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SEMINÁRIO

TRADIÇÕES AFRICANAS E RACISMO

Original post do Site Inzotumbansi.org

A liberdade de crença é um direito assegurado na Constituição Federal que necessita urgentemente de validade prática. Ainda que intolerância religiosa seja considerada um crime de ódio, ela continua acontecendo no Brasil e são as religiões de matrizes africanas que mais sofrem perseguição.
Se não fosse a bravura e resistência das sacerdotisas e sacerdotes, os Povos de Terreiros já teriam sido sepultados pelo racismo.

 


Neste dia 21 de Janeiro comemora-se o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, que foi oficializada em 2007 para rememorar o dia do falecimento da Iyalorixá Mãe Gilda, do terreiro Axé Abassá de Ogum (BA), vítima de intolerância por ser praticante de religião de matriz africana. A sacerdotisa foi acusada de charlatanismo, sua casa foi atacada e pessoas da comunidade foram agredidas.

Aproveitando a data para estimular o respeito, tolerância e o diálogo inter-religioso, o mandato do vereador Toninho Véspoli, o Ilabantu (Instituto Latino Americano de Tradições Bantu), a Associação de Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana Katina da Silva, e a Banda Mbeji Ariane Molina, promove o seminário “Tradições Africanas e Racismo”.

Dia: 21 de janeiro de 2017 – às 09:00 horas

Sindicato dos Metroviários – Rua Serra do Japi, 31 – Metrô Tatuapé – São Paulo/SP..

Programação

10h00: Abertura Tradicional/ Saudação aos ancestrais
Coordenação: Tata Nkisi Katuvanjesi – Walmir Damasceno – Coordenador nacional do ILABANTU
10h30: O poder legislativo e as ações politicas
Participação: Vereador Toninho Véspoli e Roberto de Oliveira – Chefe de Gabinete da Deputada Leci Brandão
11h00: Roda de Samba com Grupo Limão Rosa – sob coordenação do Mestre Limãozinho e Professora Rose
11h30: Debate: Tradição, Experiência, Saberes e Viveres Ancestrais
Coordenador: Deivison Nkosi – Cientista Social e do Grupo Kilombagem
Participação:
1. Mam`etu Luijidi, Mãe Ofa, (Kupapa Nsaba/RJ);
2. Ìyà Wanda d`Òsun – Ilé Ìyà Mi Òsun Muiywa e Afoxé Ile Omo Dada;
3. Niyi Tokunbo Mon’a-Nzambi, especialista em línguas africanas;
4. Congolês Samba Tomba, especialista em história da tradição bantu-kongo;
5. Baba Mario Filho Oníwindé Ifáṣọlá Ifárinú Olu – (Major da PM);
12h30: Almoço
14h30: Intervenção Cultural: Banda Mbeji – sob coordenação da Musicista e antropóloga Ariane Molina
15h00: Debate: Garantia de Direitos, Respeito e Combate ao Racismo
Coordenação: Liliane Braga – Maganza Ndembwemin
Participação:
1. Haydée Paixão (Advogada) ativista do movimento negro e de povos de terreiros;
2. Dote José Almir, advogado criminalista e membro integrante do Terreiro do Bogun (Salvador, Bahia);
3. Tata Nkisi Mutadiamy – Mauricio F Santos – Inzo Mutaloombô/SP
4. Damien-Adia Marassa, doutorando da Duke University(EUA);
5. Baba Anselmo Bara Sejy Esu Abyy
16h30: Intervenção Cultural: Cultura dos Tambores
17h30: Encerramento

Informações: 4165-4333 ou em https://www.facebook.com/events/1071253369686692/

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A SÉRIE É O ÓPIO DO POVO

A Série é o coração de um mundo sem coração, o espirito de um mundo sem espírito, é o último suspiro da criatura oprimida. A série é o ópio do povo (Walter Lippold)
Ao degustar a tão esperada nova dose, me senti estranho
não sei… estava na estiga, não pensava em outra coisa
fui com tudo… consumi aquilo que queria muito;
mas agora que o efeito ainda nem passou, parece que estou mais infeliz do que antes.
Li por aqui, nesta bolha, que esse bagulho não é pros fracos… me envaideci (lembrei que já vi coisas reais que deixariam esses diretoresinhos pseudo-revolucionários no chinelo), mas em seguida senti enjoo… tipo, triste com a humanidade, meio que morto por dentro… talvez sem fé no presente… um Walker… não sei..
Fico pensando aqui, ainda sob efeito, se não há algo em risco com a banalização da violência… Em epocas de preto desavisado compartilhando Bolsonaro; de brasileiro fazendo marcha pra Trump; de “Estado Islâmico” queimando vivo outros muçulmanos que discordam de sua interpretação… fico pensando qual é a função (ou pelo menos os efeitos culturais) dessa catarse em massa.
Não sei… Talvez, eu apenas não me encaixe na categoria dos “fortes” ou não tenha alcançado a verdadeira mensagem… ou ainda pior, esteja caindo no erro (que sempre critiquei) de querer problematizar tudo o tempo todo, ao invés de, simplesmente curtir a brisa…
É fato (louvável, por sinal) que as séries estejam se esforçando para romper os malditos clichês. Eu não aguentava mais aquelas estorinhas de conto de fadas em versão séc. XXI. Entretanto, hoje, ao ver o close do crânio de dois personagens queridinhos sendo dilacerados por um bastão de beisebol; ao ver um personagem (no caso, o pai) a ponto de cortar o braço do próprio filho para não vê-lo ser assassinado… fiquei me perguntando (como se não tivesse mais nada pra fazer da vida) quem afinal são os mortos vivos… e que tipo de zumbis reais não estamos despertando?!
Mas não sei… acho que estou exagerando.
Era “da boa”!
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DIGA NÃO

AO ABUSO EMOCIONAL PRATICADO CONTRA CRIANÇAS!

Parece ter virado febre a disseminação nas redes sociais de vídeos com crianças em situação de sofrimento com o fim de divertir os adultos. São inúmeros vídeos, de curta duração, em que as crianças aparecem desesperadas, irritadas, ansiosas ou em estado de alerta artificialmente produzido.

Em um vídeo, por exemplo, após terem ensinado à criança uma certa verdade, a negam até vê-la chorar. No caso, fizeram a menina crer na afirmação preconceituosa de que o time de futebol Corinthians simboliza a favela e a pobreza e o Palmeiras simboliza o oposto. Depois passaram a afirmar que ela era corinthiana. A criança, em situação de defesa e confusão mental, começa a chorar copiosamente, negando que é favelada e, principalmente, implorando gestualmente pelo reconhecimento do adulto que a filma que ela não é favelada.

Em outro vídeo, a criança é adestrada a dançar toda vez que uma certa música mencionando que “hoje é sexta-feira” começa a tocar. Concluído o adestramento, filma-se a criança mamando calmamente no seio materno. De repente, toca-se a música e a criança, num ato automático, pula do colo da mãe e começa a dançar assustadamente.

Outro vídeo mostra a reação agressiva da criança quando tentam tirar-lhe o pacote de guloseimas da mão. A criança defende seus doces chamando o adulto de “filho da puta”.

Há ainda um outro vídeo em que a criança demonstra contrariedade e frustração quando lhe é tirado abruptamente um coelhinho de pelúcia elétrico que usava na região genital, expondo sua genitália nua. Para produzir esse vídeo, os adultos certamente estimularam a criança a brincar daquele modo, posto que raramente se consegue gravar crianças em suas peripécias na primeira vez que as fazem.

Como esses, há muitos outros vídeos circulando pelas redes, mas o que eles têm em comum é o mais profundo desrespeito pela criança, é o abuso da sua ingenuidade e a traição da confiança que precisa depositar nos adultos que o cercam. Esses vídeos são produzidos por adultos perversos, que não aprenderam a respeitar os mais frágeis e nem a se envergonhar com o sofrimento que provocam nas crianças.

Para seu prazer egocêntrico, transformam seres na mais tenra idade em meros objetos e as adestram para se comportar do modo desejado, em prejuízo da saúde mental delas.

Esse tipo de vídeo, evidentemente, é o completo oposto daquele que se produz a partir da observação atenta e respeitosa do desenvolvimento da criança, das graças advindas de sua curiosidade do mundo e de sua necessidade de tentar fazer algo até aprender.

Criança não é brinquedo e nem mesmo um animal irracional deve ser adestrado, em prejuízo de sua saúde, para simplesmente divertir os humanos. Ao produzir e compartilhar vídeos como os mencionados acima ensinamos desrespeito às crianças, ensinamos que seres humanos podem ser usados como brinquedos e ensinamos que podemos abusar de quem não consegue se defender. Além disso, estimulamos a proliferação desse lixo audiovisual.

Diga não à violência emocional contra a criança. Ou nos divertimos junto com elas, ou não há diversão, há abuso!!!

*Pinturas de William H. Johnson

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Massacre não é legítima defesa!

“Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo…

quem mata mais ladrão ganha medalha de prêmio!

O ser humano é descartável no Brasil.

Como modess usado ou bombril.

Cadeia? Claro que o sistema não quis.

Esconde o que a novela não diz.”

         (“Diário de um Detento” trecho do rap do grupo Racionais MC’s, escrita pelo ex-detento Jocenir.).

 

Nós do Kilombagem, manifestamos nossa indignação, diante da decisão do Tribunal de Justiça que anula o veredicto dos 5 júris que condenaram 74 PMs pelo massacre do Carandiru. Um dos episódios mais cruéis e desumanos da história do sistema prisional mundial que aconteceu na Casa de Detenção do Carandiru em São Paulo, em 03 de outubro de  1992.

Legítima defesa 24 anos depois do massacre nos parece mais uma demonstração de poder daqueles intitulados os guardiões das leis da justiça burguesa. A  anulação do julgamento nesta conjuntura,  onde o crescente  aumento da pobreza terá como desdobramento direto o aumento de violência, nos faz pensar que dentro da história do Brasil o projeto político eugênico de criação e caça ao inimigo interno, ainda vigora na vida real de pobres e pretas/os.

A letalidade da polícia contra pobres e pretas/os representa cerca de 60% do total de homicídios cometidos pela corporação. Neste contexto a população carcerária não é uma exceção, ela está na engrenagem do modus operandi do Estado favor do genocídio da população negra.

O Estado genocida utiliza diversas alegações para assassinar pessoas pobres, negras e encarceradas e continuar impune, desta vez sob a alegação de “legítima defesa”,  o que equivale a dizer que não houve crime cometido pelos agentes do massacre,  abrindo o precedente legal para que o Estado e seu braço de segurança, a Polícia Militar, promovam execuções sumárias e depois se absolva, incentivando a barbárie, o que para nós é inadmissível.

É preciso pensar numa nova sociedade, com a quebra desse paradigma em que a segurança é entendida como violência, repressão e morte aos mais vulneráveis, pois o Estado, por meio de sua justiça, continua legitimando a violência contra seu alvo preferencial.

Pensar sobre o significado de uma ação como essa nos remete a uma história de escravidão onde a coisificação o corpo preta/o significou prazeres e riquezas para o senhores e um mote de mazelas embrulhadas em histórias de  lamentos, de canções, de dores, de trajetórias e de vidas.

Quando uma juíza se utiliza de sua condição de classe para posicionar seu racismo, ela torna nossa existência ainda mais frágil.

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VICH, FODEU! A ESQUERDA ESTÁ EM CRISE!!! Mas a foda ainda é o melhor maneira de alcançar o orgasmo.

A foda ainda é o melhor maneira de alcançar o orgasmo. Pelo menos é o que argumenta Slavoj Zizec no belíssimo documentário sobre a ideologia chamado:  “O guia pervertido da ideologia”.

Ao comentar a nossa passividade diante do atual quadro político ele afirma:

O capitalismo está o tempo todo em crise. E é precisamente por isso que ele parece quase indestrutível. A crise não é o seu obstáculo, mas o que o impulsiona a um constante auto-revolucionamento, à estendida e permanente auto-reprodução. Novos produtos, sempre… o desperdício: uma enorme quantidade de lixo.

Nós não deveríamos reagir a essa quantidade de lixo tentando nos livrar dela… talvez, a primeira coisa a fazer seja aceitar esse lixo;  aceitar que existem coisas que não servem mais para nada, para romper com esse eterno ciclo de funcionamento.

O filósofo alemão Walter Benjamim disse algo muito profundo. Ele disse que nós experienciamos a história – nos tornamos seres históricos – não quando estamos comprometidos com coisas que se movem, mas somente quando vemos  restos da cultura sendo tomados pela natureza. Nesse ponto é que temos uma intuição do que a história significa.

Talvez isso valha também para filmes pós-catrastóficos, como “Eu sou a lenda”. Nós vemos o ambiente humano devastado:  Fábricas pela metade, máquinas caindo aos pedaços, lojas pela metade…

O que nós experienciamos nesse movimento, o termo psicanálitico para isso seria, “inércia do real”. Esta presença silenciosa além de qualquer significado.

O que momentos como esses (…) nos trazem é talvez uma chance de uma experiência passiva autêntica. Talvez, sem esse momento artístico apropriado de passividade autêntica, nada novo possa surgir.

Talvez, algo novo somente surja através da falha; da suspensão do funcionamento apropriado da rede existente de nossas vidas – onde nós estamos.  Talvez isso seja o que nós precisamos hoje, mas do que nunca.

Assista o documentário completo (com legenda em Português)

https://www.youtube.com/watch?v=GUq1yuxFZmQ

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Quem tem medo de um saber descolonizado? Nota de repudio à revogação do Edital de contratação de professes na UFABC

Mais uma vez, o conservadorismo brasileiro contra-ataca, prejudicando desavergonhadamente, a produção de conhecimento em uma Universidade Federal. O cerceamento do Edital 145/2016, que abria processo seletivo para a contratação de professores pesquisadores das relações étnico-raciais, é uma afronta aos interesses da população brasileira, e principalmente do Grande ABC.

