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Marxismo e Libertação Africana

Discurso de Walter Rodney No Queen’s College, em Nova York, EUA, em 1975

Primeiro de tudo, devemos entender o pano de fundo para este tipo de debate. Quando alguém é solicitado a falar sobre a relevância do marxismo para a África, neste momento em particular, está sendo convidada a se envolver em um debate histórico, um debate em curso neste país,particularmente entre a população negra. É um debate que se intensificou no último ano e, a partir de minhas próprias observações, está sendo travado em um grande número de lugares em todo o país.

Às vezes aparece sob o disfarce do chamado nacionalismo versus marxismo; às vezes aparece sob o disfarce daqueles que afirmam defender uma posição de classe em oposição àqueles que afirmam defender uma posição de raça. Assim, não seria possível para nós, em uma única sessão, entrar em todas as ramificações desse debate, mas ele forma o pano de fundo para nossa discussão.

É um debate importante. É um fato importante que tais questões estão sendo debatidas neste país hoje, assim como estão sendo debatidas na África, na Ásia, na América Latina e em muitas partes do mundo metropolitano na Europa Ocidental e no Japão. Porque a natureza difundida do debate e sua intensidade neste momento é um reflexo da crise no modo de produção capitalista-imperialista. Idéias e discussões não caem do céu. Não há simplesmente um enredo por parte de certos indivíduos para envolver os outros em um debate sem sentido.

Seja qual for o resultado do debate, seja qual for a postura adotada pelos diferentes participantes, o próprio fato do debate é representativo da crise no capitalismo e no imperialismo de hoje; e à medida que a crise se aprofunda, as pessoas acham cada vez mais difícil aceitar os velhos modos de pensamento que racionalizam o sistema que está em colapso. Daí a necessidade de buscar novas direções e, muito claramente, o marxismo, o socialismo científico se apresenta como uma das mais óbvias das opções disponíveis.

A questão não é nova para a África ou para o povo negro como um todo – isso é talvez essencial para entender. Muitos de nós levantamos antes da questão da relevância do marxismo para isto ou aquilo. Sua relevância para a Europa; muitos intelectuais europeus debateram sua relevância para sua própria sociedade. Sua relevância para a Ásia foi debatida pelos asiáticos. Sua relevância para a América Latina foi debatida pelos latino-americanos. Indivíduos há muito tempo debatem a relevância do marxismo para o seu próprio tempo. Foi relevante para o século XIX? Em caso afirmativo, ainda era relevante para o século XX? Pode-se debater sua relevância para uma dada faceta da cultura da sociedade ou para a lei ou cultura da sociedade como um todo.

Todas essas são questões que foram debatidas antes e devemos ter algum senso de história quando abordarmos essa questão hoje, porque com esse senso de história podemos perguntar, por que a questão da relevância do marxismo para a sociedade sempre surge?E, em uma resposta muito breve, eu sugeriria que o que é comum à aplicação da questão é, antes de tudo, uma condição de luta, uma condição na qual as pessoas estão insatisfeitas com o modo dominante de perceber a realidade.

Nesse ponto, eles perguntam sobre a relevância do marxismo.

Mais do que isso, a segunda condição é que as pessoas façam a pergunta por causa de sua própria estrutura burguesa. Começamos localizados dentro do modo dominante de raciocínio, que é o modo de raciocínio que sustenta o capitalismo e que chamaremos de estrutura burguesa de percepção. E porque se começa assim, torna-se necessário levantar a questão sobre a relevância do marxismo.

Depois de avançar, é provavelmente mais preciso levantar a questão da relevância do pensamento burguês, porque o sapato estaria no outro pé!

Mas, inicialmente, é verdade que, por mais que a burguesia discorde, há um fio condutor comum a todo pensamento burguês: eles fazem causa comum ao questionar a relevância, a lógica e assim por diante do pensamento marxista. E, portanto, em certo sentido, infelizmente, quando fazemos essa pergunta, também nos encaixamos nessa estrutura e padrão. Também estamos, de alguma forma, ainda inseridos em maior ou menor grau no quadro do pensamento burguês e, a partir desse quadro, pedimos com grande hesitação e incerteza – qual é a relevância do marxismo?

Isso é particularmente verdadeiro em nossa parte do mundo, isto é, na parte de língua inglesa do mundo, porque a tradição anglo-americana é de intensa hostilidade, filosoficamente falando, em direção ao marxismo, uma hostilidade que se manifesta de uma maneira peculiar. . Ela se manifesta tentando dissociar-se até mesmo do estudo do marxismo. Se você verificasse a tradição continental na Europa, descobriria que não é a mesma coisa. Os intelectuais franceses, alemães e belgas, qualquer que seja sua perspectiva, compreendem a importância do marxismo. Eles estudam, eles se relacionam com isso, eles entendem o corpo do pensamento que é chamado marxismo e eles tomam uma posição em relação àquele corpo de pensamento.

Na tradição inglesa, que também foi transmitida a essa parte do mundo, ao Caribe, a muitas partes da África, está na moda negar qualquer conhecimento do marxismo. É moda gloriar-se na própria ignorância, dizer que somos contra o marxismo. Quando pressionado sobre isso, diz – mas por que se preocupar em lê-lo? É obviamente absurdo.

Assim, sabe-se que é absurdo sem lê-lo e não se lê porque se sabe que é absurdo e, portanto, se gloria na própria ignorância da posição.

É bastante difícil abordar seriamente a questão da relevância do marxismo, a menos que se faça o mínimo básico de aceitar que se deve tentar entrar nesse corpo inteiro de pensamento, porque é um tremendo corpo de literatura e análise, e do lado de fora, por assim dizer, é extremamente difícil.

Na verdade, eu diria que é inútil, estritamente de fora, sem nunca ter tentado lidar com o que é, para perguntar qual é a sua relevância. É quase uma questão sem resposta; e penso, com toda a modéstia, que para aqueles de nós que vieram de um certo background (e todos nós viemos desse background), uma das primeiras coisas que temos que fazer é estabelecer uma base de familiaridade com as diferentes tradições intelectuais, e à medida que nos familiarizamos com eles, podemos estar em melhor posição para avaliar a relevância ou a irrelevância do marxismo, conforme o caso.

Partirei da suposição de que o que estamos tentando discernir nessa discussão é se as variantes de tempo e lugar são relevantes ou, deixe-me colocar de outra forma, se as variantes de tempo e lugar fazem diferença para se o marxismo é relevante ou não. De certo modo, quase teríamos que assumir sua validade para o lugar em que se originou, a Europa Ocidental. Nós não temos tempo para lidar com isso em detalhes. Mas podemos então perguntar, assumindo que o marxismo tem uma relevância, tem um significado, tem uma aplicabilidade na Europa Ocidental, ou teve no século XIX, até que ponto sua validade se estende geograficamente? Até que ponto a sua validade se estende ao longo do tempo?

Estas são as duas variáveis, tempo e lugar; e essas podem ser traduzidas para significar circunstâncias históricas, tempo – e cultura que significa o lugar, e quais condições sociais e culturais existem em cada lugar específico. Para nós, para torná-lo mais preciso, os negros, sem dúvida os negros bem-intencionados, questionam se uma ideologia que foi gerada historicamente dentro da cultura da Europa Ocidental no século XIX é, hoje, no terceiro trimestre do século XX, ainda válida para outra parte do mundo, ou seja, a África, ou o Caribe, ou negros neste país; se é válido para outras sociedades em outros momentos. E este é o tipo de formulação que desejo apresentar para discussão.

A Metodologia do Marxismo

A grande contribuição de Marx foi sua fantástica crítica de uma sociedade existente, a sociedade capitalista. Como surgiu em uma parte específica do mundo? A grande maioria de sua literatura diz respeito a essa questão.

Eu sugeriria duas razões básicas pelas quais acredito que o pensamento marxista, o pensamento socialista científico, existiria em diferentes níveis, em diferentes momentos, em diferentes lugares e manteria seu potencial como uma ferramenta, como um conjunto de concepções que as pessoas deveriam compreender.

A primeira é olhar para o marxismo como uma metodologia, porque uma metodologia seria, virtualmente por definição, independente de tempo e lugar. Você usará a metodologia a qualquer momento, em qualquer lugar. Você pode obter resultados diferentes, é claro, mas a metodologia em si seria independente de tempo e lugar.

E, essencialmente, para me engajar em uma apresentação bastante truncada do marxismo, inevitavelmente simplificando demais, mas necessária no contexto de tempo limitado, eu sugeriria que, uma das bases reais do pensamento marxista é que ele parte de uma perspectiva da relação do homem com o mundo material; e que o marxismo, quando surgiu historicamente, dissociou-se conscientemente e opôs-se a todos os outros modos de percepção que começaram com ideias, conceitos e palavras; e enraizou-se nas condições materiais e nas relações sociais na sociedade.

Essa é a diferença com a qual vou começar. Uma metodologia que inicia sua análise de qualquer sociedade, de qualquer situação, buscando as relações que surgem na produção entre os homens. Há toda uma variedade de coisas que decorrem disso: a consciência do homem é formada na intervenção na natureza; a própria natureza é humanizada por sua interação com o trabalho do homem; e o trabalho do homem produz um fluxo constante de tecnologia que, por sua vez, cria outras mudanças sociais.

Então este é o cerne da percepção Cientista Socialista. Uma metodologia que se dedica à relação do homem no processo de produção com base na suposição, que eu considero uma suposição válida, de que a produção não é apenas a base da existência do homem, mas a base para definir o homem como um tipo especial de ser com uma certa consciência.
É somente através da produção que a raça humana se diferencia do resto dos primatas e do resto da vida.

O que o marxismo se opõe? Ela se coloca contra várias hipóteses, várias visões do mundo que começam com palavras e conceitos. Para aqueles que estão familiarizados com a própria evolução de Marx, é bem sabido que ele começou olhando primeiro para Hegel, um analista muito plausível e perceptivo do século XIX que era culpado, na própria avaliação de Marx, de propor uma posição inteiramente idealista, que colocava ideias no centro do universo e via o mundo material virtualmente derivado dessas ideias.

Pensando nisso, senti que não iria entrar em Hegel, mas eu iria para além de Hegel. Para uma exposição clássica da visão de mundo idealista. Eu tomo isso do Novo Testamento, o Livro de João, onde ele afirmou: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus. E o Verbo era Deus”. Essa é a exposição clássica da posição idealista. Você tira todas as outras coisas de lá: a Palavra era Deus!

Mas estamos sugerindo que a palavra é em si uma emanação da atividade das pessoas, na medida em que elas tentam se comunicar umas com as outras, à medida que desenvolvem as relações sociais fora da produção e que não devemos ser mistificados com palavras. Naturalmente, teremos que lidar com conceitos e com a força da consciência, que é uma força muito poderosa e que até mesmo alguns marxistas foram tentados a subestimar.

Agora, Marx, seguindo essa ampla estrutura metodológica, tentou aplicá-lo à Europa Ocidental. Ele aplicou a uma série de sociedades em diferentes lugares e em diferentes momentos; mas ele concentrou sua atenção na Europa Ocidental. Se você examinar o corpo da literatura produzida por Marx e Engels, descobrirá que eles falam sobre escravidão, sobre a sociedade comunal, sobre o feudalismo, mas, em geral, concentram-se no capitalismo. Eles quase nem falam sobre socialismo.

A grande contribuição de Marx foi sua fantástica crítica de uma sociedade existente, a sociedade capitalista. Como surgiu em uma parte específica do mundo? A grande maioria de sua literatura diz respeito a essa questão.

Mas, como eu disse quando me referi à sociedade pré-capitalista, especialmente ao feudalismo, eles falaram sobre algumas outras partes do mundo. Ocasionalmente, Marx menciona o modo de produção asiático. Ocasionalmente, ele se deparou com os dados sobre os Estados Unidos. Então, ele tinha uma abrangência geográfica em um longo período de tempo.

Mas foi tão mínimo em comparação com a maior parte de seu trabalho que é verdade que muitas pessoas tomaram o método e suas conclusões de Marx e os viram como uma e a mesma coisa – que o marxismo não é apenas uma certa metodologia aplicada a Europa Ocidental, mas é em si uma ideologia sobre a Europa Ocidental, sobre o capitalismo no século XIX e não pode transcender essas fronteiras, quando claramente Marx estava fazendo o trabalho que tinha que fazer. Ele estava olhando para sua própria sociedade, ele estava fazendo isso sob algumas das condições mais adversas, ele estava fazendo isso dominando o conhecimento burguês e colocando-o a serviço da mudança e da revolução.

Eu sugeriria, então, que o método fosse independente de tempo e lugar. Está implícito em Marx e se torna explícito no desenvolvimento pós-marxista, usando marxiano no sentido literal da vida do próprio Marx. Após a morte de Marx, você terá a evolução ou o desenvolvimento do pensamento socialista científico com outros indivíduos, reconhecendo que a metodologia pode ser aplicada, deve ser aplicada em diferentes momentos a diferentes lugares.

