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Da década de 90 prum futuro imensurável.

John Singleton
1968-2019

Aqueles anos 1990, principalmente a primeira metade, foram marcantes pra parte da juventude preta no Brasil. Pelos jornais assistimos estarrecidos, tanto a absolvi√ß√£o de quatro policiais brancos que foram filmados durante 80 segundos espancando o taxista preto Rodney king, quanto os conflitos que disso se originaram, em algumas cidades dos EUA. Chacinas ceifando vidas pretas come√ßavam a ganhar repercuss√£o internacional. No √Ęmbito da cultura, manifesta√ß√Ķes art√≠sticas que retratavam o dia a dia das comunidades majoritariamente afrodescendentes ganhavam relevo por aqui.

Em 1991 o grupo musical que melhor representou a luta do povo preto estadunidense faz duas apresenta√ß√Ķes no Parque Ibirapuera, em S√£o Paulo. Foi em 1992, por exemplo, que o grupo de RAP Racionais MCs lan√ßou o seu mais importante disco, o EP Escolha o seu caminho, que com apenas duas m√ļsicas teve efeito devastador no que tange √† identidade e autoestima da juventude preta perif√©rica. Nesse mesmo ano chega aos cinemas o filme Malcolm X, a adapta√ß√£o de Spike Lee da autobiografia do l√≠der africano estadunidense. Em 1995 estreia Black Panther Party. For Self-Defense, contando a hist√≥ria da organiza√ß√£o fundada por Bobby Seale e Huey Newton, com intuito de organizar a autodefesa das comunidade preta em Okland (Calif√≥rnia), mas que se tornou o partido de maior express√£o da esquerda estadunidense.

Esses filmes revelavam a explos√£o de um movimento cinematogr√°fico que chegou a ser apelidado de “novo Blaxploitation” (alus√£o ao movimento Blaxploitation, de diretores pretos, com elenco preto, para o p√ļblico preto, nos anos 1970). Mais do que serem dirigidos e interpretados por pretos, esses filmes levavam para os cinemas e lares o retrato mais fiel e cru do cotidiano nos bairros pretos dos EUA.

Eram obras cinematogr√°ficas que conseguiam fazer com que identific√°ssemos um pouco (ou, muito) de n√≥s em cada personagem. Um dos cineastas que cumpriu esse papel com maior maestria foi John Singleton. Antes mesmo de Spike Lee com seu Malcolm X, Singleton chegou ao Brasil em 1991 atrav√©s do seu Boyz n The Hood ‚Äď Os donos da rua.¬†

O filme começa com um assassinato, evidenciado somente por áudio, seguido pelo texto:

‚ÄúUm em cada vinte e um homens pretos americanos (sic) ser√° assassinado. A maioria vai morrer nas m√£os de outro homem preto‚ÄĚ.

O que a princ√≠pio pode parecer uma simples declara√ß√£o de culpabilidade do pr√≥prio preto pelo diretor, na verdade se revela uma das tantas provoca√ß√Ķes que ele consegue fazer ao longo da trama, e que, o pequeno texto que abre os trabalhos, revela apenas um dos sintomas de uma sociedade extremamente adoecida.

Foi nesse filme de 91 que pela primeira vez vi ser questionado o livre acesso que drogas e armas têm nessas comunidades, e quais interesses agem por trás dessa aparente antropofagia preta. Ao mesmo tempo, na mensagem do filme, Singleton cobra dos pretos esforço para quebrar esse círculo vicioso de morte e autodestruição. Essa cobrança será uma característica bem visível em outros trabalhos desse diretor, para além desses referidos anos 90.

Outro filme muito impactante de John Singleton √© o Duro Aprendizado. Nele, jovens de diferentes nacionalidades, orienta√ß√Ķes sexuais, ra√ßas e concep√ß√Ķes pol√≠ticas s√£o for√ßados √† um dif√≠cil conv√≠vio ao ingressarem √† universidade de Columbus. Todas as discuss√Ķes acerca de racismo, homofobia, machismo, misoginia, xenofobia, t√£o comuns nos dias atuais, j√° estavam presentes ‚Äď e com enorme relevo ‚Äď nessa obra lan√ßada em 1995. √Č t√£o atual que h√°, inclusive, destaque para a viol√™ncia nazifascista. Quase todos os personagens praticam algum tipo de opress√£o, seja em que grau e frequ√™ncia for. Por√©m, sem recorrer ao manique√≠smo, o autor tem o cuidado de identificar na sociedade competitiva a raiz de toda tens√£o vivida entre aqueles jovens. Ningu√©m √© raio em c√©u azul.

Mesmo o personagem de comportamento psicótico, que encarna o papel de vilão foi criado sob muita violência por um pai que acreditava ser assim que se forjava um homem. A figura do homem preto que ascendeu à classe média está presente no personagem de Laurence Fishburne, o professor Maurice Philipps. Como bom liberal, ele credita toda dificuldade da vida acadêmica de seus alunos à incapacidade pessoal de cada qual, negando qualquer interferência social no penoso caminho que são obrigados a percorrer. Esse discurso está presente em ambos os filmes, mas o moralismo liberal tem sua derrota consagrada no fim trágico que tem os personagens que mais se aproximam desse modelo obediente, servil, que ao invés de subverter ou simplesmente questionar o status quo, se acomoda ou se esforça para encontrar seu lugar nele.

A fascinante crueza com a qual John Singleton abordava a nossa realidade de povo preto, despida de qualquer maquiagem, n√£o tinha limite no tempo e nem no espa√ßo. Ao visitar outra √©poca, num outro cen√°rio, Singleton levava essa sua marca na bagagem. √Č flagrante quando sua obra se arrisca fora do ambiente urbano contempor√Ęneo.

O Massacre de Rosewood conta uma hist√≥ria ver√≠dica ocorrida em 1923 no interior do Estado da Fl√≥rida. A comunidade preta de Rosewood √© atacada durante 4 dias por brancos de algumas cidades vizinhas, como vingan√ßa por um estupro que teria sido praticado por um homem preto contra uma mulher branca. Na verdade a mulher que havia sido espancada pelo amante se viu obrigada a inventar uma hist√≥ria que justificasse pro marido tantos hematomas pelo corpo. Num contexto em que as boas rela√ß√Ķes raciais se sustentavam sobre a fr√°gil base da capacidade de consumo de uma pequena popula√ß√£o rural preta de classe m√©dia, a inveja e o √≥dio racial falaria mais alto do que a o interesse em se alcan√ßar o verdadeiro culpado pela agress√£o. Verdade, inclusive, que j√° era sabida at√© pelo xerife local.

Pra uns, John Singleton n√£o poupa os expectadores com a viol√™ncia expl√≠cita nas cenas de… viol√™ncia. Pra outros, o diretor nos presenteia com a lealdade aos fatos, necess√°ria para entrarmos na hist√≥ria e vivermos o epis√≥dio.

A minha gera√ß√£o nasceu e viveu nos √ļltimos 10, 12, 13 anos de ditadura empresarial-militar. Tanto as artes c√™nicas quanto a m√ļsica viviam sob forte vigil√Ęncia da censura. Agentes da repress√£o se infiltravam nos bailes blacks daquela √©poca. Autoridades cuidavam para que, do movimento Black Power, aqui s√≥ chegasse a m√ļsica (descomprometida) e a est√©tica visual. Artistas forjados nesse per√≠odo e que usavam suas artes como ve√≠culo de den√ļncia, o faziam sob disfarce, numa comunica√ß√£o indireta, com muito floreio. Quando a tirania dos generais se extingue na metade da d√©cada de 1980, apesar de uns raros Bezerras da Silvas, leva-se um tempo para que a liberdade de express√£o deixe de ser s√≥ a lei que revogou a censura, para ser sentida por todos. 

A d√©cada de 1990 come√ßa com uma necessidade de gritar abertamente e de se ouvir esses gritos, viessem de onde viessem, desde que expressassem nossas ang√ļstias. Mesmo que inconscientemente quer√≠amos produzir e consumir arte que escancarasse a nossa realidade. Essa produ√ß√£o cinematogr√°fica preta, junto com o RAP (considere que rappers compunham o elenco, e seus RAPs, as trilhas sonoras), foram a resposta mais contundente √† essa necessidade de se abordar o nosso cotidiano tal qual ele √©, nu e cru. E poucos fizeram isso t√£o bem quanto John Singleton. Por isso ele simbolizou t√£o bem esse per√≠odo que pra n√≥s foi t√£o importante. Essa sua produ√ß√£o foi ferramenta de um ferramental que lapidou a consci√™ncia pol√≠tico-racial de muita gente importante. Gente que ajudou a forjar essa mesma consci√™ncia na gera√ß√£o seguinte. Se voc√™ tem vinte e tantos anos e milita contra o racismo, mesmo que voc√™ n√£o conhe√ßa sua obra, √© bem prov√°vel que voc√™ tenha o DNA do John Singledon na tua personalidade, na tua consci√™ncia.

Hoje, 6 de maio de 2019. Uma semana sem John Singleton. Ser√°?

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Fat Soldiers grupo de rap angolano, fala sobre seu novo single/videoclipe intitulado “Resili√™ncia”.

A cena do hip hop/rap angolano est√° marcada por um  grupo intitulado ‚ÄúFat Soldiers‚ÄĚ. ‚ÄúCria‚ÄĚ do bairro Boa Vista, um sub√ļrbio localizado no distrito urbano da Ingombota, Luanda. O grupo √© formado por Soldier V, Timomy e Daniel A.K.A.M.P,  eles come√ßaram com freestyle fruto da influ√™ncia do programa de rap big show cidade, e marcam oficialmente a sua estreia no panorama do rap angolano em 2010 com o lan√ßamento da primeira mixtape, ‚ÄúMentes da Rua‚ÄĚ.

cena da musica “eu me recuso” do Fat Soldiers

As M√ļsicas ‚ÄúEu me recuso‚ÄĚ, ‚ÄúVerdades‚ÄĚ e ‚ÄúBer√ßo de lata‚ÄĚ, do disco ‚ÄúSobreviventes vol. 1(2016)‚ÄĚ, senta o dedo na ferida,  pauta um discurso contra a pobreza e a desigualdade, denunciando as realidades suburbanas, a concentra√ß√£o de riqueza em um dos pa√≠ses com maior crescimento econ√īmico do continente africano, (Souza e Souza 2016).

Neste trabalho participaram Edzila, Nelo Carvalho e Kid Mc que recebeu o prêmio de melhor Mixtape do ano pelo prestigiado concurso Angola Hip Hop Awards.

Eles são conhecidos não só pela letras, Skills e performance mas também pela arte que trazem nos videoclipes fruto de um grande trabalho de equipe.

O √ļltimo videoclipe  lan√ßado(22/04/2019) pelo grupo chama-se ‚ÄúResili√™ncia‚ÄĚ, e como o Vanderson(Sodier V) √© parceiro, acompanho o ‚Äúmesmo ‚Äúmo cara‚ÄĚ nas redes sociais, por isso falou um pouco mais sobre esse √ļltimo ‚Äútrampo‚ÄĚ.  

Vanderson(Soldier V) explica que: o termo resili√™ncia no contexto do single que agora lan√ßamos, traduz o estado de esp√≠rito e a situa√ß√£o social que vivemos nos √ļltimos anos.

flyer da musica resiliencia do Fat Soldiers

Num ambiente de incertezas e escassez dos bens essenciais para sobreviv√™ncia digna do ser humano, urge resistir as atrocidades que nos afligem todos os dias, portanto, afigura-se imperioso continuar a lutar pelo que acreditamos e se “autoregenerar” mesmo quando parece imposs√≠vel alcan√ßar a vit√≥ria.

Outrossim, Resili√™ncia √© tamb√©m tomar a decis√£o certa, a decis√£o de continuar na contra-m√£o  de uma sociedade que subverteu a l√≥gica da moral sob orienta√ß√£o de pol√≠ticos cuja prioridade √© a manuten√ß√£o do poder.

O single vem acompanhado do v√≠deo clipe, e neste sentido, a interpreta√ß√£o do v√≠deo requer uma an√°lise minuciosa das cenas apresentadas para chegar a inten√ß√£o do v√≠deo. Criamos o v√≠deo com cenas que t√™m por tr√°s uma revela√ß√£o, e para chegar a tais revela√ß√Ķes requer-se um esfor√ßo interpretativo.

confira aqui o novo trampo dos manos!!!!


Fat Soldiers. Ate a Vitória Manos
Podes crer, nos teus ouvidos
√Č sempre n√≥s a fazer e Deus a aben√ßoar irm√£o
Até a vitória Niggas

Se ainda estamos em pé
A continuar a fazer
Mano não é só por nós

Fat Soldiers redes sociais

https://www.facebook.com/FatSoldiers/

Referência:SOUZA, Luana Soares de; SOUZA, Martinho Joaquim João. Entrevista com o grupo angolano “Fat Soldiers. Revista Crioula, São Paulo, v. 2, n. 18, p.252-265, 26 dez. 2016. Semestral. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/crioula/article/view/119346/121945>. Acesso em: 21 mar. 2019.

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No 1¬ļ clipe do grupo Conex√£o Diaspora, reuniram 4 MC‚Äôs, 5 idiomas e 2 continentes, na m√ļsica “Conex√Ķes”.

O grupo¬†Conex√£o Diaspora¬†que √© a reuni√£o de 4 MC‚Äôs, 5 idiomas unindo 2 continentes. S√£o Eles:¬†Kunta Kinte(Senegal),¬†Alomia¬†(Col√īmbia),¬†SJota¬†(Brasil) e¬†Bixop¬†(EUA). A uni√£o dos 04 rappers que atrav√©s dessa multidisciplinaridade faz com que o trabalho esteja rico em ritmo, melodias e rimas. Os Mcs trazem¬†consigo suas imparidades que se complementam nessa uni√£o.¬†Tudo isso unido a 1 trompetista, 01 DJ e 02 Backing vocal. Faz com que essa uni√£o multidisciplinar seja potente e marcante.
E dando o ponta p√© inicial nesse trabalho o grupo lan√ßou no √ļltimo m√™s de novembro seu primeiro single intitulado ‚ÄúConex√Ķes‚ÄĚ, m√ļsica que acaba de ganhar um v√≠deo clipe lan√ßado no √ļltimo dia 06/12.

O Show¬†consiste em abordar a necessidade da uni√£o dos Pretos,¬†delineando as ¬†conex√Ķes entre a di√°spora africana na modernidade e os movimentos de protesto que se espalharam por pa√≠ses e regi√Ķes perif√©ricas. O que torna o √°lbum √≠mpar pela multidisciplinaridade dos MCs e de seus trabalhos.¬†O percurso a ser percorrido ao ouvir Conex√£o Diaspora¬†¬†inclui di√°logos, estudos dedicados √†s manifesta√ß√Ķes art√≠sticas e intelectuais da Di√°spora ou a elas relacionada e que tamb√©m se ocupam do mapeamento da produ√ß√£o, art√≠stica, cultural e intelectual Preta.

O Repert√≥rio¬†inicia-se com uma apresenta√ß√£o atrav√©s da linguagem do r√°dio, presente na cultura de todos os pa√≠ses e elemento importante de dissemina√ß√£o da cultura hip hop pelo mundo, e logo depois √© apresentada a ideia de diaspora, da travessia do Atl√Ęntico, a mistura das culturas e a constru√ß√£o de suas particularidades em cada pa√≠s, por√©m todos vindas da mesma raiz, que √© o continente africano. Na sequ√™ncia √© apresentada as principais linhas de conex√Ķes, que √© o hip hop, cantado em 4 tons, mostrando toda a pot√™ncia dessa cultura e de cada um dos Mc‚Äôs, mas como ¬†a vis√£o de que o hip hop n√£o se limita unicamente a uma quest√£o est√©tica.

A Produ√ß√£o Musical √©¬†assinada pelo M√ļsico e Produtor Jonathas Noh que ¬†traz uma mistura cultural de ritmos, melodias e rimas, ¬†tendo como ponto central o hip hop e mesclando com a arte do sampler e arranjos precisos, ritmos como ¬†cumbia, salsa, samba, bossa nova, jazz e blues, estilos musicais todos eles, com suas sementes vindas da √Āfrica para germinar com sua particularidade e diversidade, em cada localidade onde encontra seu paradeiro, criando suas ra√≠zes e crescendo. O fruto √© esse encontro de riquezas, que se transformam com caracter√≠stica afro futuristas em Conex√£o Diaspora.

Produ√ß√£o de Conte√ļdo por entender que o Hip Hop √© agente transformador e que a m√ļsica tem poder educacional, o conex√£o Diaspora √© tamb√©m um aditivo no vi√©s educacional. ¬†√Č um trabalho potente em produ√ß√£o musical e de conte√ļdo.

As faixas perpassa pela história, cultura e literatura. Temos como referencial Abdias do Nascimento, Carlos Zappata, Cheik Diop e Malcon X. Nossas faixas tem rimas em Wolof / Francês representado pelo rapper Kunta, que enriquece e nos ensina através do seu dialeto e musicalidade.

O s√≠mbolo feminino de resist√™ncia e liberdade a est√° presente nas nossas m√ļsicas atrav√©s de ¬†Aline Sittoe diarra,Yacine boubou,Mame Diarra bosso, Mame fa dafa Welle, Rosa Parks e Winnie Mandela, as refer√™ncias utilizada para expressar a for√ßa e magnitude da mulher Preta.¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† Conex√£o Diaspora teve seu trabalho pautado em refer√™ncias liter√°rias, pol√≠ticas e muita pesquisa para que o conte√ļdo a ser desenvolvido em uni√£o com toda a produ√ß√£o musical e imparidade dos MC‚Äôs fizesse desse √°lbum um trabalho repleto de informa√ß√£o e conhecimento.¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬† ¬†

A ¬†Produ√ß√£o de conte√ļdo e gest√£o do conhecimento do Conex√£o Diaspora, √© assinada pela Karina Souza, Produtora Cultural ¬†e gestora de conte√ļdo da casa Quebrada Groove.

 A Produtora Quebrada Groove produtora independente oriunda do Capão Redondo tem por objetivo apoiar e difundir os artistas independentes e apoiar toda manifestação social, política e Cultural.  Atuando desde 2012 a Quebrada Groove tem dentro do seu escopo de trabalho o Quebrada Groove convida projeto que já gravaram artistas como: Opaninjé, Dory de Oliveira, Sistah Mari, Finu do Rap e tantos outros nomes da cena do Rap Br.  Em 2018 produz e lança o Conexão Diaspora.

O primeiro single do grupo está disponível em todas as plataformas digitais e em breve novos lançamentos viram por ai!

Elabora√ß√£o de Conte√ļdo: Karina Souza/SJota

Página Conexão Diaspora: https://www.facebook.com/conexaodiaspora
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A Revolu√ß√£o Russa, a √Āfrica e a Di√°spora

Desde a Grande Revolu√ß√£o de Outubro de 1917, os africanos e os descendentes de africanos em todo o mundo gravitaram em dire√ß√£o aos acontecimentos revolucion√°rios na R√ļssia e no comunismo, vendo neles um caminho para sua pr√≥pria liberta√ß√£o. Talvez n√£o surpreendentemente, ent√£o, muitas das principais figuras pol√≠ticas negras do s√©culo XX, na √Āfrica e em outros lugares, foram comunistas, ou pelo menos inspiradas e influenciadas pelo movimento comunista internacional. Estes incluem figuras t√£o diversas como Andr√© Aliker, Aim√© C√©saire, Angela Davis, Shakur Assata, WEB Du Bois, Elma Fran√ßois, Hubert Harrison, Claudia Jones, Alex La Guma, Audley Moore , Josie Mpama, Kwame Nkrumah, George Padmore,Paul Robeson, Jacques Romain, Thomas Sankara, Ousmane Semb√®ne e Lamine Senghor.

Os afro-americanos e os da di√°spora africana ficaram impressionados com a perspectiva de que a Revolu√ß√£o pudesse se espalhar globalmente e sinalizar o fim do sistema centrado no capital e tudo o que o acompanhava, incluindo a opress√£o racista. O poeta Jamaican e escritor Claude McKay , portanto, a que se refere a Revolu√ß√£o de Outubro como ‚Äúo maior evento na hist√≥ria da humanidade‚ÄĚ, e bolchevismo como ‚Äúo maior e mais cient√≠fica ideia no mundo de hoje.‚ÄĚ i Outra jamaicana, Wilfred Domingo perguntou ‚Äú, O bolchevismo realizar√° a plena liberdade da √Āfrica, col√īnias nas quais os negros s√£o a maioria e promover√° a toler√Ęncia e a felicidade humanas nos Estados Unidos? ‚ÄĚii Havia, assim, uma admira√ß√£o inicial pela Revolu√ß√£o, na perspectiva de que ela anunciava a possibilidade de uma alternativa ao sistema centrado no capital, que seria em benef√≠cio daqueles que eram oprimidos nos Estados Unidos e no Caribe, assim como na √Āfrica. Essas foram as perspectivas dessas organiza√ß√Ķes do in√≠cio do s√©culo XX, inspiradas na Revolu√ß√£o de Outubro, como a African Brotherhood Brotherhood, nos Estados Unidos, que incluiu v√°rios comunistas negros como Otto Huiswoud, Cyril Biggs, Harry Haywood e Grace Campbell.