A revogação do referido edital representa não apenas uma ferida à autonomia universitária, prevista constitucionalmente mas, sobretudo, um perigoso indício de que o Governo Federal está disposto a ceder as pressões mais mesquinhas e elitistas da direita brasileira. Não é novidade para ninguém que as relações raciais, constituem-se como um tema da mais alta relevância, quando se busca entender verdadeiramente o nosso país, que é tão desigual, do ponto de vista sócio-racial, e ao mesmo tempo tão diverso, do ponto de vista cultural.

O pensamento descolonizado assusta os articuladores de uma revista que se chama “Veja”, mas CEGA com tantas distorções; escandaliza os defensores de um movimento proto-fascista chamado “Escola sem partido”, que na verdade defende uma escola sem debate crítico, voltada à naturalização das desigualdades sociais. É natural que um Edital voltado à contratação de professores pesquisadores voltados às relações raciais assuste os desavisados, estranho, na verdade é o restante da sociedade aceitar em silêncio a esse e tanto outros abusos que vêm sendo cometidos no âmbito federal.

Não iremos aceitar calados(as)!

Seguem abaixo as notas escritas por profissionais e alunos da Instituição

NOTA DE REPÚDIO

Nós, do coletivo Negro Vozes, viemos por meio desta repudiar os trâmites do Edital de concurso de número 145/2016, para contratação de professores para disciplinas da área de Relações Étnico-Raciais.

Esse processo foi conquistado com muita luta das e dos estudantes, professores e servidores dessa universidade. Para nós, negras e negros da UFABC, o estudo das relações étnico-raciais é de suma importância para combater o racismo que nos mata todos os dias.
Somos minoria no corpo de pesquisadores brasileiros justamente porque somos minoria nos espaços de formação do ensino superior. É preciso reconhecer que o racismo é um fator estrutural da formação da sociedade brasileira e, a partir daí, implementar políticas públicas de reversão para essa realidade. Precisamos de jovens, professoras e professores, pesquisadoras e pesquisadores conscientes e aptos para tratar das relações étnico-raciais dentro das salas de aula, para que a Lei 10.639/2003 sobre o ensino da História e da Cultura Afro-brasileira e Africana seja implementada com excelência.

Nesse sentido, consideramos que a autonomia universitária foi ferida a partir do momento que a Reitoria decide unilateralmente retificar um ponto do edital aprovado integralmente pelas instâncias coletivas competentes, em todas as plenárias dos cursos e no ConsEPE. Hoje o ConCECS, aproveitando um evento que aconteceria na universidade realizou uma manobra de colocar em pauta a suspensão do referido edital já que quem defendia essa pauta não estaria presente.

Não aceitamos a suspensão do edital realizada pelo ConCECS, assim como mais nenhuma alteração no seu corpo. Exigimos que o ConsUni garanta que o processo seguirá até se dar a nomeação dos quatro professores para o concurso, pois não nos omitiremos de exigir e garantir os nossos direitos.

Coletivo Negro Vozes UFABC
18 de julho de 2016

Carta aberta à Comunidade Acadêmica

Carta aberta à Comunidade Acadêmica em relação ao Edital 145/2016 (“4×4”)

Como membros do GT do CECS para o concurso sobre Relações Étnico-Raciais (Edital 145/2016, www.ufabc.edu.br/index.php…) vemos, por meio desta, esclarecer alguns pontos fundamentais a respeito.

O estudo das relações étnico-raciais é um campo estabelecido mundialmente, constituído por uma ampla agenda de pesquisa e diversidade de abordagens.
O estudo das relações étnico-raciais no Brasil se desenvolveu insatisfatoriamente na academia, como resultado do tipo de racismo vivido no país, que se negou a reconhecer sua própria existência como fator estruturante da sociedade brasileira. Este fato foi reforçado ao longo do tempo pela ausência quase total de pesquisadores(as) negros(as) nas universidades brasileiras.
A importância do estudo e do ensino das relações étnico-raciais no sistema de educação brasileiro foi tardiamente reconhecida pelo Governo Federal na década passada, começando pela Lei 10.639/2003 sobre o ensino da História e da Cultura Afro-brasileira e Africana e pela Resolução No. 1 do Conselho Nacional de Educação, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Juntamente com leis posteriores, especialmente a Lei 10.645/2008, o processo de reconhecimento tomou corpo no Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-raciais, que inter alia exigiu da educação superior um esforço sistemático para contribuir à formação de jovens pesquisadores(as), professores(as) e cidadãos(ãs) conscientes das realidades brasileiras.
A exclusão de negros(as) foi também reconhecida, resultando, em primeiro lugar, na adoção de cotas raciais em universidades federais, prioritariamente em nível de graduação. Atualmente, cotas raciais são exigidas em cursos de pós-graduação. Adicionalmente, a Lei 12.990/2014 reservou aos(as) negros(as) 20% das vagas em concursos públicos, o que no caso do ensino superior se traduz na reserva de uma vaga em cada três, em editais com três ou mais vagas.
O concurso em questão é uma das primeiras iniciativas de viabilizar tanto a Lei 12.990, como fazer avançar no Plano Nacional de Implementação, por articular quatro bacharelados das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (Ciências Econômicas, Políticas Públicas, Planejamento Territorial, e Relações Internacionais) na alocação de uma vaga por curso a um esforço coletivo. O processo amadureceu ao longo de mais de um ano, passando pelas quatro plenárias, as quais também definiram os pontos da subárea que lhes cabia separadamente. As plenárias e seus colegiados são, portanto, responsáveis pela autoria dos pontos.
O ponto do edital referente ao estudo comparativo de regimes racistas (4.3.1.4), incluindo apartheid, nazismo e sionismo, se refere a um corpo de pesquisa já estabelecido e a um dos assuntos que mais preocupou a Assembleia Geral da ONU, resultando na Resolução No. 3379/1975 que tipificou a opressão do povo palestino como racismo. A resolução foi anulada em 1991, porém o assunto continua a polarizar, como o fez na III Conferência sobre o Racismo, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada na cidade de Durban em 2001.
O ponto do edital não pressupõe que formas de governo e ideologias são iguais em suas características, dinâmicas e consequências. Ele exige que candidatos tenham domínio sobre esses estudos comparativos.
É possível e necessário debater livremente sobre o assunto e a forma como ele foi colocado no edital, porém não cabe a uma Reitoria decretar o que é ou não é apropriado no estudo das relações étnico-raciais. Tal intervenção fere gravemente a liberdade acadêmica e cria um precedente perigoso.
Quaisquer que sejam as divergências sobre o referido ponto do edital, vale lembrar que é apenas um dos quarenta pontos ali existentes, que versam, em sua grande maioria, sobre à questão étnico-racial da população negra no Brasil.
O concurso em questão é resultado de reivindicações históricas do povo negro brasileiro por reconhecimento e inclusão efetiva na sociedade brasileira. Como tal, deve ser defendido por todos(as) aqueles(as) interessados(as) na formação de um país mais justo e democrático. O mínimo que se espera, feita a retificação do referido ponto, é que se respeite a integridade e a legalidade do concurso.

Saudações acadêmicas,

Muryatan Santana Barbosa (BCH/BRI/CECS)
Paris Yeros (BCH/BCE/CECS)

Nota da ADUFABC sobre a retificação do edital 145/2016: a universidade não existe sem autonomia

No último dia 13 de julho, a UFABC publicou no Diário Oficial da União o edital n°160/2016 que, como afirma nota divulgada pela reitoria no mesmo dia, “corrige uma parte do Edital 145/2016 que, de forma inapropriada, tratou no mesmo contexto regimes políticos e acontecimentos históricos muito diferentes entre si”.

Como todos acompanhamos, a decisão da reitoria de retificar o edital tinha o objetivo de encerrar uma forte polêmica envolvendo um dos pontos do referido concurso que mencionava o debate sobre “Conexões da branquidade e dos regimes racistas: apartheid, nazismo, sionismo”. A reação ao ponto envolveu, além de manifestações de parte da imprensa e da comunidade judaica, uma demanda direta do próprio ministro interino da educação.

A universidade, como qualquer outra instituição social, não existe fora da sociedade. Portanto, é perfeitamente compreensível – e até mesmo desejável – que seja objeto de questionamentos de forças sociais diversas, de natureza política, econômica, cultural ou religiosa, sobretudo considerando-se a legitimidade e a eficácia do conhecimento produzido no seu interior.

Mas se é esperado da sociedade que questione a universidade, é igualmente esperado que esta responda respeitando o princípio da autonomia.

A universidade constituiu-se historicamente como instituição lutando contra o poder político e religioso da Igreja, ainda na Idade Média. Da mesma forma, a emergência da ciência moderna no século XVII é impensável sem a afirmação do ideal da autonomia, materializado no expediente da “revisão por pares”, que reconheceu como princípio basilar da moderna produção de conhecimento, a ideia de que só pode julgar a validade de um saber aqueles que sejam capazes, por longo processo de formação, de compreendê-lo e avaliá-lo.

Foi reafirmando esses princípios fundamentais, e em resposta aos traumas e retrocessos causados pelas constantes intervenções da ditadura militar no interior da universidade, que a Constituição Federal de 1988 estabeleceu, no seu artigo 207, o princípio da autonomia universitária, com destaque para a autonomia didático-científica.

Reconhecer a autonomia da universidade não significa isentá-la de controle e responsabilidade social, mas significa afirmar que estes se exercerão segundo determinadas regras, inspiradas nesse princípio constitucional.

É partindo desta reflexão que a diretoria da Associação dos Docentes da UFABC vem por meio desta nota externar a sua profunda preocupação com a forma como o edital 145/2016 foi retificado pela reitoria da UFABC no último dia 13. Se havia uma demanda externa, mesmo que de origem pouco qualificada como foi o caso, para que o edital 145 fosse retificado, isso deveria ter sido feito à luz do princípio da autonomia e respeitando-se as instâncias universitárias, o que, em nossa opinião, exigia que o mesmo fosse reencaminhado de modo oficial para o colegiado responsável pela sua formulação, com uma solicitação de avaliação do questionamento apresentado e de eventuais esclarecimentos e, se este julgasse necessário, de reelaboração do referido ponto do edital.

Como se sabe, a discussão sobre racismo, sobretudo nos seus pontos de intersecção com a política e a religião, é assunto que mobiliza paixões e gera enormes polêmicas. No entanto, é função da universidade formar profissionais capazes de dominar criticamente os debates científicos e acadêmicos que alimentam e analisam tais polêmicas. Aliás, é isso que diz o edital de condições gerais de concurso da UFABC (n° 96/2013), no seu item 11.3:

“A Prova Escrita tem como objetivo avaliar a competência do candidato na utilização de conceitos, técnicas e suas inter-relações, de acordo com a área/subárea de conhecimento em exame, bem como avaliar sua capacidade de argumentação e crítica, domínio conceitual e vocabulário da área/subárea”.

A ideia de estabelecer no edital do concurso pontos ao invés de perguntas fechadas pressupõe a capacidade do candidato de argumentar livremente, inclusive de forma crítica. Assim, qualquer um que conhecesse o edital de condições gerais de concurso da UFABC, saberia que, ao contrário do que foi dito, não se esperava um candidato que equiparasse nazismo, sionismo e apartheid, nem que afirmasse o caráter racista do sionismo. Parece-nos evidente que o edital esperava, na verdade, um candidato que dominasse criticamente o debate por ele evocado.

Vale notar que a associação entre sionismo e ideologia da branquidade, portanto racismo no sentido sociológico do termo, é objeto de um amplo e conceituado debate no campo das ciências sociais, com desdobramentos muito particulares na área acadêmica e profissional das relações internacionais. Prova disso são os constantes debates e embates travados no âmbito da Organização das Nações Unidas para a definição ou não do sionismo como forma de racismo.

Que a Universidade Federal do ABC forme profissionais que lidem com esse debate de forma dogmática é inaceitável. Assim como é inaceitável que esse debate seja interditado a ponto de não poder ser citado em um edital de concurso, como se ele não fosse objeto de análise crítica e objetiva das ciências sociais.

As ciências sociais, de todas as áreas da ciência moderna, são as que mais dificuldades encontram para afirmar a sua autonomia e isso é patente nos constantes debates que se travam no espaço público da UFABC. Em um momento em que assistimos a uma escalada de radicalização política e religiosa no mundo todo, a universidade deve lutar para permanecer como espaço livre, crítico e objetivo de pesquisa e discussão. E isso não pode ser feito sem a preservação do princípio fundamental e constitucional da autonomia universitária. O precedente aberto pela revisão do Edital 145/2016 é, a nosso ver, perigosíssimo. Editais podem, sim, ser revistos, mas segundo critérios muito bem estabelecidos de respeito à autonomia universitária e às especialidades das diferentes áreas. Qualquer procedimento que escape a isso, flerta perigosamente com posições anticientíficas, anti-intelectuais e anti-modernas.

Diante do exposto, a ADUFABC solicita publicamente à Reitoria os seguintes esclarecimentos: 1) Como chegou à Reitoria a demanda de alterações no edital em questão? 2) Quais razões levaram a Reitoria a ignorar as instâncias devidas, notadamente o colegiado de curso que aprovou e referido edital? 3) Qual resposta a Reitoria pretende dar ao veículo de imprensa que, de forma agressiva e leviana, denegriu a imagem da UFABC e de seu corpo docente?

Por fim, a ADUFABC é solidária à Carta Aberta dos professores Muryatan Barbosa e Paris Yeros, membros do GT responsável pelo referido concurso, e reafirma a importância do edital 145/2016, cujo objetivo central é contratar professores que tenham pleno domínio do debate acadêmico-científico sobre a questão étnico-racial em suas diferentes dimensões, mas sobretudo no que concerne ao estudo e à pesquisa do povo negro brasileiro.