Mais uma vez, apresentando nossa história de forma muito abreviada, podemos olhar para Lenin, em sua aplicação da teoria marxista à sociedade russa. Essa é uma de suas principais contribuições. A primeira grande tese do jovem Lenin foi o desenvolvimento do capitalismo na Rússia. Ele teve que lidar com sua própria sociedade. Ele teve que tirar essas formulações do contexto cultural e histórico específico da Europa Ocidental e olhar para a Europa Oriental, na Rússia, que estava evoluindo de forma diferente, e aplicá-las à sua própria sociedade. Isso ele fez.

Ele tinha ao mesmo tempo que considerar a dimensão do tempo que no século XIX Marx estava escrevendo sobre o que agora veio a ser chamado de período clássico do capitalismo, a versão empreendedora do capitalismo, e no final do século XIX isso deu lugar a capitalismo monopolista. Deu lugar ao imperialismo. Então Lenin teve que lidar com esse método aplicando-o a uma nova dimensão no tempo. Então ele escreveu sobre o capitalismo em seu estágio imperialista.

Então essas são as duas variantes que operam: a ideologia; a metodologia disso (vamos nos ater à metodologia por enquanto) sendo aplicada a diferentes sociedades em diferentes estágios. Tendo feito o ponto para Lenin, espero que fique claro para um número de pessoas: Mao Tsé Tung aplicando-o à sociedade chinesa, que era uma sociedade diferente da sociedade russa. Compreender a dinâmica interna da sociedade chinesa, relacionando-se com a questão do campesinato de uma forma diferente e mais profunda do que qualquer escritor anterior, porque essa era a natureza da sociedade chinesa e ele tinha se dedicado a isso.

E finalmente, para os nossos propósitos, o exemplo mais importante, o exemplo de Amílcar Cabral, porque ele estava lidando com a África. Cabral, em um de seus ensaios, o intitulado A Arma da Teoria , se bem me lembro, de um de seus ensaios mais importantes; Começou por deixar claro que o melhor que podia fazer era voltar à metodologia básica de Marx e Engels. Mas não foi possível a Cabral iniciar a análise da história da Guiné-Bissau dizendo: “Vou procurar classes”, por exemplo. Ele disse. “se eu disser isso, negarei que meu povo tenha alguma história porque não percebo as classes por um longo período na gênese do meu próprio povo”:

Em seguida, ele se referiu à afirmação clássica de Marx e Engels de que “a história de todas as sociedades existentes é a história da luta de classes”, à qual Engels anexou uma nota dizendo que “toda a história” significa “toda história registrada anteriormente”. Acontece que a história do povo da Guiné-Bissau não foi registrada e Cabral diz: “Quero registrar essa história. Usaremos o método marxiano. Não seremos amarrados pelo conceito que surgiu historicamente na Europa Ocidental, quando Marx estava estudando essa sociedade “.

Marx usa o método e ele discerniu a evolução das classes e do próprio fenômeno das classes como sendo um dos principais determinantes, o principal determinante na história da Europa Ocidental em um determinado ponto no tempo. Cabral diz que vamos começar no começo. Nós nem nos preocuparemos inicialmente com as classes. Vamos simplesmente olhar para os homens no processo de produção. Veremos os modos de produção na história da Guiné e veremos como nossa sociedade evoluiu. Então, sem muita fanfarra, ele mostrava a relevância dessa metodologia para a sociedade africana.

Se, e quando, na história da Guiné-Bissau, o aspecto da classe parece ter importância histórica, Cabral tratou disso. Até esse momento, ele simplesmente aderiu à base da metodologia marxista que era olhar para o povo guineense no processo de produção, nos vários modos de produção, formações sociais, formações culturais que surgiram historicamente e a direção na qual a sociedade estava tendendo.

Em muitos aspectos, quando fazemos a pergunta hoje sobre a relevância do marxismo para os negros, já alcançamos uma posição minoritária, por assim dizer. Muitos dos envolvidos no debate apresentam o debate como se o marxismo fosse um fenômeno europeu e os negros que o respondem devem necessariamente ser alienados porque a alienação da raça deve entrar na discussão.

Eles parecem não levar em conta que essa metodologia e essa ideologia foram utilizadas, internalizadas, domesticadas em grandes partes do mundo não europeu.

Que já é a ideologia de oitocentos milhões de chineses; que já é a ideologia que orientou o povo vietnamita para uma luta bem sucedida e para a derrota do imperialismo. Que já é a ideologia que permite à Coreia do Norte transformar-se de um terreno retrógrado, quase feudal e quase colonial numa potência industrial independente. Que já é a ideologia adotada na América Latina, continente que serve de base para o desenvolvimento na República de Cuba. Que já é a ideologia usada por Cabral, usada por Samora Machel, que está em uso no próprio continente africano para sublinhar a luta e a construção de uma nova sociedade.

Por conseguinte, não pode ser considerado um fenômeno europeu; e o ônus certamente será daqueles que argumentam que esse fenômeno, que já se universalizou, é de algum modo inaplicável a alguns negros. O ônus sobre esses indivíduos, eu sugiro, é mostrar alguma razão, talvez genética, por que os genes dos negros rejeitam essa posição ideológica.

Quando investigamos e tentamos centralizar ou manter central o conceito de relevância, devemos nos questionar sobre o presente. Em que tipo de sociedade vivemos hoje? Em que tipo de sociedade os negros vivem hoje em diferentes partes do mundo? E enquanto, naturalmente, nós, como negros neste país, no Caribe e em diferentes partes da África, temos nossa própria experiência histórica independente, um dos fatos centrais é que estamos todos de uma forma ou de outra, localizados dentro do sistema de produção capitalista.

A sociedade sobre a qual Marx escreveu, através de um processo de crescimento, dominou a África e as Américas na era do mercantilismo, período em que o capitalismo estava amadurecendo. Dominou essas partes do mundo, e criou a sociedade escravista nas Américas.

Após a era dos escravos, o capitalismo, ainda mais poderoso, foi capaz de incorporar o mundo inteiro em uma rede global de produção derivada da Europa Ocidental e da América do Norte, um sistema que tinha um centro metropolitano ou conjunto de centros metropolitanos, e um conjunto de periferias, colônias e semi-colônias.

De modo que todos nós, historicamente, fomos incorporados ao sistema capitalista de produção, e essa é outra dimensão da relevância do marxismo.

Mesmo sem a tradução em termos de tempo e lugar, parece-me que, se nos tornamos parte do mundo capitalista-imperialista, então devemos a nós próprios relacionar-nos, seguir, compreender e, esperançosamente, adotar e adaptar uma crítica a esse sistema capitalista porque é essencialmente sobre isso que trata a escrita de Marx. Ele estava criticando esse sistema capitalista. Ele fez isso da forma mais eficaz do que qualquer escritor burguês, e se quisermos entender o mundo em que vivemos, que é o mundo dominado pelo capitalismo, então precisamos entender o centro desse sistema, o motor dentro desse sistema, os tipos de exploração que se encontram no modo de produção capitalista. Então isso é outro fator.

O marxismo como ideologia revolucionária

Minha segunda consideração após a metodologia (e originalmente sugeri que havia duas coisas básicas, e uma era a metodologia), é olhar para o marxismo como uma ideologia revolucionária e como uma ideologia de classe.

Nas sociedades de classes, todas as ideologias são ideologias de classe. Todas as ideologias derivam e suportam alguma classe particular. Então, para todos os propósitos práticos, crescemos na sociedade capitalista, e a ideologia burguesa é dominante em nossa sociedade. Essas instituições nas quais atuamos foram criadas para servir à criação de idéias como mercadorias, idéias que fortalecerão o sistema capitalista.

Agora, eu sugeriria, historicamente, como Marx sugeriu, que o conjunto de idéias que chamamos de Socialismo Científico surgiu na sociedade capitalista para falar ao interesse dos produtores daquela sociedade, para falar aos interesses daqueles que são explorados e expropriados, para falar do interesse do oprimido, do alienado culturalmente; e devemos entender que dos dois grandes conjuntos de idéias diante de nós, idealismo e materialismo, filosofia burguesa e filosofia marxista, cada um dos dois é representativo de uma classe particular.

Eu não tenho tempo para entrar em todas as raízes históricas da formação do socialismo, mas brevemente, no século 19, foi na ascensão da sociedade capitalista que as condições foram criadas para o desenvolvimento de idéias socialistas. Das idéias socialistas diversas e não sistematizadas, Marx foi capaz de formular uma teoria clara e sistemática – o socialismo científico. -Tinha uma base de classe em particular e porque tinha essa base de classe em particular, era revolucionária, e procurou transformar as relações na sociedade.

A ideologia burguesa necessariamente preserva o status quo. Procura conservar, busca fortalecer o sistema de produção dado, as relações que fluem, e as relações que fluem de um certo sistema de produção.

Uma posição socialista científica é e continua a ser revolucionária, porque visa conscientement minar o sistema de produção e as relações políticas que decorrem dela. Isto é o que quero dizer com revolucionário.

De tempos em tempos, surgem marxistas que tentaram negar ou desmentir o marxismo de seu conteúdo revolucionário. Isso é verdade. Há marxistas que se tornaram marxistas legais ou de braços cruzados, que gostariam de ver o marxismo como apenas outra variante da filosofia e tratá-lo de uma maneira muito eclética, como se alguém estivesse livre para usar o marxismo como se fosse do pensamento grego equivalente, sem olhar para a base de classe e sem olhar se uma ideologia é favorável ao status quo ou não.

No entanto, em geral, podemos ver o marxismo e o socialismo científico como subversivos e antitéticos à manutenção do sistema de produção em que vivemos. Porque as idéias, deixe-me repetir, não flutuam no céu, elas não flutuam na atmosfera, elas estão relacionadas a relações concretas de produção. As idéias burguesas derivam das relações burguesas de produção. Eles são destinadas a conservar e manter essas relações de produção. Idéias socialistas derivam da mesma produção, mas derivam de um interesse de classe diferente e seu objetivo é derrubar esse sistema de produção

África e Socialismo Científico

As pessoas não têm dificuldade em se relacionar com a eletricidade, mas dizem: “Marx e Engels, isso é europeu!” Edison era racista? Mas eles fazem a pergunta: “Marx era racista?” Eles acreditam genuinamente que estão fazendo uma distinção fundamental, ao passo que, na verdade, estão obscurecendo a totalidade do desenvolvimento social.

Mais uma vez, sugiro que os povos africanos, como outras pessoas do Terceiro Mundo, têm virtualmente um interesse no socialismo científico, porque se oferece a eles como uma arma da teoria. Oferece-se a eles como essa ferramenta, ao nível das ideias, que será utilizada para desmantelar a estrutura imperialista capitalista. Essa é a sua preocupação.

Com o que tentarei lidar da melhor maneira possível, algumas perguntas surgem de indivíduos que podem dizer sim à maior parte do que eu disse e depois fazem a pergunta: “Não há outra alternativa? Não há outro sistema ideológico?” que não é nem capitalista nem socialista, mas é anticapitalista, mas se dirige mais humanamente, se quiser, ao interesse dos africanos onde quer que estejam? “

Vale a pena investigar essas questões porque há pessoas negras fazendo essas perguntas e temos que tentar resolvê-las. Minha própria formulação será sugerir que examinemos exemplos concretos de africanos ou negros que tentaram conceber sistemas que eles consideram ser não-capitalistas e não-socialistas, sistemas para os quais consideram alternativas válidas. Socialismo Científico para a emancipação do Povo africano.

Nesse sentido, temos vários pan-africanistas, vários nacionalistas africanos na África, no Caribe e neste país, que tomaram esse caminho. George Padmore fez isso no final de sua vida e fez uma distinção entre o socialismo científico e o pan-africanismo. Ele disse que este é o caminho que seguiremos: o pan-africanismo. Nós não queremos ir por esse caminho que é capitalista, nós não queremos ir pelo caminho socialista, nós iremos derivar para nós mesmos algo que é pan-africano.

De certo modo, Nkrumah seguiu isto; e embora em um momento ele se chamasse marxista, ele sempre teve o cuidado de qualificar isso dizendo que ele também era protestante. Ele acreditava no protestantismo, ao mesmo tempo. Então, ele estava tentando montar dois mundos ao mesmo tempo – o mundo que diz no começo era a matéria e o mundo que diz que no começo havia a palavra.

E inevitavelmente ele caiu entre os dois. É impossível ficar entre os dois. Mas lá estava ele, e devemos conceder sua honestidade e devemos conceder a honestidade de muitas pessoas que tentaram fazer essa tarefa impossível e segui-las para descobrir por que falharam.

Eles fracassaram porque sua concepção do que era uma variante diferente do pensamento burguês e diferente do pensamento socialista inevitavelmente acabou sendo apenas outro ramo do pensamento burguês.

E esse era o problema, que o pensamento burguês e, na verdade, o pensamento socialista, quando chegamos a ele, pode ter uma variedade de desenvolvimentos ou estradas e aspectos ou caminhos. Com o pensamento burguês, por causa de sua natureza caprichosa, e por causa do modo como induz os excêntricos, você pode ter qualquer estrada, porque, afinal, quando não está indo a nenhum lugar, pode escolher qualquer caminho!