O cantor e ator Paul Robeson durante sua turnê em Moscou em agosto de 1958. Crédito: Anatoliy Garanin / Sputnik, via Associated Press

Uma vez que a nova Uni√£o Sovi√©tica estava mais firmemente estabelecida na d√©cada de 1920, v√°rias figuras proeminentes viajaram para ver em primeira m√£o a constru√ß√£o do socialismo e comentaram sobre a aus√™ncia de racismo e opress√£o nacional. Na verdade, esse era um tema comum nos relatos de testemunhas oculares de visitantes como WEB Du Bois , Langston Hughes e Paul Robeson. J√° em 1926, em seu retorno da Uni√£o Sovi√©tica, o proeminente acad√™mico-ativista afro-americano Du Bois reconheceu publicamenteEu fico perplexo com a revela√ß√£o da R√ļssia que veio a mim … Se o que tenho visto com os meus olhos e ouvido com os meus ouvidos √© bolchevique, eu sou bolchevique. At√© mesmo o famoso pan-africanista George Padmore, um O ex-comunista de Trinidad, que havia se separado do movimento comunista, escreveu um livro importante em 1945, “Como a R√ļssia transformou seu imp√©rio colonial”, mais de uma d√©cada depois de sua expuls√£o. Padmore ainda se sentiu compelido a publicar o que era, na verdade, uma celebra√ß√£o da transforma√ß√£o revolucion√°ria de 1917 e a elimina√ß√£o da opress√£o nacional que, na opini√£o do autor, era uma conseq√ľ√™ncia disso.

O significado da Revolu√ß√£o de Outubro n√£o foi apenas no evento em si, mas o fato de que ela deu origem √† constru√ß√£o de um novo sistema pol√≠tico e econ√īmico na Uni√£o Sovi√©tica e a um novo movimento comunista internacional organizado a partir de 1919 na Terceira Internacional (Comunista), ou Comintern. O objetivo do Comintern era criar as condi√ß√Ķes para a transforma√ß√£o revolucion√°ria fora da Uni√£o Sovi√©tica e, desde o seu in√≠cio, interessou-se muito pela √Āfrica e outras col√īnias, bem como pelo que veio a ser chamado de “Quest√£o Negra” – a quest√£o de como os africanos e os da heran√ßa africana poderiam libertar-se e p√īr fim a todas as formas de opress√£o racista. Na verdade, n√£o havia outra organiza√ß√£o internacional que tomasse essa posi√ß√£o, que se opunha abertamente a ambos colonialismo e racismo e tentou organizar todas as pessoas de ascend√™ncia africana para sua pr√≥pria liberta√ß√£o.

O fato de que o Comintern lutou contra a “Quest√£o Negra”, incluiu em suas fileiras comunistas de todas as nacionalidades e tomou uma posi√ß√£o firme em oposi√ß√£o ao colonialismo e ao racismo, para muitos na √Āfrica e al√©m, mesmo quando havia alguma insatisfa√ß√£o com o comunismo. partidos brit√Ęnicos, franceses, norte-americanos e sul-africanos. Para alguns, esses partidos pareciam estar se arrastando sobre a importante Quest√£o Negra. Havia uma vis√£o generalizada de que o Comintern era mais revolucion√°rio, o guardi√£o do legado da Revolu√ß√£o de Outubro e, portanto, mais preocupado com tais quest√Ķes do que alguns de seus partidos constituintes. Este certamente parecia ser o caso quando o Comintern exigiu que o Partido Comunista na √Āfrica do Sul fosse um partido das massas do povo daquele pa√≠s, liderado por africanos, e que deveria primeiro defender o governo da maioria no que era considerado uma col√īnia de um tipo especial, mesmo se muitos dos l√≠deres daquele partido tivessem uma opini√£o contr√°ria. As decis√Ķes do Comintern foram igualmente firmes e controversas em rela√ß√£o √† orienta√ß√£o a ser adotada para a luta afro-americana pela autodetermina√ß√£o no chamado ‘Black Belt’ nos Estados Unidos. O que quer que se diga da pol√≠tica do Comintern, indubitavelmente elevou o perfil, o significado e a centralidade dessa luta e, como os relatos hist√≥ricos recentes mostraram, estabeleceram muitos dos fundamentos para as lutas posteriores pelos direitos civis e pelo poder negro. Al√©m disso, a posi√ß√£o do Comintern teve um impacto fora dos Estados Unidos, influenciando os partidos comunistas em¬†Cuba e outros pa√≠ses da Am√©rica Latina. Por fim, os comunistas negros assumiram a lideran√ßa exigindo a cria√ß√£o de uma organiza√ß√£o especializada – o Comit√™ Sindical Internacional dos Trabalhadores Negros (ITUCNW).

A import√Ęncia da ITUCNW, seu √≥rg√£o Negro Worker, assim como outras publica√ß√Ķes, foi que a pol√≠tica revolucion√°ria e o impacto da Revolu√ß√£o de Outubro e do Comintern se espalharam pelo mundo – particularmente na √Āfrica e no Caribe, assim como na Europa. no final dos anos 1920 e 1930. Como parte do trabalho dos trabalhadores da ITUCNW e outros foram recrutados das col√īnias brit√Ęnicas na √Āfrica Ocidental, bem como da √Āfrica do Sul e com o tempo, estudantes foram enviados de muitas partes da √Āfrica para a Uni√£o Sovi√©tica. Outros viajaram para ver as consequ√™ncias da Revolu√ß√£o de Outubro do Caribe e dos Estados Unidos. No per√≠odo entre as guerras, centenas fizeram esta jornada incluindo figuras anti-coloniais como Isaac Wallace-Johnson da Serra Leoa, Jomo Kenyatta, futuro primeiro-ministro do Qu√™nia, e Albert Nzula, o primeiro secret√°rio geral negro do Comunismo Sul-Africano. Party (SACP).

Comunistas negros na União Soviética na década de 1930

Talvez o legado mais importante da Revolu√ß√£o de Outubro tenha sido a teoria que emergiu dele e a experi√™ncia de construir um novo sistema social enquanto rodeado por um mundo centrado no capital. O que foi demonstrado foi que outro mundo era poss√≠vel e que aqueles que eram os produtores de valor poderiam ser seus pr√≥prios libertadores e poderiam construir eles pr√≥prios esse novo mundo. Esta alternativa e a perspectiva de liberta√ß√£o continuaram a inspirar indiv√≠duos e organiza√ß√Ķes na √Āfrica e na di√°spora durante o per√≠odo entre guerras e particularmente durante a Segunda Guerra Mundial – quando a Uni√£o Sovi√©tica liderou a derrota do fascismo e criou a possibilidade de liberta√ß√£o nacional e a restaura√ß√£o da soberania naqueles pa√≠ses que se enfraqueceram sob o dom√≠nio colonial.

Para alguns, essa teoria foi incorporada na personalidade e no trabalho de Lenin, que continuou a inspirar muitos. Em 1970, durante uma visita ao Cazaquist√£o, Amilcar Cabral – o famoso l√≠der da luta de liberta√ß√£o nacional no que era ent√£o a Guin√© Portuguesa – teria dito ‚ÄúComo √© que n√≥s, um povo privado de tudo, vivendo em apuros, conseguimos travar nossa luta e obter sucesso? Nossa resposta √©: isto porque Lenin existiu, porque ele cumpriu seu dever como homem, revolucion√°rio e patriota. Lenin foi e continua sendo o maior defensor da liberta√ß√£o nacional dos povos ‚ÄĚ. Cabral estava longe de ser o √ļnico a manifestar sua admira√ß√£o pelo trabalho e contribui√ß√£o de Lenin. Thomas Sankara, o l√≠der revolucion√°rio de Burkina Faso, n√£o apenas expressou sua admira√ß√£o pelos escritos de Lenin, que ele dizia ter lido em sua totalidade, mas foi mais espec√≠fico em seu elogio √† “grande revolu√ß√£o de outubro de 1917 que transformou a mundo, trouxe a vit√≥ria ao proletariado, abalou as bases do capitalismo e possibilitou os sonhos de justi√ßa da Comuna de Paris‚ÄĚ.iii Em 1984, concluiu ele, ‚Äúa revolu√ß√£o de 1917 nos ensina muitas coisas‚ÄĚ.iv

O mundo mudou consideravelmente desde 1917. A Uni√£o Sovi√©tica e a constru√ß√£o do socialismo em alguns outros pa√≠ses foram encerradas. Comunismo – a doutrina das condi√ß√Ķes para a liberta√ß√£o dos produtores de riqueza n√£o foi e n√£o pode ser terminada, embora claramente exista a necessidade de um comunismo moderno que ofere√ßa solu√ß√Ķes para os problemas modernos. A Revolu√ß√£o de Outubro demonstrou que um outro mundo √© poss√≠vel, que essa alternativa n√£o √© uma utopia e que todos podemos ser agentes de mudan√ßa e criadores da hist√≥ria.

i Hakim Adi, pan-africanismo e comunismo: a Internacional Comunista, a √Āfrica e a Di√°spora, 1919-1939 (Trenton: Africa World Press, 2013), 12.

iiIbid., 13.

iiiThomas Sankara Fala: A Revolução de Burkina Faso, 1983-1987 (Londres: Pathfinder, 2015), 165.

ivIbid., 135.

Hakim Adi √© Professor da Hist√≥ria da √Āfrica e da Di√°spora Africana na Universidade de Chichester. Em janeiro de 2018, ele lan√ßou o primeiro programa online de Mestrado em Pesquisa sobre a Hist√≥ria da √Āfrica e a Di√°spora Africana e √© o fundador e consultor historiador do Projeto Jovens Historiadores.¬†√Č o autor dos africanos ocidentais na Gr√£-Bretanha 1900-1960: nacionalismo, pan-africanismo e comunismo (Lawrence e Wishart, 1998); (com M. Sherwood) O Congresso Pan-Africano de Manchester de 1945 Revisitado (New Beacon, 1995) e a Hist√≥ria Pan-Africana: Figuras Pol√≠ticas da √Āfrica e da Di√°spora desde 1787 (Routledge, 2003). Seus livros mais recentes s√£o Pan-africanismo e comunismo: A Internacional Comunista, √Āfrica e a Di√°spora, 1919-1939 (√Āfrica World Press, 2013) e Pan-africanismo: uma hist√≥ria (Bloomsbury Press, 2018)

[su_note note_color=”#fbff3b” text_color=”#000000″ radius=”1″]Originalmente publicado¬†no site¬†Black Perspectives [/su_note]

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Compreendendo Steve Biko: ra√ßa, classe e luta na √Āfrica do Sul

No anivers√°rio do assassinato de Steve Biko, Remi Adekoya, do ROAPE, fala com o acad√™mico e ativista sul-africano Mosa Phadi. Phadi reflete sobre o legado do pensamento radical e importante de Biko, mas tamb√©m discute como ele n√£o considerou alternativas coesas que poderiam agora servir como um contraponto √†s ideias neoliberais. Em uma entrevista abrangente, a Phadi tamb√©m analisa a crise pol√≠tica e econ√īmica na √Āfrica do Sul, os Economic Freedom Fighters-EFF(Combatentes da Liberdade Econ√īmica), os fracassos do ANC e as possibilidades de uma solu√ß√£o na milit√Ęncia e consci√™ncia da luta da classe trabalhadora.

Remi Adekoya: Hoje √© o anivers√°rio do assassinato de Stephen Biko por agentes de seguran√ßa do Estado do apartheid. Desde ent√£o, ele se tornou uma figura de rally imensamente simb√≥lica para muitos negros, especialmente na √Āfrica, mas n√£o apenas. Qual √© a sua opini√£o sobre o legado de Biko hoje e como ele est√° sendo historicamente posicionado?

Mosa Phadi: Eu tenho um problema em como Stephen Biko √© posicionado por nomes como Donald Woods, seu amigo e bi√≥grafo, que atribui toda a filosofia da Consci√™ncia Negra a Biko como se ele emergisse em um v√°cuo. Seu argumento √© basicamente que na √©poca em que Biko emergiu, o Congresso Pan-Africano (PAC) e o Congresso Nacional Africano (ANC) foram ambos organiza√ß√Ķes proibidas, e assim a chegada de Biko preencheu um vazio na luta pela liberdade dos negros.

No entanto, se voc√™ pensar no contexto hist√≥rico da √©poca, esse n√£o foi o caso. Biko, juntamente com outros estudantes, iniciou o movimento da Organiza√ß√£o de Estudantes da √Āfrica do Sul (SASO) em 1968. Se voc√™ pensar em 1968, este foi um ano de protestos globais; voc√™ teve os protestos anti-guerra do Vietn√£, grandes manifesta√ß√Ķes de direitos civis, protestos estudantis. Tamb√©m voltando, havia o pano de fundo de Gana se tornando o primeiro pa√≠s africano a ganhar a independ√™ncia do dom√≠nio colonial em 1957, um evento que impulsionou outros movimentos pr√≥-independ√™ncia em todo o continente africano. Havia Julius Nyerere na Tanz√Ęnia falando sobre um “socialismo africano”.

Antes da d√©cada de 1960, havia a Carta das Mulheres de 1954 na √Āfrica do Sul exigindo igualdade entre homens e mulheres, houve a Marcha das Mulheres de 1956, o massacre de Sharpeville em 1960, a desobedi√™ncia civil durante esse per√≠odo e muitos outros exemplos de luta contra a opress√£o. Ent√£o, retratando a luta sul-africana como essencialmente travada pelo PAC e pelo CNA, e assim que essas organiza√ß√Ķes foram proibidas, houve algum tipo de tr√©gua na luta contra a opress√£o e o apartheid √© uma falsa an√°lise.

Outra quest√£o pouco relatada sobre Biko e a √©poca em que ele atingiu a idade adulta √© como ela foi pega nas contradi√ß√Ķes do stalinismo e da Uni√£o Sovi√©tica em geral. Claramente, isso n√£o era mais uma alternativa, como muitos imaginaram ap√≥s a Segunda Guerra Mundial e a maioria dos ativistas negros, incluindo os¬†Black Panther Party, estavam pensando em esticar o marxismo, usando suas id√©ias quando se tratava de organiza√ß√£o partid√°ria, mas vendo o lumpemproletariado em termos essencialmente raciais como Fanon fez.

Existem semelhan√ßas entre Biko e Stokely Carmichael em termos de organizar os alunos inicialmente usando t√°ticas n√£o-violentas, mas depois se tornando militantes e afirmando a negritude ou “reivindicando a negritude” como Stokely chamaria. Ao mesmo tempo, Malcolm X tamb√©m estava na cena, alegando que a negritude era o oprimido, mas tamb√©m como o agente revolucion√°rio. Os trabalhadores tamb√©m estavam organizando.

Agindo como se nada existisse antes, durante ou depois de Biko √© uma falha na an√°lise. √Č importante enfatizar que ele emergiu em um per√≠odo em que uma fragmenta√ß√£o de id√©ias e erup√ß√Ķes ideol√≥gicas estavam ocorrendo em outros lugares e estes, por sua vez, informavam suas id√©ias.

A id√©ia de Biko de Consci√™ncia Negra, embora original no contexto da √Āfrica do Sul, era muito semelhante √†s id√©ias de Carmichael. Meu ponto √© que sou cr√≠tico daqueles que tentam higienizar essa hist√≥ria descontextualizando a progress√£o de suas id√©ias pol√≠ticas.

Tendo dito tudo isso, Biko foi um pensador muito importante cujas id√©ias foram adotadas por muitos movimentos. Suas id√©ias sobre a consci√™ncia negra foram importantes para focar o que o apartheid fez com a psique dos negros. Ele falou sobre a recupera√ß√£o da negritude, mas tamb√©m pensou em como n√≥s, como negros na √Āfrica do Sul, devemos nos relacionar com os negros e os indianos como os oprimidos. Ele enfatizou que, embora houvesse uma hierarquia de opress√£o racial, todos n√≥s precis√°vamos abordar o sistema como um coletivo oprimido.

A consci√™ncia negra √© uma id√©ia que funciona melhor em um cen√°rio capitalista de supremacia racista. No entanto, sua interpreta√ß√£o hoje √© muito neoliberal. Voc√™ ouve falar de “excel√™ncia negra”, por exemplo, n√£o h√° nada de errado com isso, mas √© um conceito ligado a um enquadramento neoliberal que se concentra no indiv√≠duo. Tal abordagem n√£o ajudar√° a romper com o sistema, mas perpetua desigualdades, pois o capital, por natureza, produz essas desigualdades. Se voc√™ se v√™ como um indiv√≠duo focado em alcan√ßar a “excel√™ncia negra”, esquecendo-se de estruturas que produzem desigualdades, ent√£o voc√™ n√£o est√° ajudando a resolver o problema. Se tais vis√Ķes prevalecerem,

As solu√ß√Ķes de Biko para os problemas negros eram duas: a consci√™ncia negra e o empoderamento econ√īmico negro. A segunda parte √© muito enfatizada recentemente, vemos isso mesmo na agora popular “economia municipal” na √Āfrica do Sul, que √© fundamentalmente neoliberal em sua filosofia. O governo provincial no centro econ√īmico da √Āfrica do Sul procura incentivar a cultura empreendedora em v√°rios munic√≠pios. Por isso, quer apoiar as empresas negras. Essa ideia de crescimento dos neg√≥cios negros era parte da abordagem emancipat√≥ria de Biko. Biko queria criar mercados negros e expandir a propriedade de empresas negras. Uma vez uma id√©ia radical √© usada atualmente para justificar a forma√ß√£o de elite, especialmente entre indiv√≠duos politicamente conectados.

As ideias de Biko, embora radicais na √©poca, n√£o me entendem mal, apesar de jogarem nessa democracia burguesa em que nos encontramos, suas id√©ias eram radicais e importantes na √©poca, mas ele n√£o pensava muito em alternativas coesas que agora poderiam servir como contrap√Ķe-se a id√©ias neoliberais.

Quais das idéias de Biko são populares hoje entre os intelectuais sul-africanos?

Sua morte em 1977 provocou milit√Ęncia entre as pessoas, por exemplo, quando voc√™ pensa na insurg√™ncia dos anos 1980, acho que parte da coragem emergiu das id√©ias da Consci√™ncia Negra de recuperar a negritude. Seus pensamentos sobre como deve ser a liberdade negra, que tipo de mentalidade precisamos para alcan√ß√°-la e atrav√©s de quais m√©todos, ainda permeiam hoje atrav√©s de v√°rios movimentos sociais. Por exemplo, o movimento estudantil Fees Must Fall desencadeado em 2016 sobre est√°tuas que ainda perpetuam s√≠mbolos da inferioridade negra citou Biko extensivamente e suas vis√Ķes se manifestaram em suas demandas. Eles exigiram que as primeiras e mais importantes est√°tuas de pessoas como Cecil Rhodes tivessem que ir, o curr√≠culo deve mudar e deveria haver uma representa√ß√£o maior de intelectuais que se parecem conosco nos ensinando, por exemplo.

As pessoas ainda gravitam em torno de Biko hoje porque, quando voc√™ l√™ seu trabalho, pode se identificar com ele como uma pessoa negra. Mesmo n√£o sendo um tradicionalista que acreditava em culturas fixas, ele estava muito consciente do papel que normas e valores culturais desempenham para os africanos comuns em suas vidas cotidianas. Por exemplo, ele sabia que a religi√£o era importante para as pessoas e sua perspectiva espiritual foi al√©m do cristianismo e incorporou id√©ias de ancestrais. Ele falou sobre como a m√ļsica pode iluminar a alma ferida, ele aproveitou as experi√™ncias di√°rias para realizar o potencial da cultura cotidiana para radicalizar e galvanizar as pessoas para a a√ß√£o. Quando voc√™ o l√™, ele acende o esp√≠rito radical em voc√™ para dizer: ‘sim, n√≥s podemos lutar contra o sistema, sim, n√≥s temos o direito de lutar contra o sistema’. Mas depois disso, voc√™ precisa pensar em que tipo de mundo voc√™ quer substituir o sistema atual. Aqui √© onde estavam suas limita√ß√Ķes. Mas como uma luz para acender a a√ß√£o, ele era muito importante.

Quais são algumas das ideias mais populares entre os intelectuais sul-africanos hoje em relação ao caminho a seguir para o país?

Na academia, especialmente depois do movimento Fees Must Fall, a quest√£o mais popular √© a da descoloniza√ß√£o. Semin√°rio ap√≥s semin√°rio, confer√™ncia ap√≥s confer√™ncia e artigo ap√≥s artigo foram escritos sobre isso. A inspira√ß√£o principal vem da bolsa de estudos latino-americana enfatizando a necessidade de descolonizar, por exemplo, o sistema de conhecimento entre outras quest√Ķes estruturais mais amplas na √Āfrica do Sul, que s√£o inerentemente orientadas para o Ocidente e impregnadas de racismo. Esta √© a escola mais popular de pensamento hoje.

As id√©ias marxistas foram rejeitadas, como de fato Biko as rejeitou em seus dias. A liga√ß√£o entre classe e ra√ßa n√£o foi integral em nossa an√°lise, o marxismo n√£o conseguiu incorporar a ra√ßa na equa√ß√£o. Enquanto isso, quest√Ķes centradas em torno de nossa hist√≥ria e opress√£o s√£o muito importantes para as pessoas. As pessoas usam termos como “gatilhos” para se referir √† dor que nos foi infligida no passado e enfatizam que precisamos remediar isso. No entanto, o marxismo na √Āfrica do Sul √© incapaz de oferecer uma an√°lise de como uma hist√≥ria de opress√£o racial e ser negro enquadra como as pessoas se relacionam com v√°rias lutas al√©m da abordagem oper√°ria.

Os Combatentes da Liberdade Econ√īmica (EFF) de Julius Malema s√£o bastante populares hoje entre as classes trabalhadoras e alguns intelectuais negros. Isso se deve ao fracasso da ANC em mudar radicalmente a vida das pessoas nos munic√≠pios onde h√° enorme desemprego. Eu venho de uma cidade chamada Kagiso. Quando eu vou para casa, em um dia de semana, parece um fim de semana l√°, jovens homens e mulheres nas ruas sem emprego. H√° protestos praticamente ininterruptos, pessoas exigindo servi√ßos. Na d√©cada de 1990, as pessoas esperavam pacientemente pela mudan√ßa, mas, nos anos 2000, come√ßaram a perceber que isso n√£o estava acontecendo. Isso desencadeou alguns ataques xen√≥fobos, como os recentes, contra donos de lojas paquistanesas, que foram saqueados por pessoas que se queixavam de que estavam vendendo comida estragada. Os impostos aumentaram, o IVA foi aumentado em abril levando a aumentos acentuados nos pre√ßos dos alimentos. H√° tens√£o em todos os lugares.

