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Fat Soldiers grupo de rap angolano, fala sobre seu novo single/videoclipe intitulado “Resili√™ncia”.

A cena do hip hop/rap angolano est√° marcada por um  grupo intitulado ‚ÄúFat Soldiers‚ÄĚ. ‚ÄúCria‚ÄĚ do bairro Boa Vista, um sub√ļrbio localizado no distrito urbano da Ingombota, Luanda. O grupo √© formado por Soldier V, Timomy e Daniel A.K.A.M.P,  eles come√ßaram com freestyle fruto da influ√™ncia do programa de rap big show cidade, e marcam oficialmente a sua estreia no panorama do rap angolano em 2010 com o lan√ßamento da primeira mixtape, ‚ÄúMentes da Rua‚ÄĚ.

cena da musica “eu me recuso” do Fat Soldiers

As M√ļsicas ‚ÄúEu me recuso‚ÄĚ, ‚ÄúVerdades‚ÄĚ e ‚ÄúBer√ßo de lata‚ÄĚ, do disco ‚ÄúSobreviventes vol. 1(2016)‚ÄĚ, senta o dedo na ferida,  pauta um discurso contra a pobreza e a desigualdade, denunciando as realidades suburbanas, a concentra√ß√£o de riqueza em um dos pa√≠ses com maior crescimento econ√īmico do continente africano, (Souza e Souza 2016).

Neste trabalho participaram Edzila, Nelo Carvalho e Kid Mc que recebeu o prêmio de melhor Mixtape do ano pelo prestigiado concurso Angola Hip Hop Awards.

Eles são conhecidos não só pela letras, Skills e performance mas também pela arte que trazem nos videoclipes fruto de um grande trabalho de equipe.

O √ļltimo videoclipe  lan√ßado(22/04/2019) pelo grupo chama-se ‚ÄúResili√™ncia‚ÄĚ, e como o Vanderson(Sodier V) √© parceiro, acompanho o ‚Äúmesmo ‚Äúmo cara‚ÄĚ nas redes sociais, por isso falou um pouco mais sobre esse √ļltimo ‚Äútrampo‚ÄĚ.  

Vanderson(Soldier V) explica que: o termo resili√™ncia no contexto do single que agora lan√ßamos, traduz o estado de esp√≠rito e a situa√ß√£o social que vivemos nos √ļltimos anos.

flyer da musica resiliencia do Fat Soldiers

Num ambiente de incertezas e escassez dos bens essenciais para sobreviv√™ncia digna do ser humano, urge resistir as atrocidades que nos afligem todos os dias, portanto, afigura-se imperioso continuar a lutar pelo que acreditamos e se “autoregenerar” mesmo quando parece imposs√≠vel alcan√ßar a vit√≥ria.

Outrossim, Resili√™ncia √© tamb√©m tomar a decis√£o certa, a decis√£o de continuar na contra-m√£o  de uma sociedade que subverteu a l√≥gica da moral sob orienta√ß√£o de pol√≠ticos cuja prioridade √© a manuten√ß√£o do poder.

O single vem acompanhado do v√≠deo clipe, e neste sentido, a interpreta√ß√£o do v√≠deo requer uma an√°lise minuciosa das cenas apresentadas para chegar a inten√ß√£o do v√≠deo. Criamos o v√≠deo com cenas que t√™m por tr√°s uma revela√ß√£o, e para chegar a tais revela√ß√Ķes requer-se um esfor√ßo interpretativo.

confira aqui o novo trampo dos manos!!!!


Fat Soldiers. Ate a Vitória Manos
Podes crer, nos teus ouvidos
√Č sempre n√≥s a fazer e Deus a aben√ßoar irm√£o
Até a vitória Niggas

Se ainda estamos em pé
A continuar a fazer
Mano não é só por nós

Fat Soldiers redes sociais

https://www.facebook.com/FatSoldiers/

Referência:SOUZA, Luana Soares de; SOUZA, Martinho Joaquim João. Entrevista com o grupo angolano “Fat Soldiers. Revista Crioula, São Paulo, v. 2, n. 18, p.252-265, 26 dez. 2016. Semestral. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/crioula/article/view/119346/121945>. Acesso em: 21 mar. 2019.

