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Memórias de Sparkenbroke, uma coletânea das crônicas de Clóvis Steiger de Assis Moura

Lançado neste ano pela editora Unesp o livro Memórias de Sparkenbroke, uma coletânea das crônicas publicadas por Clóvis Moura, sob o pseudônimo de Sparkenbroke, no jornal A Folha de São Carlos, na coluna Fora do Tempo, entre 1972 e 1973. A obra foi organizada pelos professores da Unesp Teresa Malatian e Sonia Troitiño, com Cleber Santos Vieira, docente da Unifesp.

Clóvis Moura e a filha, Soraya, em 1963 site https://www.revistarevestres.com.br/reves/homenageado/clovis-moura-e-o-protagonismo-do-negro-no-brasil/

Intelectual marxista conhecido e consagrado por sua vasta obra e importante contribuição aos estudos do negro brasileiro, situando-se nas regiões de fronteira entre história, sociologia e política, Clóvis Moura construiu sua trajetória ao dar sentido político à rebelião escrava e à luta dos negros contra a escravidão e o racismo que perdura e estrutura a sociedade até os dias de hoje. Sempre ligado às polêmicas de seu tempo, acompanhou e apoiou a luta dos comunistas no Brasil, foi perseguido e preso. No entanto pouco se conhece sobre esse escritor polígrafo, cujos trabalhos abarcou diferentes gêneros textuais. Ao lado do pesquisador disciplinado, do intelectual livre e do homem político, convivia o poeta, o desenhista, o ficcionista, o teatrólogo, o boêmio, o escritor, o jornalista e, acima de tudo, o grande contador de histórias.

Seu acervo foi doado ao CEDEM e está disponível para pesquisa. No livro Memórias de Sparkenbroke há duas crônicas escritas por ele sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ambas escritas em 1973.

Na primeira, faz uma homenagem ao livro O direito de ser homem, lançado com financiamento da Unesco. O autor comenta citações contidas na obra, como uma de Gandhi: “Sempre me pareceu muito misterioso que um homem possa sentir-se honrado com a humilhação de seus semelhantes”.

Na segunda, Moura fala explicitamente da Declaração. “Não sei porque, hoje me deu vontade de reler a “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, proclamada pelas Nações Unidas, em 10 de Dezembro de 1948. Após a leitura achei que seria de bom alvitre transcrever alguns dos seus tópicos para os leitores desta crônica do atormentado Spark”.

Esta é uma ótima oportunidade para ler ou reler essas crônicas, transcritas abaixo.

foto retirada do site da Unesp http://editoraunesp.com.br/catalogo/9788539307692,memorias-de-sparkenbroke

“Os Direitos do Homem

1972  foi o “Ano Internacional do Livro”. Se, por várias razões, para os brasileiros, ele não se constituiu dos mais significativos no plano de grandes obras — com poucas exceções –, recebeu uma homenagem autêntica, desinteressada e corajosa. Foi a publicação do livro “O Direito de Ser Homem” — seleção de textos organizada sob a direção de Jeanne Hersch, com patrocínio da UNESCO.

As melhores páginas de tudo quanto já se escreveu sobre os Direitos do Homem, liberdade, ideais de justiça, forma de se acabar com as desigualdades está compendiado na obra. Desde os preceitos do Corão, aos dos sábios gregos, dos poetas e dos democratas de todas as nações e de todos os tempos aos seus líderes mais esclarecidos se encontram neste volume indispensável a qualquer homem que ainda quer pensar no nosso mundo tão conturbado e trágico.

Por exemplo lá está esta poesia irlandesa de Odin, cerca de 800-1.100 de nossa era:

“Um tição inflama e queima outro tição;

um fogo nasce doutro fogo.

O homem se aquece no homem pela palavra de sua boca,

evite-se aquele que não tem voz”.

Ou este exemplo de Gandhi: “Sempre me pareceu muito misterioso que um homem possa sentir-se honrado com a humilhação de seus semelhantes”.

Lá também encontramos este trecho de Mao-Tseu [sic] escritor chinês do século V antes de Cristo: “Se o mundo inteiro adotar o amor universal, um Estado não mais invadirá outro Estado, uma família não mais perturbará outra família, gatunos e bandidos não existirão mais, o príncipe e o súdito, o pai e o filho observarão seu dever de piedade e de benevolência. Tal estado de coisas constituirá a boa ordem do mundo”.

Do Corão lemos: “Os que são oprimidos têm o direito de combater, e Deus lhes pode conceder a vitória”.

Ainda encontramos de Roosevelt: “Sabemos que uma paz durável não pode ser comprada ao preço da liberdade de outrem”.

