Publicado em Deixe um comentário

Mobilização pelo direito à saúde de detentos: votação do PL 1919/2016 é adiada

Uma batalha na luta pela garantia do direito à saúde a quem está privado de liberdade foi ganha no dia 13/3/2018: o adiamento da sessão da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para aprovação do PL 1919/2016, que “dispõe sobre os presos acautelados pelo estado e seu tratamento hospitalar e dá outras providências”. O PL torna obrigatório o atendimento hospitalar em unidades penitenciárias, cerceando o acesso dos presos ao SUS. O projeto, aprovado pelos deputados em dezembro de 2017, recebeu veto do governador do Estado, por questões orçamentárias. A sessão visava derrubar o veto. Mas a iminência da aprovação do PL mobilizou instituições, movimentos sociais e familiares dos presos em protesto nas galerias da Alerj.

A Fiocruz divulgou um dia antes a Carta aberta da Fiocruz aos deputados do Rio de Janeiro, distribuída a todos os parlamentares, antes da sessão, com posicionamento da instituição contrário ao projeto, por prever “barreiras discriminatórias de acesso ao serviço público de saúde”. O resultado foi a suspensão da votação, conforme relatou ao blog do CEE-Fiocruz a pesquisadora Alexandra Sánchez, do Grupo de Pesquisa em Saúde nas Prisões da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz). Alexandra esteve presente na Alerj, distribuiu a carta e conversou com deputados.

“O governador vetou o PL por questões orçamentárias. Nós queríamos manter o veto, mas por motivo diferente, pela garantia de direitos aos presos. O PL é inconstitucional”, destaca Alexandra. A movimentação acabou levando os deputados reavaliar as chances de aprovação do texto, e a votação foi retirada da pauta. “A carta da Fiocruz, o apoio de outras instituições, tudo isso teve um efeito e mudou a relação de forças”, avalia Alexandra. “Teremos o próximo capítulo na semana que vem”, diz ela, referindo-se à possibilidade de o texto voltar rapidamente ao plenário para aprovação. “Alguns deputados ficaram de manter o veto. Foi uma vitória importante”.

Não se pode proibir que os presos saiam para serem atendidos! Seria um cerceamento do direito à saúde (Alexandra Sánchez, Grupo de Pesquisa Saúde nas Prisões da Ensp/Fiocruz)

Uma vez aprovado o PL, explica Alexandra, os presos estariam impedidos de receber assistência extramuros, sendo que não há estrutura adequada intramuros para fazer frente às demandas de saúde. “Os presídios se tornariam quase campos de extermínio”, alerta, observando que, para 51 mil presos, há 300 profissionais de saúde, incluindo médicos, enfermeiros e psicólogos. “A grande massa de profissionais tem formação de nível médio. Não há estrutura hospitalar”.

De acordo com Alexandra, o atendimento pode se dar tanto intra, quanto extramuros. “Mas o atendimento intramuros precisa existir! É possível haver um hospital penitenciário para pequenas cirurgias, tais como as de hérnia e ortopédicas. Isso já existiu, mas foi destruído”, lembra, referindo-se ao Complexo Penitenciário Frei Caneca, desativado a partir de 2006. “Não se pode proibir que os presos saiam para serem atendidos! Seria um cerceamento do direito à saúde”, explica. “Não é a lei que regula isso, mas a existência de serviços adequados para as necessidades das pessoas”.

Segundo um dos autores do PL 1919/2016, deputado Luiz Paulo (PSDB), a votação foi adiada devido a diferenças de redação entre o texto aprovado em dezembro de 2017 na Alerj e aquele publicado e transmitido para sanção ao governador. O texto pode voltar ao plenário semana que vem, após a realização das correções. A mobilização continua.

Leia mais sobre a suspensão da votação do PL 1919/2016
Leia abaixo a íntegra da Carta aberta da Fiocruz aos deputados do Rio de Janeiro

 

Carta aberta da Fiocruz aos deputados do Rio de Janeiro

Fundação Oswaldo Cruz

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) torna pública a Carta Aberta encaminhada à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro com posicionamento contrário ao Projeto de Lei (PL) nº 1919/2016, o qual “dispõe sobre os presos acautelados pelo estado e seu tratamento hospitalar e dá outras providências”.  

A Fiocruz, instituição centenária que historicamente defende o direito universal à saúde, entende que promover a qualidade e a integração na atenção, na vigilância e na promoção à saúde é uma tarefa que atinge a todas as pessoas, inclusive àquelas privadas de liberdade.

Este tem sido o princípio orientador do Grupo de Pesquisa Saúde nas Prisões, que vem apresentando importantes resultados.

O Projeto de Lei acima referido provoca enorme indignação ao prever barreiras discriminatórias de acesso ao serviço público de saúde. O atendimento dos presos provisórios ou condenados acometidos de doença grave ou que necessitem de “tratamento especial, intervenção cirúrgica ou hospitalização” tornar-se-ia obrigatório “em unidades hospitalares penitenciárias”. Apenas em “situações excepcionais” não definidas, a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP) poderia encaminhá-los a hospitais públicos, com a exigência de laudo fornecido pelo “médico credenciado”. Prevê ainda, em relação às gestantes privadas de liberdade, o “acompanhamento médico no pré-natal e no pós-parto, extensivo ao recém-nascido”, sem mencionar o parto, nem estabelecer ações de acolhimento e integração desta mulher no Sistema Único de Saúde.

O PL extrapola os limites de sua competência legislativa. Ainda que se considere a competência concorrente para legislar na defesa da saúde (art. 24, XII, CF), a produção normativa da Alerj deve respeitar as normas gerais, como a Lei 7.210/84 (Lei de Execução Penal) e a Lei 8.080/90 (Lei Orgânica da Saúde). As normas gerais seguem o princípio da universalidade (art. 196, CF), reiterando que a saúde é direito de todos, com acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

O direito à saúde da população privada de liberdade, sob a custódia e responsabilidade estatal, deve respeitar as determinações internacionais das Regras de Mandela – Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de presos (2015), segundo as quais:

“Os presos devem usufruir dos mesmos padrões de serviços de saúde disponíveis à comunidade […] 2. Os serviços de saúde serão organizados conjuntamente com a administração geral da saúde pública e de forma a garantir a continuidade do tratamento e da assistência, inclusive nos casos de HIV, tuberculose e outras doenças infecciosas, abrangendo também a dependência às drogas (Regra 24).

Nas unidades prisionais femininas, […] devem-se adotar procedimentos específicos para que os nascimentos ocorram em um hospital fora da unidade prisional (Regra 28).

 

O PL 1919/2016 desestruturaria a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema Prisional (PNAISP), que tem como objetivo geral “garantir o acesso das pessoas privadas de liberdade no sistema prisional ao cuidado integral no SUS” (Sistema Único de Saúde). A Política faculta a oferta de ações de saúde extra ou intramuros somente no tocante à atenção básica; o atendimento de média e alta complexidade é realizado na rede extramuros (art. 9º, Portaria Interministerial nº 1/2014).

É notória a precariedade de recursos humanos, materiais e de infraestrutura da SEAP (Secretaria de Estado de Administração Penitenciária) para atendimento das necessidades de saúde, bem como a ausência no sistema penitenciário do Estado do Rio de Janeiro de estrutura hospitalar adaptada com profissionais, em particular nas áreas de cirurgias, obstetrícia e cuidado intensivo. Impedir o atendimento de casos de maior complexidade e/ou de emergência na rede extramuros representaria grave restrição ao direito humano à saúde, com importante impacto na morbidade e mortalidade desta população.  

Por fim, o possível risco de violência nos hospitais deve ser enfrentado com as devidas medidas de segurança. Apesar do grande alarde midiático, é pequeno o número de registro de casos, os quais não podem prejudicar a todos os presos – sob responsabilidade do Estado – e a implantação da PNAISP. A probabilidade de danos à saúde pública é muito maior com a desvinculação do atendimento da população privada de liberdade pelo SUS – Sistema Único de Saúde.

Consideramos que o PL nº 1919/2016 viola tratados internacionais dos quais o país é signatário, e contraria preceitos da Constituição da República Federativa do Brasil. Por estes motivos, é imperiosa sua rejeição por essa Casa legislativa.

Rio de Janeiro, 12 de março de 2018.

Nísia Trindade Lima
Presidente

[su_note note_color=”#fbff3b” text_color=”#000000″ radius=”1″]

Publicado originalmente 14, de março, 2018 no site CEE-FIOCRUZ Mobilização pelo direito à saúde de detentos: votação do PL 1919/2016 é adiada

[/su_note]

 

Publicado em Deixe um comentário

NOTA PÚBLICA DE PESAR E SOLIDARIEDADE A MARIELLE FRANCO

O país acordou num clima de tristeza num cenário de horror nesta quinta-feira dia 15/03/18.
“Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento (…) Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior” Marielle Franco

O Grupo KILOMBAGEM vem a público manifestar seu pesar diante dos bárbaros assassinatos ocorridos no Rio de Janeiro em 14/03/2018.
Entre esses assassinatos ocorrido, um em especifico obteve uma atenção nacional e internacional, o da socióloga e vereadora Marielle Franco, executada com 9 tiros no centro do Rio de Janeiro. Ela estava acompanhada de Anderson Pedro Gomes, motorista que também foi alvejado.

Marielle estava exercendo seu primeiro mandato como vereadora, porém seu passos vêm de longe: feminista, negra e “cria da Maré”, como se apresentava, tornou-se conhecida pelos movimentos sociais do país, devido sua atuação na área de Direitos Humanos, nas periferias e combatente de todo tipo de injustiças sociais, na construção de uma nova sociabilidade. Ela havia sido a quinta vereadora mais votada da cidade do Rio de Janeiro.
Na noite da execução, Marielle participava do evento “Jovens Negras Movendo as Estruturas” organizado pela mesma na Lapa.

Uma pergunta que poderia ser feita, neste momento é: por que esse assassinato , em específico, obteve repercussão nacional? A lista de lideranças políticas populares assassinadas  não para de crescer e os índices de mortalidade por causa causas externas entre a população negra permitem falar tranquilamente em projeto de genocídio da população negra brasileira. Mas ao contrário do referido caso, o que se tem observado é um silêncio assustador a respeito desse processo, silencio esse partilhado pelas mais diversas agremiações do espectro político e ideológico brasileiro.

Marielle Franco – Por Bianca Foratori

Talvez, a atual visibilidade, seja porque recentemente, a Marielle tenha sido indicada como relatora da Comissão que iria acompanhar a Intervenção (Militar) Federal no Rio, além de denunciar a chacina que levou a morte de jovens por policiais em Acari e de outros bairros pobres do Rio de Janeiro. Outra explicação, pode ser o atual contexto de derrotas e retrocessos nos mais diversos campos. O momento político nos empurra derradeiramente ao precipício e o acontecido pode ter sido o estopim para a percepção do estágio em que chegamos e o estímulo uma discussão ampla sobre a amplitude do racismo e os seus entroncamentos de classe e gênero no Brasil.

O fato é que, há uma disputa de narrativas em torno da morte e alguns setores conservadores (de direita), têm pego carona em nossa indignação para defender exatamente aquilo que Marielle mais criticava: a Militarização das favelas. Há uma armadilha nessa aposta da intervenção (militar) como resposta à corrupção policial no Rio de Janeiro, como se a própria polícia não fosse o que é, exatamente por sua dimensão militarizada.
Do outro lado, há uma mobilização de setores (que vai das frações da mídia burguesa à setores da esquerda institucional) que mesmo sem levar a sério a luta contra o racismo em suas fileiras, têm mobilizado as consignas “militarização” e/ou “juventude negra e pobre das favelas” para contextualizar o fato, sem contudo, apresentarem uma agenda (a curto, médio e longo prazo) que demonstre um compromisso efetivo com essa agenda e com aqueles que se mobilizam em torno dela. Há também aqueles que, embora reconheçam a centralidade do racismo como explicação dos problemas enfrentados por Marielle, ignoram as dimensões de classe presentes no problema e aproveitam o ocorrido para destilar seu ressentimento com a esquerda (branca, de classe média, do asfalto, etc).

A única coisa que une a todos é a indignação e perplexidade diante de um crime que apresenta fortes indícios de execução. Não esqueçamos que no domingo, 11/03, Marielle denunciou uma ação de PMs do 41º BPM (Irajá) na Favela de Acari. Segundo ela, moradores reclamaram da truculência dos policiais durante a abordagem a moradores. Ela compartilhou uma publicação em que comenta que os rapazes foram jogados em um valão. De acordo com moradores, no último sábado, os PMs invadiram casas, fotografaram suas identidades e aterrorizaram populares no entorno.
O que nos preocupa, para além da dor irreparável de perder uma guerreira e ser humano singular como foi Marielle, é o dia seguinte à comoção e a disputa em torno das narrativas: Exigimos justiça e investigação imediata do ocorrido, mas quem fará a investigação? A Polícia Militar do Rio de Janeiro: a principal suspeita do ocorrido? A Força Tarefa do exército: aquela denunciada por Marielle como responsável pela intensificação do problema da violência no Rio, e não a solução?

A Marielle merece mais de nós, e vinha nos avisando que as mortes continuarão, mesmo que se aponte um indivíduo – bode-expiatório para a sua morte – a não ser que as nossas apostas se deem em outro lugar: na luta política irrestrita que envolva a mobilização direta das comunidades – estar com elas, e não apenas escrever notas de repúdio – e sobretudo, articulação das lutas de raça, classe e gênero. Uma frente ampla que não aceite mais nenhuma gota de sangue derramada e esteja a altura de repetir a mesma indignação aqui observada a todas/os as/os outras/as Marielle que ainda virão por conta da presença do exército no Rio de Janeiro, da permanência dessa lógica militarizada das polícias brasileiras, e da guerra encarniçada entre traficantes, milícias, e Estado no Brasil.
Ou responderemos à altura, ou seremos atropelados pela disputa ideológica e manipuladora em torno de nosso luto.

“… Quem são essas mulheres negras que estão na favela?
Seus filhos, suas perdas, suas lutas, seus trabalhos…” questionava Marielle.
Toda solidariedade às famílias de Marielle e Anderson.
Pelo fim da violência do Estado.
Pelo fim da intervenção militar no RJ
Pelo fim da perseguição de militantes de direitos humanos
Pelo direito de defesa dos direitos
Basta de execução!
#SomosTodosMarielle #MariellePresente

“Isto sempre acontece. Todos os negros que mudam o mundo de alguma forma morrem. Mas eles nunca morrem de maneiras normais, eles sempre morrem de forma violenta.”
Tupac Shakur

Grupo Kilombagem

Publicado em Deixe um comentário

Clóvis Moura: O racismo como arma ideológica de dominação

Salve! A um tempo quero publicar por aqui o pensamento do Clóvis Moura! Intelectual preto que ainda esta a margem da sociologia brasileira e da branquitude como um todo. Meu objetivo é simples na medida que vou me debruçando sobre seus textos, compartilho por aqui! Tem muitos estudos sobre o pensamento do Clóvis Moura (ainda bem né) 🙂 e pretendo traze-los por aqui também.

O convite esta feito! Boa leitura para todos/todas nós!


Continuar lendo Clóvis Moura: O racismo como arma ideológica de dominação
Publicado em Deixe um comentário

A Tirania das Organizações Sem Estrutura

Artigo de Jo Freeman, 1970

[su_button url=”https://kilombagem.net.br/wp-content/uploads/2018/03/tirania-das-organizações-sem-estrutura-a.pdf” style=”flat” background=”#f5eb21″ color=”#000000″ wide=”yes” center=”yes” icon=”icon: download” icon_color=”#000000″ desc=”Baixar”]Download do artigo em Pdf[/su_button]

Durante os anos em que o movimento feminista se formava, dava-se grande ênfase ao que se chamava de grupos sem estrutura, sem liderança, como a forma principal do movimento. Essa idéia tinha origem numa reação natural contra a sociedade superestruturada na qual a maioria de nós se encontrava, no controle inevitável que isso dava a outros sobre nossas vidas e no elitismo persistente da esquerda e de grupos similares entre aqueles que supostamente combatiam essa superestruturação.

A idéia da “ausência de estrutura”, no entanto, passou de uma oposição saudável a essas tendências a um dogma. A idéia é tão pouco examinada quanto o termo é utilizado, mas tornou-se uma parte intrínseca e inquestionada da ideologia feminista. Para o desenvolvimento inicial do movimento, isso não importava muito. Ele definiu inicialmente seu método principal como a conscientização e o “grupo de discussão sem estrutura” era um meio excelente para esse fim. Sua flexibilidade e informalidade encorajavam a participação na discussão e o ambiente freqüentemente receptivo promovia a compreensão pessoal. Se nada de mais concreto que a compreensão pessoal resultasse desses grupos, isso não importava muito, porque seu propósito, na verdade, não ia além disso.

Os problemas básicos não apareceram até que grupos de discussão individuais exauriram as potencialidades da conscientização e decidiram que queriam fazer algo mais específico. Neste ponto, eles normalmente se atrapalhavam porque a maioria dos grupos não estava disposta a mudar sua estrutura na medida em que mudava sua tarefa. As mulheres tinham comprado totalmente a idéia de “ausência de estrutura” sem perceber as limitações de seus usos. As pessoas tentavam usar o grupo “sem estrutura” e a reunião informal para fins para os quais não eram apropriados, acreditando cegamente que quaisquer outros meios seriam simplesmente opressivos.

Se o movimento quiser avançar além desses estágios elementares de desenvolvimento, ele deverá livrar-se de alguns de seus preconceitos sobre organização e estrutura. Nenhum dos dois tem nada de intrinsecamente ruim. Eles podem e freqüentemente são mau usados, mas rejeitá-los de antemão porque são mau usados é nos negar as ferramentas necessárias ao nosso desenvolvimento ulterior. Precisamos entender porque a “ausência de estrutura” não funciona.

Estruturas formais e informais

Ao contrário do que gostaríamos de acreditar, não existe algo como um grupo “sem estrutura”. Qualquer grupo de pessoas de qualquer natureza, reunindo-se por qualquer período de tempo, para qualquer propósito, inevitavelmente estruturar-se-á de algum modo. A estrutura pode ser flexível, pode variar com o tempo, pode distribuir entre os membros do grupo as tarefas, o poder e os recursos de forma igual ou desigual. Mas ela será formada a despeito das habilidades, personalidades e intenções das pessoas envolvidas. O simples fato de que somos indivíduos com aptidões, predisposições e experiências diferentes torna isso inevitável. Apenas se nos recusamos a nos relacionar ou interagir em qualquer base poderemos nos aproximar da “ausência de estrutura” e essa não é a natureza de um grupo humano.

Isso significa que lutar por um grupo “sem estrutura” é tão útil e tão ilusório quanto almejar uma reportagem “objetiva”, uma ciência social “desprovida de valores” ou uma economia “livre”. Um grupo de “laissez-faire” é quase tão realista quanto uma sociedade de “laissez-faire”; a idéia se torna uma dissimulação para que o forte ou o afortunado estabeleça uma hegemonia inquestionada sobre os outros. Essa hegemonia pode facilmente ser estabelecida porque a idéia da “ausência de estrutura” não impede a formação de estruturas informais, apenas de formais. Da mesma forma, a filosofia do “laissez-faire” não impedia os economicamente poderosos de estabelecer controle sobre os salários, preços e a distribuição dos bens; ela apenas impedia o governo de fazê-lo. Assim, a “ausência de estrutura” torna-se uma forma de mascarar o poder e no movimento feminista é normalmente defendida com mais vigor pelos mais poderosos (estejam eles conscientes de seu poder ou não). As regras sobre como as decisões são tomadas são conhecidas apenas por poucos e na medida em que a estrutura do grupo permanece informal, a consciência do poder é impedida por aqueles que conhecem as regras. Quem não conhece as regras e não é escolhido para iniciação deve permanecer confuso ou sofrer de desilusões paranóicas de que algo que não sabe bem o que é está acontecendo.

Para que todas as pessoas tenham a oportunidade de se envolver num dado grupo e participar de suas atividades, é preciso que a estrutura seja explícita e não implícita. As regras de deliberação devem ser abertas e disponíveis a todos e isso só pode acontecer se elas forem formalizadas. Isto não significa que a normalização de uma estrutura de grupo irá destruir a estrutura informal. Ela normalmente não destrói. Mas impede a estrutura informal de ter o controle predominante e torna disponível alguns meios de atacá-la. A “ausência de estrutura” é organizacionalmente impossível. Nós não podemos decidir se teremos um grupo estruturado ou sem estrutura, apenas se teremos ou não um grupo formalmente estruturado. Assim, a expressão “sem estrutura” não será mais usada, a não ser para referir-se à idéia que representa. O termo inestruturado referir-se-á àqueles grupos que não foram deliberadamente estruturados de uma forma particular. O termo estruturado referir-se-á àqueles que o foram. Um grupo estruturado tem sempre uma estrutura formal e pode também ter uma estrutura informal. Um grupo inestruturado tem sempre uma estrutura informal ou disfarçada. É esta estrutura informal, particularmente em grupos inestruturados, que fornece o fundamento para as elites.

A natureza do elitismo

“Elitista” é, provavelmente, a palavra mais abusada no movimento de liberação das mulheres. É usada com freqüência, mas nunca de forma correta. No movimento, ela normalmente se refere a indivíduos, ainda que suas atividades e características pessoais divirjam enormemente. Um indivíduo, enquanto indivíduo, nunca pode ser uma “elite” porque o termo “elite” só se aplica adequadamente a grupos. Nenhum indivíduo, independente de quão notório seja, pode ser uma elite.

De uma forma mais apropriada, uma elite refere-se a um pequeno grupo de pessoas que tem poder sobre um grupo maior do qual faz parte, normalmente sem responsabilidade direta sobre ele e, freqüentemente, sem seu conhecimento ou consentimento. Uma pessoa torna-se elitista por tomar parte ou defender o domínio deste pequeno grupo, seja esta pessoa bem conhecida ou totalmente desconhecida. Notoriedade não é uma definição de elitista. As elites mais traiçoeiras são normalmente comandadas por pessoas totalmente desconhecidas do grande público. Elitistas inteligentes são, em geral, espertos o suficiente para não se deixarem tornar muito conhecidos. Quando eles são conhecidos eles são vigiados e a máscara que esconde seu poder não fica mais firmemente presa.

O fato das elites serem informais não significa que sejam invisíveis. Num encontro de qualquer grupo pequeno, qualquer um com um olhar aguçado e um ouvido atento sabe dizer quem está influenciando quem. Os membros de um grupo de amigos confiarão mais nas pessoas do seu grupo do que nas outras. Eles ouvem mais atentamente e interrompem menos. Eles repetem os argumentos dos outros membros e cedem amigavelmente. Os “de fora”, eles tendem a ignorar ou enfrentar. A aprovação dos “de fora” não é necessária para se chegar a uma decisão; no entanto, é necessário para os “de fora” manter uma boa relação com os “de dentro”. É claro que as linhas não são tão bem definidas quanto as que eu tracei. Elas tem nuances de interação, não são roteiros pré-concebidos. Mas elas são discerníveis e têm o seu efeito. Quando se sabe quem é importante consultar antes da decisão ser tomada e a aprovação de quem é garantia de aceitação, então se sabe quem está mandando.

As elites não são conspirações. Dificilmente um pequeno grupo de pessoas se reúne e tenta tomar o grupo maior para seus próprios fins. As elites são, nada mais, nada menos, que um grupo de amigos que coincidem em participar das mesmas atividades políticas. Eles provavelmente manteriam sua amizade, participassem ou não dessas atividades políticas; e participariam das atividades, mantivessem ou não sua amizade. É a coincidência destes dois fenômenos que cria elites em qualquer grupo e as torna tão difíceis de serem destruídas.

Esses grupos de amigos funcionam como redes de comunicação à parte de quaisquer canais regulares para comunicação que possam ter sido estabelecidos pelo grupo. Se nenhum canal foi estabelecido, eles funcionam como as únicas redes de comunicação. Porque são amigas, normalmente partilhando os mesmos valores e posições, porque conversam socialmente entre si e se consultam quando as decisões comuns têm de ser tomadas, as pessoas que participam dessas redes têm mais poder no grupo que aquelas que não participam. E são raros os grupos que não estabelecem redes de comunicação informal por meio dos amigos que fazem neles.

Rizomas

Alguns grupos, dependendo de seu tamanho, podem ter mais do que uma dessas redes informais de comunicação. As redes podem até sobrepor-se. Quando apenas uma rede dessas existe, ela é a elite de um grupo que seria de outra forma inestruturado — queiram os seus participantes ser elitistas ou não. Se ela é a única dessas redes num grupo estruturado, ela pode ser ou não uma elite, dependendo da sua composição e da natureza da estrutura formal. Se existem duas ou mais dessas redes de amigos, elas podem competir pelo poder dentro do grupo, formando assim facções, ou uma delas pode deliberadamente abandonar a competição deixando a outra como elite. Num grupo estruturado, duas ou mais dessas redes de amizades normalmente competem entre si pelo poder formal. Essa é, em geral, a situação mais saudável. Os outros membros estão na posição de arbitrar entre os dois competidores pelo poder e são assim capazes de colocar exigências do grupo àqueles a quem deram uma confiança temporária.