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Mem√≥rias de Sparkenbroke, uma colet√Ęnea das cr√īnicas de Cl√≥vis Steiger de Assis Moura

Lan√ßado¬†neste ano pela editora Unesp¬†o livro¬†Mem√≥rias de Sparkenbroke, uma¬†colet√Ęnea das cr√īnicas publicadas por Cl√≥vis Moura, sob o pseud√īnimo de Sparkenbroke, no jornal¬†A Folha de S√£o Carlos, na coluna Fora do Tempo, entre 1972 e 1973. A obra foi organizada pelos professores da Unesp Teresa Malatian e Sonia Troiti√Īo, com Cleber Santos Vieira, docente da Unifesp.

Clóvis Moura e a filha, Soraya, em 1963 site https://www.revistarevestres.com.br/reves/homenageado/clovis-moura-e-o-protagonismo-do-negro-no-brasil/

Intelectual marxista conhecido e consagrado por sua vasta obra e importante contribui√ß√£o aos estudos do negro brasileiro, situando-se nas regi√Ķes de fronteira entre hist√≥ria, sociologia e pol√≠tica, Cl√≥vis Moura construiu sua trajet√≥ria ao dar sentido pol√≠tico √† rebeli√£o escrava e √† luta dos negros contra a escravid√£o e o racismo que perdura e estrutura a sociedade at√© os dias de hoje. Sempre ligado √†s pol√™micas de seu tempo, acompanhou e apoiou a luta dos comunistas no Brasil, foi perseguido e preso. No entanto pouco se conhece sobre esse escritor pol√≠grafo, cujos trabalhos abarcou diferentes g√™neros textuais. Ao lado do pesquisador disciplinado, do intelectual livre e do homem pol√≠tico, convivia o poeta, o desenhista, o ficcionista, o teatr√≥logo, o bo√™mio, o escritor, o jornalista e, acima de tudo, o grande contador de hist√≥rias.

Seu acervo foi doado ao CEDEM e est√° dispon√≠vel para pesquisa. No livro¬†Mem√≥rias de Sparkenbroke¬†h√° duas cr√īnicas escritas por ele sobre a Declara√ß√£o Universal dos Direitos Humanos. Ambas escritas em 1973.

Na primeira, faz uma homenagem ao livro¬†O direito de ser homem, lan√ßado com financiamento da Unesco. O autor comenta cita√ß√Ķes contidas na obra, como uma de Gandhi: ‚ÄúSempre me pareceu muito misterioso que um homem possa sentir-se honrado com a humilha√ß√£o de seus semelhantes‚ÄĚ.

Na segunda, Moura fala explicitamente da Declara√ß√£o. ‚ÄúN√£o sei porque, hoje me deu vontade de reler a ‚ÄúDeclara√ß√£o Universal dos Direitos do Homem‚ÄĚ, proclamada pelas Na√ß√Ķes Unidas, em 10 de Dezembro de 1948. Ap√≥s a leitura achei que seria de bom alvitre transcrever alguns dos seus t√≥picos para os leitores desta cr√īnica do atormentado Spark‚ÄĚ.

Esta √© uma √≥tima oportunidade para ler ou reler essas cr√īnicas, transcritas abaixo.

foto retirada do site da Unesp http://editoraunesp.com.br/catalogo/9788539307692,memorias-de-sparkenbroke

“Os Direitos do Homem

1972¬† foi o ‚ÄúAno Internacional do Livro‚ÄĚ. Se, por v√°rias raz√Ķes, para os brasileiros, ele n√£o se constituiu dos mais significativos no plano de grandes obras ‚ÄĒ com poucas exce√ß√Ķes ‚Äď, recebeu uma homenagem aut√™ntica, desinteressada e corajosa. Foi a publica√ß√£o do livro ‚ÄúO Direito de Ser Homem‚ÄĚ ‚ÄĒ sele√ß√£o de textos organizada sob a dire√ß√£o de Jeanne Hersch, com patroc√≠nio da UNESCO.

As melhores p√°ginas de tudo quanto j√° se escreveu sobre os Direitos do Homem, liberdade, ideais de justi√ßa, forma de se acabar com as desigualdades est√° compendiado na obra. Desde os preceitos do Cor√£o, aos dos s√°bios gregos, dos poetas e dos democratas de todas as na√ß√Ķes e de todos os tempos aos seus l√≠deres mais esclarecidos se encontram neste volume indispens√°vel a qualquer homem que ainda quer pensar no nosso mundo t√£o conturbado e tr√°gico.