São Bernardo do Campo
18 de julho de 2016
ADUFABC

Gestão Democracia, Diversidade e Direitos (2016-2018)

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Evento “Psicologia e Sociedade: Rompendo o silêncio que sustenta o racismo.”

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Apresentação
O racismo na sociedade brasileira tem sido denunciado pelos movimentos negros, pelas pessoas negras, pesquisadoras/es e intelectuais antirracistas em diversas áreas como esporte, educação, produções artísticas, política, saúde dentre outras.

A Psicologia enquanto ciência e profissão tem o enfrentamento ao racismo regulamentado desde 2002, na forma da resolução CFP 018/02 segundo a qual as/os profissionais devem contribuir com seu conhecimento para uma reflexão sobre o preconceito e para a eliminação do racismo, além disso, as/os psicólogas/os devem respeitar uma série de normas de atuação relacionadas ao preconceito e à discriminação racial, baseadas na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Convenção Internacional Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, na Constituição Federal e em leis nacionais e dispositivos do Código de Ética Profissional do Psicólogo, considerando que o preconceito racial humilha e a humilhação social faz sofrer.

Nesse contexto, a Psicologia precisa rever suas práticas diante dos efeitos psicossociais do racismo e engajar-se na sua compreensão e na possibilidade de contribuir para uma sociedade equânime e transformar as relações raciais.

O Conselho Regional de Psicologia de São Paulo – CRP 06, além de convidar a categoria e a população a refletir sobre o tema, convida também a conhecer a Resolução nº 18/2002 do CFP, que estabelece normas para atuação das psicólogas e dos psicólogos em relação ao preconceito e à discriminação racial.

Programação:

9h30 10h Credenciamento e café de boas vindas

10h 10h30 Mesa de Abertura 
Camila Teodoro Godinho – Conselheira do CRP SP e Coordenadora da Subsede Grande ABCIvani Francisco de Oliveira – Membra da comissão gestora do CRP SP – Subsede Grande ABC e integrante do subnúcleo Psicologia e Relações Raciais do CRPEvellin Silva Oliveira – Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais – UFABCWellington da Silva Bento – Coordenador do grupo de trabalho de Igualdade Racial do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC

10h30 12h00 Mesa-Redonda: “Racismo e a situação educacional no Brasil”MediadoraEvellin Silva Oliveira – Graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Mestranda em Ciências Humanas e Sociais, pela Universidade Federal do ABC onde pesquisa sistemas de cotas na Pós-Graduação. É assistente docente da disciplinas Processos Migratórios, sob orientação do Prof. Acácio Almeida. Professora Formadora através da parceria entre a Prefeitura de Santo André e a Ação Educativa, visando propor medidas para trabalhar as relações raciais no âmbito escolar.Convidadas/os:Muryatan Santana Barbosa – Bacharel em História (2001), Mestre em Sociologia (2004), Doutor em História Social (2012), mais especificamente História da África, todos pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP).
Foi pesquisador visitante na Universidade de Harvard (2010) e consultor da UNESCO-Brasil para o Programa Brasil-África: histórias cruzadas (2011-2012). É autor de livros didáticos e de artigos em revistas especializadas.
Possui experiência de ensino universitário nas áreas de História e Sociologia.
Atualmente é Professor Adjunto do Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Regina Maria da Silva – Mestra em Educação: História, Política, Sociedade (PUC-SP), Pedagoga e Socióloga, Especialista em Magistério do Ensino Superior, Professora na Educação Infantil e Ensino Fundamental I na Rede Municipal de Santo André e Docente do curso de Pedagogia da Faculdade Sumaré.
Professora Formadora através da parceria entre a Prefeitura de Santo André e a Ação Educativa, visando propor medidas para trabalhar as relações raciais no âmbito escolar.


12h00 13h00 Almoço/Brunch

13h 13h30 Apresentação Musical:  Buia Kalunga e Katiara Oliveira  Clã dos Encardidos

13h30 17h Mesa-Redonda: A Psicologia e o enfrentamento ao racismo, na saúde do trabalhador, na clinica, no esporte e na comunidade.Mediadora:
Márcia Santos Miranda –
 Psicóloga formada pela Universidade Metodista de São Paulo. Possui experiência atua em Medidas Socioedutivas em Meio Aberto e Serviço de Acolhimento Institucional. Atualmente é Acompanhante Terapêutica (AT) no município de São Bernardo do Campo.Convidadas/os:
Eliana Aparecida da Silva Pintor – Psicóloga, especialista em psicologia clínica, mestre em Psicologia da Saúde, coordenadora do CEREST – Centro de Referência em Saúde do Trabalhador – de SBCampo.Emiliano de Camargo David – Psicólogo Mestrando em Psicologia Social (PUC SP). Especialista em Psicopatologia e Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). Professor do curso de pós-graduação da Faculdade Paulista de Serviço Social (FAPSS). Colaborador do Instituto AMMA Psique e Negritude. Psicólogo Clínico e Acompanhante Terapêutico com experiência em Saúde Mental no âmbito público e privado.Camila Teodoro Godinho – Psicóloga CRP: 06/98759 Formada pela Universidade Metodista de São Paulo com Especialização em Terapia Comportamental pela USP e Especialização em Psicologia do Esporte pelo Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento; Conselheira do CRP SP e Coordenadora da Subsede Grande ABC (gestão 2013-2016). Membro da Diretoria Executiva da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte – ABRAPESP (2015-2017) Atualmente realiza atendimento clínico em consultório particular, consultora e idealizadora de projetos ligados a saúde da mulher, qualidade de vida e qualificação profissional em psicologia.

Carlos Eduardo Mendes – Psicólogo, Doutorando em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo, Mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (2014) e graduado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (2011). Desenvolve pesquisa com jovens negras da periferia, em comunidades tradicionais (indígenas e quilombolas). Tem acompanhado o Tribunal popular discute ação violenta da polícia nas periferias.
Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Social.



Evento em parceira com a: Pró-reitoria de Assuntos Comunitários e Políticas Afirmativas da Universidade Federal do ABC.
 

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O escracho público dos nossos e a fragmentação ideológica só são bons para a burguesia

Nós do Kilombagem, viemos expressar que não somos adeptos ao linchamento público político, pois  não dialoga e não soma na luta.

Acreditamos que a luta contra o machismo deva ser uma tarefa de homens e mulheres. Sabemos que o patriarcado que ainda rege nossas relações é responsável pelos privilégios sociais masculinos, cotidianamente praticados, seja na violência doméstica e psicológica, seja nas relações de família.

Vivemos em momento da história onde a barbárie se coloca como um rolo compressor de nós mesmos, e retroalimentar as ideias da classe dominante, no enfrentamento ao machismo, é ceder ideologicamente às ideias da classe dominante.

Não acreditamos que o combate ao machismo e suas violência correlatas se dará pela separação total e imediata entre homens e mulheres, para nós do kilombagem os homens precisam entender que o machismo é um problema da humanidade, sendo assim, é um problema dos homens também.

Acreditamos que uma possível sociedade emancipada deva comportar homens e mulheres. Acreditamos também que para uma possível mudança nas relações sociais entre homens e mulheres, será necessário que os homens apreendam o significado e o peso do machismo no cotidiano de vida das mulheres, e se coloquem em luta para transformação dessas relações. Por isso é importante nos atermos para forma constante da interpretação dos fenômenos virar uma análise final de fatos, e serem reiterados na utilização interpretativa sem que haja mediação com as particularidades da realidade.

A nós, pretas e preto, pobres, da classe trabalhadora mais explorada, mais encarcerada, mais morta pela policia, pelo SUS, pela previdência, nos resta criar mecanismos de luta e unificação, mesmo diante de todos o limites colocados pela história. Precisaremos criar mecanismos de luta e resistência não segregacionistas, pois, a fragmentação ideológica só é boa para burguesia, essa elite senhorial e branca brasileira. Precisaremos criar mecanismos de diálogos entre os nossos, dessa forma, compreendemos que o escracho público dos nossos não é dialogo é apenas escracho, e escracho é humilhação. Fica a pergunta é por meio de escracho público individual que vamos combater o machismo e suas violências?

Nós do kilombagem acreditamos que o feminismo deva seguir uma perspectiva da emancipação humana. Não acreditamos em um feminismo que desconsidera o racismo e a luta de classes e, portanto, não vemos como lutas inseparáveis.”

Organização Negra de Esquerda Kilombagem – Raça Classe e Gênero.

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O eterno Déjà vu do suspeito padrão

“Vou te dizer uma coisa Algumas pessoas têm tudo Algumas pessoas têm nada Algumas pessoas têm esperanças e sonhos Algumas pessoas têm modos e meios

Nós somos sobreviventes, sim,a sobrevivência negra.” (Bob Marley – Survival)

 Nota de repúdio em resposta às justificativas publicadas pela gerência do Tupinikim Pizza Bar a respeito da revista na saída da casa de show na noite de quinta-feira, 21 de abril de 2106.

Na noite da última quinta-feira, 21/04, fomos alvo do “suspeito padrão” no Tupinikim Pizza Bar em Santo André, no Grande ABC Paulista, em noite de tributo a Bob Marley, em que havia poucos pretos e pretas, éramos praticamente as únicas com blacks e turbantes. Na saída da casa tivemos NOSSAS BOLSAS REVISTADAS por uma funcionária,  após pagarmos nossas comandas. Sem muitas explicações sobre os critérios, estranhamos o procedimento, questionando se  TODOS ESTAVAM SENDO REVISTADOS. A resposta da funcionária foi vaga. Não havíamos visualizado aviso algum nas paredes ou mesmo no caixa sobre uma revista na saída, que é totalmente incomum na noite Paulista, em que muitos bares e casas de shows revistam na entrada.

Pois bem, hoje pela manhã, fui à página do bar e questionei a ação, o questionamento foi publicado também no meu perfil pessoal (no facebook) e logo compartilhado por vários camaradas indignados, gerando polêmica e debate, inclusive nos acusando de linchamento público sem ouvir as justificativas do bar. Quero explicitar que nós do Kilombagem não somos adeptos dos escrachos e linchamentos públicos, e  procuramos analisar os fatos de forma objetiva, pra não cometer injustiças, ainda que nós sejamos alvo das mesmas todos os dias. Então partirei da resposta dada pelo bar (publicada na íntegra ao final dessa nota), em que destaco o seguinte trecho:

“Ontem, 21/04, durante o evento, nossas paredes foram pichadas. Então, nossa equipe de segurança, realizou vistorias com os clientes que saíam da casa, na tentativa de localizar o autor da pichação e suas latas de spray. Além de você, vários clientes também foram revistados, sem o objetivo de constranger, ou discriminar alguém. Repito: o único objetivo da vistoria foi de identificar o autor da pichação, independente da sua cor da pele, ou qualquer outro atributo. O ATO NÃO FOI RACISTA!”

A mensagem afirma que “Além de (nós) você, vários clientes também foram revistados“, deixando objetivamente explícito que NÃO FORAM TODOS OS CLIENTES, VÁRIOS e TODOS são OBJETIVAMENTE DIFERENTES. Então quais foram os critérios adotados pela casa? A cor da pele? A aparência? O comportamento? Outra, se a “tentativa (era) de localizar o autor da pichação e suas latas de spray“, por que revistar bolsas que mal cabiam celulares, quiçá uma lata de spray? E ainda podemos dizer que a afirmação de que  “O ATO NÃO FOI RACISTA!”, parte da premissa do senso comum da Democracia Racial no Brasil de reconhecer que o racismo existe, mas não reconhecer que se pratica racismo, porém, HÁ RACISMO SEM RACISTAS? As dúvidas permanecem.

Isto posto, retomo Ângela Davis em uma entrevista recente para TV Brasil (disponível no Youtube), quando ela expõe que devemos canalizar nossa energia ao combate do racismo institucional, esse que nos mata através da PM, que nos exclui das universidades, dos empregos e, que sistematicamente nos mantém à margem da sociedade capitalista, sem ignorar o racismo individual e cotidiano que nos adoece, nos intimida, constrange e acaba com nossa auto estima.

Logo, o que poderia ter sido um rolê da hora entre amigas numa noite linda de outono,  se torna quase sempre um caso de racismo, com debates, denúncias, manifestos. É vergonhoso esse tipo de atitude num bar cujo palco já recebeu bandas como UAFRO, Conde Favela, Ba-Boom, Mcs como Katiara Oliveira e Ba Kimbuta, que são nossas referências de resistência e luta.

Encerro dizendo que pedir desculpas não é o suficiente, quando o RACISMO MATA, é preciso providências que eliminem esse tipo de ação, porque NUNCA MAIS VAMOS NOS CALAR. O suspeito padrão está culturalmente naturalizado, e uma de nossas tarefas enquanto Kilombagem é combater e desconstruir essa ideologia, difundindo e divulgando ideias revolucionárias Dessa forma NÃO BANALIZAR OU MINIMIZAR SITUAÇÕES COMO ESSA É NOSSO DEVER ENQUANTO MILITANTES NEGRAS PANAFRICANISTAS DE ESQUERDA.

RACISTAS NÃO PASSARÃO!

CONTRA O GENOCÍDIO DO POVO NEGRO FÍSICA E MENTALMENTE!

Janaína Monteiro – Professora e militante do Kilombagem

Na íntegra a mensagem que enviei na página do Bar:

“Fui poucas vezes ao bar, mas ontem foi a gota d’água, FOMOS REVISTADASNA SAÍDA DO BAR,após pagar nossas comandas devidamente, o que nunca vi em nenhuma balada, mesmo nas mais caras de Sampa. Um tributo a Bob Marley mas tinham poucos pretos e pretas, éramos as poucas com blacks e turbantes. Já estive em shows no bar onde a quebrada estava em peso e não passamos por isso. Estão assumindo sua conduta RACISTA? Ou não têm se dado conta disso? Queremos esclarecimentos: TODAS AS PESSOAS FORAM REVISTADAS NA SAÍDA?”

