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Mem√≥rias de Az√Ęnia! (√Āfrica do Sul e Nam√≠bia)

Celebração Kwanzaa, Data: 26 de Dezembro de 2015 Local: Johannesburgo.
Celebração Kwanzaa, data: 26 de dezembro de 2015, local: Johannesburgo.

Eu realmente gostaria de ter escrito muitos textos quando estava em Az√Ęnia, mas infelizmente nem sempre as coisas s√£o como planejamos, l√° eu n√£o tinha tempo de parar e escrever, e como estava com dificuldade de conex√£o com a internet, dificultou um pouco mais. Acredito que seja importante relatar este momento, pois de onde eu falo ainda somos muito poucos que tiveram e tem a oportunidade de fazer um interc√Ęmbio cultural desse tipo. Fiquei 4 meses na √Āfrica do Sul (nome denominado pelo colonizador), na cidade de Johanesburgo (entre 7 de setembro de 2015 a 1 de janeiro de 2016). A realiza√ß√£o desta incr√≠vel viagem foi atrav√©s de longos anos em um trampo (foi preciso 10 anos em um emprego para fazer um interc√Ęmbio), e atrav√©s tamb√©m do apoio do coletivo Kilombagem, do qual fa√ßo parte. Ir para o Continente Africano foi muito mais do que apenas um interc√Ęmbio: representou a volta de uma filha a terra origin√°ria, representou todos do coletivo Kilombagem, representou todos os afrodescendentes fora do continente africano, representou a for√ßa de todas as fam√≠lias africanas na di√°spora que lutam todos os dias para garantir o m√≠nimo de sobreviv√™ncia para os seus, como minha m√£e, mulher preta, guerreira, faxineira, que sonhava em ser psic√≥loga, mas devido a dureza que o sistema escravocrata e capitalista proporcionou para n√≥s, afrodescendentes, foi obrigada a trocar a sala de aula pelo trabalho na planta√ß√£o de caf√© com apenas 7 anos de idade.

Chegando em Johanesburgo uma organiza√ß√£o chamada Ebukhosini Solutions me recebeu com muito cuidado e alegria. Como eu tive a oportunidade de ficar hospeda nesta institui√ß√£o, hoje eu entendo que √© muito mais do que uma empresa empreendedora social, √© uma fam√≠lia pan-africanista, kemetism e vegana. O l√≠der, respons√°vel e diretor executivo da organiza√ß√£o √© um pan-africanista chamado Baba Buntu, nascido em uma ilha na Am√©rica Central, mas j√° vive h√° mais de 10 anos na √Āfrica do Sul. Esta organiza√ß√£o oferece consultas e servi√ßos relacionados como desenvolvimento da comunidade, capacita√ß√£o de jovens, treinamento de lideran√ßa, transforma√ß√£o social, eventos culturais, produ√ß√£o e educa√ß√£o centrada africana. Algumas atividades desenvolvidas s√£o: semin√°rios, palestras, Kemetic Yoga (√© uma forma eg√≠pcia africana de respira√ß√£o, movimento e medita√ß√£o) e o Kwanzaa. Eu aprendi muito nesta organiza√ß√£o, desde a sonhada disciplina revolucion√°ria que muitos coletivos se esfor√ßam e lutam para conseguir implantar, at√© um novo olhar para a quest√£o da alimenta√ß√£o, pois como a fam√≠lia √© vegana, eles n√£o v√™em a alimenta√ß√£o como algo √† parte da revolu√ß√£o, √© como se fosse uma coisa s√≥. Confesso que antes da viagem o m√°ximo que conseguia fazer era um ovo frito, hoje consigo cozinhar v√°rios saborosos legumes e lembro como se fosse hoje a fala da Mama T (esposa do Baba Buntu): ‚ÄúVoc√™ precisa aprender cozinhar, n√£o para fazer para algu√©m, mas sim para voc√™ mesma‚ÄĚ.

Ao chegar na √Āfrica do Sul passei pelo normal processo de adapta√ß√£o. Mesmo correndo o risco de ser mal interpretada querendo ou n√£o, meu contato com a cultura sul-africana foi atrav√©s de um olhar de uma afrodescendente na di√°spora, nascida em terras brasileiras, no continente sul americano, colonizado por portugueses, descendente de escravizados, de fam√≠lia da classe trabalhadora e humilde. Todos estes aspectos n√£o s√£o irrelevantes, pelo contr√°rio, influenciaram a forma que eu me deparei com a cultura sul-africana. Por mais que o povo negro compartilhe com muitas coisas similares em qualquer parte desse planeta, a coloniza√ß√£o deixou rastro em todas as partes que ela tenha se instalado. N√£o d√° para negar a influ√™ncia inglesa em alguns pratos, na forma de se vestir, na l√≠ngua falada comercialmente, na arquitetura das casas, escolas e pr√©dios (lembrava muito os filmes estadunidenses com aquelas escadas do lado de fora dos pr√©dios). Mas isto n√£o significa que aspectos tradicionais da cultura sul africana tenham se perdido ou n√£o existam mais, pelo contr√°rio, o contraste entre a cultura inglesa, europeia, indiana e a cultura sul africana √© muito presente e vis√≠vel de diferenciar. Outra coisa que n√£o d√° para negar (talvez muitos torcer√£o o nariz) √© que o continente africano n√£o √© mais o mesmo que 500 anos atr√°s, n√£o √© mais o mesmo quando nossos ancestrais foram sequestrados, n√£o √© mais o mesmo ap√≥s a invas√£o e a coloniza√ß√£o europeia, sem falar do processo de globaliza√ß√£o que n√£o poupou nenhum pa√≠s intitulado como democr√°tico.

Na √Āfrica do Sul h√° 11 l√≠nguas oficiais (zulu, ndebele, sesotho do sul, sesotho do norte, swazi, tswana, tsonga, venda, xhosa, afric√Ęner e ingl√™s). Nas ruas de Johanesburgo e Pretoria a maioria da popula√ß√£o sul africana negra fala zulu, j√° os sul africanos brancos falam afric√Ęner. Os sul africanos falam mais de 3 l√≠nguas na m√©dia, √© algo muito comum para eles. O ingl√™s √© reconhecido como l√≠ngua do com√©rcio e da ci√™ncia, mas n√£o necessariamente √© a l√≠ngua mais falada. Eu lembro que a primeira vez que eu peguei √īnibus em Johanesburgo, eu saudei um ‚ÄúBom dia‚ÄĚ para um motorista negro em ingl√™s, ele n√£o respondeu. Depois entendi como a quest√£o da l√≠ngua tradicional √© importante no continente africano, e o ingl√™s √© a l√≠ngua do colonizador. Se Crummell fosse do nosso tempo ela jamais defenderia a ado√ß√£o da l√≠ngua inglesa como a l√≠ngua a ser implantada na constru√ß√£o de um estado negro africano. J√° para n√≥s descendentes de africanos escravizados e colonizados a l√≠ngua que n√≥s falamos que √© a l√≠ngua do colonizador √© apenas uma l√≠ngua. Fiquei pensando em que momento e de qual forma a l√≠ngua tradicional falada pelos africanos escravizados se perdeu, pois se tivesse se mantido, talvez n√≥s saber√≠amos de quais reinos nossos ascendentes eram origin√°rios.

Na minha percep√ß√£o a l√≠ngua pode se tornar um dos fatores determinantes de separa√ß√£o e impedimento de unidade de um povo. Muitas vezes me sentia isolada dos interessantes debates que eles travavam pelo fato de n√£o dominar o ingl√™s ou o zulu. Ao que me parece, o Brasil tamb√©m est√° isolado do mundo, como se estivesse em uma ilhazinha bem distante, como se apenas pa√≠ses ‚Äď que, ali√°s, muito poucos – que falam portugu√™s conhecessem um pouco do tal pa√≠s chamado Brasil. Geograficamente, o Brasil est√° mais perto da √Āfrica do Sul do que os Estados Unidos, mas na pr√°tica est√° muito mais longe da √Āfrica do Sul do que os EUA, e n√£o √© s√≥ porque os Estados Unidos √© o imp√©rio dominante no mundo, a l√≠ngua √© um fator determinante tamb√©m de aproxima√ß√£o. Muitos sul africanos sabem da viol√™ncia policial contra a popula√ß√£o negra nos Estados Unidos, j√° ouviram falar do Movimento ‚ÄúBlack Lives Matter‚ÄĚ, mas n√£o sabem da viol√™ncia policial contra a popula√ß√£o negra no Brasil e nunca ouviram falar da ‚ÄúCampanha Reaja Ou Ser√° Morto, Reaja Ou Ser√° Morta!

