atitudes e condutas físico-motrizes imbuídas de intenção política e emoção podem operar mudanças nas nossas estruturas cognitivas, afetivas e emocionais? Este é o mote epistemológico. Começo meus estudos recentes (bem recentes mesmo!) trazendo uma ressignificação do termo exercício físico, transgredindo a lógica cartesiana de dissociação mente-corpo, e entendendo o corpo como consciência, assim como a mente, sendo corpo e mente a mesma estrutura, a mesma consciência, desconstruindo a subjugação de um pelo outro. As implicações deste entendimento de corpo, corporeidade (produção corporal – cultura corporal), e exercício físico, são de tal ordem importante que poderia provocar uma enxurrada de novas proposituras e teses sobre vários temas espinhosos como conscientização, sensibilização e educação antirracista.

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Apropriação Privada do Conhecimento e outras histórias

José Evaristo Silvério Netto

Nos encontramos em um momento na história da humanidade onde a crise nos setores da sociedade é evidente. O colapso no setor educacional, considerando os aparelhos públicos de escolarização, estão expressos na luta dos professores e demais profissionais da educação por melhores condições de trabalho e de vida. Não só o setor educacional, mas quando pensamos na sociedade como um todo, percebemos vários processos de ruptura da nefanda ordem social.

Protesto dos professores em São Paulo.

Entendo que o capitalismo e o racismo estrangulam as sociedades exploradas do planeta, e nesta conjuntura ampliando e intensificando a exploração e a geração de riquezas para compensar a crise mundial do sistema monetário. A exploração se dá de forma muito ampla e complexa, por meio dos diversos aparelhos de controle social do Estado e das industrias que detêm o controle dos processos políticos e sociais da humanidade. Uma face importante desta exploração se dá através apropriação privada do conhecimento humano, onde a lógica do capital tenta se vestir de leis da natureza, de modo que o senso comum perceba as expressões do racismo e do capitalismo como fatos naturais na história da humanidade. Assim, todos os aparelhos “oficiais” de produção de cultura e conhecimento em alguma medida dialogam com esta lógica, produzindo e reproduzindo o racismo e suas desigualdades, dentro do processo já mencionado acima, descrito por Roberto da Silva, quando discutindo sobre as bases científicas da Pedagogia Social (consultar livro: Pedagogia Social – Roberto da Silva, João Clemente de Souza Neto, Rogério Adolfo de Moura (orgs.). — São Paulo : Expressão e Arte Editora, vol. 1. 2ª edição, 2011).

De certa forma, a Apropriação Privada do Conhecimento trata do modo como as industrias constroem a realidade (a nossa realidade – como uma “matrix”) a partir dos produtos que vendem, de modo a não permitir aos explorados SER (expressão livre do espírito em comunhão com as identidades étnicas e humanas, por exemplo) sem possuir estes produtos. Tão forte é a penetração desta lógica nos nossos espíritos, que mesmo as teorias que problematizam o racismo e a lógica do capital, ainda assim continuamos presos à necessidade de comprar, de possuir estes produtos. A lógica do capital, o racismo, e seus resíduos valorativos e judicativos se imbricam na nossa estrutura afetivo-emocional; orientam a construção da nossa estrutura cognitiva, e tornam-se lócus interno da percepção da causalidade da nossa motivação e ação.

As industrias do setor alimentício forjam a realidade e a verdade que pretendem para nós a partir da manipulação dos nossos sentidos gustativos desde quando nascemos, ou até antes disso, “normatizando” e ajustando-nos para entender a realidade a partir do que oferecem de estímulos, de parâmetros valorativos, e de conhecimento sobre o mundo, transformando-nos finalmente em consumidores vitalícios. Da mesma forma, as industrias do olfato, do tato, da visão e audição, que se apropriam das nossas possibilidades de compreensão da realidade para, uma vez nos fazendo consumidores programados, manterem a lógica da exploração e do poder. Somos vítimas deste processo antes de tomarmos consciência do mundo que nos rodeia, e, talvez por isso seja tão difícil descortinar este esquema do qual somos peças fundamentais. Aqui, os conceitos de REVOLUÇÃO e de EMANCIPAÇÃO têm muita importância, mas sobre estes cabe outro texto, com outra orientação. (Neste texto, busco opinar, dentro das minhas possibilidades, sobre a condição de explorados pelo processo de Apropriação Privada do Conhecimento perpetrada pelas industrias e os aparelhos ideológicos do Estado).