Na íntegra a resposta do Tupinikim :

Olá Janaina, boa tarde!
Primeiramente, vale ressaltar que o Tupinikim é um espaço voltado para a cultura afro descendente, pois 80% da nossa programação é direcionada para esta cultura.
Todas as Quartas temos samba de raiz na casa, as Quintas-feiras são para o público do reggae (voltado para a cultura jamaicana) e nas sextas, temos a noite Marakasi, que é para o público do Hip Hop.
Com esta grade de programação, evidencia que não temos qualquer tipo de preconceito ou discriminação com quem quer que seja. Nossas portas estão abertas para todos os públicos, sem distinção de qualquer natureza.
Aqui, pregamos a paz, lutamos pela arte e pela diversidade cultural.
Ontem, 21/04, durante o evento, nossas paredes foram pichadas. Então, nossa equipe de segurança, realizou vistorias com os clientes que saíam da casa, na tentativa de localizar o autor da pichação e suas latas de spray. Além de você, vários clientes também foram revistados, sem o objetivo de constranger, ou discriminar alguém. Repito: o único objetivo da vistoria foi de identificar o autor da pichação, independente da sua cor da pele, ou qualquer outro atributo. O ATO NÃO FOI RACISTA!
De qualquer forma, pedimos desculpas se a atitude da nossa equipe de segurança te causou algum constrangimento, pois de fato, não é e nunca será nossa intenção. Nossa equipe é constantemente treinada e recebe orientações quanto à forma de atender nossos clientes, que são muito especiais para nós. Não compactuamos com atitudes, palavras ou gestos racistas e discriminatórios, dentro ou fora de nosso espaço.
Nossas portas permanecem abertas para você e seus amigos voltarem para curtir nossa programação e caso queira bater um papo pessoalmente, estamos aqui, disponíveis para atendê-la.
Atenciosamente,
Diretoria Tupinikim Pizza Bar e Lounge

(Link: https://www.facebook.com/profjanaina.mont/activity/1083538968371621?comment_id=1083604211698430&reply_comment_id=1083684371690414&notif_t=open_graph_action_comment&notif_id=1461344371345903)

 

 

 

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Ser ou não ser do lar: uma falsa questão.

A mídia burguesa não dá ponto sem nó, e a revista Veja agiu com rapidez para projetar  uma imagem de Michel Temer como um grande líder, respeitável, com uma esposa “bela, recatada e do lar”, ou seja, projetar um modelo de família dentro dos padrões conclamados no último domingo pela maioria dos deputados durante a votação do processo de Impeachment.

A matéria sobre Marcela Temer causou polêmica ao exaltar padrões de beleza, reforçando o modelo de “ser bela” como branca e magra,  enquadrando o comportamento da mulher ideal como recatada, termo que endossa o discurso machista-racista: essa é pra zuar e essa é pra casar. E retoma, o que eu chamaria do efeito Feiticeira (da série de TV), da mulher com superpoderes que poderia ser tudo o que quisesse, mas escolhe abrir mão em detrimento do marido, dos filhos e do lar.


Os
 estereótipos reforçados pela matéria são um ataque explícito aos movimentos feministas, o que fez com que se tornasse um viral na internet, dividindo opiniões, principalmente quanto ao fato de ser ou não ser do lar, o que me leva à algumas reflexões que divido aqui com vocês.

 

 

Ser do lar vamos combinar que não é uma escolha que está posta pra maioria das mulheres, por vezes é uma escolha do homem, porém, cuidar e educar os filhos de forma integral é um desejo de muitas, (já foi o meu, inclusive) isso, levando em conta que se possa ter alguém pra ajudar financeiramente.  Pra algumas essa situação foi a mais viável pra sua vida em determinado momento e, o que pode ser visto como privilégio em alguns casos, em outros coloca-se como a única opção para não entregar os filhos à marginalidade (o que já me relataram muitas mães de adolescentes em situação vulnerável), outros casos ainda, essa escolha é feita por não conseguir pagar uma escola, ou uma cuidadora, haja visto a falta de acesso às creches públicas no nosso país.

 

 

Não ser do lar no capitalismo essa não é bem uma escolha, mas uma realidadea classe trabalhadora é massivamente composta por mulheres, que enfrentam dupla e tripla jornadas, estando à frente das suas famílias como as principais responsáveis pelos sustento da casa. Nós mulheres conquistamos autonomia e independência ao longo da história, associar o retorno ao lar como um retrocesso é compreensível.

Ser ou não ser do lar é uma falsa questão e fazer a crítica a matéria da revista Veja é ato político e necessário, num momento importante, com leis sendo aprovadas que nos impõem retrocessos e perda de direitos básicos, sobretudo, pras nós mulheres negras e da  classe trabalhadora.

A violência contra nós só tem aumentado dentro e fora do lar, não esqueçamos de Claudia Silva Ferreira que foi assassinada e arrastada pela viatura PM do Rio de Janeiro.


As desigualdades de gênero permanecem e é preciso ainda lutar muito contra isso, o que torna o fato de ser ou não do lar totalmente irrelevante, sendo o mais importante cada mulher combater e mobilizar as demais do lugar onde quiser (ou puder) estar!!!

 

MULHERES, UNI-VOS! Ainda temos muito a fazer!

 

(Janaína Monteiro – Professora de Sociologia, do Kilombagem).

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Resenha do livro What Fanon said, de Lewis Gordon

O que Fanon disse, afinal? Lewis Gordon e a defesa de uma abordagem fanoniana

Por Deivison Mendes Faustino (Deivison Nkosi)  PLURAL, Revista do Programa de Pós‐Graduação em Sociologia da USP, São Paulo, v.22.2, 2015, p.247‐253
O que Fanon disse, afinal?
Essa pergunta norteou a extensa pesquisa do do filósofo jamaicano Lewis R. Gordon. A obra What Fanon Said: a philosophical introduction to his life and thought (“O que Fanon disse: uma introdução filosófica à vida e obra de Fanon”),  oferece grandes contribuições aos estudos sobre a vida e obra de Frantz Fanon. O autor, que também é conhecido pelas publicações Bad Faith and Anti-black Racism (1995), Fanon and the Crisis of European Man: An Essay on Philosophy and the Human Sciences (1995) e por divulgar a obra fanoniana ao redor do mundo, dessa vez, vem a público em 2015, ano que se celebra os 90 anos de Frantz Fanon para apresentar sua reflexão, adquirida ao longo de mais de 20 anos de pesquisa.

A partir de uma filosofia radical, que critica as raízes e os efeitos do racismo global, Lewis Gordon problematiza, de maneira singular, as categorias sujeito, razão, racialização, subalternização, colonialismo, violência, desejo, práxis, etc., abrindo, portanto, um diálogo crítico com as principais vertentes teóricas das ciências sociais contemporâneas e apontando para a possibilidade de um novo humanismo pós-colonial (Nissim-sabat, 2011).

Acesse o resumo na íntegra aqui 

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Claudia Jones: Desconhecida Pan-Africanista, Feminista e Comunista

O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu à sua defesa para a libertação dos povos do Caribe e da África do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons
O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu à sua defesa para a libertação dos povos do Caribe e da África do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons

Traduzido por Rafaela Araujo Santana – Grupo Kilombagem

Por Ajamu Nangwaya

Jones utilizou o espaço organizacional do Partido Comunista para avançar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descolonização e na luta de classes.

Claudia Jones foi uma revolucionária, cujo ativismo alcançou dois continentes, América do Norte e Europa. Claudia Vera Cumberbatch nasceu em 21 de fevereiro de 1915 em Belmont, Trinidad e Tobago, a terra que tem dado origem a importantes políticos, como C.L.R. James, Eric Williams, George Padmore e Kwame Ture (anteriormente Stokely Carmichael). Ela e sua família foram forçados a migrar para Nova York durante os anos 1922-24, como resultado da dificuldade econômica que eles experimentaram como membros da classe trabalhadora em Trinidad.

Ela adotou o sobrenome “Jones”, como uma medida de proteção na realização de seu trabalho organizado com o Partido Comunista dos EUA (CPUSA). Essa mudança de nome não foi um incomum dada a histeria anticomunista e perseguição dos comunistas nos Estados Unidos. Claudia faleceu na terra de seu exílio, na Grã-Bretanha, em 25 de dezembro de 1964. Curiosamente, o local final de descanso de Jones está localizado justamente a esquerda de Karl Marx, no cemitério de Highgate, em Londres.

Ela contribuiu para o trabalho do Partido Comunista dos Estados Unidos – CPUSA como jornalista, editora, líder, teórica, educadora e organizadora de 1936 até sua deportação em dezembro de 1955. Ela trabalhou com o jornal do partido Diário Trabalhador, serviu como a editora da Liga da Juventude Comunista (UJC), na Revisão Semanal, funcionava como a diretora estadual YCL da educação e presidente do estado, tornou-se um membro pleno da CPUSA em 1945, eleita para o Comitê Nacional do CPUSA em 1948, assumiu o papel de Secretária de Comissão da Mulher, CPUSA, e trabalhou em várias funções em outras publicações do partido. Claudia foi presa três vezes por causa de seu trabalho na CPUSA. Ela foi condenada sob a Lei Smith que visava os líderes do CPUSA e serviu oito meses na prisão.

O Professor Errol Henderson da Universidade Estadual da Pensilvânia captura a relevância política da Claudia:

“Ela foi brilhante e incisiva. Ela forneceu ao feminismo componente da análise marxista juntamente com a incisiva incorporação da “cultura negra” de Haywood, no qual ela apoiou e estendeu … uma mente excepcional … e sua deportação para os EUA foi uma grande perda para a luta de libertação aqui, mas como um complemento para o Reino Unido, onde ela fez ainda mais contribuições “.

Jones utilizou o espaço organizacional do Partido Comunista estadunidense para avançar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descolonização e na luta de classes. Além disso, ela usou suas várias funções e recursos do partido comunista para avançar na libertação das mulheres em geral e das mulheres afro-americanos da classe trabalhadora, em particular.

É uma grande injustiça da história que o trabalho de Claudia Jones seja pouco conhecido entre os radicais que possam extrair ensinamentos da sua abordagem integrada para a eliminação do racismo, capitalismo, patriarcado e imperialismo. Em um período como nosso em que a política de identidade assume expressões vulgares, é fundamental para nós destacar a contribuição desta revolucionária cujo ativismo foi guiado por um anticapitalista, exigente anti-opressão e orientação política anti-imperialista.

O Professor Carole Boyce Davies, em seu livro “A esquerda de Karl Marx: A vida política da Comunista negra Claudia Jones,” oferece uma razão para a invisibilidade de Claudia:

“O estudo das mulheres negras comunistas permanece um dos mais negligenciados entre verificação contemporânea de mulheres negras para pelo menos, uma das razões que Joy James identifica: O revolucionário sob margem, mais do que qualquer outra forma o feminismo (negro). “Este tipo de negligência pela maioria das acadêmicas feministas não é surpreendente. A maioria destas pesquisadoras burguesas não são socialistas / comunistas e, como tal, não são atraídos para assuntos que estão associados com o comunismo.

A continua experiência de classe trabalhadora de Claudia e sua família na sociedade americana ajudou na formação da sua luta de classes, compromissos políticos feministas e antirracistas:

“Estava fora das minhas experiências de Jim Crow como uma jovem mulher negra, experiências igualmente nascido da pobreza da classe trabalhadora que me levou a juntar-se à União de Jovens Comunistas e escolher a filosofia da minha vida, a ciência do marxismo-leninismo – que a filosofia que não só rejeita ideias racistas, mas é a antítese deles. “

Como uma mulher africana da classe trabalhadora, a experiência vivida de Claudia lhe proporcionou um amplo entendimento do patriarcado. O exemplo mais claro de sua compreensão e análise da opressão das mulheres africanas está presente no artigo “Um fim à negligência dos Problemas da Mulher Negra! ”. Foi publicado em 1949. Muito antes do desenvolvimento da estrutura analítica interseccional na década de 1970 por feministas e lésbicas Afro-americanas como expresso na Declaração ColetivoRioCombahee, Jones já tinha essa abordagem para analisar as múltiplas formas de opressão que configura a vida das mulheres afro-americanas da classe trabalhadora.

A preocupação de Jones com a libertação das mulheres focava em mudanças nas condições econômicas, sociais e políticas desiguais e não a obsessão cultural psicológica encontrada dentro de círculos políticos de identidade vulgares atuais:

“Para o movimento das mulheres progressivas, a mulher negra, que combina em seu estatuto o trabalhador, o Negro, e a mulher, é o link vital para essa elevada consciência política. Na medida, além disso, que a causa da mulher negra trabalhadora é promovida, ela será habilitada para tomar seu lugar legítimo na liderança do proletariado negro do movimento de libertação nacional, e por sua participação ativa contribuem para toda a classe trabalhadora americana, cuja missão histórica é a conquista de uma América Socialista – a final e completa garantia da emancipação da mulher “.

O estado capitalista e corporações do Norte global explora os recursos e mão de obra e dominar as economias e sociedades no Sul global. De acordo com Davies em “A Esquerda de Karl Marx”, “política anti-imperialistas de Claudia ligada às lutas locais de pessoas negras e mulheres contra o racismo, e a opressão sexista às lutas internacionais contra o colonialismo e o imperialismo negros.” O Pan-africanismo de Claudia conduziu para sua defesa por liberdade dos povos do Caribe e da África do colonialismo.

Na Grã-Bretanha, dois das notáveis realizações de Claudia são a criação do Carnaval de Notting Hill e o Diário das Índias Ocidentais. Uma parte do epitáfio em sua lápide diz: “Valente lutadora contra o imperialismo e, o racismo que dedicou sua vida ao progresso do socialismo e a libertação do seu próprio povo negro.”

Deveria ter acrescentado: “defensora assertiva do feminismo socialista”.