Em Johanesburgo, no bairro de Braamfontein, estudei em uma escola de ingl√™s chamada ABC International e l√° tive grande a oportunidade de ter contato com jovens estudantes de outros pa√≠ses, como Angola, Mo√ßambique, Rep√ļblica Democr√°tica do Congo, Rep√ļblica do Congo, L√≠bia, Burkina Faso, Som√°lia, Gab√£o, Burundi e Turquia. A grande maioria destes estudantes era muito jovem, de classe m√©dia, que estava estudando primeiro ingl√™s l√° para depois ingressar em uma faculdade na √Āfrica do Sul. Tirando os estudantes da Turquia que eram a minoria, a maior parte dos estudantes era de negros. Conversando com muitos estudantes africanos, eles diziam que as universidades de seus pa√≠ses n√£o eram boas e reconhecidas em todo Continente Africano como as universidades da √Āfrica do Sul. Um dado importante √© que as universidades na √Āfrica do Sul s√£o todas pagas, seja p√ļblica ou privada, os estudantes pagam e os pre√ßos n√£o s√£o acess√≠veis. Em 21 de outubro de 2015, estudantes protestaram contra o aumento do pre√ßo das matr√≠culas universit√°rias[i], como a pol√≠cia √© igual em qualquer parte deste planeta, recebeu os estudantes com bala de borracha e bombas de g√°s lacrimog√™neo. Gostaria de ter acompanhado esta manifesta√ß√£o, e outras tamb√©m, pois os sul africanos s√£o muito ativos na luta por melhores condi√ß√Ķes, pois quase toda semana havia um protesto, mas em todas as vezes que estava acontecendo uma manifesta√ß√£o, eu estava tendo aula.

Na escola, teve v√°rios momentos que eu jamais esquecerei, um desses foi quando eu perguntei para uma senhora da L√≠bia o que ela achava do ex-presidente Gaddafi (como ela fala √°rabe, a nossa comunica√ß√£o era em ingl√™s, na verdade tentava me comunicar em ingl√™s, pois n√£o era algo f√°cil). Ela come√ßou a chorar, disse que o Gaddafi era louco, mas antes da derrubada dele, a L√≠bia tinha escolas, boa educa√ß√£o, n√£o tinha roubo, sequestro e as pessoas deixavam as portas abertas da casa e ningu√©m entrava para roubar, e hoje est√° tudo destru√≠do, n√£o d√° mais para viver l√°. Eu quase chorei junto com ela, e lembrei da esperan√ßa que muitos depositaram com a entrada do primeiro presidente negro nos Estados Unidos, at√© Nobel da Paz ele ganhou em 2009, e √© o mesmo presidente que autorizou a interven√ß√£o na L√≠bia. Independente das contradi√ß√Ķes que era o Gaddafi, a L√≠bia tinha o maior IDH ‚Äď √ćndice de Desenvolvimento Humano – de todo o Continente Africano.

A maioria dos professores na escola era brancos, desta forma o meu √ļnico contato com os brancos foi atrav√©s da escola. A rela√ß√£o entre professores e alunos era muito boa, saud√°vel, respeitosa e tranquila. Um exemplo que ilustra bem esta rela√ß√£o foi quando eu me despedi de uma atenciosa professora de origem europeia e ela me passou seu WhatsApp e me pediu o meu contato, e disse que se eu precisasse de alguma ajuda ou tivesse d√ļvida com o ingl√™s era para contat√°-la. Mas como nem tudo s√£o flores, a rela√ß√£o entre os sul africanos brancos de origem europeia com os sul africanos negros era bem diferente e isso se refletia dentro da sala de aula. O conflito e a divis√£o que o apartheid proporcionou √© bem vis√≠vel e muito presente ainda hoje. A mesma professora prestativa que se colocou √† disposi√ß√£o para me ajudar √© a mesma que em v√°rios momentos fez coment√°rios problem√°ticos e muitos entenderiam como racistas em rela√ß√£o aos sul africanos negros, na atual conjuntura, se fosse em alguns espa√ßos aqui no Brasil, j√° teria dado processo e nota de rep√ļdio. Mas entre os professores brancos o que mais me surpreendeu foi a rela√ß√£o que eles t√™m com a sua identidade europeia. Exceto um professor ingl√™s, todos os demais professores brancos que eu tive contato nasceram na √Āfrica do Sul e apenas seus av√≥s ou bisav√≥s n√£o tinham nascidos no continente africano, mas todos remetiam sua identidade europeia como se estivesse apenas de passagem no pa√≠s africano, como se fossem verdadeiros turistas que em uma determinada data regressariam para seus pa√≠ses de origem.

Algo tamb√©m muito presente dentro da sala de aula era a explicita desaprova√ß√£o que os professores brancos tinham em rela√ß√£o ao atual Presidente Jacob Zuma. (Zuma √© de origem Zulu e faz parte do mesmo partido do Nelson Mandela, ANC: Congresso Nacional Africano). Na escola tinha um professor branco, nascido na √Āfrica do Sul, mas de origem europeia, muito simp√°tico, n√£o tinha ideias reacion√°rias, era contra o Estado, contra o atual sistema e ateu, vivia se queixando da atual pol√≠tica do presidente Zuma que favorecia apenas a popula√ß√£o negra. Ele dizia que se voc√™ fosse negro voc√™ teria um emprego garantido, agora se voc√™ fosse branco n√£o seria f√°cil conseguir um emprego. Era un√Ęnime a ideia entre os professores brancos de que o Presidente Zuma era burro e sem compet√™ncia para administrar o pa√≠s. J√° o ex-presidente Nelson Mandela era bem visto, em nenhum momento eu presenciei algum coment√°rio negativo ou alguma cr√≠tica dos professores brancos ao Mandela.

Confesso que no in√≠cio estranhei bastante a vis√≠vel separa√ß√£o entre brancos e negros presente na √Āfrica do Sul, h√° bairros de brancos, negros e de indianos. N√£o que essa separa√ß√£o no Brasil n√£o esteja presente, mas voc√™ apenas consegue visualizar essa separa√ß√£o em espa√ßos elitizados. Para os brasileiros que n√£o tem a consci√™ncia de classe, ra√ßa e g√™nero, ou para os estrangeiros ou turistas que visitam o Brasil, realmente acreditam que o Brasil √© um para√≠so racial, o mito da democracia racial √© algo muito presente. Na √Āfrica do Sul o apartheid acabou oficialmente em 1994, mas ainda √© algo muito recente, minha gera√ß√£o vivenciou este desumano sistema, √© como se fosse uma mancha que paira no pa√≠s, que afeta todos, n√£o deixando ningu√©m imune. Na minha percep√ß√£o, √© algo que n√£o foi superado e resolvido. Para ilustrar como este tema √© muito complexo, um jovem estudante do Gab√£o chamado Axel, uma vez disse na sala de aula para uma professora que, para ele, o apartheid n√£o tinha acabado, s√≥ tinha mudado de forma, ela respondeu que n√£o era bem assim, pois hoje as pessoas est√£o juntas no supermercado.

O racismo est√° presente na √Āfrica do Sul e √© muito forte. Comparando o racismo no Brasil e o racismo na √Āfrica do Sul, entendo que √© algo que n√£o d√° para mensurar qual √© o pior ou qual √© o menos pior, pois o racismo √© racismo e √© ruim em qualquer lugar desta gal√°xia. Mas avalio que o racismo que existe na √Āfrica do Sul √© t√£o complexo quanto o racismo que existe no Brasil, √© claro que a forma como o racismo se articula e atua nos dois pa√≠ses √© bem diferente. Na √Āfrica do Sul h√° uma enorme quantidade de representatividade negra atuando em v√°rios espa√ßos, na televis√£o, na pol√≠tica, h√° uma classe m√©dia negra consider√°vel e mesmo correndo o risco de estar errada, entendo que h√° uma burguesia negra consolidada ou em processo de consolida√ß√£o. Nas ruas, v√°rias BMW dirigidas por negros, nos Shopping Center estilo JK Iguatemi e Cidade Jardim h√° v√°rios negros e n√£o trabalhando, e sim comprando e passeando, h√° bairros nobres e elitizados de negros… A representatividade est√° presente, mas o racismo tamb√©m est√°, h√° uma enorme desigualdade social e racial, muito negros e brancos pobres, mas √≥bvio que a pobreza se concentra em maior medida na popula√ß√£o negra, mas isso n√£o significa que n√£o tenha brancos pobres. H√° muitos moradores de rua, alto √≠ndice de criminalidade, muitos negros est√£o fora das universidades e desempregados. No Brasil os debates de empoderamento e representatividade para o povo negro est√£o muito presentes, e entendo que estes dois temas s√£o importantes, mas acredito que √© um erro focarmos apenas nestes dois temas para supera√ß√£o do racismo, pois j√° se mostraram insuficientes.