Muitos critérios diferentes foram usados pelo país, uma vez que os grupos do movimento não decidiram concretamente quem deve exercer o poder dentro deles,. Com o passar do tempo, à medida que o movimento mudou, o casamento tornou-se um critério menos universal para a participação efetiva, embora todas as elites informais ainda estabeleçam padrões pelos quais apenas as mulheres que possuem certas características materiais ou pessoais podem participar. Os padrões freqüentemente incluem: origem de classe média (apesar de toda retórica sobre a relação com a classe operária), ser casada, não ser casada, mas viver com alguém, ser ou fingir ser lésbica, ter entre 20 e 30 anos, ter formação universitária ou, pelo menos, alguma passagem pela universidade, ser “descolada”; não ser muito “descolada”, seguir uma certa linha política ou se identificar como “radical”, possuir certos traços de personalidade “femininos”, como ser “gentil”, vestir-se adequadamente (seja no estilo tradicional, seja no anti-tradicional), etc. Existem também algumas características que quase sempre estigmatizariam a mulher como “desviante”, uma pessoa com a qual não se deve relacionar. Elas incluem: ser velha demais, trabalhar período integral (principalmente se está ativamente dedicada à “carreira professional”), não ser “gentil” e ser declaradamente solteira (ou seja, nem heterossexual, nem homossexual).

Outros critérios poderiam ser incluídos, mas eles têm todos temas comuns. O pré-requisito característico para participar das elites informais do movimento e, portanto, para exercer o poder, diz respeito à origem, à personalidade e à disponibilidade de tempo. Eles não incluem a competência , a dedicação ao feminismo, a posse de talentos ou a contribuição potencial ao movimento. Os primeiros, são critérios que normalmente se usa para escolher os amigos. Os últimos, são critérios que qualquer movimento ou organização tem de usar se pretende ser politicamente eficaz.

Embora essa dissecação do processo de formação de elites em grupos pequenos tenha sido crítico em suas perspectivas, ele não foi feito com a crença de que essas estruturas informais são inevitavelmente ruins, apenas que são inevitáveis. Todos os grupos criam estruturas informais como resultado dos padrões de interação entre os membros. Essas estruturas informais podem fazer coisas úteis. Mas apenas grupos inestruturados são totalmente governados por elas. Quando elites informais estão juntas com o mito da “ausência de estrutura”, não há meios de pôr limites ao uso de poder. Ele se torna caprichoso.

Isto tem duas conseqüências potencialmente negativas das quais deveríamos estar conscientes. A primeira é que a estrutura informal de deliberação será como uma “irmandade” , na qual se escuta as pessoas porque se gosta delas e não porque dizem algo significativo. Enquanto o movimento não faz coisas significativas, isso não importa muito. Mas para que seu desenvolvimento não pare numa etapa preliminar, ele deve alterar essa tendência. A segunda conseqüência é que as estruturas informais não têm obrigação de ser responsáveis pelo grupo como um todo. Seu poder não lhes foi dado; não pode ser tirado. Sua influência não se baseia no que fazem pelo grupo; portanto elas não podem ser diretamente influenciadas pelo grupo. Isso não torna necessariamente as estruturas informais irresponsáveis. Aqueles que se interessam em manter sua influência normalmente tentarão ser responsáveis. O grupo apenas não pode obrigar essa responsabilidade; ele depende dos interesses da elite.

As “estrelas”

A “idéia” da “ausência de estrutura” causou o aparecimento de “estrelas”. Vivemos numa sociedade que espera que grupos políticos tomem decisões e escolham pessoas que articulem essas decisões para o público em geral. A imprensa e o público não sabem como escutar seriamente as mulheres enquanto indivíduos; eles querem saber como o grupo se sente. Apenas três técnicas foram desenvolvidas para estabelecer a opinião de grandes grupos: o voto ou o referendo, o questionário de pesquisa de opinião pública e a seleção, num encontro apropriado, de porta-vozes do grupo. O movimento de liberação das mulheres não tem usado nenhuma dessas técnicas para se comunicar com o público. Nem o movimento como um todo, nem a maioria dos grandes grupos dentro dele estabeleceram meios de explicar suas posições sobre os vários assuntos. Mas o público está condicionado a procurar porta-vozes.

Apesar de não ter conscientemente escolhido porta-vozes, o movimento lançou muitas mulheres que chamaram a atenção do público por diversas razões. Essas mulheres não representam um grupo particular ou uma opinião estabelecida; elas sabem disso e normalmente o dizem. Mas porque não há porta-vozes oficiais nem qualquer corpo deliberativo que a imprensa possa entrevistar, quando ela quer saber a posição do movimento sobre um dado assunto, essas mulheres são tomadas como porta-vozes. Assim, queiram ou não, goste o movimento ou não, por omissão, as mulheres com distinção pública são colocadas no papel de porta-vozes.

Essa é uma das origens do que normalmente se sente das mulheres consideradas “estrelas”. Já que elas não foram escolhidas pelas mulheres do movimento para representar as posições do movimento, elas se ofendem quando a imprensa pressupõe que elas falam pelo movimento… Assim, o combate às “estrelas”, na verdade, encoraja precisamente o tipo de irresponsabilidade individual que o movimento condena. Ao expulsar uma companheira sob a pecha de “estrela”, o movimento perde qualquer controle que possa ter tido sobre a pessoa, que se torna livre para cometer todo tipo de pecado individualista de que foi acusada.

Impotência política

Grupos inestruturados podem ser muito eficazes para fazer as mulheres falarem sobre suas vidas, mas eles não são muito bons para fazer as coisas acontecerem. A não ser que o modo de operação mude, os grupos tropeçam quando chega o momento em que as pessoas se cansam de “apenas conversar” e querem fazer algo mais. Uma vez que o movimento como um todo, na maioria das cidades, é tão inestruturado quanto os grupos de discussão individuais, ele não é muito mais eficaz em tarefas específicas do que os grupos separados. A estrutura informal está raramente suficientemente junta ou suficientemente em contato com as pessoas para ser capaz de operar eficazmente. Assim, o movimento gera muita emoção e poucos resultados. Infelizmente, as consequências de toda essa emoção não são tão inócuas quanto os resultados e a vítima é o próprio movimento.

Alguns grupos que não envolvem muitas pessoas e trabalham em pequena escala, tornaram-se projetos de ação local. Mas essa forma restringe a atividade do movimento ao nível local. Além disso, para funcionarem bem, os grupos precisam normalmente se reduzir àqueles grupos informais de amigos que tocavam as coisas. Isto impede muitas mulheres de participarem. Enquanto a única forma de participação no movimento for a filiação a um pequeno grupo, aquelas mulheres que não aderem estão em evidente desvantagem. Enquanto os grupos de amizade forem o principal meio de atividade organizacional, o elitismo se torna institucionalizado.

Para aqueles grupos que não conseguem encontrar um projeto local ao qual se dedicar, o mero ato de estar junto torna-se a razão de estar junto. Quando um grupo não tem uma tarefa específica (e a conscientização é uma tarefa), as pessoas voltam suas energias para o controle de outras pessoas do grupo. Isto não é feito tanto por um desejo maligno de manipular os outros (embora às vezes o seja) quanto pela falta de alguma coisa melhor para fazer com seus talentos. Pessoas hábeis com tempo disponível e uma necessidade de justificar seus encontros se empenham no controle pessoal e gastam seu tempo criticando as personalidades dos outros membros do grupo. Disputas internas e jogos de poder pessoais tomam conta do dia. Quando um grupo está envolvido numa tarefa, as pessoas aprendem a conviver com os outros como são e a desprezar antipatias em benefício de objetivos maiores. Há limites colocados à compulsão de moldar cada pessoa à concepção que se tem do que deve ser.

O fim da conscientização deixa as pessoas sem direção e a falta de estrutura as deixa sem meios de chegar lá. As mulheres do movimento ou se voltam para si mesmas e suas companheiras ou buscam outras alternativas de ação. E há poucas alternativas disponíveis. Algumas mulheres simplesmente “fazem suas próprias coisas”. Isso pode levar a um grande grau de criatividade individual que pode, em grande parte, ser útil ao movimento, mas não é uma alternativa viável para a maioria das mulheres e certamente não promove um espírito de esforço cooperativo de grupo. Outras mulheres abandonam inteiramente o movimento porque não querem desenvolver um projeto pessoal e não encontraram meios de descobrir, associar-se ou começar projetos de grupo que as interessem.

Muitas se voltam para outras organizações políticas para dar-lhes o tipo de atividade estruturada e eficaz que elas não conseguiram encontrar no movimento das mulheres. Dessa forma, essas organizações políticas que vêm a liberação das mulheres como apenas uma questão entre outras, consideram o movimento de liberação um vasto manancial para o recrutamento de novos membros. Essas organizações não precisam se “infiltrar” (embora isso não exclua que o façam). O desejo de uma atividade política significativa gerado pelas mulheres ao se tornarem parte do movimento de liberação é suficiente para torná-las ansiosas de entrarem em outras organizações. O próprio movimento não permite nenhum tipo de vazão para suas novas idéias e energias.

Aquelas mulheres que entram em outras organizações políticas e permanecem no movimento de liberação das mulheres ou que entram no movimento de liberação e permanecem em outras organizações políticas, tornam-se, por sua vez, pontos de apoio para novas estruturas informais. Essas redes de amizade se baseiam mais nas suas políticas comuns não-feministas que nas características discutidas anteriormente; no entanto, a rede opera praticamente da mesma forma. Já que essas mulheres partilham valores, idéias e orientações políticas comuns, elas também se tornam elites irresponsáveis, não escolhidas, não planejadas e informais — pretendam sê-las ou não.

Essas novas elites informais são freqüentemente sentidas como ameaças pelas velhas elites informais estruturadas anteriormente a partir de outros movimentos. Trata-se de um sentimento justificado. Essas redes politicamente orientadas dificilmente estão dispostas a ser meras “irmandades” como eram muitas das antigas e querem fazer proselitismo de suas idéias políticas e feministas. Isso é natural, mas as implicações disso para o movimento de liberação das mulheres nunca foram adequadamente discutidas. As velhas elites dificilmente estão dispostas a discutir abertamente essas diferenças de opinião porque isso implicaria em expor a natureza da estrutura informal do grupo. Muitas dessas elites informais tem se escondido sob a bandeira do “anti-elitismo” e da “ausência de estrutura”. Para combater efetivamente a competição de outra estrutura informal, elas teriam que tornar-se “públicas” e essa possibilidade é temida por suas inúmeras implicações perigosas. Assim, para manter seu próprio poder, torna-se mais fácil racionalizar a exclusão dos membros da outra estrutura informal por meios como o “combate aos vermelhos”, o “combate às lésbicas” ou o “combate às heteros”. A única outra alternativa é estruturar o grupo formalmente de tal maneira que o poder original seja institucionalizado. Isso nem sempre é possível. Se as elites informais forem bem estruturadas e tiverem exercido uma boa quantidade de poder no passado, tal tarefa é viável. Esses grupos têm uma história de atividade política relativamentente eficaz na qual a firmeza da estrutura informal se mostrou um substituto adequado à estrutura formal. A sua estruturação não altera muito sua operação, embora a institucionalização da estrutura de poder abra espaço para a contestação formal. Normalmente, são os grupos que mais necessitam de estrutura, os menos capazes de criá-la. Suas estruturas informais não foram bem formadas e a adesão à ideologia da “ausência de estrutura” as faz relutantes em mudar de estratégia. Quanto mais inestruturado um grupo é, tanto mais carece de estruturas formais; quanto mais adere a uma ideologia de “ausência de estrutura”, mais vulnerável está a ser tomado por um grupo de companheiras oriundas de organizações políticas.

Uma vez que o movimento como um todo é tão inestruturado quanto a maioria dos grupos que o constitui, ele é igualmente suscetível à influência indireta de outras organizações. Mas o fenômeno manifesta-se diferentemente. Num nível local, a maior parte dos grupos consegue operar autonomamente mas apenas os grupos que conseguem organizar uma atividade no nível nacional podem ser considerados grupos nacionalmente organizados. Assim, são as organizações feministas estruturadas que em geral fornecem as direções nacionais para as atividades feministas e essas direções são determinadas pelas prioridades dessas organizações. Grupos como a “Organização Nacional das Mulheres” e a “Liga de Ação pela Igualdade das Mulheres” e algumas convenções feministas de esquerda são as únicas organizações capazes de montar uma campanha nacional. Os inúmeros grupos inestruturados de liberação das mulheres podem escolher se vão apoiar ou não as campanhas nacionais, mas são incapazes de organizar uma campanha elas próprias. Dessa forma, seus membros se tornam as tropas sob a liderança das organizações estruturadas. Eles não têm sequer os meios de decidir quais devem ser as prioridades.

Quanto mais inestruturado um movimento é, menos controle ele tem sobre as direções na qual se desenvolve e sobre as ações políticas na qual se engaja. Isso não significa que suas idéias não vão se espalhar. Dado um certo grau de interesse dos meios de comunicação e condições sociais favoráveis, as idéias poderão ser difundidas amplamente. Mas o fato das idéias serem difundidas não implica que serão implementadas; significa apenas que serão discutidas. Na medida em que podem ser aplicadas individualmente, elas podem ser realizadas, mas na medida em que requerem poder político coordenado para ser implementadas, elas não o serão.

Enquanto o movimento de liberação das mulheres permanece dedicado a uma forma de organização que enfatiza os pequenos e inativos grupos de discussão entre amigas, os piores problemas da inestruturação não se farão sentir. Mas esse estilo de organização tem seus limites; é politicamente ineficiente, excludente e discriminatório quanto às mulheres que não estão ou não podem estar ligadas a redes de amigas. Aquelas que não se enquadram no esquema existente por motivo de classe, raça, profissão, casamento, maternidade ou personalidade serão inevitavelmente desencorajadas de tentar participar. Aquelas que se encaixam desenvolverão interesses dissimulados de manter as coisas como estão.

Os interesses dissimulados dos grupos informais serão mantidos pelas estruturas informais que existem e o movimento não terá meios de determinar quem deve exercer o poder nele. Se o movimento continua, deliberadamente, a não escolher quem deve exercer o poder, ele termina por não abolir o poder. Tudo que faz é abdicar o direito de exigir daquele que exerce o poder e a influência que tenha responsabilidade por esse poder e essa influência. Se o movimento continua a manter o poder tão difuso quanto possível porque sabe que não pode exigir responsabilidade daquele que o tem, ele impede qualquer grupo ou pessoa de dominá-lo totalmente. Mas, simultaneamente, ele se condena a ser tão ineficaz quanto possível. Um meio-termo entre a dominação e a ineficácia pode e deve ser encontrado.

Esses problemas estão surgindo agora porque a natureza do movimento está mudando necessariamente. A conscientização, como função principal do movimento de liberação das mulheres, está se tornando obsoleta. Devido à intensa publicidade da imprensa nos últimos dois anos e aos inúmeros livros e artigos que circulam agora nos meios estabelecidos, a liberação das mulheres se tornou uma expressão assimilada. Seus temas são debatidos e os grupos de discussão informais são formados por pessoas que não têm conexão explícita com nenhum movimento. O trabalho puramente educacional não é mais uma necessidade imperativa. O movimento deve continuar com outras tarefas. Ele precisa agora estabelecer suas prioridades, determinar suas finalidades e perseguir seus objetivos de maneira coordenada. Para fazê-lo ele deve organizar-se localmente, regionalmente e nacionalmente.

Princípios da estruturação democrática

A partir do momento em que o movimento não se prende mais tenazmente à ideologia da “ausência de estrutura” ele estará livre para desenvolver aquelas formas de organização que melhor se adequam ao seu funcionamento saudável. Isto não significa que devemos ir ao outro extremo e cegamente imitar as formas tradicionais de organização. Mas nós também não devemos cegamente rejeitá-las. Algumas técnicas tradicionais mostrar-se-ão úteis, ainda que imperfeitas; outras nos darão idéias sobre o que devemos fazer para obter certos fins com custos mínimos para as pessoas no movimento. Na maior parte dos casos, nós teremos que experimentar com formas diferentes de estruturação e desenvolver uma variedade de técnicas para usar em situações variadas. O “sistema de sorteio” é uma dessas idéias que emergiram do movimento. Ele não é aplicável a todas situações mas é útil em algumas. Outras idéias para a estruturação são necessárias. Mas antes que procedamos na experimentação inteligente, devemos aceitar a idéia de que não há nada de inerentemente ruim na estrutura em si mesma — apenas no seu uso excessivo.

Enquanto entramos nesse processo de tentativa e erro, existem alguns princípios que podemos ter em mente que são essenciais para a estruturação democrática e que são também politicamente eficazes:

1. Delegação, por meios democráticos, de autoridade específica a indivíduos específicos para tarefas específicas. Deixar pessoas assumirem trabalhos ou tarefas por omissão ou negligência significa apenas que eles não serão feitos de forma segura. Se as pessoas são escolhidas para uma tarefa, preferencialmente após manifestarem um interesse ou vontade de fazê-la, elas assumem um compromisso que não pode ser facilmente ignorado.

2. Exigência de que aqueles a quem a autoridade foi delegada sejam responsáveis frente aqueles que os escolheram. Essa é a forma pela qual o grupo tem controle sobre as pessoas em posições de autoridade. Indivíduos podem exercer o poder, mas é o grupo quem tem a última palavra sobre a forma como o poder é exercido.

3. Distribuição da autoridade entre tantas pessoas quanto possa ser razoavelmente possível. Isso impede o monopólio do poder e exige daqueles em posições de autoridade que consultem muitas outras pessoas no exercício de seu poder. Também oferece a muitas pessoas a oportunidade de ter responsabilidade por tarefas específicas e dessa forma aprender habilidades específicas.

4. Rotação de tarefas entre as pessoas. Responsabilidades que são mantidas durante muito tempo por uma mesma pessoa, formalmente ou informalmente, passam a ser vistas como sua “propriedade” e não são facilmente substituídas ou controladas pelo grupo. Inversamente, se a rotatividade das tarefas é muito freqüente, as pessoas não têm tempo para aprender seu trabalho direito e adquirir o sentimento do trabalho bem feito.

5. Alocação de tarefas segundo critérios racionais. Escolher pessoas para uma posição porque elas são queridas pelo grupo ou lhes dar um trabalho pesado porque não são queridas, prejudica, a longo prazo, o grupo e a pessoa. Habilidade, interesse e responsabilidade têm de ser as principais preocupações nessa seleção. As pessoas devem ter a oportunidade de aprender habilidades que não possuem, mas isso é melhor implementado por uma espécie de programa de “aprendizes” do que pelo método do “ou nada ou afoga”. Ter uma responsabilidade maior do que se agüenta pode ser desmoralizante. Inversamente, ser rejeitado naquilo que se faz bem não encoraja ninguém a desenvolver habilidades. As mulheres têm sido punidas por serem competentes por toda história humana. O movimento não precisa repetir esse processo.

6. Difusão de informação a todos com a maior freqüência possível. Informação é poder. O acesso à informação aumenta o poder. Quando uma rede informal dissemina novas idéias e informações entre si, sem passar pelo grupo, ela está envolvida num processo de formação de opinião sem a participação do grupo. Quanto mais se sabe como as coisas funcionam, mais politicamente eficaz se é.

7. Acesso igualitário aos recursos necessários ao grupo. Isto nem sempre é possível, mas deve se lutar para consegui-lo. Um membro que mantenha um monopólio sobre um recurso necessário (por exemplo, uma gráfica ou um laboratório de revelação do marido) pode influenciar indevidamente o uso daquele recurso. Habilidades e informação também são recursos. E as habilidades e informações dos membros só estarão igualmente distribuídos quando os membros quiserem ensinar o que sabem para os outros.

Quando esses princípios são aplicados, eles asseguram que quaisquer estruturas que sejam desenvolvidas serão controladas pelo grupo e assumirão responsabilidades frente a ele. O grupo de pessoas em posição de autoridade será difuso, flexível, aberto e temporário. Eles não estarão numa posição que facilita a institucionalização do seu poder, porque as decisões definitivas serão feitas pelo grupo como um todo. O grupo terá assim o poder de determinar quem deve exercer a autoridade dentro dele.

[su_box title=”Sobre Jo Freeman” box_color=”#fff317″ title_color=”#000000″]

Jo Freeman (nascida em 26 de agosto de 1945) é feminista, cientista político, escritora e advogada americana. Como estudante na Universidade da Califórnia, Berkeley na década de 1960, ela se tornou ativa em organizações que trabalham para liberdades civis e o movimento de direitos civis. Ela passou a fazer registro de eleitores e organização comunitária no Alabama e no Mississippi e foi um dos primeiros organizadores do movimento de libertação das mulheres. Ela escreveu vários artigos feministas clássicos, bem como documentos importantes sobre movimentos sociais e partidos políticos. Ela também escreveu extensivamente sobre mulheres, particularmente sobre direito e políticas públicas para mulheres e mulheres na política geral.

 

[su_button url=”https://en.wikipedia.org/wiki/Jo_Freeman” icon=”icon: user-circle”]Saiba Mais – Wikipedia[/su_button]

[su_button url=”http://www.jofreeman.com/” icon=”icon: user-circle”]Saiba Mais – Site Jo Freeman[/su_button]

[su_button url=”http://www.seniorwomen.com/authors/authorpageFreeman.html” icon=”icon: user-circle”]Saiba Mais – Outros[/su_button]

[/su_box]

[su_button url=”https://kilombagem.net.br/wp-content/uploads/2018/03/tirania-das-organizações-sem-estrutura-a.pdf” style=”flat” background=”#f5eb21″ color=”#000000″ wide=”yes” center=”yes” icon=”icon: download” icon_color=”#000000″ desc=”Baixar”]Download do artigo em Pdf[/su_button]

Publicado em Deixe um comentário

Big Data: Toda democracia será manipulada?

[su_note note_color=”#fe5d2c” text_color=”#000000″]

Publicado Originalmente no Outras Palavras Comunicação Compartilhada e Pós-capitalismo

[/su_note]

Bem-vindo à Psicometria — o método usado por empresas e políticos para traçar em detalhes seu perfil, a partir de “likes” no Facebook. Como ele elegeu Trump e ameaça reduzir as eleições a jogos de marketing

Por Hannes Grassegger e Mikael Krogerus | Tradução: Inês Castilho

No dia 9 de novembro, por volta das 8h30, Michal Kosinski acordou no Hotel Sunnehus em Zurique. O pesquisador de 34 anos estava ali para dar uma palestra no Instituto Federal Suíço de Tecnologia (ETH, na sigla em inglês) sobre os perigos do Big Data e da revolução digital. Kosinski fala sobre esse assunto regularmente, em todo o mundo. Ele é um especialista em psicometria, um sub-ramo da psicologia baseado em dados. Quando ligou a TV naquela manhã, contrariamente às previsões de todos os principais estatísticos, viu que a bomba explodira: Donald J. Trump fora eleito presidente dos Estados Unidos.

Por um longo período, Kosinski assistiu às celebrações da vitória de Trump e os resultados de cada estado. Ele tinha um pressentimento de que o resultado da eleição poderia ter alguma coisa a ver com sua pesquisa. Finalmente, respirou fundo e desligou a TV.

No mesmo dia, uma empresa britânica com sede em Londres, então pouco conhecida, divulgou um comunicado à imprensa: “Estamos muito felizes que nossa abordagem revolucionária de comunicação dirigida por dados tenha desempenhado papel tão essencial na extraordinária vitória do presidente eleito Trump”, teria dito Alexander James Ashburner Nix. Nix é britânico, tem 41 anos, e é CEO da Cambridge Analytica. Ele está sempre imaculadamente apresentável em ternos feitos sob medida e óculos de grife, com seu cabelo loiro ondulado penteado para trás. Sua empresa não era apenas parte integrante da campanha online de Trump, mas também da campanha britânica pelo Brexit.

Desses três atores – o reflexivo Kosinski, o Nix cuidadosamente arrumado e o sorridente Trump – um deles possibilitou a revolução digital, outro a executou e um terceiro beneficiou-se dela.

Qual o perigo do Big Data?

Qualquer pessoa que não tenha passado os últimos cinco anos vivendo em outro planeta terá alguma familiaridade com a expressão Big Data. Big Data significa, em essência, que tudo o que fazemos, seja on ou offline, deixa traços digitais. Cada compra que fazemos com nossos cartões, cada busca que fazemos no Google, cada movimento que fazemos com nosso celular no bolso, cada “like” é armazenado. Especialmente cada “curtida”. Por muito tempo, não estava inteiramente claro o uso que se poderia fazer desses dados – com exceção, talvez, que podemos encontrar anúncios de remédios para pressão alta assim que “gugamos” a busca “reduzir pressão arterial”

Em 9 de novembro, ficou claro que talvez seja possível muito mais. A empresa por trás da campanha online de Trump – a mesma que havia trabalhado para a “Leave.EU” nas primeiras etapas de sua campanha “Brexit” – era uma empresa de Big Data: Cambridge Analytica.

