John Singleton
1968-2019

Aqueles anos 1990, principalmente a primeira metade, foram marcantes pra parte da juventude preta no Brasil. Pelos jornais assistimos estarrecidos, tanto a absolvição de quatro policiais brancos que foram filmados durante 80 segundos espancando o taxista preto Rodney king, quanto os conflitos que disso se originaram, em algumas cidades dos EUA. Chacinas ceifando vidas pretas começavam a ganhar repercussão internacional. No âmbito da cultura, manifestações artísticas que retratavam o dia a dia das comunidades majoritariamente afrodescendentes ganhavam relevo por aqui.

Em 1991 o grupo musical que melhor representou a luta do povo preto estadunidense faz duas apresentações no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Foi em 1992, por exemplo, que o grupo de RAP Racionais MCs lançou o seu mais importante disco, o EP Escolha o seu caminho, que com apenas duas músicas teve efeito devastador no que tange à identidade e autoestima da juventude preta periférica. Nesse mesmo ano chega aos cinemas o filme Malcolm X, a adaptação de Spike Lee da autobiografia do líder africano estadunidense. Em 1995 estreia Black Panther Party. For Self-Defense, contando a história da organização fundada por Bobby Seale e Huey Newton, com intuito de organizar a autodefesa das comunidade preta em Okland (Califórnia), mas que se tornou o partido de maior expressão da esquerda estadunidense.

Esses filmes revelavam a explosão de um movimento cinematográfico que chegou a ser apelidado de “novo Blaxploitation” (alusão ao movimento Blaxploitation, de diretores pretos, com elenco preto, para o público preto, nos anos 1970). Mais do que serem dirigidos e interpretados por pretos, esses filmes levavam para os cinemas e lares o retrato mais fiel e cru do cotidiano nos bairros pretos dos EUA.

Eram obras cinematográficas que conseguiam fazer com que identificássemos um pouco (ou, muito) de nós em cada personagem. Um dos cineastas que cumpriu esse papel com maior maestria foi John Singleton. Antes mesmo de Spike Lee com seu Malcolm X, Singleton chegou ao Brasil em 1991 através do seu Boyz n The Hood – Os donos da rua

O filme começa com um assassinato, evidenciado somente por áudio, seguido pelo texto:

“Um em cada vinte e um homens pretos americanos (sic) será assassinado. A maioria vai morrer nas mãos de outro homem preto”.

O que a princípio pode parecer uma simples declaração de culpabilidade do próprio preto pelo diretor, na verdade se revela uma das tantas provocações que ele consegue fazer ao longo da trama, e que, o pequeno texto que abre os trabalhos, revela apenas um dos sintomas de uma sociedade extremamente adoecida.

Foi nesse filme de 91 que pela primeira vez vi ser questionado o livre acesso que drogas e armas têm nessas comunidades, e quais interesses agem por trás dessa aparente antropofagia preta. Ao mesmo tempo, na mensagem do filme, Singleton cobra dos pretos esforço para quebrar esse círculo vicioso de morte e autodestruição. Essa cobrança será uma característica bem visível em outros trabalhos desse diretor, para além desses referidos anos 90.

Outro filme muito impactante de John Singleton é o Duro Aprendizado. Nele, jovens de diferentes nacionalidades, orientações sexuais, raças e concepções políticas são forçados à um difícil convívio ao ingressarem à universidade de Columbus. Todas as discussões acerca de racismo, homofobia, machismo, misoginia, xenofobia, tão comuns nos dias atuais, já estavam presentes – e com enorme relevo – nessa obra lançada em 1995. É tão atual que há, inclusive, destaque para a violência nazifascista. Quase todos os personagens praticam algum tipo de opressão, seja em que grau e frequência for. Porém, sem recorrer ao maniqueísmo, o autor tem o cuidado de identificar na sociedade competitiva a raiz de toda tensão vivida entre aqueles jovens. Ninguém é raio em céu azul.