O livro divide-se nas seguintes partes: “O Homem”/ “O Poder”/ “Limites do Poder”/ “Liberdade civil”/ “Verdade e Liberdade”/ “Direitos Sociais”/ “A liberdade Concreta”/ “Educação, Ciência e Cultura”/ “Servidão e Violência”/ “O Direito Contra a Força”/ “Identidade Nacional e Independência”/ e “Fontes e Fins”.

São quase seiscentas páginas com trechos do que estadistas, filósofos, místicos, políticos, sociólogos, homens do povo e heróis escreveram sobre esses assuntos. É um compêndio para se ter em casa. E nos momentos em que, por qualquer razão, começamos a descrer da condição humana devemos abri-lo, em qualquer parte, em qualquer página, pois nela encontraremos uma frase, um pensamento que nos restituirão a esperança e a fé no Homem.

De parabéns Sebastião Hersen, da Editora Conquista que, com este lançamento dignificou o Ano Intelectual do Livro”.

Dez de janeiro de 1973

“Declaração Universal dos Direitos do Homem

Não sei porque, hoje me deu vontade de reler a “Declaração Universal dos Direitos do Homem”, proclamada pelas Nações Unidas, em 10 de Dezembro de 1948. Após a leitura achei que seria de bom alvitre transcrever alguns dos seus tópicos para os leitores desta crônica do atormentado Spark.

Vão, em seguida, alguns dos artigos do documento: Art. 1) — “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e dotados que são de razão e consciência, devem comportar-se fraternalmente uns com os outros”. Art. 2) — “1 – Toda pessoa tem todos os direitos e liberdades proclamados nesta Declaração, sem distinção alguma de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de qualquer outra índole, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição.

2 — Além disso, não se fará distinção alguma baseada na condição política, jurídica ou internacional do País ou território de cuia jurisdição dependa uma pessoa, quer se trate de país independente como de território sob administração fiduciária, não autônomo ou submetido a qualquer outra limitação de soberania”.

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Art. 5 — “Ninguém será submetido a torturas, penalidades ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes”.

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Artigo 11) — Toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma a sua inocência, enquanto não se provar a sua culpa, conforme a lei e em julgamento público, no qual se hajam assegurado todas as garantias necessárias à sua defesa”.

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Artigo 12) — “Ninguém será objeto de ingerências arbitrárias em sua vida privada, sua família, seu domicílio ou correspondência, nem de ataques à sua honra ou à sua reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais ingerências ou ataques”.

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Artigo 25) — “Toda pessoa tem direito a um nível de vida adequado que lhe assegure, assim como à sua família, a saúde e o bem-estar e, de modo especial, a alimentação, o vestuário, a habitação, a assistência médica e os serviços sociais necessários; tem ainda direito aos seguros em caso de desemprego, enfermidade, invalidez, viuvez, velhice e outros casos de perda dos seus meios de subsistência por circunstâncias independentes de sua vontade”.

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São trinta artigos. Todos eles levantando altos princípios de convivência humana. Se os povos que a proclamaram aplicassem o que está escrito… que maravilha seria o mundo…”

Catorze de março de 1973

[su_highlight]Originalmente publicado no site Clóvis Moura e os direitos humanos[/su_highlight]

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#BlackLivesMatter nas quebradas de SP.

Ei São Paulo, terra de arranha-céus, a garoa rasga a carne, é a torre de Babel”. (Racionais – Negro Drama)

O trecho de Negro Drama traduz bem a tarde fria e chuvosa de Sampa, na terça-feira, dia 08 de junho, quando Fábio e eu, representando nosso coletivo, Kilombagem, fomos buscar o jovem Kleaver Cruz, 28 anos, membro do Black Lives Matter , de Nova Iorque, para fazermos um rolê no centrão da capital mais rica do Brasil.

Quando Marisa Fefferman nos colocou na missão de sermos um dos grupos a recepcionar o militante, fiquei pensando onde levá-lo, ela sugeriu que seria muito bom ele conhecer nossa realidade, nossas quebradas. Assim pensei num roteiro que chamei de Roots, para lhe mostrar os pontos PRETOS no centro, pra que tirasse suas próprias conclusões se “existe amor ou não em SP”.

 Encontramos Kleaver no hotel e de cara foi muita afinidade e simpatia recíproca. Marisa nos avisou que o mano falava Espanhol com fluência e algumas coisas em Português, o que nos causou alivio e admiração. Perguntamos sobre sua disposição para caminhar ao que respondeu que estava muito bem. Então saímos do Largo do Arouche e fomos em direção à Praça Princesa Isabel, onde estão localizados os moradores da craco após a ação violenta da PM uma semana antes.