Então, era possível que esses indivíduos fizessem o que considero uma genuína tentativa de romper com o domínio do pensamento burguês e, ainda assim, descobrir, em última análise, que eles haviam simplesmente abraçado outra manifestação daquilo que eles mesmos sugeriram que estavam confrontando no início.

Há vários exemplos, alguns mais aptos que outros. Alguns dos exemplos, na verdade, são africanos que eu acho que foram flagrantemente desonestos desde o começo. Eu acho que a maioria dos ideólogos do socialismo africano que afirmam encontrar um terceiro caminho são na verdade apenas trapaceiros baratos, que são trapaceiros que estão tentando a enganar a maioria da população. Eu não acho que eles estão fora para desenvolver o socialismo. Eu não acho que eles estão fora para desenvolver qualquer coisa que se dirija ao interesse do povo africano. Mas, no entanto, é parte da necessidade de nossos tempos que nosso povo não esteja mais disposto a aceitar qualquer coisa que não seja colocada sob o disfarce do socialismo.

E, portanto, eu não vou de fato ao socialismo africano. O que farei é dar exemplos daqueles que, na minha opinião, estavam falando sério, sendo honestos. E certamente Kwame Nkrumah era um desses. Nkrumah passou vários anos durante os anos 50 e, até quando foi derrubado – isso cobriria pelo menos dez anos – em que ele procurava uma ideologia. Ele começou com essa mistura de marxismo e protestantismo, ele falou sobre o pan-africanismo; ele foi para o Consciencismo e depois para o Nkrumahismo, e havia tudo que não fosse uma compreensão direta do socialismo.

Quais foram as consequências reais dessa percepção? Isso é o que importa para nós. Vamos supor que ele estava procurando por algo Africano e que ele estava tentando evitar a armadilha de adotar algo estranho. Quais foram as conseqüências práticas dessa tentativa de dissociar-se de uma tradição socialista internacional? Vimos em Gana que Nkrumah se recusou a aceitar que havia classes, que havia contradições de classe em Gana, que essas contradições de classe eram fundamentais.

Durante anos, Nkrumah acompanhou essa miscelânea de filosofia que tomou algumas premissas socialistas, mas que ele se recusou a seguir até sua conclusão lógica – que ou se tinha um sistema capitalista baseado na propriedade privada dos meios de produção e na alienação do produto do trabalho das pessoas, ou alguém tinha um sistema alternativo que era completamente diferente e que não havia maneira de justapor e misturar esses dois para criar algo que fosse novo e viável.

Um teste mais significativo desta posição foi quando o próprio Nkrumah foi derrubado! Depois que ele foi derrubado, ele viveu na Guiné-Konakry e antes de sua morte, ele escreveu um pequeno texto, a luta de classes na África. Não é o maior tratado filosófico, mas é historicamente importante, porque é lá que o próprio Nkrumah admite as consequências enganosas de uma ideologia que defendia uma causa africana, mas que sentia, por razões que ele não entendia; uma necessidade histórica de separar-se do socialismo científico. Isso indicava claramente as consequências desastrosas dessa posição.

Porque Nkrumah negou a existência de classes em Gana até que a pequena burguesia como classe o derrubou. E então, na Guiné, ele disse que foi um erro terrível. Sim, existem classes na África. Sim, a pequena burguesia é uma classe com interesses fundamentalmente opostos aos trabalhadores e camponeses da África. Sim, o interesse de classe da pequena burguesia é o mesmo ou pelo menos está ligado ao interesse de classe do capital monopolista internacional; e, portanto, temos na África uma luta de classes dentro do continente africano e uma luta contra o imperialismo.

E se quisermos transcender essas contradições, trazer a vitória e a emancipação aos trabalhadores, os produtores da África, teremos que lidar com essa ideologia que, antes de tudo, reconhece e desafia a existência de classes exploradoras e opressoras.

É um documento histórico muito importante. É o mais próximo que Nkrumah chega a uma autocrítica. É o registro de um nacionalista genuíno, um nacionalista africano que vagou por anos com essa suposição e sentindo que, de alguma forma, ele deveria dissociar-se de uma maneira ou de outra do Socialismo Científico porque se originava fora dos limites de sua própria sociedade e o medo de suas implicações culturais.

Isso é colocá-lo da maneira mais caridosa. Mas o medo se deve, de fato, aos aspectos da ideologia burguesa. Devido ao fato de que ele fez uma distinção entre teoria social e teoria científica, que não é uma distinção necessária. Essa é a distinção que sai da história do pensamento burguês.

As pessoas parecem não ter dificuldade em decidir que vão usar facetas da cultura material que se originou no Ocidente, seja originada na sociedade capitalista ou socialista. As pessoas não têm dificuldade em se relacionar com a eletricidade, mas dizem: “Marx e Engels, isso é europeu!” Edison era racista? Mas eles fazem a pergunta: “Marx era racista?” Eles acreditam genuinamente que estão fazendo uma distinção fundamental, ao passo que, na verdade, estão obscurecendo a totalidade do desenvolvimento social. E as ciências naturais não devem ser separadas das ciências sociais. Nossa interpretação da realidade social pode similarmente derivar uma certa lei histórica e, portanto, uma lei científica da sociedade que pode ser aplicada independentemente de sua origem ou de seus originadores.

É claro que é verdade, e esta é a nota mais apropriada para terminar, que qualquer ideologia, quando aplicada, deve ser aplicada com sensibilidade. Deve ser aplicado com uma compreensão completa das realidades internas de uma determinada sociedade.

O marxismo vem ao mundo como um fato histórico, e vem em um nexo cultural. Se, por exemplo, africanos ou, voltemos aos asiáticos; quando os chineses pegaram os textos marxistas, eles eram textos europeus. Eles vieram carregados de concepções do desenvolvimento histórico da própria Europa. Assim, esse método e os dados factuais estavam obviamente entrelaçados, e as conclusões estavam, de fato, em um cenário histórico e cultural específico.

Era tarefa dos chineses lidarem com isso e adaptá-lo e examiná-lo e ver como ele se aplicava à sua sociedade. Em primeiro lugar, para ser científico, significava ter em devida consideração as especificidades do desenvolvimento histórico e social chinês.

Já citei Cabral em outro contexto e ele reaparece nesse contexto. O modo como ele está sempre a olhar para as particularidades do desenvolvimento de classes na Guiné-Bissau contemporânea. Olhando para o potencial das classes na Guiné-Bissau neste momento. E, portanto, ele está, é claro, certificando-se de que o marxismo não apareça simplesmente como a soma da história de outras pessoas, mas apareça como uma força viva dentro de sua história.

E esta é uma transformação difícil. Essa é a tarefa de qualquer um que se considera marxista. No entanto, por estar repleta de tantas dificuldades e obstáculos, muitas pessoas optam pelo caminho mais fácil, que consiste em tomá-lo como um produto acabado, em vez de um produto social contínuo que deve ser adaptado à sua própria sociedade.

Verifica-se que ao olhar para a teoria marxista, em sua relevância para a raça, olhando para a relevância da teoria marxista para a emancipação nacional, chegamos a um paradoxo muito importante. E é isto: que o nacionalista, no sentido estrito da palavra, que é o nacionalista pequeno-burguês, que visa meramente a recuperação da independência nacional em nossa época, é incapaz de dar ao povo da África ou aos povos do país qualquer participação na democracia liberal.

O pequeno burguês não pode cumprir essas tarefas históricas. Pois a libertação nacional requer uma ideologia socialista. Nós não podemos separar os dois.

Mesmo para a libertação nacional na África, a Guiné-Bissau e Moçambique demonstraram muito claramente a necessidade de um desenvolvimento ideológico, para a conscientização, como se diz na América Latina; e a luta nacionalista foi vencida porque veio sob a rubrica da perspectiva Cientista Socialista.

Como disse Cabral: “Pode haver revoluções que tiveram uma teoria revolucionária e que falharam. Mas certamente não houve revolução que tenha conseguido sem uma teoria revolucionária”.

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Compreendendo Steve Biko: raça, classe e luta na África do Sul

No aniversário do assassinato de Steve Biko, Remi Adekoya, do ROAPE, fala com o acadêmico e ativista sul-africano Mosa Phadi. Phadi reflete sobre o legado do pensamento radical e importante de Biko, mas também discute como ele não considerou alternativas coesas que poderiam agora servir como um contraponto às ideias neoliberais. Em uma entrevista abrangente, a Phadi também analisa a crise política e econômica na África do Sul, os Economic Freedom Fighters-EFF(Combatentes da Liberdade Econômica), os fracassos do ANC e as possibilidades de uma solução na militância e consciência da luta da classe trabalhadora.

Remi Adekoya: Hoje é o aniversário do assassinato de Stephen Biko por agentes de segurança do Estado do apartheid. Desde então, ele se tornou uma figura de rally imensamente simbólica para muitos negros, especialmente na África, mas não apenas. Qual é a sua opinião sobre o legado de Biko hoje e como ele está sendo historicamente posicionado?

Mosa Phadi: Eu tenho um problema em como Stephen Biko é posicionado por nomes como Donald Woods, seu amigo e biógrafo, que atribui toda a filosofia da Consciência Negra a Biko como se ele emergisse em um vácuo. Seu argumento é basicamente que na época em que Biko emergiu, o Congresso Pan-Africano (PAC) e o Congresso Nacional Africano (ANC) foram ambos organizações proibidas, e assim a chegada de Biko preencheu um vazio na luta pela liberdade dos negros.

No entanto, se você pensar no contexto histórico da época, esse não foi o caso. Biko, juntamente com outros estudantes, iniciou o movimento da Organização de Estudantes da África do Sul (SASO) em 1968. Se você pensar em 1968, este foi um ano de protestos globais; você teve os protestos anti-guerra do Vietnã, grandes manifestações de direitos civis, protestos estudantis. Também voltando, havia o pano de fundo de Gana se tornando o primeiro país africano a ganhar a independência do domínio colonial em 1957, um evento que impulsionou outros movimentos pró-independência em todo o continente africano. Havia Julius Nyerere na Tanzânia falando sobre um “socialismo africano”.

Antes da década de 1960, havia a Carta das Mulheres de 1954 na África do Sul exigindo igualdade entre homens e mulheres, houve a Marcha das Mulheres de 1956, o massacre de Sharpeville em 1960, a desobediência civil durante esse período e muitos outros exemplos de luta contra a opressão. Então, retratando a luta sul-africana como essencialmente travada pelo PAC e pelo CNA, e assim que essas organizações foram proibidas, houve algum tipo de trégua na luta contra a opressão e o apartheid é uma falsa análise.

Outra questão pouco relatada sobre Biko e a época em que ele atingiu a idade adulta é como ela foi pega nas contradições do stalinismo e da União Soviética em geral. Claramente, isso não era mais uma alternativa, como muitos imaginaram após a Segunda Guerra Mundial e a maioria dos ativistas negros, incluindo os Black Panther Party, estavam pensando em esticar o marxismo, usando suas idéias quando se tratava de organização partidária, mas vendo o lumpemproletariado em termos essencialmente raciais como Fanon fez.

Existem semelhanças entre Biko e Stokely Carmichael em termos de organizar os alunos inicialmente usando táticas não-violentas, mas depois se tornando militantes e afirmando a negritude ou “reivindicando a negritude” como Stokely chamaria. Ao mesmo tempo, Malcolm X também estava na cena, alegando que a negritude era o oprimido, mas também como o agente revolucionário. Os trabalhadores também estavam organizando.

Agindo como se nada existisse antes, durante ou depois de Biko é uma falha na análise. É importante enfatizar que ele emergiu em um período em que uma fragmentação de idéias e erupções ideológicas estavam ocorrendo em outros lugares e estes, por sua vez, informavam suas idéias.

A idéia de Biko de Consciência Negra, embora original no contexto da África do Sul, era muito semelhante às idéias de Carmichael. Meu ponto é que sou crítico daqueles que tentam higienizar essa história descontextualizando a progressão de suas idéias políticas.

Tendo dito tudo isso, Biko foi um pensador muito importante cujas idéias foram adotadas por muitos movimentos. Suas idéias sobre a consciência negra foram importantes para focar o que o apartheid fez com a psique dos negros. Ele falou sobre a recuperação da negritude, mas também pensou em como nós, como negros na África do Sul, devemos nos relacionar com os negros e os indianos como os oprimidos. Ele enfatizou que, embora houvesse uma hierarquia de opressão racial, todos nós precisávamos abordar o sistema como um coletivo oprimido.