A grande responsável pela sedimentação e consolidação deste processo perverso de Apropriação do Conhecimento pelo Capital, nas figuras das industrias que privatizam os sentidos Humanos, são as mídias televisivas. Estas industrias utilizam predominantemente os estímulos audiovisuais, e a LINGUAGEM (ai cabe outra discussão, sobre o papel da linguagem e da língua para a dominação e colonização), para introjetar a ideologia das elites mundiais de modo a estabelecer o controle social necessário para administrar a miséria e gestão do sistema de exploração. As propagandas, os programas de auditório e de outros gêneros, os programas de noticias, as novelas, os filmes, os desenhos, e outras tantas tecnologias desta industria geram uma gigantesca inércia de introjeção ideológica à serviço da lógica do capital e do racismo, dando ares de verdade universal ao conhecimento forjado desde o nosso nascimento (ou antes) pelos estímulos das industrias do palato, do tato, da audição, da visão e do olfato.

Penso que é necessário uma ruptura profunda do tecido social para gerar uma conjuntura social que seja solo fértil para a organização revolucionária do povo. Segundo Roberto da Silva (2011), houve no Brasil uma ruptura que provocou o processo de redemocratização do país, localizando a constituição de 88 como marco normativo. Porém, o professor afirma que esta Constituição Cidadã não significou uma ruptura de carácter revolucionário. Pelo contrário, representou a volta do Estado de Direito, antes fora interrompido pelo golpe militar de 64.

Abaixo faço uma pequena proposição de algo que ainda quero me apropriar.

Uma vez que o racismo tenha sido o motor do capitalismo, e dadas as demandas atuais gravíssimas – genocídio da juventude negra, redução da maioridade penal, racismo institucional, resistência e descaracterização de políticas de ação afirmativa, desapropriações criminosas de comunidades periféricas, crimes do Estado Brasileiro contra comunidades Quilombolas, entre tantas demandas – acredito que a ruptura do tecido social se dará a partir das desigualdades raciais das classes sociais para uma mudança da ordem estrutural da sociedade. O protagonismo dos explorados no processo de radicalização e endurecimento da luta de emancipação deverá levar em conta um projeto político de sociedade que contemple uma outra estrutura de sociedade, onde será possível inclusive implementar outras tecnologias educacionais e, onde a Lei 10639/03 poderá ser encaminhada na práxis, para além do papel.

Campanha Contra o Genocídio da Juventude Negra

Termino aqui esta opinião, mas sinalizando para o que penso ser um caminho interessante (pretendo escrever sobre isso): que a educação precisa passar por um processo de desconstrução dos seus sustentáculos estruturais historicamente forjados pelas demandas das classe dominante, para que seja possível implantar uma educação social – apoiada na Pedagogia Social – que tenha uma orientação política em acordo com a lei 10639/03, uma perspectiva afrocentrada de análise da realidade, e outras fontes de mudanças construturais para a reconfiguração da mente colonizada que possuímos.

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EDUCAÇÃO SIGNIFICATIVA

José Evaristo Silvério Netto

(opiniões do autor)

Estava pensando sobre os processos de significação, de identidade e identificação, e refletindo sobre a Educação e a Pedagogia Social. Invariavelmente, comecei a articular estas lucubrações às minhas experiências quando prestigiando as intervenções do Bá Kimbuta em suas apresentações e falas, ou quando prestigiando o coletivo Mahins e as parcerias no lançamento da sua coletânea de Rap (Sankofa, A’S Trinca, Sharylaine, Lenice Moura), e outras experiências. E é sobre a articulação destes pensamentos e acúmulo acadêmico sobre Pedagogia com estas experiências vividas e sentidas que eu pretendo discorrer neste texto.

