José Evaristo Silvério Netto

Gosto da idéia de ressignificar o termo exercício físico, trazendo-o para um entendimento somatopsíquico do movimento corporal (produção cultural de sentidos do corpo que se movimenta) contextualizado na dinâmica cultural e ao momento histórico.

Neste sentido, penso que é importante exercitarmo-nos fisicamente, sendo este exercício formado de ações que nos eduquem para a construção de uma realidade que nos seja saudável, favorável. As ações físico-motrizes trazem expressões afetivas e emocionais do espírito humano, além de sentidos e sentimentos, de modo que o movimento nunca se encerra nele mesmo. Daí a importância de fazer do corpo em movimento um instrumento de educação e fortalecimento holístico (caminho somatopsíquico).

Questiono-me: de que maneira lidamos com nossos sentimentos, com nossas necessidades afetivas e emocionais, com nossas intenções, vontades, desejos, com nossos projetos e esquemas para os cursos de ação das nossas vidas, quando estamos interagindo com outra pessoa na complexidade de uma relação em construção? Somos honestos conosco, com o que sentimos? Somos honestos com a outra pessoa, somos verdadeiros na exposição das nossas intenções, do que pretendemos ou desejamos? Este é apenas um ponto. A outra pessoa esta sendo sincera conosco, e com os seus próprios projetos, sentidos e sentimentos? Será que esta é uma relação profunda – entendendo a profundidade como ‘honestidade de se mostrar em sentidos e intenções verdadeiras’ – ou uma relação rasa, mesmo sendo duradoura, onde as pessoas fingem sentimentos, e não expressam aquilo que para elas faz sentido? Este é outro ponto.

Pensar o exercício físico nesta seara seria entendê-lo como um meio pedagógico para uma educação emocional e moral, um recurso pedagógico da envergadura de uma educação integral. E o corpo enquanto veículo de divulgação e expressão do nosso espírito e consciência, por meio do movimento, do exercício físico de se expressar, dialogando com a realidade à sua volta e lutando contra a imposição dos estígmas e estereótipos racistas implementaria esta educação de corpo inteiro, integral e “práxica”.

Adinkra que trás o significado de resistência, desafio às dificuldades, perseverança.

Faz-se também importante conceber o corpo enquanto instrumento de luta para emancipação das estruturas de opressão, um território de luta de proporções gigantescas. O corpo negro trás consigo as estruturas socioculturais, sentidos, ciência, história, lembranças, espiritualidade e magnetismos, acumulados historicamente, que dão sentido ao conceito de Ancestralidade. Corpos Africanos que, corroborando com a ancestralidade, não se dissociam da consciência indivisível do indivíduo, mas vivem em uma sociedade que tem como valor positivo o corpo subjulgado por uma entidade consciente, a mente, como se corpo e mente não fossem a mesma estrutura, no limite do mínimo, consciência.

Daqui sai um entendimento curioso: até que ponto é possível pensarmos em pessoas conscientes, se seus corpos estão separados de suas mentes, dissociados? Isso é possível? Trago o debate de que o corpo é a mente, o corpo é a consciência, não há como entendermos o corpo dissociado da mente. Isso é a morte. O corpo sem consciência é um amontoado de tecido em processo de decomposição, sem possibilidades de diálogo com a realidade circunscrita, sem possibilidades de causar colapsos na realidade. Sendo mais enfático para marcar o sentido e enviesar propositalmente o debate, o corpo sem consciência não é mais corpo (Corpo Vivo) é tão somente material orgânico.

Dialogando e construindo entendimento do mundo pelo movimento significativo, que é consciente e consciência porque é do corpo em movimento que brota a ciência..

É ou não interessante pensar o exercício físico nestes meandros, entendendo que a prática de atitudes e condutas físico-motrizes imbuídas de intenção política e emoção podem operar mudanças nas nossas estruturas cognitivas, afetivas e emocionais? Este é o mote epistemológico. Começo meus estudos recentes (bem recentes mesmo!) trazendo uma ressignificação do termo exercício físico, transgredindo a lógica cartesiana de dissociação mente-corpo, e entendendo o corpo como consciência, assim como a mente, sendo corpo e mente a mesma estrutura, a mesma consciência, desconstruindo a subjugação de um pelo outro. As implicações deste entendimento de corpo, corporeidade (produção corporal – cultura corporal), e exercício físico, são de tal ordem importante que poderia provocar uma enxurrada de novas proposituras e teses sobre vários temas espinhosos como conscientização, sensibilização e educação antirracista.