A consciência negra é uma idéia que funciona melhor em um cenário capitalista de supremacia racista. No entanto, sua interpretação hoje é muito neoliberal. Você ouve falar de “excelência negra”, por exemplo, não há nada de errado com isso, mas é um conceito ligado a um enquadramento neoliberal que se concentra no indivíduo. Tal abordagem não ajudará a romper com o sistema, mas perpetua desigualdades, pois o capital, por natureza, produz essas desigualdades. Se você se vê como um indivíduo focado em alcançar a “excelência negra”, esquecendo-se de estruturas que produzem desigualdades, então você não está ajudando a resolver o problema. Se tais visões prevalecerem,

As soluções de Biko para os problemas negros eram duas: a consciência negra e o empoderamento econômico negro. A segunda parte é muito enfatizada recentemente, vemos isso mesmo na agora popular “economia municipal” na África do Sul, que é fundamentalmente neoliberal em sua filosofia. O governo provincial no centro econômico da África do Sul procura incentivar a cultura empreendedora em vários municípios. Por isso, quer apoiar as empresas negras. Essa ideia de crescimento dos negócios negros era parte da abordagem emancipatória de Biko. Biko queria criar mercados negros e expandir a propriedade de empresas negras. Uma vez uma idéia radical é usada atualmente para justificar a formação de elite, especialmente entre indivíduos politicamente conectados.

As ideias de Biko, embora radicais na época, não me entendem mal, apesar de jogarem nessa democracia burguesa em que nos encontramos, suas idéias eram radicais e importantes na época, mas ele não pensava muito em alternativas coesas que agora poderiam servir como contrapõe-se a idéias neoliberais.

Quais das idéias de Biko são populares hoje entre os intelectuais sul-africanos?

Sua morte em 1977 provocou militância entre as pessoas, por exemplo, quando você pensa na insurgência dos anos 1980, acho que parte da coragem emergiu das idéias da Consciência Negra de recuperar a negritude. Seus pensamentos sobre como deve ser a liberdade negra, que tipo de mentalidade precisamos para alcançá-la e através de quais métodos, ainda permeiam hoje através de vários movimentos sociais. Por exemplo, o movimento estudantil Fees Must Fall desencadeado em 2016 sobre estátuas que ainda perpetuam símbolos da inferioridade negra citou Biko extensivamente e suas visões se manifestaram em suas demandas. Eles exigiram que as primeiras e mais importantes estátuas de pessoas como Cecil Rhodes tivessem que ir, o currículo deve mudar e deveria haver uma representação maior de intelectuais que se parecem conosco nos ensinando, por exemplo.

As pessoas ainda gravitam em torno de Biko hoje porque, quando você lê seu trabalho, pode se identificar com ele como uma pessoa negra. Mesmo não sendo um tradicionalista que acreditava em culturas fixas, ele estava muito consciente do papel que normas e valores culturais desempenham para os africanos comuns em suas vidas cotidianas. Por exemplo, ele sabia que a religião era importante para as pessoas e sua perspectiva espiritual foi além do cristianismo e incorporou idéias de ancestrais. Ele falou sobre como a música pode iluminar a alma ferida, ele aproveitou as experiências diárias para realizar o potencial da cultura cotidiana para radicalizar e galvanizar as pessoas para a ação. Quando você o lê, ele acende o espírito radical em você para dizer: ‘sim, nós podemos lutar contra o sistema, sim, nós temos o direito de lutar contra o sistema’. Mas depois disso, você precisa pensar em que tipo de mundo você quer substituir o sistema atual. Aqui é onde estavam suas limitações. Mas como uma luz para acender a ação, ele era muito importante.

Quais são algumas das ideias mais populares entre os intelectuais sul-africanos hoje em relação ao caminho a seguir para o país?

Na academia, especialmente depois do movimento Fees Must Fall, a questão mais popular é a da descolonização. Seminário após seminário, conferência após conferência e artigo após artigo foram escritos sobre isso. A inspiração principal vem da bolsa de estudos latino-americana enfatizando a necessidade de descolonizar, por exemplo, o sistema de conhecimento entre outras questões estruturais mais amplas na África do Sul, que são inerentemente orientadas para o Ocidente e impregnadas de racismo. Esta é a escola mais popular de pensamento hoje.

As idéias marxistas foram rejeitadas, como de fato Biko as rejeitou em seus dias. A ligação entre classe e raça não foi integral em nossa análise, o marxismo não conseguiu incorporar a raça na equação. Enquanto isso, questões centradas em torno de nossa história e opressão são muito importantes para as pessoas. As pessoas usam termos como “gatilhos” para se referir à dor que nos foi infligida no passado e enfatizam que precisamos remediar isso. No entanto, o marxismo na África do Sul é incapaz de oferecer uma análise de como uma história de opressão racial e ser negro enquadra como as pessoas se relacionam com várias lutas além da abordagem operária.

Os Combatentes da Liberdade Econômica (EFF) de Julius Malema são bastante populares hoje entre as classes trabalhadoras e alguns intelectuais negros. Isso se deve ao fracasso da ANC em mudar radicalmente a vida das pessoas nos municípios onde há enorme desemprego. Eu venho de uma cidade chamada Kagiso. Quando eu vou para casa, em um dia de semana, parece um fim de semana lá, jovens homens e mulheres nas ruas sem emprego. Há protestos praticamente ininterruptos, pessoas exigindo serviços. Na década de 1990, as pessoas esperavam pacientemente pela mudança, mas, nos anos 2000, começaram a perceber que isso não estava acontecendo. Isso desencadeou alguns ataques xenófobos, como os recentes, contra donos de lojas paquistanesas, que foram saqueados por pessoas que se queixavam de que estavam vendendo comida estragada. Os impostos aumentaram, o IVA foi aumentado em abril levando a aumentos acentuados nos preços dos alimentos. Há tensão em todos os lugares.

Essa é a crise em que estamos desde que Ramaphosa se tornou o presidente, apertando não apenas os pobres, mas também a classe média. Isso criou espaço para a EFF, especialmente com Malema forçando a conversa sobre a corrida no fórum público. Até então, a esquerda tinha ficado obcecada com a aula, enquanto a conversa sobre raça tinha sido silenciada. A esquerda concentrou-se nas estruturas econômicas, negligenciando a manifestação cotidiana de ser negro. Eles sentiram falta dos sentimentos que os jovens tinham sobre não ser apenas pobres, mas pobres e negros também. Malema explorou isso muito bem. Ele também usa a metodologia dos Black Panther Party, utilizando um modelo marxista-leninista de estruturas partidárias combinadas com elementos Fanonianos incorporando raça e tratando o indivíduo racialmente oprimido como um sujeito revolucionário. Novamente, isso remonta às idéias dos anos 60 antes e durante o período ativista de Biko. Embora envolvidos em alguns escândalos de corrupção, a EFF tem atraído jovens desempregados, principalmente homens, mas também algumas pessoas de classe média que experimentaram racismo nas corporações em que trabalham, que ainda são em grande parte propriedade de pessoas brancas. Alguns intelectuais negros também foram atraídos para a EFF.

No entanto, muitos dos protestos nas ruas exigindo serviços básicos como água e eletricidade não são organizados por nenhum partido político ou movimento, eles não têm políticas específicas, eles simplesmente querem serviços. Os novos movimentos estudantis, enquanto isso, não estão apenas usando o Biko como um símbolo, mas também desafiando a dinâmica de gênero, as ideias de feminismo se tornaram um debate fundamental nas lutas com o poder e o patriarcado. As mulheres estão protestando contra a violência doméstica e o patriarcado, mais uma vez nos levando de volta às idéias dos anos 1960, que estão voltando de maneiras diferentes. Em geral, idéias revolucionárias sobre raça e gênero que remontam aos anos 50 e 60 estão retornando, a única diferença é que elas estão emergindo hoje em forma e estilo modernos, especialmente com a proliferação de mídias sociais que podem ser usadas para espalhar uma mensagem muito rapidamente.

Existe alguma parte que, na sua opinião, se eles chegaram ao poder, seria melhor implantar esse poder para a melhoria das pessoas? Você mencionou a EFF de uma forma bastante positiva, mas disse que eles também foram implicados em escândalos de corrupção. Com base em que você os associa a quaisquer esperanças de mudança positiva para os sul-africanos oprimidos? Como você sabe, a história está repleta de exemplos, muitos na África, infelizmente, de pessoas subindo ao poder com o apoio de todos os tipos de slogans igualitários, apenas para se empanturrarem com os recursos do estado quando chegarem lá.

Bem, quais são as opções? Existe a Aliança Democrática, que é um partido muito liberal, então você tem a garantia de um conjunto de políticas econômicas liberais se elas chegarem ao poder. Além disso, eles parecem não dar ênfase à nossa história e não reconhecem as cicatrizes psicológicas que o apartheid deixou nos negros. Ideologicamente, esta não é uma opção viável para mim. Então você tem o ANC e o EFF. A EFF quer o capitalismo de estado. Eles devem ser entendidos como uma parte que resta do ANC, não aquela de esquerda que você entende, mas simplesmente deixada do ANC. Eu votarei neles. Não porque eu acredite que eles, ou qualquer outra parte, possam emancipar a classe trabalhadora. Não, a classe trabalhadora precisa encontrar a agência em si para lutar por si mesma.

Nenhum político ou partido político salvará a classe trabalhadora ou os pobres, não sejamos delirantes. Para mim, a esperança é que a classe trabalhadora se organize e lute por si mesma. A EFF quer o capitalismo de estado e isso pode acontecer de duas maneiras, como mostra a história. Pode se tornar muito autoritário ou focar na construção de novas formas de elites. A EFF é importante para os debates entre as raças, mas não acredito ingenuamente que eles serão nossos salvadores. Como sempre, a classe trabalhadora continuará tentando novos partidos, esperando algo melhor. Mas apenas sua militância pode forçar a mudança. A EFF é filha do ANC e não pode romper com os elos corruptos do ANC.

Qual seria então o valor agregado da EFF para os sul-africanos regulares se um dia eles ganhassem poder?

Se eles chegarem ao poder, é claro que haverá reformas, eles não seriam capazes de simplesmente governar de uma maneira normal. Eles teriam que fazer concessões aos pobres. A questão da terra seria abordada, a terra se tornaria estatal. Com relação aos principais setores financeiros, como a mineração, eles estão atualmente tentando propagar um sistema de propriedade de três vias, no qual o Estado teria, digamos, 50% de uma mina, a comunidade 10% e o restante seria privatizado. Eles querem mostrar que estão prontos para negociar com ele e, ao mesmo tempo, tentar sustentar sua imagem radical.

Mas eles abriram um espaço no debate, encorajaram as pessoas a acreditarem que têm o direito de pressionar. Sei que a militância com a qual eles vieram não pode ser sustentada se eles ganharem poder. Se vencerem, haverá algumas grandes reformas, mas haveria contradições também, sem dúvida. E sim, há o perigo de tendências ditatoriais neles. Esse é o risco envolvido com eles. No entanto, eu ainda acho que a classe trabalhadora deve votar para o EFF exigindo algumas reformas específicas.

Então, basicamente você aceita que eles são um risco, mas acha que eles são um risco que vale a pena correr?

Sim eu quero. Além disso, uma questão importante que merece crédito por adotar a agenda também é a da reforma agrária, a idéia da expropriação de terras sem compensação. Embora tenha havido vários movimentos de sem-terra nos anos 2000, a EFF encorajou essa demanda e agora o parlamento aprovou uma resolução para emendar a constituição que permite a desapropriação de terras sem compensação. No entanto, neste momento, estão em andamento consultas públicas, que devem terminar com um relatório até o final de setembro.

Se o presidente Ramaphosa eventualmente assina essa emenda em lei, existe algum plano para como exatamente esse processo seria?

Não, neste momento não houve nenhum debate sobre quem conseguiria o quê e com que base. Os políticos são simplesmente apanhados na militância das pessoas que estão exigindo reformas. Toda essa questão da terra também reflete idéias popularizadas por Biko anos atrás. Além do desejo físico que as pessoas têm de recuperar suas terras, isso também faz parte de um reconhecimento psicológico de que esta é a sua terra.. O planejamento de nossas cidades hoje ainda é o mesmo que era sob o apartheid, com os desenvolvedores capazes de manter certas áreas exclusivamente ricas e brancas. Ou mesmo nas áreas rurais, você tem uma situação em que todas as melhores terras agrícolas são de propriedade dos brancos, então eles são os fazendeiros, enquanto os negros são simples residentes da aldeia com alguns negros que conseguiram dividir seu espaço no setor agrícola. As pessoas agora estão imaginando um tipo diferente de espaço; um tipo diferente de África do Sul e políticos estão correndo para responder porque querem votos. Mas a discussão sobre quem obterá o quê e se esse processo realmente fortalecerá os sul-africanos mais pobres ainda não foi iniciado.

Mosa Phadi concluiu seu doutorado na Universidade de Joanesburgo em 2017. Ela trabalhou durante anos em questões raciais e de classe, incluindo dois relatórios inovadores sobre os municípios locais de Mogalakwena e Lephalale. Ela trabalha como pesquisadora há mais de seis anos, publicou artigos revisados por pares e produziu um documentário de pesquisa com foco na ideia de classe média em Soweto.