Ajamu Nangwaya, PhD., é um educador, organizador e escritor. Ele é um organizador com a Rede para a Eliminação da Violência Policial

Artigo original disponível em: http://www.telesurtv.net/english/opinion/Claudia-Jones-Unknown-Pan-Africanist-Feminist-and-Communist–20160210-0020.html

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Phil Anselmo: O ícone do Metal e a Alienação Coletiva

Por William Mumu Silva

Phil Anselmo - Pantera, advoga a supremacia branca
Phil Anselmo advogando a supremacia branca – CLICK NA IMAGEM PARA ASSISTIR O VÍDEO

“White Power”! Bradou orgulhoso e de peito estufado enquanto fazia a saudação nazista, um dos ícones do metal mundial, o ex-vocalista do Pantera, Phil Anselmo. Sua atitude racista talvez se transforme em mais um “arrependido” pedido de desculpas feitos por um descontrolado beberrão que os headbangers[1] tanto adoram.

Abro meu computador e vejo todo tipo de mensagem saltando na tela, umas em repúdio, outras em apoio a Phil Anselmo, que se tornou o trending topics[2] mundial como o mais novo famoso racista do momento.

Nos dias de hoje ser racista explícito não chega a ser um problema tão grave, principalmente se você for famoso. Os caminhos tortuosos da intolerância e o desejo de supremacia racial tomam corpo massivo nas ruas americanas e pasmem, nas brasileiras também.

Nos EUA, terra de Phil Anselmo e da “Lei de Lynch”[3], muitos dirão que não é mesmo um problema a prática do extremismo racial. Por lá temos Donald Trump concorrendo à presidência da república e a volta das atividades midiáticas da Ku Klux Klan, entre outras coisas.

No Brasil temos as bancadas evangélicas na câmara, Luciano Huck na TV e ex-militares como o deputado Bolsonaro, cumprindo o papel de fascistas tupiniquins. Por aqui o crime de racismo se quer existe, é injuria racial, o que sabemos não ser exatamente a mesma coisa, mas não entrarei nessa seara.

Muitas pessoas não enxergam violência em um fato como esse executado pelo músico, então partindo desse ponto, posso dizer que, minimamente, esse tipo de ação gera desconforto, mas lidar com o desconforto parece ser tarefa exclusiva para quem sofre a ação de injúria e violência, por isso não há tanta preocupação na tratativa da causa raiz do problema.

Scott Ian do Anthrax, que é judeu, disse em suas redes sociais: “Tudo isto é perigoso, não importa qual o contexto. Tenho tolerância zero para tudo isto e não protestar contra é tão perigoso quanto o ato em si”. Deveríamos mesmo ter tolerância zero, mas na cena metal, não é bem assim. Os headbangers foram se tornando conservadores ao longo dos anos e os casos de racismo são cada vez mais frequentes e explícitos, a intolerância é cada vez mais alta.

Pantera à frente da Bandeira dos Confederados, símbolo da supremacia branca nos E.U.A.
Pantera à frente da Bandeira dos Confederados, símbolo da supremacia branca nos E.U.A.

A Bandeira dos Estados Confederados da América virou adereço da nova moda Rock and Roll. As bandas, que obviamente entendem o real significado desse símbolo, espalham sua mensagem livremente pelo mundo, já os fãs, repetem discursos de ódio racial travestidos de símbolos de uma ideologia rebelde. Devemos aplaudir tamanha perspicácia na construção de um ecossistema tão bem elaborado e eficaz.

Phil Anselmo vendo o tamanho do barulho gerado, pediu desculpas, mesmo sabendo que não teria grandes problemas a longo prazo, mas como um garoto mimado, colocou a culpa na bebedeira regada a “vinho branco racista”. Esse tipo de atitude mesquinha valida nessa sociedade atual o fato assombroso de que se estivermos supostamente bêbados podemos praticar qualquer ação violenta ou de injuria racial, bastando depois se desculpar na internet por beber um pouquinho demais.

Não podemos mais a apologia à supremacia racial com rebeldia, discursos de ódio com gritos de liberdade. Se continuamos fazendo isso, passo a acreditar que estamos vivendo um período de Alienação Coletiva no rock.

Rob Flynn, vocalista do Machine Head, fez um vídeo sobre o caso e nele acusa Phil Anselmo de racista baseado em seu relato pessoal dos fatos ocorridos nos bastidores do show. Por ser caucasiano e não ter vínculo emocional com o nazismo, como é o caso de Scott Ian, acho louvável a coragem e o posicionamento do vocalista, apesar de também achar uma atitude deveras oportunista de marketing espontâneo.

Analisando a naturalidade com que Phill Anselmo usa a saudação nazista, me dá a entender que isso é algo comum em seu cotidiano nos bastidores entre amigos, nesse caso, seria essa a primeira vez que Flynn ouvia essa “piada”? Seria essa a primeira repreenda que ele daria em Phil Anselmo? Não tenho motivação em tentar demonizar a crítica feita por Flynn, respeito todos que se posicionam firmemente, seja lá por qual motivação, contra atos racistas, porém, a alienação coletiva não é extirpada em um único e isolado posicionamento perante a fatos constantes e repetidos, somente mudança nas atitudes diárias podem tratar os sintomas dessa doença. A questão é saber se quem oprime se reconhece como racista, e se está disposto a se tratar verdadeiramente.

Down
Créditos William Mumu Silva!

Acredito que ninguém é obrigado a apoiar uma causa específica, mas o mínimo do bom senso e respeito são requeridos na convivência em sociedade, omissão também é crime, não cível, mas moral. Nessa linha de pensamento Sebastian Bach, ex-vocalista do Skid Row, em seu Twitter demonstra um pouco de sanidade: “O rock deveria ser diversão. Perverter a música em ódio? Não é divertido. Pessoas que dizem “white power” são idiotas. Assim como aqueles que concordam. Ou que ficam em silencio”.

O Silêncio e a mentira são convenções que afirmam privilégios sociais e são as formas mais discretas para se tornar um racista ativo de boa índole na sociedade. Atitudes como a de Phil Anselmo permeiam o inconsciente coletivo e calcificam o pensamento racista que posteriormente tendem a transbordar nas ruas em forma de atitudes intolerantes e violentas.

Como alguns podem pensar, isso não tem nada a ver com a costumeira má interpretação do termo “politicamente correto”, mas sim com uma sociedade doente sofrendo de alienação coletiva muitas vezes promovida por pessoas com grande alcance midiático em seu país, ou em seu nicho de convivência social.

O psiquiatra e filósofo, Frantz Fanon, em “Racismo e Cultura” nos ajuda a entender que a alienação é um fato real. Para ele a alienação não se limita a nossa subjetividade, é algo concreto em nossas relações reais em todos os ambientes de convivência, neste caso a tribo do Rock e Metal.

Apresentação do DOWN - Carioca Club, 2013 - William Mumu Silva!
Apresentação do DOWN – Carioca Club, 2013 – William Mumu Silva!

Fanon também diz:

O racismo, não é mais do que um elemento de um conjunto mais vasto: a opressão sistematizada de um povo. O exotismo é uma das formas desta simplificação. Partindo daí nenhuma confrontação cultural pode existir. Por um lado, há uma cultura à qual se reconhecem qualidades de dinamismo, de desenvolvimento, de profundidade. Uma cultura em movimento, em perpétua renovação. Frente a esta, encontram-se características, curiosidades, coisas, nunca uma estrutura.

A fala de Frantz Fanon neste caso dialoga com o fato de que apesar da indignação por parte de outros músicos da cena rock e metal, não há confrontação cultural efetiva, pois tal atitude, mesmo para aqueles que se opõem a saudação nazista, batem de frente com suas supostas conquistas e privilégios históricos e sociais. Não basta romper em discurso único contra atitudes racistas, pois se no cotidiano não houver a prática de respeito e igualdade sócio cultural, não haverá mudanças estruturais na sociedade, sendo assim, a benevolência e aceitação de pedidos de desculpas em casos como esse, tendem a continuar se multiplicando.

Fiz muitos bons amigos na cena rock e metal, aprendi a andar nas ruas e a viver como um gladiador urbano sem pudores ou amarras por conta do Heavy Metal. Extravasei ódio, amor e tristeza na distorção das guitarras, no rufar de bumbos duplos e nos guturais animalescos de músicos cheios de postura e atitude. Estive sempre ao lado de boas pessoas que respeitavam e ainda respeitam nossas diferenças raciais e culturais, entendendo que enxergamos o mundo a partir de pontos de origem diferente, ainda hoje não espero menos de qualquer amigo Headbanger.

Como Headbanger Negro, redator e fotógrafo de sites e revistas do gênero, porém consciente de minha história étino-cultural, tenho motivação natural para me posicionar estruturadamente ante um fato que considero de extrema violência, hoje psicológica, amanhã física e letal, contra meus semelhantes negros, índios e qualquer outro povo considerado como minoria a ser massacrada por extremistas de uma suposta supremacia branca.

Já tive a oportunidade de fotografar Phil Anselmo com o Down duas vezes para revistas de Heavy Metal, e mesmo não sendo fã de Pantera ou do Down, é impressionante sua presença de palco e qualidade musical, por isso, como fã de música acho uma pena ver um dos maiores ícones do metal dos anos 90 se destacando por atitudes racistas e intolerantes, ao invés de ser por suas músicas.

Como cidadão africano em diáspora, fico indignado com os níveis de alienação coletiva dentro de uma cena que me acolheu quando adolescente, me tratando até então, como semelhante. Fico deveras indignado ao ver alguém tendo uma atitude explicitamente racista se safando por fazer um simples pedido de desculpas, transformando suas inspirações racistas em uma simples bebedeira e brincadeira de mal gosto. Acredito que Phil Anselmo não tem nada de inocente, e seu gesto não merece o perdão pela simples atitude de perdoar.

Apesar de ver muitos exemplos de conduta semelhante à de Phil Anselmo na cena rock e metal, especialmente nas redes sociais, ainda prefiro não generalizá-la como racista, pois sempre haverá boas pessoas e o contraponto a qualquer mal comportamento, além do fato de não conseguir medir assertivamente se a sociedade racista influencia o rock ou se o rock fascista influencia a sociedade racista.

Independentemente de qualquer coisa, enquanto as pessoas não estiverem dispostas a mudar a motivação de seus atos na vida real de forma cotidiana, ainda veremos muitos gritos pró supremacia branca vindos de futuros arrependidos beberrões como Phil Anselmo. Definitivamente estou velho e saudoso demais por estar afetivamente apegado ao século passado, quando falar de Phil Anselmo era somente falar de Heavy Metal.

[1] Headbanger (também chamado de Metalhead): É a denominação em inglês para os de fãs de heavy metal e suas variantes. No Brasil são chamamos Metaleiros, mas esse termo é considerado pejorativo para muitos fãs de Metal Extremo.

[2] Trending Topics: É uma lista gerada em tempo real das frases mais publicadas no Twitter ao redor do mundo. De forma simples são os Assuntos do Momento na internet.

[3] Lei de Lynch: O termo linchamento surgiu em 1782 a partir da expressão “Lei de Lynch” (Há controvérsias), a mesmo referia-se a ações praticadas pelo fazendeiro e político Charles Lynch. Charles teria usado a força contra suspeitos durante a Guerra Revolucionária Americana liderando um grupamento da Virgínia contra os suspeitos britânicos durante a guerra. Os capturados que eram julgados pela Lei de Lynch, eram sentenciados a chicotadas em público, prisão ou trabalho forçado. Há quem afirme que a origem do termo tenha surgido não de Charles, mas sim do capitão Willian Lynch. Que junto com aliados do condado Pittsylvania County, cunhou o termo “Lei de Lynch”, para penas severas que eles aplicavam.Há ainda quem credite a origem do termo, ao nome do prefeito irlandês, James Lynch Fitzstephen que em 1493, enforcou publicamente seu próprio filho na sacada de sua casa após condena-lo pelo assassinato de um visitante espanhol.

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O samba continua sendo uma arma de resistência e luta em Mauá

Avante mocidade pega o lenço e vai a luta. Trechodo samba Cenário Original de Rafael Loré

 

É muito difícil falar do Projeto Samba de Terreiro de Mauá e do Bloco de Samba “Pega o Lenço e Vai” em poucas linhas pois, cada detalhe da história desses projetos é muito importante e deve ser registrado, não pode cair no esquecimento; tentarei sintetizar essa história sem reduzir sua grandiosidade.

O Projeto Samba de Terreiro de Mauá, é um coletivo de trabalhadores(as) que desde de 23 de dezembro de 2002 decidiram se organizar para pesquisar e difundir os sambas de outrora. Esses trabalhadores(as) se preocupavam com a possibilidade do esquecimento desse formato de samba: cuidadoso com a melodia e harmonia dos sambas, com os músicos tocando e cantando no formato de roda para que todos participassem e a importância das mulheres na roda que são chamadas de pastoras, termo que vem dos ranchos carnavalescos, anteriores as escolas de samba – década de 1880, o sambista apresentava sua composição para as pastoras, se elas cantassem bem o samba, este estava aprovado.

Esse resgate mostra a função social que o samba tem em sua essência, mostra que ele não é somente entretenimento, ele é também resistência, pois, a repressão policial nas periferias que hoje denominamos como genocídio da população negra, também era pesada naquele período, havia proibição e os sambistas para escapar dessa repressão foram para os terreiros de candomblé fazer as rodas de samba; eram locais seguros, a repressão aos terreiros era menor no período, assim surgem as escolas de samba do Rio de Janeiro misturadas com as religiões de matriz africana pois, em um primeiro momento se organizaram nos terreiros, sempre resistindo; esses sambistas colocaram em suas letras seu duro cotidiano de uma forma rica em poesia, melodia e harmonia.

