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O tenso enegrecimento do cinema brasileiro

O cinema brasileiro vive um novo momento de muta√ß√£o. A profunda diversidade que caracterizou nossa cinematografia nos √ļltimos 30 anos, depois de superar a pol√≠tica de terra arrasada do governo ultra-neoliberal Collor, nos anos noventa, come√ßou, finalmente, a incorporar a participa√ß√£o e olhar de realizadores e realizadoras negras, mas com grandes resist√™ncias. E o √ļltimo Festival de Cinema de Bras√≠lia, que comemorou 50 anos de exist√™ncia em 2017, foi o palco que deu enorme visibilidade para esta nova fase da hist√≥ria do cinema brasileiro e para as tens√Ķes que¬†vivemos.

O debate sobre o filme¬†Vazante,¬†da experiente realizadora Daniela Thomas, uma hist√≥ria que tem como cen√°rio e contexto as rela√ß√Ķes familiares e sociais na primeira metade do escravocrata s√©culo XIX,¬†foi o estopim de uma esp√©cie de bomba de efeito retardado que polarizou opini√Ķes sobre a representa√ß√£o de negros e negras na hist√≥ria do cinema brasileiro. E neste festival, atrizes, atores, cineastas e um cr√≠tico de cinema que se posicionaram orgulhosamente a partir de sua ascend√™ncia negra, em um pa√≠s marcado pela for√ßa da ideologia do branqueamento, fizeram quest√£o de demarcar tamb√©m a exist√™ncia de uma leitura espec√≠fica do seu grupo racial sobre a hist√≥ria e o mundo social e cultural¬†brasileiro.

Mas, para uma parcela do mundo do cinema j√° estabelecido, a opini√£o dos negros e negras foi considerada como equivocada, ressentida e militante, portanto distante do que seria justo. Um grande cineasta que se projetou internacionalmente nos anos sessenta, demonstrando um envelhecimento e enrijecimento dos paradigmas de sua gera√ß√£o, chegou a classificar como uma bobagem de universit√°rios o conceito ‚Äúlugar de fala‚ÄĚ, ¬†muito empregado criticamente pelos negros e negras no debate de¬†Vazante. E reutilizou, fora de contexto, o termo pejorativo ‚Äúpatrulhamento ideol√≥gico‚ÄĚ que criou nos anos setenta para criticar uma certa miopia da esquerda na an√°lise dos filmes de ent√£o, tentando agora com o mesmo termo deslegitimar e ridicularizar a opini√£o e reivindica√ß√£o dos¬†negros.

Mas não interessa aqui reproduzir os detalhes do debate provocado pelo filme Vazante, e sim perguntar o que explica e fundamenta o olhar, o imaginário e o discurso daqueles que produzem TV e Cinema no Brasil que justificaria esta enorme dificuldade em reconhecer o protagonismo dos negros e negras em nossa sociedade, e o direito de fazer e de expressar suas narrativas audiovisuais.

Algumas obviedades precisam ser ditas para come√ßarmos a questionar a gravidade do epis√≥dio acima mencionado. Quem conhece o Brasil, a partir da viv√™ncia do seu cotidiano, sabe que estamos longe de ser uma democracia racial. E o segmento audiovisual √© aquele na sociedade brasileira em que o racismo estrutural do pa√≠s trouxe os resultados mais dram√°ticos. Todas pesquisas existentes demonstram que a telenovela, assim como o cinema brasileiro, sempre negaram uma representa√ß√£o da diversidade racial brasileira, um pa√≠s de minoria branca com uma popula√ß√£o afrodescendentes constitu√≠da de pretos e pardos, que corresponde ao montante de 54,9% do total de uma popula√ß√£o de 205 milh√Ķes de habitantes[1], conforme a √ļltima PNAD de 2016 do IBGE, √≥rg√£o oficial de estat√≠stica do Estado¬†brasileiro.