Entramos na craco e na curta caminhada, fomos trocando ideias sobre as similaridades da ação do Estado no Brasil e nos EUA, sobre o racismo institucional e a violência policial. Observando na prática a importância de movimentos que combatam o genocídio da população negra no mundo todo, fazendo com que todos possam abraçar a causa de que as “Vidas Negras Importam” (tradução para Black Lives Matter). Kleaver ficou perplexo com a condição de vida encontrada ali, e nos pergunta: “eles vêm aqui para morrer?”. Ao que respondemos que não é isso que as pessoas almejam. Nos contou que em Los Angeles, no distrito chamado Skid Row, a situação é muito similar, mas que nunca esteve lá, e em NY não há nada parecido. Estava visivelmente consternado e empático à nossa luta. Contamos sobre as ações da Craco Resiste, falamos sobre a especulação imobiliária, e o interesse dos empresários na região, e como nosso povo vai sendo expulso ou morto pra dar lugar à classe média branca, o que nos respondeu que nos EUA se passa o mesmo.

Enquanto passamos pela estação Júlio Prestes a caminho da estação da Luz, perguntei do que ele vivia, que tipo de trampo fazia, ele me olhou e disse que era uma ótima pergunta e contou um pouco sobre sua vida. Kleaver Cruz é do Bronx. Tem 28 anos. Seus avós são da República Dominicana. Fala um pouco de português e outros idiomas, mas tem fluência no Espanhol. Trabalha numa ONG financiada por empresas de brancos ricos, e tem consciência dessa contradição. Trabalha com jovens e mulheres. Dá cursos sobre gênero também. Nos contou ainda sobre seu trabalho junto a organizações que defendem os  descendentes de haitianos que vivem na República Dominicana.

Da Luz seguimos pro Largo do Paysandu, na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Local de encontro e atos históricos do Movimento Negro. Ao entrarmos na Igreja conversamos um pouco sobre religiosidade, nos contou que não é religioso. Depois comentamos sobre Trump, e nos disse que o bom de tudo isso é que o racismo ficou mais evidente, principalmente pros brancos progressistas. Kleaver votou na última eleição presidencial numa candidata negra dos anos 60, como forma de protesto aos candidatos que diz que não o representavam.

Comentamos sobre o Largo São Bento e o nascimento do Hip Hop, e dali seguimos pra Galeria Olido, onde  rolam as aulas de Samba Rock, aproveitando pra comentar sobre a ocupação (então recente) da secretaria de cultura por coletivos culturais da periferia.

Nas grandes galerias mostramos os frequentados salões Black no subsolo da Galeria do Rock, e as lojas com roupas e produtos de influência direta da cultura estadunidense. Ficou impressionado com essa influência, principalmente quando comentei que nossos cinemas exibem hegemonicamente filmes dos EUA, e que precisamos de leis pra termos os filmes nacionais em cartaz. Perguntei se de modo geral têm essa percepção de domínio cultural vivendo lá, nos disse que não, que em geral não estudam a história de outros países, que a escola ensina apenas a história oficial, que a maioria dos estadunidenses não fala outras línguas, e nem tem intenção de sair dos Estados Unidos pra conhecer outros países. Dali paramos pra comer o tradicional pastel com caldo de cana e contar do trabalho escravo nos canaviais.

Os variados temas foram se entrelaçando, Kleaver contou que já conheceu vários países, fiquei curiosa sobre seus 8 meses na China. Falou da China com ternura, reconhecendo os problemas, mas elogiando avanços, como na educação.  Conhece um pouco do funk carioca.

Kleaver discorda do Movimento Negro que acredita que é possível uma ascensão social no capitalismo, não acredita que há lugar para nós no capitalismo. Observa que em muitos países muitos negros não sabem que são negros então quando chegam nos EUA lá se descobrem negros. Tem um projeto de divulgar as alegrias negras como forma de resistência, pq pensa que mesmo com dificuldades temos que viver essa vida plenamente pois só temos uma.

Perguntei ainda sobre as séries do momento e ele disse que não gostou muito de Dear White People, por ser apenas um recorte, contou que a maioria dos negros não consegue ir pra universidade, mas gostou de alguns personagens e discorda da forma como a protagonista foi retratada. Gostou muito de The Get Down por retratar seu bairro.

Finalizamos nossa caminhada na Baixada do Glicério, região onde eu leciono há 11 anos, e que tem um dos menores IDHs da região central, bairro também conhecido por ter receber muitos imigrantes e refugiados. Visitamos a Igreja da Paz, na Rua do Glicério, conhecida por seu trabalho social juntos aos imigrantes estrangeiros. Contei que na escola recebemos estudantes do Haiti, da Guiné Bissau, do Congo, de Angola, da Namíbia, da Síria, da China, Bolívia, Colômbia, entre outros.

Na despedida, perguntei se estava cansado, ele disse “um pouco”, mas sorriu dizendo que gostou muito, que vê muitas semelhanças entre as condições de vida dos negros no Brasil e em seu país, e que por isso temos que unir forças porque vidas negras importam!