Por exemplo l√° est√° esta poesia irlandesa de Odin, cerca de 800-1.100 de nossa era:

“Um tição inflama e queima outro tição;

um fogo nasce doutro fogo.

O homem se aquece no homem pela palavra de sua boca,

evite-se aquele que n√£o tem voz‚ÄĚ.

Ou este exemplo de Gandhi: ‚ÄúSempre me pareceu muito misterioso que um homem possa sentir-se honrado com a humilha√ß√£o de seus semelhantes‚ÄĚ.

L√° tamb√©m encontramos este trecho de Mao-Tseu [sic] escritor chin√™s do s√©culo V antes de Cristo: ‚ÄúSe o mundo inteiro adotar o amor universal, um Estado n√£o mais invadir√° outro Estado, uma fam√≠lia n√£o mais perturbar√° outra fam√≠lia, gatunos e bandidos n√£o existir√£o mais, o pr√≠ncipe e o s√ļdito, o pai e o filho observar√£o seu dever de piedade e de benevol√™ncia. Tal estado de coisas constituir√° a boa ordem do mundo‚ÄĚ.

Do Cor√£o lemos: ‚ÄúOs que s√£o oprimidos t√™m o direito de combater, e Deus lhes pode conceder a vit√≥ria‚ÄĚ.

Ainda encontramos de Roosevelt: ‚ÄúSabemos que uma paz dur√°vel n√£o pode ser comprada ao pre√ßo da liberdade de outrem‚ÄĚ.

O livro divide-se nas seguintes partes: ‚ÄúO Homem‚ÄĚ/ ‚ÄúO Poder‚ÄĚ/ ‚ÄúLimites do Poder‚ÄĚ/ ‚ÄúLiberdade civil‚ÄĚ/ ‚ÄúVerdade e Liberdade‚ÄĚ/ ‚ÄúDireitos Sociais‚ÄĚ/ ‚ÄúA liberdade Concreta‚ÄĚ/ ‚ÄúEduca√ß√£o, Ci√™ncia e Cultura‚ÄĚ/ ‚ÄúServid√£o e Viol√™ncia‚ÄĚ/ ‚ÄúO Direito Contra a For√ßa‚ÄĚ/ ‚ÄúIdentidade Nacional e Independ√™ncia‚ÄĚ/ e ‚ÄúFontes e Fins‚ÄĚ.

S√£o quase seiscentas p√°ginas com trechos do que estadistas, fil√≥sofos, m√≠sticos, pol√≠ticos, soci√≥logos, homens do povo e her√≥is escreveram sobre esses assuntos. √Č um comp√™ndio para se ter em casa. E nos momentos em que, por qualquer raz√£o, come√ßamos a descrer da condi√ß√£o humana devemos abri-lo, em qualquer parte, em qualquer p√°gina, pois nela encontraremos uma frase, um pensamento que nos restituir√£o a esperan√ßa e a f√© no Homem.

De parab√©ns Sebasti√£o Hersen, da Editora Conquista que, com este lan√ßamento dignificou o Ano Intelectual do Livro”.

Dez de janeiro de 1973

“Declara√ß√£o Universal dos Direitos do Homem

N√£o sei porque, hoje me deu vontade de reler a ‚ÄúDeclara√ß√£o Universal dos Direitos do Homem‚ÄĚ, proclamada pelas Na√ß√Ķes Unidas, em 10 de Dezembro de 1948. Ap√≥s a leitura achei que seria de bom alvitre transcrever alguns dos seus t√≥picos para os leitores desta cr√īnica do atormentado Spark.

V√£o, em seguida, alguns dos artigos do documento: Art. 1) ‚ÄĒ ‚ÄúTodos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e dotados que s√£o de raz√£o e consci√™ncia, devem comportar-se fraternalmente uns com os outros‚ÄĚ. Art. 2) ‚ÄĒ ‚Äú1 ‚Äď Toda pessoa tem todos os direitos e liberdades proclamados nesta Declara√ß√£o, sem distin√ß√£o alguma de ra√ßa, cor, sexo, idioma, religi√£o, opini√£o pol√≠tica ou de qualquer outra √≠ndole, origem nacional ou social, posi√ß√£o econ√īmica, nascimento ou qualquer outra condi√ß√£o.