Uma pesquisa do GEMAA[2]¬†sobre¬†A¬†cara do cinema nacional¬†√© bastante ilustrativa da aus√™ncia de negros e negras no setor audiovisual brasileiro. Buscando avaliar o conte√ļdo dos filmes mais vistos a cada ano, no per√≠odo entre 2002 e 2014, para mapear a diversidade de g√™nero e racial, e compreender o papel que esta diversidade assumiu nos filmes, este n√ļcleo de pesquisa trouxe os seguintes¬†resultados:

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† dos 919 atores e atrizes mapeados na pesquisa 71% eram do g√™nero masculino, contra 28% do g√™nero feminino e 1% de pessoas trans;¬†¬†

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† Uma ‚ÄúDespropor√ß√£o similar de participa√ß√£o se verifica quanto √† cor das personagens: branca (65%), preta (18%), parda (14%), n√£o identificada (2%) ou ind√≠gena/amarela¬†(1%)‚ÄĚ;

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† tamb√©m √† frente das c√Ęmeras a desigualdade √© evidente. Nas obras de longa metragem lan√ßadas neste mesmo per√≠odo, 80% t√™m como realizadores homens brancos, 14% s√£o mulheres brancas, ¬†2% s√£o homens negros e 0% s√£o mulheres negras[3].

A ANCINE ‚Äď Agencia Nacional de Cinema, em estudo recente realizado por sua Superintend√™ncia de An√°lise de Mercado, sobre¬†Diversidade de g√™nero e ra√ßa nos lan√ßamentos brasileiros de 2016, confirmou as pesquisas do GEMAA. Trata-se do primeiro estudo com este recorte realizado pela ANCINE. Trabalhando como universo de pesquisa os 142 longas-metragens lan√ßados comercialmente naquele ano, constitu√≠do por 97 fic√ß√Ķes, 44 document√°rios e uma anima√ß√£o, constatou¬†que:

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† Os homens brancos assinaram a dire√ß√£o de 107 destes filmes, que corresponde a 75,4% do¬†total;

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† ¬†As mulheres brancas dirigiram 28, igual a¬†19,7%;

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† Os homens negros somente 3, ficando na percentagem √≠nfima de¬†2,1%.

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† E em nenhum deles foi dirigido ou roteirizado por uma mulher¬†negra.

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† ‚ÄúA an√°lise apontou o dom√≠nio de homens brancos n√£o apenas na dire√ß√£o, mas nas principais fun√ß√Ķes de lideran√ßa no cinema, o que evidencia que as hist√≥rias exibidas nas telas do pa√≠s, produzidas por brasileiros, t√™m sido contadas majoritariamente do ponto de vista dos homens: 68% deles assinam o roteiro dos filmes de fic√ß√£o, 63,6% dos document√°rios, e 100% das anima√ß√Ķes brasileiras de 2016.¬† Os homens dominam tamb√©m as fun√ß√Ķes de dire√ß√£o de fotografia (85%) e dire√ß√£o de arte¬†(59%).

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† A participa√ß√£o nos elencos das obras tamb√©m mostra a sub-representa√ß√£o da popula√ß√£o negra.¬†(‚Ķ)o percentual de negros e pardos no elenco dos 97 filmes brasileiros de fic√ß√£o lan√ßados em 2016 foi de apenas 13,4%‚ÄĚ.[4]

O segmento audiovisual mais bem sucedido no Brasil em termos de p√ļblico e lucratividade, e tamb√©m extremamente rent√°vel em termos de exporta√ß√£o[5], ¬†sempre foi as telenovelas. Em um ter√ßo daquelas produzidas em seus primeiros 35 anos de hist√≥ria, no per√≠odo de 1963-1998, estudado em meu livro¬†A Nega√ß√£o do Brasil ‚Äď o negro na telenovela brasileira[6], ¬†n√£o apareceu pessoas negras nem mesmo como figurantes. Nos outros dois ter√ßos, 90% dos personagens afro-brasileiros, representavam os negros como destinados a serem eternamente subalternos, a servir as elites e a classe m√©dia branca. E nas poucas novelas que abordavam o persistente racismo da sociedade brasileira, a figura salvadora era sempre uma branca, um estere√≥tipo inspirado no mito da princesa Isabel, sempre celebrada em nossa hist√≥ria como aquela que assinou a aboli√ß√£o da escravid√£o no¬†Brasil.