A √Āfrica do Sul √© considerada um pa√≠s em desenvolvimento, tem o 2¬ļ maior PIB do Continente Africano, s√≥ perdendo para a Nig√©ria e faz parte do BRICS. H√° casas, ruas, lojas, escolas, shopping, museus, hospitais, igrejas (a Igreja Universal tamb√©m est√° presente na √Āfrica do Sul) e casas noturnas de alt√≠ssimo padr√£o, como tamb√©m h√° bols√Ķes de pobreza, alto √≠ndice de criminalidade e desigualdade social. H√° uma enorme quantidade de estrangeiros africanos de outras partes do continente. H√° muitos estrangeiros que v√£o para estudar, ou em busca de melhores condi√ß√Ķes de vida e trabalho. Como a taxa de desemprego n√£o √© baixa, a procura por emprego entre sul africanos e estrangeiros acaba caminhando para uma disputa que se transforma em xenofobia. A mais recente onda de xenofobia ocorreu em mar√ßo de 2015, deixando 7 mortos e 307 presos[ii]. A divis√£o entre sul africanos negros e estrangeiros negros est√° presente na √Āfrica do Sul. Na escola, todas as vezes que eu perguntava para os estudantes estrangeiros o que eles achavam dos sul africanos as respostas eram sempre as mesmas coisas. Na vis√£o dos estudantes, os sul africanos n√£o s√£o pessoas do bem e muito racistas devido a onda de viol√™ncia contra estrangeiros negros. Eu perguntava se a onda de viol√™ncia contra os estrangeiros negros n√£o era uma quest√£o de xenofobia e n√£o racismo, muitos concordavam com minha reflex√£o, mas teve um jovem angolano que questionou argumentando a seguinte quest√£o: se √© apenas xenofobia, como voc√™ explica a onda de viol√™ncia apenas contra estrangeiros negros e n√£o com estrangeiros brancos? Analisando hoje essa quest√£o, entendo que ser apenas preto n√£o subentende que estaremos unidos enquanto povo em lugar algum, pois a escravid√£o e a coloniza√ß√£o nos dividiram e a luta de classes ainda nos divide.

Como em Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné Bissau falam o português, muitos sul africanos achavam que eu era de algum desses países e o tratamento que eles me davam era de um jeito, quando eu dizia que era brasileira, claramente o tratamento mudava. Vários africanos falavam que nunca tinham visto uma brasileira, de fato não há muitos brasileiros como angolanos ou moçambicanos, mas na verdade quando eles diziam que nunca tinham visto uma brasileira, eles estavam se referindo a brasileiros negros, pois mais de uma pessoa chegou a comentar que pensava que não existiam negros no Brasil. Essa questão nos fazem pensar qual a imagem que a elite brasileira passa de sua população lá fora, haja vista que o Brasil é o segundo país em população negra do mundo, só perdendo para a Nigéria. Outra questão para refletirmos é: quem são na sua grande maioria os brasileiros que viajam para fora do Brasil?

A quest√£o racial tamb√©m √© complexa na √Āfrica do Sul. No Brasil, os afrodescendentes que mais se aproximam do branco conseguem circular em alguns espa√ßos mais do que os afrodescendentes mais retintos como j√° bem estudado pelo Cl√≥vis Moura. J√° na √Āfrica do Sul, os miscigenados chamados de ‚Äúcolored‚ÄĚ tinham alguns privil√©gios na √©poca do apartheid, logo a separa√ß√£o entre miscigenado e sul africanos est√° presente no pa√≠s. N√£o s√£o todos os africanos que t√™m consci√™ncia racial, nem todos s√£o pan-africanista ou conhecem pouco sobre esta ideologia, logo deixando de lado o romantismo, n√£o s√£o todos os africanos que consideram os afrodescendentes na di√°spora como origin√°rios de um povo s√≥, e sim apenas americanos, latinos, brasileiros ou at√© mesmo ‚Äúcolored‚ÄĚ.

Eu tive a grande oportunidade de ter contato com africanos de outras nacionalidades dentro da organiza√ß√£o Ebukhosini Solutions. Fiquei muita pr√≥xima de dois talentosos m√ļsicos irm√£os ganenses chamados Ofoe e Tetteh. A intelig√™ncia, gentileza e sensibilidade deles eram incr√≠veis, n√≥s fal√°vamos sobre v√°rios temas complexos como machismo, feminismo, estupro, capitalismo, religi√£o, sexualidade…. A conex√£o com eles dois era t√£o especial que talvez meus ancestrais sejam da regi√£o que hoje √© denominada Gana, apesar de que algumas pessoas disseram para mim que meus tra√ßos s√£o parecidos com os africanos da regi√£o da Eti√≥pia. Fiquei muita pr√≥xima tamb√©m de uma linda e guerreira ruandesa chamada Ukwezi (Ukwezi significa lua em Kinyarwanda) e de sua irm√£ mais nova chamada Pamela. Fiquei muito amiga delas, a Ukwezi tem uma linda filhinha chamada Izaro. Sempre que poss√≠vel eu tinha aula de ingl√™s com a Ukwezi, na verdade era muito mais do que aulas de ingl√™s, eram aulas para a vida, ela era muito inteligente, n√≥s fal√°vamos de racismo, feminismo, movimento rastaf√°ri, l√≠deres revolucion√°rios, revolu√ß√£o e capitalismo. Ao contr√°rio de alguns grupos, organiza√ß√Ķes e coletivos negros aqui no Brasil que negam ou se recusam a falar sobre o estrago do capitalismo para o povo negro, em todas as conversas sobre capitalismo que eu tive com os africanos (sul africanos, ganenses e ruand√™s) esse tema est√° muito √≥bvio, eles entendem e visualizam nitidamente o problema que o sistema capitalista gerou para o continente africano.

Os jovens sul africanos usam roupas bem parecidas com o estilo estadunidense, mas as roupas tradicionais africanas est√£o presentes nas ruas, nas lojas e nos eventos que eu tive a oportunidade de participar. Achei muito bacana o estilo das sul africanas, elas usam aqueles chap√©us chiques que aqui no Brasil s√≥ vimos nos filmes estadunidenses. O estilo de cabelo varia bastante: cabelos com tran√ßas, cabelos raspados, cabelos alisados, cabelos naturais e cabelos colocados (brazilian hair √© o nome denominado pelas sul africanas, faz o maior sucesso no continente africano). H√° muitos sal√Ķes de beleza em Johanesburgo (eu vi bastante) e o interessante √© que a foto da modelo estampada na maioria dos sal√Ķes de beleza √© da Rihanna. Diferente do Brasil, a diva na √Āfrica do Sul √© a Rihanna, e n√£o a Beyonc√©. Para todas as meninas que eu perguntava, preferiam a Rihanna a Beyonc√©. Acredito que alguns dos motivos da prefer√™ncia pela Rihanna s√£o: primeiro, como elas falam tamb√©m ingl√™s, conseguem entender a mensagem que a Beyonc√© e a Rihanna passam; segundo, a Rihanna representa a ideia de supera√ß√£o e possibilidade, pois nasceu em uma pequena e desconhecida ilha chamada Barbados e hoje faz sucesso no mundo inteiro.

A √Āfrica do Sul tem uma vasta e rica cultura, al√©m das culturas tradicionais, h√° muitos estrangeiros de outros pa√≠ses do continente africano. Em Johanesburgo tem um importante e interessante bairro pan-africanista chamado Yeoville, neste bairro h√° muito afrodescendentes da di√°spora e africanos de outros pa√≠ses do continente africano como Nig√©ria, Gana, Congo, Angola, Mo√ßambique…. pelo que eu entendi √© considerado um bairro perif√©rico tamb√©m. Neste bairro tem uma livraria com v√°rios livros com pre√ßos acess√≠veis de autores pan-africanistas. √Č neste bairro que eu fazia Kemetic Yoga, essa atividade √© oferecida gratuitamente todos os s√°bados pela organiza√ß√£o Ebukhosini Solutions. Em cada encontro era um volunt√°rio que se dedicava a passar seus conhecimentos, eu tive alegria de fazer aulas com a Mama T, Siyabonga, Pitsira, Ursula e Ted Niacky (com ele eu fiz uma interessante aula de Kemetic Boxing). Nesse bairro tem muitos rastas tamb√©m, com muitas cores do reagge e do pan-africanismo, h√° imagens do Bob Marley e Fela Kuti.