Mesmo o personagem de comportamento psicótico, que encarna o papel de vilão foi criado sob muita violência por um pai que acreditava ser assim que se forjava um homem. A figura do homem preto que ascendeu à classe média está presente no personagem de Laurence Fishburne, o professor Maurice Philipps. Como bom liberal, ele credita toda dificuldade da vida acadêmica de seus alunos à incapacidade pessoal de cada qual, negando qualquer interferência social no penoso caminho que são obrigados a percorrer. Esse discurso está presente em ambos os filmes, mas o moralismo liberal tem sua derrota consagrada no fim trágico que tem os personagens que mais se aproximam desse modelo obediente, servil, que ao invés de subverter ou simplesmente questionar o status quo, se acomoda ou se esforça para encontrar seu lugar nele.

A fascinante crueza com a qual John Singleton abordava a nossa realidade de povo preto, despida de qualquer maquiagem, não tinha limite no tempo e nem no espaço. Ao visitar outra época, num outro cenário, Singleton levava essa sua marca na bagagem. É flagrante quando sua obra se arrisca fora do ambiente urbano contemporâneo.

O Massacre de Rosewood conta uma história verídica ocorrida em 1923 no interior do Estado da Flórida. A comunidade preta de Rosewood é atacada durante 4 dias por brancos de algumas cidades vizinhas, como vingança por um estupro que teria sido praticado por um homem preto contra uma mulher branca. Na verdade a mulher que havia sido espancada pelo amante se viu obrigada a inventar uma história que justificasse pro marido tantos hematomas pelo corpo. Num contexto em que as boas relações raciais se sustentavam sobre a frágil base da capacidade de consumo de uma pequena população rural preta de classe média, a inveja e o ódio racial falaria mais alto do que a o interesse em se alcançar o verdadeiro culpado pela agressão. Verdade, inclusive, que já era sabida até pelo xerife local.

Pra uns, John Singleton não poupa os expectadores com a violência explícita nas cenas de… violência. Pra outros, o diretor nos presenteia com a lealdade aos fatos, necessária para entrarmos na história e vivermos o episódio.

A minha geração nasceu e viveu nos últimos 10, 12, 13 anos de ditadura empresarial-militar. Tanto as artes cênicas quanto a música viviam sob forte vigilância da censura. Agentes da repressão se infiltravam nos bailes blacks daquela época. Autoridades cuidavam para que, do movimento Black Power, aqui só chegasse a música (descomprometida) e a estética visual. Artistas forjados nesse período e que usavam suas artes como veículo de denúncia, o faziam sob disfarce, numa comunicação indireta, com muito floreio. Quando a tirania dos generais se extingue na metade da década de 1980, apesar de uns raros Bezerras da Silvas, leva-se um tempo para que a liberdade de expressão deixe de ser só a lei que revogou a censura, para ser sentida por todos. 

A década de 1990 começa com uma necessidade de gritar abertamente e de se ouvir esses gritos, viessem de onde viessem, desde que expressassem nossas angústias. Mesmo que inconscientemente queríamos produzir e consumir arte que escancarasse a nossa realidade. Essa produção cinematográfica preta, junto com o RAP (considere que rappers compunham o elenco, e seus RAPs, as trilhas sonoras), foram a resposta mais contundente à essa necessidade de se abordar o nosso cotidiano tal qual ele é, nu e cru. E poucos fizeram isso tão bem quanto John Singleton. Por isso ele simbolizou tão bem esse período que pra nós foi tão importante. Essa sua produção foi ferramenta de um ferramental que lapidou a consciência político-racial de muita gente importante. Gente que ajudou a forjar essa mesma consciência na geração seguinte. Se você tem vinte e tantos anos e milita contra o racismo, mesmo que você não conheça sua obra, é bem provável que você tenha o DNA do John Singledon na tua personalidade, na tua consciência.

Hoje, 6 de maio de 2019. Uma semana sem John Singleton. Será?