Essa √© a crise em que estamos desde que Ramaphosa se tornou o presidente, apertando n√£o apenas os pobres, mas tamb√©m a classe m√©dia. Isso criou espa√ßo para a EFF, especialmente com Malema for√ßando a conversa sobre a corrida no f√≥rum p√ļblico. At√© ent√£o, a esquerda tinha ficado obcecada com a aula, enquanto a conversa sobre ra√ßa tinha sido silenciada. A esquerda concentrou-se nas estruturas econ√īmicas, negligenciando a manifesta√ß√£o cotidiana de ser negro. Eles sentiram falta dos sentimentos que os jovens tinham sobre n√£o ser apenas pobres, mas pobres e negros tamb√©m. Malema explorou isso muito bem. Ele tamb√©m usa a metodologia dos Black Panther Party, utilizando um modelo marxista-leninista de estruturas partid√°rias combinadas com elementos Fanonianos incorporando ra√ßa e tratando o indiv√≠duo racialmente oprimido como um sujeito revolucion√°rio. Novamente, isso remonta √†s id√©ias dos anos 60 antes e durante o per√≠odo ativista de Biko. Embora envolvidos em alguns esc√Ęndalos de corrup√ß√£o, a EFF tem atra√≠do jovens desempregados, principalmente homens, mas tamb√©m algumas pessoas de classe m√©dia que experimentaram racismo nas corpora√ß√Ķes em que trabalham, que ainda s√£o em grande parte propriedade de pessoas brancas. Alguns intelectuais negros tamb√©m foram atra√≠dos para a EFF.

No entanto, muitos dos protestos nas ruas exigindo servi√ßos b√°sicos como √°gua e eletricidade n√£o s√£o organizados por nenhum partido pol√≠tico ou movimento, eles n√£o t√™m pol√≠ticas espec√≠ficas, eles simplesmente querem servi√ßos. Os novos movimentos estudantis, enquanto isso, n√£o est√£o apenas usando o Biko como um s√≠mbolo, mas tamb√©m desafiando a din√Ęmica de g√™nero, as ideias de feminismo se tornaram um debate fundamental nas lutas com o poder e o patriarcado. As mulheres est√£o protestando contra a viol√™ncia dom√©stica e o patriarcado, mais uma vez nos levando de volta √†s id√©ias dos anos 1960, que est√£o voltando de maneiras diferentes. Em geral, id√©ias revolucion√°rias sobre ra√ßa e g√™nero que remontam aos anos 50 e 60 est√£o retornando, a √ļnica diferen√ßa √© que elas est√£o emergindo hoje em forma e estilo modernos, especialmente com a prolifera√ß√£o de m√≠dias sociais que podem ser usadas para espalhar uma mensagem muito rapidamente.

Existe alguma parte que, na sua opini√£o, se eles chegaram ao poder, seria melhor implantar esse poder para a melhoria das pessoas? Voc√™ mencionou a EFF de uma forma bastante positiva, mas disse que eles tamb√©m foram implicados em esc√Ęndalos de corrup√ß√£o. Com base em que voc√™ os associa a quaisquer esperan√ßas de mudan√ßa positiva para os sul-africanos oprimidos? Como voc√™ sabe, a hist√≥ria est√° repleta de exemplos, muitos na √Āfrica, infelizmente, de pessoas subindo ao poder com o apoio de todos os tipos de slogans igualit√°rios, apenas para se empanturrarem com os recursos do estado quando chegarem l√°.

Bem, quais s√£o as op√ß√Ķes? Existe a Alian√ßa Democr√°tica, que √© um partido muito liberal, ent√£o voc√™ tem a garantia de um conjunto de pol√≠ticas econ√īmicas liberais se elas chegarem ao poder. Al√©m disso, eles parecem n√£o dar √™nfase √† nossa hist√≥ria e n√£o reconhecem as cicatrizes psicol√≥gicas que o apartheid deixou nos negros. Ideologicamente, esta n√£o √© uma op√ß√£o vi√°vel para mim. Ent√£o voc√™ tem o ANC e o EFF. A EFF quer o capitalismo de estado. Eles devem ser entendidos como uma parte que resta do ANC, n√£o aquela de esquerda que voc√™ entende, mas simplesmente deixada do ANC. Eu votarei neles. N√£o porque eu acredite que eles, ou qualquer outra parte, possam emancipar a classe trabalhadora. N√£o, a classe trabalhadora precisa encontrar a ag√™ncia em si para lutar por si mesma.

Nenhum pol√≠tico ou partido pol√≠tico salvar√° a classe trabalhadora ou os pobres, n√£o sejamos delirantes. Para mim, a esperan√ßa √© que a classe trabalhadora se organize e lute por si mesma. A EFF quer o capitalismo de estado e isso pode acontecer de duas maneiras, como mostra a hist√≥ria. Pode se tornar muito autorit√°rio ou focar na constru√ß√£o de novas formas de elites. A EFF √© importante para os debates entre as ra√ßas, mas n√£o acredito ingenuamente que eles ser√£o nossos salvadores. Como sempre, a classe trabalhadora continuar√° tentando novos partidos, esperando algo melhor. Mas apenas sua milit√Ęncia pode for√ßar a mudan√ßa. A EFF √© filha do ANC e n√£o pode romper com os elos corruptos do ANC.

Qual seria ent√£o o valor agregado da EFF para os sul-africanos regulares se um dia eles ganhassem poder?

Se eles chegarem ao poder, √© claro que haver√° reformas, eles n√£o seriam capazes de simplesmente governar de uma maneira normal. Eles teriam que fazer concess√Ķes aos pobres. A quest√£o da terra seria abordada, a terra se tornaria estatal. Com rela√ß√£o aos principais setores financeiros, como a minera√ß√£o, eles est√£o atualmente tentando propagar um sistema de propriedade de tr√™s vias, no qual o Estado teria, digamos, 50% de uma mina, a comunidade 10% e o restante seria privatizado. Eles querem mostrar que est√£o prontos para negociar com ele e, ao mesmo tempo, tentar sustentar sua imagem radical.

Mas eles abriram um espa√ßo no debate, encorajaram as pessoas a acreditarem que t√™m o direito de pressionar. Sei que a milit√Ęncia com a qual eles vieram n√£o pode ser sustentada se eles ganharem poder. Se vencerem, haver√° algumas grandes reformas, mas haveria contradi√ß√Ķes tamb√©m, sem d√ļvida. E sim, h√° o perigo de tend√™ncias ditatoriais neles. Esse √© o risco envolvido com eles. No entanto, eu ainda acho que a classe trabalhadora deve votar para o EFF exigindo algumas reformas espec√≠ficas.

Então, basicamente você aceita que eles são um risco, mas acha que eles são um risco que vale a pena correr?

Sim eu quero. Al√©m disso, uma quest√£o importante que merece cr√©dito por adotar a agenda tamb√©m √© a da reforma agr√°ria, a id√©ia da expropria√ß√£o de terras sem compensa√ß√£o. Embora tenha havido v√°rios movimentos de sem-terra nos anos 2000, a EFF encorajou essa demanda e agora o parlamento aprovou uma resolu√ß√£o para emendar a constitui√ß√£o que permite a desapropria√ß√£o de terras sem compensa√ß√£o. No entanto, neste momento, est√£o em andamento consultas p√ļblicas, que devem terminar com um relat√≥rio at√© o final de setembro.

Se o presidente Ramaphosa eventualmente assina essa emenda em lei, existe algum plano para como exatamente esse processo seria?

N√£o, neste momento n√£o houve nenhum debate sobre quem conseguiria o qu√™ e com que base. Os pol√≠ticos s√£o simplesmente apanhados na milit√Ęncia das pessoas que est√£o exigindo reformas. Toda essa quest√£o da terra tamb√©m reflete id√©ias popularizadas por Biko anos atr√°s. Al√©m do desejo f√≠sico que as pessoas t√™m de recuperar suas terras, isso tamb√©m faz parte de um reconhecimento psicol√≥gico de que esta √© a sua terra.. O planejamento de nossas cidades hoje ainda √© o mesmo que era sob o apartheid, com os desenvolvedores capazes de manter certas √°reas exclusivamente ricas e brancas. Ou mesmo nas √°reas rurais, voc√™ tem uma situa√ß√£o em que todas as melhores terras agr√≠colas s√£o de propriedade dos brancos, ent√£o eles s√£o os fazendeiros, enquanto os negros s√£o simples residentes da aldeia com alguns negros que conseguiram dividir seu espa√ßo no setor agr√≠cola. As pessoas agora est√£o imaginando um tipo diferente de espa√ßo; um tipo diferente de √Āfrica do Sul e pol√≠ticos est√£o correndo para responder porque querem votos. Mas a discuss√£o sobre quem obter√° o qu√™ e se esse processo realmente fortalecer√° os sul-africanos mais pobres ainda n√£o foi iniciado.

Mosa Phadi concluiu seu doutorado na Universidade de Joanesburgo em 2017. Ela trabalhou durante anos em quest√Ķes raciais e de classe, incluindo dois relat√≥rios inovadores sobre os munic√≠pios locais de Mogalakwena e Lephalale. Ela trabalha como pesquisadora h√° mais de seis anos, publicou artigos revisados por pares e produziu um document√°rio de pesquisa com foco na ideia de classe m√©dia em Soweto.

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Publicado no site¬†ROAPE 12, de setembro, 2018¬†Compreendendo Steve Biko: ra√ßa, classe e luta na √Āfrica do Sul

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Grupo Kilombagem Entrevista: Thiago Elni√Īo sobre religiosidade e negritude em seu trabalho

Thiago Elni√Īo √© da ala dos MCs comprometidos. Mas √© um comprometimento diferenciado, capaz de aliar religiosidade, musicalidade, autoestima e coer√™ncia em cada passo, ou melhor em cada verso. Esses versos geralmente, seguem em dire√ß√£o ao bem-estar, resist√™ncia, e a melhoria da qualidade de vida da popula√ß√£o negra brasileira.
Ele faz parte dos novos artistas que ergueram-se por meio da internet, entretanto √© um rapper engajado e preocupado com as rela√ß√Ķes sociais e raciais do pa√≠s. Tamb√©m √© educador popular e pedagogo.
Desde 2016 que alguns integrantes do Grupo Kilombagem, vem acompanhando o trabalho do Thiago Elni√Īo. E, nesta entrevista o rapper, mando o papo reto, sobre seu primeiro disco A Rotina do Pombo(2017).

N√£o sei se a escola aliena mais do que informa
Te revolta ou te conforma com as merdas que o mundo t√°
Nem todo livro, irm√£o, foi feito pra livrar
Depende da história contada e também de quem vai contar

Grupo kilombagem GK РComo começa sua história na cultura Hip Hop/Rap?

Thiago Elni√Īo – Minha historia com o Hip Hop come√ßou no final dos anos 90 quando o rock me rejeitou e eu tive que encontrar uma cultura onde eu n√£o sofresse racismo! Foi quando eu percebi que eu n√£o sabia, mas de alguma forma eu j√° era Hip Hop mesmo n√£o praticando nenhum dos elementos art√≠sticos!

GK – Voc√™ adotou o codinome Elni√Īo, poderia falar sobre o significado?

Thiago Elni√Īo – O Elni√Īo antes eu achava que era um personagem, e hoje eu entendo que √© o momento onde existe um catarse entre eu e os elementos da minhas ancestralidade que se d√£o no momento que eu fa√ßo m√ļsica, dai existe um contraste de quando estou no palco, onde naturalmente sou mais comunicativo e agressivo, fora dele sou mais calado e t√≠mido, essa dualidade tem haver com o fen√īmeno clim√°tico Elni√Īo que na √©poca em que adotei esse codinome, fazia com que o clima tivesse altera√ß√Ķes repentinas, hora sol, hora fria em um curto per√≠odo de tempo!

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GK – Quais s√£o suas influ√™ncias musicais? E caso haja outras influ√™ncias al√©m da m√ļsica, poderia nos dizer quais s√£o?

Thiago Elni√Īo – Tenho percebido que a maioria das coisas que me chapam e me influenciam diretamente sa√≠ram do samba e do Jorge Ben, o Dub jamaicano tamb√©m me atropela. Fela Kuti, KL Jay e Bneg√£o me deram par√Ęmetros do que um artista preto deve ser, foda na m√ļsica, foda na postura. Para al√©m disso tem revistas em quadrinho, arquitetura e moda, tudo isso entra no cadeir√£o.

GK – O Web clipe Di√°spora tem mais de dois anos que foi lan√ßado, e nos brinda com diversos elementos e v√°rias rela√ß√Ķes com as religi√Ķes de matriz africana, que voc√™ pode dizer sobre esse seu trabalho? Como foi a produ√ß√£o desse web clipe, que √© o segundo mais visualizado em seu canal?

Thiago Elni√Īo – Esse clipe foi feito pouco tempo depois de eu ser absorvido pela Umbanda, foi um momento bonito para caramba n√£o s√≥ para mim mas para a espiritualidade africana e o culto aos orix√°s na minha regi√£o, teve impacto direto a um maior reconhecimento e pertencimento dos pretos daqui quanto algo que √© nosso. √Č importante destacar que aquilo foi um trabalho muito coletivo e fundamentado. Agrade√ßo muito aos meus guias por terem me deixado ser parte disso.

GK – Em seu primeiro √°lbum intitulado A Rotina do Pombo(2017), voc√™ aponta uma forte semelhan√ßa entre pretos e pombos, poderia falar mais sobre isso? Faz uno ano que esse disco est√° na rua, j√° logrou os objetivos que prop√īs?

Thiago Elni√Īo – Tanto pombos quanto pretos s√£o lindos e s√£o for√ßados a macro e micro di√°sporas onde s√£o for√ßados a ocupar os centros urbanos em espa√ßos onde s√£o vistos como pragas, como algo sujo e comedores de migalhas, salario m√≠nimo, lixo, e essa porcaria industrializadas que nos d√£o para comer. Mas os que se ad√©quam, ou os que tem a penagem mais branca, podem ser aceitos e ate vistos como s√≠mbolos de paz, ou de uma miscigena√ß√£o positiva.

O disco n√£o cumpriu seus objetivos maiores, muito pouca gente ouviu e seu retorno econ√īmico n√£o √© algo que me permita fazer outro sem que para isso eu passe algumas dificuldades financeiras. Mas isso n√£o pode me deixar frustrado e nem cessar minha produ√ß√£o por que coisas bonitas tamb√©m foram alcan√ßadas por ele e por todo meu trabalho, e a gente sabe o solo onde ta pisando e o tanto que as coisas v√£o para al√©m de um artista preto ter talento ou n√£o.

GK – Temas como ancestralidade, religiosidade, negritude e problemas sociais aparece nitidamente em seu trabalho, existem algum tipo de rela√ß√£o, intera√ß√£o com os artistas mais velhos/as, ou intelectuais de outras gera√ß√Ķes?

Thiago Elni√Īo – O tempo todo, os mais velhos s√£o fundamentais para o meu processo e se eu deixo de ouvi-los Omulu n√£o vai me ser t√£o bom quanto √©. Desde de meus familiares a educadores, dirigentes de espa√ßos de f√©, ate a literatura que vai de Malcolm X a Carlos Moore.

GK – Em sua opini√£o, quais s√£o as maiores e importantes conquistas do Hip Hop brasileiro? E quais s√£o as limita√ß√Ķes na cena atual?

Thiago Elni√Īo – O Hip Hop √© um caminho, e esse caminho foi tra√ßado muito bem por muitos de n√≥s que conseguiu atrav√©s dele acessar conte√ļdos que permitam investigar o nosso papel como homens e mulheres pretas, ao mesmo tempo, o Hip Hop sempre teve uma rela√ß√£o muito intima com o capitalismo, e isso faz com que parte da ruptura necess√°ria com matrizes colonizadoras para que tenhamos uma real autonomia do povo preto fiquem comprometidas, √© um dilema que pessoalmente vivo. Dentro disso, das concess√Ķes que o Hip Hop fez, n√£o √© t√£o honesto da nossa parte as reclama√ß√Ķes de que nossa cultura tem sido sequestrada sem uma auto-analise de o quanto somos fr√°geis e o quanto ainda somos vitimas de velhas artimanhas do sistema. Sistema esse que odeia os pretos, e nos mata ao som da nossa pr√≥pria m√ļsica!

GK – A reforma Educacional responde a interesses internacionais e acordo com o Banco Mundial, visando a produ√ß√£o de “Deficientes C√≠vicos” como versou o Geografo M√≠lton Santos sobre a globaliza√ß√£o e o papel da educa√ß√£o em pa√≠ses perif√©ricos. √Č sabido que a discuss√£o acerca da retirada de disciplinas que suscitam o censo cr√≠tico como: Hist√≥ria, Filosofia e sociologia n√£o d√£o conta da discuss√£o das rela√ß√Ķes raciais brasileira, critica que podemos verificar explicitamente em sua m√ļsica Pedagoginga. Como voc√™ v√™ a implanta√ß√£o e discuss√£o da Lei 10.639/03 que institui o ensino da √Āfrica e Afro-brasileira no curr√≠culo do ensino p√ļblico e privado em todos os n√≠veis educacionais? Quais os desafios enfrentados para sua efetiva√ß√£o?

Thiago Elni√Īo – Nunca vai funcionar, a escola n√£o foi feita para funcionar, o exerc√≠cio que tenho feito como pedagogo, e veja que n√£o me orgulho desse diploma pois foi apenas algo que eu tive que fazer para legitimar minha coloca√ß√£o no mercado de trabalho, √© entrar dentro das escolas e sugerir outros espa√ßos onde esses jovens possam buscar conte√ļdos que facilitem sua autonomia. A lei 10.639/03 √© uma √≥tima inten√ß√£o, que abre uma fresta para gente entrar ali, mas ela √© mal utilizada por que ela foi feita para ser mal utilizada e dentro de um sistema que sabe nos dar com o p√© e tirar com m√£os sujas com o sangue do nosso povo.

GK – Qual √© seu maior √™xito at√© momento?

Thiago Elni√Īo – Cara, eu passei dos 30 sem ser morto nem fisicamente, nem espiritualmente, conheci muitas pessoas e lugares que me ensinaram muito e tenho e conseguindo pagar as contas com alguma dignidade vivendo de atividades ligadas a cultura Hip Hop, n√£o ta bom pois n√£o consegui expandir isso em quantidade e qualitativa para quem esta ao meu redor, mas tamb√©m n√£o esta p√©ssimo!

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GK – Vimos que seu √ļltimo trabalho foi o Web-clipe intitulado “N√£o Conforme” com participa√ß√£o de Bia Doxum. Como foi a experi√™ncia. Existe algum trabalho a vista com participa√ß√£o de algum artista independente?

Thiago Elni√Īo – Eu e a Bia, assim como outros artistas que pautam oque pautamos e assumem a responsabilidade de fazer isso de uma forma que honre nossos ancestrais tem de estar mais pr√≥ximos, ate mesmo para que a gente para de deslizar tanto, mais pr√≥ximos nos fortificamos e nos ‚Äúvigiarmos‚ÄĚ mais, e vigiar √© diferente de fazer patrulha. Eu e Bia aprendemos muito nesse processo que foi construir essa vers√£o de ‚ÄúN√£o Conforme‚ÄĚ, sem duvida vamos fazer mais coisas juntos.

Existem muitos trabalhos vindos para esse ano para que 2019 eu possa me retirar por um tempo e me concentrar nos estudos e outras a√ß√Ķes que me permitam um retorno onde eu seja mais dono de mim e √ļtil para o meu povo.

GK – Quais seus planos para o futuro?

Thiago Elni√Īo – Eu to focado em parar de derrapar tanto quanto homem preto, como africano em di√°spora que tem como objetivo ser √ļtil para o meu povo, isso vai acabar refletindo diretamente na minha arte que √© o que de mais qualitativo ate aqui tenho para oferecer. Descolonizar. Para isso vou precisar produzir muito em 2018, e me retirar em 2019 para estudos e praticas ligadas a educa√ß√£o. Ent√£o espero ate o final do ano deixar um ou dois EPs e alguns clipes.

GK РE por fim, na sua opinião qual é o caminho para superação do racismo?

Thiago Elni√Īo – Hoje penso que o racismo √© insuper√°vel enquanto os pretos n√£o romperem com os racistas de alguma forma! S√≥ dai a gente poder√° pensar no que ser√°, em outra coisa.

Foi por falta de identidade, que eu vacilei, ramelei n√£o vi
Que eu era bem diferente dos caras que estavam ali
Na MTV, quando o que passava n√£o era YO!
Esse pretinho quer ser branco ó, cala boca Jhow

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Boaventura: o Colonialismo e o século XXI

√Č hora de declarar incumprida uma das grandes promessas modernas. O homem branco jamais aceitou a igualdade. Novas lutas precisar√£o imp√ī-la

Por Boaventura de Sousa Santos

 

Para Marielle Franco, in memoriam

O termo alem√£o¬†Zeitgeist¬†√© hoje usado em diferentes l√≠nguas para designar o clima cultural, intelectual e moral de uma dada √©poca, literalmente, o esp√≠rito do tempo, o conjunto de cren√ßas e de ideias que comp√Ķem a especificidade de um per√≠odo hist√≥rico. Na Idade Moderna, dada a persist√™ncia da ideia do progresso, uma das maiores dificuldades em captar o esp√≠rito de uma dada √©poca reside em identificar as continuidades com √©pocas anteriores, quase sempre disfar√ßadas de descontinuidades, inova√ß√Ķes, rupturas. E para complicar ainda mais a an√°lise, o que permanece de per√≠odos anteriores √© sempre metamorfoseado em algo que simultaneamente o denuncia e dissimula e, por isso, permanece sempre como algo diferente do que foi sem deixar de ser o mesmo. As categorias que usamos para caracterizar uma dada √©poca s√£o demasiado toscas para captar esta complexidade, porque elas pr√≥prias s√£o parte do mesmo esp√≠rito do tempo que supostamente devem caracterizar a partir de fora. Correm sempre o risco de serem anacr√īnicas, pelo peso da in√©rcia, ou ut√≥picas, pela leveza da antecipa√ß√£o.

