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Nonagésimo aniversário de Fanon РA REVOLUÇÃO ARGELINA

CURSO KILOMBAGEM – FANON VIDA E OBRA

O texto de hoje √© Ano Cinco da Revolu√ß√£o Argelina (Sociologie d‚Äôune revolution: L‚Äô an V de La R√©volution Alg√©rienne). O texto foi escrito em 1959 por Fanon com objetivo de divulgar suas observa√ß√Ķes a respeito do processo revolucion√°rio em curso, e ao mesmo tempo, oferecer ao povo argelino e √† comunidade internacional uma ‚Äúcontra-propaganda‚ÄĚ aos meios de comunica√ß√£o franceses.

Sociologie d’une r√©volution: L’ an V de la R√©volution alg√©riene

O livro (que infelizmente AINDA n√£o disp√Ķe de tradu√ß√£o para a l√≠ngua portuguesa) √© uma verdadeira etnografia do processo revolucion√°rio e oferece uma abordagem privilegiada para o entendimento das posi√ß√Ķes pol√≠ticas e te√≥ricas de Fanon.

A esta altura, as lutas pela libertação da Argélia já haviam completado cinco anos, e diante dela, Fanon pode observar e descrever detalhadamente, em primeiro lugar, o processo de mobilização social em curso, observando os seus limites e possibilidades para a formação de subjetividades descolonizadas, e, em segundo lugar, as formas de reação que o colonialismo lança mão para evitar desfazer-se das estruturas de poder.

Violenta repressão francesa  à marcha de argelinos contra o colonialismo
Violenta repressão francesa à marcha de argelinos contra o colonialismo

Em rela√ß√£o ao primeiro aspecto, Fanon responde positivamente √†s suspeitas que ele mesmo havia levantado em outro lugar: ‚Äú√© o branco cria o negro, mas √© o negro que cria a negritude‚ÄĚ. Isto significa, para ele, que a luta de liberta√ß√£o √© o momento em que a coisa colonizada se torna humana: das mudan√ßas nas rela√ß√Ķes de g√™nero a partir da introdu√ß√£o das mulheres √†s frentes de batalha aos dilemas enfrentados quando se pensa as rela√ß√Ķes entre a tradi√ß√£o e a tecnologia, em todos, √© a luta (revolucion√°ria) que tem o poder de atribuir novos significados √† vida e elevar o condenado √† posi√ß√£o de sujeito da hist√≥ria.

O ponto que incomoda no texto ‚Äď e “justifica” sua imediata proibi√ß√£o na Fran√ßa da √©poca ‚Äď √© que nele, n√£o haveria outra escolha para os povos colonizados que n√£o fosse a via revolucion√°ria. E assim, diante √† queda da Fran√ßa colonialista que ¬†j√° se anunciava como breve , Fanon anunciava o nascimento de um novo ser humano. Como afirma na introdu√ß√£o do referido livro:

A na√ß√£o argelina j√° n√£o est√° em um para√≠so futuro. N√£o √© o produto da imagina√ß√£o e fantasias. Ela est√° no centro do novo homem argelino. Existe uma nova natureza do homem argelino, uma nova dimens√£o √† sua exist√™ncia. A tese de que os homens est√£o mudando no mesmo momento em que mudar o mundo, nunca foi mais evidente do que na Arg√©lia. Este confronto est√° reformulando n√£o s√≥ a consci√™ncia que o homem tem de si mesmo, a ideia que ele tem de seus ex-governantes ou do mundo, finalmente ao seu alcance. Esta luta em diferentes n√≠veis renova os s√≠mbolos, mitos, cren√ßas, emo√ß√Ķes de povo. N√≥s ajudamos na Arg√©lia para um rein√≠cio humano. […] O colonialismo perde o jogo na Arg√©lia, enquanto os argelinos ganham. Este povo, perdido para a hist√≥ria […) pessoas analfabetas que escreveram as p√°ginas mais belas e mais comoventes da luta pela liberdade (Fanon, 1968)

Contam os seus biografos antes da publica√ß√£o do livro, os editores da Maspero procuram Aim√© Cesaire e Albert Memmi para prefacia-lo, mas ao que se sabe, ambos recusam. Antes de ser proibido pela Fran√ßa, o livro circulou amplamente pela √Āfrica franc√≥fona.