Em levantamento do GEMAA[7]¬†sobre as telenovelas exibidas entre 1985 e 2014 constatou-se tamb√©m que houve apenas 8,8% de atores ou atrizes n√£o brancos contratados em suas¬†produ√ß√Ķes.

Mas me interessa aqui refletir porque persiste a dificuldade, manifesta por uma parcela significativa do cinema brasileiro, em aceitar esta desigualdade, reconhecer a import√Ęncia deste protagonismo e buscar representar em suas obras um pa√≠s mais pr√≥ximo do real de sua composi√ß√£o racial e¬†cultural.

Uma das explica√ß√Ķes que encontro √© que todos, ou quase todos, profissionais de TV e cinema no Brasil, em seu processo de forma√ß√£o, receberam e compartilharam as mesmas interpreta√ß√Ķes do Brasil que depois fariam parte dos seus filmes. Se elencarmos aqui os mais importantes nomes da intelectualidade que s√£o estudados nas universidades brasileiras, e foram parte de nossa forma√ß√£o, encontramos no topo Gilberto Freyre, Raimundo Faoro, Fernando Henrique Cardoso e S√©rgio Buarque de Holanda. Destaco aqui parte do debate que o soci√≥logo Jess√© de Souza[8]¬†faz em seus livros mais recentes, demonstrando que a esquerda branca brasileira nunca construiu uma interpreta√ß√£o alternativa √† leitura liberal do Brasil, que tem os pensadores da sociedade brasileira acima citados como seus grandes construtores. Para nenhum deles o nosso maior problema √© a desigualdade social e racial, e consequentemente o racismo, fundados na escravid√£o. O patrimonialismo oriundo da coloniza√ß√£o portuguesa √© que seria o grande problema do Brasil, √© ele que teria conformado um brasileiro eternamente vira-lata, pr√©-moderno, emotivo e¬†corrupto.

Veremos que nas an√°lises e considera√ß√Ķes destes pensadores existe um elemento em comum: a compreens√£o que a influ√™ncia negativa das desigualdades e preconceitos fundados em uma escravid√£o, que durou quatro s√©culos, teria acabado, como em um passe de m√°gica, com a aboli√ß√£o da escravatura e com a importa√ß√£o massiva de imigrantes brancos da Europa. Esses imigrantes, pretensamente, formariam exclusivamente a nossa classe oper√°ria, seriam respons√°vel pelo surgimento do capitalismo industrial brasileiro e pelas bases de um pa√≠s¬†moderno.

Uma abolição inconclusa e uma vanguarda que continua lendo o país de forma errada

Na tentativa de fazer uma grande e rápida síntese, vou aqui demarcar os aspectos mais importantes desta base teórica que conformam uma visão do que caracterizaria o Brasil e os brasileiros, e que continua com algumas nuances sendo refletida em nossos filmes até Vazante.

A interpreta√ß√£o dominante e original do Brasil, que foi seguida ou criticada por quase todos os outros intelectuais marcantes do pa√≠s, foi criada por Gilberto Freyre, autor do cl√°ssico¬†Casa Grande e Senzala. Uma interpreta√ß√£o que, em s√≠ntese, afirma que viemos de Portugal e temos um jeito espec√≠fico de ser por essa heran√ßa lusitana. Em sua vis√£o romantizada do colonizador, ele descrevia o portugu√™s como: ‚Äúum espanhol sem a flama guerreira nem a ortodoxia dram√°tica; um ingl√™s sem as duras linhas puritanas. O tipo do contemporizador. Nem ideais absolutos, nem preconceitos inflex√≠veis‚ÄĚ[9]. Destas caracter√≠sticas, que seriam tamb√©m resultado da forma√ß√£o hist√≥rica miscigenada de Portugal, a partir de um longo contato com mouros e judeus na pen√≠nsula ib√©rica, nasceria uma coloniza√ß√£o benevolente e o aspecto soft de nossa escravid√£o. Este conjunto de elementos, por sua vez, possibilitaria no Brasil uma miscigena√ß√£o fundada em coitos consensuais, safados e sensuais, entre o senhor da casa grande e a escrava negra e ind√≠gena, e uma democracia racial¬†sui generis.¬†