O resgate da história do samba feito por esses trabalhadores(as) é transformador, o Samba de Terreiro de Mauá é uma escola pública de verdade, pesquisam por amor não cobram pela socialização que fazem de suas pesquisas e cada vez mais agregam pessoas, de toda parte do país, fortalecendo a luta para que a essência do samba não se perca totalmente.
Quem assiste um desfile de escola de samba do Rio de Janeiro hoje, não faz ideia que a origem dessas escolas teve a função social de organizar trabalhadores(as) que queriam produzir sua arte e não podiam, que lutaram muito para conseguir; hoje o luxo das escolas de samba permite a participação da população das periferias quase sempre apenas nos seus barracões, produzindo as fantasias que não tem dinheiro para comprar e construindo os luxuosos carros alegóricos onde sobe quem pagar mais. O capitalismo cumpriu seu papel nas escolas de samba, tirou sua essência de luta e resistência e a transformou em: O Maior Espetáculo da Terra, onde quem produz o espetáculo geralmente não tem acesso.

Ao reconhecer a transformação do carnaval oficial, o coletivo manifesta sua inquietação com a formação de um bloco de samba no formato tradicional, que saia para a rua um sábado antes do carnaval oficial e que a batucada remetesse ao ritmo de outrora, privilegiando a melodia e pegando as três fases do carnaval brasileiro: a primeira fase se inicia nos anos 1920, onde o samba era de improviso, tinha somente a primeira parte que era curta e os sambistas faziam versos de improviso em cima dela; a segunda fase era o samba completo, tinha primeira e segunda parte com temas livres; e a terceira fase, que é a do samba enredo, foi na década de 1940, período que as escolas começaram fazer samba com temas históricos. O bloco sai com cinco sambas que são composições de vários(as) parceiros(as): o samba tema, que conta a história da luta ou do(a) protagonista da luta homenageado(a) no ano, um de improviso e os outros com primeira e segunda parte e com temas livres, instrumentos de sopro junto com a batucada, e sem a obrigatoriedade de se fantasiar, tendo somente o lenço no pescoço que é o símbolo do Bloco Pega o Lenço e Vai. A idealização do bloco está ligada também a preocupação com o cumprimento da lei 10.639/03 que foi incluída na LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional –, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de História Africana e da Cultura Afro-brasileira nas escolas públicas municipais, estaduais e particulares. A lei foi uma conquista necessária mas, infelizmente é negligenciada até nas universidades que também nega as lutas e as contribuições do negro em nosso país. O Bloco foi formado em 2010, teve e tem apoio de muitos companheiros[as] daqui de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Porto Alegre, de Florianópolis, Minas Gerais e do Paraná que abraçaram esse projeto com muito amor e alegria. O bloco saiu para a rua em 2011 e o primeiro a ser lembrado foi João Cândido – O Almirante Negro –, líder da Revolta da Chibata que em 2010 comemorou seu centenário. O símbolo do bloco se deu por conta de perceberem que nas fotos de João Cândido e de seus companheiros de revolta sempre tinham um lenço no pescoço, pois, na marinha antiga os marinheiros usavam um lenço na cabeça amarrado na testa quando estavam em combate, pois ele servia como proteção dos olhos para não cair pólvora ou graxa; quando não estavam em combate giravam o lenço escorregando da testa para o pescoço, tornando-se parte da vestimenta; por esta razão foi decidido utilizar o lenço como símbolo de manifestação da revolta, e então, em meio à discussão sobre qual seria o nome do bloco, Ocimar, um dos integrantes do bloco e também do Projeto Samba de Terreiro de Mauá, fez uma fala mais ou menos assim: Mas o lenço não será o símbolo do bloco? Então pega o lenço e vai…, o que fez o próprio Ocimar e os demais integrantes do bloco lembrarem de um samba da Velha Guarda da Portela que o coletivo gosta muito, que é o samba do Alcides Malandro Histórico da Portela e do Monarco.

Todos os temas do bloco foram escolhidos por Danilo Ramos Silva, um dos idealizadores do bloco e curador do Centro Cultural Dona Leonor, um espaço de luta da cidade de Mauá que ele junto com sua irmã Daniela e seu irmão Daniel organizam e disponibilizam para diversas atividades. Além do Projeto Samba de Terreiro Mauá e do Bloco Pega o Lenço e Vai, Danilo tem a preocupação de que todas as atividades realizadas no CCDL sejam voltadas para formação e sempre com a perspectiva da emancipação humana: grupo de estudo, lançamento de livros e revistas, oficinas, saraus e cursos; a concentração, a saída do bloco e as formações sobre os temas são feitas nesse espaço, ele convida professores e militantes para falar sobre o tema e a partir daí os compositores começam a pensar na construção do samba tema. No primeiro ano a formação sobre João Cândido – Almirante Negro –, foi feita pelo professor e parceiro do bloco Weber Lopes; no segundo ano sobre Luiza Mahin – A Revolta dos Males –, a formação foi feita por Honerê Al-Amim Oadq, integrante da Posse Haussa, de Diadema; no terceiro sobre Luiz Gama – O Trovador da Liberdade –, o professor e parceiro Felipe Choco, integrante do Fórum de Hip-Hop de São Bernardo do Campo; no quarto sobre a Conjuração Baiana – Revolta dos Búzios –, o professor Weber Lopes; no quinto ano sobre A Revolta dos Balaios, o professor e integrante do Coletivo de Esquerda Força Ativa da Cidade Tiradentes Djalma Lopes – Nando Comunista; e esse ano sobre O Quilombo dos Palmares, novamente, o professor Weber Lopes. Essas formações são fundamentais para a organização do bloco, é o pontapé inicial para a construção do samba tema e início dos ensaios pois, infelizmente a maioria dos trabalhadores(as) não viram esses temas na escola, por isso o cuidado e atenção para que a Lei 10.639/03 seja devidamente cumprida. O Centro Cultural Dona Leonor é um quilombo urbano, isto é, um espaço de resistência e luta fundamental para os as trabalhadores(as). É grande a alegria de fazer parte desta história, e essas palavras são expressão de minha gratidão pelo amor que recebo de cada uma dessas pessoas, amor que me faz acreditar cada vez mais na possibilidade de uma outra sociedade pois, o vínculo afetivo que construímos é real.

O Centro Cultural Dona Leonor fica na rua San Juan, 121 – Parque das Américas – Mauá

O cortejo do Bloco Pega o Lenço e Vai será dia 30 de janeiro de 2016, das 14:00 às 22:00 horas.

Todos as estão convidados (as)

Confira um pouquinho sobre o Bloco Pega o Lenço e Vai

AVANTE MOCIDADE PEGA O LENÇO E VAI A LUTA trecho do samba Cenário Original de Rafael Loré

 

Hosana Meira da Silva

Integrante do Samba de Terreiro de Mauá, do bloco Pega o Lenço e Vai e do coletivo Kilombagem.

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TESE DE DOUTORADO FANON E OS FANONISMOS NO BRASIL – Deivison Faustino (Nkosi)

Prêmio Capes de Teses – 2016

 

“Por que Fanon, Por que agora”: Frantz Fanon e os fanonismos no Brasil

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos para a obtenção do Título de Doutor em Sociologia.

Autor: Deivison Mendes Faustino (Deivison Nkosi).

A tese recebeu menção honrosa do Prêmio Capes de Tese 2016 – área de Sociologia.

Acesse a Tese na íntegra aqui

Resumo

FAUSTINO, D. M. “Por que Fanon, por que agora?”: Frantz Fanon e os fanonismos no Brasil. 2015. 252 f. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2015.

Este trabalho discute os diferentes caminhos, usos e apropriações do pensamento de Frantz Fanon no Brasil a partir da década de 1950. O estudo se aproxima das proposições de Wynter (1999) e Gordon (2015) ao identificar na perspectiva da sociogênese o eixo estruturante do estatuto teórico fanoniano, e de Hall (1996) e Sekyi-Otu (1996) ao reconhecer no pensamento do autor a articulação aberta e não concluída de elementos teóricos e políticos diversos. A partir dessa constatação, argumenta que o legado de Fanon será reivindicado de maneira diversa por vertentes teóricas distintas e, por vezes, conflitantes.

No Brasil, a recepção de Fanon ocorreu sob a influência do terceiro-mundismo revolucionário, com o foco em Les Damnés de la terre., propiciando, tanto aos leitores ligados à esquerda quanto aos leitores mais afinados com o movimento negro, uma apropriação pautada pela polarização entre colonizador e colonizado e pela afirmação de uma identidade (nacional ou negra) em contraponto à colonização. Já o período contemporâneo, marcado por um crescente interesse nas reflexões de Fanon, estrutura-se por uma maior diversidade de abordagens e focos teóricos, configurando seis sub-campos: 1. Estudos Pós-coloniais e da Diáspora; 2 Negritude; 3. Decoloniais; 4. Branquitude; 5. Psicologia; 6. Ethos Nacional.

FAUSTINO, D. M. “Why Fanon, why now?”: Frantz Fanon and fanonisms in Brazil. 2015. 252 f. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2015.

This paper discusses the different ways, uses and appropriations of the thought of Frantz Fanon in Brazil between the 1950s and the present day. The study approaches Wynter (1999) and Gordon (2015) to identify the perspective of sociogenesis the structural axis of fanoniano theoretical status, and Hall (1996) and Sekyi-Otu (1996) to recognize the author’s thought the open joint and not completed theoretical and various political elements. From this evidence, it argues that the legacy of Fanon is claimed differently by different theoretical aspects, and sometimes conflicting. In Brazil, the reception of Fanon occurred under the influence of the third Worldism revolutionary and its focus on Les Damnés de la terre. Providing both the players connected to the left as readers more attuned to the black movement, a guided appropriation the polarization between colonizer and colonized and affirmation of identity (national or black) as opposed to colonization. But the contemporary period, marked by a growing interest in the reflections of Fanon, is structured by a greater diversity of approaches and theoretical focus, setting six sub-fields: 1.Estudos Postcolonial and the Diaspora; 2. Negritude; 3. Decolonial; 4. Whiteness; 5. Psychology; 6. National Ethos.

 SUMÁRIO

INTRODUÇÃO……………………………………………………………………………………………………………. 20

1 A PROPÓSITO DE FANON: VIDA, OBRA E POLÍTICA …………………………………………………….. 27

1.1 O CORPO, O HOMEM E SUAS POSIÇÕES ………………………………………………………………………………………….. 27

1.2 TEORIA E POLÍTICA DE UM “OXÍMORO RADICAL” …………………………………………………………………………. 53

1.2.1 A sociogênese do colonialialismo ……………………………………………………………………………………………………… 56

1.2.2 Colonialismo, racismo e racialização ………………………………………………………………………………………………… 59

1.2.3 A luta de libertação ………………………………………………………………………………………………………………………… 75

2 A DISPUTA EM TORNO DE FANON: UMA PRIMEIRA APROXIMAÇÃO 

2.1 OS MÚLTIPLOS FANONISMOS ………………………………………………………………………………………………………… 91

2.2 AS DISPUTAS EM TORNO DE “FANONS” DISCORDANTES ………………………………………………………………. 96

2.2.1 A virada pós-colonial e a retomada de Fanon…………………………………………………………………………………….. 98

2.2.2 As reações e adequações à virada pós-colonial …………………………………………………………………………………. 106

3 FRANTZ FANON E OS FANONISMOS NO BRASIL

3.1 REVISITANDO A RECEPÇÃO BRASILEIRA ………………………………………………………………………………………. 123

3.1.1 Fanon, o ativismo negro (brasileiro) do final da década de 50 e o movimento de Negritude …………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….. 124

3.1.2 A autenticidade nacional às esquerdas: Os condenados da terra e a sua morna recepção……………………………………………………………………………………………………………………………………………….. 136

3.1.3 O ativismo negro dos anos 1980 e a autenticidade negra: a retirada das máscaras brancas ……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………. 165

3.1.4 Conclusão da seção ……………………………………………………………………………………………………………………….. 192

3.2 O CRESCENTE INTERESSE POR FANON ……………………………………………………………………………………….. 194

3.2.1 Os estudos pós-coloniais no Brasil e a percepção do “colonial” como discurso ……………………………………. 199

3.2.2 A Negritude atualizada: ………………………………………………………………………………………………………………… 203

3.2.3 O pensamento decolonial e o locus latinoamericano de produção de saber ………………………………………….205

3.2.4 Marxismo e existencialismo: A práxis revolucionária e o humanismo radical ………………………………………207

3.2.5 O Ethos nacional ………………………………………………………………………………………………………………………….. 209

3.2.6 O ISEB e o Cinema Novo……………………………………………………………………………………………………………….. 210

3.2.7 Os estudos sobre Branquitude ……………………………………………………………………………………………………….. 211

3.2.8 A dominação psíquica…………………………………………………………………………………………………………………… 211

3.2.9 Conclusão da seção ………………………………………………………………………………………………………………………. 212

CONCLUSÃO ……………………………………………………………………………………………………………. 214

É POSSÍVEL FALAR EM FANON STUDIES NO BRASIL? ………………………………………………………………………. 214

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS………………………………………………………………………………. 222 ANEXOS………………………………………………………………………………………………………………….. 257

ANEXO 1 – Excerto Temi del 2o Congresso Mondiale degli scrittori e artisti neri, 1959 – Commisions arts (Lista de delegados ao Congresso – destaque à comitiva Brasileira, Faustino, 2015) ……………………………………………… .255

ANEXO II – TRABALHOS BRASILEIROS SOBRE FANON POR TÍTULO, TIPO E ANO DE PUBLICAÇÃO ..258

 

Acesse a Tese na íntegra aqui

 

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O racismo mascarado: Reflexões sobre o complexo penitenciário industrial

Qual é o complexo penitenciário industrial? Por que isso Importa? Angela Y. Davis diz-nos. (De Seção Especial: Complexo Prisional Industrial)

Por Angela Davis**  (Originalmente publicado em 10 DE SETEMBRO DE 1998 – http://www.colorlines.com/articles/masked-racism-reflections-prison-industrial-complex)

Tradução e revisão: Jaque Conceição **

 Prisoes

Qual é o complexo penitenciário industrial? Por que isso Importa? Angela Y. Davis diz-nos.