Para entender o resultado da eleição – e como a comunicação política poderá trabalhar no futuro – precisamos começar com um estranho incidente na Universidade de Cambridge em 2014, no Centro de Psicométrica onde trabalha Kosinski.

[su_note note_color=”#eaf02b” text_color=”#000000″]

Contribua com as atividades do Grupo Kilombagem! Clique aqui para saber como!

[/su_note]

A psicometria, às vezes também chamada de psicografia, tem como foco medir os traços psicológicos, como a personalidade. Na década de 1980, duas equipes de psicólogos desenvolveram um modelo que buscava avaliar os seres humanos com base em cinco traços de personalidade, conhecidos como os “Cinco Grandes”. São eles: abertura (o quão aberto você está para novas experiências?), conscenciosidade (quão perfeccionista você é?), extroversão (quão sociável?), afabilidade (quão atencioso e cooperativo?) e neuroticidade (você se aborrece facilmente?). Com base nessas dimensões – conhecidas também como OCEAN (acrônimo para essas características, em inglês) – podemos fazer uma avaliação relativamente precisa do tipo de pessoa à nossa frente. Isso inclui suas necessidades e medos, e como ela tende a se comportar. Os “Cinco Grandes” tornaram-se a técnica padrão da psicometria. Mas, por muito tempo, o problema dessa abordagem era a coleta de dados, porque ela envolvia o preenchimento de um questionário complicado e altamente pessoal. Então surgiu a Internet. E o Facebook. E Kosinski.

Michal Kosinski era um estudante em Varsóvia quando sua vida tomou um rumo diferente, em 2008. Ele foi aceito pela Universidade de Cambridge para fazer seu PhD no Centro de Psicometria, uma das mais antigas instituições desse tipo em todo o mundo. Kosinski uniu-se ao colega de estudos David Stillwell (hoje palestrante na Judge Business School na Universidade de Cambridge). Cerca de um ano antes, Stillwell havia lançado um pequeno aplicativo para Facebook nos tempos em que a plataforma ainda não havia ganhado a dimensão que tem hoje. Seu aplicativo MyPersonality possibilitou aos usuários preencher diversos questionários psicométricos, incluindo um punhado de questões psicológicas do questionário Big Five de personalidade (“Entro em pânico fácil”, “Contradigo os outros”). Com base na avaliação, os usuários recebiam um “perfil de personalidade” – os valores Big Five individuais – e podiam optar por compartilhar seus dados de perfil do Facebook com os pesquisadores.

Kosinski esperava que algumas dezenas de amigos e colegas preenchessem o questionários. Mas centenas, milhares e depois milhões de pessoas revelaram suas mais profundas convicções. De repente, os dois candidatos a doutor possuíam o maior conjunto de dados com pontuações psicométricas abrangentes com perfis do Facebook jamais coletados.

A abordagem que Kosinski e seus colegas desenvolveram nos anos seguintes era na verdade bem simples. Primeiro, eles ofereceram a voluntários questionários em formato de um quiz online. A partir das respostas, os psicólogos calcularam os valores pessoais dos Big Five dos voluntários. A equipe de Kosinski comparou então os resultados com todos os tipos de outros dados online dos voluntários: o que eles “curtiram”, compartilharam ou postaram no Facebook, ou qual gênero, idade, local de residência eles especificaram, por exemplo. Isso permitiu que os pesquisadores ligassem os pontos e fizessem correlações.

Deduções excepcionalmente confiáveis podiam ser projetadas a partir de simples ações online. Por exemplo, homens que “curtiam” a marca de cosméticos MAC tinham um pouco mais de probabilidades de ser gays; um dos melhores indicadores de heterossexualidade era “curtir” Wu-Tang Clan. Seguidores de Lady Gaga eram muito provavelmente extrovertidos, enquanto aqueles que “curtiam” filosofia tendiam a ser introvertidos. Embora cada uma dessas informações seja muito fraca para produzir uma previsão confiável, quando dezenas, centenas ou milhares de dados individuais são combinados, as previsões resultantes tornam-se realmente precisas.

Kosinski e sua equipe refinaram incansavelmente seus modelos. Em 2012, Kosinski provou que, com base numa média de 68 “curtidas” no Facebook, era possível descobrir a cor da pele de um usuário (com 95% de probabilidade de acerto), sua orientação sexual (88%) e sua filiação no partido Democrata ou Republicano (85%). Mas não parou por aí. Inteligência, filiação religiosa, assim como uso de álcool, fumo ou droga podiam todos ser determinados. A partir dos dados era possível deduzir se os pais de alguém eram divorciados.

A precisão com que era possível prever as respostas de um sujeito era exemplo da força de seu modelo. Kosinski continuou a trabalhar nos modelos incessantemente. Logo ele tornou-se capaz de avaliar melhor uma pessoa que a média de seus colegas de trabalho, simplesmente com base em dez “curtidas” do Facebook. Setenta “curtidas” eram suficientes para exceder o que um amigo da pessoa sabia, 150 o que seus pais sabiam, e 300 “curtidas” o que seu parceiro sabia. Mais “curtidas” poderiam até mesmo superar aquilo que uma pessoa pensava saber sobre si mesma. No dia que Kosinski publicou essas descobertas, ele recebeu duas ligações telefônicas. A ameaça de um processo e uma oferta de trabalho. Ambas pelo Facebook.

Poucas semanas depois, as “curtidas” do Facebook tornaram-se privadas por padrão. Antes disso, o conjunto de padrões era de que qualquer um na internet poderia ver as  “curtidas” de cada usuário. Mas a mudança não foi obstáculo para os coletores de dados: enquanto Kosinski sempre pedia o consentimento dos usuários do Facebook, muitos aplicativos e testes online precisam de acesso a dados privados como pré-condição para fazer testes de personalidade. (Qualquer pessoa que queira avaliar-se com base em seus “likes” do Facebook pode fazer isso no site do Kosinski e comparar seus resultados àqueles de um questionário Ocean clássico, como aquele do Centro de Psicometria de Cambridge.

Mas o assunto não tinha apenas a ver com “curtidas” ou mesmo Facebook. Kosinski e sua equipe não podiam atribuir valores Big Five puramente com base em quantas fotos de perfil uma pessoa tem no Facebook, ou quantos contatos eles têm (um bom indicador de extroversão). Mas também revelamos alguma coisa sobre nós mesmos até quando não estamos online. Por exemplo, o sensor de movimento de nosso celular revela o quão rapidamente a gente se move e quão longe viajamos (isso é correlacionado com instabilidade emocional). Nosso smartphone, concluiu Kosinski, é um vasto questionário psicológico que estamos preenchendo constantemente, tanto consciente quanto inconscientemente.

Sobretudo, porém – e isso é chave – ele também trabalha ao contrário: é possível não apenas criar perfis psicológicos a partir de seus dados, mas também usá-los ao contrário para buscar perfis específicos: todos os pais ansiosos, todos os introvertidos raivosos, por exemplo – ou talvez todos os Democratas indecisos? Essencialmente, o que Kosinski inventou foi uma espécie de mecanismo de busca de pessoas. Ele começou a reconhecer o potencial – mas também o perigo inerente – de seu trabalho. Para ele, a internet sempre se pareceu com um presente dos céus. O que ele realmente queria era dar alguma coisa em troca, compartilhar. Se os dados podem ser compartilhados, então por que também não compartilhar tudo o que é construído a partir deles? Era o espírito de toda uma geração, o início de uma nova era, que transcende as limitações do mundo físico. Mas o que aconteceria, imaginou Kosinski, se alguém abusasse de seu mecanismo de busca para manipular pessoas? Ele começou a estampar avisos na maior parte do seu trabalho científico. Sua abordagem, avisava ele próprio, “poderia representar uma ameaça ao bem-estar individual, à liberdade ou até à vida.” Mas ninguém pareceu alcançar o que ele quis dizer.

A esta altura, o início de 2014, Kosinski foi abordado por um jovem professor assistente do departamento de Psicologia chamado Aleksandr Kogan. Disse que estava entrando em contato em nome de uma empresa interessa no método de Kosinski, e queria acesso ao data base de MyPersonality. Kogan não podia revelar o objetivo; estava sob compromisso de sigilo.

No início, Kosinski e sua equipe consideraram a oferta, pois significaria uma boa quantia de dinheiro para o instituto; mas depois ele hesitou. Finalmente, lembra Kosinski, Kogan revelou o nome da empresa: SCL, ou Strategic Communication Laboratories (Laboratórios de Comunicação Estratégica). Kosinski gugou a empresa: “[Somos] a primeira agência de gestão de eleições”, diz em seu site. A SCL oferece marketing baseado em modelos psicológicos. Um de seus focos centrais: influenciar eleições. Influenciar eleições? Perturbado, Kosinski foi clicando as páginas. Que tipo de empresa era essa? E o que essas pessoas estavam planejando?

O que Kosinski não sabia à época: SLC é a mãe de um grupo de empresas. Quem exatamente detém a propriedade da SCL e seus diversos braços não está claro, devido a uma estrutura corporativa enrolada, do tipo visto nos Panama Papers. Algumas ramificações da SCL estiveram envolvidas em eleições da Ucrânia à Nigéria, ajudaramo rei do Nepal contra os rebeldes, ao passo que outros desenvolveram métodos para influenciar a Europa Oriental e cidadãos afegãos em favor da OTAN. E, em 2013, a SCL criou uma subsidiária para participar das eleições dos EUA: Cambridge Analytica.

Kosinski não sabia nada sobre isso tudo, mas sentiu-se desconfortável. “A coisa toda começou a cheirar mal”, recorda-se. Investigando mais, descobriu que Aleksandr Kogan registrara secretamente uma empresa que fazia negócios com a SCL. De acordo com um relato de dezembro 2015 no The Guardian, e com documentos internos da empresa passados a Das Magazin, o que parece é que a SCL aprendeu sobre o método de Kosinski com Kogan.

Kosinski passou a suspeitar que a empresa de Kogan pudesse ter reproduzido a ferramenta de mensuração do Big Five baseada em “likes” do Facebook para vendê-la a essa empresa especializada em influenciar eleições. Ele imediatamente rompeu o contato com Kogan e informou o diretor do instituto, lançando a fagulha de um complicado conflito dentro da universidade. O instituto estava preocupado com sua reputação. Aleksandr Kogan então mudou-se para Cingapura, casou-se e mudou seu nome para Dr. Spectre. Michal Kosinski concluiu seu PhD, recebeu uma oferta de emprego na Universidade de Stanford e mudou-se para os EUA.

Senhor Brexit

O assunto serenou por mais ou menos um ano. Então, em novembro de 2015, a mais radical das duas campanhas Brexit, “Leave.EU”, apoiada por Nigel Farage, anunciou que havia contratado uma empresa de Big Data para sustentar sua campanha online: Cambridge Analytica. A força central da empresa: marketing político inovador – microabordagem –, medindo a personalidade das pessoas a partir de suas pegadas digitais, com base no modelo Ocean.

Então Kosinski recebeu mensagens perguntando o que ele tinha a ver com aquilo – as palavras Cambridge, personalidade e analytics imediatamente levaram mais gente a pensar no pesquisador. Era a primeira vez que ouvia falar da empresa, cujo nome, dizia-se, fazia referência a seus primeiros empregados, pesquisadores daquela universidade. Horrorizado, ele foi olhar no site. Sua metodologia estaria sendo usada em grande escala para fins políticos?

Depois do resultado do Brexit, amigos e conhecidos escreveram para ele: olha só o que você fez. Em todo lugar que ia, Kosinski tinha de explicar que não tinha nada a ver com aquela empresa. (Continua obscuro com que profundidade a Cambridge Analytica estava envolvida na campanha do Brexit. A empresa não discute esses assuntos.)

Houve mais um período de tranquilidade. Mas em 19 de setembro de 2016, pouco mais de um mês antes das eleições dos EUA, os riffs de guitarra do grupo musical Creedence Clearwater Revival, na música“Bad Moon Rising”, encheram o corredor azul escuro do hotel Grand Hyatt, de Nova York. A Cúpula Concordia é uma espécie de Fórum Econômico Mundial em miniatura. Governantes e empresários de todo o mundo haviam sido convidados, entre eles o presidente suíço Johann Schneider-Ammann. “Por favor dêem boas vindas ao palco Alexander Nix, CEO do Cambridge Analytica”, anunciou uma suave voz feminina. Um homem magro num terno escuro caminha para o palco. Um silêncio se instala. Muitos dos presentes sabiam que esse era o novo homem estratégico de Trump. (Um vídeo da apresentação fora postado no You Tube.) Poucas semanas antes, Trump havia postado no Twitter, de forma enigmática, “Logo vocês estarão me chamando de Mr. Brexit”. Observadores políticos tinham mesmo notado algumas semelhanças impressionantes entre a agenda de Trump e a da ala de direita do Brexit. Mas poucos haviam notado a ligação disso com a contratação, por Trump, de uma empresa de marketing chamada Cambridge Analytica.

Até aquele momento, a campanha digital de Trump consistia em mais ou menos uma pessoa: Brad Parscale, um empresário de marketing e fundador de uma start-up fracassada que criou para Trump um site rudimentar por US$ 1.500. Trump, de 70 anos, não é experiente digitalmente – nem mesmo há um computador em sua mesa de trabalho. Trump não manda emails, sua assistente pessoal revelou certa vez. Ela própria havia tentado convencê-lo a ter um smartphone, do qual ele agora manda tweets sem parar.

Hillary Clinton, por outro lado, confiou muito no legado do primeiro “presidente de mídias sociais”, Barack Obama. Ela tinha as listas de endereços do Partido Democrata, trabalhava com analistas de ponta de Big Data do BlueLabs e recebia apoio da Google e DreamWorks. Quando foi anunciado, em junho de 2016, que Trump havia contratado a Cambridge Analytica, o establishment de Washington torceu o nariz. Uns caras estrangeiros vestidos com ternos feitos sob medida que não entendem o país e seu povo? Sério?

“É um privilégio para mim falar com vocês hoje sobre o poder do Big Data e da psicometria no processo eleitoral.” O logo da Cambridge Analytica – um cérebro composto de nós da rede, como um mapa, aparece atrás de Alexander Nix. “Há apenas 18 meses, o senador Cruz era um dos candidatos menos populares”, explica o homem loiro com sotaque britânico perfeito, que perturba os americanos da mesma maneira que um sotaque alemão padrão pode perturbar o povo suíço. “Menos de 40% da população tinha ouvido falar dele”, diz um novo slide. A Cambridge Analytica havia se envolvido na campanha eleitoral havia quase dois anos, inicialmente como consultora para os republicanos Ben Carson e Ted Cruz. Cruz – e mais tarde Trump – tinha sua campanha sustentada pelo discreto bilionário do ramo de software Robert Mercer que, juntamente com sua filha Rebekah, é tido como o maior investidor na Cambridge Analytica.

“Então, como ele fez isso?” Até agora, explica Nix, as campanhas eleitorais eram organizadas com base em conceitos demográficos. “Uma ideia realmente ridícula. A ideia de que todas as mulheres deveriam receber a mesma mensagem em razão do seu gênero – ou todos os afro-americanos por causa de sua raça.” O que Nix quis dizer é que, enquanto as outras campanhas até agora baseavam-se em demografia, a Cambridge Analytica estava usando psicometria.

Embora isso possa ser verdade, o papel de Cambridge Analytica na campanha de Cruz não é inconteste. Em dezembro de 2015 a equipe de Cruz atribuiu seu sucesso crescente ao uso e análise de dados psicológicos. Em Advertising Age, um cliente político disse que a equipe da Cambridge era “como uma roda extra”, mas ainda assim achava excelente seu produto principal, a modelagem de dados de eleitores Cambridge. A campanha pagaria à empresa pelo menos 5,8 milhões de dólares para ajudar a identificar eleitores nas primárias de Iowa — que Cruz venceu, antes de sair da disputa, em maio.

Nix clica e aparece o próximo slide: cinco rostos diferentes, cada um correspondendo a um perfil de personalidade. É o Big Five ou Modelo OCEAN. “Na Cambridge”, disse ele, “somos capazes de formar um modelo para diagnosticar a personalidade de cada um dos adultos dos Estados Unidos.” O auditório está atônito. De acordo com Nix, o sucesso do marketing da Cambridge Analytica baseia-se numa combinação de três elementos: ciência comportamental usando o Modelo OCEAN, análise de Big Data e publicidade segmentada. Publicidade segmentada são comerciais personalizados, alinhados o mais precisamente possível à personalidade de um consumidor individual.

Nix explica candidamente como sua empresa faz isso. Primeiro, a Cambridge Analytica compra dados pessoais de um conjunto de fontes diferentes, como registros de imóveis, dados automotivos, dados de compras, cartões de bônus, associação a clubes, quais revistas você lê, que igrejas frequenta. Nix exibe o logo de corretores de dados que operam globalmente, como a Acxiom e a Experian – nos EUA, quase todos os dados pessoais estão à venda. Por exemplo, se você quer saber onde mulheres judias vivem, pode simplesmente comprar essa informação, inclusive números de telefone. Então, a Cambridge Analytica agrega esses dados com os registros eleitorais do partido Republicano e dados online e calcula um perfil Big Five de personalidade. De repente, as pegadas digitais tornam-se pessoas reais, com medos, necessidades, interesses e endereços residenciais.

A metodologia parece bem semelhante àquela que Michal Kosinski desenvolvera lá atrás. A Cambridge Analytica também usa, disse Nix, “pesquisas nas mídias sociais” e dados do Facebook. E a empresa faz exatamente aquilo para o que Kosinski alertara: “Traçamos o perfil de personalidade de todos os adultos nos Estados Unidos da América – 220 milhões de pessoas”, vangloriou-se Nix.

Ele abre a imagem da tela. “Esse é o painel de bordo que preparamos para a campanha de Cruz.” Surge um centro de controle digital. À esquerda estão diagramas; à direita, um mapa de Iowa, onde Cruz venceu com um número surpreendente de votos nas primárias. No mapa há centenas de milhares de pontos vermelhos e azuis. Nix focaliza o critério: “Republicanos” – os pontos azuis desaparecem; “ainda não convencidos” – mais pontos desaparecem; “homens”, e assim por diante. Finalmente, resta apenas um nome, incluindo idade, endereço, interesses, personalidade e inclinação política.

Como faz a Cambridge Analytica para abordar essa pessoa com a mensagem política adequada?

Nix mostra como eleitores classificados psicometricamente podem ser abordados de diferentes maneiras — com base, por exemplo, no direito à posse de armas, estabelecido na 2ª Emenda à Constituição dos EUA: “Para uma audiência altamente neurótica e consciente sobre ameaça de um assalto – e a política de segurança de uma arma”. Uma imagem à esquerda mostra a mão de um intruso arrebentando uma janela. O lado direito mostra um homem e uma criança em pé num campo ao por do sol, ambos portando armas, claramente atirando em patos: “O contrário, para uma audiência fechada e prazerosa. Pessoas que se importam com tradição, e hábitos, e família.”

Como manter os eleitores de Hilary longe das urnas

As incríveis inconsistências de Trump, sua muito criticada instabilidade, e a série de mensagens contraditórias resultantes —  de repente, tudo isso torna-se um grande trunfo: uma mensagem diferente para cada eleitor. A noção de que Trump agiu como um algoritmo perfeitamente oportunista seguindo a reação da audiência é algo que a matemática Cathy O’Neil observou em agosto de 2016.

“Quase toda mensagem que Trump enunciou foi guiada por dados”, lembra Alexander Nix. No dia do terceiro debate presidencial entre Trump e Hillary, a equipe do candidato testou 175 mil variações diferentes de anúncios publicitários para seus argumentos, de modo a encontrar as versões mais certeiras via Facebook. Em sua maioria, as mensagens diferiam umas das outras por detalhes microscópicos, de modo a apontar para os destinatários com a melhor abordagem psicológica possível: diferentes títulos, cores, legendas, com uma foto ou vídeo. Esta afinação atinge todos, até os menores grupos, explicou Nix numa entrevista. “Podemos nos dirigir a vilarejos ou blocos de apartamentos de modo segmentado. Até mesmo a indivíduos.”

No distrito de Little Haiti, em Miami, por exemplo, a campanha de Trump forneceu aos habitantes notícias sobre o fracasso da Fundação Clinton após o terremoto no Haiti, de modo a evitar que votassem para Hillary. Esse era um dos objetivos: manter potenciais eleitores de Clinton (o que incluía esquerdistas vacilantes, afro-americanos e mulheres jovens) longe das urnas; “inibir” seus votos, como contou à Bloomberg um profissional graduado da campanha semanas antes das eleições. Estes “posts escuros” — propagandas patrocinadas em estilo news-feed na timeline do Facebook, vistos somente por usuários com perfis específicos – incluiam vídeos dirigidos aos afro-americanos em que Hillary refere-se aos homens negros como predadores, por exemplo.

Nix conclui sua palestra na Cúpula Concordia afirmando que a publicidade abrangente tradicional está morta. “Meus filhos certamente não irão nunca, jamais entender esse conceito de comunicação de massa.” Antes de deixar o palco, ele anunciou que, após Cruz abandonar a disputa, a empresa apoiaria um dos candidatos presidenciais que permanecessem.

Não é possível enxergar quão precisamente os norte-americanos estavam sendo alvejados pelas tropas digitais de Trump naquele momento, porque eles atacaram menos na TV mainstream e mais com mensagens personalizadas nas mídias sociais ou na TV digital. E enquanto a equipe de Hillary pensava estar na liderança, com base em projeções demográficas, o jornalista Sasha Issenberg, da Bloomberg, ficou surpreso ao notar, numa visita a Santo Antonio – onde a campanha digital de Trump tinha sua base – que um “segundo quartel-general” estava sendo criado. A equipe da Cambridge Analytica, aparentemente não mais que uma dúzia de pessoas, recebeu US$ 100 mil de Trump em julho, US$ 250 mil em agosto e US$ 5 milhões em setembro. De acordo com Nix, a empresa recebeu ao todo mais de US$ 15 milhões. (A empresa está registrada nos EUA, onde as leis relativas à divulgação de dados pessoais são mais frouxas do que em países da União Europeia. Enquanto as leis europeias de privacidade requerem que a pessoa “opte por sua inclusão” (“opt in”) na divulgação de dados, as dos EUA permitem que dados sejam divulgados, a não ser quando o usuário “opte por sua não inclusão (“opt out”).

As medições foram radicais: desde julho de 2016, os cabos eleitorais de Trump receberam um aplicativo com o qual podiam identificar a visão política e tipo de personalidade dos habitantes de uma residência. Era o mesmo aplicativo usado pelos que fizeram a campanha do Brexit. As equipes de Trump simplesmente tocavam a campainha das casas que o aplicativo classificava como receptivos a suas mensagens. Os cabos eleitorais vinham preparados com orientação para conversas adaptadas ao tipo de personalidade do residente. Por sua vez, os cabos eleitorais alimentavam o aplicativo com as reações, e os novos dados voltavam para os painéis da campanha de Trump.

Nada disso é novo, vale lembrar. Os Democratas fizeram coisas semelhantes, mas não há evidências de que eles se baseavam em perfis psicométricos. A Cambridge Analytica, contudo, dividiu a população dos EUA em 32 tipos de personalidade, e focou em apenas 17 estados. E assim como Kosinski definiu que é um pouco mais provável que homens que gostam de cosméticos MAC sejam gays, a empresa descobriu que a preferência por carros fabricados nos EUA era um grande indicador de um potencial eleitor de Trump. Entre outras coisas, essas descobertas mostravam agora para Trump quais mensagens funcionavam melhor, e onde. A decisão de focalizar em Michigan e Wiscosin nas semanas finais da campanha foi feita com base na análise de dados. O candidato tornou-se um instrumento para implementar um modelo de Big Data.

E agora?

Mas até que ponto os métodos de psicometria influenciaram o resultado da eleição? Questionada, a Cambridge Analytica não quis apresentar nenhuma prova da efetividade de sua campanha. E é bem provável que essa pergunta seja impossível de responder.

E ainda assim há pistas: há o fato do surpreendente crescimento de Ted Cruz durante as primárias. E houve um aumento do número de eleitores nas áreas rurais. Houve a queda do número inicial de votos afro-americanos. O fato de que Trump gastou tão pouco dinheiro pode também ser explicado pela efetividade da propaganda com base na personalidade. Assim como o fato de que ele investiu muito mais em campanha digital do que na TV, comparado com Hillary Clinton. O Facebook mostrou ser a arma final e melhor campanha eleitoral, como explicou Nix e demonstraram os comentários de várias pessoas centrais na campanha de Trump.