Na abertura do cap√≠tulo 04 do mencionado¬† ¬†Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre tem uma senten√ßa fundamental que traz toda a chave de sua leitura racial do Brasil: ‚ÄúTodo brasileiro traz na alma, quando n√£o na alma e no corpo (‚Ķ) a sombra, ou ¬†a pinta, do ind√≠gena e do negro‚ÄĚ porque teria sido ‚Äúembalado por uma mucama negra‚Ä̬†ou sido iniciado sexualmente ‚Äúno amor f√≠sico‚ÄĚ por uma ‚Äúmulata‚ÄĚ, e tamb√©m por que teve um ‚Äúmuleque‚Ä̬†como companheiro[10]. E a√≠ est√° o ‚Äúlugar de fala‚ÄĚ de Gilberto Freyre. O brasileiro de Freyre era homem, branco e ex-senhor ou filho de um senhor de escravos. Este √© o elemento chave para ler o cinema brasileiro hoje e em toda sua hist√≥ria. O negro sempre foi o outro, o indesejado. Admite-se at√© que o brasileiro carrega em si ‚Äúum p√© na cozinha‚ÄĚ, ou na √Āfrica, como diria Fernando Henrique Cardoso, ou a marca da influ√™ncia negra, como diria Gilberto Freyre, mas ele √© naturalmente branco. Esta elimina√ß√£o da no√ß√£o de alteridade em um pa√≠s multirracial, de minoria branca, e esta centralidade do segmento branco na percep√ß√£o do mundo, s√£o parte, portanto, dos paradigmas fundamentais que conformaram o cinema brasileiro e seus¬†autores.

Para o segmento mais √† esquerda, entre os cineastas brasileiros, foi tamb√©m determinante a leitura e o pensamento de Florestan Fernandes, que praticamente foi o primeiro cr√≠tico da ideia de democracia racial brasileira, especialmente seu estudo¬†A integra√ß√£o do negro na sociedade de classes.¬†Neste e em outros escritos de Florestan, que apesar de entender e revelar que a sociedade brasileira √© profundamente racista, acentua uma interpreta√ß√£o equivocada que permanece na cabe√ßa de muitos sobre a participa√ß√£o do segmento negro na hist√≥ria nacional ap√≥s a aboli√ß√£o da escravatura. Aprendemos na vis√£o progressista de Florestan que a situa√ß√£o de subalternidade e explora√ß√£o que o negro sofreu na sociedade brasileira no per√≠odo p√≥s-escravid√£o, baseada no trabalho livre, veio da experi√™ncia deformadora da escravid√£o que criou uma ‚Äúmassa desagregada, inerte, inculta‚ÄĚ, e fez do elemento negro um ser indolente, incapaz de competir com os imigrantes brancos em uma sociedade nova, moderna, industrial e de classe. Ou seja, seres incapazes de participar como cidad√£o livre na emerg√™ncia e expans√£o de um capitalismo dependente, uma vez que foram conformados por uma sociedade de castas que estava em extin√ß√£o. Ao negro, coube apenas o papel ser um ‚Äúelemento residual do sistema social‚ÄĚ, uma grande massa¬†√† ‚Äúmargem da vida social organizada e de toda a esperan√ßa, (que) sucumbe √† pr√≥pria in√©rcia‚ÄĚ. Essa leitura da condi√ß√£o do negro no per√≠odo p√≥s-aboli√ß√£o n√£o se encontra apenas em Florestan Fernandes, foi tamb√©m abra√ßada pela intelectualidade progressista como Oct√°vio Ianni e at√© mesmo por Celso Furtado em seu ‚ÄúForma√ß√£o Econ√īmica do Brasil‚ÄĚ. (ver¬†Onda negra, medo branco[11]).

Como não acreditar que a falta de mobilização e de indignação de nossos cineastas mais à esquerda em incluir em sua pauta política o nosso racismo cotidiano e a exterminação de jovens negros na periferia, fruto de uma autêntica política de genocídio, não seriam decorrência destas leituras?