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Publicado no site ROAPE 12, de setembro, 2018 Compreendendo Steve Biko: raça, classe e luta na África do Sul

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KARIBU MWALIMU RODNEY : UMA INTRODUÇÃO À VIDA E OBRA DE WALTER RODNEY, HISTORIADOR E MILITANTE PAN-AFRICANISTA

Por Kwesi Ta Fari (F. Gomes)

Walter Rodney foi um dos mais importantes historiadores do século XX, com um legado de inquestionável pertinência para o mundo africano.

Entre as décadas de 1960 e 1970, as intervenções de Walter Rodney foram conhecidas nas Américas, África, Ásia e Europa, abrangendo uma audiência de investigadores, artistas, professores e temas envolvendo historiografia, política, história, cultura, economia e movimentos sociais. Por razões políticas, o historiador foi assassinado no ano de 1980, em sua terra natal, a República Cooperativa da Guiana (ex-Guiana Inglesa ).

Neste artigo, apresentamos um panorama geral da trajetória de Walter Rodney, comentamos aspectos do seu livro Como a Europa Subdesenvolveu a África e destacamos exemplos de menções feitas a Walter Rodney em artigos e livros publicados no Brasil.

Acesse o artigo completo aqui

 

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Memórias de Azânia! (África do Sul e Namíbia)

Celebração Kwanzaa, Data: 26 de Dezembro de 2015 Local: Johannesburgo.
Celebração Kwanzaa, data: 26 de dezembro de 2015, local: Johannesburgo.

Eu realmente gostaria de ter escrito muitos textos quando estava em Azânia, mas infelizmente nem sempre as coisas são como planejamos, lá eu não tinha tempo de parar e escrever, e como estava com dificuldade de conexão com a internet, dificultou um pouco mais. Acredito que seja importante relatar este momento, pois de onde eu falo ainda somos muito poucos que tiveram e tem a oportunidade de fazer um intercâmbio cultural desse tipo. Fiquei 4 meses na África do Sul (nome denominado pelo colonizador), na cidade de Johanesburgo (entre 7 de setembro de 2015 a 1 de janeiro de 2016). A realização desta incrível viagem foi através de longos anos em um trampo (foi preciso 10 anos em um emprego para fazer um intercâmbio), e através também do apoio do coletivo Kilombagem, do qual faço parte. Ir para o Continente Africano foi muito mais do que apenas um intercâmbio: representou a volta de uma filha a terra originária, representou todos do coletivo Kilombagem, representou todos os afrodescendentes fora do continente africano, representou a força de todas as famílias africanas na diáspora que lutam todos os dias para garantir o mínimo de sobrevivência para os seus, como minha mãe, mulher preta, guerreira, faxineira, que sonhava em ser psicóloga, mas devido a dureza que o sistema escravocrata e capitalista proporcionou para nós, afrodescendentes, foi obrigada a trocar a sala de aula pelo trabalho na plantação de café com apenas 7 anos de idade.

Chegando em Johanesburgo uma organização chamada Ebukhosini Solutions me recebeu com muito cuidado e alegria. Como eu tive a oportunidade de ficar hospeda nesta instituição, hoje eu entendo que é muito mais do que uma empresa empreendedora social, é uma família pan-africanista, kemetism e vegana. O líder, responsável e diretor executivo da organização é um pan-africanista chamado Baba Buntu, nascido em uma ilha na América Central, mas já vive há mais de 10 anos na África do Sul. Esta organização oferece consultas e serviços relacionados como desenvolvimento da comunidade, capacitação de jovens, treinamento de liderança, transformação social, eventos culturais, produção e educação centrada africana. Algumas atividades desenvolvidas são: seminários, palestras, Kemetic Yoga (é uma forma egípcia africana de respiração, movimento e meditação) e o Kwanzaa. Eu aprendi muito nesta organização, desde a sonhada disciplina revolucionária que muitos coletivos se esforçam e lutam para conseguir implantar, até um novo olhar para a questão da alimentação, pois como a família é vegana, eles não vêem a alimentação como algo à parte da revolução, é como se fosse uma coisa só. Confesso que antes da viagem o máximo que conseguia fazer era um ovo frito, hoje consigo cozinhar vários saborosos legumes e lembro como se fosse hoje a fala da Mama T (esposa do Baba Buntu): “Você precisa aprender cozinhar, não para fazer para alguém, mas sim para você mesma”.

Ao chegar na África do Sul passei pelo normal processo de adaptação. Mesmo correndo o risco de ser mal interpretada querendo ou não, meu contato com a cultura sul-africana foi através de um olhar de uma afrodescendente na diáspora, nascida em terras brasileiras, no continente sul americano, colonizado por portugueses, descendente de escravizados, de família da classe trabalhadora e humilde. Todos estes aspectos não são irrelevantes, pelo contrário, influenciaram a forma que eu me deparei com a cultura sul-africana. Por mais que o povo negro compartilhe com muitas coisas similares em qualquer parte desse planeta, a colonização deixou rastro em todas as partes que ela tenha se instalado. Não dá para negar a influência inglesa em alguns pratos, na forma de se vestir, na língua falada comercialmente, na arquitetura das casas, escolas e prédios (lembrava muito os filmes estadunidenses com aquelas escadas do lado de fora dos prédios). Mas isto não significa que aspectos tradicionais da cultura sul africana tenham se perdido ou não existam mais, pelo contrário, o contraste entre a cultura inglesa, europeia, indiana e a cultura sul africana é muito presente e visível de diferenciar. Outra coisa que não dá para negar (talvez muitos torcerão o nariz) é que o continente africano não é mais o mesmo que 500 anos atrás, não é mais o mesmo quando nossos ancestrais foram sequestrados, não é mais o mesmo após a invasão e a colonização europeia, sem falar do processo de globalização que não poupou nenhum país intitulado como democrático.

Na África do Sul há 11 línguas oficiais (zulu, ndebele, sesotho do sul, sesotho do norte, swazi, tswana, tsonga, venda, xhosa, africâner e inglês). Nas ruas de Johanesburgo e Pretoria a maioria da população sul africana negra fala zulu, já os sul africanos brancos falam africâner. Os sul africanos falam mais de 3 línguas na média, é algo muito comum para eles. O inglês é reconhecido como língua do comércio e da ciência, mas não necessariamente é a língua mais falada. Eu lembro que a primeira vez que eu peguei ônibus em Johanesburgo, eu saudei um “Bom dia” para um motorista negro em inglês, ele não respondeu. Depois entendi como a questão da língua tradicional é importante no continente africano, e o inglês é a língua do colonizador. Se Crummell fosse do nosso tempo ela jamais defenderia a adoção da língua inglesa como a língua a ser implantada na construção de um estado negro africano. Já para nós descendentes de africanos escravizados e colonizados a língua que nós falamos que é a língua do colonizador é apenas uma língua. Fiquei pensando em que momento e de qual forma a língua tradicional falada pelos africanos escravizados se perdeu, pois se tivesse se mantido, talvez nós saberíamos de quais reinos nossos ascendentes eram originários.

Na minha percepção a língua pode se tornar um dos fatores determinantes de separação e impedimento de unidade de um povo. Muitas vezes me sentia isolada dos interessantes debates que eles travavam pelo fato de não dominar o inglês ou o zulu. Ao que me parece, o Brasil também está isolado do mundo, como se estivesse em uma ilhazinha bem distante, como se apenas países – que, aliás, muito poucos – que falam português conhecessem um pouco do tal país chamado Brasil. Geograficamente, o Brasil está mais perto da África do Sul do que os Estados Unidos, mas na prática está muito mais longe da África do Sul do que os EUA, e não é só porque os Estados Unidos é o império dominante no mundo, a língua é um fator determinante também de aproximação. Muitos sul africanos sabem da violência policial contra a população negra nos Estados Unidos, já ouviram falar do Movimento “Black Lives Matter”, mas não sabem da violência policial contra a população negra no Brasil e nunca ouviram falar da “Campanha Reaja Ou Será Morto, Reaja Ou Será Morta!

Em Johanesburgo, no bairro de Braamfontein, estudei em uma escola de inglês chamada ABC International e lá tive grande a oportunidade de ter contato com jovens estudantes de outros países, como Angola, Moçambique, República Democrática do Congo, República do Congo, Líbia, Burkina Faso, Somália, Gabão, Burundi e Turquia. A grande maioria destes estudantes era muito jovem, de classe média, que estava estudando primeiro inglês lá para depois ingressar em uma faculdade na África do Sul. Tirando os estudantes da Turquia que eram a minoria, a maior parte dos estudantes era de negros. Conversando com muitos estudantes africanos, eles diziam que as universidades de seus países não eram boas e reconhecidas em todo Continente Africano como as universidades da África do Sul. Um dado importante é que as universidades na África do Sul são todas pagas, seja pública ou privada, os estudantes pagam e os preços não são acessíveis. Em 21 de outubro de 2015, estudantes protestaram contra o aumento do preço das matrículas universitárias[i], como a polícia é igual em qualquer parte deste planeta, recebeu os estudantes com bala de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Gostaria de ter acompanhado esta manifestação, e outras também, pois os sul africanos são muito ativos na luta por melhores condições, pois quase toda semana havia um protesto, mas em todas as vezes que estava acontecendo uma manifestação, eu estava tendo aula.

Na escola, teve vários momentos que eu jamais esquecerei, um desses foi quando eu perguntei para uma senhora da Líbia o que ela achava do ex-presidente Gaddafi (como ela fala árabe, a nossa comunicação era em inglês, na verdade tentava me comunicar em inglês, pois não era algo fácil). Ela começou a chorar, disse que o Gaddafi era louco, mas antes da derrubada dele, a Líbia tinha escolas, boa educação, não tinha roubo, sequestro e as pessoas deixavam as portas abertas da casa e ninguém entrava para roubar, e hoje está tudo destruído, não dá mais para viver lá. Eu quase chorei junto com ela, e lembrei da esperança que muitos depositaram com a entrada do primeiro presidente negro nos Estados Unidos, até Nobel da Paz ele ganhou em 2009, e é o mesmo presidente que autorizou a intervenção na Líbia. Independente das contradições que era o Gaddafi, a Líbia tinha o maior IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – de todo o Continente Africano.

A maioria dos professores na escola era brancos, desta forma o meu único contato com os brancos foi através da escola. A relação entre professores e alunos era muito boa, saudável, respeitosa e tranquila. Um exemplo que ilustra bem esta relação foi quando eu me despedi de uma atenciosa professora de origem europeia e ela me passou seu WhatsApp e me pediu o meu contato, e disse que se eu precisasse de alguma ajuda ou tivesse dúvida com o inglês era para contatá-la. Mas como nem tudo são flores, a relação entre os sul africanos brancos de origem europeia com os sul africanos negros era bem diferente e isso se refletia dentro da sala de aula. O conflito e a divisão que o apartheid proporcionou é bem visível e muito presente ainda hoje. A mesma professora prestativa que se colocou à disposição para me ajudar é a mesma que em vários momentos fez comentários problemáticos e muitos entenderiam como racistas em relação aos sul africanos negros, na atual conjuntura, se fosse em alguns espaços aqui no Brasil, já teria dado processo e nota de repúdio. Mas entre os professores brancos o que mais me surpreendeu foi a relação que eles têm com a sua identidade europeia. Exceto um professor inglês, todos os demais professores brancos que eu tive contato nasceram na África do Sul e apenas seus avós ou bisavós não tinham nascidos no continente africano, mas todos remetiam sua identidade europeia como se estivesse apenas de passagem no país africano, como se fossem verdadeiros turistas que em uma determinada data regressariam para seus países de origem.

Algo também muito presente dentro da sala de aula era a explicita desaprovação que os professores brancos tinham em relação ao atual Presidente Jacob Zuma. (Zuma é de origem Zulu e faz parte do mesmo partido do Nelson Mandela, ANC: Congresso Nacional Africano). Na escola tinha um professor branco, nascido na África do Sul, mas de origem europeia, muito simpático, não tinha ideias reacionárias, era contra o Estado, contra o atual sistema e ateu, vivia se queixando da atual política do presidente Zuma que favorecia apenas a população negra. Ele dizia que se você fosse negro você teria um emprego garantido, agora se você fosse branco não seria fácil conseguir um emprego. Era unânime a ideia entre os professores brancos de que o Presidente Zuma era burro e sem competência para administrar o país. Já o ex-presidente Nelson Mandela era bem visto, em nenhum momento eu presenciei algum comentário negativo ou alguma crítica dos professores brancos ao Mandela.

Confesso que no início estranhei bastante a visível separação entre brancos e negros presente na África do Sul, há bairros de brancos, negros e de indianos. Não que essa separação no Brasil não esteja presente, mas você apenas consegue visualizar essa separação em espaços elitizados. Para os brasileiros que não tem a consciência de classe, raça e gênero, ou para os estrangeiros ou turistas que visitam o Brasil, realmente acreditam que o Brasil é um paraíso racial, o mito da democracia racial é algo muito presente. Na África do Sul o apartheid acabou oficialmente em 1994, mas ainda é algo muito recente, minha geração vivenciou este desumano sistema, é como se fosse uma mancha que paira no país, que afeta todos, não deixando ninguém imune. Na minha percepção, é algo que não foi superado e resolvido. Para ilustrar como este tema é muito complexo, um jovem estudante do Gabão chamado Axel, uma vez disse na sala de aula para uma professora que, para ele, o apartheid não tinha acabado, só tinha mudado de forma, ela respondeu que não era bem assim, pois hoje as pessoas estão juntas no supermercado.