Tenho defendido que vivemos em sociedades capitalistas, coloniais e patriarcais, por refer√™ncia aos tr√™s principais modos de domina√ß√£o da era moderna: capitalismo, colonialismo e patriarcado ou, mais precisamente, hetero-patriarcado. Nenhuma destas categorias √© t√£o controversa, quer entre os movimentos sociais, quer na comunidade cient√≠fica, quanto a de colonialismo. Fomos todos t√£o socializados na ideia de que as lutas de liberta√ß√£o anti-colonial do s√©culo XX puseram fim ao colonialismo que √© quase uma heresia pensar que afinal o colonialismo n√£o acabou, apenas mudou de forma ou de roupagem, e que a nossa dificuldade √© sobretudo a de nomear adequadamente este complexo processo de continuidade e mudan√ßa. √Č certo que os analistas e os pol√≠ticos mais avisados dos √ļltimos cinquenta anos tiveram a percep√ß√£o aguda desta complexidade, mas as suas vozes n√£o foram suficientemente fortes para p√īr em causa a ideia convencional de que o colonialismo propriamente dito acabara, com exce√ß√£o de alguns poucos casos, os mais dram√°ticos sendo possivelmente o Sahara Ocidental, a col√īnia hispano-marroquina que continua subjugando o povo saharaui e a ocupa√ß√£o da Palestina por Israel. Entre essas vozes, √© de salientar a do grande soci√≥logo mexicano Pablo Gonzalez Casanova com o seu conceito de colonialismo interno para caraterizar a perman√™ncia de estruturas de poder colonial nas sociedades que emergiram no s√©culo XIX das lutas de independ√™ncia das antigas col√īnias americanas da Espanha. E tamb√©m a voz do grande l√≠der africano, Kwame Nkrumah,¬† primeiro presidente da Rep√ļblica do Gana, com o seu conceito de neocolonialismo para caracterizar o dom√≠nio que as antigas pot√™ncias coloniais continuavam a deter sobre as suas antigas col√īnias, agora pa√≠ses supostamente independentes.

união política africana(Julius Nyerere, Kwame Nkrumah, W.E.B Dubois, e Jomo kenyatta)

Uma reflex√£o mais aprofundada dos √ļltimos 60 anos leva-me a concluir que o que quase terminou com os processos de independ√™ncia do s√©culo XX foi uma forma espec√≠fica de colonialismo, e n√£o o colonialismo como modo de domina√ß√£o. A forma que quase terminou foi o que se pode designar por colonialismo hist√≥rico caracterizado pela ocupa√ß√£o territorial estrangeira. Mas o modo de domina√ß√£o colonial continuou sob outras formas e, se as considerarmos como tal, o colonialismo est√° talvez hoje t√£o vigente e violento como no passado. Para justificar esta asser√ß√£o √© necess√°rio especificar em que consiste o colonialismo enquanto modo de domina√ß√£o. Colonialismo √© todo o modo de domina√ß√£o assente na degrada√ß√£o ontol√≥gica das popula√ß√Ķes dominadas por raz√Ķes etno-raciais. √Äs popula√ß√Ķes e aos corpos racializados n√£o √© reconhecida a mesma dignidade humana que √© atribu√≠da aos que os dominam. S√£o popula√ß√Ķes e corpos que, apesar de todas as declara√ß√Ķes universais dos direitos humanos, s√£o existencialmente considerados sub-humanos, seres inferiores na escala do ser, e as suas vidas pouco valor t√™m para quem os oprime, sendo, por isso, facilmente descart√°veis. Foram inicialmente concebidos como parte da paisagem das terras ‚Äúdescobertas‚ÄĚ pelos conquistadores, terras que, apesar de habitadas por popula√ß√Ķes ind√≠genas desde tempos imemoriais, foram consideradas como terras de ningu√©m,¬†terra nullius. Foram tamb√©m considerados como objetos de propriedade individual, de que √© prova hist√≥rica a escravatura. E continuam hoje a ser popula√ß√Ķes e corpos v√≠timas do racismo, da xenofobia, da expuls√£o das suas terras para abrir caminho aos megaprojetos mineiros e agroindustriais e √† especula√ß√£o imobili√°ria, da viol√™ncia policial e das mil√≠cias paramilitares, do tr√°fico de pessoas e de √≥rg√£os, do trabalho escravo designado eufemisticamente como ‚Äútrabalho an√°logo ao trabalho escravo‚ÄĚ para satisfazer a hipocrisia¬† bem-pensante das rela√ß√Ķes internacionais, da convers√£o das suas comunidades de rios cristalinos e florestas id√≠licas em infernos t√≥xicos de degrada√ß√£o ambiental. Vivem em zonas de sacrif√≠cio, a cada momento em risco de se transformarem em zonas de n√£o-ser.

As novas formas de colonialismo s√£o mais insidiosas porque ocorrem no √Ęmago de rela√ß√Ķes sociais, econ√īmicas e pol√≠ticas dominadas pelas ideologias do anti-racismo, dos direitos humanos universais, da igualdade de todos perante a lei, da n√£o-discrimina√ß√£o, da igual dignidade dos filhos e filhas de qualquer deus ou deusa. O colonialismo insidioso √© gasoso e evanescente, t√£o invasivo quanto evasivo, em suma, ardiloso. Mas nem por isso engana ou minora o sofrimento de quem √© dele v√≠tima na sua vida quotidiana. Floresce em¬†apartheids¬†sociais n√£o institucionais, mesmo que sistem√°ticos. Tanto ocorre nas ruas como nas casas, nas pris√Ķes e nas universidades como nos supermercados e nos batalh√Ķes de pol√≠cia. Disfar√ßa-se facilmente de outras formas de domina√ß√£o tais como diferen√ßas de classe e de sexo ou sexualidade mesmo sendo sempre um componente constitutivo delas. Verdadeiramente s√≥ √© capt√°vel em¬†close-ups, instant√Ęneos do dia-a-dia. Em alguns deles, o colonialismo insidioso surge como saudade do colonialismo, como se fosse uma esp√©cie em extin√ß√£o que tem de ser protegida e multiplicada. Eis alguns desses instant√Ęneos.

Ojos de Sur Caricaturas Cartoons

Primeiro instant√Ęneo.¬†Um dos √ļltimos n√ļmeros de 2017 da respeit√°vel revista cient√≠fica¬†Third World Quarterly,¬†dedicada aos estudos p√≥s-coloniais, inclu√≠a um artigo de autoria de Bruce Gilley, da Universidade Estadual de Portland, intitulado ‚ÄúEm defesa do colonialismo‚ÄĚ. Eis o resumo do artigo: ‚ÄúNos √ļltimos cem anos, o colonialismo ocidental tem sido muito maltratado. √Č chegada a hora de contestar esta ortodoxia. Considerando realisticamente os respectivos conceitos, o colonialismo ocidental foi, em regra, tanto objetivamente ben√©fico como subjetivamente leg√≠timo na maior parte dos lugares onde ocorreu. Em geral, os pa√≠ses que abra√ßaram a sua heran√ßa colonial tiveram mais √™xito do que aqueles que a desprezaram. A ideologia anti-colonial imp√īs graves preju√≠zos aos povos a ela sujeitos e continua a impedir, em muitos lugares, um desenvolvimento sustentado e um encontro produtivo com a modernidade. H√° tr√™s formas de estados fracos e fr√°geis recuperarem hoje o colonialismo: reclamando modos coloniais de governa√ß√£o; recolonizando certas √°reas; e criando novas col√īnias ocidentais‚ÄĚ.¬†O artigo causou uma indigna√ß√£o geral e quinze membros¬†do conselho editorial da revista demitiram-se. A press√£o foi t√£o grande que o autor acabou por retirar o artigo da vers√£o eletr√īnica da revista, mas permaneceu na vers√£o j√° impressa. Foi um sinal dos tempos? Afinal, o artigo fora sujeito a revis√£o an√īnima por pares. A controv√©rsia mostrou que a defesa do colonialismo estava longe de ser um ato isolado de um autor tresloucado.¬† ¬†

A “LIGA DAS GAROTAS ALEM√ÉS” DE HITLER

Segundo instant√Ęneo.¬†O¬†Wall Street Journal¬†de 22 de mar√ßo passado publicou uma¬†reportagem¬†intitulada ‚ÄúProcura de s√™men americano disparou no Brasil‚ÄĚ.¬† Segundo a jornalista, a importa√ß√£o de s√™men americano por mulheres solteiras e casais de l√©sbicas brasileiras ricas aumentou extraordinariamente nos √ļltimos sete anos e os perfis dos doadores selecionados mostram a prefer√™ncia por crian√ßas brancas e com olhos azuis. E acrescenta: ‚ÄúA prefer√™ncia por dadores brancos reflete uma persistente preocupa√ß√£o com a ra√ßa num pa√≠s em que a classe social e a cor da pele coincidem com grande rigor. Mais de 50% dos brasileiros s√£o negros ou mesti√ßos, uma heran√ßa que resultou de o Brasil ter importado dez vezes mais escravos africanos do que os Estados Unidos; foi o √ļltimo pa√≠s a abolir a escravatura, em 1888. Os descendentes de colonos e imigrantes brancos ‚Äď muitos dos quais foram atra√≠dos para o Brasil no final do s√©culo XIX e princ√≠pio do s√©culo XX quando as elites no governo procuraram explicitamente ‚Äėbranquear‚Äô a popula√ß√£o ‚Äď controlam a maior parte do poder pol√≠tico e da riqueza do pa√≠s. Numa sociedade t√£o racialmente dividida, ter descend√™ncia de pele clara √© visto muitas vezes como um modo de providenciar √†s crian√ßas melhores perspectivas, seja um sal√°rio mais elevado ou um tratamento policial mais justo‚ÄĚ.¬†

Terceiro instant√Ęneo.¬†Em 24 de mar√ßo o mais influente jornal da Africa do Sul,¬†Mail & Guardian,¬†publicou uma reportagem intitulada ‚ÄúGenoc√≠dio branco: como a grande mentira se espalhou para os Estados Unidos e outros pa√≠ses‚ÄĚ. Segundo o jornalista, ‚ÄúO Suidlanders, um grupo sul-africano de extrema direita, tem estabelecido contato com outros grupos extremistas nos Estados Unidos e na Austr√°lia, fabricando uma teoria da conspira√ß√£o sobre genoc√≠dio branco com o objectivo de conseguir apoio internacional para sul-africanos brancos. O grupo, que se auto-descreve como ‚Äėuma iniciativa-plano de emerg√™ncia‚Äô para preparar uma minoria sul-africana de crist√£os protestantes para uma suposta revolu√ß√£o violenta, tem-se relacionado com v√°rios grupos extremistas (alt-right) e seus influentes contatos midi√°ticos nos Estados Unidos para erguer uma oposi√ß√£o global √† alegada persegui√ß√£o a brancos na √Āfrica do Sul‚Ķ Na semana passada, o, ministro australiano dos Assuntos Internos, disse ao¬†Daily Telegraphque estava considerando a concess√£o de vistos r√°pidos para agricultores sul-africanos brancos, os quais, alegava o ministro, precisavam de ‚Äėfugir de circunst√Ęncias atrozes‚Äô para ‚Äėum pa√≠s civilizado‚Äô. Segundo o ministro, os ditos agricultores ‚Äėmerecem aten√ß√£o especial‚Äô por causa de ocupa√ß√£o de terras e viol√™ncia ‚Ķ¬† Tem tamb√©m sido dada mais aten√ß√£o a agricultores sul-africanos brancos na Europa, onde pol√≠ticos da extrema direita com contatos diretos com a extrema direita (alt-right) nos Estados Unidos t√™m solicitado ao Parlamento Europeu que intervenha na √Āfrica do Sul. Agentes pol√≠ticos contra os refugiados no Reino Unido est√£o igualmente ligados √† causa‚ÄĚ.

A grande armadilha do colonialismo insidioso é dar a impressão de um regresso, quando o que regressa nunca deixou de estar.

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Originalmente publicado no site Outras Palavras Boaventura: o Colonialismo e o século XXI-02/04/2018

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O tenso enegrecimento do cinema brasileiro

O cinema brasileiro vive um novo momento de muta√ß√£o. A profunda diversidade que caracterizou nossa cinematografia nos √ļltimos 30 anos, depois de superar a pol√≠tica de terra arrasada do governo ultra-neoliberal Collor, nos anos noventa, come√ßou, finalmente, a incorporar a participa√ß√£o e olhar de realizadores e realizadoras negras, mas com grandes resist√™ncias. E o √ļltimo Festival de Cinema de Bras√≠lia, que comemorou 50 anos de exist√™ncia em 2017, foi o palco que deu enorme visibilidade para esta nova fase da hist√≥ria do cinema brasileiro e para as tens√Ķes que¬†vivemos.

O debate sobre o filme¬†Vazante,¬†da experiente realizadora Daniela Thomas, uma hist√≥ria que tem como cen√°rio e contexto as rela√ß√Ķes familiares e sociais na primeira metade do escravocrata s√©culo XIX,¬†foi o estopim de uma esp√©cie de bomba de efeito retardado que polarizou opini√Ķes sobre a representa√ß√£o de negros e negras na hist√≥ria do cinema brasileiro. E neste festival, atrizes, atores, cineastas e um cr√≠tico de cinema que se posicionaram orgulhosamente a partir de sua ascend√™ncia negra, em um pa√≠s marcado pela for√ßa da ideologia do branqueamento, fizeram quest√£o de demarcar tamb√©m a exist√™ncia de uma leitura espec√≠fica do seu grupo racial sobre a hist√≥ria e o mundo social e cultural¬†brasileiro.

Mas, para uma parcela do mundo do cinema j√° estabelecido, a opini√£o dos negros e negras foi considerada como equivocada, ressentida e militante, portanto distante do que seria justo. Um grande cineasta que se projetou internacionalmente nos anos sessenta, demonstrando um envelhecimento e enrijecimento dos paradigmas de sua gera√ß√£o, chegou a classificar como uma bobagem de universit√°rios o conceito ‚Äúlugar de fala‚ÄĚ, ¬†muito empregado criticamente pelos negros e negras no debate de¬†Vazante. E reutilizou, fora de contexto, o termo pejorativo ‚Äúpatrulhamento ideol√≥gico‚ÄĚ que criou nos anos setenta para criticar uma certa miopia da esquerda na an√°lise dos filmes de ent√£o, tentando agora com o mesmo termo deslegitimar e ridicularizar a opini√£o e reivindica√ß√£o dos¬†negros.

Mas não interessa aqui reproduzir os detalhes do debate provocado pelo filme Vazante, e sim perguntar o que explica e fundamenta o olhar, o imaginário e o discurso daqueles que produzem TV e Cinema no Brasil que justificaria esta enorme dificuldade em reconhecer o protagonismo dos negros e negras em nossa sociedade, e o direito de fazer e de expressar suas narrativas audiovisuais.

Algumas obviedades precisam ser ditas para come√ßarmos a questionar a gravidade do epis√≥dio acima mencionado. Quem conhece o Brasil, a partir da viv√™ncia do seu cotidiano, sabe que estamos longe de ser uma democracia racial. E o segmento audiovisual √© aquele na sociedade brasileira em que o racismo estrutural do pa√≠s trouxe os resultados mais dram√°ticos. Todas pesquisas existentes demonstram que a telenovela, assim como o cinema brasileiro, sempre negaram uma representa√ß√£o da diversidade racial brasileira, um pa√≠s de minoria branca com uma popula√ß√£o afrodescendentes constitu√≠da de pretos e pardos, que corresponde ao montante de 54,9% do total de uma popula√ß√£o de 205 milh√Ķes de habitantes[1], conforme a √ļltima PNAD de 2016 do IBGE, √≥rg√£o oficial de estat√≠stica do Estado¬†brasileiro.

Uma pesquisa do GEMAA[2]¬†sobre¬†A¬†cara do cinema nacional¬†√© bastante ilustrativa da aus√™ncia de negros e negras no setor audiovisual brasileiro. Buscando avaliar o conte√ļdo dos filmes mais vistos a cada ano, no per√≠odo entre 2002 e 2014, para mapear a diversidade de g√™nero e racial, e compreender o papel que esta diversidade assumiu nos filmes, este n√ļcleo de pesquisa trouxe os seguintes¬†resultados:

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† dos 919 atores e atrizes mapeados na pesquisa 71% eram do g√™nero masculino, contra 28% do g√™nero feminino e 1% de pessoas trans;¬†¬†

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† Uma ‚ÄúDespropor√ß√£o similar de participa√ß√£o se verifica quanto √† cor das personagens: branca (65%), preta (18%), parda (14%), n√£o identificada (2%) ou ind√≠gena/amarela¬†(1%)‚ÄĚ;

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† tamb√©m √† frente das c√Ęmeras a desigualdade √© evidente. Nas obras de longa metragem lan√ßadas neste mesmo per√≠odo, 80% t√™m como realizadores homens brancos, 14% s√£o mulheres brancas, ¬†2% s√£o homens negros e 0% s√£o mulheres negras[3].

A ANCINE ‚Äď Agencia Nacional de Cinema, em estudo recente realizado por sua Superintend√™ncia de An√°lise de Mercado, sobre¬†Diversidade de g√™nero e ra√ßa nos lan√ßamentos brasileiros de 2016, confirmou as pesquisas do GEMAA. Trata-se do primeiro estudo com este recorte realizado pela ANCINE. Trabalhando como universo de pesquisa os 142 longas-metragens lan√ßados comercialmente naquele ano, constitu√≠do por 97 fic√ß√Ķes, 44 document√°rios e uma anima√ß√£o, constatou¬†que:

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† Os homens brancos assinaram a dire√ß√£o de 107 destes filmes, que corresponde a 75,4% do¬†total;

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† ¬†As mulheres brancas dirigiram 28, igual a¬†19,7%;

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† Os homens negros somente 3, ficando na percentagem √≠nfima de¬†2,1%.

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† E em nenhum deles foi dirigido ou roteirizado por uma mulher¬†negra.

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† ‚ÄúA an√°lise apontou o dom√≠nio de homens brancos n√£o apenas na dire√ß√£o, mas nas principais fun√ß√Ķes de lideran√ßa no cinema, o que evidencia que as hist√≥rias exibidas nas telas do pa√≠s, produzidas por brasileiros, t√™m sido contadas majoritariamente do ponto de vista dos homens: 68% deles assinam o roteiro dos filmes de fic√ß√£o, 63,6% dos document√°rios, e 100% das anima√ß√Ķes brasileiras de 2016.¬† Os homens dominam tamb√©m as fun√ß√Ķes de dire√ß√£o de fotografia (85%) e dire√ß√£o de arte¬†(59%).

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† A participa√ß√£o nos elencos das obras tamb√©m mostra a sub-representa√ß√£o da popula√ß√£o negra.¬†(‚Ķ)o percentual de negros e pardos no elenco dos 97 filmes brasileiros de fic√ß√£o lan√ßados em 2016 foi de apenas 13,4%‚ÄĚ.[4]

O segmento audiovisual mais bem sucedido no Brasil em termos de p√ļblico e lucratividade, e tamb√©m extremamente rent√°vel em termos de exporta√ß√£o[5], ¬†sempre foi as telenovelas. Em um ter√ßo daquelas produzidas em seus primeiros 35 anos de hist√≥ria, no per√≠odo de 1963-1998, estudado em meu livro¬†A Nega√ß√£o do Brasil ‚Äď o negro na telenovela brasileira[6], ¬†n√£o apareceu pessoas negras nem mesmo como figurantes. Nos outros dois ter√ßos, 90% dos personagens afro-brasileiros, representavam os negros como destinados a serem eternamente subalternos, a servir as elites e a classe m√©dia branca. E nas poucas novelas que abordavam o persistente racismo da sociedade brasileira, a figura salvadora era sempre uma branca, um estere√≥tipo inspirado no mito da princesa Isabel, sempre celebrada em nossa hist√≥ria como aquela que assinou a aboli√ß√£o da escravid√£o no¬†Brasil.

Em levantamento do GEMAA[7]¬†sobre as telenovelas exibidas entre 1985 e 2014 constatou-se tamb√©m que houve apenas 8,8% de atores ou atrizes n√£o brancos contratados em suas¬†produ√ß√Ķes.

Mas me interessa aqui refletir porque persiste a dificuldade, manifesta por uma parcela significativa do cinema brasileiro, em aceitar esta desigualdade, reconhecer a import√Ęncia deste protagonismo e buscar representar em suas obras um pa√≠s mais pr√≥ximo do real de sua composi√ß√£o racial e¬†cultural.

Uma das explica√ß√Ķes que encontro √© que todos, ou quase todos, profissionais de TV e cinema no Brasil, em seu processo de forma√ß√£o, receberam e compartilharam as mesmas interpreta√ß√Ķes do Brasil que depois fariam parte dos seus filmes. Se elencarmos aqui os mais importantes nomes da intelectualidade que s√£o estudados nas universidades brasileiras, e foram parte de nossa forma√ß√£o, encontramos no topo Gilberto Freyre, Raimundo Faoro, Fernando Henrique Cardoso e S√©rgio Buarque de Holanda. Destaco aqui parte do debate que o soci√≥logo Jess√© de Souza[8]¬†faz em seus livros mais recentes, demonstrando que a esquerda branca brasileira nunca construiu uma interpreta√ß√£o alternativa √† leitura liberal do Brasil, que tem os pensadores da sociedade brasileira acima citados como seus grandes construtores. Para nenhum deles o nosso maior problema √© a desigualdade social e racial, e consequentemente o racismo, fundados na escravid√£o. O patrimonialismo oriundo da coloniza√ß√£o portuguesa √© que seria o grande problema do Brasil, √© ele que teria conformado um brasileiro eternamente vira-lata, pr√©-moderno, emotivo e¬†corrupto.