Qual a importância do afeto para um processo educativo? Esta questão é importante na medida em que reconhecemos que para educar é necessário sensibilizar os alunos, para que estes identifiquem os conteúdos como importantes para a sua vida. Mais ainda, os alunos precisam participar do processo educativo ativamente, construindo o conhecimento junto com a professora (ou o professor). Para a construção do conhecimento muitas informações precisam ser trabalhadas, problematizadas, discutidas, informações que as professoras (ou os professores) e os alunos trazem. Assim, para que os alunos contribuam para o processo educativo, é necessário que este seja um processo significativo para a vida deles. Da mesma forma, é necessário que o processo seja significativo para a vida da professora (ou professor). Estes atores do processo de construção do conhecimento devem, portanto, estar envolvidos profundamente nesta atividade, motivados mediante um lócus de percepção de causalidade[i] interno, e não externo.

O processo educativo deve sensibilizar alun@s e professoras (ou professores), acessando suas estruturas do afeto, da motivação, de modo que identifiquem as atividades desenvolvidas como importantes para si mesmos. Daí, a educação passa a emocionar professores e alunos, sensibilizando-os e promovendo uma participação engajada de ambos os atores para a construção de conhecimentos.

Como implementar um processo educativo que seja significativo para @s alun@s e para nós professores? Um processo educativo significativo é, via de regra, um processo onde nos enxergamos como protagonistas, e cujos valores e códigos socioculturais e identitários que fazem parte das nossas vidas estejam presentes. Esta ideia de educação significativa é interessante porque rompe com os modelos e tendências pedagógicas que hierarquizam os conteúdos do currículo, e o próprio currículo, entendendo este como um instrumento cristalizado. Embora não faça parte do discurso da maioria dos professores, é assim que muitos e muitas procedem no exercício da profissão, na escola, junto ao alunado.

É necessário, e urgente, desenvolvermos tecnologias de ensino e de aprendizado que deem conta de lidar com as linguagens socioculturais e identitárias que fazem sentido para o alunado, que levem em consideração o contexto de vida e a história dos alunos, de suas famílias, assim com da história de sua professora (ou seu professor) e seus familiares. Nesta linha de entendimento e orientação política-pedagógica, entendo que é importante que a escola e seus protagonistas do processo educativo, cada vez mais se aproximem dos movimentos sociais, promovendo um diálogo que não perca de vista a consciência dos papéis sociais que ocupam – escola (representando o estado, com suas contradições) e movimentos sociais (representando o povo organizado, com suas contradições). O conflito e as contradições postas à mesa, dentro e durante o processo educativo da/na escola, creio eu, promoveria o que estou nomeando de processo educativo significativo.

A importância dos movimentos sociais, e aqui destaco o movimento Hip-Hop, se mostra, por exemplo, na apropriação dos sentidos pelas crianças contidos nas letras do Pedagogo Ba Kimbuta quando canta “Voa, poder sentir pra imaginar, imaginar para criar, produzir mas não comprar, dividir é não vender, socializar, voltar na história, se informar..[ii]; ou quando o Pedagogo Robson diz no programa Mano e Minas “… a gente tem que agir. Eu acho que o Hip-Hop esta ai para poder usar como arma a música, a arte, para poder englobar a molecada, a rapaziada que esta na plateia, que esta entendendo isso. Sacar que o que o Fela Kuti fez é o que o Nelsão, o que a rapaziada aqui fez no passado, o que o Lino, o que você, o que as posses… tentar fazer com que essa luta se conecte com alguma coisa que vá para frente, que vai continuar mantendo a galera viva, primeira coisa é manter vivo né. Por quê como é que você vai fazer arte sem estar vivo, certo?[iii]”.