Um ponto bastante discutido, e que lembra os linchamentos¬†(SEMPRE DE NEGROS) no Brasil √© viol√™ncia colonial como estrat√©gia para manter os colonizados em seu lugar de coisa. No caso, Fanon problematiza a tortura e o assassinato violento de quem ousa confrontar os lugares reservados pelo colonialismo. O filme Batalha de Argel √© bastante elucidativo da viol√™ncia francesa, mas tamb√©m, de como os nacionalistas argelinos responderam a ela. √Č poss√≠vel afirmar que o filme √© melhor entendido quando se l√™ este livro e o livro por sua vez, melhor entendido quando se assiste o filme:

 

Outro ponto interessante no livro √© que a Cultura e da Identidade n√£o s√£o pensadas de uma forma fixa/essencial e nem aut√īnoma ao processo de luta, √© a partir da a√ß√£o das pessoas ativas na hist√≥ria que os s√≠mbolos adquirem novos significados. No primeiro cap√≠tulo ‚ÄúA Arg√©lia se desvela‚ÄĚ, o autor observa como a repress√£o ao v√©u utilizado pelas mulheres ‚Äď muito comum em muitas comunidades isl√Ęmicas, e ainda reprimido na Fran√ßa contempor√Ęnea ‚Äď levou √† ressignifica√ß√£o deste adorno na Arg√©lia.

Diante do ato racista franc√™s em estigmatizar o v√©u; a preserva√ß√£o dessa tradi√ß√£o passou a representar um confronto aos interesses assimilacionistas franceses, e nesse sentido, o seu incentivo pelas for√ßas rebeldes era subversivo. Fanon explica que nesse momento, como tentativa de desestabilisar os pressupostos culturais da rebeldia, a Fran√ßa colonialista lan√ßou m√£o inclusive do discurso feminista – que ela ¬†sempre desprezou ‚Äď para “denunciar” a opress√£o da mulher em suas indumentarias ‚Äúpatriarcais‚ÄĚ e ‚Äúrepressivas‚ÄĚ.

A batalha do véu

Num segundo momento, a partir introdu√ß√£o das mulheres no front de batalha, as mulheres guerrilheiras passaram a retirar o v√©u ‚Äď ou utiliz√°-lo convinientemente ‚Äď de forma a enganar e surpreender o inimigo colonialista. Estes atos, por si, al√©m de possibilitar um contato com espa√ßos que at√© ent√£o eram exclusivamente masculinos, possibilitou uma ressiginifica√ß√£o da rela√ß√£o dessas pessoas com a tradi√ß√£o, com os homens e consigo pr√≥prias.

O ponto que Fanon destaca aqui √© que o compromisso revolucion√°rio que se estabeleeu n√£o foi com o resgate ou com a repeti√ß√£o da tradi√ß√£o ‚Äď em um movimento de retorno √† origens ‚Äúverdadeiramente‚ÄĚ essenciais ‚Äď mas sim, o compromisso com as pessoas, vivas e ativas que, exatamente por serem sujeitos hist√≥ricos, podem ressignificar os valores que os informam.

Em 1962 a Arg√©lia conquista a sua independ√™ncia, mas os acontecimentos posteriores, foram exatamente na contram√£o dessa perspectiva defendida por Fanon e os outros membros laicos da Frente de Liberta√ß√£o Nacional. De todo modo, o livro transcende os limites geogr√°ficos da Arg√©lia e levanta importantes questionamentos e reflex√Ķes a respeito de um processo popular revolucion√°rio.

A quem se dispor a encarar o ‚Äúespanhol‚ÄĚ: boa leitura:

SOCIOLOGIA DE UMA REVOLUÇÃO 

 

AGENDA DE MOBILIZAÇÃO CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL