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As interfaces do Genocídio no Brasil: raça, gênero e classe (Disponível integralmente em pdf)

Enfim, está disponível em PDF a coletânea As interfaces do Genocídio no Brasil: raça, gênero e classe, organizada por Marisa Feffermann; Suzana Kalckmann; Deivison Faustino (Nkosi); Dennis de Oliveira; Maria Glória Calado; Raiani Cheregatto.

O genocídio no Brasil: uma questão complexa

Por: Marisa Feffermann; Suzana Kalckmann; Deivison Faustino (Nkosi); Dennis de Oliveira; Maria Glória Calado; Raiani Cheregatto 

Interfaces do genocídio
Interfaces do genocídio no Brasil

A coletânea que o leitor tem em mãos apresenta um dos temas mais urgentes e atuais da nossa sociedade: a temática da morte sistemática de determinados grupos sociais. 

Em outro tempo e espaço histórico (Paris, 1948), os Estados-mem- bros da Organização das Nações Unidas se reuniram na “Convenção para a Prevenção e Punição de Crimes de Genocídio” para pactuar, em una- nimidade, que a prática de genocídio “é um crime do direito dos povos”. Nessa ocasião, definem como genocídio os atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, tais como: 

a) assassinato de membros do grupo;

b) atentado grave à integridade física e mental de membros do grupo;

c) submissão deliberada do grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial;

d) medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo;  

e) transferência forçada das crianças do grupo para outro grupo.

A referida Convenção fora motivada pelo conhecimento internacional a respeito dos crimes do nazismo. Diante deles, viu-se uma mobilização geral em toda a Europa, ainda devastada pela sua segunda grande guerra, contra a possibilidade de retorno desse fantasma. O fenômeno do nazismo e as suas consequências genocidas ascenderam um sinal de alerta ético, político e estético nos intelectuais das principais vertentes teóricas – do liberalismo ao existencialismo e o marxismo – e instituições europeias que passaram a esboçar uma série de tratados e reflexões críticas sobre o auto- ritarismo, totalitarismo, a violência estatal e burocracia, etc. 

Nessa perspectiva, as transformações da estrutura social e das relações sociais, econômicas e culturais que ocorrem nos grandes centros urbanos têm implicações na mudança do perfil epidemiológico brasileiro, assim como nos efeitos sobre a produção da violência, e causam intensa influência na morbimortalidade das populações, pelo número de mortes, em especial, de adolescentes e jovens negros pertencentes às classes subalternas. A expansão primária do capital pelo globo terrestre – a chamada acumulação primitiva de capitais – exigia, como parte de sua viabi- lidade, de um lado, a destruição violenta de antigas formações produtivas que atrapalhassem a sua lógica e, do outro lado, a subsunção completa de populações não europeias à única forma possível de produção nesse período: o trabalho escravo. E para que esse fosse viável, no plano ético, político e estético, erige-se todo um repertório filosófico, religioso e jurídico voltado à negação da humanidade dos povos colonizados… isso talvez explique o silêncio dos melhores intelectuais europeus – todos assustados com o nazifascismo – diante do holocausto indígena, no Brasil, ou do genocídio hererós, na Namíbia. 

O curioso, para quem estuda as relações entre racismo e modernidade, é que o próprio ocidente, agora assustado com a violência sistêmica do nazifascismo, foi o sujeito dessa mesma violência que agora repudia por cinco séculos seguidos nos territórios não europeus. Aliás, como alerta o poeta martinicano Aimé Cesaire em seu Discursos sobre o colonialismo, o repúdio ocidental a Hitler não se deve ao fato desse chanceler estar à frente do saque, estupro, escravização e morte de milhões de seres humanos, mas, sim, pelo fato de tê-lo realizado na Europa, haja vista que as mesmas potências europeias que ali se colocavam contra o nazismo haviam-no praticado com outros nomes em outros locais da América, Ásia e África. 

Os números históricos não permitem desmentir o poeta. A demografia da população indígena americana decaiu de 2milhões a 4 milhões, no século 16, para menos de 100 mil indivíduos, no século 20. A população negra, a qual se objetivou fazer desaparecer completamente do país, fora alvo de todos os quesitos presentes na supracitada convenção de 1948. 

Ainda hoje, a situação é assustadora. Nas políticas públicas de saúde as inequidades são determinantes da vida, do adoecimento e da morte das pessoas, que resultam de intersecções entre as desigualdades de condições socioeconômicas, do racismo estrutural, de questões de gênero, agravadas por orientações sexuais e religiosas etc. “Raça/cor” deve ser entendida como uma variável social, não biológica, que carrega consigo construções históricas de exclusões, sendo um importante determinante da falta de equidade em saúde entre os grupos populacionais. Durante muito tempo essa informação não constava nos registros oficiais, como nascimentos, mortes, atendimentos, serviços, patologias específicas, registros hospitalares etc. Assim, como não havia a inclusão do quesito “cor” nos registros, as diferenças entre brancos e negros eram invisibilizadas e as reinvindicações do movimento negro quanto à saúde eram banalizadas e consideradas naturais. Vale salientar que retirar (ou não colocar) dos registros de dados a informação sobre a cor, inclusive do Censo de 1970 (1960 e 1980 havia a informação), foi/é uma estratégia adotada historicamente no Brasil, no sentido de manter a falácia da “democracia racial”. Somente a partir da inclusão do quesito cor em 1996 no SIM e Sinasc (Sistema de Informação sobre Mortalidade e Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos) e em todas as bases de dados em 2002, que os estudos epidemiológicos começaram no país, inicialmente sobre mortalidade e depois sobre morbidades, evidenciando o que já fora dito pelo movimento negro. As causas e as proporções das mortes são muito diferentes, quando se compara os dados referentes a brancos e negros. Elas explicitam nitidamente inequidades, determinando expectativas de vida ao nascer muito diferentes, quando se comparam os dois grupos. 

Apesar do pequeno número de estudos sobre os processos de morte, adoecimento, acesso a serviços de saúde e sequelas de doenças, eles revelam grande disparidade entre brancos e negros. 

Na produção científica das últimas décadas alguns resultados são recorrentes: 

•Entre os negros predominam mortes consideradas evitáveis, destacando-se como causa básica: ‘Causas externas’, ‘Doenças Endócrinas e Metabólicas’ e ‘Algumas Doenças Infecciosas e Parasitárias’. 

  • As causas externas (acidentes e violências), em 2014 no município de São Paulo, foram responsáveis por 8,7% do total de óbitos. Os pardos apresentaram a maior proporção (15,7%), seguidos pelos pretos (10,8%) e indígenas (8,3%). O porcentual de mortes por causas externas entre brancos e amarelos foi 6,8% e 3,6%, respectivamente.
  • A Mortalidade Materna é 4 a 9 vezes maior entre as mulheres negras do que entre as brancas, dependendo do estado e/ou cidade considerada.
  • Maior prevalência de hipertensão: independentemente de faixas etárias e do sexo, observa-se que a população negra apresenta taxas de prevalência de hipertensão maiores do que os brancos, sendo que essa taxa é sempre maior conforme se amplia a idade dos indivíduos analisados. No município de São Paulo a prevalência estimada pelo estudo ISA Capital de 2008 foi de 21% para brancos, 33,5% para os de cor preta, 20,5% para os de cor parda, 14,6% e 4,9% para amarelos e indígenas, respectivamente.

Quanto à realização de exames verifica-se menor proporção de adesão entre mulheres e homens negros, para diversos exames de prevenção (PSA, Papanicolau, mamografia etc.) e para seguimento de intervenções. Por exemplo, para realização de prevenção de 
 câncer de próstata PSA/TR no município de São Paulo observa-se maior proporção de exames, no último ano, entre brancos e amarelos. Na análise do quadro epidemiológico da saúde da população negra, ainda incipiente, são necessárias novas aborda- gens que considerem o racismo como estruturante da sociedade e procurem intervir de forma mais contundente na busca de equidade. Há lacunas importantes quando se busca informações e explicações sobre os processos de adoecimento e acesso a serviços. Muitas vezes os mais vulneráveis são culpabilizados pelo próprio adoecimento sem uma análise mais integral. 

Vale ressaltar que o acesso aos dados dos sistemas de informação desagregados por cor e sexo ainda é difícil, especialmente se desejarmos trabalhar com os dados municipais, regionais ou com os sistemas que registram patologias e uso de serviços. 

O Plano Nacional de Saúde considerou como prioridades em relação à população negra os agravos/problemas de saúde que se seguem: • mortalidade materna; • causas externas (homicídio); • mortalidade in- fantil; • doenças crônico-degenerativas: hipertensão e diabetes mellitus; • doenças cardiovasculares; • doenças mentais (depressão, alcoolismo); • desnutrição (criança, gestante, idoso); • DST/Aids; • mortalidade por Aids em mulheres negras. 

Foto: Joquim Lima / Mídia NINJA

Vale informar que em 2017, na Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), foi criado um GT (Racismo e Saúde), com pesquisadores, profissionais de saúde, movimentos sociais e gestores, que trabalha com as questões relacionadas ao racismo como determinante de saúde. Um dos objetivos do GT é aglutinar esforços para realização de estudos amplos e maximizar a difusão dos resultados de estudos e de intervenções/experiências. “O GT Racismo e Saúde é um espaço de diálogo e de articulação entre pesquisadoras/es, profissionais de saúde, gestores, movimentos que estão trabalhando com as temáticas relacionadas ao racismo, seu impacto e sua forma de enfrentamento.” (https://www.abrasco. org.br/site/gtracismoesaude/). 

Violência e saúde 

Em 1996, a 49a Assembleia Mundial da Saúde declarou a violência como importante problema de saúde pública e convocou a OMS para desenvolver uma tipologia da violência que caracterizasse “os diferentes tipos de violência e os elos que os conectariam”. Nessa perspectiva, a saúde pública parte do princípio da necessidade da compreensão da gênese e das formas de manifestação da violência e especificamente dos comportamentos violentos para refletir sobre as possibilidades de preveni-los. Buscando, dessa forma, compreender os possíveis fatores que permitem a emergência de ocorrências desse tipo de causas externas. Algumas hipóteses foram produzidas, desde a questão de comportamentos geradores de risco, o consumo abusivo de drogas lícitas e ilícitas e o envolvimento com o comércio ilegal de drogas têm sido apontados como os principais fatores de risco para a utilização de armas de fogo e, consequentemente, responsáveis por homicídios. Mais recentemente pesquisas revelaram que o registro de antecedentes policiais pode, igualmente, ser apontado como fator de risco, tanto para a morte precoce quanto para a ocorrência de deficiências físicas em jovens no começo da idade produtiva. 

A mortalidade representa a violência no grau extremo e é uma das formas mais utilizadas pelo campo da saúde para identificar a sua magnitude. Alguns autores reafirmam a mortalidade por homicídio como resultante de complexo processo de determinação, no qual atua uma série de fatores sociais, econômicos, culturais, familiares e psicológicos. 

Cartazes com imagens dos jovens normalistas do México

O contingente de jovens existentes na América Latina vivendo em situação de vulnerabilidade, aliado às turbulentas condições socioeconômicas de muitos países dessa região, provoca grande tensão, agravando diretamente os processos de integração social e, em algumas situações, fomentando o aumento da violência e da criminalidade. Essa ordem dominante tem ampliado as condições de precariedade e de vulnerabilidade dos jovens, a partir de perspectivas classistas, racistas, homofóbicas e de ordem proibicionista, que, com o pretexto de combater o crime organizado, têm funcionado como estratégia de limitação dos espaços sociais de liberdade. O conceito de Juvenicídio tem sido utilizado para discutir a situação dos jovens que sobrevivem na América Latina, sob a égide das políticas neoliberais. 

No Brasil, o tema do juvenicídio está intimamente relacionado com o que podemos denominar genocídio da juventude negra. O fenômeno do genocídio da juventude tem como fonte um conjunto de fatores que vão desde a explícita segregação social ao racismo velado. São condições que inferiorizam o negro, submetendo-o, por exemplo, às piores condições empregatícias e aos piores salários. O principal propulsor da construção desses estigmas, produzidos e reforçados pelos meios de comunicação, está alicerçado no processo histórico das discriminações e racismo no Brasil. Os indícios desses estigmas se expressam no número de mortes de jovens negros, na violência legitimada do Estado, nas chacinas e no encarceramento em massa, que tira de circulação inúmeros jovens, preferencialmente negros. 

Diante dessa subsunção substancial de vida, os movimentos negros e indígenas sempre lutaram, seja para afirmar a sua humanidade, seja para desarticular as forças materiais que o negavam ontologicamente. Diante dessa luta, chama a atenção a própria disputa de narrativas em torno de qual morte poderia ter o privilégio de ser chorada – ao invés de invisibilizada. É nesse sentido que o memorável Abdias do Nascimento escreve o livro Genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mas- carado, mostrando o quanto o processo de embarreiramento racial vivido pelo negro brasileiro explica-se integralmente a partir das descrições da Convenção de 1948. 

Desde então, uma série de estudos tem evidenciado cada vez mais o caráter racial das mortes intencionalmente provocadas, especialmente pelo braço armado do Estado, mas não exclusivamente, haja vista as violações de direitos humanos no campo contra populações camponesas e quilombolas. Se é necessário falar em morte, para pensar o genocídio, é necessário considerar também as mortes em vida denunciadas por Rico Dalassan no rap Mandume quando canta “que eu já morri tantas antes de você me encher de bala”. É nesse sentido que a coletânea Interfaces do ge- nocídio no Brasil: raça, gênero e classe, organizada por Marisa Feffermann, Suzana Kalckmann, Dennis de Oliveira, Deivison Faustino (Nkosi), Maria Glória Calado, Luis Eduardo Barbosa e Raiani Cheregatto, apresenta ao setor saúde uma agenda de debates que não é nova, uma vez que os movi- mentos negros e indígenas vêm denunciando há séculos, mas ainda sem a recepção adequada. O objetivo da coletânea é trazer olhares distintos sobre a realidade da violência que perpassa a vida e a morte dos jovens e suas interfaces com a saúde. A análise dessa situação sob vários pontos de vista constitui um subsídio para construção de políticas públicas que possam enfrentar essa realidade. No sentido de ampliar essa discussão e implementar a rede de proteção aos jovens trazemos também textos pro- duzidos para o I Seminário Internacional Juventudes e Vulnerabilidade: Homicídios, Encarceramento e Preconceitos, realizado nos dias 7, 8 e 9 de junho de 2017, em São Paulo. O livro está organizado em sete blocos temáticos, a saber: I – Juvenicídio nas Américas; II – A cor do homicídio; III – Meios de comunicação como fomentadores do medo e do preconcei- to; IV – Encarceramento em massa; V – Criminalização das drogas e raça; VI – Racismo institucional e estrutural; VII – Gênero e raça. 

No primeiro bloco temático. Juvenicídio nas Américas. Os autores vão abordar a forma como o juvenicídio se apresenta em cada país, um processo que implica em condições precarizadas e persistentes que têm custado a vida de centenas de milhares de jovens na América. O conceito de juvenicídio é utilizado para descrever a situação das juventudes na América Latina, que são expostas às violências estruturais exacerbadas pela adoção de políticas neoliberais. O conceito amplia a ideia da morte real ou do simples registro da morte de jovens para um complexo proces- so de criminalização dos jovens, construída a partir do campo político e das indústrias culturais que estereotipam e estigmatizam as condutas e estilos juvenis, criando predisposições que desqualificam o mundo juve- nil e os identifica como violentos, perigosos e criminosos. A criminalização dos jovens reforça o preconceito, os estereótipos e estigmas inscritos em processos estruturantes de racialização que constituem as condições de possibilidade de que produzam relações de produção e de reprodução das desigualdades sociais. José Manuel Valenzuela Arce, autor do concei- to de juvenicídio, apresenta sua construção e relação com o conceito de feminicídio, apontando a realidade do México e trazendo a morte dos 43 normalistas de Ayotzinapa como emblemática dessa realidade. Gérman Muñoz apresenta a realidade da Colômbia com o conceito dos “falsos positivos” em seu texto “Juvenicídio na Colombia”. Em “As infantojuventu- des: “maras” e “gangues” transnacionais no Triângulo Norte-Americano- -Central (TNC) – El Salvador, Honduras e Guatemala” Nateras discute as migrações transnacionais e os atores desses processos, que ele denomina infantojuventudes. Kleaver Cruz contextualiza o genocídio nos Estados Unidos e a construção dos movimentos de resistência, especialmente dos movimentos “Black Lives Matter”. Por fim, Marisa Feffermann apresenta o genocídio como a forma de o juvenicídio se manifestar no Brasil. 

No segundo bloco, nomeado A cor do homicídio, problematiza-se as dimensões raciais do genocídio brasileiro. Em seu artigo intitulado “Genocídio dos povos indígenas no Brasil: um instrumento de mais de 500 anos”, Antônio Fernandes de Jesus Vieira (Dinamam Tuxá) fala na primeira pessoa do plural para refletir sobre os processos de racismo e de genocídio enfrentados pelas populações indígenas nesses mais de 500 anos desde a invasão europeia às suas terras. Deivison Faustino (Nkosi), por sua vez, apresenta um ensaio intitulado “Reflexões indigestas sobre a cor da morte: as dimensões de classe e raça da violência contemporânea”, onde discute, a partir de um diálogo entre a literatura, a epidemiologia e a filosofia, os padrões raciais das mortes provocadas no Brasil. Weber Lopes Góes, por sua vez, em seu “Racismo e violência em face da eugenia contemporânea”, retorna aos clássicos brasileiros da eugenia para argu- mentar que a mortalidade no país, principalmente nos últimos dez anos – 2006-2016 – tem sido uma das manifestações de eugenia contemporânea. 

O bloco III, Meios de comunicação como fomentadores do medo e do preconceito, reúne três artigos que enfocam uma instância do poder que ganha cada vez mais importância: os meios de comunicação de massa. É fato que, uma das características da sociedade contemporânea é a sua interconexão pelas tecnologias de informação e comunicação e pela disseminação desenfreada de informações. Ao lado de um processo de sitiamento do indivíduo com o esvaziamento da esfera pública, há uma profusão em escala nunca antes vista de informações, a ponto de estudos mostrarem que um cidadão médio hoje tem acesso a uma quantidade de informação em um dia maior do que um ser humano que vivia nos tempos do Ágora de Atenas durante toda a sua vida. Se isso é produto do projeto de modernidade do século 18 que se cristalizou e gerou a demanda do cidadão por estar conectado às singularidades dos fatos cotidianos, é fato que essa informação em excesso não somente gera uma ansiedade enorme como também cria mecanismos de poder por parte das elites que manejam o aparelho midiático. E, de diferentes formas, os artigos que compõem essa parte do livro tratam disso em interface com o problema da violência e do genocídio da população negra. Isabel C. Clavelin Rosa enfoca o silenciamento midiático ante os mecanismos de violência e extermínio de jovens negros nas periferias, em particular os impactos junto às mulheres, mães desses jovens. Observa-se, nesse caso, uma “exclusão do direito ao luto”, produto da desclassificação dessas vidas ceifadas pelo sistema e todos os envolvidos. Assim, há uma ação reativa por parte de mulheres negras impactadas nesse processo ao trans- formar o exercício do luto em ação de luta, rompendo um processo sis- têmico de dessensibilização operada pela indústria da mídia com esses assassinatos e, com isso, sinalizando para um reposicionamento político da violência de Estado contra os jovens negros da periferia. As trajetórias dessas mulheres negras são totalmente ignoradas pelo discurso midiático ao não se encaixarem nas narrativas de espetacularização da violência. Por isso, o sensacionalismo da violência que implica disciplinamento dos corpos se combina com o silenciamento da ação dessas mulheres negras, compondo uma forma singular de exercício do biopoder no sentido foucaultiano. Ricardo Alexino Ferreira propõe o conceito de Etnomidialogia como um campo de conhecimento voltado a refletir sobre os tensiona- mentos existentes entre a emergência da agenda das diversidades (étnica, de gênero, de orientação sexual) e a concentração do poder midiático. Enfatizando a diversidade étnica, em particular a situação do negro e da negra no Brasil. Alexino destaca o ano de 1988, do centenário da Abolição e da promulgação da Constituinte Cidadã, como um ponto de inflexão em que esse tensionamento chega a um limite de visibilidade, obrigando a um reposicionamento dos dirigentes dos aparelhos midiáticos. Assim, parte da agenda da diversidade étnica foi sendo incorporada na narrativa midiática. Para Alexino, a instância do poder midiático se transforma em um novo lócus de enfrentamentos, o autor defende a necessidade de um aprofundamento desses debates na formação dos profissionais de comunicação, uma politização desses na perspectiva do entendimento da agenda das diversidades. O artigo de Dennis de Oliveira defende a ideia de que as narrativas midiáticas, com as suas singularidades, criam uma sensação de insegurança plena e permanente. Essa insegurança permanente está presente, por exemplo, nos reality shows e nos concursos televisivos (como um pretenso modelo “pedagógico”), no noticiário sobre violência e nas lógicas narrativas das teledramaturgias em que há o confronto entre heróis e vilões. Com isso, cria-se uma ambiência de disputa permanente, de responsabilização individual pelo sucesso e fracasso, desmontando qualquer ideia de pactuação social, de estruturas de soli- dariedade. Nessa ambiência se constitui uma tríade discursiva composta por narrativas salvacionistas (de cunho religioso), meritocráticas e de securitização. Essa sensação de insegurança perene condiciona os sujeitos a viver em “estados de sítio permanentes” em que a violência pode ser exercida sem qualquer controle, daí a naturalização dos mecanismos de extermínio da juventude negra na periferia. Enfim, os três artigos apresentam contribuições densas e importantes para se refletir que o papel da mídia em relação a esses processos de extermínio é muito mais complexo do que simplesmente um problema de deformação técnica da cobertura jornalística sobre esses eventos. São questões históricas e estruturais que estão no âmago do problema. 

O bloco IV trata sobre o Encarceramento em massa e aborda o tema a partir da ótica das vidas precárias, da necropolítica, do racismo e da identidade. Paulo Cesar Malvezzi Filho apresenta o artigo “Massacre e responsabilidade na democracia do encarceramento em massa”, no qual o autor discute a crise prisional como um projeto cujo intuito é manter as hierarquias sociais e traz nuanças do encarceramento, tais como a tortura e massacres em presídios brasileiros. No artigo “Racismo, vidas precárias e o sistema de justiça criminal como máquina necropolítica”, Juliana Bor- ges defende que o Sistema de Justiça Criminal é uma engrenagem necro- política que conduz vidas precárias à prisão em um cenário neoliberal. Borges também analisa as relações entre interseccionalidade e sistema prisional. Ao longo do texto, a autora destaca ainda o racismo como uma das ideologias fundadoras da sociedade brasileira e, portanto, uma das bases vitais para as desigualdades. Em “Encarceramento em massa: Símbolo do Estado Penal”, Alfredo Nateras Domínguez debate a criminalização ocasionada por vinculação a identidades desacreditadas na América Latina. O pesquisador traz dados sobre o encarceramento de moradores das periferias de países como Honduras e Guatemala, aborda as violações de direitos humanos sofridas por esses presos e compara os presídios a campos de concentração, nos quais ocorrem extermínios silenciosos. Dina Alves, em “Rés negras, juízes brancos: uma análise da intersecciona- lidade de gênero, raça e classe na produção da punição em uma prisão paulistana”, discute como a necropolítica e o racismo são estruturados na sociedade. A partir da pergunta: O que o encarceramento desproporcional de mulheres negras tem a nos dizer sobre o padrão de relações raciais no Brasil contemporâneo? A autora levanta questões importantes sobre a su- bordinação racial das mulheres negras. 

No bloco V, cujo tema é Criminalização das drogas e raça, Valenzuela Arce, no artigo “Criminalização das juventudesdiscute o tema tráfico de drogas sob o marco proibicionista, demonstra como é constituído um conjunto de mecanismos que implica um processo intenso de juvenicídio na América Latina. No artigo “A proibição de entorpecentes na República: notas sobre eugenia, urbanização e o racismo científico”, Eduardo Ribeiro dos Santos buscou averiguar a potencialidade de alguns conceitos produzidos durante o processo de restrição legal de determinadas substâncias, que seleciona categorias criminais, seja pela agenda legislativa ou judiciária. Assim como observar a produção de discursos na academia médica e através de periódicos populares, que, em alguns aspectos, nos sirva para a apreensão e análise de determinados dispositivos selecionados e acio- nados pelas relações raciais no Brasil. 

No bloco VI, intitulado Racismo institucional e estrutural, Fellipe Rodrigues Sousa e Silvio Luiz de Almeida apresentam o artigo “Raça e Ra- cismo no Brasil – Uma Perspectiva Estrutural”, onde apresentam o concei- to de racismo estrutural como o enraizamento da ideologia racista na estruturação do Estado brasileiro. Vilma Reis, em seu artigo intitulado “Mu- lheres negras – enfrentamento da violência e racismo institucional”, discute o enfrentamento da violência e racismo institucional a partir de ações de mulheres negras com vistas a uma reflexão sobre os sofrimentos e injustiças sociais, falas de muita dor, morte, prisões, humilhações, “políticas de morte” e outros temas correlatos em territórios com grande presença de negros na cidade de Salvador. Juarez Tadeu de Paula Xavier, por sua vez, apresenta o artigo “Racismo estrutural: produção industrial da des- truição de corpos negros e não normatizáveis”, onde retoma o conceito de genocídio e racismo estrutural para discutir a ausência de solidariedade e empatia no país que mais mata negros, pobres, jovens, mulheres, gays, lésbicas e transgêneros no mundo. 

No capítulo VII – Gênero e raça os autores discutem e analisam as intersecções entre raça/cor, gênero e classe social, permeadas pela orientação sexual. Alessandro de Oliveira Campos problematiza em “Masculinidades negras, subjetividades e suas (des)humanidades” como a socieda- de interage com o “homem negro”, trazendo-nos as diversidades identi- tárias e socialmente construídas nesse grupo. Partindo do princípio que o saber é construído socialmente, o autor realça a importância de não se negligenciar nenhuma forma de relação, nenhum discurso ou forma de linguagem. Jackeline Aparecida Ferreira Romio, no artigo, “Feminicídio reprodutivo: ciclos de vida, raça, corpo e violência institucional”, discute as mortes de mulheres relacionadas às limitações legais no acesso e ga- rantia dos direitos reprodutivos, especialmente das mulheres negras. Reafirma que a maioria dessas mortes poderiam ser evitáveis. Clélia Prestes, em “Juventudes negras amefricanas: genocídio como regra, saúde como resistência”, amplia e aprofunda a discussão sobre o genocídio dos jovens negros, apontando como a necropolítica atinge de forma dramática tam- bém outros sujeitos, especialmente as mulheres. Evidencia que o genocí- dio é muito maior do que o número (já muito alto) registrado de mortes de jovens negros. Segundo a autora, cada uma das mortes atinge outras pessoas vinculadas ao jovem, acarretando muitos óbitos, que não são contabilizados. Flávia Rios, em “Gênero e raça no Brasil (1978-2018) movimentos sociais, sociedade civil e Estado”, traz elementos importantes para o apro- fundamento da questão. 

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Da década de 90 prum futuro imensurável.

John Singleton
1968-2019

Aqueles anos 1990, principalmente a primeira metade, foram marcantes pra parte da juventude preta no Brasil. Pelos jornais assistimos estarrecidos, tanto a absolvição de quatro policiais brancos que foram filmados durante 80 segundos espancando o taxista preto Rodney king, quanto os conflitos que disso se originaram, em algumas cidades dos EUA. Chacinas ceifando vidas pretas começavam a ganhar repercussão internacional. No âmbito da cultura, manifestações artísticas que retratavam o dia a dia das comunidades majoritariamente afrodescendentes ganhavam relevo por aqui.

Em 1991 o grupo musical que melhor representou a luta do povo preto estadunidense faz duas apresentações no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Foi em 1992, por exemplo, que o grupo de RAP Racionais MCs lançou o seu mais importante disco, o EP Escolha o seu caminho, que com apenas duas músicas teve efeito devastador no que tange à identidade e autoestima da juventude preta periférica. Nesse mesmo ano chega aos cinemas o filme Malcolm X, a adaptação de Spike Lee da autobiografia do líder africano estadunidense. Em 1995 estreia Black Panther Party. For Self-Defense, contando a história da organização fundada por Bobby Seale e Huey Newton, com intuito de organizar a autodefesa das comunidade preta em Okland (Califórnia), mas que se tornou o partido de maior expressão da esquerda estadunidense.

