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Contra o Racismo deve estar a nossa Localidade Afrocentrada

Nea Onnim No Sua A, Ohu "Quem não sabe pode estar aprendendo", símbolo do conhecimento, da aprendizagem permanente e da busca contínua do saber. (Adinkras  - ideogramas que incorporam e transmitem história, filosofia, ciência, valores, dos povos da Gana).
Nea Onnim No Sua A, Ohu “Quem n√£o sabe pode estar aprendendo”, s√≠mbolo do conhecimento, da aprendizagem permanente e da busca cont√≠nua do saber. (Adinkras – ideogramas que incorporam e transmitem hist√≥ria, filosofia, ci√™ncia, valores, dos povos da Gana).

O Racismo segue se manifestando, mostrando que esta mais forte do que nunca e a humanidade perdida no limbo das mentes colonizadas frente as express√Ķes racistas que surgem diariamente. Eu n√£o vou me prestar a essa idiotiza√ß√£o, mesmo para contestar a express√£o debiloide de que somos macacos.

Os aparelhos do Estado que deveriam mover mecanismos de jurisprud√™ncia sobre estas quest√Ķes que amea√ßam o senso global do que vem a ser o conceito “humanidade”, nem se manifestam; o governo brasileiro na figura da presidente e demais pol√≠ticos se limitam a postar seus coment√°rios idiotas no twitter e no facebook, e pior, muitos postando fotos segurando bananas.

Enquanto isso a pol√≠cia (corpora√ß√£o policial) segue matando pessoas pretas e cometendo todo o tipo de injusti√ßa social e abusos, sofisticando a viol√™ncia racista que, desde o sistema de escravid√£o, organiza¬†os sistemas de valores, cren√ßas, medos, gostos, √©tica, educa√ß√£o, sa√ļde, pol√≠tica, economia, governos, e, por que n√£o, o esporte.

Quando entende-se que¬†o racismo se “complexificou”, e que temos que entender suas redes ‘neurais’ cerebrais e tamb√©m suas interconex√Ķes com a mente humana, significa dizer tamb√©m que temos que come√ßar a fazer um forte exerc√≠cio de apropria√ß√£o da nossa hist√≥ria, e de localiza√ß√£o da nossa centralidade africana. √Č preciso para de agir em resposta das demandas para encontrarmos a √Āfrica em n√≥s, que nos dar√° poder atrav√©s de nossa ci√™ncia, historicamente acumulada ao longo da hist√≥ria da humanidade, e recentemente roubada, violentada, escamoteada, ressignificada, pelas sociedades que financiaram as grandes guerras mundiais, e a enorme viol√™ncia aos pa√≠ses ao sul.

O futebol √© hoje o campo por onde o racismo est√° manifestando com bastante for√ßa justamente porque devido aos pequenos (por√©m significativos) avan√ßos nos direitos humanos contra o racismo, o racismo enquanto mecanismo complexo e criativo – que cria, ele pr√≥prio redes e interconex√Ķes n√£o-locais, e descont√≠nuas – por meio das emo√ß√Ķes humanas, das paix√Ķes e frustra√ß√Ķes intensamente vividas no contexto esportivo, encontrou terreno f√©rtil de afirma√ß√£o e adapta√ß√£o.

Daniel Alves comendo a banana atirada em campo por torcedores racistas, na partida entre o Barcelona e Villarreal.
Daniel Alves comendo a banana atirada em campo por torcedores racistas, na partida entre o Barcelona e Villarreal.

No contexto do esporte, e em especial no futebol, o xingamento sempre foi autorizado, e o racismo nunca foi um absurdo porque, afinal de contas, √© a cultura do futebol. Ali se xinga, mas n√£o se perde a amizade porque as desaven√ßas ficam no campo. Chama-se de macaco porque se estava nervoso, e quem n√£o entende paix√£o de futebol? L√≥gico que o esporte tamb√©m √© terreno de luta pol√≠tica, mas os casos de manifesta√ß√Ķes de racismo e outros mecanismos de desigualdades s√£o muito mais numerosos do que os casos onde estes mecanismos s√£o problematizados e questionados.

√Č da criatividade enegrecida que encontraremos caminhos de luta e supera√ß√£o do racismo. A criatividade enegrecida, de localidade afrocentrada, capaz de repensar a sociedade e propor um projeto social verdadeiramente humanizado n√£o se dar√° se n√£o fizermos o exerc√≠cio (inclusive f√≠sico, de disp√™ndio energ√©tico mesmo) de solidariedade e sincronia qu√Ęntica das nossas mentes para a busca de uma orienta√ß√£o coerente dadas as regras do jogo social em que estamos submetidos.

