Thiago Elniño é da ala dos MCs comprometidos. Mas é um comprometimento diferenciado, capaz de aliar religiosidade, musicalidade, autoestima e coerência em cada passo, ou melhor em cada verso. Esses versos geralmente, seguem em direção ao bem-estar, resistência, e a melhoria da qualidade de vida da população negra brasileira.
Ele faz parte dos novos artistas que ergueram-se por meio da internet, entretanto é um rapper engajado e preocupado com as relações sociais e raciais do país. Também é educador popular e pedagogo.
Desde 2016 que alguns integrantes do Grupo Kilombagem, vem acompanhando o trabalho do Thiago Elniño. E, nesta entrevista o rapper, mando o papo reto, sobre seu primeiro disco A Rotina do Pombo(2017).

Não sei se a escola aliena mais do que informa
Te revolta ou te conforma com as merdas que o mundo tá
Nem todo livro, irmão, foi feito pra livrar
Depende da história contada e também de quem vai contar

Grupo kilombagem GK – Como começa sua história na cultura Hip Hop/Rap?

Thiago Elniño – Minha historia com o Hip Hop começou no final dos anos 90 quando o rock me rejeitou e eu tive que encontrar uma cultura onde eu não sofresse racismo! Foi quando eu percebi que eu não sabia, mas de alguma forma eu já era Hip Hop mesmo não praticando nenhum dos elementos artísticos!

GK – Você adotou o codinome Elniño, poderia falar sobre o significado?

Thiago Elniño – O Elniño antes eu achava que era um personagem, e hoje eu entendo que é o momento onde existe um catarse entre eu e os elementos da minhas ancestralidade que se dão no momento que eu faço música, dai existe um contraste de quando estou no palco, onde naturalmente sou mais comunicativo e agressivo, fora dele sou mais calado e tímido, essa dualidade tem haver com o fenômeno climático Elniño que na época em que adotei esse codinome, fazia com que o clima tivesse alterações repentinas, hora sol, hora fria em um curto período de tempo!

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GK – Quais são suas influências musicais? E caso haja outras influências além da música, poderia nos dizer quais são?

Thiago Elniño – Tenho percebido que a maioria das coisas que me chapam e me influenciam diretamente saíram do samba e do Jorge Ben, o Dub jamaicano também me atropela. Fela Kuti, KL Jay e Bnegão me deram parâmetros do que um artista preto deve ser, foda na música, foda na postura. Para além disso tem revistas em quadrinho, arquitetura e moda, tudo isso entra no cadeirão.

GK – O Web clipe Diáspora tem mais de dois anos que foi lançado, e nos brinda com diversos elementos e várias relações com as religiões de matriz africana, que você pode dizer sobre esse seu trabalho? Como foi a produção desse web clipe, que é o segundo mais visualizado em seu canal?

Thiago Elniño – Esse clipe foi feito pouco tempo depois de eu ser absorvido pela Umbanda, foi um momento bonito para caramba não só para mim mas para a espiritualidade africana e o culto aos orixás na minha região, teve impacto direto a um maior reconhecimento e pertencimento dos pretos daqui quanto algo que é nosso. É importante destacar que aquilo foi um trabalho muito coletivo e fundamentado. Agradeço muito aos meus guias por terem me deixado ser parte disso.

GK – Em seu primeiro álbum intitulado A Rotina do Pombo(2017), você aponta uma forte semelhança entre pretos e pombos, poderia falar mais sobre isso? Faz uno ano que esse disco está na rua, já logrou os objetivos que propôs?

Thiago Elniño – Tanto pombos quanto pretos são lindos e são forçados a macro e micro diásporas onde são forçados a ocupar os centros urbanos em espaços onde são vistos como pragas, como algo sujo e comedores de migalhas, salario mínimo, lixo, e essa porcaria industrializadas que nos dão para comer. Mas os que se adéquam, ou os que tem a penagem mais branca, podem ser aceitos e ate vistos como símbolos de paz, ou de uma miscigenação positiva.

O disco não cumpriu seus objetivos maiores, muito pouca gente ouviu e seu retorno econômico não é algo que me permita fazer outro sem que para isso eu passe algumas dificuldades financeiras. Mas isso não pode me deixar frustrado e nem cessar minha produção por que coisas bonitas também foram alcançadas por ele e por todo meu trabalho, e a gente sabe o solo onde ta pisando e o tanto que as coisas vão para além de um artista preto ter talento ou não.

GK – Temas como ancestralidade, religiosidade, negritude e problemas sociais aparece nitidamente em seu trabalho, existem algum tipo de relação, interação com os artistas mais velhos/as, ou intelectuais de outras gerações?

Thiago Elniño – O tempo todo, os mais velhos são fundamentais para o meu processo e se eu deixo de ouvi-los Omulu não vai me ser tão bom quanto é. Desde de meus familiares a educadores, dirigentes de espaços de fé, ate a literatura que vai de Malcolm X a Carlos Moore.