Esses filmes revelavam a explosão de um movimento cinematográfico que chegou a ser apelidado de “novo Blaxploitation” (alusão ao movimento Blaxploitation, de diretores pretos, com elenco preto, para o público preto, nos anos 1970). Mais do que serem dirigidos e interpretados por pretos, esses filmes levavam para os cinemas e lares o retrato mais fiel e cru do cotidiano nos bairros pretos dos EUA.

Eram obras cinematográficas que conseguiam fazer com que identificássemos um pouco (ou, muito) de nós em cada personagem. Um dos cineastas que cumpriu esse papel com maior maestria foi John Singleton. Antes mesmo de Spike Lee com seu Malcolm X, Singleton chegou ao Brasil em 1991 através do seu Boyz n The Hood – Os donos da rua

O filme começa com um assassinato, evidenciado somente por áudio, seguido pelo texto:

“Um em cada vinte e um homens pretos americanos (sic) será assassinado. A maioria vai morrer nas mãos de outro homem preto”.

O que a princípio pode parecer uma simples declaração de culpabilidade do próprio preto pelo diretor, na verdade se revela uma das tantas provocações que ele consegue fazer ao longo da trama, e que, o pequeno texto que abre os trabalhos, revela apenas um dos sintomas de uma sociedade extremamente adoecida.

Foi nesse filme de 91 que pela primeira vez vi ser questionado o livre acesso que drogas e armas têm nessas comunidades, e quais interesses agem por trás dessa aparente antropofagia preta. Ao mesmo tempo, na mensagem do filme, Singleton cobra dos pretos esforço para quebrar esse círculo vicioso de morte e autodestruição. Essa cobrança será uma característica bem visível em outros trabalhos desse diretor, para além desses referidos anos 90.

Outro filme muito impactante de John Singleton é o Duro Aprendizado. Nele, jovens de diferentes nacionalidades, orientações sexuais, raças e concepções políticas são forçados à um difícil convívio ao ingressarem à universidade de Columbus. Todas as discussões acerca de racismo, homofobia, machismo, misoginia, xenofobia, tão comuns nos dias atuais, já estavam presentes – e com enorme relevo – nessa obra lançada em 1995. É tão atual que há, inclusive, destaque para a violência nazifascista. Quase todos os personagens praticam algum tipo de opressão, seja em que grau e frequência for. Porém, sem recorrer ao maniqueísmo, o autor tem o cuidado de identificar na sociedade competitiva a raiz de toda tensão vivida entre aqueles jovens. Ninguém é raio em céu azul.

Mesmo o personagem de comportamento psicótico, que encarna o papel de vilão foi criado sob muita violência por um pai que acreditava ser assim que se forjava um homem. A figura do homem preto que ascendeu à classe média está presente no personagem de Laurence Fishburne, o professor Maurice Philipps. Como bom liberal, ele credita toda dificuldade da vida acadêmica de seus alunos à incapacidade pessoal de cada qual, negando qualquer interferência social no penoso caminho que são obrigados a percorrer. Esse discurso está presente em ambos os filmes, mas o moralismo liberal tem sua derrota consagrada no fim trágico que tem os personagens que mais se aproximam desse modelo obediente, servil, que ao invés de subverter ou simplesmente questionar o status quo, se acomoda ou se esforça para encontrar seu lugar nele.

A fascinante crueza com a qual John Singleton abordava a nossa realidade de povo preto, despida de qualquer maquiagem, não tinha limite no tempo e nem no espaço. Ao visitar outra época, num outro cenário, Singleton levava essa sua marca na bagagem. É flagrante quando sua obra se arrisca fora do ambiente urbano contemporâneo.

O Massacre de Rosewood conta uma história verídica ocorrida em 1923 no interior do Estado da Flórida. A comunidade preta de Rosewood é atacada durante 4 dias por brancos de algumas cidades vizinhas, como vingança por um estupro que teria sido praticado por um homem preto contra uma mulher branca. Na verdade a mulher que havia sido espancada pelo amante se viu obrigada a inventar uma história que justificasse pro marido tantos hematomas pelo corpo. Num contexto em que as boas relações raciais se sustentavam sobre a frágil base da capacidade de consumo de uma pequena população rural preta de classe média, a inveja e o ódio racial falaria mais alto do que a o interesse em se alcançar o verdadeiro culpado pela agressão. Verdade, inclusive, que já era sabida até pelo xerife local.

Pra uns, John Singleton não poupa os expectadores com a violência explícita nas cenas de… violência. Pra outros, o diretor nos presenteia com a lealdade aos fatos, necessária para entrarmos na história e vivermos o episódio.

A minha geração nasceu e viveu nos últimos 10, 12, 13 anos de ditadura empresarial-militar. Tanto as artes cênicas quanto a música viviam sob forte vigilância da censura. Agentes da repressão se infiltravam nos bailes blacks daquela época. Autoridades cuidavam para que, do movimento Black Power, aqui só chegasse a música (descomprometida) e a estética visual. Artistas forjados nesse período e que usavam suas artes como veículo de denúncia, o faziam sob disfarce, numa comunicação indireta, com muito floreio. Quando a tirania dos generais se extingue na metade da década de 1980, apesar de uns raros Bezerras da Silvas, leva-se um tempo para que a liberdade de expressão deixe de ser só a lei que revogou a censura, para ser sentida por todos. 

A década de 1990 começa com uma necessidade de gritar abertamente e de se ouvir esses gritos, viessem de onde viessem, desde que expressassem nossas angústias. Mesmo que inconscientemente queríamos produzir e consumir arte que escancarasse a nossa realidade. Essa produção cinematográfica preta, junto com o RAP (considere que rappers compunham o elenco, e seus RAPs, as trilhas sonoras), foram a resposta mais contundente à essa necessidade de se abordar o nosso cotidiano tal qual ele é, nu e cru. E poucos fizeram isso tão bem quanto John Singleton. Por isso ele simbolizou tão bem esse período que pra nós foi tão importante. Essa sua produção foi ferramenta de um ferramental que lapidou a consciência político-racial de muita gente importante. Gente que ajudou a forjar essa mesma consciência na geração seguinte. Se você tem vinte e tantos anos e milita contra o racismo, mesmo que você não conheça sua obra, é bem provável que você tenha o DNA do John Singledon na tua personalidade, na tua consciência.

Hoje, 6 de maio de 2019. Uma semana sem John Singleton. Será?

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Apelo internacional à ação: 2º dia de ação anual e solidariedade com aqueles que lutam para acabar com a escravidão nas prisões na Amérikkka e em todo o mundo em 19 de junho de 2019

Saudações Revolucionárias, Irmãs e Irmãos!

Uau, como o tempo voa. Quatro anos atrás, eu estava na Unidade Pack em Navasota, Texas, quando descobri que a unidade prisional tinha altos níveis de arsênico no abastecimento de água! Os opressores da Comissão de Qualidade Ambiental do Texas me chamaram de mentiroso. Os porcos fascistas que operam o Departamento de Injustiça Criminal do Texas retaliaram. Se não fosse pela ajuda mútua e solidariedade de Panagioti Tsolkas e alguns outros dedicados adeptos do mundo livre, a água tóxica teria sido ignorada.

Irmãs e irmãos, pessoas de cor são desproporcionalmente abrigadas em prisões por todo o território americano da Amerikkka. Muitas dessas prisões são atormentadas por água tóxica, mofo, radiação ou, como no caso de muitas prisões na Pensilvânia, estão localizadas próximas a locais tóxicos, como depósitos de cinzas de carvão que contaminam a água e o ar respirados pelo ser humano. seres forçosamente alojados nessas prisões tóxicas!

Eu pessoalmente estou chamando para a ação, a fim de encorajar todos que são apaixonados pela abolição de todas as formas de escravidão e servidão involuntária a se unirem em uma ação unificada de solidariedade revolucionária em 19 de junho de 2019 e protestar contra a escravização, degradação e desumanização de prisioneiros americanos e todos os seres humanos em todo o mundo que estão sujeitos a qualquer forma de escravidão ou opressão!

Como muitos de vocês sabem, 19 de junho é o dia em que os negros no Texas celebram a liberdade de seus ancestrais, nossos antepassados, que foram mantidos na ESCRAVIDÃO por aproximadamente dois anos depois que a nação inteira reconheceu a Proclamação da Emancipação. Mas os donos de escravos no Texas ignoraram essa lei federal.

O apelo deste ano à ação tem um significado especial quando os olhos do mundo são treinados no sul do Texas, onde dezenas de milhares de solicitantes de asilo da América Central vêm para os Estados Unidos em busca de refúgio, mas encontraram maus-tratos, abuso, racismo e escravidão. O sistema legislativo e de justiça criminal no Texas continua a criar as bases para o racismo institucionalizado e o fanatismo.

Você percebe que o Exército dos EUA teve que entrar em Galveston, Texas, em 1867 e anunciar que a escravidão havia sido abolida?

O estado do Texas estava tão empenhado em manter seus escravos e lucrar com o trabalho escravo que o Exército dos EUA teve que mostrar força para fazer o Texas eliminar a prática da escravidão. Mas ainda está vivo! A escravidão na prisão é algo que está sendo praticado e perpetuado em todos os estados do sindicato e foi codificado pelo mais poderoso documento legal dos Estados Unidos, a Constituição dos EUA.

No Texas, sabemos que estamos sendo explorados, maltratados, degradados e abusados. Muitos prisioneiros no Texas estão contentes com o sistema moderno de plantação de escravos, que é gerenciado e operado pelo Departamento de Justiça Criminal do Texas. No entanto, muitos prisioneiros não estão contentes; na verdade, eles estão frustrados e com raiva. As estratégias utilizadas pelos prisioneiros em outros estados que têm condições semelhantes ao Texas não se aplicam necessariamente aqui. Mais precisamente, não podemos fazer o que os outros fizeram porque não atingimos o nível de solidariedade e desenvolvimento político que os presos de outros estados, como a Califórnia, alcançaram.

Isto não é para depreciar ou degradar meus companheiros de prisão no Texas; Estou apenas afirmando fatos. A greve de fome e paralisação do trabalho na Califórnia forçaram as autoridades penitenciárias a reavaliar as políticas opressivas que levaram ao tratamento desumano. Muitos seres humanos estão presos na Pelican Bay e em várias outras unidades de confinamento solitário na Califórnia. O confinamento solitário é uma tortura, seja pelo CDCR(Departamento de Correções e Reabilitação da Califórnia) ou pelo TDCJ(Texas Department of Criminal Justice).

A abolição desta forma de punição é a única solução correta. A questão que tem atormentado os ativistas dos direitos dos prisioneiros como eu: “Qual é a melhor estratégia para o Texas?” Como iniciarmos um movimento que será adotado tanto pelos prisioneiros do Texas quanto por suas famílias? Texas é um estado orientado para a família. Você não pode prosseguir com uma iniciativa séria sem incluir membros da família que farão lobby na assembléia estadual e falem com a mídia em nome de seus entes queridos. Fiquei muito impressionado com o apoio que o prisioneiro californiano e pelicano Bay Freedom Fighter Sitawa Nantambu Jamaa recebeu de sua irmã. Toda vez que eu abria a Bay View, lá estava ela – em protestos, falando para a mídia, legisladores, verdadeiramente impressionantes!

Os principais indivíduos que estão sendo enganados são os membros de nossa família. A maioria de nós, prisioneiros, está bem ciente das práticas enganosas perpetradas pelo Conselho de Liberdade Condicional. Suas ações são promovidas, sancionadas e toleradas pelo Legislativo e pela Junta de Justiça Criminal do Texas.

O modelo de escravo no Texas é perpetrado pelo que a TDCJ chama de TCI ou Texas Correctional Industries. No papel, o TCI é criado como uma organização sem fins lucrativos que fornece habilidades profissionais e treinamento no trabalho para prisioneiros que trabalham em várias fábricas e trabalhos industriais leves em todo o Texas. O modelo é enganoso e o TDCJ gasta muito tempo e recursos, dando ao público em geral a impressão de que a reabilitação é seu foco.

Funcionários da prisão e legisladores dizem que a TCI está fornecendo habilidades valiosas de trabalho e treinamento de graça. Tudo bem, então, se esse é o caso, por que o Conselho de Liberdade Condicional não reconhece os bons tempos e créditos de tempo de trabalho de todos os prisioneiros do Texas?

Queremos que esses créditos sejam aplicados diretamente em nossas sentenças, para que possamos retornar às nossas famílias e comunidades.

Para aqueles que são bem versados ​​na história do Texas, você saberá que o Texas foi fundado no preceito da supremacia branca.

O atual governador do Texas, Greg Abbott, concorda com um tipo de pensamento eugênico no qual os negros e pardos são inferiores aos brancos, e esse pensamento justifica nossa atual escravização e tratamento desumano. Alexander Stephens, vice-presidente dos Estados Confederados durante a Guerra Civil dos EUA, descreveu melhor a filosofia dos texanos, como o governador Abbott e Brian Collier, diretor executivo da TDCJ, quando disse em um discurso de 1861:


“ A pedra angular da Confederação repousa sobre a grande verdade de que o negro não é igual ao homem branco; que a escravidão, subordinação à raça superior, é sua condição natural e moral ”.

É contra isso que estamos no Texas.

No Texas, como em toda a América, a chamada “classe baixa” negra vem em várias cores, formas, tamanhos e gêneros. Há pardos, negros, latinos, asiáticos e árabes presos dentro das prisões do Texas. O camarada dos Panteras Negras Fred Hampton ilustrou melhor este ponto quando entrou em um bar branco no final dos anos 60 para recrutar pessoas brancas para participar de mudanças socialistas.

Quero que você entenda exatamente de onde estou vindo, para que não haja confusão. Então, peço-lhe para ler e analisar esta citação do camarada Fred Hampton; vem de um discurso que ele fez em 1969:

“ Temos que enfrentar alguns fatos. Que as massas são pobres, que as massas pertencem ao que você chama de classe baixa, e quando eu falo sobre as massas, eu estou falando sobre as massas brancas, eu estou falando sobre as massas negras, e as massas marrons e as massas massas amarelas também. Temos que encarar o fato de que algumas pessoas dizem que você luta melhor contra fogo com fogo, mas nós dizemos que você coloca fogo melhor com água. Nós dizemos que você não combate o racismo com racismo; Nós vamos lutar contra o racismo com solidariedade. Nós dizemos que você não luta contra o capitalismo sem o capitalismo negro; você luta contra o capitalismo com o socialismo ”.

Esta citação incorpora a teoria, filosofia e prática revolucionária do Novo Partido Pantera Negra Afrikan, Capítulo Prisão. É claro que amamos e respeitamos os negros neozelandeses, mas evitamos esse nacionalismo negro que é abraçado por outros grupos que se fazem passar por panteras. Você não pode atacar brutalmente um ancião neste movimento e dizer que está representando os melhores interesses do povo. Não! Isso não é o Pantherismo – mas eu discordo.Vamos ficar no ponto.

Como prisioneiros no Texas, temos que agarrar o touro pelos chifres e assumir o controle do nosso próprio destino. Os apoiadores do mundo livre não podem fazer isso por nós. Eles podem ajudar, mas, em última análise, a organização e o esforço de base devem ser feitos por nós.

Primeiro, devemos educar nossa família e amigos em referência à natureza do problema. Devemos mostrar a eles o engano e a ilusão desse pagamento imaginário e do sistema fraudulento de bom tempo e crédito no tempo de trabalho.

Na verdade, todos os prisioneiros do Texas têm que fazer é enviar a sua família e amigos uma cópia do seu recibo de tempo. Há milhares de homens e mulheres presos nas prisões do Texas. Eles possuem folhas de tempo que mostram claramente porcentagens de crédito acumuladas de tempo fixo, tempo bom e tempo de trabalho que equivalem a 100% de sua sentença atual ou mais!

O Texas construiu um sistema que enfraqueceu e destruiu sistematicamente as cidades do interior e as comunidades urbanas. Essas comunidades foram alvo das entidades estatais e corporativas para gentrificação. Os habitantes dessas comunidades são predominantemente negros e pardos.

Em Houston, no Texas, vimos até mesmo um superintendente da escola entrar na “ação”. O superintendente da HISD, Terry Grier, fez tudo o que pôde para enfraquecer as escolas em Houston que atendem aos jovens da cidade de Black e Brown.

E quando você nega às pessoas o acesso adequado a oportunidades de educação de qualidade, você cria condições que os empurram para os braços do sistema de justiça criminal. O Sr. Grier anunciou sua renúncia. Vamos esperar que Houston escolha um superintendente da HISD que tenha um interesse em nosso sucesso.

Assim, em poucas palavras, o TDCJ e o Conselho de Perdões e Paroles trabalham em conjunto com os capitalistas para sabotar a autodeterminação de certas comunidades de cor. O que isso significa é um programa não tão sutil de controle social.

O que estamos perguntando é que os prisioneiros do Texas têm suas famílias visitando nossas páginas e websites para ver as informações que publicamos lá, o que explica a questão em termos e linguagem fáceis de entender. Temos números de telefone dos principais legisladores do Texas disponíveis.O que estamos propondo é que os prisioneiros incentivem seus familiares e amigos a contatarem esses legisladores e instá-los a elaborar uma legislação que conserte esse sistema fraudulento de escravos.

A linha inferior é esta:

  • Queremos nosso bom tempo e créditos de tempo de trabalho contados! Pare de nos dizer que você está contando quando você não está.
  • Queremos ser pagos pelo nosso trabalho!
  • Queremos que nosso direito de votar seja restaurado.
  • Pare de falsificar os números do censo das comunidades rurais em que essas prisões estão localizadas, fazendo com que pareçam ser cidadãos quando, na realidade, somos escravos! O Texas está “jogando o sistema”, fazendo com que as áreas pareçam ter mais constituintes do que realmente têm.

Quais os benefícios que recebemos? Nós já vimos esses jogos antes. O Texas adora brincar com mapas de re-distrito e os votos de minorias desfavorecidas.Muitas pessoas não vêem a conexão entre o sistema de plantação de escravos do Texas e a manipulação do voto – eu o vejo.

A solidariedade é necessária agora!

Há aproximadamente 150.000 prisioneiros alojados em prisões do Texas. Se metade de nós puder convencer nossos entes queridos a contatar representantes e senadores do Texas em relação a essa questão, poderemos ter um impacto significativo. Precisamos começar a discutir isso nas salas do dia, no pátio de recreio ou enquanto estivermos trabalhando nos campos ou nas fábricas.

Você vê, camaradas, não estou operando sob nenhuma ilusão. Como eu disse no início deste ensaio, alguns estarão contentes com essa existência semelhante à de um escravo; alguns não estarão contentes. Alguns podem dizer ao “chefe”, “Aquele cara Malik está mexendo nos problemas de novo, chefe” e, como sempre, os opressores farão o que sempre fizeram – me prendem na solitária, me transferem, escrevem como falsos relatórios disciplinares, negar minha liberdade condicional ou tentar convencer alguns membros da tribo de rua equivocados. Eu já passei por tudo isso e muito mais. Estou determinado a melhorar nossa condição mesmo que isso me mate. Para aqueles de vocês que estão doentes e cansados ​​de serem escravos, peço que me ajudem a acabar com a escravidão na prisão no Texas agora!

Deixo-vos outra citação do camarada Fred Hampton:

Em primeiro lugar, dizemos principalmente que a prioridade dessa luta é a classe. Que Marx e Lênin e Che Guevara e Mao Tse-Tung e qualquer outra pessoa que já disse ou sabia ou praticou qualquer coisa sobre revolução sempre disseram que uma revolução é uma luta de classes. Era uma classe – os oprimidos – contra a outra classe, o opressor. E isso tem que ser um fato universal. Aqueles que não admitem isso são aqueles que não querem se envolver em revolução porque sabem que, enquanto estiverem lidando com uma coisa de raça, nunca estarão envolvidos em uma revolução. Eles podem falar sobre números, eles podem te enforcar de muitas maneiras. ”

Então, o que será, uma vida de servidão involuntária, ajudando a sustentar esse sistema de escravos, ou a liberdade construindo suas comunidades e apoiando suas famílias?

Não temos nada a perder a não ser nossas correntes! Os fanáticos que operam as prisões do Texas desejam silenciar minha voz. Eu me recuso a permanecer em silêncio!

Em 19 de junho de 2019, fique conosco! Atreva-se a lutar, ousar vencer, Todo o poder para o povo!

pelo Camarada Malik, Porta-voz Chefe, Escravo da Prisão Final no Movimento do Texas

Keith “Malik” Washington é co-fundador e porta-voz chefe do Escravidão Prisional no Movimento do Texas, membro orgulhoso do Comitê Organizador dos Trabalhadores Presos, ativista na campanha Prisões de Luta contra as Toxicidades e vice-presidente do Presídio do Novo Partido Pantera Negra Afrikan. Capítulo. Leia o trabalho de Malik no ComradeMalik.com . Envie ao nosso irmão um pouco de amor e luz: Keith “Malik” Washington, 1487958, Unidade McConnell, 3100 S. Emily Dr., Beeville TX 78103.

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Como Combater a Vigilância Online


ESSE GUIA É UMA BREVE INTRODUÇÃO À SEGURANÇA ONLINE, NÃO CONFIE SUA VIDA A ELE, CONTINUE PESQUISANDO.

Os governos têm transformado a internet em uma plataforma de vigilância, mas eles não são onipotentes. Eles têm recursos materiais limitados assim como todos nós. Talvez não possamos evitar a espionagem da NSA e GCHQ sobre nós, mas ao menos podemos criar alguns obstáculos e tornar a vigilância mais cara para eles. Quanto mais infraestrutura você usar, mais segura será a comunicação. Baixe e instale os programas.

Leia instruções detalhadas em: antivigilancia.tk/wiki/vigilancia_online_-_recursos

Infográfico

Download em alta resolução

Em Português

Em Inglês

TOR BROWSER BUNDLE

Inclui tudo que você precisa para acessar a rede Tor e torna muito mais difícil o rastreio de suas atividades na internet: Navegação na web, posts, mensagens e outras formas de comunicação. Não previne o monitoramento sobre o tráfego de entrada/saída da rede do Tor. Apesar de proteger contra a análise desse tráfego, o Tor não pode impedir a confirmação do tráfego (também chamado de correlação fim-a-fim).

BLEACH BIT

Vários recursos para que você possa facilmente limpar seu computador. Libere espaço e mantenha sua privacidade.

TAILS

Sistema operacional portátil, que não precisa ser instalado. Inicia em quase todos os computadores a partir de um DVD ou de um pendrive, e preserva sua identidade e anonimato. Traz vários aplicativos embutidos e pré-configurados pra máxima segurança: navegador, cliente de bate-papo, de e-mail, suíte office e mais.

OPÇÕES DE CRIPTOGRAFIA

AxCrypt / DiskCryptor / BitLocker / AES Crypt / Kruptos 2 / BestCrypt /CloudFogger 

Cria HD’s virtuais que encriptam qualquer arquivo que for salvo neles. Utiliza vários tipos de criptografia.

PIDGIN

Cliente de bate-papo que suporta vários tipos de chat, como MSN, Google Talk, Facebook, AIM, entre outros.

OFF THE RECORD

Simples plugin para o Pidgin que criptografa todas as conversas feitas usando o software.

THUNDERBIRD

Cliente de e-mail gratuito. Adicione sua conta de e-mail já existente.

ENIGMAIL

Extensão de segurança para o Thunderbird. Envie e receba e-mails assinados ou criptografados com o padrão OpenPGP.

GNUPG

Implementação grátis do padrão OpenPGP. Criptografe e assine e-mails.

Translation credits: CMI-Rio and Oficina Antivigilância | antivigilancia.tk | cmi-rio@riseup.net.


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Roda de conversa. É preciso falar de Racismo: o encarceramento em massa da população negra.

A conversa tem a finalidade de apresentar os debates e problematizar a relação do conservadorismo, eugenia, política criminal, punitivismo e encarceramento em massa, que são faces da forma pela qual o Estado perpetua o racismo estrutural através de políticas públicas que afetam determinada parcela da população: a população negra. Processo histórico que se vincula às especificidades da capitalismo brasileiro , bem como a forma como a questão racial é tratada. Sendo assim o objetivo é fornecer elementos teóricos e práticos para compreensão do quadro atual da economia e política nacional.

Programação

05/04/2019 – 1° encontro – horário 19:00 às 22:00

Conservadorismo, eugenia e política criminal.

Debatedores:

Renato Kilombola

Membro do Coletivo  Kilombagem | Graduado em Ciências Sociais pela Fundação Santo André | Mestre em Antropologia pela PUC/SP.

Weber Lopes Góes

Graduado em História pela Fundação Santo André | Mestre em Sociologia pela UNESP | Doutorando Ciências humanas e sociais pela Universidade Federal do ABC.

Haverá o lançamento do  livro “RACISMO E EUGENIA NO PENSAMENTO CONSERVADOR BRASILEIRO: A PROPOSTA DE POVO EM RENATO KEHL”


06/042019 – 2° encontro – horário 16:00 às 20:00

Punitivismo como ferramenta de extermínio e controle da população negra.

Debatedores:

Gabrielle Nascimento

Graduanda em Direito pela PUCSP. Atua no Grupo de Trabalho Nacional para a Questão das Mulheres Presas da Pastoral Carcerária Nacional.
Militante da Frente Estadual pelo Desencarceramento em SP e do Coletivo Minervino de Oliveira.

Fábio Pereira

Graduando em Serviço Social pela Unifesp-BS. Membro do Grupo de estudos sobre sociedade punitiva, justiça criminal e direitos humanos – Gepex- dh.
Membro do grupo Kilombagem.
Apoiador da Associação de Familiares e Amigos de presos/as(AMPARAR) e da Frente Estadual pelo Desencarceramento em Sp

Indicação de leitura:

LOCAL

Realização/organização

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Fat Soldiers grupo de rap angolano, fala sobre seu novo single/videoclipe intitulado “Resiliência”.

A cena do hip hop/rap angolano está marcada por um  grupo intitulado “Fat Soldiers”. “Cria” do bairro Boa Vista, um subúrbio localizado no distrito urbano da Ingombota, Luanda. O grupo é formado por Soldier V, Timomy e Daniel A.K.A.M.P,  eles começaram com freestyle fruto da influência do programa de rap big show cidade, e marcam oficialmente a sua estreia no panorama do rap angolano em 2010 com o lançamento da primeira mixtape, “Mentes da Rua”.

cena da musica “eu me recuso” do Fat Soldiers

As Músicas “Eu me recuso”, “Verdades” e “Berço de lata”, do disco “Sobreviventes vol. 1(2016)”, senta o dedo na ferida,  pauta um discurso contra a pobreza e a desigualdade, denunciando as realidades suburbanas, a concentração de riqueza em um dos países com maior crescimento econômico do continente africano, (Souza e Souza 2016).

Neste trabalho participaram Edzila, Nelo Carvalho e Kid Mc que recebeu o prêmio de melhor Mixtape do ano pelo prestigiado concurso Angola Hip Hop Awards.

Eles são conhecidos não só pela letras, Skills e performance mas também pela arte que trazem nos videoclipes fruto de um grande trabalho de equipe.

O último videoclipe  lançado(22/04/2019) pelo grupo chama-se “Resiliência”, e como o Vanderson(Sodier V) é parceiro, acompanho o “mesmo “mo cara” nas redes sociais, por isso falou um pouco mais sobre esse último “trampo”.  

Vanderson(Soldier V) explica que: o termo resiliência no contexto do single que agora lançamos, traduz o estado de espírito e a situação social que vivemos nos últimos anos.

flyer da musica resiliencia do Fat Soldiers

Num ambiente de incertezas e escassez dos bens essenciais para sobrevivência digna do ser humano, urge resistir as atrocidades que nos afligem todos os dias, portanto, afigura-se imperioso continuar a lutar pelo que acreditamos e se “autoregenerar” mesmo quando parece impossível alcançar a vitória.

Outrossim, Resiliência é também tomar a decisão certa, a decisão de continuar na contra-mão  de uma sociedade que subverteu a lógica da moral sob orientação de políticos cuja prioridade é a manutenção do poder.

O single vem acompanhado do vídeo clipe, e neste sentido, a interpretação do vídeo requer uma análise minuciosa das cenas apresentadas para chegar a intenção do vídeo. Criamos o vídeo com cenas que têm por trás uma revelação, e para chegar a tais revelações requer-se um esforço interpretativo.

confira aqui o novo trampo dos manos!!!!