Muitas vozes clamaram que os estatísticos perderam a eleição porque suas previsões foram muito fora da curva. Mas, e se os estatísticos tiverem de fato ajudado a vencer a eleição – mas apenas aqueles profissionais que estavam usando o novo método? É uma ironia da história que Trump, que frequentemente reclamou de pesquisas científicas, tenha usado uma abordagem altamente científica em sua campanha.

Outro grande vencedor é a Cambridge Analytica. Steve Bannon, membro do conselho da empresa e ex-presidente executivo do jornal online de direita Breitbart News, foi apontado como principal conselheiro e estrategista-chefe de Donald Trump. Apesar de a Cambridge Analytica não querer comentar sobre rumores de conversações com a primeira ministra britânica Theresa May, Alexander Nix alega que ele está construindo sua base de clientes em todo o mundo, e que foi sondado pela Suíça, Alemanha e Austrália. Sua empresa está fazendo atualmente conferências pela Europa, apresentando seu sucesso nos Estados Unidos. Neste ano, três países centrais da União Europeia têm eleições com partidos populistas de direita renascidos: França, Holanda e Alemanha. O sucesso eleitoral vem num momento oportuno, pois a empresa está se preparando para uma intensa campanha publicitária.

Kosinski observou tudo isso de seu escritório em Stanford. Depois da eleição nos EUA, a universidade está agitada. Kosinski está trabalhando nos desdobramentos da arma mais afiada disponível para um pesquisador: uma análise científica. Juntos com sua colega pesquisadora Sandra Matz, ele conduziu uma série de testes, que logo serão publicados. Os resultados iniciais são alarmantes: o estudo mostra a eficácia de ter como alvo as personalidades, mostrando que marqueteiros podem atrair mais de 63% mais cliques e mais de 1.400 conversões em campanhas publicitárias em tempo real no Facebook quando se combinam produtos e mensagens de marketing a características da personalidade do consumidor. Eles depois demonstraram a possibilidade de ampliar o foco personalizado, ao mostrar que a maioria das páginas de Facebook que promovem produtos ou marcas são afetadas pela personalidade e que grande número de consumidores podem ser definidos precisamente como alvo com base numa única página do Facebook.

Numa declaração posterior à publicação deste artigo na Alemanha, um porta-voz da Cambridge Analytica disse: “A Cambridge Analytica não usa dados do Facebook. Não teve nenhum negócio com o Dr. Michal Kosinski. Não subcontrata pesquisa. Não usa a mesma metodologia. Praticamente não usa psicometria. A Cambridge Analytica não desenvolveu nenhum esforço para desencorajar qualquer norte-americano em participar com seu voto nas eleições presidenciais.”

O mundo foi virado de ponta-cabeça. A Grã Bretanha está saindo da União Europeia, Donald Trump é presidente dos Estados Unidos. E em Stanford, Kosinski, que queria advertir contra o perigo de focar em perfis psicológicos num ambiente político, está mais uma vez recebendo mensagens acusatórias. “Não”, diz Kosinski, em voz baixa, e balançando a cabeça. “Isso não é culpa minha. Não construí a bomba. Eu só mostrei que ela existe.”

[su_note note_color=”#eaf02b” text_color=”#000000″]

Publicado Originalmente no Outras Palavras Comunicação Compartilhada e Pós-capitalismo

[/su_note]

[su_box title=”Mikael Krogerus e Hannes Grassegger” box_color=”#fde99d” title_color=”#000000″]Mikael Krogerus é um escritor freelance para jornais e revistas alemães e suiços. Hannes Grassegger estudou economia em Berlim e Zurique. É editor chefe da revista REPORTAGEN, e freelance para o Süddeutsche Zeitung Magazin, Die Zeit e Das Magazin.[/su_box]

[su_note note_color=”#2c6afe” text_color=”#fdf42d” radius=”2″]

a kilombagem continua!!

[/su_note]

Publicado em 1 comentário

Coletivos: espaços tóxicos para a militância? (2)

É preciso exercitar o raciocínio, voltar-se mais uma vez à análise das práticas sociais, sair do tarefismo e da papagaiada, criar quadros de pensamento e formas de luta que permitam escapar da armadilha identitária. Por Passa Palavra

Leia a primeira parte clicando aqui!

Bradar aos quatro cantos que o identitarismo não oferece respostas não é suficiente, pois não aponta saídas práticas nem leva a outros modos de colocar a questão. A crítica ao identitarismo, enquanto crítica, não tem obrigação alguma de pautar o que quer que seja senão os limites lógicos e práticos daquilo que critica.

Por isto mesmo, como qualquer crítica política, deve ser complementada pela ação política coerente com os resultados da crítica “Mas que tendências apontam alternativas? A questão não diz respeito à perspectiva emocional, mas a uma análise das capacidades de transformação produzidas por meio de cada forma organizativa.

Um caminho, interessante mas ainda individual, é o de lidarmos com nossos próprios egos na atuação em coletivos. Há quem diga que é necessário restringir ao máximo nos coletivos o espaço dos egos e dos problemas pessoais trazidos a tais espaços.

A militância não pode exigir de um coletivo ou de um movimento social que ele abarque a totalidade da vida, que tenha soluções para todos os problemas do cotidiano e preencha todos os vazios existenciais. É preciso ser terno, sempre, mas sem perder a dureza jamais.

Alguns grupos com objetivos mais definidos, por exemplo, tendem a durar mais; por outro lado, eles podem se tornar rasos com facilidade. Paralelamente, surge uma questão: seria preciso haver algum tipo de procedimento de cuidado com a saúde física e mental dos militantes? Isto leva tempo para se construir, e pode terminar completando de outras formas o sequestro de pauta iniciado pelo identitarismo.

Há, por outro lado, quem queira coletivizar a questão. Note-se: coletivizar a questão, não coletivizar a punição.

Pois punir é fácil: basta xingar, “dar um gelo”, botar para fora dos espaços, tudo isto é simples. Complicado mesmo é buscar as raízes do problema: cortar na carne, assumir que cada caso de violência individual expressa um problema sistêmico, o que implica na participação, na busca por soluções coletivas, de todos os sujeitos envolvidos nos casos de violência.Uma analogia pode ajudar na compreensão.

As lutas entre trabalhadores e capitalistas fundam-se na exploração econômica, não raro acompanhada de violência física e psicológica.

Estas lutas tornam-se tanto mais fortes quanto mais trabalhadores de empresas diferentes, de setores econômicos diferentes etc. integram-se num só processo de lutas.

É a superação prática daquele individualismo a que nos referimos anteriormente.

A fragmentação entre os trabalhadores beneficia enormemente os capitalistas, porque podem, então, conter as lutas no espaço de uma empresa, de uma cadeia produtiva ou de um setor econômico, evitando, assim, tocar nos fundamentos da exploração da força de trabalho.

Os efeitos da analogia, entretanto, não são dos melhores. A relação entre capitalistas e trabalhadores é mediada por mercadorias: a força de trabalho no capitalismo é transformada em mercadoria, assim como os bens que os trabalhadores necessitam para viver bem. 

Parece mais simples despersonalizar a questão, objetivá-la, quando há algo que medeie a relação, que – neste caso – dê aos sujeitos a aparência de estarem apartados pelas forças do mercado.

É possível, entretanto, dizer que violências racistas e machistas são mediadas pelo que quer que seja? 

Há algo tão concreto como o salário que se interponha entre o racista ou o machista e sua vítima para que o racismo funcione?

Não; pode-se ser racista ou machista independentemente do assalariamento, de bens etc. É esta aparente imediatidade que dá ao racismo e ao machismo a aparência de problemas individuais, a serem tratados individualmente.

Não é por acaso que as ações punitivas defendidas pela militância identitária como formas de combate ao machismo e ao racismo, especialmente o escracho, todas tenham nos indivíduos seu ponto de referência.

Incapazes de ensaiar quaisquer outras respostas ao machismo e ao racismo que não as formas individualistas que lhe são próprias, a militância identitária, perdida na satisfação de seus próprios egos “empoderados”, sempre que se focam nos companheiros da militância anticapitalista terminam empurrando os alvos deste punitivismo a formas de defesa igualmente individualizadas, quando não a buscar proteção junto ao Estado.

Resultado: combate-se o racista, combate-se o machista, combate-se o indivíduo, enquanto suas práticas e seus fundamentos passam ao largo de qualquer enfrentamento, permanecem em circulação, e produzirão seus efeitos deletérios mais adiante.

Mas o que se quer dizer com isto? Que é preciso exercitar o raciocínio, voltar-se mais uma vez à análise das práticas sociais, sair do tarefismo e da papagaiada, criar quadros de pensamento e formas de luta que permitam escapar desta armadilha.

Um exemplo, no que diz respeito aos quadros de pensamento, que é aquilo a que se pode limitar uma publicação sem ligações orgânicas com qualquer grupo militante.

Racismo e machismo são formas de violência expressivas de um desejo por superioridade, e portanto expressam igualmente o projeto de uma sociedade formada por elementos sociais explicitamente desiguais.

Numa sociedade onde se pretende que todos sejam tratados como iguais; onde se projeta a vigência da igualdade de acesso a cargos e funções públicas, a vigência da igualdade de emitir opinião sobre qualquer assunto nos espaços públicos e nas esferas públicas, e a vigência da submissão de todos às mesmas regras, sem distinções de qualquer tipo; numa tal sociedade, o que há é uma contradição entre este projeto de igualdade e o projeto de desigualdade defendido, explícita ou implicitamente, por racistas e machistas.

Há quem leia o parágrafo anterior e diga que se trata de um exercício cerebrino de raciocínio. Faltou dizer que não há raciocínio político digno de menção que não seja a síntese de tendências históricas.

Veja-se o racismo: ele interessa aos capitalistas, entre outras coisas, porque faz com que um negro trabalhando na mesma função que um branco ganhe menos que este último, estimulando as pressões por baixas salariais; ao mesmo tempo, o racismo estimula entre os negros a busca por maiores qualificações de sua força de trabalho, especialmente por meio da educação técnica ou universitária, e como o negro que superqualificou sua força de trabalho nos quadros de uma sociedade atravessada pelo racismo seguirá ganhando menos que um branco exercendo a mesma função, o resultado é a desvalorização da força de trabalho dos dois.

O mesmo raciocínio aplica-se, em igual situação, ao machismo. Isto sem falar, é claro, do uso da força de trabalho dos negros escravizados recém-libertos como exército industrial de reserva, da desvalorização do trabalho doméstico realizado por mulheres como forma de rebaixar os custos com a reprodução da força de trabalho (e, portanto, aumentando os lucros dos capitalistas nas empresas)…

O racismo, o machismo e outras formas de violência, portanto, não apenas nos formam enquanto sujeitos quando empregues pelos capitalistas para explorar melhor a nós todos que somos trabalhadores; vistos por esta perspectiva, é aos capitalistas que interessa mais a violência racista e machista, muito mais que a nós, trabalhadores.

Se tanto o racismo quanto o machismo nos formam enquanto sujeitos, combatê-los implica, entre outras coisas, formar novamente estes sujeitos, reorientar suas práticas de modo a implementar aquele projeto de igualdade a que nos referimos.

Isto implica trabalhar para esta reorientação em cada caso concreto de acordo com as possibilidades; este trabalho pode, inclusive, ter na ruptura de relações políticas uma consequência última, mas nunca uma ação imediata e prioritária.

Como se vê, não negamos a necessidade de ações disciplinares; o que negamos é o caráter estritamente punitivista e fratricida destas medidas, tal como vêm sendo adotadas nos “coletivos autônomos”.

Note-se: o fato de o racismo e o machismo interessarem mais aos capitalistas não significa que não haja trabalhadores que se beneficiem deles individualmente; o problema está na contradição entre os benefícios imediatos que estes trabalhadores possam eventualmente obter de suas práticas machistas e racistas e os prejuízos causados à classe inteira por estas duas formas de violência.

A explicitação desta contradição é tarefa constante dos coletivos anticapitalistas, não por “empatia” com os oprimidos ou qualquer sentimentalismo do tipo; trata-se da análise mais fria e dura das consequências políticas do racismo e do machismo, e por tal ótica o moralismo e o sentimentalismo característicos da militância identitária não têm vez.

Este é um exercício de interpretação da realidade, entre tantos outros; sua característica distintiva é a desindividualização da questão e a assunção de que se trata de um problema sistêmico do capitalismo.

Neste quadro, torna-se difícil recorrer à particularização de cada caso de violência, pois ele assume de imediato contornos mais amplos que os de cada caso concreto e dificulta a pura e simples punição individualizada.

É preciso reconhecer, entretanto, que o esforço para pautar as violências machista e racista de modo coletivizado pode tirar a pouca energia de grupos pequenos, que nem sempre dispõem da capacidade ou mesmo das competências necessárias para lidar com a questão.

Ainda mais quando se trata do esforço de ultrapassar os limites de cada coletivo e de buscar soluções mais amplas para o problema.

Mas quem disse que nos “coletivos autônomos” são os afetos que pautam as ações? Que eles foram criados para tratar dos problemas afetivos de seus integrantes? Os afetos entram nos coletivos de contrabando mesmo, ora como sequestro de pauta, ora como consequência de problemas mais sérios.

É difícil, por exemplo, organizar qualquer ação onde se trabalha sem envolver algum grau de afetividade e confiança pessoal; os critérios aí, todavia, não passam por qualquer exigência de pureza moral, como se dá nos “coletivos autônomos”.

Tudo se agrava ao constatar-se o sectarismo como traço comum da militância que constrói os tais “coletivos autônomos”.

A vontade de construir no presente aquilo que se quer ver construído no futuro – a tão falada política prefigurativa, importante contraponto à proposta das organizações políticas que pretendem resolver todos os problemas “depois da revolução”, e só depois dela – terminou resultando em que tais prefigurações perderam sua radicalidade e se transformaram em verdadeiras bolhas de convívio, como que sociedades secretas, daquelas cujos membros reconhecem-se mutuamente pela assinatura, pelo aperto de mão ou por algum xibolé.

Sucessivamente derrotados como estamos sendo – por enquanto – nas lutas contra os capitalistas, minguadas que andam nossas vitórias, muitos entre nós voltaram-se à construção de relações sociais novas entre si próprios, com mínima ou nenhuma luta com os capitalistas; os coletivos, sob a influência deste processo, transformam-se de instrumentos de luta em ilhas de pureza militante, tanto mais “puras” quanto mais “desviantes” forem as relações sociais novas que se pretende construir.

Os “coletivos autônomos” são o local que melhor acolhe os desviantes. Precisamente pela aparente radicalidade das relações sociais que pretendem instituir, não são poucos integrantes destes “coletivos” que, pelo acúmulo de rejeições e repressões em outros espaços de convívio somado a problemas sérios de autoestima, têm nos coletivos seus espaços preferenciais de sociabilidade.

É nele que vão desembocar as queixas quanto aos “reaças” e “pelegos” do lado de fora, e é nele onde se enraízam os reforços intergrupais.

Cedo se torna muito difícil, quando não impossível, dialogar com qualquer outra força política, grande ou pequena, “reformista” ou “revolucionária”, especialmente quando estas forças políticas organizam-se em modelos diferentes do solipsismo dos “coletivos autônomos”.

Como o círculo de convivência social desta militância é pequeno; melhor dizendo, como é pequeno o círculo onde suas ideias e práticas são tidas como legítimas, e em certos lugares tais círculos podem corresponder quase totalmente ao tamanho do “coletivo” ou da “cena”, a atuação política destes militantes tende a não mais se dar nos espaços públicos e na esfera pública comuns a toda a sociedade, mas ali naqueles espaços onde há legitimidade.

De companheiros de luta, militantes passam a colegas de terapia. Não é preciso muito para imaginar, num tal cenário, onde a militância vai buscar preferencialmente suas relações sociais, afetivas e sexuais.

De tanto lutar por construir relações novas, o que se conseguiu foi uma forma de narcisismo coletivo, “empoderador” dos narcisismos individuais… e onde há narcisismo, há incompreensão, o avesso da política.

***

É neste cenário que o punitivismo identitário faz a festa.

Não vamos tapar o sol com a peneira: já dissemos que não vamos nos calar diante de perseguições a integrantes do Passa Palavra promovidas pelo feminismo sectário e divisionista que temos denunciado desde há muitos anos, e mais outro caso nos levou a um pronunciamento público.

Diferentemente destas moças, entretanto, não nos interessa caluniar ninguém.

Elas que cuidem de destruir a própria reputação sozinhas; não vamos ajudá-las em seu suicídio político. Interessa-nos, isto sim, aproveitar a oportunidade para elevar o nível do debate e tratar de problemas mais amplos.

O escracho, por exemplo, é uma punição poderosa, assusta, não pela força de quem a pratica, mas pela fraqueza de quem a sofre.

Trata-se do assassinato moral de um sujeito em determinado meio, ou melhor dizendo, exatamente no meio onde se dão suas relações sociais e afetivas mais importantes.

Versão rediviva da morte civil prevista nas Ordenações Filipinas, o escracho padece do mesmo problema: só funciona lá onde o sujeito apenado submete-se sem mais ao poder e à influência de quem condena.

Quanto mais sectário é quem milita, quanto menos participa de outros grupos sociais além do “coletivo autônomo”, quanto mais depende do “coletivo autônomo” para obter legitimação política e afetiva, mais vulnerável está aos escrachos, aos isolamentos políticos, às chantagens emocionais.

Inversamente, quanto maior a capacidade de articulação política de quem milita, quanto mais conhece e se faz conhecer, quanto mais supera a prisão solipsista e fragmentária do “coletivo” (mesmo tendo-o como referência), menor é a chance de se deixar vitimar pelo escracho.

Em suma: quer livrar-se de um escracho? Ignore-o. Pior.

Os escrachos costumam ser escudados na mais pura covardia, principalmente quando são empregues como forma de eliminar alguém de determinado espaço político com base em boatos e disse me disse.

Denúncias bem fundamentadas de fatos abjetos como surras, estupros e outras formas de violência costumam causar escândalo público, e são feitas em aberto.

Mesmo considerando a tendência das autoridades policiais de fazer pouco do problema, de insinuar responsabilidade por parte da vítima etc., feliz ou infelizmente é nas delegacias que casos realmente graves vão parar.

Quando as provas não são seguras – ou pior, quando os fatos nunca existiram – tem início um trabalho sujo de calúnia, difamação e injúria, típico de quem optou por esta forma tipicamente individualista e particularmente mesquinha de ação política.

Nos meios onde se pode registrar de alguma maneira as provas de calúnia, difamação ou injúria, como redes sociais e correios eletrônicos, nenhuma denúncia é feita de forma explícita; brotam, por outro lado, indiretas e referências veladas, que remetem a conversas e acordos feitos em espaços informais presenciais – por isto mesmo torna-se muito difícil, quando não impossível, qualquer forma de contestação ou contraditório das denúncias.

Reais ou não os fatos, as denúncias só são feitas em grupos de amigos, em especial naqueles onde se supõe haver “confiança política” – não por acaso, trata-se de espaços onde militam pessoas ligadas aos “coletivos autônomos” em comum à pessoa denunciada, para que reverberem também nestes espaços.

Construída deste modo a denúncia, com todas as evidências de quem recebeu boa orientação jurídica para não deixar rastros, pouco importa se ela é verdadeira ou não; está preparada uma armadilha capaz de destruir a reputação de qualquer militante sem qualquer possibilidade de defesa.

Que tipo de sociedade uma tal prática prefigura?

***

O tipo de “solipsismo coletivo” que, numa perspectiva puramente individualista e burguesa, se poderia atribuir pura e tão somente a alguma “imaturidade”, quando visto de um ponto de vista simultaneamente político e sociológico mostra-se um potentíssimo instrumento de controle social.

Uma geração inteira de militantes arrisca envenenar-se nos coletivos, tornados espaços tóxicos para a militância, se não for capaz de reverter as tendências apontadas.

Por Passa Palavra

Conheça a Loja Upanji.com.br
Publicado em Deixe um comentário

CONHEÇA O PROJETO CYPHER ROOTS “CELEBRAÇÃO”.

O projeto Cypher Roots lançou no dia 05 fevereiro o vídeoclipe Celebração. A música “Celebração“, é a terceira  publicado do projeto Cypher Roots e tem como idealizador Phanton e a produção é do Indião.
E o responsável pela captação, edição e finalização de  materiais audiovisuais foi Niko HD. O grupo possui um  estilo Reggae Music que mescla o Rap com varias  referências negras.Nesse novo vídeo clipe tem seis  integrantes,Phanton, Buia Kalunga, Sistah Chilli, Daniel Yoruba, Xan P e  Gustavo Dread. Os outros dois trabalhos anteriores #1raizes e  #2 Redenção, tem a mesma pegada da #3 Celebração, vale  apena conferir no YouTube canal do projeto Cypher Roots.

Confira”Celebração“logo abaixo

Publicado em Deixe um comentário

Djidiu- a herança do ouvido: poemas para sacudir mentes e iluminar caminhos

Djidiu – a herança do ouvido é uma obra que nos chama, de imediato, a atenção pelo instigante título. Djidiu, como explicado em nota no livro, “é um contador de histórias, um recipiente e um difusor da memória coletiva. Intérpretes e clarividentes, os Djidius, são porta-vozes dos sem voz, autênticas bibliotecas ambulantes”. Guardadores de memórias ancestrais, os Djidius são também conhecidos como Djelis ou Griots.

Djidiu é uma coletânea de poemas na qual os autores dos textos versejam sobre a experiência negra em Portugal. A obra é resultado de uma iniciativa da Afrolis que, entre março de 2016 a março de 2017, mobilizou pessoas negras a participarem “ativamente na produção e divulgação de textos da sua própria autoria ou de autores que considerassem relevantes”. Djidiu é, portanto, um livro atravessado por “recordações e movimentos” de poetas e escritores(as) negros(as) que ecoam as suas vozes num território português, marcado por profundas desigualdades raciais, onde não se pode mais fugir de um debate sério sobre o racismo, consequência das ações dos movimentos negros cada vez mais atuantes no país.

A coletânea reúne 56 poemas, produzidos pelos (as) poetas e escritores (as): Apolo De Carvalho, Carla Fernandes, Carla Lima, Carlos Graça, Cristina Carlos, Danilson Pires, Dário Sambo, luZGomes e Té Abipiquerst Té. De origens distintas, esses(as) autores(as) compartilham a experiência de ser um corpo negro diaspórico, caminhando e descaminhando em solo lusitano. Nos versos-protestos de Djidiu, a vivência negra é explorada através de diversos temas: família, amor, tradição, representatividade, apropriação cultural, entre tantos outros. Dentre esses temas, destaca-se a presença insistente, quiçá onipresença, da violência racial que invade ferozmente a vida das pessoas negras.

 

A iniciativa de uma obra como Djidiu faz-nos lembrar algumas ações semelhantes no contexto brasileiro. Podemos destacar, por exemplo, a coletânea Cadernos Negros, publicação fundamental para a divulgação da literatura negra produzida no Brasil. O primeiro volume dos Cadernos Negrossurgiu no ano de 1978, contemplando a produção de oito poetas. A partir de 1980, autores que organizavam a antologia criaram o grupo Quilombhoje-Literatura que é, desde então, responsável pela edição e publicação dos Cadernos. É importante ressaltar que, desde a sua primeira edição, em 1978, os Cadernos Negros são publicados ininterruptamente, revezando entre coletâneas de poemas e contos. Em dezembro de 2017 foi publicado o quadragésimo volume dos Cadernos.

 

De certa forma, Djidiu pode ser considerado os Cadernos Negros de Portugal. Em ambas as coletâneas, a escrita surge como uma ferramenta de denúncia. Uma maneira das pessoas negras, marcadas pela violência do racismo, tentarem amenizar a dor de uma ferida de difícil cicatrização. Pois, como bem afirmou Cuti, um dos idealizadores dos Cadernos, “a visão luminosa dos poetas é fundamental, pois ao longo do caminho sabem produzir com palavras o mais nutritivo alimento para o espírito”.

Um número relevante de escritoras e escritores afro-brasileiros, que alcançaram certo reconhecimento a nível nacional e internacional, publicaram os seus primeiros textos nos Cadernos Negros. É o caso de Conceição Evaristo. Movida por seu compromisso ético e político de escrever sobre a experiência de indivíduos negros, Conceição Evaristo criou o conceito de “escrevivência”. Compreendemos “escrevivência” como essa necessidade de escritoras e escritores afrodescendentes escreverem sobre as suas vivências e das pessoas de seu grupo, talvez, escrever para viver.  Essas “escrevivências” inscritas por Conceição Evaristo em terras brasilis se manifestam como “heranças de ouvido” em terras portuguesas.