2 ‚ÄĒ Al√©m disso, n√£o se far√° distin√ß√£o alguma baseada na condi√ß√£o pol√≠tica, jur√≠dica ou internacional do Pa√≠s ou territ√≥rio de cuia jurisdi√ß√£o dependa uma pessoa, quer se trate de pa√≠s independente como de territ√≥rio sob administra√ß√£o fiduci√°ria, n√£o aut√īnomo ou submetido a qualquer outra limita√ß√£o de soberania‚ÄĚ.

X.X.X

Art. 5 ‚ÄĒ ‚ÄúNingu√©m ser√° submetido a torturas, penalidades ou tratamentos cru√©is, desumanos ou degradantes‚ÄĚ.

X.X.X

Artigo 11) ‚ÄĒ Toda pessoa acusada de delito tem direito a que se presuma a sua inoc√™ncia, enquanto n√£o se provar a sua culpa, conforme a lei e em julgamento p√ļblico, no qual se hajam assegurado todas as garantias necess√°rias √† sua defesa‚ÄĚ.

X.X.X

Artigo 12) ‚ÄĒ ‚ÄúNingu√©m ser√° objeto de inger√™ncias arbitr√°rias em sua vida privada, sua fam√≠lia, seu domic√≠lio ou correspond√™ncia, nem de ataques √† sua honra ou √† sua reputa√ß√£o. Toda pessoa tem direito √† prote√ß√£o da lei contra tais inger√™ncias ou ataques‚ÄĚ.

X.X.X

Artigo 25) ‚ÄĒ ‚ÄúToda pessoa tem direito a um n√≠vel de vida adequado que lhe assegure, assim como √† sua fam√≠lia, a sa√ļde e o bem-estar e, de modo especial, a alimenta√ß√£o, o vestu√°rio, a habita√ß√£o, a assist√™ncia m√©dica e os servi√ßos sociais necess√°rios; tem ainda direito aos seguros em caso de desemprego, enfermidade, invalidez, viuvez, velhice e outros casos de perda dos seus meios de subsist√™ncia por circunst√Ęncias independentes de sua vontade‚ÄĚ.

X.X.X

S√£o trinta artigos. Todos eles levantando altos princ√≠pios de conviv√™ncia humana. Se os povos que a proclamaram aplicassem o que est√° escrito… que maravilha seria o mundo…”

Catorze de março de 1973

[su_highlight]Originalmente publicado no site Clóvis Moura e os direitos humanos[/su_highlight]

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Djidiu- a herança do ouvido: poemas para sacudir mentes e iluminar caminhos

Djidiu – a heran√ßa do ouvido¬†√© uma obra que nos chama, de imediato, a aten√ß√£o pelo instigante t√≠tulo. Djidiu, como explicado em nota no livro, ‚Äú√© um contador de hist√≥rias, um recipiente e um difusor da mem√≥ria coletiva. Int√©rpretes e clarividentes, os Djidius, s√£o porta-vozes dos sem voz, aut√™nticas bibliotecas ambulantes‚ÄĚ. Guardadores de mem√≥rias ancestrais, os Djidius s√£o tamb√©m conhecidos como Djelis ou¬†Griots.

Djidiu √© uma colet√Ęnea de poemas na qual os autores dos textos versejam sobre a experi√™ncia negra em Portugal. A obra √© resultado de uma iniciativa da Afrolis que, entre mar√ßo de 2016 a mar√ßo de 2017, mobilizou pessoas negras a participarem ‚Äúativamente na produ√ß√£o e divulga√ß√£o de textos da sua pr√≥pria autoria ou de autores que considerassem relevantes‚ÄĚ. Djidiu √©, portanto, um livro atravessado por ‚Äúrecorda√ß√Ķes e movimentos‚ÄĚ de poetas e escritores(as) negros(as) que ecoam as suas vozes num territ√≥rio portugu√™s, marcado por profundas desigualdades raciais, onde n√£o se pode mais fugir de um debate s√©rio sobre o racismo, consequ√™ncia das a√ß√Ķes dos movimentos negros cada vez mais atuantes no pa√≠s.