Protagonismo negro. Um trovão no céu azul?

O ano de 2017 foi especialmente marcante se observamos os pr√™mios recebidos pelos negros. Alguns filmes, cineastas, atores e atrizes foram premiados repetidamente em v√°rios festivais do pa√≠s. O Festival de Bras√≠lia inaugurou o ciclo de premia√ß√Ķes e reconhecimento do longa ficcional¬†Caf√© com Canela, dirigido pela jovem negra Glenda Nic√°cio, em parceria com Ary Rosa, que receberam o pr√™mio do J√ļri Popular de melhor filme, e de melhor atriz e melhor roteiro do J√ļri Oficial. Da mesma forma, os curta-metragens de diretores e diretoras negras¬†Nada,¬†¬†Peripat√©tico, Chico e Deus √© uma mulher negra¬†tamb√©m foram repetidamente premiados em Bras√≠lia e em v√°rios outros festivais do pa√≠s. E um grupo significativo de novas atrizes e atores negros emergiram nesta nova onda. Especialmente, o cinema reconheceu a pot√™ncia da atriz e dramaturga Grace Pass√ī, j√° celebrada no teatro, que abocanhou o pr√™mio de melhor atriz no Festival de Cinema do Rio, por sua atua√ß√£o no filme¬†Pra√ßa Paris.

Mas o festival que mais atestou a exist√™ncia de um novo momento na hist√≥ria do cinema brasileiro, com o surgimento de uma verdadeira onda de cinema negro, foi o¬†Encontro de Cinema Negro Brasil, √Āfrica e Caribe, criado pelo ic√īnico ator Z√≥zimo Bulbul, e que comemorou 10 anos de exist√™ncia em 2017. Nesta √ļltima edi√ß√£o do festival, que prefere se chamar de Encontro, teve a participa√ß√£o de 65 filmes realizados por negras e negros brasileiros, sendo tr√™s deles longa-metragens. Um crescimento de cem por cento, em rela√ß√£o √† sua edi√ß√£o anterior que apresentou 33 filmes de afro-brasileiros. Progressivamente, o Encontro est√° deixando de ser um festival marcado pela exibi√ß√£o de filmes internacionais para ter como maior destaque os lan√ßamentos nacionais. Mas, a√≠ evidenciou-se tamb√©m que uma parcela cada vez maior de jovens est√° produzindo os seus filmes de forma independente, mesmo sem ainda contar com o apoio de editais criados pelo governo ou pela iniciativa privada. O desejo de fazer, e uma esp√©cie de urg√™ncia hist√≥rica, tem mobilizado indiv√≠duos e coletivos em todas regi√Ķes do pa√≠s e uma intensa produ√ß√£o que desembocou em um n√ļmero recorde de inscri√ß√Ķes no processo seletivo deste festival: 110 curtas, m√©dias e¬†longas.

Mas de onde vieram as bases desta explos√£o de realizadores negros, se considerarmos que at√© recentemente √©ramos poucos, e poss√≠veis de contar com somente os dedos de duas m√£os? Uma outra micro-revolu√ß√£o na sociedade brasileira tem colaborado para uma emerg√™ncia de atores sociais negros no cinema, na TV, no teatro e nas redes sociais. O ber√ßo est√°, seguramente, nos milhares de novos profissionais que tiveram acesso √†s universidades brasileiras com a aprova√ß√£o de cotas para estudantes negros e negras. Nos seus dez primeiros anos, o percentual de negros quase dobrou na universidade brasileira. ‚ÄúEm 2005, um ano ap√≥s a implementa√ß√£o de a√ß√Ķes afirmativas, como as cotas, apenas 5,5% dos jovens pretos e pardos na classifica√ß√£o do IBGE (‚Ķ) frequentavam uma faculdade. Em 2015, 12,8% dos negros entre 18 e 24 anos chegaram no n√≠vel superior. (‚Ķ) Comparado com os brancos, no entanto, o n√ļmero equivale a menos da metade dos jovens brancos com a mesma oportunidade‚ÄĚ[12]. Para compreender este aumento percentual em termos num√©ricos, somente em tr√™s anos, de 2013 a 2015, o n√ļmero significativo de 150 mil novos estudantes negros entraram nas universidades¬†brasileiras.