Fat Soldiers. Ate a Vitória Manos
Podes crer, nos teus ouvidos
É sempre nós a fazer e Deus a abençoar irmão
Até a vitória Niggas

Se ainda estamos em pé
A continuar a fazer
Mano não é só por nós

Fat Soldiers redes sociais

https://www.facebook.com/FatSoldiers/

Referência:SOUZA, Luana Soares de; SOUZA, Martinho Joaquim João. Entrevista com o grupo angolano “Fat Soldiers. Revista Crioula, São Paulo, v. 2, n. 18, p.252-265, 26 dez. 2016. Semestral. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/crioula/article/view/119346/121945>. Acesso em: 21 mar. 2019.

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Hack, política e cultura livre

Creaitive Commons

Uma comunidade cada vez maior, que dia a dia cutuca o calcanhar de Aquiles do mundo da acumulação capitalista


Por Jeferson Assumção

Simbolo Copy Letf
Copy Left

Acho muito interessantes dois princípios da cultura hacker*. O primeiro é o da colaboração, às vezes anônima, em relação a um objetivo comum. Em diversas ocasiões (e certamente isso está acontecendo neste momento) vinte ou mais meninos e meninas espalhados no mundo todo e trabalhando sob um mesmo código fazem um game, uma tradução ou um programa de computador em semanas, de maneira lúdica e participativa. O resultado é partilhado por todos e utilizado, muitas vezes por milhares (até milhões) de pessoas, as quais eles sequer têm ideia de quem existam.

Software Livre

O segundo princípio é o seguinte: o que já está pronto, não faremos de novo. Copiaremos. Usaremos esta ferramenta virtual para produzir coisas novas. Assim, frente a um problema – um software para ajudar deficientes visuais a ouvirem livros, por exemplo – o primeiro que fazem é procurar em listas de correio ou num buscador de internet se um programa desses existe ou se está sendo desenvolvido em algum ponto do planeta. Se existe, ótimo: ´bora copiar, usar e testamos se funciona realmente.

Se não funciona bem, o que podemos fazer para melhorá-lo? E só se ele não existe é que um praticante da filosofia hacker (hack são truques, inversões e sacadas novas que podem ajudar a resolver um problema) vai começar algo do zero. Às vezes passam meses, até anos, mergulhados em um gigante sistema de símbolos de uma cabala virtual indecifrável para nós mortais, a tricotarem um mundo absolutamente real, de ferramentas que podem ser utilizadas com nossos dedos e nossas mentes. E todo este esforço, de graça.

Mas o que eles ganham com isso, perguntariam o cético, o utilitarista e o pragmático? Por que se dedicam a fazer uma coisa dessas que não lhes dá nada em troca? Nada? Depende de que valores se está falando?

Este exército cada vez maior, que dia a dia cutuca o calcanhar de Aquiles do mundo da acumulação capitalista (por não estar nem aí para os seus valores), o faz pela vontade de colaborar, pela alegria de ver pronto, pela fruição de seu próprio espírito vivendo à margem da alienação do trabalho mercantilizado ou, finalmente, porque tudo isso, além do mais, dá prazer e vontade de continuar fazendo. Como um jogo do homo-ludens-sapiens-demens que somos quando não diminuímos o fim e o princípio de nós mesmos.

E a fonte desses sentimentos é o oxigênio da criatividade, libertária e bela. Por baixo de tudo isso está uma visão de mundo com princípios arejados e arejadores e que, desde que encontrou condições tecnológicas para tal, se desenvolve à margem dos viciados códigos de um mundo real cada vez mais opaco e empobrecido.

Muitos desses hacktivistas o que querem é simplesmente mostrar para os amigos seus feitos de ativistas românticos. E por isso, constituem-se em uma geração de pessoas com valores muitas vezes (mas não necessariamente) à margem da cultura de massa e da violência subjetiva, simbólica, dos grandes meios de comunicação que falam com todo mundo, mas não com eles. Esses, falam mais entre si. Em rede.

Uma imensa parcela deles não tem televisão em casa, nem terá, porque acha este um equipamento eletrônico dinossáurico, muito pouco interativo. Softwares normais, proprietários, idem. Afinal, não os deixam mexer e fazer as coisas de maneira diferente, com sua criatividade e visão de mundo. O que quereriam eles com isso? Pois acredite: tem aí fora uma massa crescente de pessoas que passam a se relacionar com o mundo a partir de outros valores, concretíssimos valores vividos e que vêm deixando para trás, no mínimo no ridículo, aqueles que tanto enfeiam o planeta com sua alma pesada, cansada de tanto acumular e nada colaborar.

E eles estão na periferia. Não apenas nos Estados Unidos ou na Inglaterra, mas na Espanha, no Brasil, na Índia, países em que o uso de plataformas livres vem se desenvolvendo aceleradamente. Hoje, por exemplo, em milhares de cidades do Brasil inteiro, qualquer criança que chegar na Biblioteca Pública, e usar os computadores do telecentro estará entrando mesmo sem saber no mundo do software livre. Querendo ir atrás, poderá fazer dessa uma porta de saída para situações de vulnerabilidade social às vezes extrema, porque nos softwares livres as portas não estão cadeadas por códigos-fonte fechados. Daí a necessidade de se trabalhar com o conceito não de inclusão digital (inclusão como passivos consumidores de softwares proprietários), mas com o conceito de cultura digital, em que os usuários são participantes ativos da cultura livre.

O grande hack da cultura digital está em sua noção de propriedade privada. Como no mundo virtual, não há restrição material para a posse de um objeto (que pode ser copiado indefinidamente), na cultura colaborativa se fala – com um pouco de ironia, é claro – é da radicalização da propriedade privada, em vez de sua abolição. O mesmo com a liberdade…

E a cultura colaborativa começa a descer do mundo hakcer para o mundo real. Cada vez mais, em diferentes áreas, conceitos como de copyleft (o contrário de copyright, restritivo) e ação cidadã em rede são aplicados a outros cantos do conhecer e do fazer. Aqui no Rio Grande do Sul, desde o 1º Fórum Social Mundial até o descentralizado, em 2010, temos o privilégio de conhecer várias dessas alternativas concretas em curso. Pra ficar em alguns: Zaira Machado e Antonio Martins (no jornalismo), Senhor F, Éverton Rodrigues, Teatro Mágico, GOG e as Bandas Independentes Locais – BIL (no mundo da música independente e da Música para Baixar – MPB) enfim…

Mas também nas sementes, na agricultura orgânica e no mundo jurídico (sim, há hacks jurídicos, como os do advogado espanhol Javier de la Cueva, em termos de propriedade intelectual), outros hacks começam a aparecer. É a aplicação da “regra de três” de Vicente Jurado (ourproject.org), programador e ativista ecológico espanhol. Passagem do mundo virtual para o concreto: se para softwares privados temos softwares livres, para sementes privadas temos sementes livres, para outros problemas, temos outros X, também: enfim este é o mundo das alternativas que começa a se formar.

E com relação à arte? À produção, distribuição e fruição artística? Se tem como copiar e distribuir gratuitamente, por que não fazê-lo? Só se o autor não o permitir, usando uma licença que proíba a troca (o copyright restritivo), para acumular sabe-se lá o que, em tempos de falência múltipla das indústrias culturais tradicionais. Gravadoras e empresas de cinema estão indo para o beleléu há anos, e só quem não viu isso é que segue alimentando o cadáver, confundindo o copyright (cedência dos direito aos donos dos meios de reprodução), com direito autoral (direito moral do autor).

Mas, e aí? É possível o artista viver de copyleft? O copyleft faz mal à cultura? O copyleft acaba com o direito moral do autor em relação a sua obra? Claro que não. Dos cinco pontos elencados no Manual de Copyleft (que o leitor pode baixar de graça na www.traficantes.net, da editora madrilenha Traficantes de Sueños), um seria suficiente para esclarecer de vez a situação.

Trata-se do chamado “efeito de ser conhecido”, que se amplia vigorosamente com o uso de licenças livres na comparação com o direito de cópia das majors, que restringe a circulação das obras intelectuais etc. Se se quer ser colaborativo (e ainda ganhar uma grana, muitas vezes a única para sobreviver), pode-se usar licenças para este fim, como creative commons.

E continuar sendo o dono de sua obra intelectual sem precisar vendê-la por míseros trocados à moribunda  indústria tradicional – trocados que só são pagos em dia aos mais famosos, pois o restante dos escritores e músicos menos conhecidos vive mais é de fontes indiretas, como palestras e shows.

Dentro de um último grupo, há os ainda mais radicais. São aqueles que produzem colaborativamente e distribuem seus produtos de maneira gratuita porque querem – simplesmente porque querem –  ver algumas rachaduras se formando no falido sistema de interpretação do mundo atual. Recolocam a utopia, num outro patamar, pois sabem que assim como a ponta do discurso da esperança é a ingenuidade, a ponta do ceticismo é o cinismo. E o cinismo é imobilizador. De minha parte, também prefiro o primeiro ao segundo.

* Hackers são programadores e desenvolvedores de softwares livres se diferenciam dos crackers, os que usam seu conhecimento em informática para quebrar e não para construir colaborativamente.

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Pequeno guia sobre o Software Livre >3

Último capítulo do ensaio: como as corporações e governos invadem a privacidade e colocam todas as pessoas sob vigilância. E como o Software Livre pode combater isso

George Orwell
A distopia de George Orwell em seu “1984”, publicada em 1949, revelou-se profética

Último capítulo do ensaio: como as corporações, com autorização dos governos, invadem a privacidade e colocam todas as pessoas sob vigilância. E como o Software Livre pode combater esse controle

Por Fátima Conti

Esta é a terceira de três partes do Pequeno Guia do Software Livre, de Fátima Conti.

Parte 3 de 3

Resumo

Um pressuposto deste ensaio didático: inclusão digital deve significar, antes de tudo, melhorar as condições de vida de uma comunidade com ajuda da tecnologia. Então, a informática e a internet devem ser ferramentas de libertação do indivíduo, de autonomia do cidadão, que deve saber usar o equipamento e os programas tanto em benefício próprio como coletivo.

Entretanto, vivemos em uma sociedade na qual leis de diversos países protegem monopólios, como copyright e patentes, inibindo:

  • o uso de bens culturais, como livros, músicas, quadros…, que hoje são arquivos e programas computacionais;
  • a criatividade;
  • a liberdade de expressão;
  • o acesso à informação e ao conhecimento.

O desconhecimento e o desleixo das pessoas quanto ao uso de seus equipamentos computacionais e programas permitiu, sob o ambiente da internet, a implantação de um modelo de negócios de vigilância contínua, que tornou usual o envio de propagandas personalizadas. Mas não se trata só de um desleixo pessoal: equipamentos, sistemas e programas, especialmente os privativos (proprietários), são destinados ao controle e vigilância de seus usuários.

Mais ainda: o ensino no Brasil, inclusive na universidade, é defensor e perpetuador desse sistema e seus monopólios, grandes corporações que controlam o mundo e que detêm todo o poder, seja financeiro, seja político.

Neste ensaio mostra-se um panorama desta situação que opõe o desejo da inclusão digital ao interesse  e controle dos monopólios, estratégias e atitudes possíveis para enfrentá-los e as possibilidades abertas pelo uso dos softwares livres.

Privacidade

As pessoas tendem a menosprezar a privacidade até que a percam.

Argumentos como “não tenho nada a esconder” são comuns, mas são verdadeiros?

Pense. Você gostaria de

  • estar sob vigilância constante?
  • ter que se justificar permanentemente diante de algum supervisor?

Como ficariam a sua individualidade e autonomia?

Desconhecimento/desleixo – os cookies

Inclusão digital deve significar, antes de tudo, melhorar as condições de vida de uma comunidade com ajuda da tecnologia.

A informática e a internet devem ser ferramentas de libertação do indivíduo, de autonomia do cidadão, que deve saber usar o equipamento e os programas, tanto em benefício próprio como coletivo.

Mas, atualmente, a maioria das pessoas não cuida de seu ambiente de computação. E o conhece pouco.

Para entendermos melhor parte do que acontece quando navegamos novamente é necessário saber um pouquinho de informática.

Um “cookie”, no âmbito do protocolo de comunicação HTTP, aquele que é usado na Internet, é um pequeno pacote de dados enviados por um site para o navegador, quando o usuário acessa um site. Cada vez que o usuário visita o site novamente, o navegador envia o cookie de volta para o servidor com as informações sobre as preferências e o comportamento do usuário, incluindo informações pessoais, como seu nome, endereço, e-mail, telefone, senhas gravadas; preferências do usuário, como idioma e tamanho da fonte; itens adicionados no carrinho de compras em uma loja online; links que foram clicados anteriormente…

Portanto, os cookies são utilizados para realizar cadastros de informática, monitorar sessões e memorizar informações referentes às atividades dos usuários que acessam um site e podem conter um código de identificação único que permite acompanhar a navegação do usuário durante sua visita, com finalidades estatísticas ou publicitárias.

Existem cookies com características e funções variadas, que podem permanecer no computador ou dispositivo móvel do usuário por períodos de tempo diferentes:

  • cookies de sessões, que são cancelados, quando se fecha o navegador e
  • cookies persistentes, que ficam no dispositivo do usuário até cumprir um prazo de validade.

Conforme a legislação em vigor em cada país quanto ao uso de cookies, nem sempre é necessário que o usuário expresse seu consentimento sobre o envio e a venda de suas informações. Como isso acontecer? Há cookies técnicos, tidos como essenciais, indispensáveis para o funcionamento do site ou para a realização de operações requeridas pelo usuário. Com o correr dos anos, entendeu-se que não é preciso o expresso consentimento para tais cookies, conhecidos como “técnicos”, ou seja, aqueles usados exclusivamente para a transmissão de informações em uma rede de comunicação eletrônica, ou que sejam necessários para oferecer um serviço requerido pelo usuário.

São basicamente três tipos de cookies técnicos:

  • de análise, quando utilizados diretamente pelo administrador do site para coletar informações, de forma agregada sobre o número de usuários e de que forma eles visitam o site;
  • de navegação ou de sessão, para autenticação, realização de compras …)
  • de funcionalidade, que permitem ao usuário navegar em função de uma série de critérios selecionados, como, idioma e os produtos selecionados para a compra. O objetivo é melhorar o serviço oferecido.

Muitos sites usam todos os tipos de cookies. A questão é que estas informações são utilizadas de maneira compartilhada entre os sites, ou seja, as informações podem ser vendidas para terceiros, outras pessoas, outros sites, sem que o internauta tenha consentido ou sequer saiba disso. Eles entram no pacote de todo processo de reorganização societária, como fusões, aquisições e vendas de todos os ativos e outras, sem que o as partes assumam responsabilidade por cookies de sites de terceiros.

Assim, quando visitamos um site podemos estar espalhando nossos dados para diversos sites, que podem usá-los sem nosso conhecimento, sem nosso consentimento e para finalidades que absolutamente desconhecemos.

Entretanto, apesar disso, queremos acessar a internet, em qualquer lugar e a partir de qualquer equipamento, e ver

  • mensagens de e-mail, redes sociais
  • compromissos da agenda
  • nossas fotos e arquivos…

Para fazer isso sem espalhar informações sobre nós exige-se bastante conhecimento e pode ser difícil e demorado para um “leigo”configurar um equipamento e programas para permitir essas atividades. Por desconhecimento ou desleixo, é muito mais fácil deixar que “um site especial”,

  • mantenha nossos dados,
  • cuide da configuração de nossos equipamentos,
  • gerencie todos os programas instalados,
  • armazene nossos arquivos.

Assim, entregamos nossos dados para uma série de empresas, especialmente Microsoft, Apple, Facebook e Google, para termos acesso aos nossos dados e arquivos.

Mas nós não somos clientes delas. Não pagamos pelos serviços prestados.

Somos produtos, que essas empresas vendem para seus verdadeiros clientes: aqueles para quem enviam nossos dados. E elas podem usá-los como quiserem.

Por isso é importante entender; para essas empresas,  quem é o cliente?  E por que é?

Além disso, muitas opções de programas conhecidos permitem rastreamento. Eles estão presentes, por exemplo em qualquer página acessada por você na qual houve um botão:

  • Like do Facebook (em qualquer site, esteja você logado ou não no Facebook), do Google Plus G+ ou que monitore o tráfego com Google Analytics;
  • Jogos que coletem dados de sua localização mesmo quando não se está jogando. Ex: Angry Birds.

Ao acessar e/ou clicar, um aviso será enviado para a empresa, com uma série de informações sobre você e sem consultar ou aviso prévio.

O que é importante saber?

Há extensões que podem ser instaladas no navegador para identificar e impedir que essas informações sejam enviadas.

Se desejar ver quem está rastreando você, instale um dos plugins de navegador que monitoram cookies:

  • Lightbeam – é uma extensão para o navegador, que exibe quais sites estão sendo informados sobre a navegação. Para saber mais clique aqui.
  • Ghostery – funciona em vários navegadores e informa tudo o que ocorre de maneira invisível quando se acessa um site, tanto para o usuário como para as empresas. Para mais detalhes, clique aqui.
  • Privacy Badger – funciona de modo semelhante ao Ghostery, e é software livre.

Assista este vídeo sobre rastreamento. É de 2013, mas mantém sua atualidade sobre como funciona o sistema:

Ghostery: Knowledge + Control = Privacy

Vigilância

O IP é um número único, que identifica cada equipamento na rede. É usado pelos computadores para se comunicarem por meio da cópia de arquivos, pois em cada momento, cada equipamento tem um número único e exclusivo de IP, que é fácil de identificar e, portanto, causa o rastro digital.

Se um IP for vinculado a uma pessoa, a um CPF, a uma identidade civil, possibilita uma vigilância contínua, que permite monitorar cada clique e controlar a vida do indivíduo.

Assim, tudo o que aquele IP faz pode ser rastreado por empresas. E por autoridades.

Em termos comerciais, rapidamente, surgiu um modelo de negócios para possibilitar o envio de propagandas “personalizadas” para cada IP.

Percebe-se que a situação está ficando cada vez mais grave, pois, na Internet das coisas, computadores estão sendo embutidos na maioria dos equipamentos, como:

  • celular e telefones em geral
  • aparelho de TV
  • carro
  • forno
  • condicionador de ar
  • dispositivos médico que coletam e exportam dados como sinais vitais, e atividade cerebral…

Cada dispositivo produz dados sobre sua atividade, localização com quem você dialoga, o conteúdo desses diálogos, sobre suas pesquisaa. Mais: qual é o seu pulso, a frequência dos seus batimentos cardíacos…

Ou seja, agora somos rastreáveis por vários IPs. E várias empresas coletam, armazenam e analisam esses dados, em geral sem nosso conhecimento e, também, sem nosso consentimento. Com base nesses dados, elas obtêm conclusões sobre nós, das quais poderíamos discordar ou objetar, e que podem afetar nossas vidas de modo profundo. Por exemplo: você pode não querer que as pessoas saibam que você está fazendo um tratamento médico, mas essas empresas saberão.

Portanto, vigilância é o modelo de negócios estabelecido na internet. E funciona por dois motivos, as pessoas gostam de

  • coisas gratuitas e
  • conveniência

E não existe possibilidade de escolha: se você se concorda com a vigilância não pode usar um serviço. É vigilância ou nada.

Paralelamente, a vigilância é quase invisível, e as pessoas não a percebem, e dificilmente pensam sobre esses processos.

Tudo isso é resultado de duas tendências tecnológicas que examinaremos a seguir:

Computação nas nuvens

Nossos dados são propriedade de diferentes empresas e não são armazenados e processados em nossos computadores. Ficam em servidores, que podem estar armazenados em equipamentos em um país cujas leis de proteção de dados sejam menos que rigorosas.

Essas empresas dizem que tipos de dados nós podemos armazenar em seus sistemas e podem deletar nossas contas se violamos os seus termos.

Elas controlam nossos dados e usam-nos, tanto o conteúdo como os metadados, para qualquer objetivo lucrativo que tenham. Mais: repassam nossos dados em execuções legais sem nosso conhecimento ou consentimento.

E nós ignoramos  sequer quem são os provedores de armazenamento para os quais essas empresas terceirizam . Se qualquer dessas empresas der ao governo acesso aos dados, nada poderemos fazer. Mesmo que alguém decida abandonar esses serviços, provavelmente não conseguirá obter os dados de volta.

Dispositivos controlados pelas empresas vendedoras

Entre eles os iPhones, iPads, smartphones com Android, Kindles, ChromeBooks e similares.

Tais equipamentos não podem ser estudados e modificados. Só utilizados de acordo com a opção das empresas e não dos nossos desejos. Não controlamos o nosso ambiente de computação. Cedemos o controle sobre o que podemos ver, o que podemos fazer e o que podemos usar.

Pode-se lembrar que a Amazon deletou dos Kindles de usuários algumas edições, por eles compradas, do livro 1984, de George Orwell, devido a um problema de direitos autorais. Simplesmente deletou.

O pior é os próprios usuários concordam com os termos, que raramente leem, ao escolher entrar em uma dessas relação draconiana, devido à enorme conveniência que obtêm.

Mas, escolhem, de fato?

É importante lembrar que essas são as ferramentas da vida moderna. Não saber usá-las não é uma escolha viável para a maioria das pessoas na vida contemporânea.

Atualmente é razoável dizer: se você não quer ter seus dados coletados, não tenha um telefone móvel. não use e-mail, não compre pela internet, não use rede social?

Um estudante pode passar pela escola sem saber fazer uma pesquisa na internet? Como conseguirá um emprego depois?

Ou seja, essas ferramentas são necessárias para a carreira profissional e a vida social.

Escolher entre provedores não é uma escolha entre vigilância e não vigilância. É apenas uma escolha de qual empresa será a espiã.

Dados são poder e quem tem nossos dados tem poder sobre nós.

Isso só pode mudar se houver leis para nos proteger e proteger nossos dados desse tipo de relação.

No entanto, com as mudanças nas práticas empresariais que invadem a privacidade de modo brutal com apoio ou conivência dos governos, as leis de proteção fracassaram e hoje na Internet estamos sob vigilância em massa e sem precedentes.

Cabe uma pergunta: Como fica a privacidade?

Vantagens do software livre

Software Livre significa mais do que somente estar disponível a custo zero (ou um pouco mais que isso). As pessoas devem ser livres para usar os programas como desejarem, de todos os modos que sejam “socialmente úteis”.

O Software Livre representa outro modelo de internet, pensado política, social e empresarialmente, e tem  muitas vantagens técnicas.

Relacionamos seis delas que consideramos as mais relevantes, para encerrar este ensaio:

Resposta rápida para possíveis falhas

Como o código fonte do Software Livre está disponível para qualquer pessoa, em qualquer momento e em qualquer parte do mundo, é possível copiar, modificar, consertar e usar como desejar.

Lançam-se versões ainda instáveis do programa. Muitas pessoas podem auditar o código e procurar falhas de implementação, ou seja, o código é livre para ser estudado e modificado pela comunidade, com muitas cabeças pensando e várias soluções sendo testadas (brainstorm).

Se houver erros ou algo nocivo ao usuário no software, a própria comunidade

  • apontará o problema,
  • modificará o código e
  • avisará em qual versão foi removido o erro ou um programa invasor.

Assim, tudo vai sendo auditado e testado, até se chegar a um código estável,

  • sem erros, que funcione bem, cumprindo o objetivo,
  • pronto para ser usado pelo público em geral,
  • em equipamentos de diferentes marcas e modelos.
  • sem invasores, sem backdoors, sempre avisando o usuário sobre o que está acontecendo, com muito menor possibilidade de vigilância.

E isso é muito diferente de programas proprietários, nos quais devemos confiar cegamente e ingenuamente acreditar que as empresas estão consertando problemas e não utilizando /vendendo nossos dados.

Portanto, um programa livre tem

  • alta qualidade técnica, já que é submetido a um processo de desenvolvimento, semelhante à seleção natural: é testado por muitas pessoas em diferentes hardwares. As boas soluções sobrevivem e as ruins perecem;
  • correção rápida de problemas que eventualmente aconteçam. Assim, em um curto período de tempo, o sistema fica mais seguro e estável.

Proteção contra vigilância

Uma empresa pode tornar um programa malicioso de três maneiras:

  • coletar dados e enviar para quem os comprou,
  • abrir uma porta dos fundos ( backdoor ) e
  • impor restrições de uso aos formatos.

Os programas da Microsoft, a Amazon e  as redes sociais centralizadas fazem as três ações.

A maioria dos dispositivos móveis tem uma backdoor e se torna um aparelho de escuta.

O software livre não faz essas ações. E pode corrigi-las se as encontrar.

Ao contrário disso, quando é possível verificar o código fonte (Software Livre) pode-se ver se informações estão sendo enviadas para algum site ou se há programas invasores embutidos e os programas admitem correção.

Favorecimento à criação, à inovação

O Software Livre é ideal para ser utilizado em instituições de ensino, pois favorece uma educação criadora, em que os alunos são incentivados a estudar e a modificar programas existentes, preparando-se para criar novos softwares.

Queremos estudantes que possam criar ou que apenas possam usar e repetir? Que ensino é esse que só forma repetidores e meros utilizadores de produtos prontos?

Os alunos deixam de ser usuários comuns, que, meramente, aprendem a utilizar, copiar algum programa e passam a não ser submissos aos monopólios e ao consumismo. Podem começar a construir o futuro, através da criação/inovação.

Usar Software Livre é uma das melhores providências que podemos tomar para estimular a educação criadora.

Qualquer pessoa pode contribuir

Quando os programas são desenvolvidos, o trabalho de outras pessoas pode ser reutilizado e continuado, inclusive com sugestões de não programadores.

Assim, o desenvolvimento do software pode ser eficiente e rápido, pois é possível pode-se copiar e modificar o código do programa a qualquer momento, de qualquer lugar, testando as ideias que aparecerem. Sem pedir autorizações, sem aguardar burocracias e sem qualquer custo.

A única preocupação ocorre ao distribuir o programa modificado. Deve-se respeitar a licença. É importante saber que, para tornar a autorização de uso bem explicitada foram criados vários tipos de licença pela Creative commons.

O programador tem mais liberdade

O programador pode desenvolver o que desejar fazer, quando e quanto puder e quiser, sem necessidade de pedir autorização, sem infringir nenhuma licença. O programador que se esforçar em seus estudos e práticas e desenvolver algo bom rapidamente ganha confiança e pode ser chamado para outros projetos.

Incentivo às pequenas e médias empresas locais

Qualquer empresa pode oferecer serviços e começar a trabalhar com produtos livres com total liberdade. Poderá instalar programas e treinar pessoal, por exemplo. Sem precisar pagar para uma matriz, a empresa local pode investir mais em si mesma e talvez até começar a desenvolver códigos, junto com a empresa criadora.

Referências

Como vendemos nossas almas —e mais— aos gigantes da internet

Afinal, o que é o cibercrime? http://www.dicas-l.com.br/interessa/interessa_20080814.php

Bruce Schneier – http://bit.ly/1KWGjBM

Cordel: Do livre e do Grátis – Galdino, Cárlisson

http://www.carlissongaldino.com.br/cordel/do-livre-e-do-gr%C3%A1tis (@carlisson )

Richard Matthew Stallman http://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Matthew_Stallman

Software Livre: Histórico, Definição, Importância

http://www.ufpa.br/dicas/linux/li-lisol.htm

Copyright: Para sempre menos um dia

http://www.youtube.com/watch?v=ejbrUST72Kw

Estão me vigiando?

Sobre censura, cópia, privacidade, vigilantismo… (Copiar não é roubar)

https://faconti.tumblr.com/post/82221098561

Sobre Aaron Swartz “o menino da internet”

O menino da Internet – A história de #AaronSwartz

https://www.libreflix.org/assistir/the-internets-own-boy

Sobre #AaronSwartz

https://pt.wikipedia.org/wiki/Aaron_Swartz

Arquivos disponibilizados

ODP, comprimido em formato ZIP – http://www.ufpa.br/dicas/zip/SL-impo1.odp.zip

PDF  http://www.ufpa.br/dicas/pdf/SL-impo1.odp.pdf

PDF http://www.ufpa.br/dicas/pdf/SL-impo1.odt.pdf

Página – https://faconti.tumblr.com/post/161735171808

Sugestões de leitura / visualização

Vídeos:

Palestra de Richard Stallman no TEDx Geneva 2014

https://www.youtube.com/watch?v=deiZ7v6g0hg (legendada em português por Bruno Buys)

Textos –

Arquivos – Formatos

http://www.ufpa.br/dicas/progra/arq-exte.htm

Padrões abertos de documentação

http://www.ufpa.br/dicas/open/oo-odf1.htm

Software Livre – Licenças

http://www.ufpa.br/dicas/linux/li-lilic.htm

O sistema GNU-Linux

http://www.ufpa.br/dicas/linux/li-li01.htm

Informações adicionais

Fátima Conti

fconti at gmail.com – faconti ( quitter, twitter ) – Fa Conti ( diaspora, facebook )

Site: http://www.ufpa.br/dicas – Blog: http://faconti.tumblr.com

Resumo, com opções de download para os arquivos utilizados:

Página: https://faconti.tumblr.com/post/161735171808

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Morre Nehanda Abiodun, ela viveu em Cuba muitos anos como exilada política dos Estados Unidos( é seu termo; o FBI prefere a expressão “fugitiva da justiça dos EUA”).

Nehanda Isoke Abiodun, refugiada em Cuba há mais de 30 anos, morreu em Havana no dia 30 de janeiro, confirmou a Organização do Novo Povo Afrikan(NAPO).

Nehanda Isoke Abiodun

Abiodun – Cheri Laverne Dalton antes de adotar o nome africano – era uma veterana da República da Nova África, uma organização que procurava criar uma nação negra independente no sul dos Estados Unidos.

Ela era suspeita de conspirar com membros do Weather Underground e do Exército de Libertação Negra, autoproclamados revolucionários que cometeram uma série de atentados e seqüestros domésticos nas décadas de 1960 e 1970, no que chamaram de resistência ao governo dos EUA.

Os radicais desses grupos foram acusados ​​de atacar alvos do governo e ajudar outra ativista,  Assata Shakur (conhecida como Joanne Chesimard), a fugir em 1979 de uma prisão estadual de Nova York. Shakur foi condenada pelo assassinato de um policial estadual de Nova Jersey em um tiroteio em 1973. Os grupos apoiaram suas atividades com assaltos à mão armada.

Abiodun foi acusada em 1982 de conspiração, extorsão e outras acusações no roubo de um veículo blindado em 1981, no qual dois policiais e um guarda de segurança foram mortos. Ela foi para o subterrâneo antes de ser processada e nunca foi capturada.

Ela nunca admitiu ter participado dos crimes, mas defendeu os perpetradores. E admitiu que tampouco tinha simpatia pelos policiais que morreram no roubo.

“Eles estavam defendendo as políticas genocidas e opressivas dos Estados Unidos”, disse ela. “Eles eram soldados que estavam em guerra com a gente.”

Mas se eu ajudei ou não a soltar Assata, direi que estou orgulhosa de ser acusada disso. —Nehanda Abiodun

site https://www.mxgm.org

Abiodun viveu na clandestinidade durante a maior parte da década de 1980 e se mudou para Cuba em 1990, onde recebeu asilo político. Lá ela se juntou a dezenas de exilados e refugiados americanos, incluindo Assata Shakur. Também participou da fundação da New Afrikan People’s Organization (NAPO) and an Organizer for the Malcolm X Grassroots Movement (MXGM)( Organização do Novo Povo Afrikan (NAPO) e organizadora do Movimento Malcolm X Grassroots (MXGM).

 

Declaração sobre a transição de Nehanda Isoke Abiodun

site https://www.mxgm.org

O Novo Movimento de Independência Afrikan e o movimento antiimperialista mundial perderam uma poderosa guerreira, companheira e irmã. Nossa companheira, Nehanda Isoke Abiodun, membro fundador da Organização do Novo Povo Afrikan (NAPO) e organizadora do Movimento Malcolm X Grassroots (MXGM), morreu no início da manhã de 30 de janeiro de 2019. Ela estava vivendo no exílio em Havana. Cuba onde residiu por mais de 30 anos representando nossa luta para o povo cubano e a comunidade internacional.

Nehanda vivia entre as pessoas de base em sua pequena comunidade de Havana, organizando, educando e orientando a juventude cubana, bem como dezenas de jovens afro-americanos (afro-americanos) que viajavam a Cuba para fins educacionais; ganhar educação médica; ou simplesmente aprender mais sobre a Revolução Cubana.

Nehanda tornou-se conhecida como a “madrinha” do hip hop cubano por causa de sua influência e incentivo a jovens rappers cubanos e artistas de hip-hop que criavam uma cultura exclusivamente hip-cubana de hip-hop. Ela conectou jovens artistas locais, com o apoio do Capítulo de Nova York do MXGM, a jovens artistas emergentes do Novo Afrikan dos EUA – como Jay Z, Dead Prez, Common, Zayd Malik e Mos Def. Eles foram apresentados à revolução cubana através das Conferências MXGM Black August Hip-Hop.

No espírito de Frantz Fanon e Che Guevara, Nehanda era um verdadeiro antiimperialista e internacionalista que apoiou firmemente seu lar adotivo em Cuba, enquanto defendia de todo coração a luta de libertação nacional de sua própria nação, Nova Afrika, contra o Império colonial dos EUA.  

Mama Nehanda também era uma Nova Afrikan Womanist. Ela foi co-fundadora da Organização das Mulheres de Nova Afrikan, que precedeu a Força Tarefa de Nova Afrikan para Mulheres da NAPO antes do exílio. Em Cuba, organizou três conferências internacionais de mulheres co-patrocinadas pela Federação de Mulheres Cubanas (FMC) e a Força-Tarefa de Mulheres Nova Afrikan (NAWTF). Isso permitiu que as mulheres nacionalistas revolucionárias do Novo Afrikan trocassem idéias e discutissem o apoio mútuo para as lutas das mulheres novas Afrikan e das mulheres cubanas. Ela facilitou o convite da Força-Tarefa das Novas Mulheres Afrikan para ser palestrante em duas conferências internacionais de mulheres em Cuba para representar o movimento de independência de Nova Afrikan e as mulheres de Nova Afrikan.   

site https://www.mxgm.org

Nehanda introduziu a nova cultura revolucionária Afrikan na comunidade internacional de jovens que constantemente fluíam para Cuba. Ela iniciou um jantar anual de agradecimento “anti-imperialista”, convidando expatriados, exilados e pessoas da comunidade. Ela realizou viagens e ensinou aulas de educação política, o que encorajou muitos jovens a apoiar o Novo Movimento de Independência Afrikan e as lutas internacionalistas revolucionárias. Ela também organizou uma celebração anual do Kwanzaa para a comunidade e engajou continuamente representantes internacionais, jornalistas e acadêmicos que visitaram Cuba.  

Mesmo antes de seu exílio, e antes de se tornar um quadro da NAPO e organizadora da MXGM, Mama Nehanda era funcionária do governo do Governo Provisório da República da Nova Afrika (PGRNA) e foi editora do jornal The New Afrikan . A camarada-irmã Nehanda também foi funcionária da Coalizão Nacional dos Direitos Humanos Negros, uma pré-formação para a NAPO e ajudou a organizar a mobilização da NBHRC de 5.000 pessoas às Nações Unidas em novembro de 1979 três dias depois que o Exército de Libertação Negra libertou a irmã Assata Shakur da prisão.

Nehanda foi forçada ao exílio de sua casa depois de ser acusada junto com sua amiga e camarada Dr. Mutulu Shakur por seu suposto envolvimento na libertação de Assata Shakur em 1979, bem como pela expropriação de 1981 de um caminhão Brinks em Nyack, Nova York. O governo dos EUA alega que isso foi feito em apoio às escolas de liberdade, organização política e desenvolvimento de instituições revolucionárias. Apesar de ser forçada à clandestinidade, ela continuou seu trabalho revolucionário e compromisso com o povo novo Afrikan.

Apesar de estar isolada de sua família, ela continuou seu trabalho revolucionário e compromisso com o povo Afrikan. Ela é o melhor exemplo do que Baba Chokwe Lumumba, o falecido presidente do NAPO, ensinou. Ela tinha um grande amor pelo povo porque entendia, como Chokwe disse: “Se você não ama as pessoas, mais cedo você vai trair as pessoas”. Nehanda Isoke Abiodun amava o povo novo Afrikan e serviu a Nova Nação Afrikan para a sua morte.

Viva o espírito revolucionário de Nehanda!

Ainda em pé!

Asè!

[su_highlight]Originalmente publicado no site Declaração sobre a transição de Nehanda Isoke Abiodun [/su_highlight]

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Memórias de Sparkenbroke, uma coletânea das crônicas de Clóvis Steiger de Assis Moura

Lançado neste ano pela editora Unesp o livro Memórias de Sparkenbroke, uma coletânea das crônicas publicadas por Clóvis Moura, sob o pseudônimo de Sparkenbroke, no jornal A Folha de São Carlos, na coluna Fora do Tempo, entre 1972 e 1973. A obra foi organizada pelos professores da Unesp Teresa Malatian e Sonia Troitiño, com Cleber Santos Vieira, docente da Unifesp.

Clóvis Moura e a filha, Soraya, em 1963 site https://www.revistarevestres.com.br/reves/homenageado/clovis-moura-e-o-protagonismo-do-negro-no-brasil/

Intelectual marxista conhecido e consagrado por sua vasta obra e importante contribuição aos estudos do negro brasileiro, situando-se nas regiões de fronteira entre história, sociologia e política, Clóvis Moura construiu sua trajetória ao dar sentido político à rebelião escrava e à luta dos negros contra a escravidão e o racismo que perdura e estrutura a sociedade até os dias de hoje. Sempre ligado às polêmicas de seu tempo, acompanhou e apoiou a luta dos comunistas no Brasil, foi perseguido e preso. No entanto pouco se conhece sobre esse escritor polígrafo, cujos trabalhos abarcou diferentes gêneros textuais. Ao lado do pesquisador disciplinado, do intelectual livre e do homem político, convivia o poeta, o desenhista, o ficcionista, o teatrólogo, o boêmio, o escritor, o jornalista e, acima de tudo, o grande contador de histórias.

Seu acervo foi doado ao CEDEM e está disponível para pesquisa. No livro Memórias de Sparkenbroke há duas crônicas escritas por ele sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ambas escritas em 1973.

Na primeira, faz uma homenagem ao livro O direito de ser homem, lançado com financiamento da Unesco. O autor comenta citações contidas na obra, como uma de Gandhi: “Sempre me pareceu muito misterioso que um homem possa sentir-se honrado com a humilhação de seus semelhantes”.

Na segunda, Moura fala explicitamente da Declaração. “Não sei porque, hoje me deu vontade de reler a “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, proclamada pelas Nações Unidas, em 10 de Dezembro de 1948. Após a leitura achei que seria de bom alvitre transcrever alguns dos seus tópicos para os leitores desta crônica do atormentado Spark”.

Esta é uma ótima oportunidade para ler ou reler essas crônicas, transcritas abaixo.

foto retirada do site da Unesp http://editoraunesp.com.br/catalogo/9788539307692,memorias-de-sparkenbroke

“Os Direitos do Homem

1972  foi o “Ano Internacional do Livro”. Se, por várias razões, para os brasileiros, ele não se constituiu dos mais significativos no plano de grandes obras — com poucas exceções –, recebeu uma homenagem autêntica, desinteressada e corajosa. Foi a publicação do livro “O Direito de Ser Homem” — seleção de textos organizada sob a direção de Jeanne Hersch, com patrocínio da UNESCO.

As melhores páginas de tudo quanto já se escreveu sobre os Direitos do Homem, liberdade, ideais de justiça, forma de se acabar com as desigualdades está compendiado na obra. Desde os preceitos do Corão, aos dos sábios gregos, dos poetas e dos democratas de todas as nações e de todos os tempos aos seus líderes mais esclarecidos se encontram neste volume indispensável a qualquer homem que ainda quer pensar no nosso mundo tão conturbado e trágico.

Por exemplo lá está esta poesia irlandesa de Odin, cerca de 800-1.100 de nossa era:

“Um tição inflama e queima outro tição;

um fogo nasce doutro fogo.

O homem se aquece no homem pela palavra de sua boca,

evite-se aquele que não tem voz”.

Ou este exemplo de Gandhi: “Sempre me pareceu muito misterioso que um homem possa sentir-se honrado com a humilhação de seus semelhantes”.

Lá também encontramos este trecho de Mao-Tseu [sic] escritor chinês do século V antes de Cristo: “Se o mundo inteiro adotar o amor universal, um Estado não mais invadirá outro Estado, uma família não mais perturbará outra família, gatunos e bandidos não existirão mais, o príncipe e o súdito, o pai e o filho observarão seu dever de piedade e de benevolência. Tal estado de coisas constituirá a boa ordem do mundo”.

Do Corão lemos: “Os que são oprimidos têm o direito de combater, e Deus lhes pode conceder a vitória”.

Ainda encontramos de Roosevelt: “Sabemos que uma paz durável não pode ser comprada ao preço da liberdade de outrem”.

O livro divide-se nas seguintes partes: “O Homem”/ “O Poder”/ “Limites do Poder”/ “Liberdade civil”/ “Verdade e Liberdade”/ “Direitos Sociais”/ “A liberdade Concreta”/ “Educação, Ciência e Cultura”/ “Servidão e Violência”/ “O Direito Contra a Força”/ “Identidade Nacional e Independência”/ e “Fontes e Fins”.

São quase seiscentas páginas com trechos do que estadistas, filósofos, místicos, políticos, sociólogos, homens do povo e heróis escreveram sobre esses assuntos. É um compêndio para se ter em casa. E nos momentos em que, por qualquer razão, começamos a descrer da condição humana devemos abri-lo, em qualquer parte, em qualquer página, pois nela encontraremos uma frase, um pensamento que nos restituirão a esperança e a fé no Homem.

De parabéns Sebastião Hersen, da Editora Conquista que, com este lançamento dignificou o Ano Intelectual do Livro”.

Dez de janeiro de 1973

“Declaração Universal dos Direitos do Homem

Não sei porque, hoje me deu vontade de reler a “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, proclamada pelas Nações Unidas, em 10 de Dezembro de 1948. Após a leitura achei que seria de bom alvitre transcrever alguns dos seus tópicos para os leitores desta crônica do atormentado Spark.

Vão, em seguida, alguns dos artigos do documento: Art. 1) — “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e dotados que são de razão e consciência, devem comportar-se fraternalmente uns com os outros”. Art. 2) — “1 – Toda pessoa tem todos os direitos e liberdades proclamados nesta Declaração, sem distinção alguma de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de qualquer outra índole, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição.

2 — Além disso, não se fará distinção alguma baseada na condição política, jurídica ou internacional do País ou território de cuia jurisdição dependa uma pessoa, quer se trate de país independente como de território sob administração fiduciária, não autônomo ou submetido a qualquer outra limitação de soberania”.

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Art. 5 — “Ninguém será submetido a torturas, penalidades ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes”.

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Artigo 11) — Toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma a sua inocência, enquanto não se provar a sua culpa, conforme a lei e em julgamento público, no qual se hajam assegurado todas as garantias necessárias à sua defesa”.

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Artigo 12) — “Ninguém será objeto de ingerências arbitrárias em sua vida privada, sua família, seu domicílio ou correspondência, nem de ataques à sua honra ou à sua reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais ingerências ou ataques”.

X.X.X

Artigo 25) — “Toda pessoa tem direito a um nível de vida adequado que lhe assegure, assim como à sua família, a saúde e o bem-estar e, de modo especial, a alimentação, o vestuário, a habitação, a assistência médica e os serviços sociais necessários; tem ainda direito aos seguros em caso de desemprego, enfermidade, invalidez, viuvez, velhice e outros casos de perda dos seus meios de subsistência por circunstâncias independentes de sua vontade”.

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São trinta artigos. Todos eles levantando altos princípios de convivência humana. Se os povos que a proclamaram aplicassem o que está escrito… que maravilha seria o mundo…”

Catorze de março de 1973

[su_highlight]Originalmente publicado no site Clóvis Moura e os direitos humanos[/su_highlight]

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No 1º clipe do grupo Conexão Diaspora, reuniram 4 MC’s, 5 idiomas e 2 continentes, na música “Conexões”.

O grupo Conexão Diaspora que é a reunião de 4 MC’s, 5 idiomas unindo 2 continentes. São Eles: Kunta Kinte(Senegal), Alomia (Colômbia), SJota (Brasil) e Bixop (EUA). A união dos 04 rappers que através dessa multidisciplinaridade faz com que o trabalho esteja rico em ritmo, melodias e rimas. Os Mcs trazem consigo suas imparidades que se complementam nessa união. Tudo isso unido a 1 trompetista, 01 DJ e 02 Backing vocal. Faz com que essa união multidisciplinar seja potente e marcante.
E dando o ponta pé inicial nesse trabalho o grupo lançou no último mês de novembro seu primeiro single intitulado “Conexões”, música que acaba de ganhar um vídeo clipe lançado no último dia 06/12.

O Show consiste em abordar a necessidade da união dos Pretos, delineando as  conexões entre a diáspora africana na modernidade e os movimentos de protesto que se espalharam por países e regiões periféricas. O que torna o álbum ímpar pela multidisciplinaridade dos MCs e de seus trabalhos. O percurso a ser percorrido ao ouvir Conexão Diaspora  inclui diálogos, estudos dedicados às manifestações artísticas e intelectuais da Diáspora ou a elas relacionada e que também se ocupam do mapeamento da produção, artística, cultural e intelectual Preta.

O Repertório inicia-se com uma apresentação através da linguagem do rádio, presente na cultura de todos os países e elemento importante de disseminação da cultura hip hop pelo mundo, e logo depois é apresentada a ideia de diaspora, da travessia do Atlântico, a mistura das culturas e a construção de suas particularidades em cada país, porém todos vindas da mesma raiz, que é o continente africano. Na sequência é apresentada as principais linhas de conexões, que é o hip hop, cantado em 4 tons, mostrando toda a potência dessa cultura e de cada um dos Mc’s, mas como  a visão de que o hip hop não se limita unicamente a uma questão estética.

A Produção Musical é assinada pelo Músico e Produtor Jonathas Noh que  traz uma mistura cultural de ritmos, melodias e rimas,  tendo como ponto central o hip hop e mesclando com a arte do sampler e arranjos precisos, ritmos como  cumbia, salsa, samba, bossa nova, jazz e blues, estilos musicais todos eles, com suas sementes vindas da África para germinar com sua particularidade e diversidade, em cada localidade onde encontra seu paradeiro, criando suas raízes e crescendo. O fruto é esse encontro de riquezas, que se transformam com característica afro futuristas em Conexão Diaspora.

Produção de Conteúdo por entender que o Hip Hop é agente transformador e que a música tem poder educacional, o conexão Diaspora é também um aditivo no viés educacional.  É um trabalho potente em produção musical e de conteúdo.

As faixas perpassa pela história, cultura e literatura. Temos como referencial Abdias do Nascimento, Carlos Zappata, Cheik Diop e Malcon X. Nossas faixas tem rimas em Wolof / Francês representado pelo rapper Kunta, que enriquece e nos ensina através do seu dialeto e musicalidade.

O símbolo feminino de resistência e liberdade a está presente nas nossas músicas através de  Aline Sittoe diarra,Yacine boubou,Mame Diarra bosso, Mame fa dafa Welle, Rosa Parks e Winnie Mandela, as referências utilizada para expressar a força e magnitude da mulher Preta.                                              Conexão Diaspora teve seu trabalho pautado em referências literárias, políticas e muita pesquisa para que o conteúdo a ser desenvolvido em união com toda a produção musical e imparidade dos MC’s fizesse desse álbum um trabalho repleto de informação e conhecimento.                                                                                         

A  Produção de conteúdo e gestão do conhecimento do Conexão Diaspora, é assinada pela Karina Souza, Produtora Cultural  e gestora de conteúdo da casa Quebrada Groove.

 A Produtora Quebrada Groove produtora independente oriunda do Capão Redondo tem por objetivo apoiar e difundir os artistas independentes e apoiar toda manifestação social, política e Cultural.  Atuando desde 2012 a Quebrada Groove tem dentro do seu escopo de trabalho o Quebrada Groove convida projeto que já gravaram artistas como: Opaninjé, Dory de Oliveira, Sistah Mari, Finu do Rap e tantos outros nomes da cena do Rap Br.  Em 2018 produz e lança o Conexão Diaspora.

O primeiro single do grupo está disponível em todas as plataformas digitais e em breve novos lançamentos viram por ai!

Elaboração de Conteúdo: Karina Souza/SJota

Página Conexão Diaspora: https://www.facebook.com/conexaodiaspora
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A Revolução Russa, a África e a Diáspora

Desde a Grande Revolução de Outubro de 1917, os africanos e os descendentes de africanos em todo o mundo gravitaram em direção aos acontecimentos revolucionários na Rússia e no comunismo, vendo neles um caminho para sua própria libertação. Talvez não surpreendentemente, então, muitas das principais figuras políticas negras do século XX, na África e em outros lugares, foram comunistas, ou pelo menos inspiradas e influenciadas pelo movimento comunista internacional. Estes incluem figuras tão diversas como André Aliker, Aimé Césaire, Angela Davis, Shakur Assata, WEB Du Bois, Elma François, Hubert Harrison, Claudia Jones, Alex La Guma, Audley Moore , Josie Mpama, Kwame Nkrumah, George Padmore,Paul Robeson, Jacques Romain, Thomas Sankara, Ousmane Sembène e Lamine Senghor.

Os afro-americanos e os da diáspora africana ficaram impressionados com a perspectiva de que a Revolução pudesse se espalhar globalmente e sinalizar o fim do sistema centrado no capital e tudo o que o acompanhava, incluindo a opressão racista. O poeta Jamaican e escritor Claude McKay , portanto, a que se refere a Revolução de Outubro como “o maior evento na história da humanidade”, e bolchevismo como “o maior e mais científica ideia no mundo de hoje.” i Outra jamaicana, Wilfred Domingo perguntou “, O bolchevismo realizará a plena liberdade da África, colônias nas quais os negros são a maioria e promoverá a tolerância e a felicidade humanas nos Estados Unidos? ”ii Havia, assim, uma admiração inicial pela Revolução, na perspectiva de que ela anunciava a possibilidade de uma alternativa ao sistema centrado no capital, que seria em benefício daqueles que eram oprimidos nos Estados Unidos e no Caribe, assim como na África. Essas foram as perspectivas dessas organizações do início do século XX, inspiradas na Revolução de Outubro, como a African Brotherhood Brotherhood, nos Estados Unidos, que incluiu vários comunistas negros como Otto Huiswoud, Cyril Biggs, Harry Haywood e Grace Campbell.

O cantor e ator Paul Robeson durante sua turnê em Moscou em agosto de 1958. Crédito: Anatoliy Garanin / Sputnik, via Associated Press

Uma vez que a nova União Soviética estava mais firmemente estabelecida na década de 1920, várias figuras proeminentes viajaram para ver em primeira mão a construção do socialismo e comentaram sobre a ausência de racismo e opressão nacional. Na verdade, esse era um tema comum nos relatos de testemunhas oculares de visitantes como WEB Du Bois , Langston Hughes e Paul Robeson. Já em 1926, em seu retorno da União Soviética, o proeminente acadêmico-ativista afro-americano Du Bois reconheceu publicamenteEu fico perplexo com a revelação da Rússia que veio a mim … Se o que tenho visto com os meus olhos e ouvido com os meus ouvidos é bolchevique, eu sou bolchevique. Até mesmo o famoso pan-africanista George Padmore, um O ex-comunista de Trinidad, que havia se separado do movimento comunista, escreveu um livro importante em 1945, “Como a Rússia transformou seu império colonial”, mais de uma década depois de sua expulsão. Padmore ainda se sentiu compelido a publicar o que era, na verdade, uma celebração da transformação revolucionária de 1917 e a eliminação da opressão nacional que, na opinião do autor, era uma conseqüência disso.

O significado da Revolução de Outubro não foi apenas no evento em si, mas o fato de que ela deu origem à construção de um novo sistema político e econômico na União Soviética e a um novo movimento comunista internacional organizado a partir de 1919 na Terceira Internacional (Comunista), ou Comintern. O objetivo do Comintern era criar as condições para a transformação revolucionária fora da União Soviética e, desde o seu início, interessou-se muito pela África e outras colônias, bem como pelo que veio a ser chamado de “Questão Negra” – a questão de como os africanos e os da herança africana poderiam libertar-se e pôr fim a todas as formas de opressão racista. Na verdade, não havia outra organização internacional que tomasse essa posição, que se opunha abertamente a ambos colonialismo e racismo e tentou organizar todas as pessoas de ascendência africana para sua própria libertação.

O fato de que o Comintern lutou contra a “Questão Negra”, incluiu em suas fileiras comunistas de todas as nacionalidades e tomou uma posição firme em oposição ao colonialismo e ao racismo, para muitos na África e além, mesmo quando havia alguma insatisfação com o comunismo. partidos britânicos, franceses, norte-americanos e sul-africanos. Para alguns, esses partidos pareciam estar se arrastando sobre a importante Questão Negra. Havia uma visão generalizada de que o Comintern era mais revolucionário, o guardião do legado da Revolução de Outubro e, portanto, mais preocupado com tais questões do que alguns de seus partidos constituintes. Este certamente parecia ser o caso quando o Comintern exigiu que o Partido Comunista na África do Sul fosse um partido das massas do povo daquele país, liderado por africanos, e que deveria primeiro defender o governo da maioria no que era considerado uma colônia de um tipo especial, mesmo se muitos dos líderes daquele partido tivessem uma opinião contrária. As decisões do Comintern foram igualmente firmes e controversas em relação à orientação a ser adotada para a luta afro-americana pela autodeterminação no chamado ‘Black Belt’ nos Estados Unidos. O que quer que se diga da política do Comintern, indubitavelmente elevou o perfil, o significado e a centralidade dessa luta e, como os relatos históricos recentes mostraram, estabeleceram muitos dos fundamentos para as lutas posteriores pelos direitos civis e pelo poder negro. Além disso, a posição do Comintern teve um impacto fora dos Estados Unidos, influenciando os partidos comunistas em Cuba e outros países da América Latina. Por fim, os comunistas negros assumiram a liderança exigindo a criação de uma organização especializada – o Comitê Sindical Internacional dos Trabalhadores Negros (ITUCNW).

A importância da ITUCNW, seu órgão Negro Worker, assim como outras publicações, foi que a política revolucionária e o impacto da Revolução de Outubro e do Comintern se espalharam pelo mundo – particularmente na África e no Caribe, assim como na Europa. no final dos anos 1920 e 1930. Como parte do trabalho dos trabalhadores da ITUCNW e outros foram recrutados das colônias britânicas na África Ocidental, bem como da África do Sul e com o tempo, estudantes foram enviados de muitas partes da África para a União Soviética. Outros viajaram para ver as consequências da Revolução de Outubro do Caribe e dos Estados Unidos. No período entre as guerras, centenas fizeram esta jornada incluindo figuras anti-coloniais como Isaac Wallace-Johnson da Serra Leoa, Jomo Kenyatta, futuro primeiro-ministro do Quênia, e Albert Nzula, o primeiro secretário geral negro do Comunismo Sul-Africano. Party (SACP).

Comunistas negros na União Soviética na década de 1930

Talvez o legado mais importante da Revolução de Outubro tenha sido a teoria que emergiu dele e a experiência de construir um novo sistema social enquanto rodeado por um mundo centrado no capital. O que foi demonstrado foi que outro mundo era possível e que aqueles que eram os produtores de valor poderiam ser seus próprios libertadores e poderiam construir eles próprios esse novo mundo. Esta alternativa e a perspectiva de libertação continuaram a inspirar indivíduos e organizações na África e na diáspora durante o período entre guerras e particularmente durante a Segunda Guerra Mundial – quando a União Soviética liderou a derrota do fascismo e criou a possibilidade de libertação nacional e a restauração da soberania naqueles países que se enfraqueceram sob o domínio colonial.

Para alguns, essa teoria foi incorporada na personalidade e no trabalho de Lenin, que continuou a inspirar muitos. Em 1970, durante uma visita ao Cazaquistão, Amilcar Cabral – o famoso líder da luta de libertação nacional no que era então a Guiné Portuguesa – teria dito “Como é que nós, um povo privado de tudo, vivendo em apuros, conseguimos travar nossa luta e obter sucesso? Nossa resposta é: isto porque Lenin existiu, porque ele cumpriu seu dever como homem, revolucionário e patriota. Lenin foi e continua sendo o maior defensor da libertação nacional dos povos ”. Cabral estava longe de ser o único a manifestar sua admiração pelo trabalho e contribuição de Lenin. Thomas Sankara, o líder revolucionário de Burkina Faso, não apenas expressou sua admiração pelos escritos de Lenin, que ele dizia ter lido em sua totalidade, mas foi mais específico em seu elogio à “grande revolução de outubro de 1917 que transformou a mundo, trouxe a vitória ao proletariado, abalou as bases do capitalismo e possibilitou os sonhos de justiça da Comuna de Paris”.iii Em 1984, concluiu ele, “a revolução de 1917 nos ensina muitas coisas”.iv

O mundo mudou consideravelmente desde 1917. A União Soviética e a construção do socialismo em alguns outros países foram encerradas. Comunismo – a doutrina das condições para a libertação dos produtores de riqueza não foi e não pode ser terminada, embora claramente exista a necessidade de um comunismo moderno que ofereça soluções para os problemas modernos. A Revolução de Outubro demonstrou que um outro mundo é possível, que essa alternativa não é uma utopia e que todos podemos ser agentes de mudança e criadores da história.

i Hakim Adi, pan-africanismo e comunismo: a Internacional Comunista, a África e a Diáspora, 1919-1939 (Trenton: Africa World Press, 2013), 12.

iiIbid., 13.

iiiThomas Sankara Fala: A Revolução de Burkina Faso, 1983-1987 (Londres: Pathfinder, 2015), 165.

ivIbid., 135.

Hakim Adi é Professor da História da África e da Diáspora Africana na Universidade de Chichester. Em janeiro de 2018, ele lançou o primeiro programa online de Mestrado em Pesquisa sobre a História da África e a Diáspora Africana e é o fundador e consultor historiador do Projeto Jovens Historiadores. É o autor dos africanos ocidentais na Grã-Bretanha 1900-1960: nacionalismo, pan-africanismo e comunismo (Lawrence e Wishart, 1998); (com M. Sherwood) O Congresso Pan-Africano de Manchester de 1945 Revisitado (New Beacon, 1995) e a História Pan-Africana: Figuras Políticas da África e da Diáspora desde 1787 (Routledge, 2003). Seus livros mais recentes são Pan-africanismo e comunismo: A Internacional Comunista, África e a Diáspora, 1919-1939 (África World Press, 2013) e Pan-africanismo: uma história (Bloomsbury Press, 2018)

[su_note note_color=”#fbff3b” text_color=”#000000″ radius=”1″]Originalmente publicado no site Black Perspectives [/su_note]

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Compreendendo Steve Biko: raça, classe e luta na África do Sul

No aniversário do assassinato de Steve Biko, Remi Adekoya, do ROAPE, fala com o acadêmico e ativista sul-africano Mosa Phadi. Phadi reflete sobre o legado do pensamento radical e importante de Biko, mas também discute como ele não considerou alternativas coesas que poderiam agora servir como um contraponto às ideias neoliberais. Em uma entrevista abrangente, a Phadi também analisa a crise política e econômica na África do Sul, os Economic Freedom Fighters-EFF(Combatentes da Liberdade Econômica), os fracassos do ANC e as possibilidades de uma solução na militância e consciência da luta da classe trabalhadora.

Remi Adekoya: Hoje é o aniversário do assassinato de Stephen Biko por agentes de segurança do Estado do apartheid. Desde então, ele se tornou uma figura de rally imensamente simbólica para muitos negros, especialmente na África, mas não apenas. Qual é a sua opinião sobre o legado de Biko hoje e como ele está sendo historicamente posicionado?

Mosa Phadi: Eu tenho um problema em como Stephen Biko é posicionado por nomes como Donald Woods, seu amigo e biógrafo, que atribui toda a filosofia da Consciência Negra a Biko como se ele emergisse em um vácuo. Seu argumento é basicamente que na época em que Biko emergiu, o Congresso Pan-Africano (PAC) e o Congresso Nacional Africano (ANC) foram ambos organizações proibidas, e assim a chegada de Biko preencheu um vazio na luta pela liberdade dos negros.

No entanto, se você pensar no contexto histórico da época, esse não foi o caso. Biko, juntamente com outros estudantes, iniciou o movimento da Organização de Estudantes da África do Sul (SASO) em 1968. Se você pensar em 1968, este foi um ano de protestos globais; você teve os protestos anti-guerra do Vietnã, grandes manifestações de direitos civis, protestos estudantis. Também voltando, havia o pano de fundo de Gana se tornando o primeiro país africano a ganhar a independência do domínio colonial em 1957, um evento que impulsionou outros movimentos pró-independência em todo o continente africano. Havia Julius Nyerere na Tanzânia falando sobre um “socialismo africano”.

Antes da década de 1960, havia a Carta das Mulheres de 1954 na África do Sul exigindo igualdade entre homens e mulheres, houve a Marcha das Mulheres de 1956, o massacre de Sharpeville em 1960, a desobediência civil durante esse período e muitos outros exemplos de luta contra a opressão. Então, retratando a luta sul-africana como essencialmente travada pelo PAC e pelo CNA, e assim que essas organizações foram proibidas, houve algum tipo de trégua na luta contra a opressão e o apartheid é uma falsa análise.

Outra questão pouco relatada sobre Biko e a época em que ele atingiu a idade adulta é como ela foi pega nas contradições do stalinismo e da União Soviética em geral. Claramente, isso não era mais uma alternativa, como muitos imaginaram após a Segunda Guerra Mundial e a maioria dos ativistas negros, incluindo os Black Panther Party, estavam pensando em esticar o marxismo, usando suas idéias quando se tratava de organização partidária, mas vendo o lumpemproletariado em termos essencialmente raciais como Fanon fez.

Existem semelhanças entre Biko e Stokely Carmichael em termos de organizar os alunos inicialmente usando táticas não-violentas, mas depois se tornando militantes e afirmando a negritude ou “reivindicando a negritude” como Stokely chamaria. Ao mesmo tempo, Malcolm X também estava na cena, alegando que a negritude era o oprimido, mas também como o agente revolucionário. Os trabalhadores também estavam organizando.

Agindo como se nada existisse antes, durante ou depois de Biko é uma falha na análise. É importante enfatizar que ele emergiu em um período em que uma fragmentação de idéias e erupções ideológicas estavam ocorrendo em outros lugares e estes, por sua vez, informavam suas idéias.

A idéia de Biko de Consciência Negra, embora original no contexto da África do Sul, era muito semelhante às idéias de Carmichael. Meu ponto é que sou crítico daqueles que tentam higienizar essa história descontextualizando a progressão de suas idéias políticas.

Tendo dito tudo isso, Biko foi um pensador muito importante cujas idéias foram adotadas por muitos movimentos. Suas idéias sobre a consciência negra foram importantes para focar o que o apartheid fez com a psique dos negros. Ele falou sobre a recuperação da negritude, mas também pensou em como nós, como negros na África do Sul, devemos nos relacionar com os negros e os indianos como os oprimidos. Ele enfatizou que, embora houvesse uma hierarquia de opressão racial, todos nós precisávamos abordar o sistema como um coletivo oprimido.

A consciência negra é uma idéia que funciona melhor em um cenário capitalista de supremacia racista. No entanto, sua interpretação hoje é muito neoliberal. Você ouve falar de “excelência negra”, por exemplo, não há nada de errado com isso, mas é um conceito ligado a um enquadramento neoliberal que se concentra no indivíduo. Tal abordagem não ajudará a romper com o sistema, mas perpetua desigualdades, pois o capital, por natureza, produz essas desigualdades. Se você se vê como um indivíduo focado em alcançar a “excelência negra”, esquecendo-se de estruturas que produzem desigualdades, então você não está ajudando a resolver o problema. Se tais visões prevalecerem,

As soluções de Biko para os problemas negros eram duas: a consciência negra e o empoderamento econômico negro. A segunda parte é muito enfatizada recentemente, vemos isso mesmo na agora popular “economia municipal” na África do Sul, que é fundamentalmente neoliberal em sua filosofia. O governo provincial no centro econômico da África do Sul procura incentivar a cultura empreendedora em vários municípios. Por isso, quer apoiar as empresas negras. Essa ideia de crescimento dos negócios negros era parte da abordagem emancipatória de Biko. Biko queria criar mercados negros e expandir a propriedade de empresas negras. Uma vez uma idéia radical é usada atualmente para justificar a formação de elite, especialmente entre indivíduos politicamente conectados.

As ideias de Biko, embora radicais na época, não me entendem mal, apesar de jogarem nessa democracia burguesa em que nos encontramos, suas idéias eram radicais e importantes na época, mas ele não pensava muito em alternativas coesas que agora poderiam servir como contrapõe-se a idéias neoliberais.

Quais das idéias de Biko são populares hoje entre os intelectuais sul-africanos?

Sua morte em 1977 provocou militância entre as pessoas, por exemplo, quando você pensa na insurgência dos anos 1980, acho que parte da coragem emergiu das idéias da Consciência Negra de recuperar a negritude. Seus pensamentos sobre como deve ser a liberdade negra, que tipo de mentalidade precisamos para alcançá-la e através de quais métodos, ainda permeiam hoje através de vários movimentos sociais. Por exemplo, o movimento estudantil Fees Must Fall desencadeado em 2016 sobre estátuas que ainda perpetuam símbolos da inferioridade negra citou Biko extensivamente e suas visões se manifestaram em suas demandas. Eles exigiram que as primeiras e mais importantes estátuas de pessoas como Cecil Rhodes tivessem que ir, o currículo deve mudar e deveria haver uma representação maior de intelectuais que se parecem conosco nos ensinando, por exemplo.

As pessoas ainda gravitam em torno de Biko hoje porque, quando você lê seu trabalho, pode se identificar com ele como uma pessoa negra. Mesmo não sendo um tradicionalista que acreditava em culturas fixas, ele estava muito consciente do papel que normas e valores culturais desempenham para os africanos comuns em suas vidas cotidianas. Por exemplo, ele sabia que a religião era importante para as pessoas e sua perspectiva espiritual foi além do cristianismo e incorporou idéias de ancestrais. Ele falou sobre como a música pode iluminar a alma ferida, ele aproveitou as experiências diárias para realizar o potencial da cultura cotidiana para radicalizar e galvanizar as pessoas para a ação. Quando você o lê, ele acende o espírito radical em você para dizer: ‘sim, nós podemos lutar contra o sistema, sim, nós temos o direito de lutar contra o sistema’. Mas depois disso, você precisa pensar em que tipo de mundo você quer substituir o sistema atual. Aqui é onde estavam suas limitações. Mas como uma luz para acender a ação, ele era muito importante.

Quais são algumas das ideias mais populares entre os intelectuais sul-africanos hoje em relação ao caminho a seguir para o país?

Na academia, especialmente depois do movimento Fees Must Fall, a questão mais popular é a da descolonização. Seminário após seminário, conferência após conferência e artigo após artigo foram escritos sobre isso. A inspiração principal vem da bolsa de estudos latino-americana enfatizando a necessidade de descolonizar, por exemplo, o sistema de conhecimento entre outras questões estruturais mais amplas na África do Sul, que são inerentemente orientadas para o Ocidente e impregnadas de racismo. Esta é a escola mais popular de pensamento hoje.

As idéias marxistas foram rejeitadas, como de fato Biko as rejeitou em seus dias. A ligação entre classe e raça não foi integral em nossa análise, o marxismo não conseguiu incorporar a raça na equação. Enquanto isso, questões centradas em torno de nossa história e opressão são muito importantes para as pessoas. As pessoas usam termos como “gatilhos” para se referir à dor que nos foi infligida no passado e enfatizam que precisamos remediar isso. No entanto, o marxismo na África do Sul é incapaz de oferecer uma análise de como uma história de opressão racial e ser negro enquadra como as pessoas se relacionam com várias lutas além da abordagem operária.

Os Combatentes da Liberdade Econômica (EFF) de Julius Malema são bastante populares hoje entre as classes trabalhadoras e alguns intelectuais negros. Isso se deve ao fracasso da ANC em mudar radicalmente a vida das pessoas nos municípios onde há enorme desemprego. Eu venho de uma cidade chamada Kagiso. Quando eu vou para casa, em um dia de semana, parece um fim de semana lá, jovens homens e mulheres nas ruas sem emprego. Há protestos praticamente ininterruptos, pessoas exigindo serviços. Na década de 1990, as pessoas esperavam pacientemente pela mudança, mas, nos anos 2000, começaram a perceber que isso não estava acontecendo. Isso desencadeou alguns ataques xenófobos, como os recentes, contra donos de lojas paquistanesas, que foram saqueados por pessoas que se queixavam de que estavam vendendo comida estragada. Os impostos aumentaram, o IVA foi aumentado em abril levando a aumentos acentuados nos preços dos alimentos. Há tensão em todos os lugares.

Essa é a crise em que estamos desde que Ramaphosa se tornou o presidente, apertando não apenas os pobres, mas também a classe média. Isso criou espaço para a EFF, especialmente com Malema forçando a conversa sobre a corrida no fórum público. Até então, a esquerda tinha ficado obcecada com a aula, enquanto a conversa sobre raça tinha sido silenciada. A esquerda concentrou-se nas estruturas econômicas, negligenciando a manifestação cotidiana de ser negro. Eles sentiram falta dos sentimentos que os jovens tinham sobre não ser apenas pobres, mas pobres e negros também. Malema explorou isso muito bem. Ele também usa a metodologia dos Black Panther Party, utilizando um modelo marxista-leninista de estruturas partidárias combinadas com elementos Fanonianos incorporando raça e tratando o indivíduo racialmente oprimido como um sujeito revolucionário. Novamente, isso remonta às idéias dos anos 60 antes e durante o período ativista de Biko. Embora envolvidos em alguns escândalos de corrupção, a EFF tem atraído jovens desempregados, principalmente homens, mas também algumas pessoas de classe média que experimentaram racismo nas corporações em que trabalham, que ainda são em grande parte propriedade de pessoas brancas. Alguns intelectuais negros também foram atraídos para a EFF.

No entanto, muitos dos protestos nas ruas exigindo serviços básicos como água e eletricidade não são organizados por nenhum partido político ou movimento, eles não têm políticas específicas, eles simplesmente querem serviços. Os novos movimentos estudantis, enquanto isso, não estão apenas usando o Biko como um símbolo, mas também desafiando a dinâmica de gênero, as ideias de feminismo se tornaram um debate fundamental nas lutas com o poder e o patriarcado. As mulheres estão protestando contra a violência doméstica e o patriarcado, mais uma vez nos levando de volta às idéias dos anos 1960, que estão voltando de maneiras diferentes. Em geral, idéias revolucionárias sobre raça e gênero que remontam aos anos 50 e 60 estão retornando, a única diferença é que elas estão emergindo hoje em forma e estilo modernos, especialmente com a proliferação de mídias sociais que podem ser usadas para espalhar uma mensagem muito rapidamente.

Existe alguma parte que, na sua opinião, se eles chegaram ao poder, seria melhor implantar esse poder para a melhoria das pessoas? Você mencionou a EFF de uma forma bastante positiva, mas disse que eles também foram implicados em escândalos de corrupção. Com base em que você os associa a quaisquer esperanças de mudança positiva para os sul-africanos oprimidos? Como você sabe, a história está repleta de exemplos, muitos na África, infelizmente, de pessoas subindo ao poder com o apoio de todos os tipos de slogans igualitários, apenas para se empanturrarem com os recursos do estado quando chegarem lá.

Bem, quais são as opções? Existe a Aliança Democrática, que é um partido muito liberal, então você tem a garantia de um conjunto de políticas econômicas liberais se elas chegarem ao poder. Além disso, eles parecem não dar ênfase à nossa história e não reconhecem as cicatrizes psicológicas que o apartheid deixou nos negros. Ideologicamente, esta não é uma opção viável para mim. Então você tem o ANC e o EFF. A EFF quer o capitalismo de estado. Eles devem ser entendidos como uma parte que resta do ANC, não aquela de esquerda que você entende, mas simplesmente deixada do ANC. Eu votarei neles. Não porque eu acredite que eles, ou qualquer outra parte, possam emancipar a classe trabalhadora. Não, a classe trabalhadora precisa encontrar a agência em si para lutar por si mesma.

Nenhum político ou partido político salvará a classe trabalhadora ou os pobres, não sejamos delirantes. Para mim, a esperança é que a classe trabalhadora se organize e lute por si mesma. A EFF quer o capitalismo de estado e isso pode acontecer de duas maneiras, como mostra a história. Pode se tornar muito autoritário ou focar na construção de novas formas de elites. A EFF é importante para os debates entre as raças, mas não acredito ingenuamente que eles serão nossos salvadores. Como sempre, a classe trabalhadora continuará tentando novos partidos, esperando algo melhor. Mas apenas sua militância pode forçar a mudança. A EFF é filha do ANC e não pode romper com os elos corruptos do ANC.

Qual seria então o valor agregado da EFF para os sul-africanos regulares se um dia eles ganhassem poder?

Se eles chegarem ao poder, é claro que haverá reformas, eles não seriam capazes de simplesmente governar de uma maneira normal. Eles teriam que fazer concessões aos pobres. A questão da terra seria abordada, a terra se tornaria estatal. Com relação aos principais setores financeiros, como a mineração, eles estão atualmente tentando propagar um sistema de propriedade de três vias, no qual o Estado teria, digamos, 50% de uma mina, a comunidade 10% e o restante seria privatizado. Eles querem mostrar que estão prontos para negociar com ele e, ao mesmo tempo, tentar sustentar sua imagem radical.

Mas eles abriram um espaço no debate, encorajaram as pessoas a acreditarem que têm o direito de pressionar. Sei que a militância com a qual eles vieram não pode ser sustentada se eles ganharem poder. Se vencerem, haverá algumas grandes reformas, mas haveria contradições também, sem dúvida. E sim, há o perigo de tendências ditatoriais neles. Esse é o risco envolvido com eles. No entanto, eu ainda acho que a classe trabalhadora deve votar para o EFF exigindo algumas reformas específicas.

Então, basicamente você aceita que eles são um risco, mas acha que eles são um risco que vale a pena correr?

Sim eu quero. Além disso, uma questão importante que merece crédito por adotar a agenda também é a da reforma agrária, a idéia da expropriação de terras sem compensação. Embora tenha havido vários movimentos de sem-terra nos anos 2000, a EFF encorajou essa demanda e agora o parlamento aprovou uma resolução para emendar a constituição que permite a desapropriação de terras sem compensação. No entanto, neste momento, estão em andamento consultas públicas, que devem terminar com um relatório até o final de setembro.

Se o presidente Ramaphosa eventualmente assina essa emenda em lei, existe algum plano para como exatamente esse processo seria?

Não, neste momento não houve nenhum debate sobre quem conseguiria o quê e com que base. Os políticos são simplesmente apanhados na militância das pessoas que estão exigindo reformas. Toda essa questão da terra também reflete idéias popularizadas por Biko anos atrás. Além do desejo físico que as pessoas têm de recuperar suas terras, isso também faz parte de um reconhecimento psicológico de que esta é a sua terra.. O planejamento de nossas cidades hoje ainda é o mesmo que era sob o apartheid, com os desenvolvedores capazes de manter certas áreas exclusivamente ricas e brancas. Ou mesmo nas áreas rurais, você tem uma situação em que todas as melhores terras agrícolas são de propriedade dos brancos, então eles são os fazendeiros, enquanto os negros são simples residentes da aldeia com alguns negros que conseguiram dividir seu espaço no setor agrícola. As pessoas agora estão imaginando um tipo diferente de espaço; um tipo diferente de África do Sul e políticos estão correndo para responder porque querem votos. Mas a discussão sobre quem obterá o quê e se esse processo realmente fortalecerá os sul-africanos mais pobres ainda não foi iniciado.

Mosa Phadi concluiu seu doutorado na Universidade de Joanesburgo em 2017. Ela trabalhou durante anos em questões raciais e de classe, incluindo dois relatórios inovadores sobre os municípios locais de Mogalakwena e Lephalale. Ela trabalha como pesquisadora há mais de seis anos, publicou artigos revisados por pares e produziu um documentário de pesquisa com foco na ideia de classe média em Soweto.

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Publicado no site ROAPE 12, de setembro, 2018 Compreendendo Steve Biko: raça, classe e luta na África do Sul

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Prêmio Jonathas Salathiel de Psicologia e Relações Raciais

O Racismo no Brasil atravessa as estruturas socais gerando exclusões, desigualdades e injustiças, por isso ações que visem a eliminação do racismo são tão importantes para  chegarmos numa sociedade igualitária, é com essa perspectiva que, nós da organização negra Kilombagem divulgamos:

Prêmio Jonathas Salathiel de Psicologia e Relações Raciais

Via: CRP SP

O CRP SP convida profissionais, estudantes de Psicologia, artistas e grupos de populares difusores da cultura negra, a participarem do Prêmio “Jonathas Salathiel de Psicologia e Relações Raciais“, que tem como finalidade estimular a produção de artigos da área de Psicologia, assim como criações artísticas das mais diversas linguagens (fotografia, imagens, poesias, músicas, etc.) a respeito da violência causada pelo racismo e dar visibilidade para produção em saúde mental e relações raciais.

Jonathas nos fez reconhecer a centralidade da questão racial num projeto comprometido com uma sociedade melhor – porque mais igualitária – em que o combate ao racismo deve ocupar todas as pautas. Sua incansável luta contra todas as formas de discriminação racial, faz ecoar ações propositivas neste conselho de classe e possibilita o lançamento de documentos norteadores sobre os efeitos do racismo para a população negra e também na criação de um grupo de trabalho para pensar as questões raciais, organizado hoje como Núcleo de Relações Etnicorraciais.

O evento, sobretudo, expressa a gratidão da Psicologia no Estado de São Paulo a Jonathas José Salathiel da Silva que foi um grande colaborador, amigo e conselheiro para a construção de uma profissão comprometida com a igualdade racial.

Inscrições e envio dos trabalhos: 13/08/2018 a 28/09/2018
Período de avaliação: Outubro de 2018
Divulgação dos resultados das (os) finalistas na página do Conselho: 01/11/2018
Evento de Premiação: 10/11/2018 – inscreva-se aqui

Saiba mais.

Fonte: CRP SP | www.crpsp.org.br

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Algumas reflexões sobre a Paralisação dos Caminhoneiros

Por Deivison Faustino (Nkosi)

Muito já se escreveu sobre o assunto, e provavelmente, muito ainda se escreverá, antes que o tema seja engolido por outras ondas midiáticas.  Assim, proponho esse texto como mais uma provocação (feita por quem não observou diretamente o fenômeno e nem é especialista nos assuntos aqui abordados) a um debate mais amplo sobre os acontecimentos.

A paralisação dividiu opiniões (tanto na esquerda quanto na direita) e se mostrou um movimento que, tal como o de  Junho de 2013, tem tudo, menos as polaridades simplistas que geralmente utilizamos para entender e se movimentar no mundo político contemporâneo.

Neste sentido, listo 7 pontos que chamam a atenção no processo (mas que ainda estão abertos a serem melhor analisados):

O FIM DA LUTA DE CLASSES (?)

O primeiro aspecto que chama a atenção é o quão frágil são as teorias que apostaram, nas ultimas décadas, na ideia de que a “luta de classes é uma coisa do passado”.

Ao contrário, a paralisação mostrou o quanto a sociedade capitalista continua estruturada por interesses antagônicos e, por vezes, irreconciliáveis, que impedem uma solução política que beneficie todos os setores envolvidos ao mesmo tempo.

Nesse contexto, o Estado, embora ativo – e não secundário –  no processo, não passa de um gestor dos interesses dos setores economicamente dominantes.  Entretanto, os setores dominantes, por vezes, em sua heterogeneidade, disputam entre si os rumos das políticas e dos termos daquilo que se entende por público.

O outro lado da história é que os trabalhadores, quando organizados e mobilizados, exercem força política que recoloca o jogo em outro patamar.

Como veremos mais abaixo, a contradição fundamental continua sendo entre os interesses do capital e do trabalho, mas esta contradição  é permeada – não mecanicamente –  por um conjunto de disputas políticas, ideológicas e financeiras, que se expressam inclusive em de setores do capital especialmente em um país como o nosso em que o capitalismo sempre foi muito dependente de investimento estatal. 

O  caso da disputa em torno dos preço dos combustíveis é revelador dessa impossibilidade de conciliação: Com todas as críticas que se possa fazer às gestões petistas, havia a promessa – nunca cumprida, de fato – de que as empresas estatais “cumpririam o seu papel social” contribuindo para regular os preços de insumos básicos no mercado interno e, sobretudo, subsidiando  áreas estratégicas como saúde, educação e seguridade social.

Para uma parte da burguesia brasileira, esse foi o “erro” mortal do Governo Dilma com a Petrobras, inviabilizando interesses do investidores internacionais. Se olharmos bem de perto, veremos que a disputa pela gestão (e rumos) da Petrobras está no centro daquele teatro chamado   Impeachment.

Aliás,  a missão do atual gestor da Petrobras (Pedro Parente) foi a de realizar uma transição de uma política de controle de preços para uma liberalização total, sujeita tanto  a volatilidade (oscilação) dos preços internacionais do petróleo quanto às preço (cada vez mais desvalorizado) do real diante do dólar…

Posto de Gasolina
Preço pago!?

A diferença de saldo, nesse caso, é colocada conta do consumidor final (mesmo que isso signifique sacrificar a maior parte da população). Com todas as contradições que se possa observar – e existem várias – a paralisação (não apenas a paralisação, mas a força que ela demonstrou) colocou essa política liberal em xeque. Ao mesmo tempo, a saída oferecida pela direita liberal – e prontamente acolhida por parte do movimento – seria a mais danosa à população brasileira: a redução de impostos sobre o combustível representaria um corte ainda maior de investimentos em saúde, segurança, educação e seguridade social.

A PRODUÇÃO NÃO É MAIS IMPORTANTE PARA O CAPITALISMO ATUAL E SIM A CIRCULAÇÃO (?).

O Marx dizia que se a essência do mundo (as mediações que o compõe) se apresentassem imediatamente aos olhos, a ciência seria desnecessária. Essa premissa mais uma vez se confirma:

Se observarmos o mundo à nossa volta veremos a importância assumida pela circulação de mercadorias.

Karl Marx
Imagem da Greve

Isso levou alguns sociólogos a afirmarem que na sociedade contemporânea, a tríade econômica, PRODUÇÃO – CIRCULAÇÃO – CONSUMO estaria desatualizada (quando comparada aos estudos clássicos realizados no século XIX). Outros afirmaram que estaríamos vivendo na sociedade do consumo (onde só o consumo importa) e outros ainda, afirmaram que estaríamos entrando em uma era pós-industrial, ou seja, em que a obtenção da riqueza se daria mais na circulação de mercadorias do que na sua produção.

Em todos os casos, o que se queria – consciente ou inconscientemente –  atacar com essas teorias era a ideia de que a produção (as fábricas, e os trabalhadores organizados em seus instrumentos de classe) não teria mais centralidade política e econômica na dinâmica social, e que portanto, as “velhas” teorias sobre a luta de classe poderiam ser descartadas.

O que não se considerou, nessas “novas” análises é que, o capitalismo segue  o mesmo de sempre (mas não idêntico), ou seja: complexificou o seu funcionamento para intensificar aquilo que lhe da razão de existência (exploração de mais valia).

Na prática isso significa que: 

a) a flexibilização das relações de produção, observada nas ultimas décadas – sem flexibilizar o essencial, que é a exploração do trabalho – resultou em uma reorganização da logística produtiva expulsando para fora da fabrica (ou seja, para a sociedade) alguns custos que até 1970 eram parte da sua planilha de custos.

A lógica “Just in time”, própria ao Toyotismo e à informatização da produção,  pressupõe uma linha de produção flexível à demanda de consumo (eliminando a necessidade dos grandes estoques); 

b) para que isso seja fisicamente possível, as ruas, avenidas e rodovias das Cidades e Estados se transformam em grandes esteiras produtivas e/ou estoques ambulantes. A produção “enxuta” da fábrica representa a transformação da cidade em uma grande fábrica à céu aberto

c) isso recoloca o jogo (a velha luta de classes) em outro patamar, porque agora, qualquer interrupção na circulação representa imediatamente a interrupção da produção… nunca houve produção sem circulação e consumo… mas agora, a produção está muito mais dependente das demais dimensões do que antes.

Por isso que uma paralisação como essa causa tanto estrago, a interrupção da circulação representa diretamente a interrupção da produção, impedindo temporariamente que o ciclo de acumulação capitalista se realize. Mas é ainda a velha produção que está no centro do problema (embora, mais dependente do que antes dos outros momentos).

CAMINHONEIRO: TRABALHADOR OU EMPRESÁRIO?

Aqui também entra outro ponto polêmico: O motorista de caminhão que comprou o seu instrumento de trabalho, abriu um CNPJ para emitir notas fiscais, é um empresário ou um trabalhador? Esse debate, se for descolado das condições objetivas de reprodução desta e outras categorias pode nos levar a algumas incompreensões a cerca da realidade.

Em geral –  para o ex-trabalhador que pegou o fundo de Garantia e comprou um caminhão, perua, carro, carrinho etc… para prestar serviços à UBER, à uma transportadora ou a uma empresa – a lógica do empreendedorismo representa mais uma modalidade intensificada de subordinação e exploração da força de trabalho do que a emancipação real.

Ao contrário, esse trabalhador/patrão de si, para ter o mínimo – para manter o veículo funcionando, pagar combustíveis e pedágios, e impostos e ainda sustentar a família – tem que se submeter a jornadas cada vez mais longas e exaustivas (e perigosas). Isso coloca essa categoria no centro daquilo que alguns intelectuais têm nomeado como “Precariado”, já que para estes, a precarização (em todos os aspectos possíveis, não se resumindo, portanto à renda) das condições de trabalho se torna a regra natural.

Assim, se é verdade que a bandeira pela redução do imposto sobre o valor combustível interessaria à grandes transportadoras (que de pronto, instrumentalizaram o movimento e procuraram indevidamente falar por ele), é esse setor de trabalhador (que arca sozinho) pelos custos cada vez maiores da sua exploração, que estava na base das mobilizações por ser o mais prejudicado por uma política de preços de combustível que onera o consumidor final par desonerar os investidores especulativos desta empresa estatal chamada Petrobras.

Neste sentido, esse setor trazia uma bandeira que continha aquilo que Kant denominava de Particular/Universal. Era particular, porque remetia ao próprio umbigo (ao próprio bolso), mas universal porque continha elementos para além de si, interessando ao conjunto da classe trabalhadora e mesmo a setores intermediários do capital.

Por isso esse setor foi tão (bem) disputado por alguns setores de direita e tão (mau) compreendido pela maior parte da esquerda. Entretanto, ser portador de uma particularidade universal não significa, necessariamente, perceber essa universalidade e, muito menos, advoga-la, e a particularidade pode encerrar-se em si mesma anulando o que tem de transformador e se convertendo em seu contrário.

GREVE OU LOCKOUT?

Como foi insistentemente debatido. A greve, paralisação do trabalho protagonizada por trabalhadores para defender seus interesses de classe, é garantida em lei, ao contrário do locaute (ou lockout), que representa uma paralisação promovida por empresários.

O simples enquadramento em uma dessas categorias implicaria, não apenas a legitimidade, mas a legalidade das paralisações. O próprio Governo Temer percebeu que as paralisações continham um duplo caráter (Greve e Louckout) e, diante disso, mas principalmente, diante da  vitalidade do movimento, decidiu por separar as coisas e negociar com os trabalhadores, para em seguida, processar as empresas envolvidas. Ocorre que, enquanto isso, parte das análises (tanto de esquerda quanto de direita) seguem pobremente maniqueístas, enquadrando o movimento em apenas um dos polos.

Imagens da Greve

A DISPUTA DE NARRATIVAS

Uma análise das paralisações exigiria, ao mesmo tempo, uma análise das reações às paralisações. É interessante observar como que o ocorrido dividiu opiniões. Num primeiro momento, havia um ressentimento por parte da esquerda eleitoral com essa categoria, já que os mesmos engrossaram as fileiras dos que clamavam pela queda da Presidenta Dilma, em 2015.

Num segundo momento, havia por parte dos setores mais à esquerda da esquerda, uma tentativa de aproximação, que logo foi frustrada com imagens de caminhões com faixas rogando pela “Intervenção Militar”.

Houveram alguns apoios reais (como foi o caso de MST e algumas centrais sindicais) e outros apoios textuais (notas de apoio), mas no geral, reinou uma desconfiança e um desconhecimento. Por parte da Direita, uma parte, aquela que já está acostumada à disputar opiniões a partir de fake news e distorções, houve uma abusiva produção de vídeos e memes que foram distribuídos à exaustão nos grupos de comunicação dos caminhoneiros com vistas à disputa das sensibilidades.

Essa via se consolidou não apenas de forma midiática, mas também porque algumas reconhecidas lideranças dessa categoria são filiados à partidos de direita como PSL.

Imagens da Greve

Aqui entravam tanto militantes pró intervenção militar que acompanharam presencialmente os piquetes quanto caminhoneiros reais ou militantes infiltrados que atuaram sistematicamente na difusão de informações falsas ou distorcida entre a categoria.

Do outro lado, uma outra porção da direita, mais vinculada com os interesses ameaçados pelo movimento (no caso, ao capital especulativo e mesmo os seus seguidores mais midiáticos) partiram para a criminalização do movimento.

Vale lembrar que a Miriam Leitão, desde o início , elogiava na CBN a política de Pedro Parente, dizia que as paralisações eram legítimas por criticarem os autos impostos e taxas dos combustíveis e, ao mesmo tempo, denunciava as paralisações como

O ponto é que se as paralisações representaram um desafio à esquerda, o mesmo não foi diferente para a direita. Um exemplo interessante são as posições contrárias do MBL às paralisações e, a consequente enxurrada de críticas – à direita – que eles receberam por esse posicionamento.

AS FORMAS DE (des)ORGANIZAÇÃO

AS FORMAS DE (des)ORGANIZAÇÃO: Outro dado que chamou a atenção nas paralisações é a forma descentralizada de organização do movimento. Num primeiro momento, nem o governo, nem a mídia, nem os analistas (acadêmicos ou de facebook) entendiam porque, mesmo depois da existência de acordos fechados entre o governo e a categoria, as  paralisações seguiam. 

Os representantes do governo passaram muito vergonha para explicar porque a situação não se normalizava depois de no mínimo uns 3 ou 4 anúncios de acordo.

O Temeroso!

A resposta estava na estrutura descentralizada de organização dos piquetes. Como afirmaram alguns observadores diretos e reportagens, cada piquete elegia a própria liderança e cada um discutia autonomamente os termos e as razões para estarem ali.

Isso, colocou um desafio imenso a todo tipo de análise e enquadramento, porque, historicamente – no Brasil, pelo menos, desde a institucionalização dos sindicatos no governo Vargas – a principal estratégia na luta de classes é a cooptação de suas lideranças mais expressivas, seja pela submissão dessas lideranças às regras do jogo formais (partidos, eleições parlamentares, etc), seja comprando literalmente essas lideranças.

Mas aqui, diante dessa forma de organização (ironicamente, proporcionada a partir do próprio local de trabalho) esse tipo de cooptação se mostrou pouco eficiente e explica, em partes, por que, mesmo depois das negociações, as paralisações não se desmobilizavam.

Por outro lado, dificultou, in loco, a tomada de decisões de algumas lideranças que ficavam sujeitas a informações advindas de  grupos de “zap” e do “face”.

A DEPENDÊNCIA AO TRANSPORTE RODOVIÁRIO NO BRASIL

Outro ponto que veio à tona, sem poder ser devidamente debatido pela grande mídia,tem a ver com a opção rodoviária do transporte no Brasil. A paralisação revelou o quanto a produção industrial está presa a essa modalidade (que aliás, nem é a mais barata) de transporte.

Algumas reportagens televisivas  chegaram a explorar rapidamente que essa dependência se deve a uma opção que o país tomou a algumas décadas.

O que as reportagens não mencionam é que essa opção, como todos no âmbito do Capital, não se deveu ao que era melhor para o país, mas sim, ao que era melhor para os investidores que tinham maior controle sobre as decisões políticas em determinado momento.

Gráfico

Desde o início do século XX assistimos a um progressivo desinvestimento no transporte ferroviário (e pouquíssimo no náutico e de cabotagem) arquitetado por lobbies da indústria de carros, ônibus e caminhões.

Não é por fatalidade que chegamos nesse ponto mas porque uma série de decisões políticas foram tomadas (por décadas) tendo por critério não o que é melhor para o país (quem dirá aos trabalhadores) mas sim o que é melhor para as empresas que financiaram esse ou aquele político, esse ou aquele golpe de estado.

O resultado, a médio e longo prazo é um tiro no pé, que inviabiliza – ou encarece – inclusive o escoamento da produção automobilística. Mas isso não é novidade do Brasil, mas sim, uma característica antiga do Capital: criar o pressuposto das próprias crises.

Não é possível ir viajar a carro ou a ônibus para nenhuma cidade do Brasil sem se deparar com uma série de caminhões carregando todos os tipos de produtos que imaginarmos (dos artigos do sex shop que vc usa escondido à bíblia que vc lê em público, dos alimentos, roupas e artigos fúteis que consumimos ao imensa quantidade de lixo que produzimos, tudo está circulando à céu aberto sob nossos olhos).

Por fim, e ainda retomando o primeiro ponto deste texto, foi potência e ampla adesão da categorias na mobilização, e não uma concessão do Governo, que explicou a existência de um movimento deste tamanho, e por tanto tempo.

É uma pena que mesmo o movimento tendo grande aceitação por parte da população em geral (leia-se, trabalhadores), outros setores tradicionalmente organizados da classe trabalhadora não pegaram carona neste comboio.

Se o tivessem feito, seria possível supor que questões problemáticas relacionadas à consciência de classe (como o estúpido clamor por “intervenção militar”) pudessem se diluir em percepções mais ampliadas da realidade.

Mas não foi esse o caso e o país caminha, neste feriado prolongado para voltar à violenta normalidade. A louvável (e importantíssima) greve dos Petroleiros virá quando os caminhões já estiverem dispersados e os outros setores da classe trabalhadora, ainda assustados, correm o risco de não colherem lições com essa experiência histórica.

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Grupo Kilombagem Entrevista: Thiago Elniño sobre religiosidade e negritude em seu trabalho

Thiago Elniño é da ala dos MCs comprometidos. Mas é um comprometimento diferenciado, capaz de aliar religiosidade, musicalidade, autoestima e coerência em cada passo, ou melhor em cada verso. Esses versos geralmente, seguem em direção ao bem-estar, resistência, e a melhoria da qualidade de vida da população negra brasileira.
Ele faz parte dos novos artistas que ergueram-se por meio da internet, entretanto é um rapper engajado e preocupado com as relações sociais e raciais do país. Também é educador popular e pedagogo.
Desde 2016 que alguns integrantes do Grupo Kilombagem, vem acompanhando o trabalho do Thiago Elniño. E, nesta entrevista o rapper, mando o papo reto, sobre seu primeiro disco A Rotina do Pombo(2017).

Não sei se a escola aliena mais do que informa
Te revolta ou te conforma com as merdas que o mundo tá
Nem todo livro, irmão, foi feito pra livrar
Depende da história contada e também de quem vai contar

Grupo kilombagem GK – Como começa sua história na cultura Hip Hop/Rap?

Thiago Elniño – Minha historia com o Hip Hop começou no final dos anos 90 quando o rock me rejeitou e eu tive que encontrar uma cultura onde eu não sofresse racismo! Foi quando eu percebi que eu não sabia, mas de alguma forma eu já era Hip Hop mesmo não praticando nenhum dos elementos artísticos!

GK – Você adotou o codinome Elniño, poderia falar sobre o significado?

Thiago Elniño – O Elniño antes eu achava que era um personagem, e hoje eu entendo que é o momento onde existe um catarse entre eu e os elementos da minhas ancestralidade que se dão no momento que eu faço música, dai existe um contraste de quando estou no palco, onde naturalmente sou mais comunicativo e agressivo, fora dele sou mais calado e tímido, essa dualidade tem haver com o fenômeno climático Elniño que na época em que adotei esse codinome, fazia com que o clima tivesse alterações repentinas, hora sol, hora fria em um curto período de tempo!

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GK – Quais são suas influências musicais? E caso haja outras influências além da música, poderia nos dizer quais são?

Thiago Elniño – Tenho percebido que a maioria das coisas que me chapam e me influenciam diretamente saíram do samba e do Jorge Ben, o Dub jamaicano também me atropela. Fela Kuti, KL Jay e Bnegão me deram parâmetros do que um artista preto deve ser, foda na música, foda na postura. Para além disso tem revistas em quadrinho, arquitetura e moda, tudo isso entra no cadeirão.

GK – O Web clipe Diáspora tem mais de dois anos que foi lançado, e nos brinda com diversos elementos e várias relações com as religiões de matriz africana, que você pode dizer sobre esse seu trabalho? Como foi a produção desse web clipe, que é o segundo mais visualizado em seu canal?

Thiago Elniño – Esse clipe foi feito pouco tempo depois de eu ser absorvido pela Umbanda, foi um momento bonito para caramba não só para mim mas para a espiritualidade africana e o culto aos orixás na minha região, teve impacto direto a um maior reconhecimento e pertencimento dos pretos daqui quanto algo que é nosso. É importante destacar que aquilo foi um trabalho muito coletivo e fundamentado. Agradeço muito aos meus guias por terem me deixado ser parte disso.

GK – Em seu primeiro álbum intitulado A Rotina do Pombo(2017), você aponta uma forte semelhança entre pretos e pombos, poderia falar mais sobre isso? Faz uno ano que esse disco está na rua, já logrou os objetivos que propôs?

Thiago Elniño – Tanto pombos quanto pretos são lindos e são forçados a macro e micro diásporas onde são forçados a ocupar os centros urbanos em espaços onde são vistos como pragas, como algo sujo e comedores de migalhas, salario mínimo, lixo, e essa porcaria industrializadas que nos dão para comer. Mas os que se adéquam, ou os que tem a penagem mais branca, podem ser aceitos e ate vistos como símbolos de paz, ou de uma miscigenação positiva.

O disco não cumpriu seus objetivos maiores, muito pouca gente ouviu e seu retorno econômico não é algo que me permita fazer outro sem que para isso eu passe algumas dificuldades financeiras. Mas isso não pode me deixar frustrado e nem cessar minha produção por que coisas bonitas também foram alcançadas por ele e por todo meu trabalho, e a gente sabe o solo onde ta pisando e o tanto que as coisas vão para além de um artista preto ter talento ou não.

GK – Temas como ancestralidade, religiosidade, negritude e problemas sociais aparece nitidamente em seu trabalho, existem algum tipo de relação, interação com os artistas mais velhos/as, ou intelectuais de outras gerações?

Thiago Elniño – O tempo todo, os mais velhos são fundamentais para o meu processo e se eu deixo de ouvi-los Omulu não vai me ser tão bom quanto é. Desde de meus familiares a educadores, dirigentes de espaços de fé, ate a literatura que vai de Malcolm X a Carlos Moore.

GK – Em sua opinião, quais são as maiores e importantes conquistas do Hip Hop brasileiro? E quais são as limitações na cena atual?

Thiago Elniño – O Hip Hop é um caminho, e esse caminho foi traçado muito bem por muitos de nós que conseguiu através dele acessar conteúdos que permitam investigar o nosso papel como homens e mulheres pretas, ao mesmo tempo, o Hip Hop sempre teve uma relação muito intima com o capitalismo, e isso faz com que parte da ruptura necessária com matrizes colonizadoras para que tenhamos uma real autonomia do povo preto fiquem comprometidas, é um dilema que pessoalmente vivo. Dentro disso, das concessões que o Hip Hop fez, não é tão honesto da nossa parte as reclamações de que nossa cultura tem sido sequestrada sem uma auto-analise de o quanto somos frágeis e o quanto ainda somos vitimas de velhas artimanhas do sistema. Sistema esse que odeia os pretos, e nos mata ao som da nossa própria música!

GK – A reforma Educacional responde a interesses internacionais e acordo com o Banco Mundial, visando a produção de “Deficientes Cívicos” como versou o Geografo Mílton Santos sobre a globalização e o papel da educação em países periféricos. É sabido que a discussão acerca da retirada de disciplinas que suscitam o censo crítico como: História, Filosofia e sociologia não dão conta da discussão das relações raciais brasileira, critica que podemos verificar explicitamente em sua música Pedagoginga. Como você vê a implantação e discussão da Lei 10.639/03 que institui o ensino da África e Afro-brasileira no currículo do ensino público e privado em todos os níveis educacionais? Quais os desafios enfrentados para sua efetivação?

Thiago Elniño – Nunca vai funcionar, a escola não foi feita para funcionar, o exercício que tenho feito como pedagogo, e veja que não me orgulho desse diploma pois foi apenas algo que eu tive que fazer para legitimar minha colocação no mercado de trabalho, é entrar dentro das escolas e sugerir outros espaços onde esses jovens possam buscar conteúdos que facilitem sua autonomia. A lei 10.639/03 é uma ótima intenção, que abre uma fresta para gente entrar ali, mas ela é mal utilizada por que ela foi feita para ser mal utilizada e dentro de um sistema que sabe nos dar com o pé e tirar com mãos sujas com o sangue do nosso povo.

GK – Qual é seu maior êxito até momento?

Thiago Elniño – Cara, eu passei dos 30 sem ser morto nem fisicamente, nem espiritualmente, conheci muitas pessoas e lugares que me ensinaram muito e tenho e conseguindo pagar as contas com alguma dignidade vivendo de atividades ligadas a cultura Hip Hop, não ta bom pois não consegui expandir isso em quantidade e qualitativa para quem esta ao meu redor, mas também não esta péssimo!

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GK – Vimos que seu último trabalho foi o Web-clipe intitulado “Não Conforme” com participação de Bia Doxum. Como foi a experiência. Existe algum trabalho a vista com participação de algum artista independente?

Thiago Elniño – Eu e a Bia, assim como outros artistas que pautam oque pautamos e assumem a responsabilidade de fazer isso de uma forma que honre nossos ancestrais tem de estar mais próximos, ate mesmo para que a gente para de deslizar tanto, mais próximos nos fortificamos e nos “vigiarmos” mais, e vigiar é diferente de fazer patrulha. Eu e Bia aprendemos muito nesse processo que foi construir essa versão de “Não Conforme”, sem duvida vamos fazer mais coisas juntos.

Existem muitos trabalhos vindos para esse ano para que 2019 eu possa me retirar por um tempo e me concentrar nos estudos e outras ações que me permitam um retorno onde eu seja mais dono de mim e útil para o meu povo.

GK – Quais seus planos para o futuro?

Thiago Elniño – Eu to focado em parar de derrapar tanto quanto homem preto, como africano em diáspora que tem como objetivo ser útil para o meu povo, isso vai acabar refletindo diretamente na minha arte que é o que de mais qualitativo ate aqui tenho para oferecer. Descolonizar. Para isso vou precisar produzir muito em 2018, e me retirar em 2019 para estudos e praticas ligadas a educação. Então espero ate o final do ano deixar um ou dois EPs e alguns clipes.

GK – E por fim, na sua opinião qual é o caminho para superação do racismo?

Thiago Elniño – Hoje penso que o racismo é insuperável enquanto os pretos não romperem com os racistas de alguma forma! Só dai a gente poderá pensar no que será, em outra coisa.

Foi por falta de identidade, que eu vacilei, ramelei não vi
Que eu era bem diferente dos caras que estavam ali
Na MTV, quando o que passava não era YO!
Esse pretinho quer ser branco ó, cala boca Jhow

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Boaventura: o Colonialismo e o século XXI

É hora de declarar incumprida uma das grandes promessas modernas. O homem branco jamais aceitou a igualdade. Novas lutas precisarão impô-la

Por Boaventura de Sousa Santos

 

Para Marielle Franco, in memoriam

O termo alemão Zeitgeist é hoje usado em diferentes línguas para designar o clima cultural, intelectual e moral de uma dada época, literalmente, o espírito do tempo, o conjunto de crenças e de ideias que compõem a especificidade de um período histórico. Na Idade Moderna, dada a persistência da ideia do progresso, uma das maiores dificuldades em captar o espírito de uma dada época reside em identificar as continuidades com épocas anteriores, quase sempre disfarçadas de descontinuidades, inovações, rupturas. E para complicar ainda mais a análise, o que permanece de períodos anteriores é sempre metamorfoseado em algo que simultaneamente o denuncia e dissimula e, por isso, permanece sempre como algo diferente do que foi sem deixar de ser o mesmo. As categorias que usamos para caracterizar uma dada época são demasiado toscas para captar esta complexidade, porque elas próprias são parte do mesmo espírito do tempo que supostamente devem caracterizar a partir de fora. Correm sempre o risco de serem anacrônicas, pelo peso da inércia, ou utópicas, pela leveza da antecipação.

Tenho defendido que vivemos em sociedades capitalistas, coloniais e patriarcais, por referência aos três principais modos de dominação da era moderna: capitalismo, colonialismo e patriarcado ou, mais precisamente, hetero-patriarcado. Nenhuma destas categorias é tão controversa, quer entre os movimentos sociais, quer na comunidade científica, quanto a de colonialismo. Fomos todos tão socializados na ideia de que as lutas de libertação anti-colonial do século XX puseram fim ao colonialismo que é quase uma heresia pensar que afinal o colonialismo não acabou, apenas mudou de forma ou de roupagem, e que a nossa dificuldade é sobretudo a de nomear adequadamente este complexo processo de continuidade e mudança. É certo que os analistas e os políticos mais avisados dos últimos cinquenta anos tiveram a percepção aguda desta complexidade, mas as suas vozes não foram suficientemente fortes para pôr em causa a ideia convencional de que o colonialismo propriamente dito acabara, com exceção de alguns poucos casos, os mais dramáticos sendo possivelmente o Sahara Ocidental, a colônia hispano-marroquina que continua subjugando o povo saharaui e a ocupação da Palestina por Israel. Entre essas vozes, é de salientar a do grande sociólogo mexicano Pablo Gonzalez Casanova com o seu conceito de colonialismo interno para caraterizar a permanência de estruturas de poder colonial nas sociedades que emergiram no século XIX das lutas de independência das antigas colônias americanas da Espanha. E também a voz do grande líder africano, Kwame Nkrumah,  primeiro presidente da República do Gana, com o seu conceito de neocolonialismo para caracterizar o domínio que as antigas potências coloniais continuavam a deter sobre as suas antigas colônias, agora países supostamente independentes.

união política africana(Julius Nyerere, Kwame Nkrumah, W.E.B Dubois, e Jomo kenyatta)

Uma reflexão mais aprofundada dos últimos 60 anos leva-me a concluir que o que quase terminou com os processos de independência do século XX foi uma forma específica de colonialismo, e não o colonialismo como modo de dominação. A forma que quase terminou foi o que se pode designar por colonialismo histórico caracterizado pela ocupação territorial estrangeira. Mas o modo de dominação colonial continuou sob outras formas e, se as considerarmos como tal, o colonialismo está talvez hoje tão vigente e violento como no passado. Para justificar esta asserção é necessário especificar em que consiste o colonialismo enquanto modo de dominação. Colonialismo é todo o modo de dominação assente na degradação ontológica das populações dominadas por razões etno-raciais. Às populações e aos corpos racializados não é reconhecida a mesma dignidade humana que é atribuída aos que os dominam. São populações e corpos que, apesar de todas as declarações universais dos direitos humanos, são existencialmente considerados sub-humanos, seres inferiores na escala do ser, e as suas vidas pouco valor têm para quem os oprime, sendo, por isso, facilmente descartáveis. Foram inicialmente concebidos como parte da paisagem das terras “descobertas” pelos conquistadores, terras que, apesar de habitadas por populações indígenas desde tempos imemoriais, foram consideradas como terras de ninguém, terra nullius. Foram também considerados como objetos de propriedade individual, de que é prova histórica a escravatura. E continuam hoje a ser populações e corpos vítimas do racismo, da xenofobia, da expulsão das suas terras para abrir caminho aos megaprojetos mineiros e agroindustriais e à especulação imobiliária, da violência policial e das milícias paramilitares, do tráfico de pessoas e de órgãos, do trabalho escravo designado eufemisticamente como “trabalho análogo ao trabalho escravo” para satisfazer a hipocrisia  bem-pensante das relações internacionais, da conversão das suas comunidades de rios cristalinos e florestas idílicas em infernos tóxicos de degradação ambiental. Vivem em zonas de sacrifício, a cada momento em risco de se transformarem em zonas de não-ser.

As novas formas de colonialismo são mais insidiosas porque ocorrem no âmago de relações sociais, econômicas e políticas dominadas pelas ideologias do anti-racismo, dos direitos humanos universais, da igualdade de todos perante a lei, da não-discriminação, da igual dignidade dos filhos e filhas de qualquer deus ou deusa. O colonialismo insidioso é gasoso e evanescente, tão invasivo quanto evasivo, em suma, ardiloso. Mas nem por isso engana ou minora o sofrimento de quem é dele vítima na sua vida quotidiana. Floresce em apartheids sociais não institucionais, mesmo que sistemáticos. Tanto ocorre nas ruas como nas casas, nas prisões e nas universidades como nos supermercados e nos batalhões de polícia. Disfarça-se facilmente de outras formas de dominação tais como diferenças de classe e de sexo ou sexualidade mesmo sendo sempre um componente constitutivo delas. Verdadeiramente só é captável em close-ups, instantâneos do dia-a-dia. Em alguns deles, o colonialismo insidioso surge como saudade do colonialismo, como se fosse uma espécie em extinção que tem de ser protegida e multiplicada. Eis alguns desses instantâneos.

Ojos de Sur Caricaturas Cartoons

Primeiro instantâneo. Um dos últimos números de 2017 da respeitável revista científica Third World Quarterly, dedicada aos estudos pós-coloniais, incluía um artigo de autoria de Bruce Gilley, da Universidade Estadual de Portland, intitulado “Em defesa do colonialismo”. Eis o resumo do artigo: “Nos últimos cem anos, o colonialismo ocidental tem sido muito maltratado. É chegada a hora de contestar esta ortodoxia. Considerando realisticamente os respectivos conceitos, o colonialismo ocidental foi, em regra, tanto objetivamente benéfico como subjetivamente legítimo na maior parte dos lugares onde ocorreu. Em geral, os países que abraçaram a sua herança colonial tiveram mais êxito do que aqueles que a desprezaram. A ideologia anti-colonial impôs graves prejuízos aos povos a ela sujeitos e continua a impedir, em muitos lugares, um desenvolvimento sustentado e um encontro produtivo com a modernidade. Há três formas de estados fracos e frágeis recuperarem hoje o colonialismo: reclamando modos coloniais de governação; recolonizando certas áreas; e criando novas colônias ocidentais”. O artigo causou uma indignação geral e quinze membros do conselho editorial da revista demitiram-se. A pressão foi tão grande que o autor acabou por retirar o artigo da versão eletrônica da revista, mas permaneceu na versão já impressa. Foi um sinal dos tempos? Afinal, o artigo fora sujeito a revisão anônima por pares. A controvérsia mostrou que a defesa do colonialismo estava longe de ser um ato isolado de um autor tresloucado.   

A “LIGA DAS GAROTAS ALEMÃS” DE HITLER

Segundo instantâneo. Wall Street Journal de 22 de março passado publicou uma reportagem intitulada “Procura de sêmen americano disparou no Brasil”.  Segundo a jornalista, a importação de sêmen americano por mulheres solteiras e casais de lésbicas brasileiras ricas aumentou extraordinariamente nos últimos sete anos e os perfis dos doadores selecionados mostram a preferência por crianças brancas e com olhos azuis. E acrescenta: “A preferência por dadores brancos reflete uma persistente preocupação com a raça num país em que a classe social e a cor da pele coincidem com grande rigor. Mais de 50% dos brasileiros são negros ou mestiços, uma herança que resultou de o Brasil ter importado dez vezes mais escravos africanos do que os Estados Unidos; foi o último país a abolir a escravatura, em 1888. Os descendentes de colonos e imigrantes brancos – muitos dos quais foram atraídos para o Brasil no final do século XIX e princípio do século XX quando as elites no governo procuraram explicitamente ‘branquear’ a população – controlam a maior parte do poder político e da riqueza do país. Numa sociedade tão racialmente dividida, ter descendência de pele clara é visto muitas vezes como um modo de providenciar às crianças melhores perspectivas, seja um salário mais elevado ou um tratamento policial mais justo”. 