Na primeira semana que eu cheguei na √Āfrica do Sul eu fui para um maravilhoso show de jazz em Johanesburgo. O jazz e soul est√£o muito presentes no pa√≠s, eu lembro que uma vez entrei em um √īnibus ao som de Billy Paul ‚Äď can√ß√£o Me and Mrs. Jones. √Č √≥bvio que o hip hop e os estilos musicais tradicionais africanos tamb√©m est√£o presentes no pa√≠s. Mas o estilo musical que os jovens escutam bastante √© o house music, na verdade n√£o conheci ningu√©m que n√£o gostasse de house music. Eu lembro que no dia do meu anivers√°rio eu fui para uma festa chamada ‚ÄúObrigado‚ÄĚ, nesta festa supostamente tocaria m√ļsicas brasileiras e latinas, os DJs tocaram algumas MPB e sambas, mas tudo no estilo eletr√īnico, eu n√£o sei como, mas sambei at√© n√£o aguentar mais, mesmo na batida eletr√īnica. No show da virada do ano em Johanesburgo o estilo musical mais tocado e dominante era o eletr√īnico, o house music √© uma verdadeira febre para os jovens. J√° dentro da organiza√ß√£o, os estilos que eles mais escutavam eram reggae, jazz e soul, mas a can√ß√£o que eu tive a felicidade de conhecer e que mais me marcou foi do ‚ÄúWambali ‚Äď Ndimba Ku Ndimba‚ÄĚ. [iii]

Na √Āfrica do Sul o transporte mais comum e usado pela popula√ß√£o negra s√£o os chamados t√°xis (s√£o parecido com lota√ß√Ķes para n√≥s), estas lota√ß√Ķes s√£o privadas, o custo n√£o √© muito caro e voc√™ vai sentado, (diferente do transporte p√ļblico aqui em S√£o Paulo, que voc√™ paga caro e com muita sorte, luta, briga e discuss√£o consegue um lugarzinho sentado). As lota√ß√Ķes geralmente n√£o est√£o em situa√ß√Ķes boas e, infelizmente, h√° muito acidentes. H√° √īnibus e trens tamb√©m, mais o que mais me chamou aten√ß√£o foi o trem bala chamado Gautrain que liga Sandton ao aeroporto, e liga tamb√©m Johanesburgo a Pret√≥ria. Foi a primeira vez que andei em um trem bala, o trem √© muito moderno, bonito e r√°pido, o problema que √© n√£o √© um transporte acess√≠vel √† popula√ß√£o local, h√° muitos turistas e brancos, voc√™ encontra negros tamb√©m, mas da classe m√©dia e alta.

Tive a oportunidade de visitar a Nam√≠bia atrav√©s de uma organiza√ß√£o chamada Namibian Brazil Friendship Association (NBFA). Esta organiza√ß√£o me convidou a fazer v√°rias apresenta√ß√Ķes sobre a situa√ß√£o da popula√ß√£o negra no Brasil (viol√™ncia policial, racismo e homic√≠dios do povo negro) em v√°rias universidades e organiza√ß√Ķes. Fiquei 4 dias na capital em Windhoek (entre os dias 19 a 23 de outubro de 2015), em uma pousada que tinha, na sua grande maioria, angolanos. A Angola faz fronteira com a Nam√≠bia, logo, h√° muitos angolanos estudando e morando na Nam√≠bia. Nas apresenta√ß√Ķes que eu fiz nas universidades, os estudantes eram muito poucos e conheciam praticamente nada sobre o Brasil. A apresenta√ß√£o que teve maior n√ļmero de jovens foi em uma organiza√ß√£o fora da universidade chamada Young Achievers Empowerment Project. O encontro foi na sede da organiza√ß√£o, foi a apresenta√ß√£o mais interativa, os jovens fizeram muitas perguntas. Entre v√°rias perguntas, uma que mais me chamou a aten√ß√£o foi a pergunta de uma linda jovem namibiana, ela perguntou se eu me considerava negra. Respondi que sim e perguntei porque n√£o me consideraria negra, ela respondeu que o motivo da pergunta era porque meu cabelo era diferente e agradeceu por eu me considerar negra.

A Rep√ļblica da Nam√≠bia tem uma linda hist√≥ria de luta e resist√™ncia, conseguiu sua independ√™ncia da √Āfrica do Sul atrav√©s de muita luta na d√©cada de 90. A l√≠ngua oficial √© o ingl√™s, mas muitos namibianos falam oshiwambo como sua primeira l√≠ngua, outras l√≠nguas faladas tamb√©m s√£o nama/damara, kavango,herer√≥, afric√Ęner e o alem√£o (estas duas √ļltimas falada pelos brancos). Eu vi muitas lojas e escolas com informa√ß√Ķes em alem√£o, h√° muitos alem√£es ou pessoas de origem alem√£ na Nam√≠bia. A arquitetura dos pr√©dios e o povo namibiano lembram muito os sul africanos, as ruas em Windhoek s√£o extremamente limpas, lembra a cidade de Pret√≥ria na √Āfrica do Sul. A forma comum de se locomover na capital da Nam√≠bia √© atrav√©s de t√°xi, diferente do Brasil, o t√°xi √© barato. √Č uma forma de transporte privado, mas a forma de utiliza√ß√£o lembra o transporte p√ļblico porque os taxistas n√£o atendem um passageiro apenas, em uma viagem eles geralmente atendem 4 passageiros ao mesmo tempo. H√° √īnibus, mas ainda s√£o muito poucos, o governo ainda est√° no processo de implanta√ß√£o de transporte p√ļblico que atenda a demanda da popula√ß√£o.

A incr√≠vel oportunidade de ter ficado com uma fam√≠lia pan-africanista foi uma das experi√™ncias mais significativas que eu tive em Azania. O caloroso acolhimento de toda a fam√≠lia, que morava e frequentava a eBukhosin, √© algo imposs√≠vel de descrever com apenas palavras. O cuidado que todos me receberam foram verdadeiros gestos de uma fam√≠lia que estava recebendo o regresso da filha mais nova, uma filha que estava de f√©rias em algum pa√≠s um pouco distante, mas que nunca deixou de ser esquecida e com prazo de retorno estabelecido. A cumplicidade e a viv√™ncia na casa ajudaram tamb√©m para o fortalecimento desse sentimento de filha, tendo como pais Baba Bantu e Mama T, tendo como irm√£os e irm√£s (correndo o risco de faltar algu√©m) Ofoe, Siyabonga Moringe, Tetteh, PitsiRa, Thabiso, Patrick, Siyabonga Lembede, Phumulani, Mabule, Thabo, Ukwezi, Disebo, Mbaliyethu, Pamela, Nonhlanhla… As atividades que eu tive a grande oportunidade de participar como semin√°rios, palestras, Afrikan Lunch, Yoga, eventos, Kwanzaa, debates e encontros com outros jovens l√≠deres foram fundamentais para refor√ßar o esp√≠rito e atos de unidade, solidariedade, disciplina, pr√°ticas revolucion√°rias e um org√Ęnico e ativo pan-africanismo como algo poss√≠vel e vi√°vel. Hoje visualizo que o conjunto de todas essas atividades foi para al√©m da aprendizagem, se tornou uma verdadeira transforma√ß√£o espiritual e mental. √Č algo que est√° e sempre estar√° presente em cada dire√ß√£o, passo e posicionamento na minha vida em diante. Sou grata a fam√≠lia eBukhosini e a todas que diretamente e indiretamente fizeram parte dessa maravilhosa oportunidade, experi√™ncia e aprendizado.

A experi√™ncia e aprendizado que eu tive na √Āfrica do Sul e na Namibia foram incr√≠veis, algo que levarei para vida toda. Uma das coisas que eu tive a oportunidade de vivenciar e participar foi do Kwanzaa (√© uma celebra√ß√£o comemorada entre os dias 26 de Dezembro a 1 de Janeiro por milhares de africanos e afrodescendentes ao redor do mundo). Desde 2002, a Ebukhosini Solutions junto com outras organiza√ß√Ķes realizam a celebra√ß√£o do Kwanzaa, entre v√°rias atividades tem m√ļsica, poesia e boa comida. Eu j√° tinha ouvido falar dessa celebra√ß√£o, mas confesso que conhecia muito pouco, n√£o entendia o real objetivo e nunca tinha participado. Hoje eu entendo a import√Ęncia dessa celebra√ß√£o, e entre os princ√≠pios do Kwanzaa (Umoja: uni√£o; Kujichagulia: auto-determina√ß√£o; Ujima: trabalho coletivo e responsabilidade; Ujamaa: economia cooperativa; Nia: prop√≥sito; Kuumba: criatividade; Imani: f√©), a uni√£o √© o que mais me chamou a aten√ß√£o. Na celebra√ß√£o havia muitos africanos de outras nacionalidades e de v√°rias religi√Ķes. A celebra√ß√£o do Kwanzaa no Brasil e em outras partes desse planeta pode ser o caminho ou uma das possibilidades para constru√ß√£o da sonhada unidade para o povo africano dentro e fora do continente africano.

Veja as fotos aqui: https://flic.kr/s/aHskuZ31C7

[i]http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2015/10/21/estudantes-enfrentam-policia-em-frente-ao-parlamento-na-africa-do-sul.htm

[ii]http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/04/1618597-ataques-xenofobos-na-africa-do-sul-deixam-7-mortos-e-307-presos.shtml

[iii] Wambali – Ndimba Ku Ndimba: https://www.youtube.com/watch?v=uFiWZceyRI4&feature=youtu.be

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Claudia Jones: Desconhecida Pan-Africanista, Feminista e Comunista

O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu √† sua defesa para a liberta√ß√£o dos povos do Caribe e da √Āfrica do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons
O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu √† sua defesa para a liberta√ß√£o dos povos do Caribe e da √Āfrica do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons

Traduzido por Rafaela Araujo Santana ‚Äď Grupo Kilombagem

Por Ajamu Nangwaya

Jones utilizou o espaço organizacional do Partido Comunista para avançar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descolonização e na luta de classes.