Assim como no cinema, o aumento exponencial de negros nas universidades n√£o aconteceu sem uma enorme resist√™ncia de setores intelectuais, inclusive entre aqueles que se consideram progressistas ou de esquerda¬†[13]. Lembremos aqui que a grande m√≠dia brasileira tamb√©m jogou um papel preponderante na valoriza√ß√£o desta resist√™ncia. Como t√°tica para impedir o crescimento de universidades que aprovariam cotas, esta m√≠dia¬† praticamente ignorou os intelectuais e artistas negros, e a exist√™ncia de uma opini√£o ou de reflex√Ķes entre as lideran√ßas negras sobre o t√≥pico. Especialmente daqueles que foram os formuladores da pol√≠tica de cota, e da lei de diretrizes para o ensino das rela√ß√Ķes √©tnico raciais. Eles estiveram praticamente ausentes dos cadernos de debates nos grandes jornais ou entre aqueles que foram convidados para os programas de TV espec√≠ficos sobre o tema. Em oposi√ß√£o a eles, a grande m√≠dia usou regularmente da opini√£o contr√°ria de figuras fundamentais da intelectualidade e do mundo art√≠stico branco para deslegitimar o discurso e a reivindica√ß√£o dos negros. E, neste contexto, para os poucos que furaram o bloqueio, o termo ‚Äúmilitante‚ÄĚ foi ostensivamente utilizado para demonstrar o qu√£o irrelevante ou parcial eram suas opini√Ķes em um debate t√£o importante para o futuro da universidade¬†brasileira.

Vazante, de Daniela Thomas

Creio que aqui temos um quadro amplo para entender a gravidade da reutiliza√ß√£o na pol√©mica sobre¬†Vazante¬†da classifica√ß√£o da opini√£o dos negros e negras como ‚Äúequivocada, ressentida e militante‚ÄĚ. Chegamos a um ponto de muta√ß√£o, ou a um limite, em que o mundo do cinema n√£o pode mais ignorar que 90% da produ√ß√£o cinematogr√°fica atual continua sendo feita por brancos e brancas, com prefer√™ncia por atores e atrizes brancas. Portanto, tratar da escravid√£o, um per√≠odo da hist√≥ria do Brasil que marca nossas vidas at√© hoje, somente com um olhar a partir da Casa Grande, √© que continua sendo um verdadeiro equ√≠voco. O lugar de fala, o lugar da constru√ß√£o narrativa do cinema brasileiro, vai continuar sendo c√ļmplice do nosso racismo cotidiano se expressar apenas o ponto de vista do brasileiro branco gilberto freyriano. E continuaremos nos comportando como vira-latas e colonizados se os negros continuarem sendo tratados como uma minoria, como a ral√© indesejada que n√£o sabe o seu lugar¬† e/ou como perturbadores da marcha irrevers√≠vel do¬†branqueamento.

A prop√≥sito das cr√≠ticas que os negros e negras receberam por seu protagonismo questionador no Festival de Cinema de Bras√≠lia, uma cineasta que se destaca nesta nova gera√ß√£o, Viviane Ferreira, traduz muito bem a perplexidade de toda esta hist√≥ria: ‚Äúa nossa presen√ßa m√≠nima incomoda mais que nossa aus√™ncia hist√≥rica nestes¬†espa√ßos‚ÄĚ.

[1] PNAD-C Distribuição da população por cor e raça de 2016. Ver: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/18282-pnad-c-moradores.html

[2]¬†O¬†GEMAA¬†(Grupo de Estudos Multidisciplinar da A√ß√£o Afirmativa) √© um n√ļcleo de pesquisa com sede no IESP-UERJ, criado em 2008 com o intuito de produzir estudos sobre a√ß√£o afirmativa a partir de uma variedade de abordagens¬†metodol√≥gicas.