Terceiro instantâneo. Em 24 de março o mais influente jornal da Africa do Sul, Mail & Guardian, publicou uma reportagem intitulada “Genocídio branco: como a grande mentira se espalhou para os Estados Unidos e outros países”. Segundo o jornalista, “O Suidlanders, um grupo sul-africano de extrema direita, tem estabelecido contato com outros grupos extremistas nos Estados Unidos e na Austrália, fabricando uma teoria da conspiração sobre genocídio branco com o objectivo de conseguir apoio internacional para sul-africanos brancos. O grupo, que se auto-descreve como ‘uma iniciativa-plano de emergência’ para preparar uma minoria sul-africana de cristãos protestantes para uma suposta revolução violenta, tem-se relacionado com vários grupos extremistas (alt-right) e seus influentes contatos midiáticos nos Estados Unidos para erguer uma oposição global à alegada perseguição a brancos na África do Sul… Na semana passada, o, ministro australiano dos Assuntos Internos, disse ao Daily Telegraphque estava considerando a concessão de vistos rápidos para agricultores sul-africanos brancos, os quais, alegava o ministro, precisavam de ‘fugir de circunstâncias atrozes’ para ‘um país civilizado’. Segundo o ministro, os ditos agricultores ‘merecem atenção especial’ por causa de ocupação de terras e violência …  Tem também sido dada mais atenção a agricultores sul-africanos brancos na Europa, onde políticos da extrema direita com contatos diretos com a extrema direita (alt-right) nos Estados Unidos têm solicitado ao Parlamento Europeu que intervenha na África do Sul. Agentes políticos contra os refugiados no Reino Unido estão igualmente ligados à causa”.

A grande armadilha do colonialismo insidioso é dar a impressão de um regresso, quando o que regressa nunca deixou de estar.

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Originalmente publicado no site Outras Palavras Boaventura: o Colonialismo e o século XXI-02/04/2018

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Biji Kritik Rojava: crítica radical e solidariedade contra a barbárie das guerras de reordenamento mundial

 

Prólogo: este texto foi escrito no contexto específico de 2016, quando comitês de solidariedade a Rojava começaram a se estabelecer ao redor do mundo, e acenderam o tema no circuito militante de internet, onde dispararam debates se Rojava seria revolucionária ou não. Essa é ao mesmo tempo uma resposta a tudo isso, e também uma autocrítica, pelo pânico de fazer apologia espetacular a uma guerra alhures, e reflete a busca por outro sentido possível para a solidariedade internacional.

“Solo la violencia de lo viviente es revolucionária”
Raoul Vaneigem – Por una internacional del género humano

 

Um: sobre entender Rojava para além do espetáculo

Uma rede internacional de comitês de solidariedade à resistência curda vem se estabelecendo no mundo inteiro, impulsionada pela tradição da prática militante e funcionando basicamente como bureaux de propaganda do programa político de Rojava. Quem escreve este texto participou ativamente de um destes comitês no último ano (2016), movida por motivos que atravessam um campo extenso de ideações: de uma articulação política internacionalista; de uma auto-organização da vida cotidiana via assembleias de base, de bairro, comunas; da posição das mulheres não só nos frontes de batalha, mas à frente da sociedade, em pleno Oriente Médio; da história de décadas de guerrilha nas montanhas; da sobrevivência de povos originários sob os Impérios de todos os séculos; do cultivo de línguas proibidas e da dança em volta do fogo; dos mitos da antiga Mesopotâmia; da história heroica da esquerda na Turquia; da resistência às novas faces do fascismo; de uma democracia sem Estado que nasce de um Estado arruinado pela guerra civil; da noção de que neste tempo presente, em que tudo por toda parte parece avançar rumo às ruínas, há, em algum lugar do mundo, uma revolução posta em curso.

Mas Rojava é uma zona de guerra, se encontra toda cercada e só pode ser conhecida em larga escala via o acesso remoto pela rede mundial de computadores. Assim se apresenta ao planeta como lugar presente-ausente no domínio global das imagens difusas: a internet. Páginas e perfis online põem em circulação uma profusão de fotos de garotas empunhando suas kalashnikovs fardadas com lindos lenços e tranças, montagens de paisagens montanhosas em cores contrastadas são sobrepostas ao retrato sorridente de Abdullah Öcalan, vídeos de combatentes peshmergas ostentando cadáveres do Daesh, reportagens de todo o tipo, panfletos, manifestações públicas de apoio… a dita revolução curda lançada ao mundo por compartilhamentos muitas vezes sem qualquer discernimento quanto ao conteúdo. Tal difusão se dá sobretudo pelo trabalho de propaganda militante, ou até diletante, e mais demonstram o repertório de um fascínio estético e fé política do que a própria realidade no terreno, que se apresenta aos nossos olhos sob uma nuvem de mistificação. No entanto, nem tudo o que circula é necessariamente tosco, e como qualquer outro acesso a uma realidade distante, entender Rojava exige uma pesquisa cuidadosa. E mesmo as imagens mais insólitas revelam algo de relevante sobre a guerra na nossa época: como, nesta era do capital fictício, a internet se constitui enquanto base material da guerra na Síria. Tal especulação virtual da tragédia não apenas produz conteúdo pesado para o mercado de dados da web (aquece a economia de cliques), como é inclusive responsável por arregimentar boa parte dos contingentes em campo e atrair investimentos para todos os lados. O espetáculo do colapso elevado ao level hard.

De qualquer modo, Rojava existe. E aparece ao mundo como representação de um outro possível posto diante do estado de emergência em que este se encontra hoje. Revolucionário ou não (este é o tema quente de extensos debates nas páginas políticas), estamos falando de um processo de formação social e territorial histórico sem precedentes, que emerge no epicentro da guerra mundial da nossa época. E é claro que, entre o combate a inimigos reais em campo e o ataque à totalitariedade do Estado ou às abstrações concretas do capital, põem-se infinitos conflitos. Também a solidariedade internacional, assim como as críticas feitas por entidades estrangeiras contêm contradições. No limite deste texto, tecido a partir de afetos e atritos vividos no interior do militantismo anarquista de São Paulo, a defesa aqui feita é de que as utopias têm sua importância; assim como tem importância a crítica radical à realidade tal como esta está dada.

Dois: não se engane com a geopolítica

A emergência histórica de Rojava enquanto região autônoma (autodeclarada Federação do Norte da Síria) diz respeito a uma territorialidade formada na e pela guerra. Mas não uma guerra qualquer (sem reduzir “qualquer guerra” a uma “guerra qualquer”), senão à protagonista das guerras de reordenamento mundial desta época – a guerra civil na Síria. Partir a análise por este pressuposto, com base no atual estágio do desenvolvimento capitalista, já atrita com várias perspectivas sobre a situação, sobretudo porque sabota concepções clássicas de imperialismo e revolução.

A começar por recusar o modo mais vulgar de se ler uma guerra, personificando os Estados como “sujeitos” voluntariosos e plenos de poderes: como players num tabuleiro de War. Vista dessa maneira, a noção de violência se personifica nas figuras de Assad, Putin, Obama, Erdogan, Öcalan e os acontecimentos parecem redundar na vontade e atitude de entidades políticas identificadas por siglas (ISIS/PKK/AKP/YPJ/YPG/PYD/ETC). É óbvio que guerra tem estratégia estatal, e que chefes de Estado, partidos, organizações, desempenham os papeis que lhes cabem no jogo, com todo o teatro diplomático envolvido e as negociações por debaixo do pano. Mas nem tudo opera nesta escala de cartadas geopolíticas: há uma lógica abstrata e diversas contingências concretas movendo o processo. As ciências políticas que analisam e organizam as práticas políticas em geral não avançam pelo terreno das críticas do valor e da vida cotidiana. São justamente estes os frontes desta análise.

Três: a guerra na época do capital fictício

As condições da guerra, por sua vez, não são uma constante trans-histórica: não há fundamento antropológico que dê conta de entender o que de concreto move um a matar ao outro em massa. Cada guerra se determina em particular pelas estruturas sociais dadas a cada lugar e época, ligadas ao desenvolvimento geral da sociedade. Assim as guerras de hoje não seguem aquelas entre Impérios da primeira metade do século XX, nem às guerras regionais entre Estados dependentes das superpotências da segunda metade, nem as dos séculos anteriores, mas, sim, têm a ver com as circunstâncias gerais da nossa época – marcada pela queda do Centro Mundial de Trocas (a.k.a. WTC 11.9.01), atacado por atores invisíveis (a máscara do terrorismo), o ato inaugural do século XXI.

Há uma ruptura substancial entre as guerras de antes e as de hoje. Se até o quase final do século XX as guerras operavam como motor à explosão do imperialismo, para a expansão forçada de fronteiras e dominação colonial de territórios, incorporando a tudo e a todos ao sistema mundial produtor de mercadorias, esse mesmo processo violento ainda avança – pois a modernização é irreversível – mas agora opera ao revés. Depois de ter forçado a socialização capitalista (baseada no trabalho abstrato) até os últimos rincões do planeta, o capital global entra em crise de valorização (ou seria colapso) e deixa zonas imensas em desolação econômica. E o que acontece nestes lugares de relações sociais mediadas pelo dinheiro que se veem num deserto financeiro? Estados desmoronados, deslocamentos forçados, guerra civil. Com o avanço acelerado da terceira revolução industrial, as especulações estratosféricas e as crises de hiperacumulação, o poder mundial não opera mais para incorporar “recursos” à reprodução ampliada do capital porque tal capacidade se esgotou como se previa, sem ter engendrado sua própria superação como se esperava. As novas guerras explodem então para a exclusão de excedentes do sistema, pois interessa ao rearranjo do ordenamento mundial capitalista a destruição de estruturas e o extermínio de gente cuja existência, do ponto de vista da valorização capitalista, corresponde a um entrave.

Enquanto o capital financeiro transnacional acumulado por certos “agentes” banca a barbárie, a posição das velhas potências mundiais é permitir, a princípio, que “eles se matem”; e fornecem até forças e armas para tanto, como se fosse uma “guerra normal” de manutenção do status quo. Mas ao deflagrarem a maior “crise humanitária desde a segunda guerra mundial” (noticiada assim pela mídia como se a “vida normal” nessa sociedade já não fosse “crise humanitária”), então agem para lidar com os resíduos da catástrofe que produziram alhures. Assim, do controle da barbárie, passa-se à barbárie do controle: reações nacionalistas, radicalização do racismo, aumento do policiamento, recrudescimento das fronteiras, agravamento das condições de vida, genocídio. Não é a toa que a situação seja vista como atualização do fascismo – mas o ponto é que este agora não opera mais sob o fundamento de expansão da economia nacional pois já não se pode mais explorar produtivamente os dominados. Diferente de outras épocas, as migrações massivas não se dão mais pela mobilidade do trabalho (como era a história dos escravizados, dos proletarizados, ou mesmo daqueles que se aburguesavam alhures), mas pelo imperativo da mobilização pela tragédia – e isso é notável nas narrativas das próprias sagas pessoais sobre o abandono de tudo que se tinha, sobre a travessia de mares e desertos, que se dão não “por emprego”, senão pelo desespero de poder continuar a existir. Aqueles que, neste horizonte, conseguem ser explorados pelo trabalho chegam a parecer ter sorte. Cada uma dessas tragédias particulares é quantificada pelos Estados enquanto custo de gestão populacional. No fascismo do capital fictício, refugiados são tratados como commodities humanas escoadas num mercado mundial em crise. As “saídas políticas” aparecem sempre provisórias, assim como as medidas improvisadas vão virando permanentes. Os governos estendem ad eternum o estado de emergência: já não podem prometer nada senão o parcelamento da catástrofe a crédito e com juros.

Quatro: Economia e Política, modelos em guerra

A guerra civil da Síria expressa radicalmente os conteúdos deste tipo específico de guerra do colapso da modernização. Foi disparada pela insurgência popular num contexto de crise política e econômica, esmagada por um governo que atacou a própria população justamente por não poder defender sua administração da estrutura estatal. Vista do campo, acontece mais como um caos generalizado de centenas de milícias que se enfrentam em coalizões cambiantes, formadas por pequenos poderes armados (de várias ordens: os comandantes podem ser sheiks, gangsters, burgueses, chefes tribais, líderes comunitários… os combatentes, em geral, proletários), bancadas pelo capital financeiro estrangeiro (magnatas do petróleo, empresários de armas, há uma diversidade enorme de investidores interessados), e que, portanto, não são apenas inimigas no fronte, como também empresas concorrentes na disputa por investimento. Se no início do “conflito” uma única bala de AK-47 podia custar até dois dólares, quanto não custa esta guerra cinco anos depois?

Ponto fundamental para entender a guerra no capitalismo: não são os mortos que contam para os “acordos de paz”. Controlar áreas militarmente implica em assumir a gestão dos lugares que se ocupa. Em regiões autônomas em relação ao Estado (sejam zonas rebeldes, Rojava ou o Califado), os grupos armados têm seus braços políticos (ou seria o contrário?), já que nessas condições a ordem social só existe enquanto posse da violência. Não à toa, as primeiras instituições civis que se estabelecem em áreas auto-administradas são a Polícia e a Justiça. Mas no plano das necessidades radicais, cabe à população em geral dar conta da manutenção da própria vida. É aí que se estabelece a autogestão da sobrevivência numa sociedade em ruínas.

Confederalismo Democrático – modelo autogestionário que corresponde ao estatuto revolucionário de Rojava, que basicamente organiza a sociedade em níveis escalares partindo da base, e exige máxima representatividade da população nas esferas especializadas da política – proporciona a uma sociedade sob condições críticas de reprodução (com a capacidade produtiva praticamente arruinada e desequipada de toda a velha infraestrutura estatal) não apenas um funcionamento relativamente eficiente para a manutenção do território, como rearranja de modo bastante relevante a ordem social existente. É evidente também que, por toda parte onde a guerra se estabelece, a ordem social existente necessariamente se rearranja de maneira substantiva. Mas diferente do modo bárbaro como a gestão do território se estabelece em outras partes da Síria (como adjetivar a administração do Daesh?), o modelo em vigor em Rojava foi montado pelo Partido a partir de um repertório extenso de gestões da esquerda no último século, compondo num único mecanismo uma miscelânea de elementos do anarquismo e do socialismo, tanto quanto da social-democracia e da antiga ordem feudal, tem forte influência do movimento feminista ocidental, incorpora novas ondas capitalistas como a “economia solidária”, além de tentar introduzir técnicas ecológicas para a produção em geral, enquanto queima petróleo para produzir energia elétrica e prover a população de necessidades básicas.

Aos que adoram os consensos da práxis de esquerda, esse soa um modelo quase utópico, o consomem como idílio ideológico. Já àqueles teóricos da crítica que apontam afoitos na internet as incongruências entre o “projeto libertário” de Rojava e suas “práticas autoritárias”, é preciso dizer a eles que esse atrito entre um modelo de sociedade e a existência contraditória de uma sociabilidade, bem… esse não é um problema exclusivo dos “mals revolucionários curdos”: mas da Política, no sentido de esfera especializada em administrar o cotidiano. O verdadeiro problema da máquina democrática não-estatal montada em Rojava se encontra neste fundamento, e não nas especificidades do seu “bom” ou “mal” funcionamento, que não passam de contradições incondicionais. Em todo caso, as críticas ao processo concreto são necessárias, mas sendo cuidadosas em considerar as contingências. Já no campo da Economia, avisem aos críticos que a declaração de autonomia de um território não significa sua autonomização do planeta. Dado o grau de devastação das estruturas físicas do território, trocas precisam ser negociadas para garantir o mínimo de abastecimento para a população, e não há troca que se faça nesse mundo sem a mediação do dinheiro. Que Rojava esteja assentada sobre uma bacia de petróleo pode ser vista como sorte para uns ou azar para outros, o que importa é: comercializam porque precisam. Sobre a manutenção da propriedade privada, outro tópico que os analistas estrangeiros de Rojava não param de pôr em pauta, sabe-se que esta é uma questão de embate nos conselhos, e é, aliás, uma discussão elementar a ser feita não só do ponto de vista das teorias socialistas, mas porque repercutem imediatamente nas determinações práticas da vida. Mas também é importante lembrar que, no limite da análise, todos os modelos locais que aparecem como alternativos, o cooperativismo por exemplo, ainda são categoricamente capitalistas. Então para reiterar o óbvio aos peritos críticos da revolução dos outros: é impossível abolir a forma-mercadoria num contexto isolado – mas isso também nunca esteve no programa de Rojava.

Cinco: as histórias de vitória curda

Certamente, as vitórias das forças curdas (a impressionante batalha de Kobane) e a consequente conquista territorial para a autodeclarada Federação do Norte da Síria têm a ver com a história de organização política militar do PKK e a experiência de décadas de guerrilha contra os exércitos de todos os Estados nacionais que dominam o Curdistão; um repertório estratégico bastante avançado aliás, considerando a conjuntura desta guerra confusa. Também é claro que o sucesso de suas campanhas não se deve só a uma “cultura curda de inteligência bélica”, muito menos ao armamento soviético velho recuperado do Afeganistão, senão ao forte suporte norte-americano e ao apoio de outros países ao PYD/YPG/YPJ. Apontar tal posição tática e diplomática como incoerente para uma “luta verdadeiramente revolucionária” é uma crítica comum feita às milícias populares curdas, feita por aqueles que ignoram o quadro de necessidades reais extremas para que uma defesa seja possível naquele contexto. A perversidade está em exigir ao Outro, que no limite luta pela sobrevivência, que resista à guerra numa posição livre de contradições. Claro que é fundamental chamar atenção para as execuções e coerções historicamente promovidas pelo movimento curdo, porque flagra a incoerência dos princípios éticos e desmonta em público a ideologia dos discursos. Mas as insistentes acusações de violação aos direitos humanos que são dirigidas aos partidos socialistas curdos, em sua maioria não dialetizam a violência inerente a um processo social conduzido sob a ordem mundial do Estado, do Capital e do Patriarcado, e sim afirmam a ideologia burguesa da não-violência que reitera tal ordem, reivindicando seu código moral.

Seis: essencialismo e status revolucionário

Sem botar sobre Rojava o peso teórico, seja socialista utópico ou científico, do termo revolucionário, dá ao menos para ver seu processo como estamentário: no sentido de organização da sociedade civil posta em direção à consolidação de um novo tipo de estrutura social geral, que todavia não se estabeleceu. Enquanto momento histórico, o processo de formação move a sociedade pela virtualidade, apontando várias formas de organização possíveis que vão, com a vida em curso, se instituindo ou não. Se pode parecer impossível existir um território sem fronteiras rígidas ou uma arquitetura política sem Estado, é porque a forma Estado passou historicamente por um processo estamentário e se consolidou como forma absoluta da sociedade moderna. Mas com a modernização em colapso, vemos algo novo aí surgindo. Em Rojava como em diversas outras territorialidades contemporâneas, a auto-organização social numa porção de território não destitui imediatamente a existência do Estado que o domina, mas o prescinde enquanto mecanismo organizativo. Isso não necessariamente aponta para a superação histórica do Estado, muito menos se refere a uma “Zona Autônoma Temporária”; trata-se, antes de mais nada, de outra formação social tornada possível dada a plasticidade da ordem mundial em crise, e aos imperativos de rearranjo do sistema global capitalista.

De qualquer modo, a condição insanamente negativa de um processo de formação social conduzido sob a barbárie só pode destituir a ideia positivista da existência de um sujeito histórico revolucionário. A compreensão de que a história é feita por um corpo social organizado (cabe aqui uma miríade de formas e identidades possíveis), que conscientemente domina (seja pela “teoria social verdadeira” ou pelo tal “acúmulo de experiências” que a militância sempre clama) a um processo social posto em curso, projetando nele seu devir como se fosse um “programa”… esta ideia se mostrou uma ilusão, ainda mais depois do último século, quando aconteceram enfrentamentos autênticos por toda parte, sem terem, contudo, alcançado mais do que “meias-revoluções” (arranques de melhorias reais limitadas a certos âmbitos da vida social – “partout des révolutionnaires, mais la Révolution nulle part” – I.S. nº10, 1965). Isso só demonstra o quanto as teorias e as práxis políticas em geral não escapam à velha metafísica do sujeito da Razão iluminista, a mesma que fundou o Estado moderno e anima o capitalismo há séculos, agora mais do que nunca sob os signos da “administração” e “gestão social” (“planejamento” e “urbanismo” inclusos).

Neste ponto, pode-se admitir que quase todo o debate sobre o status verdadeiro ou falso da revolução de Rojava feito entre anarco-apologetas e críticos marxistas cínicos continua acontecendo no plano do pensamento cartesiano, e reitera uma ideia fetichista de revolução. E no fim das contas, este também se demonstra um falso problema: porque as formulações abstratas do que é ou não revolução desconsidera as implicações concretas do ela representa para quem move (contraditoriamente) o processo.

Em Guerra e Paz no Curdistão, Öcalan elabora uma tese da identidade curda com um ethos essencialmente revolucionário. Ele se baseia nos trabalhos acadêmicos de intelectuais de esquerda da Turquia nos anos 70, comprometidos com a construção política de uma identidade nacional curda para a fundação de um Estado socialista na região, e defende que a etnia curda é autóctone da Mesopotâmia e descende da primeira civilização, responsável pela revolução neolítica; também, veja bem o determinismo geográfico, que pela conformação de seu território (sobre a cordilheira Zagros-Taurus), os curdos (etimologicamente os kurtis, povos das montanhas) seriam essencialmente guerrilheiros. Já a jinealogia, a ciência específica das mulheres desenvolvida nas últimas décadas pelas academias de mulheres curdas, também se estabelece naturalizando o poder que estas vêm conquistando na sociedade ao longo de uma história de luta muito dura. Se hoje as mulheres ocupam papel central na formação social de Rojava, isso definitivamente não se deu por conta de uma “natureza feminina”, nem a convite de um líder homem iluminado, mas porque elas foram armadas pelas necessidades da guerra, ganharam força nas revoltas populares e forçaram sua maior participação ao longo do processo, como protagonistas da luta contra suas próprias opressões. Ou seja, por mais que essa ontologia toda sirva de discurso ideológico, o tal “espírito revolucionário” curdo diz respeito à história das tradições de resistência dessas populações. Trata, afinal, dos modos de sobrevivência passados geração a geração, durante séculos de guerra e dominação. A cosmogonia de um povo construída ao entorno de uma identidade revolucionária faz com que os mortos do passado reascendam a esperança nos vivos quando estes se encontram em perigo.

Por isso, a representação de Rojava como revolução pode ser ideológica, mas é real. É real porque desdobra de uma realidade histórica ao mesmo tempo em que determina esta realidade agora. A esperança e a desesperança não são só virtualidades: elas mobilizam a ação. A revolução enquanto representação comum de outra sociedade possível imprime sentido ao processo social vivido agora; move a comunidade, como a cada um em particular, a produzir ativamente a própria história – mesmo que não dominem totalmente o processo social que põem em curso.

Sete: o sentido possível da solidariedade

Nas notas preparatórias para as teses sobre o conceito de história, escritas na época em que o fascismo triunfava, Benjamin escreveu: “Marx diz que as revoluções são as locomotivas da história. Mas talvez não seja bem assim. É possível que as revoluções sejam, para a humanidade que viaja nesse trem, o gesto de puxar o freio de emergência”. Se o único progresso lógico possível é o da expansão exponencial da barbárie, a revolução que se pode encontrar em Rojava está precisamente no combate deste avanço, como tentativa de ampliar o campo dos possíveis em direção a outro devir.

Enquanto a violência do capital em colapso avançar em escala global, o essencial da solidariedade internacional às lutas radicais pela sobrevivência não está em fazer a defesa de um modelo político determinado, mas em mover-se em direção ao encontro com o outro; sem exigir-lhe um papel heroico ou acusá-lo moralmente por suas contradições. O movimento solidário se dá no sentido de entender sob quais condições se encontram nossas irmãs e irmãos, e buscar junto com elxs pelas violências capazes de combater a verdadeira violência que é a totalidade capitalista. Por isso é preciso manter a revolução como representação no campo dos possíveis – para que nos mova, porque não estamos mortos. Ou, como canta o lema Rojavista:

”Berxwedan Jiyan ê”! (“Resistência é vida”).

BIBLIOGRAFIA:

Adresse aux révolutionnaires d’Algérie et de tous les pays (Argel, juillet 1965) – Internationale Situationniste, numéro 10. Mars, 1966.
Califat & Barbarie: En attendant Raqqa – Tristan Leoni, DDT21. Julho 2016.
Crédito à morte: a decomposição do capitalismo e suas críticas – Anselm Jappe, 2012.
Cristóvão Colombo Forever? Para a crítica das atuais teorias da colonização no contexto do colapso da modernização – Roswitha Scholz, Revista EXIT! nº 13. Julho 2016.
Guerra e paz no Curdistão: perspectivas para uma solução política da questão curda – Abdullah Öcalan, 2008.
La présence et l’absence: Contribuition à la théorie des représentations – Henri Lefebvre, 1980.
Por una internacional del género humano – Raoul Vaneigem, 1999.
Rojava Revolution: Reshaping masculinity – Rahila Gupta, 9/5/2016.
Sobre o conceito da história – Walter Benjamin, 1940.
Weltordnungskrieg: A guerra de ordenamento mundial, o fim da soberania e as mutações do imperialismo na era da globalização – Robert Kurz, Crônicas do capitalismo em declínio (2003-2012).

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Originalmente publicado em espanhol no #1 da revista 2&3 DORM. Traduzido pela própria autora e enviado para site passa palavra Biji Kritik Rojava: crítica radical e solidariedade contra a barbárie das guerras de reordenamento mundial-09/04/2018

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O tenso enegrecimento do cinema brasileiro

O cinema brasileiro vive um novo momento de mutação. A profunda diversidade que caracterizou nossa cinematografia nos últimos 30 anos, depois de superar a política de terra arrasada do governo ultra-neoliberal Collor, nos anos noventa, começou, finalmente, a incorporar a participação e olhar de realizadores e realizadoras negras, mas com grandes resistências. E o último Festival de Cinema de Brasília, que comemorou 50 anos de existência em 2017, foi o palco que deu enorme visibilidade para esta nova fase da história do cinema brasileiro e para as tensões que vivemos.

O debate sobre o filme Vazante, da experiente realizadora Daniela Thomas, uma história que tem como cenário e contexto as relações familiares e sociais na primeira metade do escravocrata século XIX, foi o estopim de uma espécie de bomba de efeito retardado que polarizou opiniões sobre a representação de negros e negras na história do cinema brasileiro. E neste festival, atrizes, atores, cineastas e um crítico de cinema que se posicionaram orgulhosamente a partir de sua ascendência negra, em um país marcado pela força da ideologia do branqueamento, fizeram questão de demarcar também a existência de uma leitura específica do seu grupo racial sobre a história e o mundo social e cultural brasileiro.

Mas, para uma parcela do mundo do cinema já estabelecido, a opinião dos negros e negras foi considerada como equivocada, ressentida e militante, portanto distante do que seria justo. Um grande cineasta que se projetou internacionalmente nos anos sessenta, demonstrando um envelhecimento e enrijecimento dos paradigmas de sua geração, chegou a classificar como uma bobagem de universitários o conceito “lugar de fala”,  muito empregado criticamente pelos negros e negras no debate de Vazante. E reutilizou, fora de contexto, o termo pejorativo “patrulhamento ideológico” que criou nos anos setenta para criticar uma certa miopia da esquerda na análise dos filmes de então, tentando agora com o mesmo termo deslegitimar e ridicularizar a opinião e reivindicação dos negros.

Mas não interessa aqui reproduzir os detalhes do debate provocado pelo filme Vazante, e sim perguntar o que explica e fundamenta o olhar, o imaginário e o discurso daqueles que produzem TV e Cinema no Brasil que justificaria esta enorme dificuldade em reconhecer o protagonismo dos negros e negras em nossa sociedade, e o direito de fazer e de expressar suas narrativas audiovisuais.

Algumas obviedades precisam ser ditas para começarmos a questionar a gravidade do episódio acima mencionado. Quem conhece o Brasil, a partir da vivência do seu cotidiano, sabe que estamos longe de ser uma democracia racial. E o segmento audiovisual é aquele na sociedade brasileira em que o racismo estrutural do país trouxe os resultados mais dramáticos. Todas pesquisas existentes demonstram que a telenovela, assim como o cinema brasileiro, sempre negaram uma representação da diversidade racial brasileira, um país de minoria branca com uma população afrodescendentes constituída de pretos e pardos, que corresponde ao montante de 54,9% do total de uma população de 205 milhões de habitantes[1], conforme a última PNAD de 2016 do IBGE, órgão oficial de estatística do Estado brasileiro.