Ubuntu √© uma √©tica ou ideologia do idioma banto Ng√ļni. √Č uma filosofia africana que existe em v√°rios pa√≠ses de √Āfrica que foca nas alian√ßas e relacionamento das pessoas umas com as outras. A palavra vem das l√≠nguas dos povos Bantos; na √Āfrica do Sul nas l√≠nguas Zulu e Xhosa. Ubuntu √© tido como um conceito tradicional africano, que remete ao complexo entendimento de "humanidade para com os outros", ou "a cren√ßa no compartilhamento que conecta toda a humanidade", e ainda "Sou o que sou pelo que n√≥s somos". Portanto, um profundo e complexo comprometimento o ser humano com a humanidade de que ele √© produtor e produto, em rela√ß√£o rec√≠proca de causa din√Ęmica.
Ubuntu √© uma √©tica ou ideologia do idioma banto Ng√ļni. √Č uma filosofia africana que existe em v√°rios pa√≠ses de √Āfrica que foca nas alian√ßas e relacionamento das pessoas umas com as outras. A palavra vem das l√≠nguas dos povos Bantos; na √Āfrica do Sul nas l√≠nguas Zulu e Xhosa. Ubuntu √© tido como um conceito tradicional africano, que remete ao complexo entendimento de “humanidade para com os outros”, ou “a cren√ßa no compartilhamento que conecta toda a humanidade”, e ainda “Sou o que sou pelo que n√≥s somos”. Portanto, um profundo e complexo comprometimento o ser humano com a humanidade de que ele √© produtor e produto, em rela√ß√£o rec√≠proca de causa din√Ęmica.

Jévaristo

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Sobre Educação Física e Intervenção Antiracista

José Evaristo Silvério Netto

(opini√£o do autor)

Educação Social em Destaque: Pedagogia Social Como Teoria Geral, Afrocentricidade Enquanto Perspectiva Analítica e Orientação Política, e Esporte Educacional Enquanto Metodologia de Trabalho

¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬† H√° algum tempo venho refletindo sobre as dificuldades em implementar uma educa√ß√£o antirracista dentro e fora das escolas, como processos para o empoderamento da popula√ß√£o em situa√ß√£o de vulnerabilidade social. Muito se discute e se escreve sobre esta mat√©ria, e devido √† transpira√ß√£o de muitos estudiosos e dos movimentos negros e outros movimentos antirracistas, hoje temos dispon√≠vel uma ampla literatura sobre a hist√≥ria e cultura afro-brasileira e africana, e sobre a contribui√ß√£o da popula√ß√£o negra africana e afrodiasp√≥rica para o desenvolvimento da humanidade. No sentido de descortinar e desconstruir as bases racistas cient√≠ficas, pol√≠ticas e culturais, muitas linhas de pesquisa em diversas √°reas de concentra√ß√£o de conhecimento est√£o sendo constru√≠das, para investiga√ß√Ķes de diversas naturezas.

Por√©m, embora observemos um aumento no n√ļmero de pesquisas sobre a cultura negra africana e afrodiasp√≥rica, sobre o racismo e seus impactos, e pesquisas correlatas que t√™m como proposta criar ac√ļmulo te√≥rico e jurisprud√™ncia combativa frente √†s desigualdades sociais, percebo que ainda √© incipiente na literatura a incid√™ncia de construtos te√≥ricos robustos orientados √† implanta√ß√£o e implementa√ß√£o de uma efetiva educa√ß√£o antirracista que esteja alinhada √†s demandas da realidade brasileira para a supera√ß√£o dos problemas sociais.

Parece existir uma in√©rcia hegem√īnica no √Ęmbito das a√ß√Ķes sociais e condutas que inviabilizam, ou pelo menos prejudicam bastante a implementa√ß√£o efetiva de uma pr√°xis contra-hegem√īnica, essencialmente antirracista. Em qualquer ambiente, seja na educa√ß√£o p√ļblica e privada, no mercado de trabalho em institui√ß√Ķes p√ļblicas e empresas privadas, no cen√°rio esportivo, no terceiro setor, e at√© no cen√°rio pol√≠tico nas esferas executiva, legislativa, e no judici√°rio, o que percebemos s√£o produ√ß√Ķes culturais e condutas orientadas pelo capitalismo e racismo, de modo que qualquer pr√°xis contra-hegem√īnica cause grande inc√īmodo e s√©rios desgastes e colapsos nas rela√ß√Ķes interpessoais e institucionais. Isso significa dizer que tanto as institui√ß√Ķes quanto as pessoas, possuem o racismo e o capitalismo enquanto engrenagens que operam e condicionam os processos de interpreta√ß√£o dos sentidos e da realidade, avalia√ß√£o e constru√ß√£o de cultura, sentidos e a√ß√£o social e institucional, de forma consciente e subconsciente (computacional), como um sistema de retroalimenta√ß√£o complexo.