Claudia Jones foi uma revolucion√°ria, cujo ativismo alcan√ßou dois continentes, Am√©rica do Norte e Europa. Claudia Vera Cumberbatch nasceu em 21 de fevereiro de 1915 em Belmont, Trinidad e Tobago, a terra que tem dado origem a importantes pol√≠ticos, como C.L.R. James, Eric Williams, George Padmore e Kwame Ture (anteriormente Stokely Carmichael). Ela e sua fam√≠lia foram for√ßados a migrar para Nova York durante os anos 1922-24, como resultado da dificuldade econ√īmica que eles experimentaram como membros da classe trabalhadora em Trinidad.

Ela adotou o sobrenome “Jones”, como uma medida de prote√ß√£o na realiza√ß√£o de seu trabalho organizado com o Partido Comunista dos EUA (CPUSA). Essa mudan√ßa de nome n√£o foi um incomum dada a histeria anticomunista e persegui√ß√£o dos comunistas nos Estados Unidos. Claudia faleceu na terra de seu ex√≠lio, na Gr√£-Bretanha, em 25 de dezembro de 1964. Curiosamente, o local final de descanso de Jones est√° localizado justamente a esquerda de Karl Marx, no cemit√©rio de Highgate, em Londres.

Ela contribuiu para o trabalho do Partido Comunista dos Estados Unidos – CPUSA como jornalista, editora, l√≠der, te√≥rica, educadora e organizadora de 1936 at√© sua deporta√ß√£o em dezembro de 1955. Ela trabalhou com o jornal do partido Di√°rio Trabalhador, serviu como a editora da Liga da Juventude Comunista (UJC), na Revis√£o Semanal, funcionava como a diretora estadual YCL da educa√ß√£o e presidente do estado, tornou-se um membro pleno da CPUSA em 1945, eleita para o Comit√™ Nacional do CPUSA em 1948, assumiu o papel de Secret√°ria de Comiss√£o da Mulher, CPUSA, e trabalhou em v√°rias fun√ß√Ķes em outras publica√ß√Ķes do partido. Claudia foi presa tr√™s vezes por causa de seu trabalho na CPUSA. Ela foi condenada sob a Lei Smith que visava os l√≠deres do CPUSA e serviu oito meses na pris√£o.

O Professor Errol Henderson da Universidade Estadual da Pensilv√Ęnia captura a relev√Ęncia pol√≠tica da Claudia:

“Ela foi brilhante e incisiva. Ela forneceu ao feminismo componente da an√°lise marxista juntamente com a incisiva incorpora√ß√£o da “cultura negra” de Haywood, no qual ela apoiou e estendeu … uma mente excepcional … e sua deporta√ß√£o para os EUA foi uma grande perda para a luta de liberta√ß√£o aqui, mas como um complemento para o Reino Unido, onde ela fez ainda mais contribui√ß√Ķes “.

Jones utilizou o espa√ßo organizacional do Partido Comunista estadunidense para avan√ßar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descoloniza√ß√£o e na luta de classes. Al√©m disso, ela usou suas v√°rias fun√ß√Ķes e recursos do partido comunista para avan√ßar na liberta√ß√£o das mulheres em geral e das mulheres afro-americanos da classe trabalhadora, em particular.

√Č uma grande injusti√ßa da hist√≥ria que o trabalho de Claudia Jones seja pouco conhecido entre os radicais que possam extrair ensinamentos da sua abordagem integrada para a elimina√ß√£o do racismo, capitalismo, patriarcado e imperialismo. Em um per√≠odo como nosso em que a pol√≠tica de identidade assume express√Ķes vulgares, √© fundamental para n√≥s destacar a contribui√ß√£o desta revolucion√°ria cujo ativismo foi guiado por um anticapitalista, exigente anti-opress√£o e orienta√ß√£o pol√≠tica anti-imperialista.

O Professor Carole Boyce Davies, em seu livro “A esquerda de Karl Marx: A vida pol√≠tica da Comunista negra Claudia Jones,” oferece uma raz√£o para a invisibilidade de Claudia:

“O estudo das mulheres negras comunistas permanece um dos mais negligenciados entre verifica√ß√£o contempor√Ęnea de mulheres negras para pelo menos, uma das raz√Ķes que Joy James identifica: O revolucion√°rio sob margem, mais do que qualquer outra forma o feminismo (negro). “Este tipo de neglig√™ncia pela maioria das acad√™micas feministas n√£o √© surpreendente. A maioria destas pesquisadoras burguesas n√£o s√£o socialistas / comunistas e, como tal, n√£o s√£o atra√≠dos para assuntos que est√£o associados com o comunismo.

A continua experiência de classe trabalhadora de Claudia e sua família na sociedade americana ajudou na formação da sua luta de classes, compromissos políticos feministas e antirracistas:

“Estava fora das minhas experi√™ncias de Jim Crow como uma jovem mulher negra, experi√™ncias igualmente nascido da pobreza da classe trabalhadora que me levou a juntar-se √† Uni√£o de Jovens Comunistas e escolher a filosofia da minha vida, a ci√™ncia do marxismo-leninismo – que a filosofia que n√£o s√≥ rejeita ideias racistas, mas √© a ant√≠tese deles. “

Como uma mulher africana da classe trabalhadora, a experi√™ncia vivida de Claudia lhe proporcionou um amplo entendimento do patriarcado. O exemplo mais claro de sua compreens√£o e an√°lise da opress√£o das mulheres africanas est√° presente no artigo ‚ÄúUm fim √† neglig√™ncia dos Problemas da Mulher Negra! ‚ÄĚ. Foi publicado em 1949. Muito antes do desenvolvimento da estrutura anal√≠tica interseccional na d√©cada de 1970 por feministas e l√©sbicas Afro-americanas como expresso na Declara√ß√£o ColetivoRioCombahee, Jones j√° tinha essa abordagem para analisar as m√ļltiplas formas de opress√£o que configura a vida das mulheres afro-americanas da classe trabalhadora.

A preocupa√ß√£o de Jones com a liberta√ß√£o das mulheres focava em mudan√ßas nas condi√ß√Ķes econ√īmicas, sociais e pol√≠ticas desiguais e n√£o a obsess√£o cultural psicol√≥gica encontrada dentro de c√≠rculos pol√≠ticos de identidade vulgares atuais:

“Para o movimento das mulheres progressivas, a mulher negra, que combina em seu estatuto o trabalhador, o Negro, e a mulher, √© o link vital para essa elevada consci√™ncia pol√≠tica. Na medida, al√©m disso, que a causa da mulher negra trabalhadora √© promovida, ela ser√° habilitada para tomar seu lugar leg√≠timo na lideran√ßa do proletariado negro do movimento de liberta√ß√£o nacional, e por sua participa√ß√£o ativa contribuem para toda a classe trabalhadora americana, cuja miss√£o hist√≥rica √© a conquista de uma Am√©rica Socialista – a final e completa garantia da emancipa√ß√£o da mulher “.

O estado capitalista e corpora√ß√Ķes do Norte global explora os recursos e m√£o de obra e dominar as economias e sociedades no Sul global. De acordo com Davies em “A Esquerda de Karl Marx”, “pol√≠tica anti-imperialistas de Claudia ligada √†s lutas locais de pessoas negras e mulheres contra o racismo, e a opress√£o sexista √†s lutas internacionais contra o colonialismo e o imperialismo negros.” O Pan-africanismo de Claudia conduziu para sua defesa por liberdade dos povos do Caribe e da √Āfrica do colonialismo.

Na Gr√£-Bretanha, dois das not√°veis realiza√ß√Ķes de Claudia s√£o a cria√ß√£o do Carnaval de Notting Hill e o Di√°rio das √ćndias Ocidentais. Uma parte do epit√°fio em sua l√°pide diz: “Valente lutadora contra o imperialismo e, o racismo que dedicou sua vida ao progresso do socialismo e a liberta√ß√£o do seu pr√≥prio povo negro.”

Deveria ter acrescentado: “defensora assertiva do feminismo socialista”.

Ajamu Nangwaya, PhD., é um educador, organizador e escritor. Ele é um organizador com a Rede para a Eliminação da Violência Policial

Artigo original dispon√≠vel em: http://www.telesurtv.net/english/opinion/Claudia-Jones-Unknown-Pan-Africanist-Feminist-and-Communist–20160210-0020.html

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Nonagésimo aniversário de Fanon РDESCOLONIZAÇÃO DO CONHECIMENTO

CURSO KILOMBAGEM ‚Äď FANON VIDA E OBRA

O¬†Post de hoje, re√ļne os autores que identificam em Fanon os subs√≠dios para presen√ßa do colonialismo na produ√ß√£o de conhecimento e, sobretudo, como empreender saberes descolonizados.