 

(foto: Coletivo Mahins)

 

O Hip-Hop é um dos milhões de exemplos que podem trazer ao processo educativo identidade, sentido e consciência, para empoderar alun@s e professores. Quando a criança, geralmente Preta, geralmente moradora de um bairro periférico, escuta um Rap, ela balança a cabeça para cima e para baixo. Esta ai estabelecido o vínculo indentitário e significativo para uma pedagogia que se pretende social e humanizadora. Isso para falar apenas do Rap, mas são inúmeras as expressões do espírito humano que se mostram fontes importantes de conteúdos e códigos identitários e afetivos. O interessante de ouvir e sentir as letras de Educadores Sociais como o Rapper Ba Kimbuta é que, ao tomarmos consciência do discurso e da estética das músicas, rompemos com o modelo condicionado de gosto musical industrializado e capitalista, empreendido pelo processo de apropriação privada do conhecimento humano. Este processo esta discutido no texto entitulado Sobre Educação e Apropriação Privada do Conhecimento[iv].

                Quando as manifestações do espírito humano que pertencem à realidade dos alunos se inscrevem no processo educativo como cultura ou linguagem universal, sem ser subvalorizada e destacada como diferente e exótica, faz humanizar e acessar os alunos, que se sentem contemplados e representados.

(Foto: Ba Kimbuta)


[i] Teoria da Percepção da Causalidade da Motivação

[iv] No link: http://kilombagem.org/sobre-educacao-e-apropriacao-privada-do-conhecimento-primeiras-consideracoes/

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Sobre Educação Física e Intervenção Antiracista

José Evaristo Silvério Netto

(opinião do autor)

Educação Social em Destaque: Pedagogia Social Como Teoria Geral, Afrocentricidade Enquanto Perspectiva Analítica e Orientação Política, e Esporte Educacional Enquanto Metodologia de Trabalho

                Há algum tempo venho refletindo sobre as dificuldades em implementar uma educação antirracista dentro e fora das escolas, como processos para o empoderamento da população em situação de vulnerabilidade social. Muito se discute e se escreve sobre esta matéria, e devido à transpiração de muitos estudiosos e dos movimentos negros e outros movimentos antirracistas, hoje temos disponível uma ampla literatura sobre a história e cultura afro-brasileira e africana, e sobre a contribuição da população negra africana e afrodiaspórica para o desenvolvimento da humanidade. No sentido de descortinar e desconstruir as bases racistas científicas, políticas e culturais, muitas linhas de pesquisa em diversas áreas de concentração de conhecimento estão sendo construídas, para investigações de diversas naturezas.

Porém, embora observemos um aumento no número de pesquisas sobre a cultura negra africana e afrodiaspórica, sobre o racismo e seus impactos, e pesquisas correlatas que têm como proposta criar acúmulo teórico e jurisprudência combativa frente às desigualdades sociais, percebo que ainda é incipiente na literatura a incidência de construtos teóricos robustos orientados à implantação e implementação de uma efetiva educação antirracista que esteja alinhada às demandas da realidade brasileira para a superação dos problemas sociais.

Parece existir uma inércia hegemônica no âmbito das ações sociais e condutas que inviabilizam, ou pelo menos prejudicam bastante a implementação efetiva de uma práxis contra-hegemônica, essencialmente antirracista. Em qualquer ambiente, seja na educação pública e privada, no mercado de trabalho em instituições públicas e empresas privadas, no cenário esportivo, no terceiro setor, e até no cenário político nas esferas executiva, legislativa, e no judiciário, o que percebemos são produções culturais e condutas orientadas pelo capitalismo e racismo, de modo que qualquer práxis contra-hegemônica cause grande incômodo e sérios desgastes e colapsos nas relações interpessoais e institucionais. Isso significa dizer que tanto as instituições quanto as pessoas, possuem o racismo e o capitalismo enquanto engrenagens que operam e condicionam os processos de interpretação dos sentidos e da realidade, avaliação e construção de cultura, sentidos e ação social e institucional, de forma consciente e subconsciente (computacional), como um sistema de retroalimentação complexo.

Acredito que a conscientização é um processo importante para que seja possível enfrentar as mazelas sociais, em especial o racismo e seus efeitos. Um conceito que têm vigorado há muito tempo nos círculos dos movimentos negros, e há pouco tempo na academia no Brasil, é o de Consciência Negra, entendida como possibilidade de as pessoas negras se situarem no tempo e no espaço social, entendendo os processos de geração das desigualdades sociais que se apoiam na etnia/cor. A problemática se estabelece na medida em que, apesar de muito debate sobre Consciência Negra, pouco se produziu sobre tecnologias educacionais para o seu desenvolvimento.