Uma pesquisa do GEMAA[2] sobre A cara do cinema nacional é bastante ilustrativa da ausência de negros e negras no setor audiovisual brasileiro. Buscando avaliar o conteúdo dos filmes mais vistos a cada ano, no período entre 2002 e 2014, para mapear a diversidade de gênero e racial, e compreender o papel que esta diversidade assumiu nos filmes, este núcleo de pesquisa trouxe os seguintes resultados:

–       dos 919 atores e atrizes mapeados na pesquisa 71% eram do gênero masculino, contra 28% do gênero feminino e 1% de pessoas trans;  

–       Uma “Desproporção similar de participação se verifica quanto à cor das personagens: branca (65%), preta (18%), parda (14%), não identificada (2%) ou indígena/amarela (1%)”;

–       também à frente das câmeras a desigualdade é evidente. Nas obras de longa metragem lançadas neste mesmo período, 80% têm como realizadores homens brancos, 14% são mulheres brancas,  2% são homens negros e 0% são mulheres negras[3].

A ANCINE – Agencia Nacional de Cinema, em estudo recente realizado por sua Superintendência de Análise de Mercado, sobre Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros de 2016, confirmou as pesquisas do GEMAA. Trata-se do primeiro estudo com este recorte realizado pela ANCINE. Trabalhando como universo de pesquisa os 142 longas-metragens lançados comercialmente naquele ano, constituído por 97 ficções, 44 documentários e uma animação, constatou que:

–       Os homens brancos assinaram a direção de 107 destes filmes, que corresponde a 75,4% do total;

–        As mulheres brancas dirigiram 28, igual a 19,7%;

–       Os homens negros somente 3, ficando na percentagem ínfima de 2,1%.

–       E em nenhum deles foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra.

–       “A análise apontou o domínio de homens brancos não apenas na direção, mas nas principais funções de liderança no cinema, o que evidencia que as histórias exibidas nas telas do país, produzidas por brasileiros, têm sido contadas majoritariamente do ponto de vista dos homens: 68% deles assinam o roteiro dos filmes de ficção, 63,6% dos documentários, e 100% das animações brasileiras de 2016.  Os homens dominam também as funções de direção de fotografia (85%) e direção de arte (59%).

–       A participação nos elencos das obras também mostra a sub-representação da população negra. (…)o percentual de negros e pardos no elenco dos 97 filmes brasileiros de ficção lançados em 2016 foi de apenas 13,4%”.[4]

O segmento audiovisual mais bem sucedido no Brasil em termos de público e lucratividade, e também extremamente rentável em termos de exportação[5],  sempre foi as telenovelas. Em um terço daquelas produzidas em seus primeiros 35 anos de história, no período de 1963-1998, estudado em meu livro A Negação do Brasil – o negro na telenovela brasileira[6],  não apareceu pessoas negras nem mesmo como figurantes. Nos outros dois terços, 90% dos personagens afro-brasileiros, representavam os negros como destinados a serem eternamente subalternos, a servir as elites e a classe média branca. E nas poucas novelas que abordavam o persistente racismo da sociedade brasileira, a figura salvadora era sempre uma branca, um estereótipo inspirado no mito da princesa Isabel, sempre celebrada em nossa história como aquela que assinou a abolição da escravidão no Brasil.

Em levantamento do GEMAA[7] sobre as telenovelas exibidas entre 1985 e 2014 constatou-se também que houve apenas 8,8% de atores ou atrizes não brancos contratados em suas produções.

Mas me interessa aqui refletir porque persiste a dificuldade, manifesta por uma parcela significativa do cinema brasileiro, em aceitar esta desigualdade, reconhecer a importância deste protagonismo e buscar representar em suas obras um país mais próximo do real de sua composição racial e cultural.

Uma das explicações que encontro é que todos, ou quase todos, profissionais de TV e cinema no Brasil, em seu processo de formação, receberam e compartilharam as mesmas interpretações do Brasil que depois fariam parte dos seus filmes. Se elencarmos aqui os mais importantes nomes da intelectualidade que são estudados nas universidades brasileiras, e foram parte de nossa formação, encontramos no topo Gilberto Freyre, Raimundo Faoro, Fernando Henrique Cardoso e Sérgio Buarque de Holanda. Destaco aqui parte do debate que o sociólogo Jessé de Souza[8] faz em seus livros mais recentes, demonstrando que a esquerda branca brasileira nunca construiu uma interpretação alternativa à leitura liberal do Brasil, que tem os pensadores da sociedade brasileira acima citados como seus grandes construtores. Para nenhum deles o nosso maior problema é a desigualdade social e racial, e consequentemente o racismo, fundados na escravidão. O patrimonialismo oriundo da colonização portuguesa é que seria o grande problema do Brasil, é ele que teria conformado um brasileiro eternamente vira-lata, pré-moderno, emotivo e corrupto.

Veremos que nas análises e considerações destes pensadores existe um elemento em comum: a compreensão que a influência negativa das desigualdades e preconceitos fundados em uma escravidão, que durou quatro séculos, teria acabado, como em um passe de mágica, com a abolição da escravatura e com a importação massiva de imigrantes brancos da Europa. Esses imigrantes, pretensamente, formariam exclusivamente a nossa classe operária, seriam responsável pelo surgimento do capitalismo industrial brasileiro e pelas bases de um país moderno.

Uma abolição inconclusa e uma vanguarda que continua lendo o país de forma errada

Na tentativa de fazer uma grande e rápida síntese, vou aqui demarcar os aspectos mais importantes desta base teórica que conformam uma visão do que caracterizaria o Brasil e os brasileiros, e que continua com algumas nuances sendo refletida em nossos filmes até Vazante.

A interpretação dominante e original do Brasil, que foi seguida ou criticada por quase todos os outros intelectuais marcantes do país, foi criada por Gilberto Freyre, autor do clássico Casa Grande e Senzala. Uma interpretação que, em síntese, afirma que viemos de Portugal e temos um jeito específico de ser por essa herança lusitana. Em sua visão romantizada do colonizador, ele descrevia o português como: “um espanhol sem a flama guerreira nem a ortodoxia dramática; um inglês sem as duras linhas puritanas. O tipo do contemporizador. Nem ideais absolutos, nem preconceitos inflexíveis[9]. Destas características, que seriam também resultado da formação histórica miscigenada de Portugal, a partir de um longo contato com mouros e judeus na península ibérica, nasceria uma colonização benevolente e o aspecto soft de nossa escravidão. Este conjunto de elementos, por sua vez, possibilitaria no Brasil uma miscigenação fundada em coitos consensuais, safados e sensuais, entre o senhor da casa grande e a escrava negra e indígena, e uma democracia racial sui generis

Na abertura do capítulo 04 do mencionado   Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre tem uma sentença fundamental que traz toda a chave de sua leitura racial do Brasil: “Todo brasileiro traz na alma, quando não na alma e no corpo (…) a sombra, ou  a pinta, do indígena e do negro” porque teria sido “embalado por uma mucama negra ou sido iniciado sexualmente “no amor físico” por uma “mulata”, e também por que teve um “muleque como companheiro[10]. E aí está o “lugar de fala” de Gilberto Freyre. O brasileiro de Freyre era homem, branco e ex-senhor ou filho de um senhor de escravos. Este é o elemento chave para ler o cinema brasileiro hoje e em toda sua história. O negro sempre foi o outro, o indesejado. Admite-se até que o brasileiro carrega em si “um pé na cozinha”, ou na África, como diria Fernando Henrique Cardoso, ou a marca da influência negra, como diria Gilberto Freyre, mas ele é naturalmente branco. Esta eliminação da noção de alteridade em um país multirracial, de minoria branca, e esta centralidade do segmento branco na percepção do mundo, são parte, portanto, dos paradigmas fundamentais que conformaram o cinema brasileiro e seus autores.

Para o segmento mais à esquerda, entre os cineastas brasileiros, foi também determinante a leitura e o pensamento de Florestan Fernandes, que praticamente foi o primeiro crítico da ideia de democracia racial brasileira, especialmente seu estudo A integração do negro na sociedade de classes. Neste e em outros escritos de Florestan, que apesar de entender e revelar que a sociedade brasileira é profundamente racista, acentua uma interpretação equivocada que permanece na cabeça de muitos sobre a participação do segmento negro na história nacional após a abolição da escravatura. Aprendemos na visão progressista de Florestan que a situação de subalternidade e exploração que o negro sofreu na sociedade brasileira no período pós-escravidão, baseada no trabalho livre, veio da experiência deformadora da escravidão que criou uma “massa desagregada, inerte, inculta, e fez do elemento negro um ser indolente, incapaz de competir com os imigrantes brancos em uma sociedade nova, moderna, industrial e de classe. Ou seja, seres incapazes de participar como cidadão livre na emergência e expansão de um capitalismo dependente, uma vez que foram conformados por uma sociedade de castas que estava em extinção. Ao negro, coube apenas o papel ser um “elemento residual do sistema social, uma grande massa à “margem da vida social organizada e de toda a esperança, (que) sucumbe à própria inércia”. Essa leitura da condição do negro no período pós-abolição não se encontra apenas em Florestan Fernandes, foi também abraçada pela intelectualidade progressista como Octávio Ianni e até mesmo por Celso Furtado em seu “Formação Econômica do Brasil”. (ver Onda negra, medo branco[11]).

Como não acreditar que a falta de mobilização e de indignação de nossos cineastas mais à esquerda em incluir em sua pauta política o nosso racismo cotidiano e a exterminação de jovens negros na periferia, fruto de uma autêntica política de genocídio, não seriam decorrência destas leituras?

Protagonismo negro. Um trovão no céu azul?

O ano de 2017 foi especialmente marcante se observamos os prêmios recebidos pelos negros. Alguns filmes, cineastas, atores e atrizes foram premiados repetidamente em vários festivais do país. O Festival de Brasília inaugurou o ciclo de premiações e reconhecimento do longa ficcional Café com Canela, dirigido pela jovem negra Glenda Nicácio, em parceria com Ary Rosa, que receberam o prêmio do Júri Popular de melhor filme, e de melhor atriz e melhor roteiro do Júri Oficial. Da mesma forma, os curta-metragens de diretores e diretoras negras Nada,  Peripatético, Chico e Deus é uma mulher negra também foram repetidamente premiados em Brasília e em vários outros festivais do país. E um grupo significativo de novas atrizes e atores negros emergiram nesta nova onda. Especialmente, o cinema reconheceu a potência da atriz e dramaturga Grace Passô, já celebrada no teatro, que abocanhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema do Rio, por sua atuação no filme Praça Paris.

Mas o festival que mais atestou a existência de um novo momento na história do cinema brasileiro, com o surgimento de uma verdadeira onda de cinema negro, foi o Encontro de Cinema Negro Brasil, África e Caribe, criado pelo icônico ator Zózimo Bulbul, e que comemorou 10 anos de existência em 2017. Nesta última edição do festival, que prefere se chamar de Encontro, teve a participação de 65 filmes realizados por negras e negros brasileiros, sendo três deles longa-metragens. Um crescimento de cem por cento, em relação à sua edição anterior que apresentou 33 filmes de afro-brasileiros. Progressivamente, o Encontro está deixando de ser um festival marcado pela exibição de filmes internacionais para ter como maior destaque os lançamentos nacionais. Mas, aí evidenciou-se também que uma parcela cada vez maior de jovens está produzindo os seus filmes de forma independente, mesmo sem ainda contar com o apoio de editais criados pelo governo ou pela iniciativa privada. O desejo de fazer, e uma espécie de urgência histórica, tem mobilizado indivíduos e coletivos em todas regiões do país e uma intensa produção que desembocou em um número recorde de inscrições no processo seletivo deste festival: 110 curtas, médias e longas.

Mas de onde vieram as bases desta explosão de realizadores negros, se considerarmos que até recentemente éramos poucos, e possíveis de contar com somente os dedos de duas mãos? Uma outra micro-revolução na sociedade brasileira tem colaborado para uma emergência de atores sociais negros no cinema, na TV, no teatro e nas redes sociais. O berço está, seguramente, nos milhares de novos profissionais que tiveram acesso às universidades brasileiras com a aprovação de cotas para estudantes negros e negras. Nos seus dez primeiros anos, o percentual de negros quase dobrou na universidade brasileira. “Em 2005, um ano após a implementação de ações afirmativas, como as cotas, apenas 5,5% dos jovens pretos e pardos na classificação do IBGE (…) frequentavam uma faculdade. Em 2015, 12,8% dos negros entre 18 e 24 anos chegaram no nível superior. (…) Comparado com os brancos, no entanto, o número equivale a menos da metade dos jovens brancos com a mesma oportunidade”[12]. Para compreender este aumento percentual em termos numéricos, somente em três anos, de 2013 a 2015, o número significativo de 150 mil novos estudantes negros entraram nas universidades brasileiras.

Assim como no cinema, o aumento exponencial de negros nas universidades não aconteceu sem uma enorme resistência de setores intelectuais, inclusive entre aqueles que se consideram progressistas ou de esquerda [13]. Lembremos aqui que a grande mídia brasileira também jogou um papel preponderante na valorização desta resistência. Como tática para impedir o crescimento de universidades que aprovariam cotas, esta mídia  praticamente ignorou os intelectuais e artistas negros, e a existência de uma opinião ou de reflexões entre as lideranças negras sobre o tópico. Especialmente daqueles que foram os formuladores da política de cota, e da lei de diretrizes para o ensino das relações étnico raciais. Eles estiveram praticamente ausentes dos cadernos de debates nos grandes jornais ou entre aqueles que foram convidados para os programas de TV específicos sobre o tema. Em oposição a eles, a grande mídia usou regularmente da opinião contrária de figuras fundamentais da intelectualidade e do mundo artístico branco para deslegitimar o discurso e a reivindicação dos negros. E, neste contexto, para os poucos que furaram o bloqueio, o termo “militante” foi ostensivamente utilizado para demonstrar o quão irrelevante ou parcial eram suas opiniões em um debate tão importante para o futuro da universidade brasileira.

Vazante, de Daniela Thomas

Creio que aqui temos um quadro amplo para entender a gravidade da reutilização na polémica sobre Vazante da classificação da opinião dos negros e negras como “equivocada, ressentida e militante”. Chegamos a um ponto de mutação, ou a um limite, em que o mundo do cinema não pode mais ignorar que 90% da produção cinematográfica atual continua sendo feita por brancos e brancas, com preferência por atores e atrizes brancas. Portanto, tratar da escravidão, um período da história do Brasil que marca nossas vidas até hoje, somente com um olhar a partir da Casa Grande, é que continua sendo um verdadeiro equívoco. O lugar de fala, o lugar da construção narrativa do cinema brasileiro, vai continuar sendo cúmplice do nosso racismo cotidiano se expressar apenas o ponto de vista do brasileiro branco gilberto freyriano. E continuaremos nos comportando como vira-latas e colonizados se os negros continuarem sendo tratados como uma minoria, como a ralé indesejada que não sabe o seu lugar  e/ou como perturbadores da marcha irreversível do branqueamento.

A propósito das críticas que os negros e negras receberam por seu protagonismo questionador no Festival de Cinema de Brasília, uma cineasta que se destaca nesta nova geração, Viviane Ferreira, traduz muito bem a perplexidade de toda esta história: “a nossa presença mínima incomoda mais que nossa ausência histórica nestes espaços”.

[1] PNAD-C Distribuição da população por cor e raça de 2016. Ver: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/18282-pnad-c-moradores.html

[2] O GEMAA (Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa) é um núcleo de pesquisa com sede no IESP-UERJ, criado em 2008 com o intuito de produzir estudos sobre ação afirmativa a partir de uma variedade de abordagens metodológicas.

[3] MORATELLI, Gabriela e CÂNDIDO, Márcia Rangel. A cara do cinema nacional (2002-2014): o perfil de gênero e cor dos atores, diretores e roteiristas dos filmes brasileiros. Coordenação de Verônica Toste e João Feres Junior. GEMAA-IESP-UERJ. Rio de Janeiro, 2016. Disponível em http://gemaa.iesp.uerj.br/infografico/infografico1/

[4] ANCINE apresenta estudo sobre diversidade de gênero e raça no mercado audiovisual. 25/01/2018. https://www.ancine.gov.br/pt-br/sala-imprensa/noticias/ancine-apresenta-estudo-sobre-diversidade-de-g-nero-e-ra-no-mercado

[5] SANTOS, Lidia. A telenovela brasileira : do nacionalismo à exportação. Caravelle. Cahiers du monde hispanique et luso-brésilien  Année 2000  75  pp. 137-150. Fait partie d’un numéro thématique : Nouveaux Brésils – Fin de siècle.

[6] ARAUJO, Joelzito. A Negação do Brasil – o negro na telenovela brasileira. Ed. Senac, SP, 2001.

[7] CAMPOS, Luiz Augusto e JUNIOR, João Feres. “Globo, a gente se vê por aqui?” Diversidade racial nas telenovelas das últimas três décadas (1985-2014). Plural Revista de Ciências Sociais. V. 23, n. 1. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2016. Disponível em http://www.revistas.usp.br/plural/article/view/118380/115938

[8] O sociólogo Jesse de Souza tem se destacado como um dos maiores críticos das interpretações clássicas do Brasil criadas a partir dos anos 30. Seus livros mais conhecidos são: A Elite do Atraso: da escravidão ao Lava-jato (2017); A Tolice da inteligência Brasileira (2015); A ralé brasileira: quem é e como vive (2009).

[9] FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. Lisboa: Edição Livros do Brasil, 1933/1983. p.191

[10] FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora. 8a. Edição – 2o. Volume. 1954. p.489.

[11] AZEVEDO, Célia Maria Marinho. Onda NegraMedo Branco. O negro no imaginário das elites. Séc. XIX. São Paulo: Paz e Terra, 1987. Jornal UNIVERSITÁRIO. Porto Alegre, RS. Páginas 19-23.

[12] VIEIRA, Isabela. Percentual de negros em universidades dobra mas é inferior ao de brancos. http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-12/percentual-de-n…

[13]  Marcus Eugênio OLIVEIRA LIMA, Paulo Sérgio Da COSTA NEVES e Paula BACELLAR E SILVA.  A implantação de cotas na universidade: paternalismo e ameaça à posição dos grupos dominantes. Revista Brasileira de Educação v. 19 n. 56 jan.-mar. 2014. http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v19n56/v19n56a08.pdf

Artigo publicado originalmente em Cinémas d’amérique latine – Revue annuelle de l’Association Rencontres Cinemas d’Amerique Latine de Tolouse-(ARCAL – número 26) 2018.

por Joel Zito Araújo

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Publicado no site BUALA dia 04, de abril, 2018 O tenso enegrecimento do cinema brasileiro

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Fidel e a universalização da tecnologia da informação em Cuba

 

O presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika, tinha muitas razões para dizer que Fidel viaja para o futuro, retorna e explica isso. Caso contrário, não poderia ser entendido como ele viu o potencial da computação em Cuba.

De acordo com o M.Sc. Melchor Gil Morell durante a Informática 2018, correu os primeiros anos da Revolução e foi necessário impulsionar a produção de açúcar e otimizar o sistema ferroviário. Fidel imaginou o impacto que o uso de equipamentos de informática teria e colocou a tarefa de criar o primeiro computador cubano antes da barreira tecnológica imposta à ilha.

E muitas das tarefas são complexas: as tarefas de direcionar todo o tráfego em uma usina de açúcar, o itinerário dos trens, o programa. De tal forma que agora estamos analisando, mesmo tentando produzir um primeiro computador que a cada dia em cada usina de açúcar indica qual deve ser o itinerário ideal dos trens “

Somente em 1969, após o encontro com Erwin Roy John, eminência do mundo das neurociências, os primeiros passos são dados para esse esforço. Diante da impossibilidade da transferência tecnológica e do conhecimento imposto pelo bloqueio, o líder da Revolução Cubana cria um grupo de trabalho nesse sentido.

Luís Carrasco e Orlando Ramos

“Em 5 de abril de 1969, Fidel conhece Roy Jonh, pai de neurociência nos EUA e pede sua colaboração para criar o primeiro computador em Cuba, mas as agências de inteligência americanas intercedem e proíbem a transferência de tecnologia e conhecimento. Fidel criou então um grupo de trabalho na faculdade de tecnologias da Universidade de Havana, liderado por Julián Carrasco e dirigido por Orlando Ramos.”

Gil Morell lembrou que em 18 de abril de 1970 apresentou FID 201 ao Fidel, momento que marcou, segundo o especialista, “o início da indústria eletrônica cubana”.

Outro dos momentos que marcaram a relação de Fidel com a tecnologia da informação foi, sem dúvida, a criação do Clube do Jovem Computador. “Fidel sempre se interessou pela universalização da ciência da computação e, em 1987, o Clube Jovem de Computação e Eletrônica nasceu para obter acesso massivo aos jovens”, afirmou.

Inicialmente, 32 jovens clubes foram instalados em todo o país, uma maneira de provar a ideia inicial. Vendo os resultados, esse programa foi promovido até que, pelo menos, houvesse uma instalação por município.

“Esse desafio implica um domínio, por exemplo, da computação. Você não pode sobreviver sem esse domínio da computação, da eletrônica, da mídia. Ninguém pode imaginar o que significam esses jovens clubes que foram criados em toda a república e onde milhares de jovens aprenderam a usar computadores. Ninguém imagina quais os programas que a Revolução fez para introduzir o computador, primeiro nos centros superiores, depois continuar em outros centros, e temos que fazer o mesmo esforço para levá-lo aos níveis totais de ensino ”.

Melchor Felix Gil Morell concluiu que uma das maiores obras planejadas pelo Comandante em Chefe para contribuir com a informatização da sociedade cubana era a Universidade de Ciências da Informação.

“Fidel, como estrategista fundador, recomendou que a universidade fosse concebida como um centro de novo tipo, de alcance nacional, de características atípicas e de tarefas concretas no projeto de informatização da sociedade cubana”.

Analisar o papel do Estado e das políticas públicas no desenvolvimento digital de um país

Sobre o papel do Estado e a importância de estabelecer políticas públicas para o desenvolvimento digital de uma nação, o ex-subsecretário de Telecomunicações do Chile, Pedro Huichalaf, falou hoje na Informática 2018.

O advogado explicou como foram os últimos quatro anos de transformações no campo da conectividade com a Internet naquele país da América do Sul, entre os líderes de várias listagens mundiais em termos de velocidade de acesso, penetração, uso de tecnologias e outros aspectos.

Huichalaf insistiu na importância das regulamentações em torno dessas questões e das implicações dos vínculos entre o setor estatal e as entidades privadas. “O papel do regulador tem a ver com as tecnologias atingir todos os setores, independentemente da localização geográfica.”

A figura do regulador é essencial no momento da regulamentação, para projetar o modelo de política pública, para gerenciar o espectro radioelétrico, para definir as normas técnicas de regulamentação, disse ele.

Durante sua estada no governo chileno, explicou, eles decidiram transformar o país em um centro digital global, planejando políticas públicas de telecomunicações por meio de trabalho público-privado com uma visão de médio a longo prazo.

Com esse objetivo, a estratégia a ser seguida foi focada na redução da brecha digital e na promoção da inclusão cidadã; a defesa do usuário de telecomunicações; o aumento da qualidade do serviço; a promoção da concorrência para o desenvolvimento da sociedade da informação; desenvolvimento de infraestrutura.

Para estes últimos, criaram um plano nacional de infraestrutura de telecomunicações que incluía conectividade projetada para o usuário final, que liga todo o país e também busca alternativas de conectividade do exterior.

O Estado tem então como missão assegurar um acesso equitativo ao serviço e garantir todos os investimentos em todo o território, disse Huichalaf.

Uma rede de pontos de Wi-Fi gratuitos foi estabelecida em todo o país. A partir daí, foram feitos estudos para avaliar a eficiência dessa política pública. Depois disso, pelo menos quinze empresas que não tiveram contratos com o Estado, nem receberam subsídios do Estado, passaram a receber um valor pela manutenção daquele serviço.

Ele também disse que a fibra óptica foi estendida para as áreas mais ao sul da nação, onde vivem 6% da população. Várias empresas foram premiadas com esse projeto. Isso permitirá que qualquer investimento direto seja mais fácil e levará ao desenvolvimento científico em escala internacional, baseado no Chile, disse ele.

Durante os últimos quatro anos, ele mencionou vários acordos de colaboração com vários dos países mais avançados nessas áreas, como os casos da Coreia do Sul, Japão e China.

No caso do gigante asiático, o elo foi além e chegou-se a um acordo para conectar, via fibra ótica, a mais de vinte mil quilômetros de distância, o que constituirá o mais extenso rastreamento de fibra óptica submarina do mundo.

No período em questão, ele disse, também houve um aumento na velocidade da conexão com a internet. No nível latino-americano, o Chile tem as melhores taxas de velocidade média.

Um projeto também foi apresentado para criar uma rede de comunicações estaduais, onde o proprietário é o Estado e não um privado, embora outras entidades sejam contratadas para o desenvolvimento.

Em relação à conectividade por meio de telefones celulares, ele explicou que a cada ano o crescimento é mais explosivo no que diz respeito ao tráfego de dados, venda de aparelhos, peças de reposição técnicas. Ele explicou que um dos efeitos que isso traz é que “a voz não é mais um elemento diferenciador”. As pessoas estão começando a falar menos nos telefones. O SMS está em queda. As pessoas se comunicam pelo WhatsApp, pelo Facebook. É por isso que os modelos de negócios das empresas de telecomunicações baseadas em voz têm seus dias contados. “

Outra medida regulatória que foi implementada estava relacionada ao fim das chamadas de longa distância em nível nacional. “O Chile é tão longo que teve vários setores de longa distância, para os quais um valor adicional teve que ser pago, devido ao aluguel das redes”. Ele explicou que as empresas disseram que tinham que cobrar para manter a rede de cobre, que era a base da comunicação, mas desde que tudo foi digitalizado, ele não existia e, portanto, eles estavam cobrando por algo inexistente. Agora todas as chamadas no país contam como locais.

Em seguida, ele se referiu à aplicação da portabilidade numérica, o que implica que, se um usuário decidir mudar de companhia telefônica, ele poderá fazê-lo sem perder o número. Este processo dura apenas 24 horas e não tem custo. “Hoje são mais de 350 mil pessoas que mudam em um mês de empresa. Esta é uma política de promoção de direitos de usuário. “

Mais tarde, foi para a portabilidade total do número: “se você tem um número, você pode transformá-lo em um telefone fixo e, em seguida, um telefone celular. Pode ser usado em qualquer tipo de serviço sempre que você quiser. “

Perto do final de seu discurso, Huichalaf se referiu ao Sistema de Alerta de Emergência (SAE), que, de acordo com seu site oficial, “permitirá o envio de informações para telefones que possuam o selo de compatibilidade. Esta mensagem será emitida em caso de risco de tsunami, terremotos de maior intensidade, erupções vulcânicas e incêndios florestais que ameacem as casas. Tal alerta maciço, que serão enviados automaticamente via texto para uma área georreferenciada não serão afetadas pelo congestionamento das redes celulares, como outros canais de frequência usada para alcançar o telefone com segurança”.

Em algum momento, ele comentou, em várias situações, nem todos os telefones no Chile tinham a capacidade de receber esse alerta. O Estado então estabeleceu o regulamento de que todos os telefones vendidos naquele país devem incorporar a SAE de maneira obrigatória.

Eles apresentam nova versão do sistema operacional Nova

Nova versão da distribuição cubana NOVA

Com o lançamento da versão 6.0 do sistema operacional Nova desenvolvido pela Universidade das Ciências Informáticas (UCI), continuou hoje a XVII Feira Internacional Informática 2018, que culminará amanhã no Pabexpo feiras nesta capital.

O Nova foi projetado para atender às necessidades da migração de Cuba para uma plataforma de código aberto como parte do processo de informatização da empresa.

Nova processo de registo apresentação do produto 6. integra Nova e Nova Luz área de trabalho no mesmo sistema, que permite ao cliente escolher qual deles vai ser instalado de acordo com o desempenho de sua equipe.

A nova variante foi completamente renovado ambiente desktop, Office Suite, Picture Manager, File Browser, players de música e vídeo, navegador web e cliente de mensagens e correio, bem como acessórios e ferramentas para compartilhamento de arquivos.

Também introduziu o Portal do Governo Eletrônico da República de Cuba, que responde à necessidade de simplificar, melhorar, socializar e reduzir os custos dos processos e atividades do sistema público.

Durante o dia, o Stand do Grupo de Computação e Comunicações (GEIC) continuará com a apresentação de soluções e aplicações para avançar no processo de informatização da sociedade.

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Publicado originalmente 22, de março, 2018 no site Cubadebate Fidel y la universalización de la informática en Cuba

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Acesse o download NOVA 6.0

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