O racismo está presente na África do Sul e é muito forte. Comparando o racismo no Brasil e o racismo na África do Sul, entendo que é algo que não dá para mensurar qual é o pior ou qual é o menos pior, pois o racismo é racismo e é ruim em qualquer lugar desta galáxia. Mas avalio que o racismo que existe na África do Sul é tão complexo quanto o racismo que existe no Brasil, é claro que a forma como o racismo se articula e atua nos dois países é bem diferente. Na África do Sul há uma enorme quantidade de representatividade negra atuando em vários espaços, na televisão, na política, há uma classe média negra considerável e mesmo correndo o risco de estar errada, entendo que há uma burguesia negra consolidada ou em processo de consolidação. Nas ruas, várias BMW dirigidas por negros, nos Shopping Center estilo JK Iguatemi e Cidade Jardim há vários negros e não trabalhando, e sim comprando e passeando, há bairros nobres e elitizados de negros… A representatividade está presente, mas o racismo também está, há uma enorme desigualdade social e racial, muito negros e brancos pobres, mas óbvio que a pobreza se concentra em maior medida na população negra, mas isso não significa que não tenha brancos pobres. Há muitos moradores de rua, alto índice de criminalidade, muitos negros estão fora das universidades e desempregados. No Brasil os debates de empoderamento e representatividade para o povo negro estão muito presentes, e entendo que estes dois temas são importantes, mas acredito que é um erro focarmos apenas nestes dois temas para superação do racismo, pois já se mostraram insuficientes.

A África do Sul é considerada um país em desenvolvimento, tem o 2º maior PIB do Continente Africano, só perdendo para a Nigéria e faz parte do BRICS. Há casas, ruas, lojas, escolas, shopping, museus, hospitais, igrejas (a Igreja Universal também está presente na África do Sul) e casas noturnas de altíssimo padrão, como também há bolsões de pobreza, alto índice de criminalidade e desigualdade social. Há uma enorme quantidade de estrangeiros africanos de outras partes do continente. Há muitos estrangeiros que vão para estudar, ou em busca de melhores condições de vida e trabalho. Como a taxa de desemprego não é baixa, a procura por emprego entre sul africanos e estrangeiros acaba caminhando para uma disputa que se transforma em xenofobia. A mais recente onda de xenofobia ocorreu em março de 2015, deixando 7 mortos e 307 presos[ii]. A divisão entre sul africanos negros e estrangeiros negros está presente na África do Sul. Na escola, todas as vezes que eu perguntava para os estudantes estrangeiros o que eles achavam dos sul africanos as respostas eram sempre as mesmas coisas. Na visão dos estudantes, os sul africanos não são pessoas do bem e muito racistas devido a onda de violência contra estrangeiros negros. Eu perguntava se a onda de violência contra os estrangeiros negros não era uma questão de xenofobia e não racismo, muitos concordavam com minha reflexão, mas teve um jovem angolano que questionou argumentando a seguinte questão: se é apenas xenofobia, como você explica a onda de violência apenas contra estrangeiros negros e não com estrangeiros brancos? Analisando hoje essa questão, entendo que ser apenas preto não subentende que estaremos unidos enquanto povo em lugar algum, pois a escravidão e a colonização nos dividiram e a luta de classes ainda nos divide.

Como em Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné Bissau falam o português, muitos sul africanos achavam que eu era de algum desses países e o tratamento que eles me davam era de um jeito, quando eu dizia que era brasileira, claramente o tratamento mudava. Vários africanos falavam que nunca tinham visto uma brasileira, de fato não há muitos brasileiros como angolanos ou moçambicanos, mas na verdade quando eles diziam que nunca tinham visto uma brasileira, eles estavam se referindo a brasileiros negros, pois mais de uma pessoa chegou a comentar que pensava que não existiam negros no Brasil. Essa questão nos fazem pensar qual a imagem que a elite brasileira passa de sua população lá fora, haja vista que o Brasil é o segundo país em população negra do mundo, só perdendo para a Nigéria. Outra questão para refletirmos é: quem são na sua grande maioria os brasileiros que viajam para fora do Brasil?

A questão racial também é complexa na África do Sul. No Brasil, os afrodescendentes que mais se aproximam do branco conseguem circular em alguns espaços mais do que os afrodescendentes mais retintos como já bem estudado pelo Clóvis Moura. Já na África do Sul, os miscigenados chamados de “colored” tinham alguns privilégios na época do apartheid, logo a separação entre miscigenado e sul africanos está presente no país. Não são todos os africanos que têm consciência racial, nem todos são pan-africanista ou conhecem pouco sobre esta ideologia, logo deixando de lado o romantismo, não são todos os africanos que consideram os afrodescendentes na diáspora como originários de um povo só, e sim apenas americanos, latinos, brasileiros ou até mesmo “colored”.

Eu tive a grande oportunidade de ter contato com africanos de outras nacionalidades dentro da organização Ebukhosini Solutions. Fiquei muita próxima de dois talentosos músicos irmãos ganenses chamados Ofoe e Tetteh. A inteligência, gentileza e sensibilidade deles eram incríveis, nós falávamos sobre vários temas complexos como machismo, feminismo, estupro, capitalismo, religião, sexualidade…. A conexão com eles dois era tão especial que talvez meus ancestrais sejam da região que hoje é denominada Gana, apesar de que algumas pessoas disseram para mim que meus traços são parecidos com os africanos da região da Etiópia. Fiquei muita próxima também de uma linda e guerreira ruandesa chamada Ukwezi (Ukwezi significa lua em Kinyarwanda) e de sua irmã mais nova chamada Pamela. Fiquei muito amiga delas, a Ukwezi tem uma linda filhinha chamada Izaro. Sempre que possível eu tinha aula de inglês com a Ukwezi, na verdade era muito mais do que aulas de inglês, eram aulas para a vida, ela era muito inteligente, nós falávamos de racismo, feminismo, movimento rastafári, líderes revolucionários, revolução e capitalismo. Ao contrário de alguns grupos, organizações e coletivos negros aqui no Brasil que negam ou se recusam a falar sobre o estrago do capitalismo para o povo negro, em todas as conversas sobre capitalismo que eu tive com os africanos (sul africanos, ganenses e ruandês) esse tema está muito óbvio, eles entendem e visualizam nitidamente o problema que o sistema capitalista gerou para o continente africano.

Os jovens sul africanos usam roupas bem parecidas com o estilo estadunidense, mas as roupas tradicionais africanas estão presentes nas ruas, nas lojas e nos eventos que eu tive a oportunidade de participar. Achei muito bacana o estilo das sul africanas, elas usam aqueles chapéus chiques que aqui no Brasil só vimos nos filmes estadunidenses. O estilo de cabelo varia bastante: cabelos com tranças, cabelos raspados, cabelos alisados, cabelos naturais e cabelos colocados (brazilian hair é o nome denominado pelas sul africanas, faz o maior sucesso no continente africano). Há muitos salões de beleza em Johanesburgo (eu vi bastante) e o interessante é que a foto da modelo estampada na maioria dos salões de beleza é da Rihanna. Diferente do Brasil, a diva na África do Sul é a Rihanna, e não a Beyoncé. Para todas as meninas que eu perguntava, preferiam a Rihanna a Beyoncé. Acredito que alguns dos motivos da preferência pela Rihanna são: primeiro, como elas falam também inglês, conseguem entender a mensagem que a Beyoncé e a Rihanna passam; segundo, a Rihanna representa a ideia de superação e possibilidade, pois nasceu em uma pequena e desconhecida ilha chamada Barbados e hoje faz sucesso no mundo inteiro.

A África do Sul tem uma vasta e rica cultura, além das culturas tradicionais, há muitos estrangeiros de outros países do continente africano. Em Johanesburgo tem um importante e interessante bairro pan-africanista chamado Yeoville, neste bairro há muito afrodescendentes da diáspora e africanos de outros países do continente africano como Nigéria, Gana, Congo, Angola, Moçambique…. pelo que eu entendi é considerado um bairro periférico também. Neste bairro tem uma livraria com vários livros com preços acessíveis de autores pan-africanistas. É neste bairro que eu fazia Kemetic Yoga, essa atividade é oferecida gratuitamente todos os sábados pela organização Ebukhosini Solutions. Em cada encontro era um voluntário que se dedicava a passar seus conhecimentos, eu tive alegria de fazer aulas com a Mama T, Siyabonga, Pitsira, Ursula e Ted Niacky (com ele eu fiz uma interessante aula de Kemetic Boxing). Nesse bairro tem muitos rastas também, com muitas cores do reagge e do pan-africanismo, há imagens do Bob Marley e Fela Kuti.

Na primeira semana que eu cheguei na África do Sul eu fui para um maravilhoso show de jazz em Johanesburgo. O jazz e soul estão muito presentes no país, eu lembro que uma vez entrei em um ônibus ao som de Billy Paul – canção Me and Mrs. Jones. É óbvio que o hip hop e os estilos musicais tradicionais africanos também estão presentes no país. Mas o estilo musical que os jovens escutam bastante é o house music, na verdade não conheci ninguém que não gostasse de house music. Eu lembro que no dia do meu aniversário eu fui para uma festa chamada “Obrigado”, nesta festa supostamente tocaria músicas brasileiras e latinas, os DJs tocaram algumas MPB e sambas, mas tudo no estilo eletrônico, eu não sei como, mas sambei até não aguentar mais, mesmo na batida eletrônica. No show da virada do ano em Johanesburgo o estilo musical mais tocado e dominante era o eletrônico, o house music é uma verdadeira febre para os jovens. Já dentro da organização, os estilos que eles mais escutavam eram reggae, jazz e soul, mas a canção que eu tive a felicidade de conhecer e que mais me marcou foi do “Wambali – Ndimba Ku Ndimba”. [iii]

Na África do Sul o transporte mais comum e usado pela população negra são os chamados táxis (são parecido com lotações para nós), estas lotações são privadas, o custo não é muito caro e você vai sentado, (diferente do transporte público aqui em São Paulo, que você paga caro e com muita sorte, luta, briga e discussão consegue um lugarzinho sentado). As lotações geralmente não estão em situações boas e, infelizmente, há muito acidentes. Há ônibus e trens também, mais o que mais me chamou atenção foi o trem bala chamado Gautrain que liga Sandton ao aeroporto, e liga também Johanesburgo a Pretória. Foi a primeira vez que andei em um trem bala, o trem é muito moderno, bonito e rápido, o problema que é não é um transporte acessível à população local, há muitos turistas e brancos, você encontra negros também, mas da classe média e alta.

Tive a oportunidade de visitar a Namíbia através de uma organização chamada Namibian Brazil Friendship Association (NBFA). Esta organização me convidou a fazer várias apresentações sobre a situação da população negra no Brasil (violência policial, racismo e homicídios do povo negro) em várias universidades e organizações. Fiquei 4 dias na capital em Windhoek (entre os dias 19 a 23 de outubro de 2015), em uma pousada que tinha, na sua grande maioria, angolanos. A Angola faz fronteira com a Namíbia, logo, há muitos angolanos estudando e morando na Namíbia. Nas apresentações que eu fiz nas universidades, os estudantes eram muito poucos e conheciam praticamente nada sobre o Brasil. A apresentação que teve maior número de jovens foi em uma organização fora da universidade chamada Young Achievers Empowerment Project. O encontro foi na sede da organização, foi a apresentação mais interativa, os jovens fizeram muitas perguntas. Entre várias perguntas, uma que mais me chamou a atenção foi a pergunta de uma linda jovem namibiana, ela perguntou se eu me considerava negra. Respondi que sim e perguntei porque não me consideraria negra, ela respondeu que o motivo da pergunta era porque meu cabelo era diferente e agradeceu por eu me considerar negra.

A República da Namíbia tem uma linda história de luta e resistência, conseguiu sua independência da África do Sul através de muita luta na década de 90. A língua oficial é o inglês, mas muitos namibianos falam oshiwambo como sua primeira língua, outras línguas faladas também são nama/damara, kavango,hereró, africâner e o alemão (estas duas últimas falada pelos brancos). Eu vi muitas lojas e escolas com informações em alemão, há muitos alemães ou pessoas de origem alemã na Namíbia. A arquitetura dos prédios e o povo namibiano lembram muito os sul africanos, as ruas em Windhoek são extremamente limpas, lembra a cidade de Pretória na África do Sul. A forma comum de se locomover na capital da Namíbia é através de táxi, diferente do Brasil, o táxi é barato. É uma forma de transporte privado, mas a forma de utilização lembra o transporte público porque os taxistas não atendem um passageiro apenas, em uma viagem eles geralmente atendem 4 passageiros ao mesmo tempo. Há ônibus, mas ainda são muito poucos, o governo ainda está no processo de implantação de transporte público que atenda a demanda da população.