Prisão tornou-se a resposta pronta a muito dos problemas sociais para as pessoas em situação de pobreza. Esses problemas muitas vezes são velados por ser convenientemente agrupados sob o “crime” emquamto categoria e pela atribuição automática de comportamento criminoso para pessoas de cor. A inexistência de moradia, o desemprego, dependência química, a doença mental, e analfabetismo são apenas alguns dos problemas que desaparecem da vista do público quando os seres humanos em luta com eles, são relegados para gaiolas.

Assim a prisão, acaba por ser um “feito de magia”, ou melhor, as pessoas que defendem a prisão e tacitamente parecem favoráveis a uma rede de proliferação de prisões e cadeias, são levadas a acreditarem na magia do aprisionamento. Mas, nas prisões não desaparecem os problemas, elas desaparecem com os seres humanos. E a prática de desaparecer um grande número de pessoas pobres, imigrantes e comunidades racialmente marginalizadas, literalmente se tornou um grande negócio.

A magia das prisões cria uma ausência de esforço para compreender os problemas sociais, escondendo assim, a realidade por trás do encarceramento em massa. As prisões desaparecem com os seres humanos, a fim de transmitir a ilusão de resolver os problemas sociais. Infra-estruturas penais devem ser criadas para acomodar uma população em rápido crescimento para serem criadas em gaiolas. Produtos e serviços devem ser fornecidos para manter as populações carcerárias vivas.Às vezes, essas populações devem ser mantidas ocupados e em outras vezes – particularmente nas prisões de segurança máxima – devem ser privados de praticamente toda a atividade significativa. Um vasto número de pessoas algemadas e algemados são movidos através das fronteiras estaduais.

Todo este trabalho, que costumava ser responsabilidade do governo, agora também é realizado por empresas privadas, e formam o complexo industrial militar. Os dividendos que se obtêm a partir do investimento na indústria de punição, como aqueles que se beneficia de investimento na produção de armas, apenas elevar a destruição social.Tendo em conta as semelhanças estruturais e rentabilidade de ligações de governo com o mundo empresarial para a produção militar e industrial. O sistema penal expandindo, agora pela relação público-privado, pode ser caracterizado como um “complexo industrial prisional”.

A cor das prisões
A cor das prisões

 

A Cor de Prisão

Quase dois milhões de pessoas estão atualmente presas na imensa rede de prisões e cadeias dos Estados Unidos. Mais de 70 por cento da população carcerária são pessoas de cor. Raramente é reconhecido que o grupo de crescimento mais rápido dos presos são mulheres negras e que prisioneiros americanos nativos são o maior grupo per capita. Cerca de cinco milhões de pessoas – incluindo aqueles em liberdade condicional – estão diretamente sob a supervisão do sistema de justiça criminal.

Três décadas atrás, a população carcerária era de aproximadamente um oitavo de seu tamanho atual. Enquanto as mulheres ainda constituem uma percentagem relativamente pequena de pessoas atrás das grades, hoje o número de mulheres encarceradas na Califórnia sozinhaa é quase o dobro do que a população prisional feminino em todo o país foi em 1970. De acordo com Elliott Currie, “[…] a presença da prisão tornou-se iminente em nossa sociedade, uma fato sem precedentes em nossa história – ou na história de qualquer outra democracia industrial. Desde as grandes guerras, o encarceramento em massa tem sido o programa social do governo mais bem implementado em nosso tempo. ”

Para entregar corpos destinados à punição rentável, a economia política das prisões se baseia em pressupostos raciais da criminalidade – tais como imagens de mães pretas reproduzindo crianças criminosas – e as práticas racistas nos padrões de prisão, condenação e sentença. Corpos coloridos constituem a principal matéria-prima humana nesta vasta experiência para desaparecer os principais problemas sociais do nosso tempo. Uma vez que a aura da magia é alimentada a partir da solução do encarceramento, o que é revelado é o racismo, preconceito de classe, e a sedução parasitária do lucro capitalista. O sistema industrial prisional é material e moralmente empobrecedor de seus habitantes e devora a riqueza social necessária para enfrentar os mesmos problemas que levaram ao espiral número de presos, que cresce cada vez mais.

Como as prisões ocupam cada vez mais espaço no cenário social, outros programas governamentais que já procuraram responder às necessidades sociais – como a Assistência Temporária para Famílias Necessitadas – estão sendo excluídos da dinâmica social. A deterioração da educação pública, incluindo a priorização do controle disciplinar e controle sobre a aprendizagem nas escolas localizadas em comunidades pobres, está diretamente relacionado com a prisão como “solução”, ou seja, da magia prisional.

 

Lucrando com prisioneiros
Como prisões proliferam na sociedade norte-americana, o capital privado tornou-se enredado na indústria da punição. E precisamente por causa de seu potencial de lucro, as prisões estão se tornando cada vez mais importante para a economia dos EUA. Se a noção de punição como uma fonte de lucros potencialmente estupendas é preocupante, por si só, então a dependência estratégica em estruturas racistas e ideologias para tornar punição em massa palatável e rentável é ainda mais preocupante.

A privatização é o exemplo mais óbvio do movimento atual do capital para a indústria de prisão. Embora as prisões administradas pelo governo sejam muitas vezes espaços de violação das normas internacionais de direitos humanos, prisões privadas são ainda menos responsáveis. Em março deste ano, a Corrections Corporation of America (CCA), a maior empresa norte-americana de prisão privada, alegou 54,944 camas em 68 instalações sob contrato ou desenvolvimento em os EUA, Porto Rico, Reino Unido e Austrália. Seguindo a tendência mundial de submeter mais mulheres a punição pública, CCA abriu recentemente uma prisão de mulheres em Melbourne, e recentemente, a empresa identificou a Califórnia como seu “novo território”.

Wackenhut Corrections Corporation (WCC), a segunda maior empresa prisional norte-americana, alegou contratos e concessões para gerenciar 46 instalações na América do Norte, Reino Unido e Austrália. Vangloria-se de um total de 30,424 camas, bem como contratos de serviços de saúde do prisioneiro, transporte e segurança.

Atualmente, os estoques de ambos CCA e WCC estão muito bem. Entre 1996 e 1997, as receitas da CCA aumentou 58 por cento, a partir de $ 293.000.000 para 462.000.000 $. Seu lucro líquido cresceu de US $ 30,9 milhões a $ 53900000. WCC elevou sua receita de $ 138.000.000 em 1996 para US $ 210 milhões em 1997. Ao contrário dos estabelecimentos prisionais públicos, os vastos lucros dessas instalações privadas contam com o emprego de mão de obra precária.

Evolução do encarceramento  nos Estados Unidos
Evolução do encarceramento nos Estados Unidos

 

O Complexo Prisional industrial
Mas as empresas de cárceres privados são apenas o componente mais visível da crescente mercantilização da punição. Contratos com o governo para construir prisões têm reforçado a indústria da construção. A comunidade arquitetônica identificou projeto prisão como um importante novo nicho. Tecnologia desenvolvida para o exército por empresas como Westinghouse está sendo comercializado para uso na aplicação da lei e punição.

Além disso, as empresas que parecem estar muito longe do negócio de punição estão intimamente envolvidas na expansão do complexo industrial da prisão. Títulos a construção de prisões são uma das muitas fontes de investimento lucrativo para os financiadores líderes como a Merrill Lynch. A MCI cobra dos prisioneiros e suas famílias preços exorbitantes para as chamadas telefônicas: ligações preciosas que muitas vezes são o único contato de prisioneiros com suas famílias.

Muitas empresas cujos produtos que consumimos diariamente nos ensinam que a força de trabalho na prisão pode ser tão rentável como força de trabalho terceiro mundo explorada por corporações globais baseadas nos Estados Unidos.  Algumas das empresas que utilizam trabalho forçado nas prisões são IBM, Motorola, Compaq, Texas Instruments, Honeywell, Microsoft e Boeing. Mas não é só as indústrias de hi-tech que colhem os lucros do trabalho penitenciário. Lojas de departamentos como Nordstrom vendem jeans que são comercializados como “Prison Blues”, bem como camisetas e jaquetas feitas nas prisões Oregon. O slogan publicitário para essas roupas é “feito no interior para ser usado no exterior.” Prisioneiros de Maryland inspecionar garrafas de vidro e frascos usados ​​por Revlon e Pierre Cardin e escolas em todo o mundo compram tampões da graduação e vestidos feitos por prisioneiro da Carolina do Sul.

“Para as empresas privadas”, escrevem Eve Goldberg e Linda Evans (um preso político no interior do Federal Correctional Institution em Dublin, Califórnia) “trabalho prisional é como um pote de ouro. Não há greves. Nenhuma organização sindical.Não há benefícios de saúde, seguro de desemprego, ou compensação dos trabalhadores para pagar. Não há barreiras linguísticas, como em países estrangeiros. Novas prisões paraísos estão sendo construídas em milhares de acres fantasmagóricos de fábricas no interior das muralhas.Prisioneiros fazem entrada de dados para a Chevron, fazem reservas por telefone para TWA, criam suínos, esterco, pá, fazem placas de circuito, limusines, camas de água, e lingerie para Victoria Secret – ‘. Trabalho livre a baixíssimo custo.

Devorando a riqueza social
Embora o trabalho prisional – que em última análise é compensada a uma taxa muito inferior ao salário mínimo – seja altamente lucrativo para as empresas privadas que utilizam o sistema penal como um todo, ele não produz riqueza. Ele devora a riqueza social que poderia ser usado para subsidiar moradia para os sem-teto, para melhorar a educação pública para as comunidades pobres e racialmente marginalizadas, para abrir os programas de reabilitação de drogas livre para as pessoas que desejam chutar seus hábitos, para criar um sistema nacional de saúde, para expandir os programas de combate ao HIV, para erradicar a violência doméstica – e, no processo, para criar empregos bem remunerados para os desempregados.

Desde 1984 mais de vinte novas prisões foram abertas na Califórnia, enquanto apenas um novo campus foi adicionado ao sistema de Universidade Estadual da Califórnia e nenhum para o sistema da Universidade da Califórnia. Em 1996-97, o ensino superior recebeu apenas 8,7 por cento do Fundo Geral do Estado enquanto as casas de correções receberam 9,6 por cento. Agora que a ação afirmativa foi declarada ilegal na Califórnia, é óbvio que a educação é cada vez mais reservada para certas pessoas, enquanto as prisões são reservados para outros. Cinco vezes mais homens negros estão atualmente na prisão em relação a faculdades e universidades de quatro anos. Esta nova segregação tem implicações perigosas para todo o país.

Segregando as pessoas e rotulado-as como criminosos, a prisão fortalece simultaneamente e esconde o racismo estrutural da economia dos EUA. Alegações de baixas taxas de desemprego – mesmo em comunidades negras – só fazem sentido ao supor que o grande número de pessoas na prisão realmente desapareceram e, portanto, não têm reivindicações legítimas em relação ao emprego, por exemplo. O número de homens negros e latinos atualmente encarcerados representa dois por cento da força de trabalho masculina de todo os EUA. De acordo com o criminologista David Downes, “[t] compreender o encarceramento como um tipo de desemprego oculto pode aumentar a taxa de desemprego para os homens por cerca de um terço, para 8 por cento. O efeito sobre a força de trabalho negra é ainda maior, elevando a taxa de desemprego [preta] do sexo masculino de 11 por cento para 19 por cento. ”

Hidden Agenda
Encarceramento em massa não é uma solução para o desemprego, nem é uma solução para a vasta gama de problemas sociais que estão escondidos em uma rede crescente de prisões e cadeias. No entanto, a grande maioria das pessoas têm sido levadas a acreditar na eficácia de prisão, mesmo que o registro histórico demonstre claramente que as prisões não funcionam. O racismo tem prejudicado nossa capacidade de criar um discurso popular crítico para contestar a trapaça ideológica que postula a prisão como a chave para a segurança pública. O foco da política do Estado está rapidamente mudando de bem-estar social para o controle social.

Preto, Latino, nativo americano, e muitos jovens asiáticos são retratados como os fornecedores de violência, os traficantes de drogas, e como invejos de uma vida que eles não têm o direito de possuir. Mulheres negras e latinas jovens são representadas como bebês, pobreza, sexualmente promíscuas e socialmente incapazes. Criminalidade e desvio são racializado. Vigilância é, portanto, focada em comunidades de cor, os imigrantes, os desempregados, os fora da escola, os sem-teto, e em geral sobre aqueles que têm uma reivindicação de diminuição de recursos sociais. O seu pedido de recursos sociais continua a diminuir em grande parte porque a aplicação da lei e medidas penais devora cada vez mais esses recursos. O complexo industrial da prisão criou assim um ciclo vicioso de punição que empobrece ainda mais aqueles cuja única saída é supostamente a magia da prisão.

Portanto, como a ênfase de mudanças nas políticas governamentais de bem-estar social para o controle da criminalidade, o racismo afunda mais profundamente as estruturas econômicas e ideológicas da sociedade norte-americana. Enquanto isso, os conservadores contra a ação afirmativa e educação bilíngüe proclamam o fim do racismo, e sugerem que os restos do racismo pode ser dissipado através do diálogo e conversação. Mas conversas sobre “relações raciais” dificilmente vão desmantelar um complexo industrial prisional que prospera em nutrir o racismo escondido dentro das estruturas profundas da nossa sociedade.