A colet√Ęnea re√ļne 56 poemas, produzidos pelos (as) poetas e escritores (as): Apolo De Carvalho, Carla Fernandes, Carla Lima, Carlos Gra√ßa, Cristina Carlos, Danilson Pires, D√°rio Sambo, luZGomes e T√© Abipiquerst T√©. De origens distintas, esses(as) autores(as) compartilham a experi√™ncia de ser um corpo negro diasp√≥rico, caminhando e descaminhando em solo lusitano. Nos versos-protestos de Djidiu, a viv√™ncia negra √© explorada atrav√©s de diversos temas: fam√≠lia, amor, tradi√ß√£o, representatividade, apropria√ß√£o cultural, entre tantos outros. Dentre esses temas, destaca-se a presen√ßa insistente, qui√ß√° onipresen√ßa, da viol√™ncia racial que invade ferozmente a vida das pessoas¬†negras.

 

A iniciativa de uma obra como Djidiu faz-nos lembrar algumas a√ß√Ķes semelhantes no contexto brasileiro. Podemos destacar, por exemplo, a colet√Ęnea¬†Cadernos Negros, publica√ß√£o fundamental para a divulga√ß√£o da literatura negra produzida no Brasil. O primeiro volume dos¬†Cadernos Negrossurgiu no ano de 1978, contemplando a produ√ß√£o de oito poetas. A partir de 1980, autores que organizavam a antologia criaram o grupo Quilombhoje-Literatura que √©, desde ent√£o, respons√°vel pela edi√ß√£o e publica√ß√£o dos Cadernos. √Č importante ressaltar que, desde a sua primeira edi√ß√£o, em 1978, os¬†Cadernos Negros¬†s√£o publicados ininterruptamente, revezando entre colet√Ęneas de poemas e contos. Em dezembro de 2017 foi publicado o quadrag√©simo volume dos¬†Cadernos.

 

De certa forma, Djidiu pode ser considerado os Cadernos Negros de Portugal. Em ambas as colet√Ęneas, a escrita surge como uma ferramenta de den√ļncia. Uma maneira das pessoas negras, marcadas pela viol√™ncia do racismo, tentarem amenizar a dor de uma ferida de dif√≠cil cicatriza√ß√£o. Pois, como bem afirmou Cuti, um dos idealizadores dos Cadernos, ‚Äúa vis√£o luminosa dos poetas √© fundamental, pois ao longo do caminho sabem produzir com palavras o mais nutritivo alimento para o¬†esp√≠rito‚ÄĚ.

Um n√ļmero relevante de escritoras e escritores afro-brasileiros, que alcan√ßaram certo reconhecimento a n√≠vel nacional e internacional, publicaram os seus primeiros textos nos Cadernos Negros. √Č o caso de Concei√ß√£o Evaristo. Movida por seu compromisso √©tico e pol√≠tico de escrever sobre a experi√™ncia de indiv√≠duos negros, Concei√ß√£o Evaristo criou o conceito de ‚Äúescreviv√™ncia‚ÄĚ. Compreendemos ‚Äúescreviv√™ncia‚ÄĚ como essa necessidade de escritoras e escritores afrodescendentes escreverem sobre as suas viv√™ncias e das pessoas de seu grupo, talvez, escrever para viver.¬† Essas ‚Äúescreviv√™ncias‚ÄĚ inscritas por Concei√ß√£o Evaristo em terras brasilis se manifestam como ‚Äúheran√ßas de ouvido‚ÄĚ em terras¬†portuguesas.

O lamento de vozes que foram silenciadas durante s√©culos ecoa nos versos politicamente comprometidos dessas ‚Äúheran√ßas escrevividas‚ÄĚ de Djidiu. Essa obra pioneira em Portugal √© uma tentativa de registrar mem√≥rias dentro de um tempo e espa√ßo. Mem√≥rias que ecoam em versos e reversos, mesmo quando tudo parece sil√™ncio. Djidiu surge como um gesto de insubordina√ß√£o e de resili√™ncia de indiv√≠duos que n√£o aceitam mais o sil√™ncio imposto, e, num gesto de coragem, escancaram a sua dor, buscando estabelecer um di√°logo franco e urgente. Nesse di√°logo, verdades inconvenientes s√£o expostas, pois esses corpos que carregam a heran√ßa ancestral de viol√™ncias genocidas e etnocidas, n√£o mais se submetem a fazer a indigesta dieta de engolir sapos, arrancando a m√°scara de¬†Anast√°cia.