Mate Mesie - Conhecimento

O primeiro texto, de N√°dia Maria Cardoso da Silva apresenta o conceito de “Descoloniza√ß√£o epistemol√≥gica”.

Segundo afirma, o seu interesse no texto foi “apresentar Fanon como um intelectual afro-diasp√≥rico fundamental para entendermos a sociedades contempor√Ęneas estruturadas pelo colonialismo e de import√Ęncia singular e marcante para entendermos o fen√īmeno do colonialismo epistemol√≥gico e sua contribui√ß√£o para o racismo. Mas al√©m disso, quis tamb√©m apresentar Fanon como um intelectual que exercitou a produ√ß√£o de conhecimento descolonizado, desafiando assim a hegemonia do conhecimento eurocentrado. ”

Acesse aqui: DESCOLONIZA√á√ÉO EPISTEMOL√ďGICA A PARTIR DE FRANTZ FANON¬†

 

O segundo texto, de Nelson Maldonado-Torres ¬†busca, a partir de Fanon e Quijano, ¬†examinar a articula√ß√£o entre ra√ßa e espa√ßo na obra de v√°rios pensadores europeus. Centrando-se no projecto de Martin Heidegger de procurar no Ocidente as ra√≠zes, denuncia a cumplicidade desse projecto com uma vis√£o cartogr√°fica impe- rial que cria e separa as cidades dos deuses e as cidades dos danados. O autor identifica concep√ß√Ķes an√°logas noutros pensadores ocidentais, sobretudo em Levinas, Negri, Zizec, Habermas e Derrida. Ao projecto da busca das ra√≠zes, com os seus pressupostos racistas, ele op√Ķe uma vis√£o cr√≠tica, inspirada em Fanon, que sublinha o car√°cter constitutivo da colonialidade e da dana√ß√£o para o projecto da modernidade europeia. O autor conclui com um apelo a uma diversalidade radical e uma geopol√≠tica do conhecimento descolonial.

Acesse aqui: A topologia do Ser e a geopolítica do conhecimento. Modernidade, império e colonialidade 

 

 

HOJE ATOS NACIONAIS CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL  

CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

 

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Nonagésimo aniversário de Fanon РO NEGRO/AFRICANO E A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO

CURSO KILOMBAGEM – FANON VIDA E OBRA

Os textos de hoje n√£o s√£o de Fanon, mas sim, reflex√Ķes constru√≠das a partir de seu pensamento. O Assunto escolhido √© o Negro/Africano e a produ√ß√£o de conhecimento. Fanon ¬† O primeiro texto √© de Deivison Mendes Faustino (esse que vos escreve sob a alcunha de Deivison Nkosi), ¬†busca denunciar o quanto o racismo¬†n√£o se resume √† inferioriza√ß√£o de tudo que se entende por negro e africano, mas tamb√©m, se manifesta na impossibilidade de pensa-los¬†como sujeitos hist√≥ricos, produtores de conhecimento. O segundo, de Ivo Queiroz e Gilson Queluz, a discuss√£o aponta para um dialogo cr√≠tico¬†com os cl√°ssicos da teoria do reconhecimento, para em seguida, avan√ßar para al√©m da den√ļncia impl√≠cita ao primeiro artigo, de forma a provocar uma reflex√£o sobre as possibilidades de constru√ß√£o de c√≥digos t√©cnicos descolonizados.

Banner do Projeto OGUNTEC: Programa de Estímulo à Ciência para Jovens Negros e Negras РINSTITUTO STEVE BIKO РBA
FAUSTINO, D. M. . A emo√ß√£o √© negra e a raz√£o √© hel√™nica? Considera√ß√Ķes fanonianas sobre a (des)universaliza√ß√£o do. Revista Tecnologia e Sociedade (Online) , v. 1, p. 121-136, 2013
Resumo
Ao apresentar o colonialismo como espinha dorsal da sociabilidade moderna (capitalista) Frantz Fanon exp√Ķe as reifica√ß√Ķes presentes nas representa√ß√Ķes da ‚Äúciviliza√ß√£o ocidental‚ÄĚ como express√£o (universal) do g√™nero humano. Nestas figura√ß√Ķes, insiste o autor, o n√£o-europeu (O ‚Äúoutro‚ÄĚ), quando n√£o √© invisibilizado, √© reconhecido apenas como subcategoria (espec√≠fica), reduzido √†s suas express√Ķes l√ļdico-corp√≥reas, contrapostas √† ci√™ncia, moral e civilidade. Em contraposi√ß√£o a este esquema, o Negro se lan√ßa √† luta por autodetermina√ß√£o e reconhecimento, mas no meio do caminho est√° sujeito a enroscar-se em atraentes armadilhas criadas pelas contradi√ß√Ķes que deseja superar. Este paper seleciona alguns trechos escritos ao longo da vida de Fanon e discute as suas implica√ß√Ķes para o desvelamento da (des)universaliza√ß√£o do negro e a sua desvincula√ß√£o de temas como ci√™ncia e tecnologia.
Imagem: Cheiq Ant Diop em seu laboratório

Presença africana e teoria crítica da tecnologia: reconhecimento, designer tecnológico e códigos técnicos

Queiroz, Ivo, E Queluz, Gilson. “Presen√ßa africana e teoria cr√≠tica da tecnologia: reconhecimento, designer tecnol√≥gico e c√≥digos t√©cnicos”. ¬†Simp√≥sios Nacionais de Tecnologia e Sociedade (2011): n. p√°g. Web. 2 Jul. 2015
Resumo
Este trabalho desdobra-se a partir a partir da audi√™ncia desta quest√£o: haveria alguma conex√£o poss√≠vel entre o conceito de reconhecimento, levantado por Frantz Fanon, em Pele negra m√°scaras brancas e debatido na sociologia contempor√Ęnea e uma participa√ß√£o efetiva do povo negro na tecnologia subversivamente democratizada? O arrazoado sobre este problema contempla as teorias do reconhecimento, a partir da formula√ß√£o de Hegel, no livro Fenomenologia do esp√≠rito, da viol√™ncia, conforme sistematiza√ß√£o de Marcelo Perine e do design t√©cnico, via Enrique Dussel e Andrew Feenberg. Deste √ļltimo, contempla-se tamb√©m a teoria dos c√≥digos t√©cnicos. A inten√ß√£o do racioc√≠nio √© argumentar que o design tecnol√≥gico e os c√≥digos t√©cnicos estabelecidos para a tecnologia e a educa√ß√£o tecnol√≥gica praticam viol√™ncia contra o negro ao n√£o reconhec√™-lo e o deixando por sua pr√≥pria conta.

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Sobre Educação e Apropriação Privada do Conhecimento;

Primeiras Considera√ß√Ķes

José Evaristo Silvério Netto

(Opinião do colaborador) 

De certo que quando se discute sobre Educa√ß√£o, torna-se objetivo o debru√ßar sobre as rela√ß√Ķes raciais, problematizando as desigualdades e rela√ß√Ķes de poder que traduzem o racismo, √† luz de diversas √°reas a citar a educa√ß√£o.

Problematizar o racismo na e da educa√ß√£o, significa entender que o termo Educa√ß√£o tr√°s consigo m√ļltiplas possibilidades de objetiva√ß√£o e significa√ß√£o, e, por isso, entendo ser necess√°rio situar o objeto de investiga√ß√£o para a an√°lise, podendo ele ser a Educa√ß√£o escolar, a Educa√ß√£o social, Educa√ß√£o familiar, a Educa√ß√£o de um movimento social, ou outra, e tudo isso para n√£o incorrer em an√°lises superficiais e interven√ß√Ķes pouco significativas.

Existem debates interessantes no meio acad√™mico, especificamente no campo te√≥rico da Pedagogia Social ‚Äď √°rea de concentra√ß√£o de estudos em processo de estrutura√ß√£o ‚Äď em que a posi√ß√£o pol√≠tica leva em considera√ß√£o: a expans√£o e internacionaliza√ß√£o da economia capitalista num contexto de hegemonia ideol√≥gica neoliberal; formas acr√≠ticas e autom√°ticas de analisar a escola enquanto incapaz estruturalmente para preparar os estudantes em fun√ß√£o das supostas necessidades da economia; a centralidade dos meios de comunica√ß√£o de massa no norteio do modo de vida das pessoas, atuando como agentes motivacionais de novas formas de socializa√ß√£o, entre outros processos; estes tendo rela√ß√£o com a revaloriza√ß√£o da Educa√ß√£o Social. Neste meti√™, merece destaque a disputa entre interesses e contradit√≥rias racionalidades pol√≠ticas e pedag√≥gicas sobre o campo de Educa√ß√£o n√£o escolar, haja vista a crise da Educa√ß√£o escolar e o potencial de mobiliza√ß√£o que possui.