Entendo que a Educação é um processo que nos permite apreender conhecimentos, introjentando-os, identificando-os como importantes e, consequentemente, mudando nossa interação com o mundo, com as pessoas, transformando nossa produção cultural e ação social, como resultado desta introjeção, identificação e integração dos conhecimentos incorporados ao nosso espírito e consciência. Mas na área de concentração de estudos da Educação, ou da Pedagogia, o que se têm disponível de forma geral são construtos teóricos universalistas que não conseguem problematizar com profundidade as fontes das desigualdades sociais que se complexificam, ganhando novos contornos e criando novas tecnologias de manutenção do status quo e das desigualdades entre as populações. Enquanto o racismo, para citar uma fonte de desigualdade social, se imbrica nos mecanismos de produção cultural humana de maneira individual e institucional, determinando padrões de pensamento, discursos, e ações sociais discriminatórias individuais e institucionais, as pedagogias críticas que deveriam problematizar esta questão encontram dificuldades por falta de consistência nas dimensões teórica, filosófica, política e metodológica, para o seu desenvolvimento junto aos profissionais da educação. Mais do que falta de consistência, o que percebo é uma ausência de transversalidade entre estas dimensões, para lidar com a complexidade dos fenômenos sociais e, nestes, empreender uma educação que seja significativa não apenas para uma parcela diminuta da população, mas para ela toda, uma vez que se potencialize igualdade de oportunidades e superação do racismo, e das outras engrenagens de dominação.

No exercício de refletir sobre as questões supracitadas, começo a entender que talvez seja pertinente a tentativa de realizar aproximações teóricas, utilizando construtos importantes e coerentes com um projeto político societário que reze pela superação dos fatores limitantes ao desenvolvimento humano, à igualdade em oportunidades, ao exercício pleno de cidadania, e à participação de todas as pessoas. Aproximações teóricas utilizando construtos orientados às especificidades das relações entre cor/etnia, classe social, religião, e outras características sociodemográficas que hoje são determinantes para a manutenção das diferenças e violências sociais. Percebo que a Educação Social pode ser um processo de empoderamento importante das populações vulneráveis, e que a Pedagogia Social dentro da perspectiva brasileira através das produções do professor Roberto da Silva, trás um background teórico importantíssimo considerando suas linhas de pesquisa, a citar domínio sociocultural, domínio sociopedagógico e domínio sociopolítico, sendo, portanto, uma Teoria Geral da Educação Social. Acredito que a afrocentricidade enquanto orientação e perspectiva de análise da realidade, segundo Kete Molefi Assante, pode ser um grande aliado da Pedagogia Social voltada a uma educação antirracista. E finalmente, pensando na Educação Física enquanto um componente curricular que têm como uma das linhas de intervenção a corporeidade e a cultura corporal, temos a metodologia de trabalho do Esporte Educacional e suas tecnologias de ensino e aprendizagem que podem ser utilizados para a operação do processo educativo.

Desta forma, vislumbro a possibilidade em desenvolver um debate sobre a Educação Física, que é a minha área profissional, dentro da Pedagogia Social, com vistas à superação do racismo e apoiada também à análise crítica afrocentrada da realidade social, política, histórica, do negro no Brasil.

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Sobre Educação e Apropriação Privada do Conhecimento;

Primeiras Considerações

José Evaristo Silvério Netto

(Opinião do colaborador) 

De certo que quando se discute sobre Educação, torna-se objetivo o debruçar sobre as relações raciais, problematizando as desigualdades e relações de poder que traduzem o racismo, à luz de diversas áreas a citar a educação.

Problematizar o racismo na e da educação, significa entender que o termo Educação trás consigo múltiplas possibilidades de objetivação e significação, e, por isso, entendo ser necessário situar o objeto de investigação para a análise, podendo ele ser a Educação escolar, a Educação social, Educação familiar, a Educação de um movimento social, ou outra, e tudo isso para não incorrer em análises superficiais e intervenções pouco significativas.