Veremos que nas an√°lises e considera√ß√Ķes destes pensadores existe um elemento em comum: a compreens√£o que a influ√™ncia negativa das desigualdades e preconceitos fundados em uma escravid√£o, que durou quatro s√©culos, teria acabado, como em um passe de m√°gica, com a aboli√ß√£o da escravatura e com a importa√ß√£o massiva de imigrantes brancos da Europa. Esses imigrantes, pretensamente, formariam exclusivamente a nossa classe oper√°ria, seriam respons√°vel pelo surgimento do capitalismo industrial brasileiro e pelas bases de um pa√≠s¬†moderno.

Uma abolição inconclusa e uma vanguarda que continua lendo o país de forma errada

Na tentativa de fazer uma grande e rápida síntese, vou aqui demarcar os aspectos mais importantes desta base teórica que conformam uma visão do que caracterizaria o Brasil e os brasileiros, e que continua com algumas nuances sendo refletida em nossos filmes até Vazante.

A interpreta√ß√£o dominante e original do Brasil, que foi seguida ou criticada por quase todos os outros intelectuais marcantes do pa√≠s, foi criada por Gilberto Freyre, autor do cl√°ssico¬†Casa Grande e Senzala. Uma interpreta√ß√£o que, em s√≠ntese, afirma que viemos de Portugal e temos um jeito espec√≠fico de ser por essa heran√ßa lusitana. Em sua vis√£o romantizada do colonizador, ele descrevia o portugu√™s como: ‚Äúum espanhol sem a flama guerreira nem a ortodoxia dram√°tica; um ingl√™s sem as duras linhas puritanas. O tipo do contemporizador. Nem ideais absolutos, nem preconceitos inflex√≠veis‚ÄĚ[9]. Destas caracter√≠sticas, que seriam tamb√©m resultado da forma√ß√£o hist√≥rica miscigenada de Portugal, a partir de um longo contato com mouros e judeus na pen√≠nsula ib√©rica, nasceria uma coloniza√ß√£o benevolente e o aspecto soft de nossa escravid√£o. Este conjunto de elementos, por sua vez, possibilitaria no Brasil uma miscigena√ß√£o fundada em coitos consensuais, safados e sensuais, entre o senhor da casa grande e a escrava negra e ind√≠gena, e uma democracia racial¬†sui generis.¬†

Na abertura do cap√≠tulo 04 do mencionado¬† ¬†Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre tem uma senten√ßa fundamental que traz toda a chave de sua leitura racial do Brasil: ‚ÄúTodo brasileiro traz na alma, quando n√£o na alma e no corpo (‚Ķ) a sombra, ou ¬†a pinta, do ind√≠gena e do negro‚ÄĚ porque teria sido ‚Äúembalado por uma mucama negra‚Ä̬†ou sido iniciado sexualmente ‚Äúno amor f√≠sico‚ÄĚ por uma ‚Äúmulata‚ÄĚ, e tamb√©m por que teve um ‚Äúmuleque‚Ä̬†como companheiro[10]. E a√≠ est√° o ‚Äúlugar de fala‚ÄĚ de Gilberto Freyre. O brasileiro de Freyre era homem, branco e ex-senhor ou filho de um senhor de escravos. Este √© o elemento chave para ler o cinema brasileiro hoje e em toda sua hist√≥ria. O negro sempre foi o outro, o indesejado. Admite-se at√© que o brasileiro carrega em si ‚Äúum p√© na cozinha‚ÄĚ, ou na √Āfrica, como diria Fernando Henrique Cardoso, ou a marca da influ√™ncia negra, como diria Gilberto Freyre, mas ele √© naturalmente branco. Esta elimina√ß√£o da no√ß√£o de alteridade em um pa√≠s multirracial, de minoria branca, e esta centralidade do segmento branco na percep√ß√£o do mundo, s√£o parte, portanto, dos paradigmas fundamentais que conformaram o cinema brasileiro e seus¬†autores.

Para o segmento mais √† esquerda, entre os cineastas brasileiros, foi tamb√©m determinante a leitura e o pensamento de Florestan Fernandes, que praticamente foi o primeiro cr√≠tico da ideia de democracia racial brasileira, especialmente seu estudo¬†A integra√ß√£o do negro na sociedade de classes.¬†Neste e em outros escritos de Florestan, que apesar de entender e revelar que a sociedade brasileira √© profundamente racista, acentua uma interpreta√ß√£o equivocada que permanece na cabe√ßa de muitos sobre a participa√ß√£o do segmento negro na hist√≥ria nacional ap√≥s a aboli√ß√£o da escravatura. Aprendemos na vis√£o progressista de Florestan que a situa√ß√£o de subalternidade e explora√ß√£o que o negro sofreu na sociedade brasileira no per√≠odo p√≥s-escravid√£o, baseada no trabalho livre, veio da experi√™ncia deformadora da escravid√£o que criou uma ‚Äúmassa desagregada, inerte, inculta‚ÄĚ, e fez do elemento negro um ser indolente, incapaz de competir com os imigrantes brancos em uma sociedade nova, moderna, industrial e de classe. Ou seja, seres incapazes de participar como cidad√£o livre na emerg√™ncia e expans√£o de um capitalismo dependente, uma vez que foram conformados por uma sociedade de castas que estava em extin√ß√£o. Ao negro, coube apenas o papel ser um ‚Äúelemento residual do sistema social‚ÄĚ, uma grande massa¬†√† ‚Äúmargem da vida social organizada e de toda a esperan√ßa, (que) sucumbe √† pr√≥pria in√©rcia‚ÄĚ. Essa leitura da condi√ß√£o do negro no per√≠odo p√≥s-aboli√ß√£o n√£o se encontra apenas em Florestan Fernandes, foi tamb√©m abra√ßada pela intelectualidade progressista como Oct√°vio Ianni e at√© mesmo por Celso Furtado em seu ‚ÄúForma√ß√£o Econ√īmica do Brasil‚ÄĚ. (ver¬†Onda negra, medo branco[11]).

Como não acreditar que a falta de mobilização e de indignação de nossos cineastas mais à esquerda em incluir em sua pauta política o nosso racismo cotidiano e a exterminação de jovens negros na periferia, fruto de uma autêntica política de genocídio, não seriam decorrência destas leituras?

Protagonismo negro. Um trovão no céu azul?

O ano de 2017 foi especialmente marcante se observamos os pr√™mios recebidos pelos negros. Alguns filmes, cineastas, atores e atrizes foram premiados repetidamente em v√°rios festivais do pa√≠s. O Festival de Bras√≠lia inaugurou o ciclo de premia√ß√Ķes e reconhecimento do longa ficcional¬†Caf√© com Canela, dirigido pela jovem negra Glenda Nic√°cio, em parceria com Ary Rosa, que receberam o pr√™mio do J√ļri Popular de melhor filme, e de melhor atriz e melhor roteiro do J√ļri Oficial. Da mesma forma, os curta-metragens de diretores e diretoras negras¬†Nada,¬†¬†Peripat√©tico, Chico e Deus √© uma mulher negra¬†tamb√©m foram repetidamente premiados em Bras√≠lia e em v√°rios outros festivais do pa√≠s. E um grupo significativo de novas atrizes e atores negros emergiram nesta nova onda. Especialmente, o cinema reconheceu a pot√™ncia da atriz e dramaturga Grace Pass√ī, j√° celebrada no teatro, que abocanhou o pr√™mio de melhor atriz no Festival de Cinema do Rio, por sua atua√ß√£o no filme¬†Pra√ßa Paris.

Mas o festival que mais atestou a exist√™ncia de um novo momento na hist√≥ria do cinema brasileiro, com o surgimento de uma verdadeira onda de cinema negro, foi o¬†Encontro de Cinema Negro Brasil, √Āfrica e Caribe, criado pelo ic√īnico ator Z√≥zimo Bulbul, e que comemorou 10 anos de exist√™ncia em 2017. Nesta √ļltima edi√ß√£o do festival, que prefere se chamar de Encontro, teve a participa√ß√£o de 65 filmes realizados por negras e negros brasileiros, sendo tr√™s deles longa-metragens. Um crescimento de cem por cento, em rela√ß√£o √† sua edi√ß√£o anterior que apresentou 33 filmes de afro-brasileiros. Progressivamente, o Encontro est√° deixando de ser um festival marcado pela exibi√ß√£o de filmes internacionais para ter como maior destaque os lan√ßamentos nacionais. Mas, a√≠ evidenciou-se tamb√©m que uma parcela cada vez maior de jovens est√° produzindo os seus filmes de forma independente, mesmo sem ainda contar com o apoio de editais criados pelo governo ou pela iniciativa privada. O desejo de fazer, e uma esp√©cie de urg√™ncia hist√≥rica, tem mobilizado indiv√≠duos e coletivos em todas regi√Ķes do pa√≠s e uma intensa produ√ß√£o que desembocou em um n√ļmero recorde de inscri√ß√Ķes no processo seletivo deste festival: 110 curtas, m√©dias e¬†longas.

Mas de onde vieram as bases desta explos√£o de realizadores negros, se considerarmos que at√© recentemente √©ramos poucos, e poss√≠veis de contar com somente os dedos de duas m√£os? Uma outra micro-revolu√ß√£o na sociedade brasileira tem colaborado para uma emerg√™ncia de atores sociais negros no cinema, na TV, no teatro e nas redes sociais. O ber√ßo est√°, seguramente, nos milhares de novos profissionais que tiveram acesso √†s universidades brasileiras com a aprova√ß√£o de cotas para estudantes negros e negras. Nos seus dez primeiros anos, o percentual de negros quase dobrou na universidade brasileira. ‚ÄúEm 2005, um ano ap√≥s a implementa√ß√£o de a√ß√Ķes afirmativas, como as cotas, apenas 5,5% dos jovens pretos e pardos na classifica√ß√£o do IBGE (‚Ķ) frequentavam uma faculdade. Em 2015, 12,8% dos negros entre 18 e 24 anos chegaram no n√≠vel superior. (‚Ķ) Comparado com os brancos, no entanto, o n√ļmero equivale a menos da metade dos jovens brancos com a mesma oportunidade‚ÄĚ[12]. Para compreender este aumento percentual em termos num√©ricos, somente em tr√™s anos, de 2013 a 2015, o n√ļmero significativo de 150 mil novos estudantes negros entraram nas universidades¬†brasileiras.

Assim como no cinema, o aumento exponencial de negros nas universidades n√£o aconteceu sem uma enorme resist√™ncia de setores intelectuais, inclusive entre aqueles que se consideram progressistas ou de esquerda¬†[13]. Lembremos aqui que a grande m√≠dia brasileira tamb√©m jogou um papel preponderante na valoriza√ß√£o desta resist√™ncia. Como t√°tica para impedir o crescimento de universidades que aprovariam cotas, esta m√≠dia¬† praticamente ignorou os intelectuais e artistas negros, e a exist√™ncia de uma opini√£o ou de reflex√Ķes entre as lideran√ßas negras sobre o t√≥pico. Especialmente daqueles que foram os formuladores da pol√≠tica de cota, e da lei de diretrizes para o ensino das rela√ß√Ķes √©tnico raciais. Eles estiveram praticamente ausentes dos cadernos de debates nos grandes jornais ou entre aqueles que foram convidados para os programas de TV espec√≠ficos sobre o tema. Em oposi√ß√£o a eles, a grande m√≠dia usou regularmente da opini√£o contr√°ria de figuras fundamentais da intelectualidade e do mundo art√≠stico branco para deslegitimar o discurso e a reivindica√ß√£o dos negros. E, neste contexto, para os poucos que furaram o bloqueio, o termo ‚Äúmilitante‚ÄĚ foi ostensivamente utilizado para demonstrar o qu√£o irrelevante ou parcial eram suas opini√Ķes em um debate t√£o importante para o futuro da universidade¬†brasileira.

Vazante, de Daniela Thomas

Creio que aqui temos um quadro amplo para entender a gravidade da reutiliza√ß√£o na pol√©mica sobre¬†Vazante¬†da classifica√ß√£o da opini√£o dos negros e negras como ‚Äúequivocada, ressentida e militante‚ÄĚ. Chegamos a um ponto de muta√ß√£o, ou a um limite, em que o mundo do cinema n√£o pode mais ignorar que 90% da produ√ß√£o cinematogr√°fica atual continua sendo feita por brancos e brancas, com prefer√™ncia por atores e atrizes brancas. Portanto, tratar da escravid√£o, um per√≠odo da hist√≥ria do Brasil que marca nossas vidas at√© hoje, somente com um olhar a partir da Casa Grande, √© que continua sendo um verdadeiro equ√≠voco. O lugar de fala, o lugar da constru√ß√£o narrativa do cinema brasileiro, vai continuar sendo c√ļmplice do nosso racismo cotidiano se expressar apenas o ponto de vista do brasileiro branco gilberto freyriano. E continuaremos nos comportando como vira-latas e colonizados se os negros continuarem sendo tratados como uma minoria, como a ral√© indesejada que n√£o sabe o seu lugar¬† e/ou como perturbadores da marcha irrevers√≠vel do¬†branqueamento.

A prop√≥sito das cr√≠ticas que os negros e negras receberam por seu protagonismo questionador no Festival de Cinema de Bras√≠lia, uma cineasta que se destaca nesta nova gera√ß√£o, Viviane Ferreira, traduz muito bem a perplexidade de toda esta hist√≥ria: ‚Äúa nossa presen√ßa m√≠nima incomoda mais que nossa aus√™ncia hist√≥rica nestes¬†espa√ßos‚ÄĚ.

[1] PNAD-C Distribuição da população por cor e raça de 2016. Ver: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/18282-pnad-c-moradores.html

[2]¬†O¬†GEMAA¬†(Grupo de Estudos Multidisciplinar da A√ß√£o Afirmativa) √© um n√ļcleo de pesquisa com sede no IESP-UERJ, criado em 2008 com o intuito de produzir estudos sobre a√ß√£o afirmativa a partir de uma variedade de abordagens¬†metodol√≥gicas.

[3]¬†MORATELLI, Gabriela e C√āNDIDO, M√°rcia Rangel. A cara do cinema nacional (2002-2014): o perfil de g√™nero e cor dos atores, diretores e roteiristas dos filmes brasileiros. Coordena√ß√£o de Ver√īnica Toste e Jo√£o Feres Junior. GEMAA-IESP-UERJ. Rio de Janeiro, 2016. Dispon√≠vel em¬†http://gemaa.iesp.uerj.br/infografico/infografico1/

[4] ANCINE apresenta estudo sobre diversidade de gênero e raça no mercado audiovisual. 25/01/2018. https://www.ancine.gov.br/pt-br/sala-imprensa/noticias/ancine-apresenta-estudo-sobre-diversidade-de-g-nero-e-ra-no-mercado

[5]¬†SANTOS, Lidia. A telenovela brasileira : do nacionalismo √† exporta√ß√£o.¬†Caravelle. Cahiers du monde hispanique et luso-br√©silien¬†¬†Ann√©e 2000¬†¬†75¬†¬†pp. 137-150. Fait partie d‚Äôun num√©ro th√©matique :¬†Nouveaux Br√©sils ‚Äď Fin de si√®cle.

[6]¬†ARAUJO, Joelzito. A Nega√ß√£o do Brasil ‚Äď o negro na telenovela brasileira. Ed. Senac, SP,¬†2001.

[7]¬†CAMPOS, Luiz Augusto e JUNIOR, Jo√£o Feres. ‚ÄúGlobo, a gente se v√™ por aqui?‚ÄĚ Diversidade racial nas telenovelas das √ļltimas tr√™s d√©cadas (1985-2014). Plural Revista de Ci√™ncias Sociais. V. 23, n. 1. S√£o Paulo: Universidade de S√£o Paulo, 2016. Dispon√≠vel em¬†http://www.revistas.usp.br/plural/article/view/118380/115938

[8]¬†O soci√≥logo Jesse de Souza tem se destacado como um dos maiores cr√≠ticos das interpreta√ß√Ķes cl√°ssicas do Brasil criadas a partir dos anos 30. Seus livros mais conhecidos s√£o:¬†A Elite do Atraso: da escravid√£o ao Lava-jato¬†(2017);¬†A Tolice da intelig√™ncia Brasileira¬†(2015);¬†A ral√© brasileira: quem √© e como vive¬†(2009).

[9] FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. Lisboa: Edição Livros do Brasil, 1933/1983. p.191

[10]¬†FREYRE, Gilberto.¬†Casa-grande & senzala: forma√ß√£o da fam√≠lia brasileira sob o regime de economia patriarcal. Rio de Janeiro: Livraria Jos√© Olympio Editora. 8a. Edi√ß√£o ‚Äď 2o. Volume. 1954.¬†p.489.

[11]¬†AZEVEDO, C√©lia Maria Marinho.¬†Onda Negra.¬†Medo Branco. O negro no imagin√°rio das elites. S√©c. XIX. S√£o Paulo: Paz e Terra, 1987. Jornal UNIVERSIT√ĀRIO. Porto Alegre, RS. P√°ginas¬†19-23.

[12]¬†VIEIRA, Isabela. Percentual de negros em universidades dobra mas √© inferior ao de brancos.¬†http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-12/percentual-de-n…

[13]  Marcus Eugênio OLIVEIRA LIMA, Paulo Sérgio Da COSTA NEVES e Paula BACELLAR E SILVA.  A implantação de cotas na universidade: paternalismo e ameaça à posição dos grupos dominantes. Revista Brasileira de Educação v. 19 n. 56 jan.-mar. 2014. http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v19n56/v19n56a08.pdf

Artigo publicado originalmente em Cin√©mas d‚Äôam√©rique latine ‚Äď Revue annuelle de l‚ÄôAssociation Rencontres Cinemas d‚ÄôAmerique Latine de Tolouse-(ARCAL ‚Äď n√ļmero 26)¬†2018.

por¬†Joel Zito Ara√ļjo

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Publicado no site BUALA dia 04, de abril, 2018 O tenso enegrecimento do cinema brasileiro

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CONHE√áA O PROJETO CYPHER ROOTS “CELEBRA√á√ÉO”.

O¬†projeto¬†Cypher¬†Roots¬†lan√ßou¬†no¬†dia¬†05¬†fevereiro¬†o¬†v√≠deoclipe¬†Celebra√ß√£o.¬†A¬†m√ļsica¬†“Celebra√ß√£o“,¬†√©¬†a¬†terceira¬† publicado¬†do¬†projeto¬†Cypher¬†Roots¬†e¬†tem¬†como¬†idealizador¬†Phanton¬†e¬†a¬†produ√ß√£o¬†√©¬†do¬†Indi√£o.
E o responsável pela captação, edição e finalização de  materiais audiovisuais foi Niko HD. O grupo possui um  estilo Reggae Music que mescla o Rap com varias  referências negras.Nesse novo vídeo clipe tem seis  integrantes,Phanton, Buia Kalunga, Sistah Chilli, Daniel Yoruba, Xan P e  Gustavo Dread. Os outros dois trabalhos anteriores #1raizes e  #2 Redenção, tem a mesma pegada da #3 Celebração, vale  apena conferir no YouTube canal do projeto Cypher Roots.

Confira”Celebra√ß√£o“logo¬†abaixo

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Djidiu- a herança do ouvido: poemas para sacudir mentes e iluminar caminhos

Djidiu – a heran√ßa do ouvido¬†√© uma obra que nos chama, de imediato, a aten√ß√£o pelo instigante t√≠tulo. Djidiu, como explicado em nota no livro, ‚Äú√© um contador de hist√≥rias, um recipiente e um difusor da mem√≥ria coletiva. Int√©rpretes e clarividentes, os Djidius, s√£o porta-vozes dos sem voz, aut√™nticas bibliotecas ambulantes‚ÄĚ. Guardadores de mem√≥rias ancestrais, os Djidius s√£o tamb√©m conhecidos como Djelis ou¬†Griots.

Djidiu √© uma colet√Ęnea de poemas na qual os autores dos textos versejam sobre a experi√™ncia negra em Portugal. A obra √© resultado de uma iniciativa da Afrolis que, entre mar√ßo de 2016 a mar√ßo de 2017, mobilizou pessoas negras a participarem ‚Äúativamente na produ√ß√£o e divulga√ß√£o de textos da sua pr√≥pria autoria ou de autores que considerassem relevantes‚ÄĚ. Djidiu √©, portanto, um livro atravessado por ‚Äúrecorda√ß√Ķes e movimentos‚ÄĚ de poetas e escritores(as) negros(as) que ecoam as suas vozes num territ√≥rio portugu√™s, marcado por profundas desigualdades raciais, onde n√£o se pode mais fugir de um debate s√©rio sobre o racismo, consequ√™ncia das a√ß√Ķes dos movimentos negros cada vez mais atuantes no pa√≠s.

A colet√Ęnea re√ļne 56 poemas, produzidos pelos (as) poetas e escritores (as): Apolo De Carvalho, Carla Fernandes, Carla Lima, Carlos Gra√ßa, Cristina Carlos, Danilson Pires, D√°rio Sambo, luZGomes e T√© Abipiquerst T√©. De origens distintas, esses(as) autores(as) compartilham a experi√™ncia de ser um corpo negro diasp√≥rico, caminhando e descaminhando em solo lusitano. Nos versos-protestos de Djidiu, a viv√™ncia negra √© explorada atrav√©s de diversos temas: fam√≠lia, amor, tradi√ß√£o, representatividade, apropria√ß√£o cultural, entre tantos outros. Dentre esses temas, destaca-se a presen√ßa insistente, qui√ß√° onipresen√ßa, da viol√™ncia racial que invade ferozmente a vida das pessoas¬†negras.