[3]¬†MORATELLI, Gabriela e C√āNDIDO, M√°rcia Rangel. A cara do cinema nacional (2002-2014): o perfil de g√™nero e cor dos atores, diretores e roteiristas dos filmes brasileiros. Coordena√ß√£o de Ver√īnica Toste e Jo√£o Feres Junior. GEMAA-IESP-UERJ. Rio de Janeiro, 2016. Dispon√≠vel em¬†http://gemaa.iesp.uerj.br/infografico/infografico1/

[4] ANCINE apresenta estudo sobre diversidade de gênero e raça no mercado audiovisual. 25/01/2018. https://www.ancine.gov.br/pt-br/sala-imprensa/noticias/ancine-apresenta-estudo-sobre-diversidade-de-g-nero-e-ra-no-mercado

[5]¬†SANTOS, Lidia. A telenovela brasileira : do nacionalismo √† exporta√ß√£o.¬†Caravelle. Cahiers du monde hispanique et luso-br√©silien¬†¬†Ann√©e 2000¬†¬†75¬†¬†pp. 137-150. Fait partie d‚Äôun num√©ro th√©matique :¬†Nouveaux Br√©sils ‚Äď Fin de si√®cle.

[6]¬†ARAUJO, Joelzito. A Nega√ß√£o do Brasil ‚Äď o negro na telenovela brasileira. Ed. Senac, SP,¬†2001.

[7]¬†CAMPOS, Luiz Augusto e JUNIOR, Jo√£o Feres. ‚ÄúGlobo, a gente se v√™ por aqui?‚ÄĚ Diversidade racial nas telenovelas das √ļltimas tr√™s d√©cadas (1985-2014). Plural Revista de Ci√™ncias Sociais. V. 23, n. 1. S√£o Paulo: Universidade de S√£o Paulo, 2016. Dispon√≠vel em¬†http://www.revistas.usp.br/plural/article/view/118380/115938

[8]¬†O soci√≥logo Jesse de Souza tem se destacado como um dos maiores cr√≠ticos das interpreta√ß√Ķes cl√°ssicas do Brasil criadas a partir dos anos 30. Seus livros mais conhecidos s√£o:¬†A Elite do Atraso: da escravid√£o ao Lava-jato¬†(2017);¬†A Tolice da intelig√™ncia Brasileira¬†(2015);¬†A ral√© brasileira: quem √© e como vive¬†(2009).

[9] FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. Lisboa: Edição Livros do Brasil, 1933/1983. p.191

[10]¬†FREYRE, Gilberto.¬†Casa-grande & senzala: forma√ß√£o da fam√≠lia brasileira sob o regime de economia patriarcal. Rio de Janeiro: Livraria Jos√© Olympio Editora. 8a. Edi√ß√£o ‚Äď 2o. Volume. 1954.¬†p.489.

[11]¬†AZEVEDO, C√©lia Maria Marinho.¬†Onda Negra.¬†Medo Branco. O negro no imagin√°rio das elites. S√©c. XIX. S√£o Paulo: Paz e Terra, 1987. Jornal UNIVERSIT√ĀRIO. Porto Alegre, RS. P√°ginas¬†19-23.

[12]¬†VIEIRA, Isabela. Percentual de negros em universidades dobra mas √© inferior ao de brancos.¬†http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-12/percentual-de-n…

[13]  Marcus Eugênio OLIVEIRA LIMA, Paulo Sérgio Da COSTA NEVES e Paula BACELLAR E SILVA.  A implantação de cotas na universidade: paternalismo e ameaça à posição dos grupos dominantes. Revista Brasileira de Educação v. 19 n. 56 jan.-mar. 2014. http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v19n56/v19n56a08.pdf

Artigo publicado originalmente em Cin√©mas d‚Äôam√©rique latine ‚Äď Revue annuelle de l‚ÄôAssociation Rencontres Cinemas d‚ÄôAmerique Latine de Tolouse-(ARCAL ‚Äď n√ļmero 26)¬†2018.

por¬†Joel Zito Ara√ļjo

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Publicado no site BUALA dia 04, de abril, 2018 O tenso enegrecimento do cinema brasileiro

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