José Evaristo Silvério Netto

(opiniões do autor)

Estava pensando sobre os processos de significação, de identidade e identificação, e refletindo sobre a Educação e a Pedagogia Social. Invariavelmente, comecei a articular estas lucubrações às minhas experiências quando prestigiando as intervenções do Bá Kimbuta em suas apresentações e falas, ou quando prestigiando o coletivo Mahins e as parcerias no lançamento da sua coletânea de Rap (Sankofa, A’S Trinca, Sharylaine, Lenice Moura), e outras experiências. E é sobre a articulação destes pensamentos e acúmulo acadêmico sobre Pedagogia com estas experiências vividas e sentidas que eu pretendo discorrer neste texto.

Qual a importância do afeto para um processo educativo? Esta questão é importante na medida em que reconhecemos que para educar é necessário sensibilizar os alunos, para que estes identifiquem os conteúdos como importantes para a sua vida. Mais ainda, os alunos precisam participar do processo educativo ativamente, construindo o conhecimento junto com a professora (ou o professor). Para a construção do conhecimento muitas informações precisam ser trabalhadas, problematizadas, discutidas, informações que as professoras (ou os professores) e os alunos trazem. Assim, para que os alunos contribuam para o processo educativo, é necessário que este seja um processo significativo para a vida deles. Da mesma forma, é necessário que o processo seja significativo para a vida da professora (ou professor). Estes atores do processo de construção do conhecimento devem, portanto, estar envolvidos profundamente nesta atividade, motivados mediante um lócus de percepção de causalidade[i] interno, e não externo.

O processo educativo deve sensibilizar [email protected] e professoras (ou professores), acessando suas estruturas do afeto, da motivação, de modo que identifiquem as atividades desenvolvidas como importantes para si mesmos. Daí, a educação passa a emocionar professores e alunos, sensibilizando-os e promovendo uma participação engajada de ambos os atores para a construção de conhecimentos.

Como implementar um processo educativo que seja significativo para @s [email protected] e para nós professores? Um processo educativo significativo é, via de regra, um processo onde nos enxergamos como protagonistas, e cujos valores e códigos socioculturais e identitários que fazem parte das nossas vidas estejam presentes. Esta ideia de educação significativa é interessante porque rompe com os modelos e tendências pedagógicas que hierarquizam os conteúdos do currículo, e o próprio currículo, entendendo este como um instrumento cristalizado. Embora não faça parte do discurso da maioria dos professores, é assim que muitos e muitas procedem no exercício da profissão, na escola, junto ao alunado.

É necessário, e urgente, desenvolvermos tecnologias de ensino e de aprendizado que deem conta de lidar com as linguagens socioculturais e identitárias que fazem sentido para o alunado, que levem em consideração o contexto de vida e a história dos alunos, de suas famílias, assim com da história de sua professora (ou seu professor) e seus familiares. Nesta linha de entendimento e orientação política-pedagógica, entendo que é importante que a escola e seus protagonistas do processo educativo, cada vez mais se aproximem dos movimentos sociais, promovendo um diálogo que não perca de vista a consciência dos papéis sociais que ocupam – escola (representando o estado, com suas contradições) e movimentos sociais (representando o povo organizado, com suas contradições). O conflito e as contradições postas à mesa, dentro e durante o processo educativo da/na escola, creio eu, promoveria o que estou nomeando de processo educativo significativo.

A importância dos movimentos sociais, e aqui destaco o movimento Hip-Hop, se mostra, por exemplo, na apropriação dos sentidos pelas crianças contidos nas letras do Pedagogo Ba Kimbuta quando canta “Voa, poder sentir pra imaginar, imaginar para criar, produzir mas não comprar, dividir é não vender, socializar, voltar na história, se informar..[ii]; ou quando o Pedagogo Robson diz no programa Mano e Minas “… a gente tem que agir. Eu acho que o Hip-Hop esta ai para poder usar como arma a música, a arte, para poder englobar a molecada, a rapaziada que esta na plateia, que esta entendendo isso. Sacar que o que o Fela Kuti fez é o que o Nelsão, o que a rapaziada aqui fez no passado, o que o Lino, o que você, o que as posses… tentar fazer com que essa luta se conecte com alguma coisa que vá para frente, que vai continuar mantendo a galera viva, primeira coisa é manter vivo né. Por quê como é que você vai fazer arte sem estar vivo, certo?[iii]”.

 

(foto: Coletivo Mahins)

 

O Hip-Hop é um dos milhões de exemplos que podem trazer ao processo educativo identidade, sentido e consciência, para empoderar [email protected] e professores. Quando a criança, geralmente Preta, geralmente moradora de um bairro periférico, escuta um Rap, ela balança a cabeça para cima e para baixo. Esta ai estabelecido o vínculo indentitário e significativo para uma pedagogia que se pretende social e humanizadora. Isso para falar apenas do Rap, mas são inúmeras as expressões do espírito humano que se mostram fontes importantes de conteúdos e códigos identitários e afetivos. O interessante de ouvir e sentir as letras de Educadores Sociais como o Rapper Ba Kimbuta é que, ao tomarmos consciência do discurso e da estética das músicas, rompemos com o modelo condicionado de gosto musical industrializado e capitalista, empreendido pelo processo de apropriação privada do conhecimento humano. Este processo esta discutido no texto entitulado Sobre Educação e Apropriação Privada do Conhecimento[iv].

                Quando as manifestações do espírito humano que pertencem à realidade dos alunos se inscrevem no processo educativo como cultura ou linguagem universal, sem ser subvalorizada e destacada como diferente e exótica, faz humanizar e acessar os alunos, que se sentem contemplados e representados.

(Foto: Ba Kimbuta)


[i] Teoria da Percepção da Causalidade da Motivação

[iv] No link: http://kilombagem.org/sobre-educacao-e-apropriacao-privada-do-conhecimento-primeiras-consideracoes/