O lamento de vozes que foram silenciadas durante séculos ecoa nos versos politicamente comprometidos dessas “heranças escrevividas” de Djidiu. Essa obra pioneira em Portugal é uma tentativa de registrar memórias dentro de um tempo e espaço. Memórias que ecoam em versos e reversos, mesmo quando tudo parece silêncio. Djidiu surge como um gesto de insubordinação e de resiliência de indivíduos que não aceitam mais o silêncio imposto, e, num gesto de coragem, escancaram a sua dor, buscando estabelecer um diálogo franco e urgente. Nesse diálogo, verdades inconvenientes são expostas, pois esses corpos que carregam a herança ancestral de violências genocidas e etnocidas, não mais se submetem a fazer a indigesta dieta de engolir sapos, arrancando a máscara de Anastácia.

Djidiu – a herança do ouvido é uma obra que busca fazer alguns escurecimentos necessários, enegrecendo as páginas anêmicas de uma história que já não pode ser única.  Ao trazer “doze formas mais uma de se falar da experiência negra em Portugal”, Djidiu deixa a mensagem de que pensar sobre as suas experiências não deve ser um problema exclusivo da negritude e de outros grupos historicamente oprimidos. Djidiu convida a branquitude a pensar sobre os seus privilégios, em sua sociedade racista, refletindo sobre a sua disposição (se é que está mesmo disposta) em contribuir no processo de desmontagem desse sistema de opressão.

O combate ao racismo não é, portanto, um problema apenas das pessoas negras, mas um problema que a sociedade portuguesa, assim como a brasileira, precisa enfrentar e criar estratégias eficientes para tentar resolver. Ouvir e, de fato, escutar as vivências compartilhadas por quem sofre o racismo na pele, sem tentar minimizar a dor provocada por essa ferida, talvez seja um primeiro passo nesse processo de construção de uma sociedade equitativa. Utopia? Alguns podem dizer. Utopia urgente e necessária, dizem as vozes ressonantes de Djidiu, certas de que a poesia “bem situada no tempo, pode ferir ou curar, derrubar ou levantar, matar ou salvar; pode sacudir as mentes e incendiar as multidões”.

por Francy Silva

Publicado Originalmente no site Buala Djidiu- a herança do ouvido: poemas para sacudir mentes e iluminar caminhos

Publicado em Deixe um comentário

Pequeno guia sobre o Software Livre >1

[su_note note_color=”#fef718″ text_color=”#000000″]

Publicado Originalmente no Outras Palavras Comunicação Compartilhada e Pós-capitalismo

[/su_note]

Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas, detalhe (1490/1510)


Uma disputa crucial marca o século 21. A circulação de ideias é um direito de todos ou deve se dar segundo a lógica dos mercados? Um ensaio sobre esta encruzilhada — com ênfase no campo crucial da informática

Por Fátima Conti  | Imagem: Hieronymus BoschO Jardim das Delícias Terrenas, detalhe (1490/1510)

Parte 1 de 3

Resumo

Um pressuposto deste ensaio didático: inclusão digital deve significar, antes de tudo, melhorar as condições de vida de uma comunidade com ajuda da tecnologia. Então, a informática e a internet devem ser ferramentas de libertação do indivíduo, de autonomia do cidadão, que deve saber usar o equipamento e os programas tanto em benefício próprio como coletivo.

Entretanto, vivemos em uma sociedade na qual leis de diversos países protegem monopólios, como copyright e patentes, inibindo:

  • o uso de bens culturais, como livros, músicas, quadros…, que hoje são arquivos e programas computacionais;
  • a criatividade;
  • a liberdade de expressão;
  • o acesso à informação e ao conhecimento.

O desconhecimento e o desleixo das pessoas quanto ao uso de seus equipamentos computacionais e programas permitiu, sob o ambiente da internet, a implantação de um modelo de negócios de vigilância contínua, que tornou usual o envio de propagandas personalizadas. Mas não se trata só de um desleixo pessoal: equipamentos, sistemas e programas, especialmente os privativos (proprietários), são destinados ao controle e vigilância de seus usuários.


Mais ainda: o ensino no Brasil, inclusive na universidade, é defensor e perpetuador desse sistema e seus monopólios, grandes corporações que controlam o mundo e que detém todo o poder, seja financeiro, seja político.

Neste ensaio mostra-se um panorama desta situação que opõe o desejo da inclusão digital ao interesse  e controle dos monopólios, estratégias e atitudes possíveis para enfrentá-los e as possibilidades abertas pelo uso dos softwares livres.

Software Livre – O início

Para entender o que é Software Livre, deve-se pensar em “liberdade de expressão”, não em “almoço grátis”. Software Livre é uma questão de liberdade, não de preço.

Essa ideia, que hoje se espalha por todo o mundo, atingindo outros tipos de conteúdos, como os artísticos, literários, musicais, científicos e jornalísticos, é parte do movimento pela cultura livre, “free culture”, que abrange todos os produtos culturais, como textos, imagens, vídeos (livros, fotografias, pinturas, e filmes) pregando a reprodução e modificação livres por e para qualquer usuário.

Entretanto, no início dos anos 1980, quase todos os programas existentes passaram a ser privativos (proprietários), ou seja, o conceito de propriedade invadiu a área de tecnologia. E, o que é pior, confundiu a propriedade de coisas abstratas com as concretas.

Para entender o que ocorreu é necessário saber um pouquinho de informática.

código fonte é o próprio programa, ou seja, é uma estrutura lógica com uma sequência de comandos, em alguma linguagem de programação, criada por uma ou mais pessoas.

Ele é diferente do código binário, aquilo que o equipamento efetivamente lê, ou seja, uma enorme sequência de zeros e uns, que, para nós, é incompreensível.

Assim, quando se diz que o código de um programa é livre, não se está falando de preços, mas que o código fonte está disponível, que outros desenvolvedores poderão executar, conhecer, estudar, adaptar, corrigir, copiar, modificar, melhorar e redistribuir o código do programa.

O principal expoente desse movimento é o programador Richard Mathew Stallman, que trabalhava no laboratório de inteligência artificial do MIT no início da década de 1980. Ele abandonou seu emprego ao constatar que as licenças de direitos autorais que negavam acesso ao código fonte dos programas (para impedir cópias) também restringiam liberdades que os programadores sempre haviam usufruído, antes do mundo da informática ser dominado por grandes empresas: a liberdade de executar os programas sem restrições, a liberdade de conhecer e modificar os programas e a liberdade de redistribuir esses programas na forma original ou modificada entre os amigos e a comunidade.

Stallman iniciou um movimento para produzir um sistema operacional e programas que resguardassem aquelas liberdades que os programadores conheciam antes das restrições empresariais. Esta iniciativa resultou na criação da Free Software Foundation (FSF), Fundação para o Software Livre, que foi fundamentada juridicamente com a redação da GNU General Public License (Licença Pública Geral do GNU). O GNU é um sistema operacional totalmente composto por software livre – isto é, que respeita a liberdade dos usuários. Foi concebido por Stallman em 1983,

A filosofia da FSF repousa no entendimento que aquele que produz a informação recebe muito mais informação do que cria. Isso se torna óbvio quando se constata que cada programador cria algumas linhas em cima de milhões de linhas de código que outros já produziram antes. A Fundação tem como objetivo não só romper monopólios, mas fazê-lo por meio de um empreendimento coletivo e, em grande parte, voluntário.

Software Livre e Open Source

Em resumo, o software livre é tanto uma filosofia como um modelo de licenciamento. O software livre não é software grátis, pois preço não é a questão. A liberdade é o que importa.

O conceito “código aberto” (em inglês “Open Source”) é outra coisa. Foi criado pela OSI (Open Source Initiative). Trata-se de software que produzido colaborativamente, mas que produz programas cujo código não fica aberto.

Portanto, o Software Livre é um movimento pela liberdade dos usuários, como uma questão de justiça. Já o software livre é um caminho para uma nova sociedade, pois é profundamente transformador. Não só promove as liberdades, a criação, a inovação, mas estabelece condições de igualdade para a produção: o código deixa de ser um patrimônio exclusivo de poucos e passa a ser algo coletivo, a partir do qual todos podem produzir.

O conceito “Código Aberto” é utilizado pela OSI sob um ponto de vista técnico, bastante pragmático, que evita questões éticas e ressalta não as liberdades oferecidas pela licença, mas a alta qualidade técnica do software. O pessoal do código aberto, portanto, praticamente não se interessa por mudanças sociais e se preocupa com venda e preço, e não com liberdade.

É importante lembrar que o patrimônio de uma empresa livre não é um código sobre o qual mantenha controle. É a capacidade intelectual de seus funcionários, o bom atendimento que oferece aos seus clientes e a qualidade de seu trabalho.

Assim, há pontos comuns entre Software Livre e Open Source, o que possibilita muita confusão e, até, trabalho conjunto em muitos projetos. Algumas grandes empresas como IBM, HP, Intel e Dell têm investido no software de código aberto, juntando esforços para a criação do Open Source Development Lab (OSDL), instituição destinada à criação de tecnologias de código aberto.

O controle do usuário – a dependência

Assim, Software Livre trata de liberdade.

Mas, liberdade para quem?

Para todo e qualquer usuário.

É importante notar que quanto mais o usuário opera com um software comercial, quanto mais cria arquivos nesse programa, mais dependente fica dele, e, se desejar substituí-lo, maior se tornará o custo de substituição, o que reforça a dependência.

Por exemplo, imagine alguém que publicou um artigo, um post ou uma poesia por semana em um blog. E que foi guardando todos os arquivos criados em um programa editor de texto, pois sempre os consulta e utiliza. E que, subitamente, esse programa muda de versão. E que os arquivos criados não sejam mais abertos, sob a nova versão do programa.

O que aconteceria? O autor não teria mais acesso a seus próprios textos? Como poderia continuar seus estudos, seu trabalho?

É importante notar que, quanto mais se utiliza um programa, mais a pessoa fica dependente daquele sistema e daquele programa.

Portanto, há uma relação de poder entre o usuário e o fornecedor de software. E o usuário pode até ser criminalizado se decidir romper com esta relação, devido às leis sobre propriedade intelectual.

O movimento iniciado por Stallman para produzir um sistema operacional e programas livres teve e tem como objetivos:

  • empoderar o usuário;
  • resguardar aquelas liberdades que os programadores conheciam antes da imposição das restrições empresariais;
  • romper com a submissão dos usuários a um fornecedor de software.

Foi um evento histórico: em 27 se setembro de 1983, utilizando um e-mail, Stallman anunciou o Projeto GNU, “Gnu is not Unix”, e começou a escrever o sistema, a partir dos utilitários.

Propriedade privada ou intelectual

Antes de começar a ler esta parte, assista o vídeo abaixo, é curtinho, divertido e instrutivo, e lhe introduzirá no universo do Copyrght.

Direitos autorais: para sempre menos um dia

Até a Idade Média havia um enorme controle da divulgação de ideias, pois o número de cópias de cada obra era pequeno e limitado pelo trabalho manual, longo e tedioso , dos copistas, em geral em mosteiros.

Perto de 1455, as contribuições do inventor alemão Gutemberg para a tecnologia da impressão e tipografia começaram a mudar essa realidade.

A iminente maior democratização da circulação da informação, com os livros impressos, fez com que soberanos se sentissem ameaçados.

Logo concederam aos donos dos meios de produção dos livros o monopólio da comercialização de todos os títulos que editassem. Em contrapartida, os editores vigiariam para não fossem editados conteúdos desfavoráveis à ordem vigente, inclusive exercendo censura.

Esse privilégio, portanto, não tinha como objetivo dar qualquer direito ao escritor da obra, mas apenas garantir o monopólio de sua reprodução, daí sobrevindo o termo Copyright, ou seja, o direito de cópia.

Apenas na Revolução Francesa foi reconhecido o direito do autor sobre a sua criação. Em 1777 foi estabelecida uma distinção na natureza jurídica entre autor e editor: ao “trabalho intelectual” do primeiro foi dado o privilégio de “propriedade intelectual”, ao passo que o privilégio do editor foi uma “liberalidade”.

Até a virada do século XIX para o XX as leis referiam-se apenas à reprodução de textos em papel e a material impresso, já que havia preocupação em regular o uso de um único tipo de máquina, a impressora.

No entanto, por volta de 1900, para garantir lucros com as novas tecnologias que estavam surgindo, o Copyright foi ampliado de modo que abrangesse quaisquer obras, independentemente do meio físico em que eram distribuídas. Assim, foram desenvolvidas regras de direitos de cópia específicas para cada novo meio: filmes, fotos, discos e rádio.

Aqui é importante considerar outro tema: propriedade, algo que é muito bem definido juridicamente.

Note-se que alguém que ganhou/comprou algo está garantindo para si a utilização de um bem. Por exemplo, se alguém possui uma caneta, a propriedade privada desse objeto garante ao dono o acesso a ele quando bem entender e o seu uso da forma que desejar, inclusive de poder vendê-la, doá-la ou emprestá-la. Atenção especial deve ser dada à exclusividade de uso que muito interessa ao proprietário, pois, se a caneta for compartilhada com alguém, no momento em que a segunda pessoa a estiver usando, a primeira estaria privada do uso.

Evidentemente essa descrição aplica-se para os bens materiais, especialmente os bens de uso.

Há muito tempo sabe-se que a propriedade intelectual é bastante diferente. Por exemplo, uma ideia só pode ser possuída se não for divulgada. E, quando o é, a ideia passa a pertencer a todos que a entenderam. E o mais interessante é que, mesmo então, a pessoa que a formulou nada perde com isso. Aliás, em geral acontece o contrário, quanto mais pessoas conhecerem seus textos, sua arte, sua música, maior será a boa reputação que o autor ganhará na sociedade.

É importante notar que o uso compartilhado de ideias, de bens imateriais é simultâneo.

Um escritor ou um compositor não produz sua obra para o seu próprio deleite; quanto maior for o número de pessoas que tomarem conhecimento de suas criações, mais o autor terá seu talento reconhecido.

Portanto, canções, poemas, invenções e ideias não têm a mesma natureza dos objetos materiais. Efetivamente, cultura não é (era) mercadoria.

Exatamente porque as ideias têm essa característica de, uma vez expressas, poderem ser assimiladas por todos que as recebem, surgiu o conceito de que deveriam ser protegidas de alguma maneira, para que seus criadores não ficassem desestimulados em criá-las e expressá-las.

Foi proposto que aquele que cria a ideia deve ter direito sobre ela, de modo que quando outra pessoa a utilize ou a receba, o autor tenha uma recompensa material. Ou seja, o direito autoral concedia ao autor um monopólio sobre a exploração comercial de sua obra, de modo que aquele que desejasse ler um livro, usar alguma invenção, ou ouvir uma música teria que pagar ao autor.

monopólio é a exploração, sem concorrência, de um negócio ou indústria, em virtude de um privilégio. No caso de bens intelectuais, este privilégio em geral expressar num período de tempo que garante ao autor ou proprietário da obra ser o único fabricante/vendedor de um livro, música, medicamento, programa, jogo…

Na constituição dos EUA de 1787 já estava prevista a promoção do progresso das ciências e das artes assegurando aos autores e inventores, por um período de tempo limitado, o direito exclusivo aos seus escritos e descobertas, com o objetivo de assegurar a eles a justa recompensa pelo seu esforço e talento. A meta final era a da promoção do bem comum, do incentivo à criação e disseminação cultura, das artes e da atividade intelectual em geral, beneficiando toda a sociedade.

Evidentemente, se a duração do direito ao monopólio for longa demais, pode-se dificultar o aproveitamento social da criação.

Portanto, era necessário alcançar um ponto de equilíbrio entre o estímulo à criação e o interesse social em usufruir o resultado da criação.

Em 1710, a primeira lei inglesa sobre direitos autorais deu ao criador o direito exclusivo sobre um livro por 14 anos, com direito a renovação por mais 14 anos, desde que o autor estivesse vivo quando o período inicial expirasse.

Curioso é notar que as práticas da “propriedade intelectual” são em certo sentido contrárias ao espírito original do capitalismo concorrencial. Enquanto o capitalismo dos primórdios pressupunha concorrência, as patentes, a propriedade intelectual, o direito de cópia ou marcas, são monopólios garantidos pelo Estado. Os primeiros por um período de tempo determinado e as marcas por um período indeterminado.

Exploração comercial monopolista pelas distribuidoras

É comum pensarmos que quando a propriedade intelectual foi concebida, sua finalidade era conceder ao autor os ganhos exclusivos sobre a exploração de cópias da obra, sem concorrência.

Entretanto, os autores poderiam mesmo auferir lucro?

Seria muito difícil, com raras exceções. Pois, diferentemente do trabalho manual que modifica a matéria prima, e produz alterações nos objetos, aumentando seu “valor de uso”, o trabalho intelectual não possui necessariamente “valor de uso” vinculado a um objeto que possa ser vendido, já que as ideias não são materiais.

E, se uma ideia for reproduzida verbalmente, não terá “valor de troca”, por maior que seja o seu “valor de uso”, pois não está limitada à produção de um meio material. Isso só acontece se a ideia for copiada em algum meio material, como o papel, por exemplo. Assim, um escritor só poderá explorar plenamente sua obra se também se tornar um editor e confeccionar um objeto vendável, como um livro ou um CD. Ou seja, teria que possuir uma editora, com todos os seus equipamentos e funcionários. Evidentemente, a quase totalidade dos escritores não quer assumir esse papel e nem tem condições para tal.

Entretanto, a compra de uma obra intelectual implica na aquisição conjunta de um bem e de serviços, ou seja, um meio material (por exemplo: o papel) sob o qual é realizado um serviço (a cópia). Após a invenção da imprensa, houve grande diminuição de custos dos serviços de cópia, o que obrigou os autores a alienarem seu “trabalho intelectual” aos editores, os detentores dos meios de produção que, em contrapartida, exigiram dos autores a concessão do monopólio da distribuição das obras.

Assim, embora o “trabalho intelectual” tenha um grande “valor de uso” em qualquer sociedade, seu “valor de troca” será sempre determinado por um produto (exemplos: o livro, o CD) em que estão embutidos serviços (exemplos: cópia manual, cópia impressa).

O que fizeram os autores ao longo da história? Alienarem seu “trabalho intelectual” aos editores, os detentores dos meios de produção que, em contrapartida, exigiram dos autores a concessão do monopólio da distribuição das obras.

O autor acabou cedendo seus direitos de exploração, sem concorrência, sendo obrigado a dividir os lucros de sua criação. Nessa relação, o elo fraco é exatamente o autor, já que a distribuição de livros, discos e outros produtos sempre foi relativamente cara. É preciso, ainda, considerar ainda que há muitos autores e poucas empresas interessadas.

Portanto, as empresas sempre tiveram muito poder para acertar as condições contratuais e geralmente conseguem uma exorbitante participação nos lucros provenientes da exploração comercial na venda de cópias da obra. Evidentemente, pelo fato do monopólio de exploração comercial ser cedido integralmente para as empresas, não são os autores os que mais se beneficiam. Quem efetivamente lucra são essas distribuidoras, as grandes empresas da indústria cultural.

A cópia doméstica

Uma época áurea para o Copyright, alongou-se por quase 150 anos, entre 1800 e 1940, pois as atividade de ler e imprimir um livro exigiam equipamentos completamente diferentes.

O cenário começou a mudar em 1944, quando as tropas americanas libertaram a cidade de Luxemburgo e lá encontraram uma máquina alemã capaz de gravar som em fitas magnéticas. Esse gravador cassete trazia algo realmente novo: integrava em um único dispositivo a capacidade de audição e de gravação, ou seja, a possibilidade de efetuar cópias.

Os computadores na verdade seguiram esse mesmo caminho. Eles são máquinas que se destinam à cópia. Isto é, permitem que possamos copiar qualquer tipo de arquivo digitalizado, independentemente de sua natureza, sejam eles textos, imagens animadas ou não, sons, vídeos, planilhas…

O estabelecimento da Internet possibilitou algo que não existia antes do século XX, os diversos meios de gravação atualmente são possíveis em um único meio. E a distância física desses conteúdos deixou de ser importante.

Com a utilização de computadores, as funções de publicação, divulgação e distribuição de obras intelectuais, que geralmente eram realizadas por editoras, produtoras e gravadoras, puderam ser realizadas pelo próprio autor em páginas pessoais. E de maneira mais rápida e menos burocrática.

Assim, qualquer pessoa que possua um computador conectado à Internet pode ter acesso a livros, músicas, filmes e programas produzidos por autores em qualquer lugar do planeta e em muito pouco tempo pode copiar uma obra para seu computador. Isso acontece a um custo bastante baixo, já que

  • o próprio usuário localiza a obra desejada e realiza a cópia;
  • o sistema de cópia é eficiente, produzindo exemplares com boa qualidade;
  • o custo de reprodução de coleções de livros e músicas tornou-se praticamente insignificante, permitindo que qualquer pessoa possua uma grande biblioteca/discoteca pessoal em formato digital;
  • o meio material que hospeda a obra é um dispositivo de armazenamento magnético (disco rígido, pendrive) ou ótico (CDs, DVDs), que ficaram cada vez mais baratos.

Aparentemente, as indústrias que se servem do Copyright não acompanharam a evolução da tecnologia e seu modelo de negócios, baseado em uma produção monopolista e venda de cópias, tornou-se insustentável.

Qual a saída encontrada por elas? Separar a simples utilização do processo de gravação: para garantir os seus lucros ao vender cópias, passaram a pressionar por leis que definissem como criminosa qualquer atitude que produza essas mesmas cópias.

Ora, quem conhece minimamente a história do computador e da Internet sabe que essa política é o pior dos pesadelos. Afinal, o que mais é a Internet senão um sistema que permite cópias?

Interessante é notar que as cópias não legítimas aparentemente afetam pouco a indústria. É só lembrar que o próprio sistema operacional Windows, pertencente à poderosa MicroSoft, continua sendo, de longe, o mais utilizado e comprado em todo o mundo, embora também seja o que tem maior número de cópias domésticas.

E é claro que tudo isso não significa a eliminação de editoras, produtoras e gravadoras. Basta notar que a digitalização de obras intelectuais não aboliu a impressão/ gravação de livros e discos. Por exemplo, livros que já se encontram sob domínio público continuam sendo impressos embora sejam encontrados facilmente na Internet. As editoras continuam imprimindo-os, inclusive em edições ilustradas e luxuosas.

É importante lembrar que Domínio público é o conjunto de obras culturais, de tecnologia ou de informação (livros, artigos, obras musicais, programas computacionais, invenções e outros) com livre uso comercial, pois não estão submetidas a direitos patrimoniais exclusivos de alguma pessoa física ou jurídica, ou seja não são mais propriedade de ninguém. Ou seja, a obra entra para o conjunto de conhecimentos da humanidade, como sempre aconteceu, antes desse tipo de legislação ser aprovada.

Portanto, aparentemente, quem copia um arquivo não é necessariamente alguém que compraria aquele filme, vídeo ou música no varejo se não pudesse copiá-lo na Internet. E sempre haverá pessoas interessadas em adquirir as cópias, por comodidade ou por capricho.

Assim, o pioneirismo na exploração de uma ideia garante vantagem em relação à concorrência. Isso fica muito claro quando uma invenção é comercializada. Rapidamente é copiada por empresas concorrentes. Portanto, não são as patentes que garantem os lucros das empresas, mas o pioneirismo.

Contra a cópia doméstica

As indústrias distribuidoras de dispositivos de armazenamento, tais como fitas cassete e CDs sempre tentaram obstruir a difusão de tecnologias de gravação doméstica. E sempre usaram políticos para aprovar leis que as beneficiassem.

Nada, entretanto, é comparável  às medidas internacionais que a Associação da Indústria Discográfica Norte-americana (RIAA), a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), a Motion Picture Association of America (MPAA), a entidade que defende os interesses dos maiores estúdios produtores de filmes dos EUA propuseram em 2008 ao G8 (o então grupo do países mais desenvolvidos e Rússia).
O grupo apoiou desde aquele ano o estabelecimento do ACTA – “Anti-Counterfeiting Trade Agreement”, um Tratado de Comércio Anti Pirataria, negociado sigilosamente entre vários países nos últimos anos.

Se cumprido ao pé da letra, promoveria a existência de um Estado policial digital que deveria obrigar todos os países a tomar severas medidas para coibir ou restringir o uso de equipamentos, formatos de arquivos ou procedimentos que são habitualmente realizados por milhões de pessoas ao redor do planeta, atacando fortemente as liberdades.

O objetivo do ACTA (assinado por 32 países a partir de 2011 mas ainda não em vigor por falta de ratificação) é proteger a propriedade intelectual e exigir que provedores de Internet exercessem vigilância cerrada sobre seus assinantes, ignorando as liberdades individuais, o direito à privacidade e a neutralidade da rede.