 

A iniciativa de uma obra como Djidiu faz-nos lembrar algumas a√ß√Ķes semelhantes no contexto brasileiro. Podemos destacar, por exemplo, a colet√Ęnea¬†Cadernos Negros, publica√ß√£o fundamental para a divulga√ß√£o da literatura negra produzida no Brasil. O primeiro volume dos¬†Cadernos Negrossurgiu no ano de 1978, contemplando a produ√ß√£o de oito poetas. A partir de 1980, autores que organizavam a antologia criaram o grupo Quilombhoje-Literatura que √©, desde ent√£o, respons√°vel pela edi√ß√£o e publica√ß√£o dos Cadernos. √Č importante ressaltar que, desde a sua primeira edi√ß√£o, em 1978, os¬†Cadernos Negros¬†s√£o publicados ininterruptamente, revezando entre colet√Ęneas de poemas e contos. Em dezembro de 2017 foi publicado o quadrag√©simo volume dos¬†Cadernos.

 

De certa forma, Djidiu pode ser considerado os Cadernos Negros de Portugal. Em ambas as colet√Ęneas, a escrita surge como uma ferramenta de den√ļncia. Uma maneira das pessoas negras, marcadas pela viol√™ncia do racismo, tentarem amenizar a dor de uma ferida de dif√≠cil cicatriza√ß√£o. Pois, como bem afirmou Cuti, um dos idealizadores dos Cadernos, ‚Äúa vis√£o luminosa dos poetas √© fundamental, pois ao longo do caminho sabem produzir com palavras o mais nutritivo alimento para o¬†esp√≠rito‚ÄĚ.

Um n√ļmero relevante de escritoras e escritores afro-brasileiros, que alcan√ßaram certo reconhecimento a n√≠vel nacional e internacional, publicaram os seus primeiros textos nos Cadernos Negros. √Č o caso de Concei√ß√£o Evaristo. Movida por seu compromisso √©tico e pol√≠tico de escrever sobre a experi√™ncia de indiv√≠duos negros, Concei√ß√£o Evaristo criou o conceito de ‚Äúescreviv√™ncia‚ÄĚ. Compreendemos ‚Äúescreviv√™ncia‚ÄĚ como essa necessidade de escritoras e escritores afrodescendentes escreverem sobre as suas viv√™ncias e das pessoas de seu grupo, talvez, escrever para viver.¬† Essas ‚Äúescreviv√™ncias‚ÄĚ inscritas por Concei√ß√£o Evaristo em terras brasilis se manifestam como ‚Äúheran√ßas de ouvido‚ÄĚ em terras¬†portuguesas.

O lamento de vozes que foram silenciadas durante s√©culos ecoa nos versos politicamente comprometidos dessas ‚Äúheran√ßas escrevividas‚ÄĚ de Djidiu. Essa obra pioneira em Portugal √© uma tentativa de registrar mem√≥rias dentro de um tempo e espa√ßo. Mem√≥rias que ecoam em versos e reversos, mesmo quando tudo parece sil√™ncio. Djidiu surge como um gesto de insubordina√ß√£o e de resili√™ncia de indiv√≠duos que n√£o aceitam mais o sil√™ncio imposto, e, num gesto de coragem, escancaram a sua dor, buscando estabelecer um di√°logo franco e urgente. Nesse di√°logo, verdades inconvenientes s√£o expostas, pois esses corpos que carregam a heran√ßa ancestral de viol√™ncias genocidas e etnocidas, n√£o mais se submetem a fazer a indigesta dieta de engolir sapos, arrancando a m√°scara de¬†Anast√°cia.

Djidiu ‚Äď a heran√ßa do ouvido¬†√© uma obra que busca fazer alguns escurecimentos necess√°rios, enegrecendo as p√°ginas an√™micas de uma hist√≥ria que j√° n√£o pode ser √ļnica.¬† Ao trazer ‚Äúdoze formas mais uma de se falar da experi√™ncia negra em Portugal‚ÄĚ, Djidiu deixa a mensagem de que pensar sobre as suas experi√™ncias n√£o deve ser um problema exclusivo da negritude e de outros grupos historicamente oprimidos. Djidiu convida a branquitude a pensar sobre os seus privil√©gios, em sua sociedade racista, refletindo sobre a sua disposi√ß√£o (se √© que est√° mesmo disposta) em contribuir no processo de desmontagem desse sistema de¬†opress√£o.

O combate ao racismo n√£o √©, portanto, um problema apenas das pessoas negras, mas um problema que a sociedade portuguesa, assim como a brasileira, precisa enfrentar e criar estrat√©gias eficientes para tentar resolver. Ouvir e, de fato, escutar as viv√™ncias compartilhadas por quem sofre o racismo na pele, sem tentar minimizar a dor provocada por essa ferida, talvez seja um primeiro passo nesse processo de constru√ß√£o de uma sociedade equitativa. Utopia? Alguns podem dizer. Utopia urgente e necess√°ria, dizem as vozes ressonantes de Djidiu, certas de que a poesia ‚Äúbem situada no tempo, pode ferir ou curar, derrubar ou levantar, matar ou salvar; pode sacudir as mentes e incendiar as¬†multid√Ķes‚ÄĚ.

por Francy Silva

Publicado Originalmente no site Buala Djidiu- a herança do ouvido: poemas para sacudir mentes e iluminar caminhos

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Pequeno guia sobre o Software Livre >1

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Publicado Originalmente no Outras Palavras Comunicação Compartilhada e Pós-capitalismo

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Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias Terrenas, detalhe (1490/1510)


Uma disputa crucial marca o s√©culo 21. A circula√ß√£o de ideias √© um direito de todos ou deve se dar segundo a l√≥gica dos mercados? Um ensaio sobre esta encruzilhada ‚ÄĒ com √™nfase no campo crucial da inform√°tica

Por F√°tima Conti  | Imagem: Hieronymus BoschO Jardim das Del√≠cias Terrenas, detalhe (1490/1510)

Parte 1 de 3

Resumo

Um pressuposto deste ensaio did√°tico: inclus√£o digital deve significar, antes de tudo, melhorar as condi√ß√Ķes de vida de uma comunidade com ajuda da tecnologia. Ent√£o, a inform√°tica e a internet devem ser ferramentas de liberta√ß√£o do indiv√≠duo, de autonomia do cidad√£o, que deve saber usar o equipamento e os programas tanto em benef√≠cio pr√≥prio como coletivo.

Entretanto, vivemos em uma sociedade na qual leis de diversos países protegem monopólios, como copyright e patentes, inibindo:

  • o uso de bens culturais, como livros, m√ļsicas, quadros‚Ķ, que hoje s√£o arquivos e programas computacionais;
  • a criatividade;
  • a liberdade de express√£o;
  • o acesso √† informa√ß√£o e ao conhecimento.

O desconhecimento e o desleixo das pessoas quanto ao uso de seus equipamentos computacionais e programas permitiu, sob o ambiente da internet, a implanta√ß√£o de um modelo de neg√≥cios de vigil√Ęncia cont√≠nua, que tornou usual o envio de propagandas personalizadas. Mas n√£o se trata s√≥ de um desleixo pessoal: equipamentos, sistemas e programas, especialmente os privativos (propriet√°rios), s√£o destinados ao controle e vigil√Ęncia de seus usu√°rios.


Mais ainda: o ensino no Brasil, inclusive na universidade, √© defensor e perpetuador desse sistema e seus monop√≥lios, grandes corpora√ß√Ķes que controlam o mundo e que det√©m todo o poder, seja financeiro, seja pol√≠tico.

Neste ensaio mostra-se um panorama desta situa√ß√£o que op√Ķe o desejo da inclus√£o digital ao interesse  e controle dos monop√≥lios, estrat√©gias e atitudes poss√≠veis para enfrent√°-los e as possibilidades abertas pelo uso dos softwares livres.

Software Livre ‚Äď O in√≠cio

Para entender o que √© Software Livre, deve-se pensar em ‚Äúliberdade de express√£o‚ÄĚ, n√£o em ‚Äúalmo√ßo gr√°tis‚ÄĚ. Software Livre √© uma quest√£o de liberdade, n√£o de pre√ßo.

Essa ideia, que hoje se espalha por todo o mundo, atingindo outros tipos de conte√ļdos, como os art√≠sticos, liter√°rios, musicais, cient√≠ficos e jornal√≠sticos, √© parte do movimento pela cultura livre, ‚Äúfree culture‚ÄĚ, que abrange todos os produtos culturais, como textos, imagens, v√≠deos (livros, fotografias, pinturas, e filmes) pregando a reprodu√ß√£o e modifica√ß√£o livres por e para qualquer usu√°rio.

Entretanto, no in√≠cio dos anos 1980, quase todos os programas existentes passaram a ser privativos (propriet√°rios), ou seja, o conceito de propriedade invadiu a √°rea de tecnologia. E, o que √© pior, confundiu a propriedade de coisas abstratas com as concretas.

Para entender o que ocorreu é necessário saber um pouquinho de informática.

c√≥digo fonte √© o pr√≥prio programa, ou seja, √© uma estrutura l√≥gica com uma sequ√™ncia de comandos, em alguma linguagem de programa√ß√£o, criada por uma ou mais pessoas.

Ele √© diferente do c√≥digo bin√°rio, aquilo que o equipamento efetivamente l√™, ou seja, uma enorme sequ√™ncia de zeros e uns, que, para n√≥s, √© incompreens√≠vel.

Assim, quando se diz que o código de um programa é livre, não se está falando de preços, mas que o código fonte está disponível, que outros desenvolvedores poderão executar, conhecer, estudar, adaptar, corrigir, copiar, modificar, melhorar e redistribuir o código do programa.

O principal expoente desse movimento √© o programador Richard Mathew Stallman, que trabalhava no laborat√≥rio de intelig√™ncia artificial do MIT no in√≠cio da d√©cada de 1980. Ele abandonou seu emprego ao constatar que as licen√ßas de direitos autorais que negavam acesso ao c√≥digo fonte dos programas (para impedir c√≥pias) tamb√©m restringiam liberdades que os programadores sempre haviam usufru√≠do, antes do mundo da inform√°tica ser dominado por grandes empresas: a liberdade de executar os programas sem restri√ß√Ķes, a liberdade de conhecer e modificar os programas e a liberdade de redistribuir esses programas na forma original ou modificada entre os amigos e a comunidade.

Stallman iniciou um movimento para produzir um sistema operacional e programas que resguardassem aquelas liberdades que os programadores conheciam antes das restri√ß√Ķes empresariais. Esta iniciativa resultou na cria√ß√£o da Free Software Foundation (FSF), Funda√ß√£o para o Software Livre, que foi fundamentada juridicamente com a reda√ß√£o da GNU General Public License (Licen√ßa P√ļblica Geral do GNU). O GNU √© um sistema operacional totalmente composto por software livre ‚Äď isto √©, que respeita a liberdade dos usu√°rios. Foi concebido por Stallman em 1983,

A filosofia da FSF repousa no entendimento que aquele que produz a informa√ß√£o recebe muito mais informa√ß√£o do que cria. Isso se torna √≥bvio quando se constata que cada programador cria algumas linhas em cima de milh√Ķes de linhas de c√≥digo que outros j√° produziram antes. A Funda√ß√£o tem como objetivo n√£o s√≥ romper monop√≥lios, mas faz√™-lo por meio de um empreendimento coletivo e, em grande parte, volunt√°rio.

Software Livre e Open Source

Em resumo, o software livre é tanto uma filosofia como um modelo de licenciamento. O software livre não é software grátis, pois preço não é a questão. A liberdade é o que importa.

O conceito ‚Äúc√≥digo aberto‚ÄĚ (em ingl√™s ‚ÄúOpen Source‚ÄĚ) √© outra coisa. Foi criado pela OSI (Open Source Initiative). Trata-se de software que produzido colaborativamente, mas que produz programas cujo c√≥digo n√£o fica aberto.

Portanto, o Software Livre √© um movimento pela liberdade dos usu√°rios, como uma quest√£o de justi√ßa. J√° o software livre √© um caminho para uma nova sociedade, pois √© profundamente transformador. N√£o s√≥ promove as liberdades, a cria√ß√£o, a inova√ß√£o, mas estabelece condi√ß√Ķes de igualdade para a produ√ß√£o: o c√≥digo deixa de ser um patrim√īnio exclusivo de poucos e passa a ser algo coletivo, a partir do qual todos podem produzir.

O conceito ‚ÄúC√≥digo Aberto‚ÄĚ √© utilizado pela OSI sob um ponto de vista t√©cnico, bastante pragm√°tico, que evita quest√Ķes √©ticas e ressalta n√£o as liberdades oferecidas pela licen√ßa, mas a alta qualidade t√©cnica do software. O pessoal do c√≥digo aberto, portanto, praticamente n√£o se interessa por mudan√ßas sociais e se preocupa com venda e pre√ßo, e n√£o com liberdade.

√Č importante lembrar que o patrim√īnio de uma empresa livre n√£o √© um c√≥digo sobre o qual mantenha controle. √Č a capacidade intelectual de seus funcion√°rios, o bom atendimento que oferece aos seus clientes e a qualidade de seu trabalho.

Assim, há pontos comuns entre Software Livre e Open Source, o que possibilita muita confusão e, até, trabalho conjunto em muitos projetos. Algumas grandes empresas como IBM, HP, Intel e Dell têm investido no software de código aberto, juntando esforços para a criação do Open Source Development Lab (OSDL), instituição destinada à criação de tecnologias de código aberto.

O controle do usu√°rio ‚Äď a depend√™ncia

Assim, Software Livre trata de liberdade.

Mas, liberdade para quem?

Para todo e qualquer usu√°rio.

√Č importante notar que quanto mais o usu√°rio opera com um software comercial, quanto mais cria arquivos nesse programa, mais dependente fica dele, e, se desejar substitu√≠-lo, maior se tornar√° o custo de substitui√ß√£o, o que refor√ßa a depend√™ncia.

Por exemplo, imagine alguém que publicou um artigo, um post ou uma poesia por semana em um blog. E que foi guardando todos os arquivos criados em um programa editor de texto, pois sempre os consulta e utiliza. E que, subitamente, esse programa muda de versão. E que os arquivos criados não sejam mais abertos, sob a nova versão do programa.

O que aconteceria? O autor não teria mais acesso a seus próprios textos? Como poderia continuar seus estudos, seu trabalho?

√Č importante notar que, quanto mais se utiliza um programa, mais a pessoa fica dependente daquele sistema e daquele programa.

Portanto, h√° uma rela√ß√£o de poder entre o usu√°rio e o fornecedor de software. E o usu√°rio pode at√© ser criminalizado se decidir romper com esta rela√ß√£o, devido √†s leis sobre propriedade intelectual.

O movimento iniciado por Stallman para produzir um sistema operacional e programas livres teve e tem como objetivos:

  • empoderar o usu√°rio;
  • resguardar aquelas liberdades que os programadores conheciam antes da imposi√ß√£o das restri√ß√Ķes empresariais;
  • romper com a submiss√£o dos usu√°rios a um fornecedor de software.

Foi um evento hist√≥rico: em 27 se setembro de 1983, utilizando um e-mail, Stallman anunciou o Projeto GNU, ‚ÄúGnu is not Unix‚ÄĚ, e come√ßou a escrever o sistema, a partir dos utilit√°rios.

Propriedade privada ou intelectual

Antes de come√ßar a ler esta parte, assista o v√≠deo abaixo, √© curtinho, divertido e instrutivo, e lhe introduzir√° no universo do Copyrght.

Direitos autorais: para sempre menos um dia

At√© a Idade M√©dia havia um enorme controle da divulga√ß√£o de ideias, pois o n√ļmero de c√≥pias de cada obra era pequeno e limitado pelo trabalho manual, longo e tedioso , dos copistas, em geral em mosteiros.

Perto de 1455, as contribui√ß√Ķes do inventor alem√£o Gutemberg para a tecnologia da impress√£o e tipografia come√ßaram a mudar essa realidade.

A iminente maior democratização da circulação da informação, com os livros impressos, fez com que soberanos se sentissem ameaçados.

Logo concederam aos donos dos meios de produ√ß√£o dos livros o monop√≥lio da comercializa√ß√£o de todos os t√≠tulos que editassem. Em contrapartida, os editores vigiariam para n√£o fossem editados conte√ļdos desfavor√°veis √† ordem vigente, inclusive exercendo censura.

Esse privil√©gio, portanto, n√£o tinha como objetivo dar qualquer direito ao escritor da obra, mas apenas garantir o monop√≥lio de sua reprodu√ß√£o, da√≠ sobrevindo o termo Copyright, ou seja, o direito de c√≥pia.

Apenas na Revolu√ß√£o Francesa foi reconhecido o direito do autor sobre a sua cria√ß√£o. Em 1777 foi estabelecida uma distin√ß√£o na natureza jur√≠dica entre autor e editor: ao ‚Äútrabalho intelectual‚ÄĚ do primeiro foi dado o privil√©gio de ‚Äúpropriedade intelectual‚ÄĚ, ao passo que o privil√©gio do editor foi uma ‚Äúliberalidade‚ÄĚ.

At√© a virada do s√©culo XIX para o XX as leis referiam-se apenas √† reprodu√ß√£o de textos em papel e a material impresso, j√° que havia preocupa√ß√£o em regular o uso de um √ļnico tipo de m√°quina, a impressora.

No entanto, por volta de 1900, para garantir lucros com as novas tecnologias que estavam surgindo, o Copyright foi ampliado de modo que abrangesse quaisquer obras, independentemente do meio f√≠sico em que eram distribu√≠das. Assim, foram desenvolvidas regras de direitos de c√≥pia espec√≠ficas para cada novo meio: filmes, fotos, discos e r√°dio.

Aqui √© importante considerar outro tema: propriedade, algo que √© muito bem definido juridicamente.

Note-se que alguém que ganhou/comprou algo está garantindo para si a utilização de um bem. Por exemplo, se alguém possui uma caneta, a propriedade privada desse objeto garante ao dono o acesso a ele quando bem entender e o seu uso da forma que desejar, inclusive de poder vendê-la, doá-la ou emprestá-la. Atenção especial deve ser dada à exclusividade de uso que muito interessa ao proprietário, pois, se a caneta for compartilhada com alguém, no momento em que a segunda pessoa a estiver usando, a primeira estaria privada do uso.

Evidentemente essa descri√ß√£o aplica-se para os bens materiais, especialmente os bens de uso.

H√° muito tempo sabe-se que a propriedade intelectual √© bastante diferente. Por exemplo, uma ideia s√≥ pode ser possu√≠da se n√£o for divulgada. E, quando o √©, a ideia passa a pertencer a todos que a entenderam. E o mais interessante √© que, mesmo ent√£o, a pessoa que a formulou nada perde com isso. Ali√°s, em geral acontece o contr√°rio, quanto mais pessoas conhecerem seus textos, sua arte, sua m√ļsica, maior ser√° a boa reputa√ß√£o que o autor ganhar√° na sociedade.

√Č importante notar que o uso compartilhado de ideias, de bens imateriais √© simult√Ęneo.

Um escritor ou um compositor n√£o produz sua obra para o seu pr√≥prio deleite; quanto maior for o n√ļmero de pessoas que tomarem conhecimento de suas cria√ß√Ķes, mais o autor ter√° seu talento reconhecido.

Portanto, can√ß√Ķes, poemas, inven√ß√Ķes e ideias n√£o t√™m a mesma natureza dos objetos materiais. Efetivamente, cultura n√£o √© (era) mercadoria.

Exatamente porque as ideias têm essa característica de, uma vez expressas, poderem ser assimiladas por todos que as recebem, surgiu o conceito de que deveriam ser protegidas de alguma maneira, para que seus criadores não ficassem desestimulados em criá-las e expressá-las.

Foi proposto que aquele que cria a ideia deve ter direito sobre ela, de modo que quando outra pessoa a utilize ou a receba, o autor tenha uma recompensa material. Ou seja, o direito autoral concedia ao autor um monop√≥lio sobre a explora√ß√£o comercial de sua obra, de modo que aquele que desejasse ler um livro, usar alguma inven√ß√£o, ou ouvir uma m√ļsica teria que pagar ao autor.

monop√≥lio √© a explora√ß√£o, sem concorr√™ncia, de um neg√≥cio ou ind√ļstria, em virtude de um privil√©gio. No caso de bens intelectuais, este privil√©gio em geral expressar num per√≠odo de tempo que garante ao autor ou propriet√°rio da obra ser o √ļnico fabricante/vendedor de um livro, m√ļsica, medicamento, programa, jogo‚Ķ

Na constituição dos EUA de 1787 já estava prevista a promoção do progresso das ciências e das artes assegurando aos autores e inventores, por um período de tempo limitado, o direito exclusivo aos seus escritos e descobertas, com o objetivo de assegurar a eles a justa recompensa pelo seu esforço e talento. A meta final era a da promoção do bem comum, do incentivo à criação e disseminação cultura, das artes e da atividade intelectual em geral, beneficiando toda a sociedade.

Evidentemente, se a duração do direito ao monopólio for longa demais, pode-se dificultar o aproveitamento social da criação.

Portanto, era necessário alcançar um ponto de equilíbrio entre o estímulo à criação e o interesse social em usufruir o resultado da criação.

Em 1710, a primeira lei inglesa sobre direitos autorais deu ao criador o direito exclusivo sobre um livro por 14 anos, com direito a renovação por mais 14 anos, desde que o autor estivesse vivo quando o período inicial expirasse.

Curioso √© notar que as pr√°ticas da ‚Äúpropriedade intelectual‚ÄĚ s√£o em certo sentido contr√°rias ao esp√≠rito original do capitalismo concorrencial. Enquanto o capitalismo dos prim√≥rdios pressupunha concorr√™ncia, as patentes, a propriedade intelectual, o direito de c√≥pia ou marcas, s√£o monop√≥lios garantidos pelo Estado. Os primeiros por um per√≠odo de tempo determinado e as marcas por um per√≠odo indeterminado.