Djidiu ‚Äď a heran√ßa do ouvido¬†√© uma obra que busca fazer alguns escurecimentos necess√°rios, enegrecendo as p√°ginas an√™micas de uma hist√≥ria que j√° n√£o pode ser √ļnica.¬† Ao trazer ‚Äúdoze formas mais uma de se falar da experi√™ncia negra em Portugal‚ÄĚ, Djidiu deixa a mensagem de que pensar sobre as suas experi√™ncias n√£o deve ser um problema exclusivo da negritude e de outros grupos historicamente oprimidos. Djidiu convida a branquitude a pensar sobre os seus privil√©gios, em sua sociedade racista, refletindo sobre a sua disposi√ß√£o (se √© que est√° mesmo disposta) em contribuir no processo de desmontagem desse sistema de¬†opress√£o.

O combate ao racismo n√£o √©, portanto, um problema apenas das pessoas negras, mas um problema que a sociedade portuguesa, assim como a brasileira, precisa enfrentar e criar estrat√©gias eficientes para tentar resolver. Ouvir e, de fato, escutar as viv√™ncias compartilhadas por quem sofre o racismo na pele, sem tentar minimizar a dor provocada por essa ferida, talvez seja um primeiro passo nesse processo de constru√ß√£o de uma sociedade equitativa. Utopia? Alguns podem dizer. Utopia urgente e necess√°ria, dizem as vozes ressonantes de Djidiu, certas de que a poesia ‚Äúbem situada no tempo, pode ferir ou curar, derrubar ou levantar, matar ou salvar; pode sacudir as mentes e incendiar as¬†multid√Ķes‚ÄĚ.

por Francy Silva

Publicado Originalmente no site Buala Djidiu- a herança do ouvido: poemas para sacudir mentes e iluminar caminhos

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#BlackLivesMatter nas quebradas de SP.

Ei S√£o Paulo, terra de arranha-c√©us, a garoa rasga a carne, √© a torre de Babel”. (Racionais – Negro Drama)

O trecho de Negro Drama traduz bem a tarde fria e chuvosa de Sampa, na terça-feira, dia 08 de junho, quando Fábio e eu, representando nosso coletivo, Kilombagem, fomos buscar o jovem Kleaver Cruz, 28 anos, membro do Black Lives Matter , de Nova Iorque, para fazermos um rolê no centrão da capital mais rica do Brasil.

Quando Marisa Fefferman nos colocou na miss√£o de sermos um dos grupos a recepcionar o militante, fiquei pensando onde lev√°-lo, ela sugeriu que seria muito bom ele conhecer nossa realidade, nossas quebradas. Assim pensei num roteiro que chamei de Roots, para lhe mostrar os pontos PRETOS no centro, pra que tirasse suas pr√≥prias conclus√Ķes se “existe amor ou n√£o em SP”.

 Encontramos Kleaver no hotel e de cara foi muita afinidade e simpatia recíproca. Marisa nos avisou que o mano falava Espanhol com fluência e algumas coisas em Português, o que nos causou alivio e admiração. Perguntamos sobre sua disposição para caminhar ao que respondeu que estava muito bem. Então saímos do Largo do Arouche e fomos em direção à Praça Princesa Isabel, onde estão localizados os moradores da craco após a ação violenta da PM uma semana antes.

Entramos na craco e na curta caminhada, fomos trocando ideias sobre as similaridades da a√ß√£o do Estado no Brasil e nos EUA, sobre o racismo institucional e a viol√™ncia policial. Observando na pr√°tica a import√Ęncia de movimentos que combatam o genoc√≠dio da popula√ß√£o negra no mundo todo, fazendo com que todos possam abra√ßar a causa de que as “Vidas Negras Importam” (tradu√ß√£o para Black Lives Matter). Kleaver ficou perplexo com a condi√ß√£o de vida encontrada ali, e nos pergunta: “eles v√™m aqui para morrer?”. Ao que respondemos que n√£o √© isso que as pessoas almejam. Nos contou que em Los Angeles, no distrito chamado Skid Row, a situa√ß√£o √© muito similar, mas que nunca esteve l√°, e em NY n√£o h√° nada parecido. Estava visivelmente consternado e emp√°tico √† nossa luta. Contamos sobre as a√ß√Ķes da Craco Resiste, falamos sobre a especula√ß√£o imobili√°ria, e o interesse dos empres√°rios na regi√£o, e como nosso povo vai sendo expulso ou morto pra dar lugar √† classe m√©dia branca, o que nos respondeu que nos EUA se passa o mesmo.