Tais medidas dividem-se em três grandes grupos:

  • Alfândegas – funcionários de alfândegas revistariam aparelhos eletrônicos tais como celulares e notebooks em busca de violações de direitos autorais. Se encontrado algum indício o aparelho poderia ser confiscado ou destruído e o portador seria multado.
  • Cooperação dos Provedores – os provedores de serviços à internet deveriam ser obrigados a fornecer informações de seus clientes às autoridades, mesmo sem mandato ou aval da justiça.
  • Entidades de Fiscalização – previa-se a criação de uma agência que implementaria medidas para fiscalizar e regulamentar as medidas que seriam tomadas.

É importante lembrar que há outras exigências que incluiriam até a permissão para que autoridades judiciais pudessem dar continuidade a processos sem, sequer, identificar os processados.

No Brasil, um projeto de lei de 2009, do então senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), apelidado de “AI- 5 Digital”, pretendeu criminalizar práticas cotidianas na Internet, tornar suspeitas as redes P2P (peer-to-peer) e impedir a existência de redes abertas. Ainda mais: objetivava criminalizar o acesso a sistemas informatizados e dispositivos de comunicação sem a autorização do titular da rede.

A proposta representou um salto de qualidade: não se tratava mais de criminalizar a pirataria, que copia em série para posterior venda, mas de impedir até uma cópia única e seu compartilhamento sem objetivos comerciais. Assim, mesmo um consumidor que tivesse adquirido um produto original não poderia fazer uma cópia para backup ou para uso pessoal.

Após grande mobilização social, o projeto foi derrotado. A luta foi o estopim da discussão que originou o Marco Civil da Internet, com o objetivo de resguardar os direitos de cada cidadão, a sua liberdade de expressão e o seu acesso ao conhecimento.

(na segunda parte do ensaio será apresentada a estratégia dos grandes grupos para garantir o máximo lucro para si e o que está em jogo nos projetos do Software Livre em contraposição ao das corporações)

Por Fátima Conti  |

[su_note note_color=”#fef718″ text_color=”#000000″]

Publicado Originalmente no Outras Palavras Comunicação Compartilhada e Pós-capitalismo

[/su_note]

Publicado em Deixe um comentário

Sorria! :) Você está sendo vigiado!

[su_note note_color=”#4b7bfe” text_color=”#000000″]

Publicado Originalmente no Lavits.org – Rede latino-americana de estudos sobre vigilância, tecnologia e sociedade

[/su_note]

Por Fernanda Domiciano, texto publicado originalmente no blog Fique Ciente.

Sorria! 🙂

Quem nunca pesquisou por algum produto na internet e depois teve o feed de notícias do Facebook bombardeado com o produto e lojas onde você pode comprá-lo? Pois é. Este é um dos usos que as grandes corporações fazem das informações que os usuários geram na internet. “Um e-mail escrito no Gmail, por exemplo, é lido pelo Google que vende propaganda direcionada produzida a partir dessas informações. Ou gera um relatório com informações sobre perfis de usuários que depois são usadas para integrarem ações de marketing”, exemplifica o pesquisador, Rafael Evangelista, que participa da Rede Latinoamericana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits).

Evangelista explica que antes mesmo do usuário apertar o enter em uma busca na internet, o servidor já está registrando o que ele escreveu e essa informação será usada pelo dono do servidor, para melhorar a busca e o comércio dessa informação.

O uso comercial das informações é uma das formas de vigilância, mas não é a única. “Os termos de uso que assinamos para podermos usar os serviços dão muita liberdade criativa para que as empresas pesquisem sobre esses dados e vendam análises baseadas neles para terceiros”, afirma. Geralmente, os termos de privacidade – que na maioria das vezes, o usuário sequer lê – falam sobre como as empresas podem acessar os dados dos usuários, ou seja, quais os direitos delas acessarem os dados, mas não como usuário pode se proteger.

[su_note note_color=”#eaf02b” text_color=”#000000″]

Contribua com as atividades do Grupo Kilombagem! Clique aqui para saber como!

[/su_note]

A pesquisadora Marta Kanashiro, uma das fundadoras do Lavits, afirma que todas as tecnologias de comunicação permitem que o usuário seja vigiado, como o uso de celulares, principalmente os smartphones, GPS e televisão – hoje também interligada na internet. “É complicado pensar que todos estão sendo vigiados, mas é possível que sejamos vigiados. Isso pode gerar uma paranoia, mas é importante entender o modelo de negócio das corporações. Podemos ser vigiados, mas não temos que assumir uma postura paranoica ou de desistência”, afirma a pesquisadora em entrevista para a rádio Oxigênio, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O caso Snowden, mostrou uma das consequências do uso desses dados, que é a espionagem política e comercial sobre os cidadãos comuns ou agentes públicos. Edward Snowden, ex-administrador de sistemas da CIA e ex-contratado da NSA, tornou públicos detalhes de vários programas que constituem o sistema de vigilância global da NSA americana.

Criptografia é uma saída??

Evangelista afirma que a espionagem feita por governos, usou de uma infraestrutura privada, das empresas que oferecem os principais serviços da internet. “Outra consequência ainda pouco elaborada, mesmo teoricamente, tem a ver com o lucro que essas empresas têm obtido da exploração econômica desses dados. Há pesquisadores que afirmam que essas empresas são como parasitas, em uma relação simbiótica com os seus usuários. O fato é que ela têm amealhado grandes lucros com os dados, se colocando em grande vantagem no sistema econômico mundial”, afirma.

O que resta então aos usuários para garantir sua privacidade? Resistir! Como? Lutando por regulação e usando ferramentas que podem ajudar a protegê-la, como a navegação anônima e a criptografia. “Algumas pessoas defendem que a privacidade já acabou. Gosto de pensar que ela está sendo disputada por diferentes grupos e que está em transformação. Se diz que acabou, não é necessário nem regular e nem pesquisar sobre o tema. É um tema urgente para regulação e introdução cada vez mais frequentes de ferramentas que podem ser usadas para proteger a privacidade”, afirma Marta.

Pesquisas científicas

Evangelista afirma que cada vez se tem se pesquisado mais sobre vigilância, mas que os trabalhos ainda são poucos, perto da relevância do tema. Na América Latina, os pesquisadores têm trabalhado o assunto na Rede Latinoamericana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade, que está em contato com pesquisadores de centros internacionais.

A rede surgiu em 2009 e tem como meta dar visibilidade aos estudos que tratam de vigilância, tecnologia e sociedade. “Além de dar visibilidade, nossa ideia é reunir em uma rede para integrar diferentes áreas do saber, como arquitetura, geografia, computação, direito, comunicação e ciência sociais. Além disso, é promover o diálogo mais aberto com ativistas, pesquisadores e artistas que vêm tematizando questões entre tecnologia, sociedade e vigilância”, afirma Marta.

[su_note note_color=”#4b7bfe” text_color=”#000000″]

Publicado Originalmente no Lavits.org – Rede latino-americana de estudos sobre vigilância, tecnologia e sociedade

[/su_note]

Publicado em Deixe um comentário

Hora de enfrentar Facebook e Google?

[su_note note_color=”#4b7bfe” text_color=”#000000″]

Publicado Originalmente no Outras Palavras Comunicação Compartilhada e Pós-capitalismo

[/su_note]

Carnaval na Alemanha
Em fevereiro de 2015, participantes do carnaval de Dusseldorf (Alemanha) ironizam, em carro alegórico, o vigilantismo dos gigantes da internet

Punição da União Europeia e estudo independente reconhecem: os dois gigantes querem cercar a internet e eliminar sua diversidade. Mas como frear seu poder?

Por Rafael A. F. Zanatta

Essa semana, Google e Facebook – dois dos maiores gigantes do capitalismo de vigilância contemporâneo – sofreram duros golpes em suas reputações corporativas, abrindo um debate mundial sobre a ética de suas ações e as vulnerabilidades de nossa dependência a esses monopólios da era digital.

Na terça-feira (27/06), a Comissão Europeia impôs uma multa de quase 9 bilhões de reais ao Google por “abuso de posição dominante como motor de busca” e “por dar vantagem ilegal a seu próprio serviço de compras comparativas”. Trata-se da maior punição antitruste a uma única empresa já realizada na Europa.

As investigações foram conduzidas por Margrethe Vestager, comissária da União Europeia para defesa da concorrência (e forte liderança do Partido Social-Liberal da Dinamarca). Ela revelou que o Google situava sistematicamente em lugar destacado seus próprios serviços de compras comparativas, “colocando em lugar pior os serviços de comparação rivais nos resultados de busca”. Para a comissária, o Google “ocupa uma posição dominante nos mercados de busca de internet no Espaço Econômico Europeu” e, com suas práticas de manipulação, “abusou da posição dominante dando a seus próprios serviços uma vantagem ilegal”.

Em um processo de investigação sigiloso, realizado desde 2014, Vestager reuniu um amplo conjunto de provas, incluindo 5,2 terabytes de resultados de busca (1.700 milhões de consultas), experimentos e estudos que demonstravam a visibilidade e o comportamento de consumidores em número de cliques, dados financeiros da Google e seus competidores e o declínio de acessos em websites europeus.

Mapa do acesso a internet no mundo.

Para analistas do Financial Times, a decisão é um divisor de águas na regulação antitruste aplicada à “nova geração de empresas de tecnologia dominantes dos Estados Unidos”. Um terço da receita do Google com publicidade em buscas na Europa vem dos anúncios de compras que foram analisadas pela União Europeia. A decisão, enfim, “abre o coração do mecanismo de busca do Google” e possibilita o debate sobre como outros poderão utilizar seu mecanismo para conseguir uma melhor exposição.

Para quem se recorda do chamado de Richard Sennett de 2013 para “quebrar o poder de mercado do Google”, a decisão reabre um debate sobre monopólios na era digital. “A dominação é real e deve ser combatida”, dizia Sennett, por mais que essas empresas nos pareçam boazinhas.

Na quarta-feira (28/06), o centro independente de investigação ProPublica divulgou documentos internos do Facebook sobre o modo como seus 2 bilhões de usuários têm seus discursos avaliados, passando por filtros de censura sobre o que poderia configurar “discurso de ódio”.

De acordo com a denúncia do ProPublica, os algoritmos – fórmulas matemáticas que executam ações e comandos – do Facebook geram resultados socialmente questionáveis, assegurando os direitos de grupos com posições sociais asseguradas (como homens brancos) e desprotegendo grupos minoritários (crianças negras, por exemplo). Documentos internos vazados da empresa mostram que revisores de conteúdo eram orientados a trabalhar com uma fórmula simples (protected category + attack = hate speech). “Sexo” e “identidade de gênero”, por exemplo, são consideradas categorias protegidas, ao passo que “idade” e “ocupação” não. Como a fórmula exige uma dupla combinação de categorias protegidas (PC + PC = PC), discursos voltados a mulheres motoristas não são considerados de ódio, pois há uma categoria não protegida, que é ocupação (PC + NPC = NPC).

[su_note note_color=”#eaf02b” text_color=”#000000″]

Contribua com as atividades do Grupo Kilombagem! Clique aqui para saber como!

[/su_note]

O simplismo de fórmula matemática do Facebook e a tentativa de “proteger todas as raças e gêneros de forma igual” despertou a crítica de acadêmicos. Denielle Citron, da Universidade de Maryland, argumentou que as regras do Facebook ignoram o espírito do direito e a análise contextual da proteção. O Facebook saiu em defesa própria, alegando que as políticas não possuem resultados perfeitos e que é “difícil regular uma comunidade global”.

Em ensaio para revista Wired, Emily Dreyfuss analisou a denúncia da ProPublica e argumentou que o problema é maior é que o Facebook é “muito grande para ser deletado”. Ao conectar um quatro da humanidade, as pessoas que precisam de uma plataforma para expressão não são capazes de sair – mesmo se forem alvos de censuras arbitrárias ou desproteções, como o caso dos algoritmos de “discurso de ódio”.

Isso leva a uma situação paradoxal. Ativistas em defesa da privacidade e lideranças do movimento negro – que atacam práticas realizadas pelo Facebook, como coleta maciça de dados e tratamento tecnológico desigual para brancos e negros – dependem do Facebook para compartilhar informação, pois as perdas são muito grandes ao deletar sua conta e isolar-se da rede de Zuckerberg. “São poucos os que podem se dar ao luxo de abandonar o Facebook e utilizar outras redes”, afirma Dreyfuss.

O Facebook tem cerca de 1,94 bilhões de usuários em todo o planeta…

Renata Mielli, ativista integrante da Coalizão Direitos na Redeem ensaio para o Mídia Ninja nesta quinta-feira (29/06), foi perspicaz no diagnóstico: “O Facebook está sugando a internet para dentro de sua timeline”. Ele é o “maior monopólio privado de comunicação do mundo”, colocando em xeque as bases de nossa democracia.

Retomamos, assim, à grande provocação de Richard Sennett: se sabemos que esses gigantes devem ser quebrados e se estamos cientes dos aspectos prejudiciais desses monopólios sociais, o que podemos fazer?

The Economistem matéria de capa no mês de maio1, surpreendeu os progressistas ao oferecer uma crítica ao poder do Google e Facebook. A revista inglesa argumentou que é necessário “repensar radicalmente” os instrumentos antitrustes para os gigantes de coleta de dados (Google e Facebook), pois os reguladores ainda estão presos a conceitos de era industrial, ao passo que os instrumentos de análise devem ser voltados a empresas de tecnologia focadas em dados.

Economist também propôs duas ideias embrionárias: aumentar a transparência sobre como os dados pessoais são coletados e monetizados (aumentando poder de barganha dos “fornecedores” – ou seja, nós mesmos) e redefinir conceitos jurídicos aplicáveis a essa nova indústria, tratando os data vaults (bancos de dados modelados para fornecer armazenamento histórico de longo prazo) como “infraestrutura pública”, forçando o compartilhamento de dados para estimular a competição.

Seriam ideias viáveis? Talvez. O mais importante, nesse momento, é mobilizarmos essas perguntas e forçarmos uma discussão sobre alternativas políticas e institucionais.

Distribuição de uso das redes sociais pelo mundo.

1Regulating the internet giants: the world’s most valuable resource is no longer oil, but data

[su_note note_color=”#4b7bfe” text_color=”#000000″]

Publicado Originalmente no Outras Palavras Comunicação Compartilhada e Pós-capitalismo

[/su_note]

Publicado em Deixe um comentário

Facebook e seu novo algoritmo: a distopia total

[su_note note_color=”#4b7bfe” text_color=”#000000″]

Publicado Originalmente no Outras Palavras Comunicação Compartilhada e Pós-capitalismo

[/su_note]

Por que o novo algoritmo converte a rede social mais poderosa do mundo em algo que combina a vigilância total, de George Orwell, com o anestesiamento permanente, de Aldous Huxley?

Por Chris Taylor, no Mashable | Tradução: Gabriel Simões, de nosso Círculo de Tradutores Voluntários

 

Ao se construir uma distopia, é bem difícil deixá-la aos moldes tanto de Orwell quanto de Huxley ao mesmo tempo. Mas, com as mudanças recentemente anunciadas no feed de notícias do Facebook, Mark Zuckerberg parece ter realizado esta façanha.

Os mundos assustadores de George Orwell (1984) e Aldous Huxley (Admirável mundo novo) são, de muitas maneiras, opostos simétricos. Um trata de um Estado de vigilância que controla o que as pessoas conhecem da história ao literalmente reescrever os jornais. O outro, trata do controle de seus cidadãos ao fazê-los usar uma droga dissociativa chamada soma.

[su_note note_color=”#eaf02b” text_color=”#000000″]

Contribua com as atividades do Grupo Kilombagem! Clique aqui para saber como!

[/su_note]

 

Em seu esforço de “melhorar” o Facebook, Zuckerberg agora tenta ambas as táticas. Ele está reduzindo o acesso dos usuários às notícias reais — no século XX, chamávamos isso de censura — ao passo que aumenta a probabilidade de você visualizar apenas as notícias terrivelmente falsas postadas por aquele seu tio maluco. Porque, oras, conteúdo postado pela família lhe faz feliz, e apenas queremos que você seja feliz, certo?

O algoritmo, como já sabemos, nos vigia tão de perto quanto o Big Brother jamais foi capaz. Cada amizade, cada curtida, o tempo que você gasta lendo alguma coisa, se você interage com ela — tudo isso vai para a sua ficha permanente. (Ao menos com as teletelas, Orwell disse, se sabia que eles não estavam vigiando todo o tempo.)

Nas teletelas do livro de Orwell, diferentemente das de Zuckeberg, o controle não era incessante

O fato de que o Facebook vai simplesmente nos mostrar menos notícias já o torna mais eficiente que o Estado totalitário descrito por Orwell. Os líderes do Partido no Ministério da Verdade devem estar se lamentando: fazer com que bilhões de pessoas vejam notícias através das mídias sociais e depois simplesmente eliminar esse tipo de conteúdo? Sem reescrever o The Times, sem necessidade de qualquer buraco de memória, apenas fazer com que as notícias desapareçam dos meios digitais? Como não pensamos nisso?

Um breve lembrete da importância disto. Em agosto de 2017, de acordo com o Pew Research Center, 67% dos estadunidenses acessaram notícias nas mídias sociais — um aumento de 5% em relação ao ano anterior. No Facebook, 68% dos usuários acessaram notícias a partir do feed. Pela primeira vez na pesquisa Pew, a maioria dos norte-americanos com mais de 50 anos passou a acessar notícias a partir das mídias sociais.

Tornar-se a maior fonte de informações e depois simplesmente sumir com as notícias não é apenas uma escandalosa recusa de responsabilidade cívica. É também parte do manual da distopia.

Uma parte frequentemente esquecida e descaracterizada do clássico de Orwell: a vasta maioria da sociedade da Oceânia, os Proles, não recebia quaisquer notícias, nem mesmo falsas. Eles eram mantidos em estado de felicidade através de uma dieta constante de canções ruins e histórias lúgubres. O Facebook agora superou o Partido: os feeds serão igualmente repletos de porcarias, conteúdos rasos, mas os Proles serão seus produtores. E o Facebook ainda ganha dinheiro com isso!

Admirável novo feed de notícias

“O mundo infinitamente amável, muito colorido e aconchegante do soma. Que gentis, que bonitos e deliciosamente alegres todos estavam!” — Aldous Huxley, Admirável mundo novo

Substitua “soma” por “mídia social” e você verá por que Huxley foi ainda mais profético do que nós acreditamos.

O soma, droga fictícia, o tornou sociável. Ela o fez sentir-se conectado aos amigos e estranhos próximos — de modo extremamente falso. Ela o levou ao que os personagens do livro repetidamente descrevem como um “feriado perfeito”.

O Facebook que Zuckerberg agora parece projetar fará o mesmo. As pessoas mostram o melhor de si no Facebook; elas postam fotos cuidadosamente escolhidas de suas férias “perfeitas”. E agora elas poderão fazer isso sem a intromissão daquelas notícias nojentas.

“A pesquisa mostra que quando usamos as mídias sociais para entrar em contato com as pessoas que gostamos, isto pode ser bom para o nosso bem-estar,” escreveu Zuckerberg. Ele esqueceu de mencionar a pesquisa que mostra que o Facebook, na verdade, nos deprime quando vemos fotos das férias ou dos bebês perfeitos de outras pessoas.

Não importa o quanto você goste da pessoa em questão, o Facebook impele à comparação — o que, por sua vez, leva à ansiedade de status. Nós podemos postar “parabéns” nos comentários, o que o algoritmo conta como uma grande vitória. Grandes pontos por envolvimento! Mas o que nós estamos realmente pensando ou sentindo frente a estas coloridas fotos — o despertar repentino da nossa inveja, nossa autoaversão, nossa depressão — permanece escondido do olho-que-tudo-vê do Facebook.

E assim como num experimento sórdido, contudo, nós insistimos nisso. Deixe o soma do Facebook ajudar a nos aniquilar e nos deixar levar pelo feriado perfeito dos outros — que gentis, que bonitos e deliciosamente alegres eles são.

Agora, Zuckerberg quer que fiquemos naquele estado mental sem a terrível intrusão da “experiência passiva” — palavras que ele usa para se referir ao que acontece quando você está lendo ou assistindo algo que o faça pensar e refletir, em vez de simplesmente digitar “parabéns!”

O pior de tudo é que Zuck acha que está sendo nobre. Ele realmente acha que está “fazendo a coisa certa.” Ele quer que seus filhos pequenos olhem para trás um dia e digam que o Facebook salvou o mundo.

Talvez eles o façam. Pois todos que consomem conteúdo no Facebook, com as empresas de mídia que buscam a verdade retiradas do feed de notícias e falidas, não sobrará ninguém para apontar o despropósito de toda esta falsa conexão. A próxima geração de Zuckerbergs pode muito bem viver em infinitos feriados soma.

Parabéns, Mark!

[su_note note_color=”#4b7bfe” text_color=”#000000″]

Publicado Originalmente no Outras Palavras Comunicação Compartilhada e Pós-capitalismo

[/su_note]

Publicado em Deixe um comentário

Angola à conquista do espaço

[su_note note_color=”#0593c4″ text_color=”#ffffff”] Publicado Originalmente em Jornal de Angola[/su_note]

O primeiro satélite angolano Angosat 1 foi lançado ontem com sucesso, através do foguete transportador ucraniano Zenit, a partir do cosmódromo Baikonur, no Cazaquistão.

 

 

O lançamento aconteceu exactamente às 20horas e 58 segundos, tempo de Angola. Pode-se dizer que está a caminho da zona de trabalho.
O país ganha, assim, uma infra-estrutura que vai tornar os serviços de telecomunicações com custos mais baixos e de melhor qualidade. Com a entrada em funcionamento do primeiro satélite angolano, os serviços de televisão, telefonia e de Internet vão ser mais baratos. Este é um processo que vai contribuir para a inclusão digital e coesão nacional de todos angolanos.

Isto foi mesmo enfatizado pelo ministro de Estado para o Desenvolvimento Económico e Social, Manuel Nunes Júnior, que, em Moscovo, assistiu ao lançamento do satélite.  “Hoje, a Internet é um meio que tem efeitos muito grande na vida das pessoas e o Angosat vem dar resposta a muitas preocupações”, disse o ministro de Estado. O governante sublinhou que, em termos estratégicos, este projecto é de extrema importância para o nosso país. “No mundo moderno, aqueles países que não apostarem no conhecimento, como estamos a fazer, ficam para atrás”, disse o ministro.

O Angosat 1 vai fornecer produtos e serviços que proporcionam comunicação entre empresas e pessoas, encurtando distâncias, minimizando a infoexclusão e contribuindo activamente para o desenvolvimento socioeconómico e, ao mesmo tempo, criar soluções de comunicações no mercado internacional. O satélite levou sete horas para entrar em órbita e depois será submetido a testes, entre dois a três meses. Findo este período, o equipamento vai estar apto para ser usado, até completar os 15 anos previstos de vida útil.

O satélite tem cinco dias para encontrar a sua fase geostacionária, 24 dias para estar na zona de trabalho e, depois, passa para a fase de testes para avaliar as condições atmosféricas num período de até três meses. Após o período de testes, começa o processo de comercialização pelo Infrasat. O Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação definiu que, para as vendas do satélite, estão reservadas já 40 por cento para as operadoras, 10 por cento para os serviços de segurança e defesa nacionais e outros dez para acções sociais (como sectores da Educação e Saúde e pequenos negócios).

Os preços dos serviços do satélite são “stander” ou, seja, os mesmos praticados internacionalmente, apesar de que a estratégia do Executivo seja torná-los mais atractivos. O Angosat foi desenvolvido com o propósito de capacitar às empresas para o uso das tecnologias de comunicação mais modernas e inovadoras, possibilitando assim  a promoção e o desenvolvimento de novos produtos e serviços de informação e comunicação. O investimento do Satélite foi gerido por três contratos, nomeadamente, o da construção, aluguer do segmento espacial e do segmento terrestre, que ficou avaliado em 320 milhões de dólares, financiados por um consórcio de bancos liderados pelo VTB da Rússia. A responsabilidade do Governo Angolano foi de garantir a formação dos especialistas e a construção de infra-estruturas em terra, que assegurem o apoio dos serviços de gestão do satélite.

O ministro das Telecomunicações e Tecnologias de Informação, José Carvalho da Rocha, garantiu que o investimento feito tem o retorno garantido. Em dois anos pode ser reembolsado pelas operadoras que actuam no país, tendo em conta que estas, mensalmente, gastam em média 15 a 20 milhões de dólares para manterem os seus serviços. Uma das grandes vantagens que as operadoras angolanas vão ter com o Angosat é pagar preços mais acessíveis e em Kwanzas. O Executivo deverá ter a capacidade política de pressionar as empresas a baixarem as tarifas actuais do mercado.

O projecto vai também ajudar a criar competências no ramo da engenharia e tecnologia espacial, contribuindo, assim, para a diversificação da economia angolana. O Angosat1 é um dos sete projectos previstos ao abrigo do Programa Especial Angolano, que envolve a formação de quadros, a transferência de conhecimentos nesta área e o lançamento da Agência Espacial Angolana.