Um ponto que gostaria de discutir de toda esta gama de possibilidades de entendimento faz men√ß√£o ao processo de apropria√ß√£o privada do conhecimento, traduzindo a industrializa√ß√£o deste conhecimento com o apoio das estruturas de ci√™ncia e tecnologia que t√™m nas patentes e nas pesquisas cient√≠ficas referendadas pelos √≥rg√£os de fomento as fontes de desigualdades e privil√©gios da din√Ęmica racista e capitalista.

A problematiza√ß√£o da apropria√ß√£o privada do conhecimento, que se discute na Pedagogia Social, versa sobre a caracteriza√ß√£o dos saberes constru√≠dos pela via dos cinco sentidos humanos ‚Äď audi√ß√£o, palato, tato, vis√£o, e olfato ‚Äď como saberes n√£o formais. Desta maneira, s√£o rotulados como n√£o cient√≠ficos, ficando fora do interesse da escola, da academia, atendendo aos imperativos do capitalismo cient√≠fico que responde por transformar estas propriedades inerentes aos √≥rg√£os dos sentidos em ind√ļstrias a servi√ßo do capital. De forma geral, entendemos que o corpo humano capta informa√ß√Ķes prim√°rias na rela√ß√£o com o meio, processa-as internamente introjetando, identificando e integrando estas informa√ß√Ķes, agora conhecimento √ļtil, e, depois, utiliza este conhecimento para intera√ß√£o social. Talvez seja poss√≠vel entender enquanto Cultura, do ponto de vista do indiv√≠duo, e Educa√ß√£o, do ponto de vista da rela√ß√£o com o outro, embora esta seja epistemologicamente dif√≠cil. √Č poss√≠vel considerar este tipo de Educa√ß√£o (da rela√ß√£o com o outro, norteada pelo conhecimento constru√≠do por meio da cultura ‚Äď processos ontol√≥gicos de tratamento da informa√ß√£o, de produ√ß√£o de conhecimentos e de comunica√ß√£o com o outro, patrim√īnio da esp√©cie humana), como Educa√ß√£o sociocultural, um dos pilares da Educa√ß√£o Social de acordo com a Pedagogia Social.

Finalmente, defini-se e problematiza-se a apropria√ß√£o privada dos esquemas de aprendizagem sociocultural pelo capital, tomando os cinco √≥rg√£os do de sentidos do ser humano pelas ind√ļstrias:

  1. Da vis√£o: √≥tica e cultural, que condicionam nossos sentidos atrav√©s de c√Ęmeras fotografias, lentes, microsc√≥pios, cinema, v√≠deos, televis√£o, shows, e etc.
  2. Da audição: militar, telemetria, telefonia, sensoriamento remoto e geoprocessamento, que condicionam nossos sentidos através do telégrafo, rádio, radar, sistemas de telefonia, e etc.
  3. Do tato: ferramentaria, metalurgia, motores, que condicionam os nossos sentidos através de ferramentas de todos os tipos, sensores, e etc.
  4. Do palato e o olfato: alimentícia, farmacêutica, química, perfumaria, que condicionam nossos sentidos através dos alimentos industrializados de todos os tipos, essências e perfumes, solventes, enzimas, e etc.

Desta maneira, entendo que existe uma racionalidade que se pretende promover um processo de coloniza√ß√£o e uma dimens√£o imaterial do capitalismo moderno. Este processo de privatiza√ß√£o do conhecimento se traduz por uma restri√ß√£o sem precedentes ao direito √† Educa√ß√£o, onde universidades, ind√ļstrias e governos s√£o c√ļmplices. Mais do que c√ļmplices, criaram os meios de controle deste mecanismo de apropria√ß√£o privada do conhecimento por meio das regras de fomento √† pesquisa.

Entendo que a discuss√£o sobre Educa√ß√£o na perspectiva da Lei 10.639/03, que torna obrigat√≥rio o ensino da cultura e hist√≥ria dos afro-brasileiros e africanos na Educa√ß√£o escolar, seja realizada sem perder de vista que, de in√≠cio, √© importante desconstruir a apropria√ß√£o do capital sobre nossa no√ß√£o de realidade ‚Äď mentes colonizadas.

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Educa√ß√£o na √Āfrica: A Fuga de C√©rebros

Fui apresentado a esse grande pesquisador/cientista pelo meu amigo Banto Palmarino. Desde então tenho procurado saber um pouco mais sobre sua trajetória e pesquisa, apesar de achar muita coisa sobre ele na net, pouquissima coisa esta em português, tenho a pretensão de traduzir algumas coisas, mas enquanto isso não acontece. Posto aqui uma matéria que achei sobre ele no Portal Educar. Segue;

Para se ter uma id√©ia da Educa√ß√£o na √Āfrica, postaremos uma entrevista de Philip Emeagwali, para o Africa Journal, realizada por Maimouna Mills, apresentador da R√°dio Voz da Am√©rica.

EMEAGWALI: A principal causa de brain drain externo √© o baixo n√≠vel dos sal√°rios pagos aos profissionais africanos. A contradi√ß√£o √© que gastamos anualmente quatro bilh√Ķes de d√≥lares para recrutar e pagar 100.000 expatriados para trabalharem na √Āfrica, mas falhamos em investir uma quantia proporcional para recrutar os 250.000 profissionais africanos que trabalham fora da √Āfrica. Profissionais africanos trabalhando em √Āfrica t√™m sal√°rios consideravelmente menores do que os sal√°rios de expatriados com qualifica√ß√£o semelhante.
Temos ainda o brain drain interno que ocorre quando pessoas não são empregadas nos seus campos de experiência e especialização. Por exemplo, muitos oficiais militares são políticos de uniforme e alguns médicos ganham salários suplementares como motoristas de táxi.

Quais s√£o as raz√Ķes para que as pessoas n√£o retornem aos seus pa√≠ses de origem?

EMEAGWALI: As condi√ß√Ķes s√≥cio-econ√īmicas tornam dif√≠cil que alcancemos nosso potencial. A instabilidade pol√≠tica aumenta as taxas de emigra√ß√£o de profissionais para as na√ß√Ķes desenvolvidas.
Muitos profissionais emigraram durante os reinados brutais de Idi Amin, Mobutu e Sani Abacha. A guerra no Sud√£o entre o norte isl√Ęmico e o sul crist√£o conduziu √† emigra√ß√£o de metade dos profissionais sudaneses. Em 1991, um de cada tr√™s pa√≠ses africanos era afetado pelos conflitos. Hoje, existem mais refugiados em √Āfrica do que em qualquer outra regi√£o do mundo.

Quais s√£o as raz√Ķes que levam a que voc√™ n√£o regresse ao seu pa√≠s de origem?

EMEAGWALI: Primeiro, eu tenho uma esposa americana que segue uma carreira acadêmica e um filho de oito anos que estuda numa boa escola. Eu não poderia interromper a carreira de minha esposa e a educação de meu filho.
Depois, eu nunca recebi convites de membros do governo. Algumas pessoas encontraram-me através da Internet e convidaram-me para ir à Nigéria.

Espero até o final do ano poder fazer pelo menos uma viagem à Nigéria.

Quais países são mais afetados pelo brain drain?

EMEAGWALI: Os pa√≠ses que absorvem c√©rebros s√£o vencedores, enquanto os pa√≠ses que fornecem c√©rebros s√£o perdedores. Os pa√≠ses receptores incluem os Estados Unidos, a Austr√°lia e a Alemanha. Os pa√≠ses fornecedores de c√©rebros incluem a Nig√©ria, a √Āfrica do Sul e Gana. S√≥ a Nig√©ria tem 100.000 imigrantes nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, 64% de estrangeiros nascidos na Nig√©ria com 25 ou mais anos de idade t√™m ao menos o grau de bacharelado. 43% de estrangeiros que vivem nos Estados Unidos nascidos na √Āfrica s√£o pelo menos bachar√©is. Nigerianos e outros africanos representam os grupos √©tnicos com maior n√≠vel educacional nos Estados Unidos.
As guerras na Etiópia, Sudão, Angola e Zaire contribuíram para o problema do brain drain.

Qual o impacto social do brain drain?

EMEAGWALI: O brain drain torna difícil a criação de uma classe média formada por médicos, engenheiros e outros profissionais. Temos uma sociedade africana dividida em duas classes: uma gigantesca sub-classe formada por pessoas muito pobres, em geral desempregadas, e uma classe formada por poucas pessoas muito ricas que, na maioria das vezes, são oficiais corruptos do governo ou de órgãos militares.
O brain drain permite que surja uma liderança fraca e corrupta. Uma ampla classe média instruída asseguraria que o poder político fosse transferido por meio de votos ao invés de guerras.

Quando os médicos emigram para os Estados Unidos, os pobres são forçados a buscar tratamento médico em curandeiros tradicionais enquanto a elite voa a Londres para seus check-ups de rotina.

Os oficiais do governo da Nig√©ria usam o dinheiro dos contribuintes para viajar ao exterior para avalia√ß√Ķes de sa√ļde rotineiras e para tratamento contra mal√°ria. Os check-ups no exterior s√£o uma desgra√ßa nacional e a sua proibi√ß√£o for√ßaria a Nig√©ria a recontratar os m√©dicos que emigraram para a Europa.