A incrível oportunidade de ter ficado com uma família pan-africanista foi uma das experiências mais significativas que eu tive em Azania. O caloroso acolhimento de toda a família, que morava e frequentava a eBukhosin, é algo impossível de descrever com apenas palavras. O cuidado que todos me receberam foram verdadeiros gestos de uma família que estava recebendo o regresso da filha mais nova, uma filha que estava de férias em algum país um pouco distante, mas que nunca deixou de ser esquecida e com prazo de retorno estabelecido. A cumplicidade e a vivência na casa ajudaram também para o fortalecimento desse sentimento de filha, tendo como pais Baba Bantu e Mama T, tendo como irmãos e irmãs (correndo o risco de faltar alguém) Ofoe, Siyabonga Moringe, Tetteh, PitsiRa, Thabiso, Patrick, Siyabonga Lembede, Phumulani, Mabule, Thabo, Ukwezi, Disebo, Mbaliyethu, Pamela, Nonhlanhla… As atividades que eu tive a grande oportunidade de participar como seminários, palestras, Afrikan Lunch, Yoga, eventos, Kwanzaa, debates e encontros com outros jovens líderes foram fundamentais para reforçar o espírito e atos de unidade, solidariedade, disciplina, práticas revolucionárias e um orgânico e ativo pan-africanismo como algo possível e viável. Hoje visualizo que o conjunto de todas essas atividades foi para além da aprendizagem, se tornou uma verdadeira transformação espiritual e mental. É algo que está e sempre estará presente em cada direção, passo e posicionamento na minha vida em diante. Sou grata a família eBukhosini e a todas que diretamente e indiretamente fizeram parte dessa maravilhosa oportunidade, experiência e aprendizado.

A experiência e aprendizado que eu tive na África do Sul e na Namibia foram incríveis, algo que levarei para vida toda. Uma das coisas que eu tive a oportunidade de vivenciar e participar foi do Kwanzaa (é uma celebração comemorada entre os dias 26 de Dezembro a 1 de Janeiro por milhares de africanos e afrodescendentes ao redor do mundo). Desde 2002, a Ebukhosini Solutions junto com outras organizações realizam a celebração do Kwanzaa, entre várias atividades tem música, poesia e boa comida. Eu já tinha ouvido falar dessa celebração, mas confesso que conhecia muito pouco, não entendia o real objetivo e nunca tinha participado. Hoje eu entendo a importância dessa celebração, e entre os princípios do Kwanzaa (Umoja: união; Kujichagulia: auto-determinação; Ujima: trabalho coletivo e responsabilidade; Ujamaa: economia cooperativa; Nia: propósito; Kuumba: criatividade; Imani: fé), a união é o que mais me chamou a atenção. Na celebração havia muitos africanos de outras nacionalidades e de várias religiões. A celebração do Kwanzaa no Brasil e em outras partes desse planeta pode ser o caminho ou uma das possibilidades para construção da sonhada unidade para o povo africano dentro e fora do continente africano.

Veja as fotos aqui: https://flic.kr/s/aHskuZ31C7

[i]http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2015/10/21/estudantes-enfrentam-policia-em-frente-ao-parlamento-na-africa-do-sul.htm

[ii]http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/04/1618597-ataques-xenofobos-na-africa-do-sul-deixam-7-mortos-e-307-presos.shtml

[iii] Wambali – Ndimba Ku Ndimba: https://www.youtube.com/watch?v=uFiWZceyRI4&feature=youtu.be

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5 Dia do Curso Movimento de Libertação na África

No ultimo dia do Curso Movimentos de Libertação na África, Milton Barbosa (Miltão), nos trouxe a historia do movimento negro na perspectiva de quem viveu, vive a construção cotidiana do movimento negro no Brasil, fecha o curso nos narrando como todas essas teorias se refletem e contribuem para esse processo todo.

Confira as fotos!!

by Felipe Choco –

 

 

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4 Dia do Curso Movimentos de Libertação na África

E no nosso 4° e penúltimo dia do Curso Movimentos de Libertação na África, Sallomão Jovino da Silva nos trás a ideia do “afro pessimismo” na medida que se a África e suas cognições são inviáveis, todo ser humano preto no mundo também o é.

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by Felipe Choco –

 

 

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3° Dia do Curso; Movimentos de Libertação na África

Em nosso terceiro dia de curso, Weber Lopes nos trás numa perspectiva histórica, as contribuições e os apontamentos de Almicar Cabral e Samora Marchel na construção do que deve ser um partido e a importância da leitura da realidade concreta nos processos revolucionários.

 

Confira algumas fotos!!

 

 

 

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2° Dia do Curso Movimentos de Libertação na África

No segundo dia do curso, Deivison Nkosi nos traz a profundidade do pensamento de Frantz Fanon em sua busca na transformação do humano, suas implicações na luta do movimentos anti-coloniais e como seu pensamento vai influenciar os mais diversos pensadores(as) nas mais diversas áreas do conhecimento humano.

Confira algumas fotos!!

BY FELIPE CHOCO –

 

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CURSO NEGRO: MOVIMENTOS DE LIBERTAÇÃO NA ÁFRICA

De segunda-feira a sexta-feira  (18 a 22 de janeiro de 2016) Horário: 19h30 às 22h00.

Coordenação e organização: Danilo Ramos – Curador do Espaço Cultural Dona Leonor (CCDL) e Deivison Nkosi (Grupo Kilombagem).

Nossos passos vem de Longe!

O curso tem a finalidade de apresentar os debates teóricos e políticos presentes nas lutas de libertação dos países africanos a partir da segunda metade do século XX e, sobretudo, refletir sobre  a validade desse debate para o entendimento do racismo contemporâneo.  No curso serão apresentadas as biografias de algumas das principais lideranças e correntes que disputaram o interior do movimento pan-africanista, tais como o marxismo, o nacionalismo “africano”, a negritude cultural e científica, entre outros.

Serão problematizados ainda os dilemas e escolhas tomadas diante da chamada Guerra Fria, em especial as barganhas e intervenções dos países imperialistas como a Inglaterra e os Estados Unidos da América na contrarrevolução e para o desmantelamento dos movimentos de libertação africanos, bem como as táticas efetivadas para manter o domínio do continente africano subordinado ao capital monopolista.

Por fim, o curso ainda se propõe a abordar o impacto dos movimentos negros no Brasil, principalmente no período das décadas de 1960 e 1970.

PanAfrican

 

Cronograma 

Dia 18/01/2016 – Como a Europa subdesenvolveu a África

Objetivo: Compreender quais foram às práticas que os países de formação de capitalismo clássico fizeram para poder monopolizar a riqueza social explorando o continente africano; o Congresso de Berlim, convocado pelo Chanceler Otto von Bismarck, de 1878 que reuniu os principais representantes das potências europeias que partilharam o continente africano; nesse módulo terá como referência os estudos de Walter Rodney – Como a Europa subdesenvolveu a África – e, Kwame N’Krumah – Neocolonialismo: último estágio do Imperialismo. Ainda, será tematizado as questões em torno do imperialismo e seu impacto nos países do continente africano.

Expositor: Marcio Farias – Possui graduação em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2011), mestrado em Psicologia Social na PUC-SP (2015), coordenador do Núcleo de Estudos Afro Americanos (Nepafro). Atua como Auxiliar de Coordenação para acessibilidade no MuseuAfroBrasil.

Indicação de leitura:     GOMES, F. F. Mwalimu Rodney. Uma introdução a vida e obra de Walter Rodney.

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Dia 19/01/2016 – Em defesa da revolução africana e o Pan-africanismo

Objetivo: a partir dos movimentos de libertação na África o encontro apresentará as correntes no interior do movimento pan-africanista, os projetos que estavam em voga no momento das lutas de libertação; ainda, priorizará as lutas existentes na Argélia, Burkina Faso e Angola.

Expositor: Deivison Faustino – Formado em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), mestrado em Ciências da Saúde pela FMABC e doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR); Integrante do Kilombagem

Indicação de Leitura: FANNON, F. Racismo e Cultura.

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20/01/2016 – Política, Cultura e Emancipação Humana: o caso de Cabo Verde e Guiné-Bissau e Moçambique.

Objetivo: A partir das lutas sociais em Cabo Verde e Guiné-Bissau e em Moçambique, será considerado os processos de lutas travadas contra o imperialismo; a luta dos Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO); a partir dos escritos de Amílcar Cabral e Samora Machel, qual a relação entre cultura e política, visto que a articulação entre essas duas esferas foram fundamentais, não somente nos referidos países, mas nos demais territórios que se opuseram contra o neocolonialismo.

Expositor: Weber Lopes Góes – Bacharel em História e Especialista em Ciências sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA) e mestrado em Ciências Sociais (UNESP/Marília).

Indicação de leitura: CHASIN, José. Sobre Moçambique.

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 FREIRE, Paulo. Amílcar Cabral: o pedagogo da revolução.

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21/01/2016 – A Senegâmbia no contexto da luta anticolonial

Objetivo: considerando as lutas de libertação africana, quais foram as estratégias de combates ao imperialismo efetivados em Senegal e, ao mesmo tempo, as influências do movimento negritude e do marxismo enquanto ferramentas de libertação no referido país.

Expositor: Sallomão Jovino da Silva – Possui mestrado e doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com estágio no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Atualmente professor do Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA) e é Consultor da Secretaria de Educação do Município de São Paulo.

Indicação de leitura: DOMINGUES, Petrônio. Movimento da negritude: uma breve reconstrução histórica.

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22/01/2016 – Discurso sobre o colonialismo: o movimento negritude e seu impacto no movimento negro brasileiro nos anos de 1970.

Objetivos: será abordado quais as críticas contra o neocolonialismo na África a partir do fundador do movimento negritude Aimé Césare; ainda, a partir das lutas do movimento negro brasileiro qual a influência das lutas de libertação na África no movimento negro do Brasil.

Expositor: Milton Barbosa – Fundador do Movimento Negro Unificado (MNU).

Indicação de leitura: CÉSARE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo.

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Pacote Zipado com todos os textos

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Informações gerais 

Público Alvo: Estudantes de Ciências Sociais, Geografia, Pedagogia, Serviço Social, História e áreas afins; educadores sociais, profissionais da área da educação, educador comunitário e interessado nas temáticas.

Critérios de participação: Os interessados devem se comprometer a ler os textos indicados para cada encontro.

Estrutura do Curso: A duração do curso será de 15 horas dividido em cinco módulos, sendo que cada um terá a duração de 3 horas.

Metodologia: Leitura de textos, exposição e discussão junto aos participantes.

Será emitido certificado para os participantes, uma vez que tenham frequentado ao menos 75% do curso.

Informações: cursoformacao@kilombagem.net.br

Local

Espaço Cultural DONA LEONOR 

Rua San Juan, 121, Parque das Américas (Mauá/SP). Cinco minutos da Estação de Trem Guaquituba da CPTM, linha Turquesa.


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Realização

 

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Introdução ao estudo das civilizações africanas

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(O Slide acima não tem pretenção de esgotar o tema, muito menos falar por sí só. Mas pode ser apropriado para fins pedagogicos)

O estudo sobre a África exige estarmos atentos às diversas distorções colonialistas que a historiografia ocidental reservou ao continente.

Contrariando as diversas distorções racistas criadas ao longo dos últimos séculos, o estudo aprofundado sobre a  VERDADEIRA ÁFRICA desmente este olhar distorcido e revela a história dos verdadeiros ancestrais da humanidade, contribuintes ativos do desenvolvimento humano universal.

O Estudo da África não se limita a revisões referentes à história do africano e seus descendentes espalhados pelo mundo moderno, mas, sobretudo exige uma revisão de toda a história da humanidade.  Se por um lado não poderíamos entender a nossa sociedade sem conceber o legado grego para a edificação da civilização ocidental, por outro lado não é possível entender a Grécia sem considerarmos a ativa influência egípcia nesta sociedade.

Ao contrário do que afirma(va) as ideologias racistas, os africanos contribuíram para o desenvolvimento humano universal, desenvolvendo inclusive técnicas e conhecimentos essenciais para aperfeiçoarmos a nossas forças produtivas.

Trazer este debate para o ensino público exige, sobretudo, não nos resumirmos a montar uma roda de capoeira no dia 20 de novembro, mas pelo contrário  reconhecer a participação ativa dos africanos no desenvolvimento humano universal. A própria capoeira contém em si conhecimentos e signos profundamente ancorado na sabedoria ancestral (bantu) africana, conhecimentos estes que transcendem a dimensão lúdica de uma apresentação cultural pontual.

O desafio é imenso, ma existem ferramentas abundantes para oferecermos subsídios para um debate frutífero.