Enquanto passamos pela esta√ß√£o J√ļlio Prestes a caminho da esta√ß√£o da Luz, perguntei do que ele vivia, que tipo de trampo fazia, ele me olhou e disse que era uma √≥tima pergunta e contou um pouco sobre sua vida. Kleaver Cruz √© do Bronx. Tem 28 anos. Seus av√≥s s√£o da Rep√ļblica Dominicana. Fala um pouco de portugu√™s e outros idiomas, mas tem flu√™ncia no Espanhol. Trabalha numa ONG financiada por empresas de brancos ricos, e tem consci√™ncia dessa contradi√ß√£o. Trabalha com jovens e mulheres. D√° cursos sobre g√™nero tamb√©m. Nos contou ainda sobre seu trabalho junto a organiza√ß√Ķes que defendem os¬† descendentes de haitianos que vivem na Rep√ļblica Dominicana.

Da Luz seguimos pro Largo do Paysandu, na Igreja Nossa Senhora do Ros√°rio dos Homens Pretos. Local de encontro e atos hist√≥ricos do Movimento Negro. Ao entrarmos na Igreja conversamos um pouco sobre religiosidade, nos contou que n√£o √© religioso. Depois comentamos sobre Trump, e nos disse que o bom de tudo isso √© que o racismo ficou mais evidente, principalmente pros brancos progressistas. Kleaver votou na √ļltima elei√ß√£o presidencial numa candidata negra dos anos 60, como forma de protesto aos candidatos que diz que n√£o o representavam.

Comentamos sobre o Largo São Bento e o nascimento do Hip Hop, e dali seguimos pra Galeria Olido, onde  rolam as aulas de Samba Rock, aproveitando pra comentar sobre a ocupação (então recente) da secretaria de cultura por coletivos culturais da periferia.

Nas grandes galerias mostramos os frequentados sal√Ķes Black no subsolo da Galeria do Rock, e as lojas com roupas e produtos de influ√™ncia direta da cultura estadunidense. Ficou impressionado com essa influ√™ncia, principalmente quando comentei que nossos cinemas exibem hegemonicamente filmes dos EUA, e que precisamos de leis pra termos os filmes nacionais em cartaz. Perguntei se de modo geral t√™m essa percep√ß√£o de dom√≠nio cultural vivendo l√°, nos disse que n√£o, que em geral n√£o estudam a hist√≥ria de outros pa√≠ses, que a escola ensina apenas a hist√≥ria oficial, que a maioria dos estadunidenses n√£o fala outras l√≠nguas, e nem tem inten√ß√£o de sair dos Estados Unidos pra conhecer outros pa√≠ses. Dali paramos pra comer o tradicional pastel com caldo de cana e contar do trabalho escravo nos canaviais.

Os variados temas foram se entrelaçando, Kleaver contou que já conheceu vários países, fiquei curiosa sobre seus 8 meses na China. Falou da China com ternura, reconhecendo os problemas, mas elogiando avanços, como na educação.  Conhece um pouco do funk carioca.

Kleaver discorda do Movimento Negro que acredita que é possível uma ascensão social no capitalismo, não acredita que há lugar para nós no capitalismo. Observa que em muitos países muitos negros não sabem que são negros então quando chegam nos EUA lá se descobrem negros. Tem um projeto de divulgar as alegrias negras como forma de resistência, pq pensa que mesmo com dificuldades temos que viver essa vida plenamente pois só temos uma.

Perguntei ainda sobre as séries do momento e ele disse que não gostou muito de Dear White People, por ser apenas um recorte, contou que a maioria dos negros não consegue ir pra universidade, mas gostou de alguns personagens e discorda da forma como a protagonista foi retratada. Gostou muito de The Get Down por retratar seu bairro.