Acredito que a conscientização é um processo importante para que seja possível enfrentar as mazelas sociais, em especial o racismo e seus efeitos. Um conceito que têm vigorado há muito tempo nos círculos dos movimentos negros, e há pouco tempo na academia no Brasil, é o de Consciência Negra, entendida como possibilidade de as pessoas negras se situarem no tempo e no espaço social, entendendo os processos de geração das desigualdades sociais que se apoiam na etnia/cor. A problemática se estabelece na medida em que, apesar de muito debate sobre Consciência Negra, pouco se produziu sobre tecnologias educacionais para o seu desenvolvimento.

Entendo que a Educa√ß√£o √© um processo que nos permite apreender conhecimentos, introjentando-os, identificando-os como importantes e, consequentemente, mudando nossa intera√ß√£o com o mundo, com as pessoas, transformando nossa produ√ß√£o cultural e a√ß√£o social, como resultado desta introje√ß√£o, identifica√ß√£o e integra√ß√£o dos conhecimentos incorporados ao nosso esp√≠rito e consci√™ncia. Mas na √°rea de concentra√ß√£o de estudos da Educa√ß√£o, ou da Pedagogia, o que se t√™m dispon√≠vel de forma geral s√£o construtos te√≥ricos universalistas que n√£o conseguem problematizar com profundidade as fontes das desigualdades sociais que se complexificam, ganhando novos contornos e criando novas tecnologias de manuten√ß√£o do status quo e das desigualdades entre as popula√ß√Ķes. Enquanto o racismo, para citar uma fonte de desigualdade social, se imbrica nos mecanismos de produ√ß√£o cultural humana de maneira individual e institucional, determinando padr√Ķes de pensamento, discursos, e a√ß√Ķes sociais discriminat√≥rias individuais e institucionais, as pedagogias cr√≠ticas que deveriam problematizar esta quest√£o encontram dificuldades por falta de consist√™ncia nas dimens√Ķes te√≥rica, filos√≥fica, pol√≠tica e metodol√≥gica, para o seu desenvolvimento junto aos profissionais da educa√ß√£o. Mais do que falta de consist√™ncia, o que percebo √© uma aus√™ncia de transversalidade entre estas dimens√Ķes, para lidar com a complexidade dos fen√īmenos sociais e, nestes, empreender uma educa√ß√£o que seja significativa n√£o apenas para uma parcela diminuta da popula√ß√£o, mas para ela toda, uma vez que se potencialize igualdade de oportunidades e supera√ß√£o do racismo, e das outras engrenagens de domina√ß√£o.

No exerc√≠cio de refletir sobre as quest√Ķes supracitadas, come√ßo a entender que talvez seja pertinente a tentativa de realizar aproxima√ß√Ķes te√≥ricas, utilizando construtos importantes e coerentes com um projeto pol√≠tico societ√°rio que reze pela supera√ß√£o dos fatores limitantes ao desenvolvimento humano, √† igualdade em oportunidades, ao exerc√≠cio pleno de cidadania, e √† participa√ß√£o de todas as pessoas. Aproxima√ß√Ķes te√≥ricas utilizando construtos orientados √†s especificidades das rela√ß√Ķes entre cor/etnia, classe social, religi√£o, e outras caracter√≠sticas sociodemogr√°ficas que hoje s√£o determinantes para a manuten√ß√£o das diferen√ßas e viol√™ncias sociais. Percebo que a Educa√ß√£o Social pode ser um processo de empoderamento importante das popula√ß√Ķes vulner√°veis, e que a Pedagogia Social dentro da perspectiva brasileira atrav√©s das produ√ß√Ķes do professor Roberto da Silva, tr√°s um background te√≥rico important√≠ssimo considerando suas linhas de pesquisa, a citar dom√≠nio sociocultural, dom√≠nio sociopedag√≥gico e dom√≠nio sociopol√≠tico, sendo, portanto, uma Teoria Geral da Educa√ß√£o Social. Acredito que a afrocentricidade enquanto orienta√ß√£o e perspectiva de an√°lise da realidade, segundo Kete Molefi Assante, pode ser um grande aliado da Pedagogia Social voltada a uma educa√ß√£o antirracista. E finalmente, pensando na Educa√ß√£o F√≠sica enquanto um componente curricular que t√™m como uma das linhas de interven√ß√£o a corporeidade e a cultura corporal, temos a metodologia de trabalho do Esporte Educacional e suas tecnologias de ensino e aprendizagem que podem ser utilizados para a opera√ß√£o do processo educativo.

Desta forma, vislumbro a possibilidade em desenvolver um debate sobre a Educação Física, que é a minha área profissional, dentro da Pedagogia Social, com vistas à superação do racismo e apoiada também à análise crítica afrocentrada da realidade social, política, histórica, do negro no Brasil.