As negociações de concepção do projecto da Angosat entre Angola e Rússia foram um desafio que durou dez anos para concretização. Não é fácil os países entrarem na área da tecnologia por causa dos investimentos avultados e das exigências tecnológicas que as nações desenvolvidas exigem. O satélite angolano tem um tempo de vida útil de 15 anos. Por isso, o Executivo terá, durante este período, a necessidade de pensar em construir o Angosat 2, que espera contar com a contribuição maioritária da mão-de-obra nacional, cujos custos serão mais reduzidos, pelo facto de Angola ter já as bases criadas.

Entrada em orbita

Segundo dados do Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação, com a entrada em órbita do primeiro satélite angolano, o sinal das tecnologias de informação e comunicação vai cobrir todo o território nacional, o que estimulará os serviços das operadoras nas zonas onde não há sinal.
O sinal do Angosat 1 proporcionará outros negócios para o país, por ter uma capacidade de iluminação desde a África do Sul até  à Itália. O satélite angolano foi construído na Rússia e tem segmento espacial: posição orbital 14.5 E, peso de mil 55 quilogramas, peso de carga útil 262.4 quilogramas, potência de carga útil três mil 753 W, banda de frequência CKU, número de repetidores 16C+6Ku e uma vida útil de 15 anos.

O centro de controlo e missão de satélites do AngoSat-1, responsável pela sua gestão, está localizado na comuna da Funda, norte da província de Luanda. Com o satélite geoestacionário artificial, o AngoSat-1 está a uma distância de 36 mil quilómetros, a partir do nível do mar. A sua velocidade coincide com o da rotação da terra e consegue cobrir um terço do globo terrestre. Com um período de vida de 15 anos, possui 22 “transponders”, dispositivos de comunicação electrónica, e inclui duas estações de rastreio, uma em Angola e outra na Rússia. Estas estações vão permitir uma intervenção russa no controlo e comando do satélite, sempre que for necessário, enquanto Angola cria autonomia neste domínio. O Angosat 1 vai ter uma utilização de 99,2 por cento da capacidade prevista.

Para garantir o funcionamento do Angosat, o Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação teve a missão de formar e capacitar quadros em engenharia de satélites e sistemas de engenharia espacial. Neste momento, conta com 47 funcionários, que estão a trabalhar no centro de controlo e missão de satélites da Funda. O centro é o órgão que vai controlar, rastrear e fazer a telemetria dos dados enviados pelo satélite Angosat1. O edifício foi construído numa área de 6.617 metros quadrados, tem três pisos, um heliporto, parque de estacionamento 50 lugares e áreas verdes.
O local foi escolhido pela Comissão Interministerial para a Coordenação Geral do Programa Espacial Nacional (PEN), tendo como base o baixo nível de interferência electromagnética, espaço para desenvolvimento do PEN e desenvolvimento da zona norte da província de Luanda.

Primeiro Satélite

O primeiro satélite foi lançado ao espaço por meio de um veículo Angara A5/Blok-DM-03, a partir do cosmódromo de Plesetsk, na Rússia. Equipado com 16 transponders em banda C e 6 em banda Ku, para fornecer serviços de telecomunicações para Angola. O sinal da banda C poderá ser recepcionado em toda África e Europa. O Angosat 1 é um projecto que vai fornecer oportunidades na expansão dos serviços de comunicação via satélite, acesso à Internet, rádio e transmissão televisiva. De acordo ainda com o Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação, o projecto é parte integrante do Programa Espacial Nacional e  um dos objectivos é a criação de competências nacionais no domínio das tecnologias de comunicação por satélite.

O projecto Angosat é resultado de um profundo estudo sobre a viabilidade da produção de um satélite angolano, entre a Comissão Interministerial de Coordenação Geral do Projecto de Telecomunicações via Satélite de Apoio Multissectorial (CISAT), criada por Despacho Presidencial nº 21/06 de 21 de Junho. O estudo contou com o Consórcio russo, liderado pela empresa ROSOBONEXPORT, RSC Energia (construtora do satélite Agosat-1). O satélite Vai tornar o país numa referência no âmbito espacial, com reconhecimento a nível mundial na criação e capacitação de quadros altamente qualificados nas áreas de Engenharia e Tecnologia espacial. De acordo com a fonte, vai ainda apoiar o desenvolvimento sustentável, a defesa e a segurança do Estado, através da pesquisa e desenvolvimentos de tecnologias aeroespaciais, contribuindo assim para o posicionamento de Angola como um dos líderes na área Espacial em África.

Além da transmissão de conhecimento, a facilitação das comunicações com os países africanos, como a RDC, Zâmbia e Rwanda, que poderão usufruir da fibra óptica implantada ao longo do Caminho de Ferro de Benguela, destaca-se, como benefício, o lançamento da Angola Cables, o cabo que vai ligar Angola ao Brasil. Será o primeiro a unir o continente africano ao Sul-Americano, facto que facilitará as comunicações entre as duas margens do Oceano Atlântico. Este cabo vai permitir também a conexão, no próximo ano, a um outro cabo no Brasil, do qual Angola participou e que liga os Estados Unidos da América a ao país latino-americano.

Com isso, o país poderá obter valiosos recursos financeiros com este serviço, pois o mesmo, uma vez em funcionamento, irá facilitar as comunicações entre o continente Sul-Americano e o asiático, sem ter de passar pela Europa e países árabes.

Satélite artificial

Um satélite artificial é um sistema que orbita em torno do nosso planeta, com uma altitude e velocidade constante, segundo informação do Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação. Geralmente, os satélites estão equipados com meios radioeléctricos e são dotados de energia, dispondo ou não de um sistema de controlo remoto. O conceito do satélite artificial, enquanto veículo espacial e suporte de uma estrutura receptora e emissora, foi desenvolvido por Artur C. Clark, um radioamador britânico. A sua aplicação tornou-se realidade, quando Sergei Koreleve fez, em 1957, o lançamento para o espaço do Sputnik-1, satélite composto por um pequeno emissor de rádio. Em Dezembro de 1961, quatro anos depois, é lançado no espaço o OSCAR-1, que se torna no primeiro satélite amador. Existem satélites que cumprem todas as aplicações necessárias, do ponto de vista técnico e científico, e que podem ou não ser repetidores, geradores e transdutores de informação diversa.

                                                           Luandenses celebraram na Marginal 

O país assistiu ontem pela televisão ao lançamento em órbita do primeiro satélite angolano (Angosat-1), mas foi na Marginal de Luanda, onde milhares de pessoas se reuniram à volta de um ecrã gigante para celebrar o feito de baixo de fogo-de-artifício. Eram precisamente 20 horas  e 58 segundos em Angola, quando a Televisão Publica mostrou, a partir de Cazaquistão (Federação Russa), as primeiras imagens da descolagem da cápsula que coloca o país no mercado espacial. A multidão que aguardava, ansiosa, por aquele momento entrou em euforia.

As pessoas, incluindo estrangeiros, começaram a fazer-se ao local a meio da tarde, porque informações postas a circular davam conta que o Angosat-1 seria lançado ao espaço às 19 horas, quando, na verdade, a festa, mais uma dos angolanos, estava marcada para às 20.  Numa cerimónia sem discursos, mas que contou com a presença de distintas figuras, entre membros do Governo, do clero, autoridades tradicionais e castrenses, o governador de Luanda, Adriano Mendes de Carvalho, acendeu um candeeiro que soltou para espaço, numa espécie de réplica ao satélite angolano lançado em órbita, a partir de Cazaquistão.

 

[su_note note_color=”#0593c4″ text_color=”#ffffff”] Publicado Originalmente em Jornal de Angola[/su_note]

Publicado em Deixe um comentário

Exposição Pretas InCorporações

A mulher preta na arte, entre linguagens, poéticas e militâncias” discute gênero e raça na Estação Cultura em Campinas

A curadora e artista Andrea Mendes reúne em sua nova exposição 12 artistas pretas de Campinas e região com o objetivo de discutir o racismo, a política, o amor, a ancestralidade, as origens, o machismo e o espaço da mulher preta na arte. A exposição representa diversas linguagens, como desenho, fotografia, pintura, poesia, audiovisual, performance e instalação e permanece na entrada principal da Estação Cultura até o dia 10 de dezembro.

Andrea Mendes, Daíse Silva, Francielle Costacurta, Helen Aguiar, Jéssica Paulino, Lubaya Rocha, Marla Rodrigues, Monique dos Santos, Natasha Rodrigues, Brenda Nicole, Thayara Magalhães, Thais Silva e Vick Aisha são as expositoras que, cada uma a seu modo, representaram-se ou a outras mulheres pretas em diversos aspectos da vida cotidiana. Universidade, relações amorosas, familiares, dificuldades na representação e medos de mulheres pretas foram alguns dos temas discutidos com o público de aproximadamente sessenta pessoas que esteve no coquetel de abertura, no dia 19 de novembro, véspera do feriado da Consciência Negra.

Andrea Mendes é arte educadora, artista visual, performer, curadora e militante do movimento negro. Entre os trabalhos, está a curadoria da Exposição Pretitudes no MIS Campinas, em 2016 e a exposição Memórias Históricas do Hip Hop Interior 019, dedicada exclusivamente a contar a história do Movimento Hip-Hop na Região de Campinas. Ela também desenvolve pesquisas sobre raça e gênero.

A convite da Fabiana Ribeiro Curadora do Espaço de Arte da Estação Cultura e com apoio do Núcleo de Consciência Negra Teresa de Benguela da PUC-Campinas, do Ponto de Cultura e Memória Ibaô, do Grupo Kilombagem, da Casa Coletiva Margem31, da CEPIR – Coordenadoria Especial de Promoção da Igualdade Racial e SMPDC – Centro de Referência em Direitos Humanos na Prevenção e Combate ao Racismo, a exposição é um trabalho importante para quem quer compartilhar ou entender o que é ser mulher preta nos dias atuais. Como parte desse grupo, me senti representada ao ver tantas mulheres pretas, com diversas tonalidades, cabelos de diversas texturas, com lutas, angústias e vitórias tão similares, em diferentes narrativas.

Por fim, é gratificante perceber que estamos conquistando esses espaços e, para além disso, estamos juntas, em um verdadeiro Ubuntu: “eu sou porque nós somos.”

Thalyta Martina
[su_note note_color=”#08ac31″]

CONFIRA ALGUMAS FOTOS!

[/su_note]

Fotos Crisley Caroline

Publicado em Deixe um comentário

Cracolândia

da guerra às drogas ao genocídio negro

Violência na Cracolândia é vista como mais uma face da política de guerra às drogas, entendida por ativistas e pesquisadores como a principal justificativa para a morte e o aprisionamento de negros e pobres.

Texto / Pedro Borges
Foto / Daniel Arroyo

No dia 11 de Junho, por volta das 6h da manhã, a prefeitura e o governo do estado de São Paulo orquestraram nova ação na Cracolândia, na Praça Princesa Isabel, centro. Policiais militares e guardas civis metropolitanos participaram da operação, que resultou no incêndio do local, na apreensão de 2 kg de Crack, R$ 1.600, três celulares e na prisão de dois suspeitos por envolvimento com o tráfico de drogas. Para a retirada das barracas e lonas da praça, foram deslocados 24 caminhões e 162 pessoas para a limpeza.

A investida foi uma nova etapa da ação do dia 21 de Maio, considerada pelos órgãos de segurança como uma das maiores já realizadas na região, com cerca de 900 agentes do Estado. A operação do dia 21, iniciada às 6h 49 min da manhã, resultou na prisão de 51 pessoas e no registro de diversas violações de direitos. Moradores, movimentos sociais e até veículos de mídia presenciaram fatos como o ateio de fogo por parte da Guarda Civil Metropolitana (GCM) nos pertences dos moradores, a derrubada de prédios com pessoas dentro, abordagens policiais truculentas, entre outras intervenções.
Cleiton Ferreira, morador da região da Luz e participante do extinto programa De Braços Abertos, do ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, diz que a brutalidade por parte da GCM chamou a atenção no dia 21 de Maio. “A polícia militar a gente já está até acostumado, porque eles chegam na opressão máxima. Eles chegam com bala de borracha, bomba. O pior foi o que veio por trás, que foi a Guarda Civil Metropolitana. A GCM tirou os pertences do pessoal e colocou fogo, sem necessidade”.

Ele relata também que a brutalidade dos agentes de segurança não foi restrita aos dias 21 de Maio e 11 Junho. “Isso daí eles sempre fazem, mas nunca é mostrado realmente. Quantas roupas minhas já roubaram? Até livros eles levam. Eu mesmo quando fui preso, fui porque roubei livro numa loja, porque a GCM tinha pegado todos os meus livros e eu não conseguia ficar sem leitura”.

Os advogados da Defensoria Pública, Rafael Lessa e Davi Quintanilha, dizem que o órgão acompanha com atenção a Cracolândia desde o dia 21 de Maio, e que para além de violações no campo da segurança pública, como a revista pessoal e as abordagens policiais por parte da GCM, algo ilegal de acordo com a constituição, há denúncias no campo da saúde.

“Muitas pessoas relatam que desejam tratamento, mas há falta de vagas ou os serviços não são adequados para a necessidade da pessoa. Assim, as ações precisam ser ampliadas, para dar mais as oportunidades sociais para as pessoas da região”, contam os defensores.

Histórico da Cracolândia, a Boca do Luxo e do Lixo

Na última década do Século XIX, a Vila Buarque, bairro central de São Paulo, cuja maior referência é o Largo do Arouche, era marcada por bares e boates frequentados pelas elites da cidade, região que mais tarde foi nomeada como Boca do Luxo, e assim seguiu rotulada até meados dos anos 1970.

A região da Santa Ifigênia e dos Campos Elísios, também no centro da cidade, onde hoje se localiza a Cracolândia, recebe desde o final do Século XIX, data próxima à abolição da escravatura em 1888, a boemia e a vida noturna das classes populares. Nas primeiras décadas do Século XX, o espaço foi nomeado como a Boca do Lixo, local onde o Brasil desenvolveu durante os anos 1950 e 1970 o gênero cinematográfico da Pornochanchada.

Corpo Daniel Arroyo Ponte Jornalismo

Agente de segurança e moradores da região da Luz (Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo)

“É importante pensar que lá é um lugar com trajetória histórica de festa das classes populares, que o que é a Cracolândia até hoje. Muita gente vai para lá quando recebe o salário. Dia 5 e 10 do mês são dias que a Cracolândia triplica de tamanho”, explica Roberta Costa, antropóloga e ativista da Craco Resiste, movimento social com atuação no território.

O termo Cracolândia foi usado pela primeira vez pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, em 1995, em reportagem sobre apreensões e prisões relacionadas às drogas por parte da recém-criada Delegacia de Repressão ao Crack, fundada pelo governador do estado da época, Mário Covas (PSDB). Desde então, São Paulo teve 7 diferentes prefeitos, e 5 diferentes nomes a frente do governo do estado. Nenhum conseguiu entender e resolver a Cracolândia.

Em 2005 aconteceu a “Operação Limpeza”, seguida da “Operação Dignidade” em 2007, e da “Operação Sufoco” em 2012. As ações não resolveram os problemas da região, atuaram por meio da força policial, e descentralizaram as áreas de consumo. De acordo com dados da prefeitura de São Paulo, hoje o município conta com 8 “minicracolândias”.

“Faz mais de 20 anos que falam que vão acabar com a Cracolândia, e nunca, por mais que se tenha anunciado isso várias vezes, nunca aconteceu. A Cracolândia é um território itinerante, chama-se o fluxo por uma analogia aos fluxos das festas funks das periferias de São Paulo. A Cracolândia, assim como as festas funks, são delimitadas pela quantidade de pessoas, não por um território específico”, explica Roberta Costa.

Guerra às drogas

Pesquisa publicada no início de 2017, com o título “Crack: Reduzir Danos”, organizada pela Open Society Foundation, mostra qual o perfil dos participantes do antigo programa De Braços Abertos, criado pelo ex-prefeito Fernando Haddad para atuar no território, e encerrado por João Dória no dia 21 de Maio.

De acordo com o documento, 68% dos participantes do antigo programa são negros, a maioria tem baixos níveis de escolaridade e não possui carteira de trabalho. 39% temem ser alvo de violência sempre ou quase sempre e 26% às vezes. Em geral, as pessoas declararam redes frágeis de apoio, com 36% sem algum parente com quem possa contar e 47% sem amigos para quem recorrer.

Outra característica dos moradores da região é o receio com relação à polícia. 80% dos participantes do programa De Braços Abertos disseram ter uma relação ruim ou muito ruim com o aparelho repressivo do Estado.

A relação de desconfiança entre usuários de droga, pobres e negros, tem uma justificativa histórica. Na década de 1970, nos EUA, o presidente Richard Nixon criou uma política de guerra às drogas. O objetivo era acabar com o tráfico de entorpecentes por meio do aprisionamento de traficantes. O resultado foi o insucesso no combate ao crime organizado e o status de maior população carcerária do mundo.

Números da pesquisa National Household Survey on Drug Abuse and Health, feita nos EUA de 2001 a 2010, mostra os diferentes hábitos de consumo da maconha em dois grupos raciais, negros e brancos. Em 2001, 10% dos entrevistados negros haviam usado maconha nos últimos 12 meses, contra 11% dos brancos. Em 2010, os números mudaram para 15%, por parte dos negros, e 12,5% por parte dos brancos.

Dados colhidos a partir das prisões feitas pelo FBI, polícia americana, entre 2001 e 2010, mostram a desproporção do olhar do Estado para negros e brancos. Se em 2001, para cada grupo de 100 mil habitantes brancos, menos de 200 foram presos por porte de maconha, mais de 500 negros foram encarcerados pela mesma razão. Em 2010, a taxa de aprisionamento dos brancos se mantém estável, enquanto a dos negros sobe para a de 700 para cada grupo de 100 mil.

Para Nathalia Oliveira, presidenta do Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas e Álcool de São Paulo (COMUDA) e coordenadora da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD), “a atual política de drogas é a justificativa mais atual, de parte do Século XX e início do XXI, para desenvolver mecanismos de extermínio do povo negro. Essa política nos deixa super representados na população em situação de rua, nos números da letalidade policial, nos presídios e criminaliza os territórios pobres”.

O Brasil importou esse modelo dos EUA e em 2006 adotou a nova Lei de Drogas, que dá o poder ao agente de segurança, muitas vezes representado pela figura do policial, de decidir se o sujeito com porte de entorpecentes é usuário ou traficante.

Dados do Ministério da Justiça mostram que o número de presos por tráfico de drogas no Brasil aumentou de 31.529, em 2006, para 138.366, em 2013, salto de 339%. O único crime que supera o crescimento do tráfico de drogas entre 2006 e 2013, é o tráfico internacional de entorpecentes, com a alta de 446%.

A divisão racial e de gênero aponta que os mais prejudicados com essa política são os negros, e em especial as mulheres negras. Em 2012, o Brasil tinha uma população carcerária próxima dos 470 mil, sendo que desse total, 173.536 eram brancos e 295.242, negros. Dados do Infopen Mulheres de 2015 mostram que 60% das mulheres encarceradas são negras e que 68% das mulheres atrás das grades estão nesta condição por crime relacionado ao tráfico de drogas. O tráfico motiva 25% do encarceramento dos homens.

Outra face da política de guerra às drogas é a letalidade policial e a alta taxa de homicídios no país contra a população pobre e negra. Só em 2012, enquanto 9.667 brancos morreram por armas de fogo, outros 27.638 negros perderam a vida da mesma forma. Estudo feito pelo programa SPTV via Lei de Acesso à Informação com base nos dados de 2014 denuncia que, para cada cinco assassinatos na cidade de São Paulo, um é cometido pela polícia. Das 1.198 vítimas de homicídio na capital, 343 morreram por policiais em serviço, o maior número dos últimos 10 anos.

Corpo Daniel Arroyo Ponte Jornalismo 2

Maioria dos moradores da Cracolândia são negros (Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo)

Pesquisa utilizada de fonte para o relatório “Crack: Reduzir Danos” aponta a vulnerabilidade da população em situação de rua e usuária de drogas. O estudo “Alta Mortalidade de Jovens Usuários de Crack no Brasil: um estudo acompanhado de 5 anos” mostra que esse grupo tem uma taxa de mortalidade 7 vezes mais alta do que a população em geral, e que 6 em cada 10 moradores de rua e usuários de drogas serão assassinados.

Cristiano Maronna, presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) e Secretário Executivo da Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD), acredita que o ônus da atual guerra às drogas no Brasil é sentido pela população negra, pobre e periférica. “É ela quem paga a conta da pior forma. A guerra às drogas produz violência e os negros, pobres e periféricos são as vítimas preferenciais dela”.

Juliana Borges, ativista da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD), pensa que se o Estado estivesse em guerra contra as drogas e não contra pobres e negros, atuaria em grandes plantações de maconha e em laboratórios que escoam toda a produção de entorpecentes, ao invés de militarizar os territórios pobres.

“A gente vive uma guerra fria no Brasil, uma guerra silenciosa, que atinge grupos muito bem delimitados, majoritariamente negros, jovens, em idade ativa de produção, que não são excluídos, mas eliminados”, afirma Juliana Borges.

Por esses motivos, ela pensa ser importante que os movimentos sociais e em especial o negro combata as ações na Cracolândia engendradas pela prefeitura e o governo do estado. “O movimento negro precisa participar ativamente se colocando contra essas ações. Isso é também uma face do genocídio do povo negro. Se a gente pensar no tipo de violência que aconteceu na Cracolândia, e pensar que 70% daquela população é negra, é o Estado operando numa lógica de que não há direitos para esses corpos”.

Redenção

A primeira crítica compartilhada com relação ao programa é o fato da prefeitura não tê-lo apresentado. “Eu não tenho como dizer quais os equívocos do programa Redenção, porque ele não foi apresentado até o momento. Ele não é um decreto, não foi publicado, ele é só um nome”, diz Nathalia Oliveira, presidenta do COMUDA e coordenadora da INNPD.

A não divulgação do programa motivou uma ocupação da Secretaria de Direitos Humanos, entre os dias 24 e 26 de Maio. O protesto foi organizado por uma série de movimentos sociais que discutem política de drogas e a população em situação de rua. “É um absurdo a gente ter que ocupar por informação, sobre um programa que deveria ser público, que deveria ser construído com as pessoas. A prefeitura disse que teríamos uma reunião aberta para explicar o que é o programa. A gente desocupou e eles não cumpriram a promessa. A gente não teve essa reunião até hoje”, explica Roberta Costa, antropóloga e ativista da Craco Resiste.

Apesar de não ter sido apresentado, o programa era discutido há meses com o Ministério Público, Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), e outras entidades. Maria Angelica Comis, coordenadora de políticas sobre drogas da Secretaria de Direitos Humanos da gestão do ex-prefeito Fernando Haddad, condena as ações policiais por terem passado por cima das propostas iniciais do Redenção. “O que deveria ter acontecido, que era o cadastramento das pessoas, as abordagens sociais de saúde para conhecer cada indivíduo e trabalhar baseado na singularidade, foi atropelado por uma ação policial”.

Se instituições da sociedade civil organizada participaram, como o CREMESP e a OAB, Nathalia Oliveira sentiu a ausência do COMUDA durante o processo. “Essa gestão não respeita os espaços de controle social da política pública, que é estabelecida a partir dos conselhos. Não é uma especificidade só do Conselho de Drogas”.

A crítica se estende aos movimentos sociais, que foram excluídos do processo. Roberta Costa repudiou a construção de uma política pública sem a presença dos mais interessados, os usuários e moradores da região, e os movimentos sociais que acompanham o dia-a-dia do território.

Internação Compulsória

No dia 23 de Maio, a gestão do Prefeito de São Paulo João Dória pediu à Justiça autorização para internar de maneira compulsória usuários de drogas com a aprovação de uma equipe média, mesmo que contra vontade dos indivíduos. A proposta foi barrada no dia 30 de Maio, pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, e a gestão do prefeito decidiu investir no convencimento dos usuários para a internação voluntária.

Cleiton Ferreira, morador da região da Cracolândia, discorda da internação compulsória. Ele acredita que a medida é ineficiente e apenas dá “férias ao problema”.

A Defensoria Pública acredita que a internação compulsória é custosa aos cofres públicos, tem baixa efetividade, e deve ser excepcional. O mais adequado para o tratamento, segundo os defensores, é a pessoa estar convencida da necessidade de ajuda e o cuidado, por parte do poder público, acontecer de maneira “multiportas”.

Em 2011, a Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia visitou 68 comunidades terapêuticas nos 24 estados da federação e no Distrito Federal. No relatório do estudo, há uma crítica às condições de desrespeito à cidadania dos internados. Em todas instituições visitadas, foram registradas violações de direitos, como: interceptação e violação de correspondências, violência física, castigos, torturas, exposição a situações de humilhação, imposição de credo, exigência de exames clínicos, como o teste de HIV, intimidações, desrespeito à orientação sexual, revista vexatória de familiares, violação de privacidade, entre outras.