Qual o impacto económico do brain drain?

EMEAGWALI: Os melhores e mais brilhantes profissionais podem emigrar, deixando para tr√°s os mais fracos e menos imaginativos. Isto significa uma morte lenta para √Āfrica.
N√£o podemos alcan√ßar crescimento econ√īmico a longo prazo exportando nossos recursos naturais. Na nova ordem mundial, crescimento econ√īmico √© movido por pessoas com conhecimento. Fala-se bastante sobre mitiga√ß√£o da pobreza. Por√©m, quem vai diminuir a pobreza? Ser√£o os indiv√≠duos mais talentosos que dever√£o liderar as pessoas, criar riqueza e erradicar a pobreza e a corrup√ß√£o.

Os profissionais que est√£o saindo de √Āfrica incluem aqueles com especializa√ß√£o t√©cnica e habilidades administrativas e empreendedoras. A aus√™ncia destes profissionais aumenta a corrup√ß√£o end√™mica e torna mais f√°cil para os militares derrubarem governos democraticamente eleitos.

√Āfrica precisa de uma classe m√©dia numerosa para construir uma grande base de contribui√ß√£o de impostos que, em contrapartida, possibilitar√° a constru√ß√£o de boas escolas e a disponibiliza√ß√£o de eletricidade sem interrup√ß√Ķes. Os 250.000 profissionais africanos trabalhando em outros continentes aumentar√£o o tamanho da classe m√©dia.

Como você tem contribuído para sua comunidade?

EMEAGWALI: As telecomunica√ß√Ķes mudaram o mundo e agora estamos vivendo numa aldeia ou comunidade global. Neste momento, voc√™ e eu estamos a usar tecnologia de telefonia e comunica√ß√£o via sat√©lite para manter uma conversa ao vivo.
Como convidado do Africa Journal posso compartilhar a minha experi√™ncia e a minhas vis√Ķes pessoais consigo e com outros espectadores. Todo os dias, dezenas de pessoas procuram-me atrav√©s da Internet e escrevem-me para pedir conselhos sobre suas carreiras e objetivos de vida. Al√©m disso, meu site EMEAGWALL.COM √© usado em 6.000 escolas e forne√ßo orienta√ß√£o acad√™mica a diversos estudantes de cursos prim√°rios e secund√°rios.

Os africanos que deixam os seus países para estudar e trabalhar têm a obrigação de regressar e compartilhar os benefícios de sua educação?

EMEAGWALI: Na teoria, somos moralmente obrigados a regressar a Africa. Na pr√°tica, um profissional africano n√£o renunciar√° a um sal√°rio de $50.000 por ano para aceitar um emprego de $500 por ano em √Āfrica. Uma quest√£o mais importante deve ser discutida: quais medidas podem ser tomadas para induzir que os africanos deixem o exterior e voltem aos seus pa√≠ses e o que pode ser feito para encorajar os profissionais na √Āfrica a permanecerem em sua terra natal.

Como podemos diminuir ou mesmo interromper o brain drain?

EMEAGWALI: Você tem que recrutar os profissionais e retê-los. Nós podemos dar incentivos para recrutamento, como por exemplo, despesas de deslocação, empréstimos para moradia e para lançamento de negócios, salário suplementar para os primeiros anos. Porém, quando o suplemento salarial termina, muitos dos profissionais pegarão nas suas malas e regressarão à Europa e aos Estados Unidos.
Uma solução permanente seria pagar salários competitivos.

Que mudanças gostaria de ver nas políticas governamentais?

EMEAGWALI: Nós poderíamos eliminar as despesas com militares e aumentar gastos com educação, emancipação das mulheres e desenvolvimento das crianças.
Quarenta anos atr√°s, Fourah Bay College, Makerere University e University of Ibadan costumavam ser as melhores universidades do mundo em desenvolvimento. Hoje, estas universidades est√£o se despeda√ßando e tem uma escassez cr√īnica de livros e equipamentos. Greves de alunos e professores criam per√≠odos lectivos irregulares e n√£o √© raro que os estudantes demorem cinco ou seis anos para completar um curso de quatro anos.

O problema come√ßou no in√≠cio dos anos 80, quando muitas na√ß√Ķes africanas passaram por programas de ajustes estruturais que implicaram a desvaloriza√ß√£o de suas moedas e cortes nos gastos p√ļblicos. A desvaloriza√ß√£o da moeda restringiu a quantidade de equipamentos e livros que poderiam ser comprados. Al√©m disso, tornou dif√≠cil o estudo de ci√™ncias, engenharia e medicina no exterior. Um professor universit√°rio que ganhava $1.000 por m√™s em 1980 hoje ganha $50 por m√™s e a maioria √© for√ßada a emigrar.

Quando o Banco Mundial e o Fundo Monet√°rio Internacional for√ßaram a Nig√©ria a reduzir gastos p√ļblicos, Ibrahim Babangida cortou o or√ßamento da educa√ß√£o ao inv√©s de reduzir o or√ßamento dos militares. Enquanto o sal√°rio dos professores deixou de ser pago durante v√°rios meses, a Nig√©ria estava gastando centenas de milh√Ķes de d√≥lares na importa√ß√£o de armas.

N√£o nos devemos esquecer do investimento na educa√ß√£o b√°sica. A Nig√©ria precisa aprender com a experi√™ncia de Z√Ęmbia. A taxa de analfabetismo entre a popula√ß√£o adulta na Nig√©ria √© de 49% enquanto entre a popula√ß√£o de Z√Ęmbia, a taxa √© de 27%. Contudo, a Nig√©ria tem muito mais universidades que Z√Ęmbia. A Nig√©ria deve aprender com Z√Ęmbia e focar esfor√ßos em educa√ß√£o de boa qualidade para as massas. Com uma elevada taxa de analfabetismo e milh√Ķes de graduados em universidades, a Nig√©ria acabar√° com os p√©s na Idade da Pedra e a cabe√ßa na Idade da Tecnologia de Informa√ß√£o.

Quem é o entrevsiatdo Philip Emeagwali:
“Distin√ß√£o” podia ser o nome do meio de Philip Emeagwali. Tendo deixado o curso colegial e tendo sido um refugiado de guerra, este nigeriano a viver nos Estados Unidos √© hoje a sensa√ß√£o do mundo da super-computa√ß√£o. Ele tem sido chamado de “Bill Gates da √Āfrica”. Seus antigos colegas do Christ the King College, em Onitsha, lembram-se dele como “C√°lculo”. Emeagwali det√©m in√ļmeros recordes: processamento mais r√°pido do mundo com 3.1 bili√Ķes de c√°lculos por segundo, recorde mundial por resolver as maiores equa√ß√Ķes diferenciais parciais com 8 milh√Ķes de grid points; recorde mundial por resolver as maiores equa√ß√Ķes de previs√£o de tempo com 128 milh√Ķes de grid points; recorde mundial por um in√©dito modelo de acelera√ß√£o de computa√ß√£o paralela; descoberta do paradoxo contra-intuitivo do hipercubo; formula√ß√£o da teoria de modelos de mosaicos para computa√ß√£o paralela; descoberta da quiralidade, dualidade, helicidade, etc. Suas demais fa√ßanhas se estenderiam por mais oito p√°ginas. Emeagwali tem recebido os mais importantes pr√™mios no seu campo de conhecimento, mas diz que o mundo ainda n√£o viu nada. Num per√≠odo de sete meses, Reuben Abati do “The Guardian” entrevistou Emeagwali, abordando uma diversidade de temas.

Fonte:

Publicado em

Contribuição dos povos africanos para o conhecimento científico e tecnológico universal

O estudo e o acompanhamento do processo hist√≥rico da popula√ß√£o africana e afro-brasileira √© muito mais que uma gratid√£o aos milh√Ķes de mulheres e homens que forneceram as bases culturais e t√©cnicas para a emers√£o do que hoje chamamos na√ß√£o brasileira.

Essa atitude se configura em uma a√ß√£o inteligente de quem deseja para o pa√≠s a promo√ß√£o de um desenvolvimento social sustent√°vel. Uma vez que, a essa tem√°tica est√£o associadas quest√Ķes fundamentais como: o n√≠vel de respeito que os brasileiros e brasileiras t√™m de si mesmos, em face da hist√≥ria de seu pa√≠s e da capacidade desse povo de promover as
mudan√ßas necess√°rias para atingirem um maior equil√≠brio social e econ√īmico. Com efeito, um sistema educacional que realmente pretende fornecer as bases para esse desenvolvimento precisa possibilitar aos seus estudantes o conhecimento do seu pr√≥prio povo, sob pena de n√£o gerar nesses estudantes auto-estima suficiente para fortalec√™-los perante os desafios da vida, para a concretiza√ß√£o dos empreendimentos para o desenvolvimento social.

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