Exploração comercial monopolista pelas distribuidoras

√Č comum pensarmos que quando a propriedade intelectual foi concebida, sua finalidade era conceder ao autor os ganhos exclusivos sobre a explora√ß√£o de c√≥pias da obra, sem concorr√™ncia.

Entretanto, os autores poderiam mesmo auferir lucro?

Seria muito dif√≠cil, com raras exce√ß√Ķes. Pois, diferentemente do trabalho manual que modifica a mat√©ria prima, e produz altera√ß√Ķes nos objetos, aumentando seu ‚Äúvalor de uso‚ÄĚ, o trabalho intelectual n√£o possui necessariamente ‚Äúvalor de uso‚ÄĚ vinculado a um objeto que possa ser vendido, j√° que as ideias n√£o s√£o materiais.

E, se uma ideia for reproduzida verbalmente, n√£o ter√° ‚Äúvalor de troca‚ÄĚ, por maior que seja o seu ‚Äúvalor de uso‚ÄĚ, pois n√£o est√° limitada √† produ√ß√£o de um meio material. Isso s√≥ acontece se a ideia for copiada em algum meio material, como o papel, por exemplo. Assim, um escritor s√≥ poder√° explorar plenamente sua obra se tamb√©m se tornar um editor e confeccionar um objeto vend√°vel, como um livro ou um CD. Ou seja, teria que possuir uma editora, com todos os seus equipamentos e funcion√°rios. Evidentemente, a quase totalidade dos escritores n√£o quer assumir esse papel e nem tem condi√ß√Ķes para tal.

Entretanto, a compra de uma obra intelectual implica na aquisi√ß√£o conjunta de um bem e de servi√ßos, ou seja, um meio material (por exemplo: o papel) sob o qual √© realizado um servi√ßo (a c√≥pia). Ap√≥s a inven√ß√£o da imprensa, houve grande diminui√ß√£o de custos dos servi√ßos de c√≥pia, o que obrigou os autores a alienarem seu ‚Äútrabalho intelectual‚ÄĚ aos editores, os detentores dos meios de produ√ß√£o que, em contrapartida, exigiram dos autores a concess√£o do monop√≥lio da distribui√ß√£o das obras.

Assim, embora o ‚Äútrabalho intelectual‚ÄĚ tenha um grande ‚Äúvalor de uso‚ÄĚ em qualquer sociedade, seu ‚Äúvalor de troca‚ÄĚ ser√° sempre determinado por um produto (exemplos: o livro, o CD) em que est√£o embutidos servi√ßos (exemplos: c√≥pia manual, c√≥pia impressa).

O que fizeram os autores ao longo da hist√≥ria? Alienarem seu ‚Äútrabalho intelectual‚ÄĚ aos editores, os detentores dos meios de produ√ß√£o que, em contrapartida, exigiram dos autores a concess√£o do monop√≥lio da distribui√ß√£o das obras.

O autor acabou cedendo seus direitos de explora√ß√£o, sem concorr√™ncia, sendo obrigado a dividir os lucros de sua cria√ß√£o. Nessa rela√ß√£o, o elo fraco √© exatamente o autor, j√° que a distribui√ß√£o de livros, discos e outros produtos sempre foi relativamente cara. √Č preciso, ainda, considerar ainda que h√° muitos autores e poucas empresas interessadas.

Portanto, as empresas sempre tiveram muito poder para acertar as condi√ß√Ķes contratuais e geralmente conseguem uma exorbitante participa√ß√£o nos lucros provenientes da explora√ß√£o comercial na venda de c√≥pias da obra. Evidentemente, pelo fato do monop√≥lio de explora√ß√£o comercial ser cedido integralmente para as empresas, n√£o s√£o os autores os que mais se beneficiam. Quem efetivamente lucra s√£o essas distribuidoras, as grandes empresas da ind√ļstria cultural.

A cópia doméstica

Uma √©poca √°urea para o Copyright, alongou-se por quase 150 anos, entre 1800 e 1940, pois as atividade de ler e imprimir um livro exigiam equipamentos completamente diferentes.

O cen√°rio come√ßou a mudar em 1944, quando as tropas americanas libertaram a cidade de Luxemburgo e l√° encontraram uma m√°quina alem√£ capaz de gravar som em fitas magn√©ticas. Esse gravador cassete trazia algo realmente novo: integrava em um √ļnico dispositivo a capacidade de audi√ß√£o e de grava√ß√£o, ou seja, a possibilidade de efetuar c√≥pias.

Os computadores na verdade seguiram esse mesmo caminho. Eles são máquinas que se destinam à cópia. Isto é, permitem que possamos copiar qualquer tipo de arquivo digitalizado, independentemente de sua natureza, sejam eles textos, imagens animadas ou não, sons, vídeos, planilhas…

O estabelecimento da Internet possibilitou algo que n√£o existia antes do s√©culo XX, os diversos meios de grava√ß√£o atualmente s√£o poss√≠veis em um √ļnico meio. E a dist√Ęncia f√≠sica desses conte√ļdos deixou de ser importante.

Com a utiliza√ß√£o de computadores, as fun√ß√Ķes de publica√ß√£o, divulga√ß√£o e distribui√ß√£o de obras intelectuais, que geralmente eram realizadas por editoras, produtoras e gravadoras, puderam ser realizadas pelo pr√≥prio autor em p√°ginas pessoais. E de maneira mais r√°pida e menos burocr√°tica.

Assim, qualquer pessoa que possua um computador conectado √† Internet pode ter acesso a livros, m√ļsicas, filmes e programas produzidos por autores em qualquer lugar do planeta e em muito pouco tempo pode copiar uma obra para seu computador. Isso acontece a um custo bastante baixo, j√° que

  • o pr√≥prio usu√°rio localiza a obra desejada e realiza a c√≥pia;
  • o sistema de c√≥pia √© eficiente, produzindo exemplares com boa qualidade;
  • o custo de reprodu√ß√£o de cole√ß√Ķes de livros e m√ļsicas tornou-se praticamente insignificante, permitindo que qualquer pessoa possua uma grande biblioteca/discoteca pessoal em formato digital;
  • o meio material que hospeda a obra √© um dispositivo de armazenamento magn√©tico (disco r√≠gido, pendrive) ou √≥tico (CDs, DVDs), que ficaram cada vez mais baratos.

Aparentemente, as ind√ļstrias que se servem do Copyright n√£o acompanharam a evolu√ß√£o da tecnologia e seu modelo de neg√≥cios, baseado em uma produ√ß√£o monopolista e venda de c√≥pias, tornou-se insustent√°vel.

Qual a sa√≠da encontrada por elas? Separar a simples utiliza√ß√£o do processo de grava√ß√£o: para garantir os seus lucros ao vender c√≥pias, passaram a pressionar por leis que definissem como criminosa qualquer atitude que produza essas mesmas c√≥pias.

Ora, quem conhece minimamente a história do computador e da Internet sabe que essa política é o pior dos pesadelos. Afinal, o que mais é a Internet senão um sistema que permite cópias?

Interessante √© notar que as c√≥pias n√£o leg√≠timas aparentemente afetam pouco a ind√ļstria. √Č s√≥ lembrar que o pr√≥prio sistema operacional Windows, pertencente √† poderosa MicroSoft, continua sendo, de longe, o mais utilizado e comprado em todo o mundo, embora tamb√©m seja o que tem maior n√ļmero de c√≥pias dom√©sticas.

E √© claro que tudo isso n√£o significa a elimina√ß√£o de editoras, produtoras e gravadoras. Basta notar que a digitaliza√ß√£o de obras intelectuais n√£o aboliu a impress√£o/ grava√ß√£o de livros e discos. Por exemplo, livros que j√° se encontram sob dom√≠nio p√ļblico continuam sendo impressos embora sejam encontrados facilmente na Internet. As editoras continuam imprimindo-os, inclusive em edi√ß√Ķes ilustradas e luxuosas.

√Č importante lembrar que Dom√≠nio p√ļblico √© o conjunto de obras culturais, de tecnologia ou de informa√ß√£o (livros, artigos, obras musicais, programas computacionais, inven√ß√Ķes e outros) com livre uso comercial, pois n√£o est√£o submetidas a direitos patrimoniais exclusivos de alguma pessoa f√≠sica ou jur√≠dica, ou seja n√£o s√£o mais propriedade de ningu√©m. Ou seja, a obra entra para o conjunto de conhecimentos da humanidade, como sempre aconteceu, antes desse tipo de legisla√ß√£o ser aprovada.

Portanto, aparentemente, quem copia um arquivo n√£o √© necessariamente algu√©m que compraria aquele filme, v√≠deo ou m√ļsica no varejo se n√£o pudesse copi√°-lo na Internet. E sempre haver√° pessoas interessadas em adquirir as c√≥pias, por comodidade ou por capricho.

Assim, o pioneirismo na explora√ß√£o de uma ideia garante vantagem em rela√ß√£o √† concorr√™ncia. Isso fica muito claro quando uma inven√ß√£o √© comercializada. Rapidamente √© copiada por empresas concorrentes. Portanto, n√£o s√£o as patentes que garantem os lucros das empresas, mas o pioneirismo.

Contra a cópia doméstica

As ind√ļstrias distribuidoras de dispositivos de armazenamento, tais como fitas cassete e CDs sempre tentaram obstruir a difus√£o de tecnologias de grava√ß√£o dom√©stica. E sempre usaram pol√≠ticos para aprovar leis que as beneficiassem.

Nada, entretanto, √© compar√°vel  √†s medidas internacionais que a Associa√ß√£o da Ind√ļstria Discogr√°fica Norte-americana (RIAA), a Federa√ß√£o Internacional da Ind√ļstria Fonogr√°fica (IFPI), a Motion Picture Association of America (MPAA), a entidade que defende os interesses dos maiores est√ļdios produtores de filmes dos EUA propuseram em 2008 ao G8 (o ent√£o grupo do pa√≠ses mais desenvolvidos e R√ļssia).
O grupo apoiou desde aquele ano o estabelecimento do ACTA ‚Äď ‚ÄúAnti-Counterfeiting Trade Agreement‚ÄĚ, um Tratado de Com√©rcio Anti Pirataria, negociado sigilosamente entre v√°rios pa√≠ses nos √ļltimos anos.

Se cumprido ao p√© da letra, promoveria a exist√™ncia de um Estado policial digital que deveria obrigar todos os pa√≠ses a tomar severas medidas para coibir ou restringir o uso de equipamentos, formatos de arquivos ou procedimentos que s√£o habitualmente realizados por milh√Ķes de pessoas ao redor do planeta, atacando fortemente as liberdades.

O objetivo do ACTA (assinado por 32 pa√≠ses a partir de 2011 mas ainda n√£o em vigor por falta de ratifica√ß√£o) √© proteger a propriedade intelectual e exigir que provedores de Internet exercessem vigil√Ęncia cerrada sobre seus assinantes, ignorando as liberdades individuais, o direito √† privacidade e a neutralidade da rede.

Tais medidas dividem-se em três grandes grupos:

  • Alf√Ęndegas ‚Äď funcion√°rios de alf√Ęndegas revistariam aparelhos eletr√īnicos tais como celulares e notebooks em busca de viola√ß√Ķes de direitos autorais. Se encontrado algum ind√≠cio o aparelho poderia ser confiscado ou destru√≠do e o portador seria multado.
  • Coopera√ß√£o dos Provedores ‚Äď os provedores de servi√ßos √† internet deveriam ser obrigados a fornecer informa√ß√Ķes de seus clientes √†s autoridades, mesmo sem mandato ou aval da justi√ßa.
  • Entidades de Fiscaliza√ß√£o ‚Äď previa-se a cria√ß√£o de uma ag√™ncia que implementaria medidas para fiscalizar e regulamentar as medidas que seriam tomadas.

√Č importante lembrar que h√° outras exig√™ncias que incluiriam at√© a permiss√£o para que autoridades judiciais pudessem dar continuidade a processos sem, sequer, identificar os processados.

No Brasil, um projeto de lei de 2009, do ent√£o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), apelidado de ‚ÄúAI- 5 Digital‚ÄĚ, pretendeu criminalizar pr√°ticas cotidianas na Internet, tornar suspeitas as redes P2P (peer-to-peer) e impedir a exist√™ncia de redes abertas. Ainda mais: objetivava criminalizar o acesso a sistemas informatizados e dispositivos de comunica√ß√£o sem a autoriza√ß√£o do titular da rede.

A proposta representou um salto de qualidade: n√£o se tratava mais de criminalizar a pirataria, que copia em s√©rie para posterior venda, mas de impedir at√© uma c√≥pia √ļnica e seu compartilhamento sem objetivos comerciais. Assim, mesmo um consumidor que tivesse adquirido um produto original n√£o poderia fazer uma c√≥pia para backup ou para uso pessoal.

Após grande mobilização social, o projeto foi derrotado. A luta foi o estopim da discussão que originou o Marco Civil da Internet, com o objetivo de resguardar os direitos de cada cidadão, a sua liberdade de expressão e o seu acesso ao conhecimento.

(na segunda parte do ensaio ser√° apresentada a estrat√©gia dos grandes grupos para garantir o m√°ximo lucro para si e o que est√° em jogo nos projetos do Software Livre em contraposi√ß√£o ao das corpora√ß√Ķes)

Por F√°tima Conti  |

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Publicado Originalmente no Outras Palavras Comunicação Compartilhada e Pós-capitalismo

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Hora de enfrentar Facebook e Google?

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Publicado Originalmente no Outras Palavras Comunicação Compartilhada e Pós-capitalismo

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Carnaval na Alemanha
Em fevereiro de 2015, participantes do carnaval de Dusseldorf (Alemanha) ironizam, em carro alegórico, o vigilantismo dos gigantes da internet

Punição da União Europeia e estudo independente reconhecem: os dois gigantes querem cercar a internet e eliminar sua diversidade. Mas como frear seu poder?

Por Rafael A. F. Zanatta

Essa semana, Google e Facebook ‚Äď dois dos maiores gigantes do capitalismo de vigil√Ęncia contempor√Ęneo ‚Äď sofreram duros golpes em suas reputa√ß√Ķes corporativas, abrindo um debate mundial sobre a √©tica de suas a√ß√Ķes e as vulnerabilidades de nossa depend√™ncia a esses monop√≥lios da era digital.

Na ter√ßa-feira (27/06), a¬†Comiss√£o Europeia imp√īs uma multa de quase 9 bilh√Ķes¬†de reais ao Google por ‚Äúabuso de posi√ß√£o dominante como motor de busca‚ÄĚ e ‚Äúpor dar vantagem ilegal a seu pr√≥prio servi√ßo de compras comparativas‚ÄĚ. Trata-se da maior puni√ß√£o antitruste a uma √ļnica empresa j√° realizada na Europa.

As investiga√ß√Ķes foram conduzidas por¬†Margrethe Vestager,¬†comiss√°ria da Uni√£o Europeia para defesa da concorr√™ncia (e forte lideran√ßa do Partido Social-Liberal da Dinamarca). Ela revelou¬†que o¬†Google¬†situava sistematicamente em lugar destacado seus pr√≥prios servi√ßos de compras comparativas, ‚Äúcolocando em lugar pior os servi√ßos de compara√ß√£o rivais nos resultados de busca‚ÄĚ. Para a¬†comiss√°ria, o Google ‚Äúocupa uma posi√ß√£o dominante nos mercados de busca de¬†internet no Espa√ßo Econ√īmico Europeu‚ÄĚ e, com suas pr√°ticas de manipula√ß√£o, ‚Äúabusou da posi√ß√£o dominante dando a seus pr√≥prios servi√ßos uma vantagem ilegal‚ÄĚ.

Em um¬†processo de investiga√ß√£o sigiloso, realizado desde 2014, Vestager reuniu um amplo conjunto de provas, incluindo 5,2 terabytes de resultados de busca (1.700 milh√Ķes de consultas), experimentos e estudos que demonstravam a visibilidade e o comportamento de consumidores em n√ļmero de cliques, dados financeiros da Google e seus competidores e o decl√≠nio de acessos em websites europeus.

Mapa do acesso a internet no mundo.

Para¬†analistas do¬†Financial Times, a decis√£o √© um divisor de √°guas na regula√ß√£o antitruste aplicada √† ‚Äúnova gera√ß√£o de empresas de tecnologia dominantes dos Estados Unidos‚ÄĚ. Um ter√ßo da receita do Google com publicidade em buscas na Europa vem dos an√ļncios de compras que foram analisadas pela Uni√£o Europeia. A decis√£o, enfim, ‚Äúabre o cora√ß√£o do mecanismo de busca do Google‚ÄĚ e possibilita o debate sobre como outros poder√£o utilizar seu mecanismo para conseguir uma melhor exposi√ß√£o.

Para quem se recorda do¬†chamado de Richard Sennett de 2013¬†para ‚Äúquebrar o poder de mercado do Google‚ÄĚ, a decis√£o reabre um debate sobre monop√≥lios na era digital. ‚ÄúA domina√ß√£o √© real e deve ser combatida‚ÄĚ, dizia Sennett, por mais que essas empresas nos pare√ßam boazinhas.

Na quarta-feira (28/06),¬†o centro independente de investiga√ß√£o¬†ProPublica¬†divulgou documentos internos do Facebook¬†sobre o modo como seus 2 bilh√Ķes de usu√°rios t√™m seus discursos avaliados, passando por filtros de censura sobre o que poderia configurar ‚Äúdiscurso de √≥dio‚ÄĚ.

De¬†acordo com a den√ļncia do¬†ProPublica, os algoritmos ‚Äď f√≥rmulas matem√°ticas que executam a√ß√Ķes e comandos ‚Äď do Facebook geram resultados socialmente question√°veis, assegurando os direitos de grupos com posi√ß√Ķes sociais asseguradas (como¬†homens brancos) e desprotegendo grupos minorit√°rios (crian√ßas negras,¬†por exemplo). Documentos internos vazados da empresa mostram que revisores de conte√ļdo eram orientados a trabalhar com uma f√≥rmula simples (protected category + attack = hate speech). ‚ÄúSexo‚ÄĚ e ‚Äúidentidade de g√™nero‚ÄĚ, por exemplo, s√£o consideradas categorias protegidas, ao passo que ‚Äúidade‚ÄĚ e ‚Äúocupa√ß√£o‚ÄĚ n√£o. Como a f√≥rmula exige uma dupla combina√ß√£o de categorias protegidas (PC + PC = PC), discursos voltados a mulheres motoristas n√£o s√£o considerados de √≥dio, pois h√° uma categoria n√£o protegida, que √© ocupa√ß√£o (PC + NPC = NPC).

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O simplismo de f√≥rmula matem√°tica do Facebook e a tentativa de ‚Äúproteger todas as ra√ßas e g√™neros de forma igual‚ÄĚ despertou a cr√≠tica de acad√™micos. Denielle Citron, da Universidade de Maryland, argumentou que as regras do Facebook ignoram o esp√≠rito do direito e a an√°lise contextual da prote√ß√£o. O Facebook saiu em defesa pr√≥pria, alegando que as pol√≠ticas n√£o possuem resultados perfeitos e que √© ‚Äúdif√≠cil regular uma comunidade global‚ÄĚ.

Em ensaio para revista¬†Wired, Emily Dreyfuss analisou a den√ļncia da ProPublica e argumentou que o problema √© maior √© que¬†o Facebook √© ‚Äúmuito grande para ser deletado‚ÄĚ. Ao conectar um quatro da humanidade, as pessoas que precisam de uma plataforma para express√£o n√£o s√£o capazes de sair ‚Äď mesmo se forem alvos de censuras arbitr√°rias ou desprote√ß√Ķes, como o caso dos algoritmos de ‚Äúdiscurso de √≥dio‚ÄĚ.

Isso leva a uma situa√ß√£o paradoxal. Ativistas em defesa da privacidade e lideran√ßas do movimento negro ‚Äď que atacam pr√°ticas realizadas pelo Facebook, como coleta¬†maci√ßa¬†de dados e tratamento tecnol√≥gico desigual para brancos e negros ‚Äď dependem do Facebook para compartilhar informa√ß√£o, pois as perdas s√£o muito grandes ao deletar sua conta e isolar-se da rede de Zuckerberg. ‚ÄúS√£o poucos os que podem se dar ao luxo de abandonar o Facebook e utilizar outras redes‚ÄĚ, afirma Dreyfuss.

O Facebook tem cerca de 1,94 bilh√Ķes de usu√°rios em todo o planeta…

Renata Mielli, ativista integrante da¬†Coaliz√£o Direitos na Rede,¬†em ensaio para o M√≠dia Ninja nesta quinta-feira (29/06), foi perspicaz no diagn√≥stico: ‚ÄúO Facebook est√° sugando a internet para dentro de sua timeline‚ÄĚ. Ele √© o ‚Äúmaior monop√≥lio privado de comunica√ß√£o do mundo‚ÄĚ, colocando em xeque as bases de nossa democracia.

Retomamos, assim, à grande provocação de Richard Sennett: se sabemos que esses gigantes devem ser quebrados e se estamos cientes dos aspectos prejudiciais desses monopólios sociais, o que podemos fazer?

A¬†The Economist,¬†em mat√©ria de capa no m√™s de maio1, surpreendeu os progressistas ao oferecer uma cr√≠tica ao poder do Google e Facebook. A revista inglesa argumentou que √© necess√°rio ‚Äúrepensar radicalmente‚ÄĚ os instrumentos antitrustes para os gigantes de coleta de dados (Google e Facebook), pois os reguladores ainda est√£o presos a conceitos de era industrial, ao passo que os instrumentos de an√°lise devem ser voltados a empresas de tecnologia focadas em dados.