Mauro Aranha, médico e presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP), aponta para a importância dessas instituições estarem de acordo com critérios rígidos, para que não atinjam os grupos sociais mais vulneráveis, como os negros, LGBTs e mulheres.

Luta antimanicomial

A violação sistemática das comunidades terapêuticas contra os grupos excluídos faz Juliana Paula, psicóloga e ativista da Craco Resiste, aproximar essas clínicas com os antigos manicômios no Brasil. Para ela, ambos foram utilizados para tirar as pessoas de determinados grupos sociais de circulação, em especial a comunidade negra, e a justificativa também poderia passar pelas drogas.

“As comunidades terapêuticas são os novos manicômios. O que a gente vivenciou na época dos manicômios no Brasil, a gente vê hoje fragmentado em milhares de comunidades terapêuticas, que estão espalhadas por aí inclusive com financiamento público”, afirma Juliana Paula.

Mauro Aranha discorda da aproximação. Para ele, as internações compulsórias sob a Lei 10.216/2001 não têm conexão com a internação psiquiátrica ou do hospital psiquiátrico com os manicômios.

“Hoje, [a internação] deve ser pedida e fundamentada pelo psiquiatra e sob discussão com equipe multiprofissional, no sentido de proteger a vida ou a integridade de um determinado paciente, que não tem família que possa permitir essa internação e o juiz delibera a partir da fundamentação do médico”, explica Mauro Aranha.

Corpo Pedro Borges Alma Preta

Bandeira feita em ato em frente à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (Foto: Pedro Borges/Alma Preta)

Quais são os interesses na região?

A região da Luz, localizada no centro de São Paulo, é um local visto com alto potencial econômico para grandes empresários por conta da localização estratégica, próxima de metrôs e terminais de ônibus.

Juliana Borges, integrante da Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INNPD), acredita que há um desejo por parte da especulação imobiliária na área e que não há coincidência dessa ação ocorrer com tanta violência contra esses grupos sociais excluídos.

Roberta Costa, antropóloga e ativista da Craco Resiste, destaca que, para além dos desejos econômicos, há também motivações higienistas, de “tirar pessoas das ruas para uma elite econômica, e para eles mesmos fazerem propaganda política e não terem essa cena que eles consideram feia”.

Apesar de concordar, Nathalia Oliveira, Presidenta do Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas e Álcool (COMUDA) e coordenadora da INNPD, acredita que os interesses econômicos na região ainda são nebulosos. “É difícil avaliar quais são os interesses políticos e econômicos sobre o território. Tem o interesse da construção de projetos imobiliários, não se sabem quais ainda, existe só uma propaganda do governo do Estado de São Paulo dizendo que serão moradias populares, mas não vi nada de concreto com relação a isso”.

O que ela enxerga de concreto é o interesse de construir uma cidade em que as pessoas fora do padrão estipulado pela prefeitura fiquem distantes da região central de São Paulo. “Senão não existiria essa disputa pelo território, senão a GCM não estaria desde o começo do ano recolhendo os pertences dos cidadãos em situação de rua e tratando esse pessoal muito mal”.

Indústria do cuidado

Outra questão posta pelos ativistas é a indústria do cuidado, ou seja, o lucro de empresários com a saúde das pessoas. Roberta Costa acredita que “essa indústria é algo muito nefasto e triste, porque ganha dinheiro em cima do sofrimento e da miséria dos outros. Hoje o mínimo que se paga numa internação por mês, que quem paga é o SUS, o que já é um problema, é algo no entorno de R$ 1.350 reais por pessoa. É muito dinheiro”.

Matéria publicada pelo jornal Agora aponta que a prefeitura de São Paulo contratou o Hospital Cantareira, cuja gestão é feita pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), órgão presidido por Ronaldo Laranjeira, responsável por integrar os programas Recomeço, governo do estado, e Redenção, prefeitura. O Hospital Cantareira vai receber 35,3% a mais do que os outros dois hospitais contratados pela prefeitura para cuidar de pessoas internadas advindas da Cracolândia.

A SPDM, em nota, disse que Ronaldo Laranjeira é professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e auxilia na integração dos programas Redenção e Recomeço de maneira voluntária, assim como não recebe vencimentos da SPDM. A assessoria de imprensa também afirma que a decisões finais sobre os programas são da prefeitura e do governo do estado, respectivamente.

A maior taxa paga pela prefeitura ao hospital se dá pelo serviço completo e a assistência 24h ofertados pelo Cantareira, que passou por mudanças para receber adolescentes. A SPDM ressalta que Ronaldo Laranjeira não participará na avaliação de qualquer dependente químico, e que atua apenas no comitê de integração entre os dois programas.

O Secretário Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Felipe Sabará, foi fundador da ONG Arcah, entidade que também trabalha com moradores de rua e usuários de droga. A equipe de reportagem do Alma Preta perguntou qual é a avaliação da ONG sobre as medidas de João Dória e Geraldo Alckimin na Cracolândia, e se há parcerias entre a Arcah e a Prefeitura de São Paulo. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.

Qual a melhor maneira de resolver a Cracolândia?

A redução de danos é um conceito muito presente nas discussões sobre política de drogas. Para o pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e coordenador científico da Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD), Maurício Fiore, apesar da controvérsia em torno do conceito, um fator essencial é a diminuição de danos associados ao uso de algum entorpecente sem cobrar, de maneira obrigatória, do usuário que ele se abstenha de consumir a droga.

“A redução de danos pode envolver ações muito diferentes, como, por exemplo, as que provêm necessidades básicas aos usuários mais vulneráveis (moradia, alimentação, trabalho etc.), insumos para uso mais seguro (seringas e cachimbos, por exemplo), e informações sobre drogas, incentivando formas e frequências menos danosas e/ou arriscadas de consumo”, explica Maurício Fiore.

Cleiton Ferreira defende a redução de danos. Ele diz que antes de participar do De Braços Abertos fumava 12 g de crack por dia, ficava a semana toda acordado e chegou a pesar 51 kg. Hoje, ele pesa 72 kg, fuma uma média de 5 g por dia.

“Nesses dias, gastei só 20 R$ com o Crack e comprei um óculos para mim. Você começa a se administrar, seu corpo começa a ver os outros lados, começa a se acostumar a ficar sem”, relata Cleiton Ferreira.

O Núcleo Especializado de Cidadania e de Direitos Humanos da Defensoria Pública propõe uma solução “multiportas”, com soluções específicas para cada indivíduo e alinhadas com a redução de danos, levando em consideração as diversas vulnerabilidades de cada grupo social.

Independente do nome do projeto e da política escolhida, Roberta Costa, antropóloga e ativista da Craco Resiste, acredita na importância da centralidade da ação ser o humano, e não a substância.

“A solução da cracolândia passa por isso, passa por uma transformação muito complexa de uma sociedade problemática. Por isso é tão mais simples e fácil para os governantes jogar a culpa em substâncias. Não dá para fazer um combate ao crack. Quando você combate o crack, você combate as mesmas pessoas combatidas em nossa sociedade, os pretos, pobres e periféricos. Eu acho que o problema é muito complexo e as soluções simples jamais darão conta”, expõe Roberta Costa.

Outro lado

Questionada sobre uma avaliação das ações iniciadas no dia 21 de Maio na região da Cracolândia do ponto de vista dos direitos humanos e quando pretende tornar público o programa Redenção, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria de Comunicação (SECOM), apresentou alguns números da atuação em conjunto com o governo do estado.

Entre os dias 21 de Maio e 5 de Junho, foram realizados 2.999 atendimentos no Cratod, equipamento localizado na região da Luz para o atendimento de usuários do programa Recomeço. Desses, 280 usuários foram encaminhadas para tratamento e internação.

[su_note note_color=”#08ac31″] Texto Publicado Originalmente no Site Alma Preta  [/su_note]

Publicado em Deixe um comentário

Nota de apoio

a militantes perseguidos e pela defesa de Rafael Braga Vieira!

 

Domado eu não vivo, eu não quero seu crime

Ver minha mãe jogar rosas

Sou cravo, vivi dentre os espinhos treinados com as pragas da horta

Pior que eu já morri tantas antes de você me encher de bala

Não marca, nossa alma sorri

Briga é resistir nesse campo de fardas”

Rico Dalasam

A estatística tem cor, tem classe social e endereço. Basta!

Basta de criminalização da pobreza e criminalização das lutas sociais!

Vocês sabiam que um estudante negro da Unicamp está sendo perseguido com uma suspensão de dois semestres porque estava defendendo cotas?i

E que um estudante negro universitário da UEMS (Mato Grosso do Sul) está sendo processado porque portava um mamão durante uma sessão Câmara Municipal de Paranaíba, no qual se posicionava contrário ao reajuste salarial que concedia aumento para o prefeito, ao vice, aos secretários municipais e vereadores? Além de ter sido agredido por 03 agentes de segurança pública do Estado ele agora está respondendo um processo por agredir 03 agentes em que cuja arma era uma fruta?

 

 

Pois é, com Rafael foi o desinfetante e com Welliton Lopesii foi por conta de um mamão. Um mamão!!!! A agressão que ele sofreu foi na última segunda-feira, 24, e ele estava com um grupo de pessoas que se manifestaram contra esse reajuste aprovado pelo Legislativo na semana passada. O universitário Wellington Aparecido Santos Lopes, de 20 anos, estudante de ciências sociais da Uems (Universidade Estadual de Mato Groso do Sul) acabou preso pela Polícia Militar após entrar na Casa de Leis com um mamão em suas mãos e “…dirigir-se aos vereadores em tom de ameaça” conforme noticiou a mídia local. Ele está em liberdade, mas está respondendo pelo processo injustamente.

São muitíssimos casos, elegemos alguns, dos quais sabemos o porque da invisibilidade, mas insistimos. Há diversos acontecendo por dia no Brasil, enquanto escrevia, soube de uma prisão arbitrária de um imigrante palestino que protestava na Paulista em um grupo de militantes contra um ato fascista da direita de cunho extremamente xenófobo. Hasan Zarif, que é liderança no movimento palestina para todos. Ele está sendo acompanhado juridicamente. Lutaremos por sua liberdade também. Mas há mais. Muito mais que não aparecem e quando aparecem na grande mídia é pra nos criminalizar.

O Mário de Andrade que aos 14 anos foi executado por um sargento reformado da PM de Recife? Tá sabendo? Já se passaram 09 meses desde o 25 de julho e o governador Paulo Câmera (PSB) não se pronunciou sobre essa execução até o momento desta publicação.

Durante a greve geral do último dia 28 de abril, 21 pessoas foram detidas em SP, mas há 03 que continuam presos. São eles; pedreiro Luciano Antonio Firmino, 41, o frentista Juraci Alves dos Santos, 57 anos, e o motorista Ricardo Rodrigues dos Santos, 35. A prisão preventiva foi decretada neste domingoiii

Conforme a petição em prol da defesa de Rafael Bragai, “Em janeiro deste ano, a caminho da padaria na favela onde morava, foi novamente preso a partir de um flagrante forjado, de acordo com testemunhas, e acusado de associação e tráfico de drogas, mesmo estando sob vigilância. Na calada da noite, às vésperas do feriado de 21 de abril, Rafael foi condenado a 11 anos de prisão.

A série de absurdos do caso de Rafael não param por aí: o juiz que o condenou levou em consideração apenas os depoimentos contraditórios dos policiais que o prenderam. Além disso, foi negado a ele o direito à ampla defesa: o juiz negou o pedido de acesso à câmera da viatura policial que o levou à delegacia e ao GPS da tornozeleira – provas que poderiam ter mudado o rumo do julgamento e comprovado sua inocência. A defesa de Rafael irá recorrer da decisão, por isso precisamos unir nossas forças e continuar a mobilização pela liberdade de Rafael e conseguir reverter essa injustiça” A segunda prisão arbitrária de Rafael Braga Vieira (que se encontrava preso há 2 anos, sendo o único preso nas manifestações de 2013, porque portava desinfetante!) e recentemente fora condenado há 11 anos de prisão. Até quando será crime ser negro no Brasil?

Esses casos só explicitam o papel das instituições como o judiciário e das polícias civil e militar atuam nessas terras tupinambás. Rafael teve a mochila implantada com cocaína e foi acusado de tráfico! Quer dizer que um jovem negro catador de recicláveis pode ser preso e ficarmos calados porque ninguém policia a polícia? Porque ele é pobre e ninguém se importa?

Se você conhece alguém que já foi forjado com drogas pela polícia, vamos convidar essas pessoas pra manifestarem sua indignação e solidariedade ao Rafael Braga porque eles são muitos, #SomostodosRafael. A guerra às drogas têm sido a melhor justificativa do encarceramento em massa no Brasil e temos denunciado essa justificativa enquanto tentativa de naturalização da política de genocídio onde forjar não pode continuar sendo uma prática das instituições de segurança pública e judiciário porque sabemos que não é coincidência.ii

Rafael não é o primeiro e exigimos que Hasan Zarif seja o último!

                         Os movimentos sociais não se intimidarão! A luta continua até que libertem nossos presos!

Exigimos justiça !!! Basta de racismo! Morte ao Fascismo!

Pela libertação imediata de Rafael Braga e aos militantes do MTST: Luciano, Juraci e Ricardo!

 

Ser preto não é crime! Lutar não é crime!
#LibertemRafaelBraga    #LibertemNossosPresosdaGreveGeral  #SOMOSTODOSWELLITON LOPES! #vidasnegrasimportam SIM! #SolidariedadeaosfamiliaresdeMariaEduarda #SolidariedadeafamíliadeJoãoVictor

#ubuntu #contraogenocídionegroeindigena #contraasreformassangrentasdetemer

Link do evento: https://www.facebook.com/events/156199361580725/?ti=cl

iSeja defensor de Rafael Braga Vieira: http://www.liberdadepararafael.meurio.org.br/

iiQuem policia a polícia? http://ponte.cartacapital.com.br/bancada-da-bala-faz-lobby-pelo-projeto-que-permite-governador-demitir-ouvidor-das-policias/

Ato simultâneo ao ato no Rio de Janeiro, via página Pela Liberdade de Rafael Braga Vieira (no facebook)

Publicado em Deixe um comentário

Para Educar

Crianças Feministas – Chimamanda Ngozi Adichie

Kilombagem é uma organização preta que procura desenvolver estudos e ações de combate ao racismo em uma perspectiva de esquerda e feminista.

Descrição do livro

Após o enorme sucesso de Sejamos todos feministas, Chimamanda Ngozi Adichie retoma o tema da igualdade de gêneros neste manifesto com quinze sugestões de como criar filhos dentro de uma perspectiva feminista. Escrito no formato de uma carta da autora a uma amiga que acaba de se tornar mãe de uma menina, Para educar crianças feministas traz conselhos simples e precisos de como oferecer uma formação igualitária a todas as crianças, o que se inicia pela justa distribuição de tarefas entre pais e mães. E é por isso que este breve manifesto pode ser lido igualmente por homens e mulheres, pais de meninas e meninos. Partindo de sua experiência pessoal para mostrar o longo caminho que ainda temos a percorrer, Adichie oferece uma leitura essencial para quem deseja preparar seus filhos para o mundo contemporâneo e contribuir para uma sociedade mais justa.

[su_note note_color=”#08ac31″]Clique para fazer o download… Para Educar Criancas Feministas – Chimamanda Ngozi Adichie [/su_note]

(obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros)

Publicado em Deixe um comentário

O tambor

O tambor é ancestralidade

e ancestralidade é história.

 

Certo dia em aula de dança afro-brasileira mista com dança africana (da cultura Mandingue, do Oeste Africano) nós, alunas, fomos orientadas a cumprimentar o tambor quando passasse em frente dele na roda.

Encucada, ansiosa como sou já ia perguntar o porquê se deve cumprimentar o tambor, já esperando que a resposta girasse em torno de uma explicação cultural, espiritual, tradicional etc, mas percebi que é muito além disso, é consciência histórica e de respeito à natureza da qual é a fonte de inspiração pra celebrar a vida.

A mestre Juliana Ferraz em poucas palavras deixou explícito que o cumprimento ao tambor é respeito à vida. Pois a produção manual daquele tambor é feito de matéria-prima que contém vida, como a pele do animal extraída pra cobrir a madeira e a própria madeira que um dia foi árvore. Não é pouca coisa, esse ensinamento que se origina na cultura oral, nos apresenta a história, o respeito à vida e aponta a consciência do trabalho que possui um instrumento do qual extraímos música pra celebrar a vida, em outras palavras, nos ensina história à partir da ancestralidade africana.

 

 

Nesse sentido o tambor é ancestralidade e ancestralidade é história.

E pra celebrar a vida, pra nos lembrar que precisamos parar um pouco a correria pra brincar, ou como diz os capoeiristas, pra vadiar, viemos convidá-los pra segunda saída do Bloco Afro Sol de Mauá, no dia 25 desse mês e conhecer a proposta desse bloco.

Homenageando as mulheres negras guerreiras e rainhas africanas o bloco possui o objetivo de difundir a cultura afro-brasileira (inspirado no Ilê Ayê) à partir da percussão e da dança a fim de valorizar tais conhecimentos e ainda denunciar o racismo que invisibiliza nossas tradições e tecnologias de forma lúdica.

A saída do Bloco AfroSol também pretende possibilitar vivenciarmos essa experiência de forma coletiva tentando atingir aqueles que trabalham e não têm tempo pra dançar ou pra tocar algum instrumento além de outras dificuldades, chamando pra incorporar conosco com sua voz, com seu corpo ou seu instrumento pra somar.

O bloco Afro Sol é a continuidade da pesquisa e proporcionamento da vivência da ancestralidade à partir da dança e da percussão. Nesse sentido os participantes poderão vivenciar parte dos processos que fazem existir o conjunto “música e dança” da cultura afro-brasileira.

Na linha de frente da dança temos a mestre Juliana Ferraz e na percussão os mestres Emerson Queiroz e Raifah Monteiro comandando a batucada do ritmo do coração.

Simbora meu povo! É sábado dia 25, às 16h a concentração no centro de Mauá para a saída do Bloco Afro Sol. Até lá!

Traga seu instrumento e venha caracterizadx se puder com blusa branca, quem quiser dançar com saião rodado (florido se possível).

Publicado em Deixe um comentário

Apropriação Cultural

Vamo falar da tal da APROPRIAÇÃO CULTURAL então? Tema polêmico e complexo. Tão complexo que dessa vez eu não consegui o resumo das idéias. Então vamo de textão mesmo.

Por Buia Kalunga

 

Começo com alguns exemplos:

TARZAN: O rei da selva branco que conhece melhor a floresta do que os próprios pretos em terra natal. Ele, que veio de fora, sabe falar melhor com os animais do que os próprios africanos que estão lá de milianos.

INDIANA JONES: Um branco que viaja pelo mundo roubando riquezas de povos não-brancos e sai como o “aventureiro” da história.

O ÚLTIMO SAMURAI – O branco que é discriminado quando chega no Japão e depois se torna o principal guerreiro do rolê.

ROCKY BALBOA – O branco que vira o melhor boxeador de todos numa época em que a grande maioria dos boxeadores era negra.

CLEÓPATRA – A rainha egípcia branca como a neve num lugar onde só tinha preto naquele sol de 40 graus.

JESUS CRISTO – O revolucionário que também conseguiu milagrosamente nascer branco num lugar onde só tinha preto e ser o diferentão abençoado do rolê.

Durante a vida inteira eu absorvi isso tudo sem qualquer tipo de questionamento. Não ligava pra esse papo de raça e, das poucas vezes que liguei, logo aparecia um “somos todos iguais” pra me tranquilizar. Pra mim fazia todo sentido aquela frase do Falcão, do Rappa: “cor da pele foda-se”…

Só que, aos poucos, por diversas fitas que eu vivenciei, fui percebendo que essa postura me fazia ser insensível com a questão racial no mundo e que o bagui não era tão simples. Me permiti olhar pra cor da pele das pessoas, pro cabelo, pros traços. Pras culturas. Reparei que em alguns lugares tem mais preto, outros têm mais branco. Deixei de lado o “foda-se”. Percebi que, de “foda-se” em “foda-se”, as pessoas vão menosprezando uma série de questões ainda mal resolvidas entre nós… e que assim caminha a humanidade: cheia de “foda-se”, cheia de si, caminhando pro vazio…

Talvez, se não vivêssemos num mundo racista, nenhum desses exemplos que eu citei aqui seria problema. Eu encararia todos eles com a maior naturalidade, abraçaria o discurso da igualdade se a recíproca também pudesse ser verdadeira. Se os não-brancos também estivessem circulando pelo topo do topo.

Só que…

Imaginem se o THOR fosse preto? Se o HÉRCULES fosse preto? Ou se o SUPERMAN fosse um chinês? Se o SHERLOCK HOLMES fosse um indiano? Certamente causaria estranhamento. Basta lembrar do buxixo que foi quando lançaram o último Star Wars.

Essa que é a treta. Branco sempre teve essa “permissão” social pra ser o que quiser, pra usufruir da cultura que quiser e moldá-la de acordo com seus interesses. Construiu isso ao longo dos séculos de uma forma nada amigável.

Sendo assim, acho interessante estar vivendo num tempo em que a presença de pessoas brancas na cultura preta esteja em debate.

E vejam, tô falando de debate mesmo, não de decretar quem pode ou não pode estar no rolê. É cartas na mesa, bora trocar essa idéia. Papo de reorganizar a bagunça colonial que nos foi empurrada guela abaixo. De pisar devagar em terreno alheio. De respeito. De não repetir os mesmos erros já cometidos.

Tô suave de ficar cobrando branco de turbante aleatoreamente na rua. Nem sei se é real o caso da mina aí que ficou famosa agora no face por causa dessa polêmica, mas sei que coisas assim acontecem. Sinceramente, acho uma tática nada produtiva pra luta antiracista. É invasivo, superficial, deselegante. Me soa como uma atitude desesperada de quem quer se aventurar na militância.

Até porque, se é pra falar de turbante, nem todos eles são africanos. E nem todX pretX “empoderadX” usa turbante. Nem todX pretX “empoderadX” vai “lacrar” no rolê, nem todXs usam cabelo black, ouvem rap, ou funk, ou são do candomblé, ou falam “axé”… Percebem? Existe uma caricatura da negritude aqui no Brasil. Isso é um subproduto do racismo, que cria esses guetos culturais, lugares preestabelecidos. Só que ser pretX envolve diversas outras possibilidades. A África é diversa, o povo preto é diverso, a cultura preta é diversa.

Quanto ao povo branco… Ah…

Dear White People… na moral? Falta sensibilidade da parte de vocês. Falta respeitar a dor do outro, falta empatia com a questão racial, falta solidariedade, olhar sincero, entendimento… Falta humildade pra reconhecer privilégio. Falta, se pá, uma boa dose daquele remedinho caseiro famoso, o tal do Semancol.

Não dá pra achar que, depois de quase 400 anos de escravidão no Brasil, o povo preto seja dócil e acolhedor o tempo todo. Entendam a responsa que é lidar com a cultura preta nesse país. Estamos falando de pessoas. Da maioria da população. A cultura é produção humana, é feita por pessoas… Se quiser chegar e ser bem chegado, vai ter que lidar com elas e com todas as contradições que carregam.

Acho leviano ouvir música preta, vestir roupa de preto, dançar dança de preto e lavar as mãos quando aparecem as tretas que envolvem a existência do povo preto nesse mundo. “Ligar o foda-se”…

Mais respeito é o que eu peço neste momento. Bora entender o todo, não só a parte. Bora discutir APROPRIAÇÃO CULTURAL sim, mas bora repensar as prioridades. Bora repensar esse mundo loko, bora intervir nele. Constantemente. Que cada um de nós tenha a liberdade de ser o que quisermos, de vestir a roupa que mais gostamos, de ouvir o som que mais nos agrada. Mas que essa não seja AQUELA liberdade… Aquela velha burguesa, mesquinha, embriagada de “foda-se” e incapaz de perceber a si mesma e o que está à sua volta. Que nossa liberdade seja plena. Que seja parte do todo. Que não termine onde começa a do outro, mas que ela faça da liberdade do outro uma extensão dela própria.

Sejamos!

Publicado em Deixe um comentário

Cortejo Do Bloco De Samba

 

Dia: 18/02

Local: CCDL – Centro Cultural Dona Leonor

Endereço: Rua San Juan, 121 – Parque das Américas – Mauá – SP (5 minutos da Estação Guapituba CPTM).

Programação:

13h

Roda de Choro: Grupo de Estudo do CCDL Café com Choro

16h

Concentração/Esquenta Pegaolencianos

17h

Cerimonia do Bloco

Descida do Bloco

No dia será arrecadado alimentos não pereciveis que serão destinados a instituição Nova Era Novos Tempos da cidade de Mauá. Tel. (11) 4576- 7780

#agoraeahora
#sambaquealimenta