Existem debates interessantes no meio acadêmico, especificamente no campo teórico da Pedagogia Social – área de concentração de estudos em processo de estruturação – em que a posição política leva em consideração: a expansão e internacionalização da economia capitalista num contexto de hegemonia ideológica neoliberal; formas acríticas e automáticas de analisar a escola enquanto incapaz estruturalmente para preparar os estudantes em função das supostas necessidades da economia; a centralidade dos meios de comunicação de massa no norteio do modo de vida das pessoas, atuando como agentes motivacionais de novas formas de socialização, entre outros processos; estes tendo relação com a revalorização da Educação Social. Neste metiê, merece destaque a disputa entre interesses e contraditórias racionalidades políticas e pedagógicas sobre o campo de Educação não escolar, haja vista a crise da Educação escolar e o potencial de mobilização que possui.

Um ponto que gostaria de discutir de toda esta gama de possibilidades de entendimento faz menção ao processo de apropriação privada do conhecimento, traduzindo a industrialização deste conhecimento com o apoio das estruturas de ciência e tecnologia que têm nas patentes e nas pesquisas científicas referendadas pelos órgãos de fomento as fontes de desigualdades e privilégios da dinâmica racista e capitalista.

A problematização da apropriação privada do conhecimento, que se discute na Pedagogia Social, versa sobre a caracterização dos saberes construídos pela via dos cinco sentidos humanos – audição, palato, tato, visão, e olfato – como saberes não formais. Desta maneira, são rotulados como não científicos, ficando fora do interesse da escola, da academia, atendendo aos imperativos do capitalismo científico que responde por transformar estas propriedades inerentes aos órgãos dos sentidos em indústrias a serviço do capital. De forma geral, entendemos que o corpo humano capta informações primárias na relação com o meio, processa-as internamente introjetando, identificando e integrando estas informações, agora conhecimento útil, e, depois, utiliza este conhecimento para interação social. Talvez seja possível entender enquanto Cultura, do ponto de vista do indivíduo, e Educação, do ponto de vista da relação com o outro, embora esta seja epistemologicamente difícil. É possível considerar este tipo de Educação (da relação com o outro, norteada pelo conhecimento construído por meio da cultura – processos ontológicos de tratamento da informação, de produção de conhecimentos e de comunicação com o outro, patrimônio da espécie humana), como Educação sociocultural, um dos pilares da Educação Social de acordo com a Pedagogia Social.

Finalmente, defini-se e problematiza-se a apropriação privada dos esquemas de aprendizagem sociocultural pelo capital, tomando os cinco órgãos do de sentidos do ser humano pelas indústrias:

  1. Da visão: ótica e cultural, que condicionam nossos sentidos através de câmeras fotografias, lentes, microscópios, cinema, vídeos, televisão, shows, e etc.
  2. Da audição: militar, telemetria, telefonia, sensoriamento remoto e geoprocessamento, que condicionam nossos sentidos através do telégrafo, rádio, radar, sistemas de telefonia, e etc.
  3. Do tato: ferramentaria, metalurgia, motores, que condicionam os nossos sentidos através de ferramentas de todos os tipos, sensores, e etc.
  4. Do palato e o olfato: alimentícia, farmacêutica, química, perfumaria, que condicionam nossos sentidos através dos alimentos industrializados de todos os tipos, essências e perfumes, solventes, enzimas, e etc.

Desta maneira, entendo que existe uma racionalidade que se pretende promover um processo de colonização e uma dimensão imaterial do capitalismo moderno. Este processo de privatização do conhecimento se traduz por uma restrição sem precedentes ao direito à Educação, onde universidades, indústrias e governos são cúmplices. Mais do que cúmplices, criaram os meios de controle deste mecanismo de apropriação privada do conhecimento por meio das regras de fomento à pesquisa.

Entendo que a discussão sobre Educação na perspectiva da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da cultura e história dos afro-brasileiros e africanos na Educação escolar, seja realizada sem perder de vista que, de início, é importante desconstruir a apropriação do capital sobre nossa noção de realidade – mentes colonizadas.