A¬†Economist¬†tamb√©m prop√īs duas ideias embrion√°rias: aumentar a transpar√™ncia sobre como os dados pessoais s√£o coletados e monetizados (aumentando poder de barganha dos ‚Äúfornecedores‚ÄĚ ‚Äď ou seja, n√≥s mesmos) e redefinir conceitos jur√≠dicos aplic√°veis a essa nova ind√ļstria, tratando os¬†data vaults¬†(bancos de dados modelados para fornecer armazenamento hist√≥rico de longo prazo) como ‚Äúinfraestrutura p√ļblica‚ÄĚ, for√ßando o compartilhamento de dados para estimular a competi√ß√£o.

Seriam ideias viáveis? Talvez. O mais importante, nesse momento, é mobilizarmos essas perguntas e forçarmos uma discussão sobre alternativas políticas e institucionais.

Distribuição de uso das redes sociais pelo mundo.

1Regulating the internet giants: the world’s most valuable resource is no longer oil, but data

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Publicado Originalmente no Outras Palavras Comunicação Compartilhada e Pós-capitalismo

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Exposi√ß√£o Pretas InCorpora√ß√Ķes

A mulher preta na arte, entre linguagens, po√©ticas e milit√Ęncias‚ÄĚ discute g√™nero e ra√ßa na Esta√ß√£o Cultura em Campinas

A curadora e artista Andrea Mendes re√ļne em sua nova exposi√ß√£o 12 artistas pretas de Campinas e regi√£o com o objetivo de discutir o racismo, a pol√≠tica, o amor, a ancestralidade, as origens, o machismo e o espa√ßo da mulher preta na arte. A exposi√ß√£o representa diversas linguagens, como desenho, fotografia, pintura, poesia, audiovisual, performance e instala√ß√£o e permanece na entrada principal da Esta√ß√£o Cultura at√© o dia 10 de dezembro.

Andrea Mendes, Da√≠se Silva, Francielle Costacurta, Helen Aguiar, J√©ssica Paulino, Lubaya Rocha, Marla Rodrigues, Monique dos Santos, Natasha Rodrigues, Brenda Nicole, Thayara Magalh√£es, Thais Silva e Vick Aisha s√£o as expositoras que, cada uma a seu modo, representaram-se ou a outras mulheres pretas em diversos aspectos da vida cotidiana. Universidade, rela√ß√Ķes amorosas, familiares, dificuldades na representa√ß√£o e medos de mulheres pretas foram alguns dos temas discutidos com o p√ļblico de aproximadamente sessenta pessoas que esteve no coquetel de abertura, no dia 19 de novembro, v√©spera do feriado da Consci√™ncia Negra.

Andrea Mendes é arte educadora, artista visual, performer, curadora e militante do movimento negro. Entre os trabalhos, está a curadoria da Exposição Pretitudes no MIS Campinas, em 2016 e a exposição Memórias Históricas do Hip Hop Interior 019, dedicada exclusivamente a contar a história do Movimento Hip-Hop na Região de Campinas. Ela também desenvolve pesquisas sobre raça e gênero.

A convite da Fabiana Ribeiro Curadora do Espa√ßo de Arte da Esta√ß√£o Cultura e com apoio do N√ļcleo de Consci√™ncia Negra Teresa de Benguela da PUC-Campinas, do Ponto de Cultura e Mem√≥ria Iba√ī, do Grupo Kilombagem, da Casa Coletiva Margem31, da CEPIR ‚Äď Coordenadoria Especial de Promo√ß√£o da Igualdade Racial e SMPDC ‚Äď Centro de Refer√™ncia em Direitos Humanos na Preven√ß√£o e Combate ao Racismo, a exposi√ß√£o √© um trabalho importante para quem quer compartilhar ou entender o que √© ser mulher preta nos dias atuais. Como parte desse grupo, me senti representada ao ver tantas mulheres pretas, com diversas tonalidades, cabelos de diversas texturas, com lutas, ang√ļstias e vit√≥rias t√£o similares, em diferentes narrativas.

Por fim, √© gratificante perceber que estamos conquistando esses espa√ßos e, para al√©m disso, estamos juntas, em um verdadeiro Ubuntu: ‚Äúeu sou porque n√≥s somos.‚ÄĚ

Thalyta Martina
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CONFIRA ALGUMAS FOTOS!

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Fotos Crisley Caroline

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Buia Kalunga – A Cena (part. Ba Kimbuta)

Primeiro clipe do trabalho “solo” de Buia Kalunga, que √© tamb√©m vocalista da banda Ba-Boom e militante do grupo Kilombagem.

O clipe foi produzido por Gata Negra, dirigido por Patrick Monteiro e fotografado por Ana Clara Marques e Gisele Gonçalves.

A m√ļsica foi produzida no Studio Kasa por Buia e DJ Crick, e conta com a participa√ß√£o especial de Ba Kimbuta.
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CONFIRA!!

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Sem ficção, clipe traz a violência do Estado

Parceria entre Buia Kalunga, Ba Kimbuta e DJ Crick utiliza a internet para lançamento de videoclipe

Est√° dispon√≠vel na internet desde a segunda-feira (02/11) o novo videoclipe do m√ļsico e ativista Buia Kalunga, em parceria com Ba Kimbuta e DJ Crick. Intitulada A Cena, a m√ļsica que rendeu a produ√ß√£o faz parte do projeto solo de Buia, que j√° conta com nove faixas e est√° em fase de grava√ß√£o.

O lançamento virtual, realizado no Dia de Finados, não foi à toa, mas como uma referência às vítimas da violência do Estado brasileiro, que assola principalmente jovens negros na periferia.

 

buia-ba

O primeiro √°lbum solo de Buia apresenta faixas que trazem forte influ√™ncia do rap e da m√ļsica jamaicana, vertente que o artista trabalha em outros projetos, como o grupo Makomba, no qual atua ao lado de um importante parceiro, Ba Kimbuta; e a banda Ba-Boom. Al√©m dessas bandas, o m√ļsico tamb√©m toca na Escola de Samba Palmares de Santo Andr√©. Em meio a tantos trabalhos coletivos, √© na atua√ß√£o solo que surge a oportunidade para o trabalho autoral e a express√£o de sua inquietude social.

Buia Kalunga √© educador e leciona m√ļsica e literatura na Funda√ß√£o Casa. Transitando em diversos meios seja atrav√©s da educa√ß√£o ou da m√ļsica, a constata√ß√£o que surge √© que a arte √© um instrumento fort√≠ssimo de contesta√ß√£o da realidade e suas desigualdades. √Č isso que inspira as cria√ß√Ķes de Buia. ‚ÄúMinhas m√ļsicas s√£o muito √≠ntimas, falam sobre conflitos internos, mas n√£o s√≥ meus, escrevo sobre conflitos da vida urbana: o tr√Ęnsito, o trabalho, as desigualdades.‚ÄĚ

Mesmo diante de temas pesados, o artista acredita que a arte √© capaz de trazer leveza. ‚Äú A arte tem o poder de nos tornar melhores. N√£o acredito na arte pela arte, ela √© capaz de promover transforma√ß√£o social‚ÄĚ, disse Buia, ao acrescentar que a m√ļsica, sozinha nada pode. ‚ÄúA m√ļsica tem um potencial revolucion√°rio muito forte, ela exp√Ķe realidades, mas a √ļnica maneira de transform√°-las √© com organiza√ß√£o e pol√≠ticas p√ļblicas.‚ÄĚ E quanto a isso, Buia atua nas duas frentes, m√ļsica e organiza√ß√£o, j√° que √© membro do Kilombagem, coletivo dedicado a debater ra√ßa, g√™nero e classe social. ‚ÄúN√£o vamos acabar com o racismo enquanto existir capitalismo, s√£o coisas interligadas‚ÄĚ, cr√™.

Vídeo tem brutalidade encenada e real

O clipe de A Cena foi gravado parte em Santo Andr√©, parte em S√£o Bernardo. ‚ÄúAlgumas casas da minha rua foram desapropriadas por causa das obras do Rodoanel, tiraram os moradores de l√° e s√≥ ficaram escombros. Esse cen√°rio tem a ver com m√ļsica.‚ÄĚ A produ√ß√£o apresenta refer√™ncias de cinema, mas √© tudo real.

‚ÄúAssistimos a viol√™ncia como se fosse um espet√°culo, mas a vida n√£o √© fic√ß√£o, tudo √© muito banalizado‚ÄĚ, afirmou Buia, ao atribuir parte desta banaliza√ß√£o √† m√≠dia. ‚ÄúA linguagem cinematogr√°fica ficou por conta do Patick Monteiro, e fotografia de Ana Clara Marques e Gisele Gon√ßalves, e da produtora Gata Preta Produ√ß√Ķes. Foram usados efeitos futuristas e cenas de viol√™ncia policial.‚ÄĚ

Por: Marina Bastos (marina@abcdmaior.com.br)

Post original; http://www.abcdmaior.com.br/materias/cultura/sem-ficcao-clipe-traz-a-violencia-do-estado

Assista o Clip

 

 

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Download ‚Äď Universo Preto Paralelo

 

Universo Preto Paralelo √© o nome do primeiro trabalho de B√° Kimbuta. Um √°lbum com uma sonoridade incr√≠vel. Jazz, dub, samba, hip-hop, funk, afrobeat, entre outros sons, se fundem a voz marcante de Ba Kimbuta, servindo de pano de fundo para poesias fortes, que se aproximam do impacto de um soco no est√īmago. Racismo, machismo e luta de classes s√£o temas recorrentes que, com o peso do som, deixam um n√≥ na garganta de quem acredita de que n√£o h√° mais espa√ßo para a luta no Hip-Hop. Nas palavras do pr√≥prio Ba Kimbuta, √© paralelo porque ‚Äúa dimens√£o aqui √© diferente.. √© paralelo porque esconderam de n√≥s a for√ßa do candombl√©, a mandinga da capoeira, o gingado do samba. S√≥ sobrou √°lcool e bebedeira. Esconderam de n√≥s a contribui√ß√£o que a √Āfrica deu ao mundo antes dos Gregos no campo da filosofia, na matem√°tica, na medicina‚Ķ‚ÄĚ

Confere aí:

 

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Universo Preto Paralelo

Fruto do hip-hop e da luta negra que conheceu na metade dos anos 1990, com a banda Uafro, B√° Kimbuta usa sua forma√ß√£o como percussionista, compositor e militante para espalhar sua mensagem. ¬†O polivalente MC lan√ßou recentemente o disco ‚ÄúUniverso Preto Paralelo‚ÄĚ, √°lbum que merece aten√ß√£o pela ousadia instrumental e ¬†tem√°tica pol√≠tica. No dia 30 de junho (s√°bado), √†s 21h,¬†B√° Kimbuta apresentar√° as m√ļsicas de seu novo disco no Teatro Clara Nunes, no centro de Diadema (SP). O CHH trocou uma ideia forte com o MC. Abaixo, leia a √≠ntegra da entrevista.

 

Central Hip-Hop (CHH): Bá Kimbuta por Bá Kimbuta…
Ba Kimbuta:¬†B√° Kimbuta √© um homen preto, fruto do movimento hip-hop e negro, que atua nas periferias de S√£o Paulo e ABC enquanto militante, e utiliza a m√ļsica como arma. √Č pai de tr√™s filhos: Kaique, Ayan e Luanda. Est√° em busca do conhecimento e da emancipa√ß√£o humana.

CHH: Pegando essa questão de ser homem preto, quando essa consciência veio à tona?
Ba Kimbuta:¬†Em 1996,¬†iniciei no hip-hop atrav√©s de uma banda chamada Uafro. Nesta √©poca, j√° observava as mazelas que o Estado, o colonialismo e capitalismo tinham deixado como heran√ßa. Percebemos porque os malucos envolvidos com o √°lcool e tr√°fico eram pessoas pretas, as empregadas dom√©sticas eram pretas, quem morava amontoado e de qualquer forma eram os pretos. A√≠, quando montamos a posse NegroAtividades e tivemos contato com as quest√Ķes pol√≠ticas e raciais. S√≥ tivemos a certeza de que era uma quest√£o hist√≥rica e estava ligada a √Āfrica.

CHH: E a Uafro? A construção musical da banda é impactante. Como chegaram a esse formato e por que não saiu um disco?
Ba Kimbuta: Uafro passou por uma transformação musical quando deixamos de fazer no formato DJ e MCs e começamos a introduzir elementos sonoros alternativos, tipo cano de pvc, tocar em latão mesclando cantos africanos…Só podemos ter essa sensibilidade quando nos aproximamos de nossa história. O Robson Dio teve a percepção e um olhar mais profundo sobre nossa história, e precisava ir além dos toca-discos.

O contexto politizado estava ganhando corpo, estávamos conhecendo Malcom X. Na época, as posses eram muito fortes, estavámos cheios de gás e os movimentos sociais ainda não eram ONGs. Estávamos em outro cenario politico: Era foda!!! O disco não saiu porque tivemos pontos de vista diferentes sobre esse aspecto de como trabalhar a informação e ela não virar só um produto. Então deixamos no gelo, mas a Uafro está viva, existe a possibilidade de voltar.

CHH: Ouvindo seu trabalho, percebe-se o teor afrocentrado. √Č vi√°vel ser afroncetrado no rap?
Ba Kimbuta:¬†O disco vai al√©m da quest√£o racial, apesar de ser o foco. Tentei trazer coisas do cotidiano, como a viv√™ncia no albergue, a quest√£o de g√™nero em ‚ÄúMarias‚ÄĚ, por exemplo. Mas a minha hist√≥ria √© essa, n√£o teria que ser diferente por fazer um disco de rap misturado com outras vertentes. Minha vida est√° ligada nessa vertente africana, na quest√£o de como a parada foi organizada pra n√≥s, como se desenrolou nossa sobreviv√™ncia depois da escravid√£o.

Então meu som é isso, mas penso que não podemos nos limitar, temos que nos apropiar de um todo, não ficar só no específico. Temos que discutir economia, que está na mão dos boys, educação, reforma agrária. divisão de terra, a violência contra as mulheres e tudo mais, sem perder o foco no específico.

CHH: Um dos discursos que andam em voga √© este: falar o que voc√™ pensa est√° esgotado, √© estar numa ‚Äúamarra‚ÄĚ que atrasou o rap nacional. O que pensa sobre isso?
Ba Kimbuta: Penso que existe vários equívocos. Se alguém afirmar que não existe mais racismo no Brasil, eu pediria para provar, pediria pra provar porque morremos mais, trabalhamos mais e ganhamos menos. Estamos sendo exterminados pela policia  e trocando tiros entre nós pra adquirir o que a burguesia consome e de uma forma muito mais violenta. Eu falo dessas paradas. Enquanto isso, o governo vende uma ideia de nova classe média e quem compra um carro do ano e uma TV de plasma está enquadrado nesse perfil.

CHH: E o CD ‚ÄúUniverso Preto Paralelo‚ÄĚ? Como foi concebido?
Ba Kimbuta:¬†Na banda Uafro, teve uma √©poca que o Raph√£o Alaafin fez parte e somou demais. Inovou com m√©trica, ideias e rimas. Como ele √© produtor tamb√©m ‚Äď tinha acabado de lan√ßar o EP ‚ÄúAmostra com Um Resultado Satisfat√≥rio‚Ä̬† ‚Äď ele come√ßou por pilha pra gente fazer um disco meu, com participa√ß√Ķes. Ent√£o planejamos reunir umas m√ļsicas e poesias e comecei a gostar da proposta. Era pra ser s√≥ umas cinco faixas, mas foi ganhando corpo e vida. A√≠ vai florindo, nascendo ideias novas, quando vi estava com 18 faixas.

O disco foi gravado no estudio N, com o Nefasto, depois finalizado no est√ļdio Casa, com DJ Crick.¬† ‚ÄúUniverso Preto Paralelo‚ÄĚ traz algumas participa√ß√Ķes que considero importante, como Denna Hill, Robson Dio, o Pr√≥prio Raph√£o, James Banto, GG, do Caos do Sub√ļrbio, e Cristina Silva. N√£o considero um trabalho solo, pois, sozinho, eu n√£o teria conseguido colocar na rua.¬† V√°rias pessoas est√£o envolvidas. Sem elas n√£o teria rolado, como Ax√© Produ√ß√Ķes, Kilombagem, Samba de Terreiro, Usina Preta, F√≥rum de Hip-Hop do ABC e v√°rias pessoas que somam.

CHH: E como est√° sendo a repercuss√£o?
Ba Kimbuta:¬†¬†Estou bem contente. Conseguimos fechar dois lan√ßamentos pesados: um no Quilombaque, em Perus, com um puta ax√© e identifica√ß√£o das pessoas. A capa √© de Leadro Valquer, um poeta, m√ļsico e artista pl√°stico que deu uma contribui√ß√£o monstro, junto com o olhar de Edson Ike que fechou a arte gr√°fica de uma forma fina, cheia de qualidade. As pessoas est√£o reconhecendo isso, por√©m algumas pol√™micas j√° come√ßam a¬† aparecer. Tipo: ser√° que ele quer montar uma Rep√ļblica Preta? O que ele est√° querendo? Com certeza ir√£o aparecer v√°rias cr√≠ticas, tamb√©m acho importante. Estou aberto pra receb√™-las, desde que tenham contexto.

Aqui sempre foi um problema os pretos se afirmarem. Isso incomoda, pois n√£o tem massagem, n√≥s n√£o criamos isso, j√° nascemos nisso. Estamos falando de ter acesso, de comer bem, viver bem, ter qualidade de ensino para nossos filhos, ser respeitado. Se eu optar ser de uma religi√£o de matriz africana, parar de tomar tapa na cara de policial: ele n√£o pede licen√ßa pra entrar na favela, chuta sua porta. Por que n√£o falar, n√£o denunciar? √Č isso, acho que minha arte √© pra isso: formar opini√£o, mas to ligado que inimigo √© de gra√ßa! Sei que isso tem um pre√ßo!

CHH: O que você vê na cena atual que te agrade e desagrada?
Ba Kimbuta:¬†Bem, √© preciso entender¬† o cen√°rio do movimento como um todo. Consigo ver os saraus como extens√£o do movimento, pois est√£o ligados a poesia e, tamb√©m, uma grande parte dos grupos de rap encontra espa√ßo para recitar seus versos e suas¬† letras. Esse espa√ßo possibilita o contato com a literatura. Isso √© cabuloso num pa√≠s onde as pessoas ‚Äď inclusive eu ‚Äď ¬†n√£o s√£o educadas para ler, mas vejo que s√£o v√°rias articula√ß√Ķes e eventos espalhados nas quebradas, incluindo todos os elementos, por√©m a visibilidade √© menor que antes.

As coisas mudaram bastante, a rela√ß√£o com a tecnologia e o virtual √© importante, mas se n√£o tomar cuidado, distancia as pessoas. Tamb√©m precisamos estar mais pr√≥ximos um do outro, essa correria pela sobreviv√™ncia nos afasta bastante. Em rela√ß√£o aos grupos que est√£o na grande m√≠dia, vejo varios √Ęngulos positivos por exemplo:¬† Emicida √© um cara que traz v√°rios questionamentos e ideias de uma forma contundente, n√£o t√£o direto, mas comunica demais. Ele trouxe inova√ß√£o na m√©trica e conseguiu expandir rapidamente.

Não podemos cometer o equívoco em dizer que os caras que estão chegando agora são artistas que estão no corre uma cota, passando os mesmos perreios pra fazer o som chegar. Também não podemos deixar de fazer uma crítica construtiva sobre alguns grupos que estouraram agora: eles não representam mais uma ameaça e ainda cometem a besteira de dizer que estamos ultrapassados  por citar as atrocidades  que o capitalismo nos deixou.

CHH:  O que anda ouvindo?
Ba Kimbuta:¬†Escuto v√°rias vertentes da m√ļsica negra. Gosto de Djavam, Cartola, Ivone lara, Candeia Mestre, escuto bastante MidNite, Erykah Badu, Dead Prez, Morodo, GOG, Vers√£o Popular, Criolo, Emicida, Elen Ol√©ria, Curtis Mayfield,¬† Baden Powell, Jill Scott, Bezerra da Silva, Raph√£o, Qi Alforria, Marechal e ai¬† vai ‚Ķ

CHH: O que pretende fazer depois deste CD?
Ba Kimbuta:¬†¬†Fizemos dois lan√ßamentos bem sucedidos um no Quilombaque, em Perus, e outro no espa√ßo cultural Gambalaia. Temos o lan√ßamento do videoclipe da m√ļsica ‚ÄúTenta me catar‚ÄĚ fechado para o dia 25 de julho. No Sesc Santo Andr√©, onde somos convidados do Sarau da Ademar, atrav√©s de uma irm√£ nossa chamada Lids, que est√° somando com a gente de varias formas. Passando essa fase de lan√ßamentos, pretendemos rodar os saraus em S√£o Paulo, fazer mais um lan√ßamento na Bahia, em outubro, e tem uma possibilidade de irmos para o Haiti, no come√ßo do ano que vem.

CHH: Deixe um recado para os leitores do Central Hip Hop.
Ba Kimbuta:¬†Gostaria de agradecer todas as pessoas envolvidas no projeto que n√£o s√£o poucas. Um salve para a Ax√© Produ√ß√Ķes e ao Quilombagem, que me fortalece. Quero dizer que se falo sobre desigualdade social, racismo, viol√™ncia contra a mulher, e exterm√≠nio de uma juventude preta, √© porque vejo sinto e vivo isso. Nossos motivos pra lutar ainda s√£o os mesmos e n√£o me pe√ßa para amenizar,¬† minha luta √© com causa e coletiva, esse disco n√£o √© solo √© coletivo, solo √© a terra. O foco, o desafio √© se apropriar do conhecimento para fazer uma arte com musicalidade emo√ß√£o e t√©cnica, sem deixar possibilidade de revanche para o opressor!

 

 Confira e faça o Donwload do Cd Universo Preto Paralelo

Fonte; http://bakimbuta.wordpress.com/