O surgimento de um complexo industrial prisional dos EUA dentro de um contexto de conservadorismo em cascata marca um novo momento histórico, cujos perigos são sem precedentes.Mas assim são as suas oportunidades. Considerando o número impressionante de projetos de base que continuam a resistir à expansão da indústria de punição, acredito que deve ser possível aumentar os esforços em conjunto para criar movimentos radicais e nacionalmente visíveis que podem legitimar as críticas anti-capitalistas do complexo industrial da prisão. Deve ser possível a construção de movimentos em defesa dos direitos e que persuasivamente argumentam que o que precisamos não é de novas prisões, mas novos cuidados de saúde, habitação, educação, programas de drogas, empregos e educação humanizada para os prisioneiros. Para salvaguardar um futuro democrático, é possível e necessário para tecer juntos as muitos, crescentes fios de resistência ao complexo industrial da prisão em um movimento poderoso para a transformação social.

*Angela Davis é um ex-prisioneiro político, ativista de longa data, educador e autor que dedicou sua vida à luta pela justiça social.

**Jaque Conceição é pedagoga, Mestre em Educação: História, Política, Sociedade pela PUC-SP, feminista, membro da comunidade tradicional dos povos de terreiro Ylê Asè Omo Oba Aganju, pesquisadora da Teoria Critica da Sociedade e Articuladora do Coletivo Di Jejê.

 

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CURSO NEGRO: MOVIMENTOS DE LIBERTAÇÃO NA ÁFRICA

De segunda-feira a sexta-feira  (18 a 22 de janeiro de 2016) Horário: 19h30 às 22h00.

Coordenação e organização: Danilo Ramos – Curador do Espaço Cultural Dona Leonor (CCDL) e Deivison Nkosi (Grupo Kilombagem).

Nossos passos vem de Longe!

O curso tem a finalidade de apresentar os debates teóricos e políticos presentes nas lutas de libertação dos países africanos a partir da segunda metade do século XX e, sobretudo, refletir sobre  a validade desse debate para o entendimento do racismo contemporâneo.  No curso serão apresentadas as biografias de algumas das principais lideranças e correntes que disputaram o interior do movimento pan-africanista, tais como o marxismo, o nacionalismo “africano”, a negritude cultural e científica, entre outros.

Serão problematizados ainda os dilemas e escolhas tomadas diante da chamada Guerra Fria, em especial as barganhas e intervenções dos países imperialistas como a Inglaterra e os Estados Unidos da América na contrarrevolução e para o desmantelamento dos movimentos de libertação africanos, bem como as táticas efetivadas para manter o domínio do continente africano subordinado ao capital monopolista.

Por fim, o curso ainda se propõe a abordar o impacto dos movimentos negros no Brasil, principalmente no período das décadas de 1960 e 1970.

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Cronograma 

Dia 18/01/2016 – Como a Europa subdesenvolveu a África

Objetivo: Compreender quais foram às práticas que os países de formação de capitalismo clássico fizeram para poder monopolizar a riqueza social explorando o continente africano; o Congresso de Berlim, convocado pelo Chanceler Otto von Bismarck, de 1878 que reuniu os principais representantes das potências europeias que partilharam o continente africano; nesse módulo terá como referência os estudos de Walter Rodney – Como a Europa subdesenvolveu a África – e, Kwame N’Krumah – Neocolonialismo: último estágio do Imperialismo. Ainda, será tematizado as questões em torno do imperialismo e seu impacto nos países do continente africano.

Expositor: Marcio Farias – Possui graduação em Psicologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2011), mestrado em Psicologia Social na PUC-SP (2015), coordenador do Núcleo de Estudos Afro Americanos (Nepafro). Atua como Auxiliar de Coordenação para acessibilidade no MuseuAfroBrasil.

Indicação de leitura:     GOMES, F. F. Mwalimu Rodney. Uma introdução a vida e obra de Walter Rodney.

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Dia 19/01/2016 – Em defesa da revolução africana e o Pan-africanismo

Objetivo: a partir dos movimentos de libertação na África o encontro apresentará as correntes no interior do movimento pan-africanista, os projetos que estavam em voga no momento das lutas de libertação; ainda, priorizará as lutas existentes na Argélia, Burkina Faso e Angola.

Expositor: Deivison Faustino – Formado em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), mestrado em Ciências da Saúde pela FMABC e doutorado em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR); Integrante do Kilombagem

Indicação de Leitura: FANNON, F. Racismo e Cultura.

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20/01/2016 – Política, Cultura e Emancipação Humana: o caso de Cabo Verde e Guiné-Bissau e Moçambique.

Objetivo: A partir das lutas sociais em Cabo Verde e Guiné-Bissau e em Moçambique, será considerado os processos de lutas travadas contra o imperialismo; a luta dos Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO); a partir dos escritos de Amílcar Cabral e Samora Machel, qual a relação entre cultura e política, visto que a articulação entre essas duas esferas foram fundamentais, não somente nos referidos países, mas nos demais territórios que se opuseram contra o neocolonialismo.

Expositor: Weber Lopes Góes – Bacharel em História e Especialista em Ciências sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA) e mestrado em Ciências Sociais (UNESP/Marília).

Indicação de leitura: CHASIN, José. Sobre Moçambique.

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 FREIRE, Paulo. Amílcar Cabral: o pedagogo da revolução.

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21/01/2016 – A Senegâmbia no contexto da luta anticolonial

Objetivo: considerando as lutas de libertação africana, quais foram as estratégias de combates ao imperialismo efetivados em Senegal e, ao mesmo tempo, as influências do movimento negritude e do marxismo enquanto ferramentas de libertação no referido país.

Expositor: Sallomão Jovino da Silva – Possui mestrado e doutorado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com estágio no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Atualmente professor do Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA) e é Consultor da Secretaria de Educação do Município de São Paulo.

Indicação de leitura: DOMINGUES, Petrônio. Movimento da negritude: uma breve reconstrução histórica.

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22/01/2016 – Discurso sobre o colonialismo: o movimento negritude e seu impacto no movimento negro brasileiro nos anos de 1970.

Objetivos: será abordado quais as críticas contra o neocolonialismo na África a partir do fundador do movimento negritude Aimé Césare; ainda, a partir das lutas do movimento negro brasileiro qual a influência das lutas de libertação na África no movimento negro do Brasil.

Expositor: Milton Barbosa – Fundador do Movimento Negro Unificado (MNU).

Indicação de leitura: CÉSARE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo.

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Pacote Zipado com todos os textos

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Informações gerais 

Público Alvo: Estudantes de Ciências Sociais, Geografia, Pedagogia, Serviço Social, História e áreas afins; educadores sociais, profissionais da área da educação, educador comunitário e interessado nas temáticas.

Critérios de participação: Os interessados devem se comprometer a ler os textos indicados para cada encontro.

Estrutura do Curso: A duração do curso será de 15 horas dividido em cinco módulos, sendo que cada um terá a duração de 3 horas.

Metodologia: Leitura de textos, exposição e discussão junto aos participantes.

Será emitido certificado para os participantes, uma vez que tenham frequentado ao menos 75% do curso.

Informações: cursoformacao@kilombagem.net.br

Local

Espaço Cultural DONA LEONOR 

Rua San Juan, 121, Parque das Américas (Mauá/SP). Cinco minutos da Estação de Trem Guaquituba da CPTM, linha Turquesa.


Mapa de como Chegar

Realização

 

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Buia Kalunga – A Cena (part. Ba Kimbuta)

Primeiro clipe do trabalho “solo” de Buia Kalunga, que é também vocalista da banda Ba-Boom e militante do grupo Kilombagem.

O clipe foi produzido por Gata Negra, dirigido por Patrick Monteiro e fotografado por Ana Clara Marques e Gisele Gonçalves.

A música foi produzida no Studio Kasa por Buia e DJ Crick, e conta com a participação especial de Ba Kimbuta.
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CONFIRA!!

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Sem ficção, clipe traz a violência do Estado

Parceria entre Buia Kalunga, Ba Kimbuta e DJ Crick utiliza a internet para lançamento de videoclipe

Está disponível na internet desde a segunda-feira (02/11) o novo videoclipe do músico e ativista Buia Kalunga, em parceria com Ba Kimbuta e DJ Crick. Intitulada A Cena, a música que rendeu a produção faz parte do projeto solo de Buia, que já conta com nove faixas e está em fase de gravação.

O lançamento virtual, realizado no Dia de Finados, não foi à toa, mas como uma referência às vítimas da violência do Estado brasileiro, que assola principalmente jovens negros na periferia.

 

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O primeiro álbum solo de Buia apresenta faixas que trazem forte influência do rap e da música jamaicana, vertente que o artista trabalha em outros projetos, como o grupo Makomba, no qual atua ao lado de um importante parceiro, Ba Kimbuta; e a banda Ba-Boom. Além dessas bandas, o músico também toca na Escola de Samba Palmares de Santo André. Em meio a tantos trabalhos coletivos, é na atuação solo que surge a oportunidade para o trabalho autoral e a expressão de sua inquietude social.

Buia Kalunga é educador e leciona música e literatura na Fundação Casa. Transitando em diversos meios seja através da educação ou da música, a constatação que surge é que a arte é um instrumento fortíssimo de contestação da realidade e suas desigualdades. É isso que inspira as criações de Buia. “Minhas músicas são muito íntimas, falam sobre conflitos internos, mas não só meus, escrevo sobre conflitos da vida urbana: o trânsito, o trabalho, as desigualdades.”

Mesmo diante de temas pesados, o artista acredita que a arte é capaz de trazer leveza. “ A arte tem o poder de nos tornar melhores. Não acredito na arte pela arte, ela é capaz de promover transformação social”, disse Buia, ao acrescentar que a música, sozinha nada pode. “A música tem um potencial revolucionário muito forte, ela expõe realidades, mas a única maneira de transformá-las é com organização e políticas públicas.” E quanto a isso, Buia atua nas duas frentes, música e organização, já que é membro do Kilombagem, coletivo dedicado a debater raça, gênero e classe social. “Não vamos acabar com o racismo enquanto existir capitalismo, são coisas interligadas”, crê.

Vídeo tem brutalidade encenada e real

O clipe de A Cena foi gravado parte em Santo André, parte em São Bernardo. “Algumas casas da minha rua foram desapropriadas por causa das obras do Rodoanel, tiraram os moradores de lá e só ficaram escombros. Esse cenário tem a ver com música.” A produção apresenta referências de cinema, mas é tudo real.

“Assistimos a violência como se fosse um espetáculo, mas a vida não é ficção, tudo é muito banalizado”, afirmou Buia, ao atribuir parte desta banalização à mídia. “A linguagem cinematográfica ficou por conta do Patick Monteiro, e fotografia de Ana Clara Marques e Gisele Gonçalves, e da produtora Gata Preta Produções. Foram usados efeitos futuristas e cenas de violência policial.”

Por: Marina Bastos (marina@abcdmaior.com.br)

Post original; http://www.abcdmaior.com.br/materias/cultura/sem-ficcao-clipe-traz-a-violencia-do-estado

Assista o Clip

 

 

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Como Thomas Sankara mudou Burkina Faso

Tradução: Jomo O. Campos

Texto original em: http://africanleadership.co.uk/how-thomas-sankara-changed-…/

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O Presidente Burkina Faso Thomas Sankara foi um líder revolucionário marxista, Pan-africanista, que foi assassinado em um golpe de Estado apenas quatro anos depois que ele assumiu o poder.

Em 15 de outubro, 1987, o presidente Burkina Faso Thomas Sankara foi assassinado. Uma semana antes de sua morte, Sankara disse, em referência a Che Guevara, “Enquanto revolucionários podem ser mortos como indivíduos, as idéias nunca morrem.”

Ele mudou o nome do país a partir do nome colonial francês Volta Superior para Burkina Faso, que significa “terra dos justos.”

Ele trabalhou nos quatro curtos anos em que foi presidente para criar uma “terceira via”, durante a Guerra Fria, de forma a separar o caminho de Burkina Faso dos interesses da França e dos RUA. Ele confrontou o poder hegemônico da França na África Ocidental, conclamando o fim da dívida das nações africanas junto a bancos internacionais e nações coloniais do Ocidente. ele se recusou a pedir empréstimos no Banco Mundial, fortalecendo, ao contrário, a produção regional de comida e tecidos. Sankara também aboliu o trabalho compulsório e pagamentos de tributos a chefes de vilas, circuncisão feminina e poligamia. Ele iniciou a vacinação nacional e programas para oncocercose*, construiu transporte básico e infra-estrutura habitacional, e promoveu programas de alfabetização. Eram as mulheres e os camponeses pobres o foco de sua revolução e quem mais se beneficiaram com sua presidência.

Ele via trabalhadores do governo como servos do povo. Ele apenas permitiu a si mesmo ganhar $ 450,00 por mês e se recusou a permitir servidores civis de terem Mercedes dirigidas por choferes ou voarem de primeira classe.

Ele é criticado por não tolerar oposição política, banir sindicatos ou permitir uma imprensa mais livre.

Ele assumiu o papel de presidente por meio de um golpe militar conduzido por ele mesmo e o Capitão Blaise Compaore.

Em 1983 e quatro anos depois Compaore conduziu o golpe bem sucedido contra Sankara. Até o presente dia, Compaore, que era apoiado pelo Ocidente e rapidamente anulou a maior parte das reformas almejadas por Sankara, é o presidente de Burkina Faso.

“Você não pode realizar mudanças fundamentais sem uma certa dose de loucura. Neste caso, se trata de não-conformidade, a coragem de virar as costas para as velhas fórmulas, a coragem de inventar o futuro. Levou os loucos de ontem para que sejamos capazes de agir com extrema clareza hoje. Eu quero ser um daqueles loucos. Nós devemos ousar inventar o futuro. “

(Thomas Sankara)

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* Oncocercose: A oncocercose, também conhecida como “cegueira dos rios”, é uma infecção parasitária que ocorre após a picada de um mosquito preto, encontrado nas proximidades de rios de água corrente forte. Um verme parasita entra no corpo humano e produz milhares de larvas que infectam a pele e os olhos.