GK – Em sua opinião, quais são as maiores e importantes conquistas do Hip Hop brasileiro? E quais são as limitações na cena atual?

Thiago Elniño – O Hip Hop é um caminho, e esse caminho foi traçado muito bem por muitos de nós que conseguiu através dele acessar conteúdos que permitam investigar o nosso papel como homens e mulheres pretas, ao mesmo tempo, o Hip Hop sempre teve uma relação muito intima com o capitalismo, e isso faz com que parte da ruptura necessária com matrizes colonizadoras para que tenhamos uma real autonomia do povo preto fiquem comprometidas, é um dilema que pessoalmente vivo. Dentro disso, das concessões que o Hip Hop fez, não é tão honesto da nossa parte as reclamações de que nossa cultura tem sido sequestrada sem uma auto-analise de o quanto somos frágeis e o quanto ainda somos vitimas de velhas artimanhas do sistema. Sistema esse que odeia os pretos, e nos mata ao som da nossa própria música!

GK – A reforma Educacional responde a interesses internacionais e acordo com o Banco Mundial, visando a produção de “Deficientes Cívicos” como versou o Geografo Mílton Santos sobre a globalização e o papel da educação em países periféricos. É sabido que a discussão acerca da retirada de disciplinas que suscitam o censo crítico como: História, Filosofia e sociologia não dão conta da discussão das relações raciais brasileira, critica que podemos verificar explicitamente em sua música Pedagoginga. Como você vê a implantação e discussão da Lei 10.639/03 que institui o ensino da África e Afro-brasileira no currículo do ensino público e privado em todos os níveis educacionais? Quais os desafios enfrentados para sua efetivação?

Thiago Elniño – Nunca vai funcionar, a escola não foi feita para funcionar, o exercício que tenho feito como pedagogo, e veja que não me orgulho desse diploma pois foi apenas algo que eu tive que fazer para legitimar minha colocação no mercado de trabalho, é entrar dentro das escolas e sugerir outros espaços onde esses jovens possam buscar conteúdos que facilitem sua autonomia. A lei 10.639/03 é uma ótima intenção, que abre uma fresta para gente entrar ali, mas ela é mal utilizada por que ela foi feita para ser mal utilizada e dentro de um sistema que sabe nos dar com o pé e tirar com mãos sujas com o sangue do nosso povo.

GK – Qual é seu maior êxito até momento?

Thiago Elniño – Cara, eu passei dos 30 sem ser morto nem fisicamente, nem espiritualmente, conheci muitas pessoas e lugares que me ensinaram muito e tenho e conseguindo pagar as contas com alguma dignidade vivendo de atividades ligadas a cultura Hip Hop, não ta bom pois não consegui expandir isso em quantidade e qualitativa para quem esta ao meu redor, mas também não esta péssimo!

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GK – Vimos que seu último trabalho foi o Web-clipe intitulado “Não Conforme” com participação de Bia Doxum. Como foi a experiência. Existe algum trabalho a vista com participação de algum artista independente?

Thiago Elniño – Eu e a Bia, assim como outros artistas que pautam oque pautamos e assumem a responsabilidade de fazer isso de uma forma que honre nossos ancestrais tem de estar mais próximos, ate mesmo para que a gente para de deslizar tanto, mais próximos nos fortificamos e nos “vigiarmos” mais, e vigiar é diferente de fazer patrulha. Eu e Bia aprendemos muito nesse processo que foi construir essa versão de “Não Conforme”, sem duvida vamos fazer mais coisas juntos.

Existem muitos trabalhos vindos para esse ano para que 2019 eu possa me retirar por um tempo e me concentrar nos estudos e outras ações que me permitam um retorno onde eu seja mais dono de mim e útil para o meu povo.

GK – Quais seus planos para o futuro?

Thiago Elniño – Eu to focado em parar de derrapar tanto quanto homem preto, como africano em diáspora que tem como objetivo ser útil para o meu povo, isso vai acabar refletindo diretamente na minha arte que é o que de mais qualitativo ate aqui tenho para oferecer. Descolonizar. Para isso vou precisar produzir muito em 2018, e me retirar em 2019 para estudos e praticas ligadas a educação. Então espero ate o final do ano deixar um ou dois EPs e alguns clipes.

GK – E por fim, na sua opinião qual é o caminho para superação do racismo?

Thiago Elniño – Hoje penso que o racismo é insuperável enquanto os pretos não romperem com os racistas de alguma forma! Só dai a gente poderá pensar no que será, em outra coisa.

Foi por falta de identidade, que eu vacilei, ramelei não vi
Que eu era bem diferente dos caras que estavam ali
Na MTV, quando o que passava não era YO!
Esse pretinho quer ser branco ó, cala boca Jhow

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