O vídeo abaixo (indicado por Vilma Neres)  revela evidências de como a HISTÓRIA do continente Africano foi distorcida para dar sustentação ideológica ao colonialismo. Ao mesmo tempo, o documentário desmente a idéia de que a CIVILIZAÇÃO  foi trazida ao continente pelos Europeus, mostrando diversos exemplos de riqueza social  e desenvolvimento civilizatório no continente.

Mas não devemos cair em armadilhas saudosistas… A ideologia SANKOFA nos ensina a olhar o passado não para repeti-lo, mas para aprender com os erros e acertos de nossos ancestrais, desenvolvendo a nossa história ao “tirar poesia do futuro”!!!

É movido por problemas do presente que (re)visitamos a história dos africanos e de seus descendentes, buscando “recuperar” nossa humanidade “subtraída” pelos séculos de escravismo e racismo. O Racismo permanece vivo e atualizado pelo desenvolvimento das relações de produção capitalistas contemporâneas exigindo novamente que pensemos a história dos africanos e de seus descendentes articulada aos conflitos da humanidade como um todo.

Aprendem-se na Capoeira de Angola que somos nós os responsáveis por nossa história e que, portanto, frente às ofensivas da vida cabe a nós mesmos buscar a emancipação. Talvez seja esta a principal mensagem que a Lei 10.639/03 (ou 11.645/08) deve enfatizar ao olhar para o passado de glória das civilizações africanas: o fato de que este legado nos oferece subsídios para lutar no presente em busca de um futuro melhor.

Deivison Nkosi – Professor de História da África

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Educação na África: A Fuga de Cérebros

Fui apresentado a esse grande pesquisador/cientista pelo meu amigo Banto Palmarino. Desde então tenho procurado saber um pouco mais sobre sua trajetória e pesquisa, apesar de achar muita coisa sobre ele na net, pouquissima coisa esta em português, tenho a pretensão de traduzir algumas coisas, mas enquanto isso não acontece. Posto aqui uma matéria que achei sobre ele no Portal Educar. Segue;

Para se ter uma idéia da Educação na África, postaremos uma entrevista de Philip Emeagwali, para o Africa Journal, realizada por Maimouna Mills, apresentador da Rádio Voz da América.

EMEAGWALI: A principal causa de brain drain externo é o baixo nível dos salários pagos aos profissionais africanos. A contradição é que gastamos anualmente quatro bilhões de dólares para recrutar e pagar 100.000 expatriados para trabalharem na África, mas falhamos em investir uma quantia proporcional para recrutar os 250.000 profissionais africanos que trabalham fora da África. Profissionais africanos trabalhando em África têm salários consideravelmente menores do que os salários de expatriados com qualificação semelhante.
Temos ainda o brain drain interno que ocorre quando pessoas não são empregadas nos seus campos de experiência e especialização. Por exemplo, muitos oficiais militares são políticos de uniforme e alguns médicos ganham salários suplementares como motoristas de táxi.

Quais são as razões para que as pessoas não retornem aos seus países de origem?

EMEAGWALI: As condições sócio-econômicas tornam difícil que alcancemos nosso potencial. A instabilidade política aumenta as taxas de emigração de profissionais para as nações desenvolvidas.
Muitos profissionais emigraram durante os reinados brutais de Idi Amin, Mobutu e Sani Abacha. A guerra no Sudão entre o norte islâmico e o sul cristão conduziu à emigração de metade dos profissionais sudaneses. Em 1991, um de cada três países africanos era afetado pelos conflitos. Hoje, existem mais refugiados em África do que em qualquer outra região do mundo.

Quais são as razões que levam a que você não regresse ao seu país de origem?

EMEAGWALI: Primeiro, eu tenho uma esposa americana que segue uma carreira acadêmica e um filho de oito anos que estuda numa boa escola. Eu não poderia interromper a carreira de minha esposa e a educação de meu filho.
Depois, eu nunca recebi convites de membros do governo. Algumas pessoas encontraram-me através da Internet e convidaram-me para ir à Nigéria.

Espero até o final do ano poder fazer pelo menos uma viagem à Nigéria.

Quais países são mais afetados pelo brain drain?

EMEAGWALI: Os países que absorvem cérebros são vencedores, enquanto os países que fornecem cérebros são perdedores. Os países receptores incluem os Estados Unidos, a Austrália e a Alemanha. Os países fornecedores de cérebros incluem a Nigéria, a África do Sul e Gana. Só a Nigéria tem 100.000 imigrantes nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, 64% de estrangeiros nascidos na Nigéria com 25 ou mais anos de idade têm ao menos o grau de bacharelado. 43% de estrangeiros que vivem nos Estados Unidos nascidos na África são pelo menos bacharéis. Nigerianos e outros africanos representam os grupos étnicos com maior nível educacional nos Estados Unidos.
As guerras na Etiópia, Sudão, Angola e Zaire contribuíram para o problema do brain drain.

Qual o impacto social do brain drain?

EMEAGWALI: O brain drain torna difícil a criação de uma classe média formada por médicos, engenheiros e outros profissionais. Temos uma sociedade africana dividida em duas classes: uma gigantesca sub-classe formada por pessoas muito pobres, em geral desempregadas, e uma classe formada por poucas pessoas muito ricas que, na maioria das vezes, são oficiais corruptos do governo ou de órgãos militares.
O brain drain permite que surja uma liderança fraca e corrupta. Uma ampla classe média instruída asseguraria que o poder político fosse transferido por meio de votos ao invés de guerras.

Quando os médicos emigram para os Estados Unidos, os pobres são forçados a buscar tratamento médico em curandeiros tradicionais enquanto a elite voa a Londres para seus check-ups de rotina.

Os oficiais do governo da Nigéria usam o dinheiro dos contribuintes para viajar ao exterior para avaliações de saúde rotineiras e para tratamento contra malária. Os check-ups no exterior são uma desgraça nacional e a sua proibição forçaria a Nigéria a recontratar os médicos que emigraram para a Europa.

Qual o impacto económico do brain drain?

EMEAGWALI: Os melhores e mais brilhantes profissionais podem emigrar, deixando para trás os mais fracos e menos imaginativos. Isto significa uma morte lenta para África.
Não podemos alcançar crescimento econômico a longo prazo exportando nossos recursos naturais. Na nova ordem mundial, crescimento econômico é movido por pessoas com conhecimento. Fala-se bastante sobre mitigação da pobreza. Porém, quem vai diminuir a pobreza? Serão os indivíduos mais talentosos que deverão liderar as pessoas, criar riqueza e erradicar a pobreza e a corrupção.

Os profissionais que estão saindo de África incluem aqueles com especialização técnica e habilidades administrativas e empreendedoras. A ausência destes profissionais aumenta a corrupção endêmica e torna mais fácil para os militares derrubarem governos democraticamente eleitos.

África precisa de uma classe média numerosa para construir uma grande base de contribuição de impostos que, em contrapartida, possibilitará a construção de boas escolas e a disponibilização de eletricidade sem interrupções. Os 250.000 profissionais africanos trabalhando em outros continentes aumentarão o tamanho da classe média.

Como você tem contribuído para sua comunidade?

EMEAGWALI: As telecomunicações mudaram o mundo e agora estamos vivendo numa aldeia ou comunidade global. Neste momento, você e eu estamos a usar tecnologia de telefonia e comunicação via satélite para manter uma conversa ao vivo.
Como convidado do Africa Journal posso compartilhar a minha experiência e a minhas visões pessoais consigo e com outros espectadores. Todo os dias, dezenas de pessoas procuram-me através da Internet e escrevem-me para pedir conselhos sobre suas carreiras e objetivos de vida. Além disso, meu site EMEAGWALL.COM é usado em 6.000 escolas e forneço orientação acadêmica a diversos estudantes de cursos primários e secundários.

Os africanos que deixam os seus países para estudar e trabalhar têm a obrigação de regressar e compartilhar os benefícios de sua educação?

EMEAGWALI: Na teoria, somos moralmente obrigados a regressar a Africa. Na prática, um profissional africano não renunciará a um salário de $50.000 por ano para aceitar um emprego de $500 por ano em África. Uma questão mais importante deve ser discutida: quais medidas podem ser tomadas para induzir que os africanos deixem o exterior e voltem aos seus países e o que pode ser feito para encorajar os profissionais na África a permanecerem em sua terra natal.

Como podemos diminuir ou mesmo interromper o brain drain?

EMEAGWALI: Você tem que recrutar os profissionais e retê-los. Nós podemos dar incentivos para recrutamento, como por exemplo, despesas de deslocação, empréstimos para moradia e para lançamento de negócios, salário suplementar para os primeiros anos. Porém, quando o suplemento salarial termina, muitos dos profissionais pegarão nas suas malas e regressarão à Europa e aos Estados Unidos.
Uma solução permanente seria pagar salários competitivos.

Que mudanças gostaria de ver nas políticas governamentais?

EMEAGWALI: Nós poderíamos eliminar as despesas com militares e aumentar gastos com educação, emancipação das mulheres e desenvolvimento das crianças.
Quarenta anos atrás, Fourah Bay College, Makerere University e University of Ibadan costumavam ser as melhores universidades do mundo em desenvolvimento. Hoje, estas universidades estão se despedaçando e tem uma escassez crônica de livros e equipamentos. Greves de alunos e professores criam períodos lectivos irregulares e não é raro que os estudantes demorem cinco ou seis anos para completar um curso de quatro anos.

O problema começou no início dos anos 80, quando muitas nações africanas passaram por programas de ajustes estruturais que implicaram a desvalorização de suas moedas e cortes nos gastos públicos. A desvalorização da moeda restringiu a quantidade de equipamentos e livros que poderiam ser comprados. Além disso, tornou difícil o estudo de ciências, engenharia e medicina no exterior. Um professor universitário que ganhava $1.000 por mês em 1980 hoje ganha $50 por mês e a maioria é forçada a emigrar.

Quando o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional forçaram a Nigéria a reduzir gastos públicos, Ibrahim Babangida cortou o orçamento da educação ao invés de reduzir o orçamento dos militares. Enquanto o salário dos professores deixou de ser pago durante vários meses, a Nigéria estava gastando centenas de milhões de dólares na importação de armas.

Não nos devemos esquecer do investimento na educação básica. A Nigéria precisa aprender com a experiência de Zâmbia. A taxa de analfabetismo entre a população adulta na Nigéria é de 49% enquanto entre a população de Zâmbia, a taxa é de 27%. Contudo, a Nigéria tem muito mais universidades que Zâmbia. A Nigéria deve aprender com Zâmbia e focar esforços em educação de boa qualidade para as massas. Com uma elevada taxa de analfabetismo e milhões de graduados em universidades, a Nigéria acabará com os pés na Idade da Pedra e a cabeça na Idade da Tecnologia de Informação.

Quem é o entrevsiatdo Philip Emeagwali:
“Distinção” podia ser o nome do meio de Philip Emeagwali. Tendo deixado o curso colegial e tendo sido um refugiado de guerra, este nigeriano a viver nos Estados Unidos é hoje a sensação do mundo da super-computação. Ele tem sido chamado de “Bill Gates da África”. Seus antigos colegas do Christ the King College, em Onitsha, lembram-se dele como “Cálculo”. Emeagwali detém inúmeros recordes: processamento mais rápido do mundo com 3.1 biliões de cálculos por segundo, recorde mundial por resolver as maiores equações diferenciais parciais com 8 milhões de grid points; recorde mundial por resolver as maiores equações de previsão de tempo com 128 milhões de grid points; recorde mundial por um inédito modelo de aceleração de computação paralela; descoberta do paradoxo contra-intuitivo do hipercubo; formulação da teoria de modelos de mosaicos para computação paralela; descoberta da quiralidade, dualidade, helicidade, etc. Suas demais façanhas se estenderiam por mais oito páginas. Emeagwali tem recebido os mais importantes prêmios no seu campo de conhecimento, mas diz que o mundo ainda não viu nada. Num período de sete meses, Reuben Abati do “The Guardian” entrevistou Emeagwali, abordando uma diversidade de temas.

Fonte:

Publicado em

Contribuição dos povos africanos para o conhecimento científico e tecnológico universal

O estudo e o acompanhamento do processo histórico da população africana e afro-brasileira é muito mais que uma gratidão aos milhões de mulheres e homens que forneceram as bases culturais e técnicas para a emersão do que hoje chamamos nação brasileira.

Essa atitude se configura em uma ação inteligente de quem deseja para o país a promoção de um desenvolvimento social sustentável. Uma vez que, a essa temática estão associadas questões fundamentais como: o nível de respeito que os brasileiros e brasileiras têm de si mesmos, em face da história de seu país e da capacidade desse povo de promover as
mudanças necessárias para atingirem um maior equilíbrio social e econômico. Com efeito, um sistema educacional que realmente pretende fornecer as bases para esse desenvolvimento precisa possibilitar aos seus estudantes o conhecimento do seu próprio povo, sob pena de não gerar nesses estudantes auto-estima suficiente para fortalecê-los perante os desafios da vida, para a concretização dos empreendimentos para o desenvolvimento social.

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