Finalizamos nossa caminhada na Baixada do Glic√©rio, regi√£o onde eu leciono h√° 11 anos, e que tem um dos menores IDHs da regi√£o central, bairro tamb√©m conhecido por ter receber muitos imigrantes e refugiados. Visitamos a Igreja da Paz, na Rua do Glic√©rio, conhecida por seu trabalho social juntos aos imigrantes estrangeiros. Contei que na escola recebemos estudantes do Haiti, da Guin√© Bissau, do Congo, de Angola, da Nam√≠bia, da S√≠ria, da China, Bol√≠via, Col√īmbia, entre outros.

Na despedida, perguntei se estava cansado, ele disse “um pouco”, mas sorriu dizendo que gostou muito, que v√™ muitas semelhan√ßas entre as condi√ß√Ķes de vida dos negros no Brasil e em seu pa√≠s, e que por isso temos que unir for√ßas porque vidas negras importam!

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DESCULPA PERGUNTAR

Allan da Rosa

J√° sentiu desespero, mano?

Aquele do mergulhado em √°guas claras
Quando veio o redemoinho?
Aquele salvo pelo braço de quem te avisou do buraco,
Unhas seguras na saliência da rocha
Agradecido de frio e de medo
Pequenez e grandeza no fiapo do seu nome…

Já sentiu humilhação, rei?
A que trouxe na cangaia as caixas de fruta
que num podia mexer nem em uma baga
A do chegado na feira e escorraçado
Nos berros, cuspido pra fora
depois do almoço vazio
Quando perguntou se ia receber sua paga?

Já foi cabeçalho da noticia da chacota, camará?
Ao rasgarem seu vestido
com a bença e os aplausos da covardia?

Se encharcou na chuva √°cida da vergonha?
Sintonizou a r√°dio do desprezo
Chiadinha, o dia inteiro da voz de teu pai?

J√° sentiu paix√£o, Ganga?
Das de pintar a chuva?
De errar cada flechada de palha
Usando arco de papel molhado?
E ela passou no vento…
Mesmo vento que ardia no pus
Toda tardezinha?

J√° perdeu batalha, mestre?
Depois que bebeu a vit√≥ria…
No c√°lice da arrog√Ęncia a sua golada.
E com o nariz entupido no arreio
Nao conseguia traduzir, farejar
o que fosse futuro?

J√° apertou a m√£o da hipocrisia, Don?
Suja de perfume…
J√° ganhou na bochecha
O l√°bio farofado de quem te jura de morte
sussurrando na casa vizinha?
De quem envenena a sobremesa
por cima do muro,
Dá gamela em mal querença
de doce pro teu filho
e declara a temporada de estupro
a quem coloca no dedo e no pescoço
o anel branco de simpatia?

J√° cozinhou na panela da saudade?
Costurou o calend√°rio,
P√īs no forno a massa lacrimejada
e comeu o p√£o
o miolo da decepção
quando a andorinha voltou
mascarada de pav√£o?


 

 

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13 DE MAIO

Por Akinks Kinte

A noite iluminada, a lua prateada,

Acompanhava os passos firmes da caminhada.

Adentro a mata batuques, o peito ardido em chamas,

O ódio que inflama nos chama cidade adentro.

Nos olhos dos homens pretos calor e brio,

No peito das crianças um frio,

O coração feito rio, derramava lagrimas feito Nilo.

A m√£e com os olhos carentes de asilos,

Secos os doces e quentes mamilos.

O pulso doido no pescoço tranca,

As entranhas, feridas… O pele branca faz,

Num √≥dio sem fugaz…

A mucama que amamento h√° tempos atr√°s.

Sorria ao pensar nos urubus, bicando os olhos azuis.

A ginga os dentes serrados a volta pro lar…

O c√Ęntico era toubob f√°, toubob f√°, toubob f√°.

Os tambores findam escravatura,

Encharcando os feitores de susto

Os malungos por de traz dos arbustos

Feito fantasmas da noite

Famintos Findam açoite

Pretos retintos, reluzentes como o luar.

Serenos como o mar,

Abandonaste, deixaste mofa na corrente.

Quem colheu todo algod√£o de troco

A dor fria do tronco quente

viu flores despetaladas o cl√£

tem na mente o af√£

De incendiar a cidade dos c√£es

Antes do por da manh√£

E deixa para os abutres, as carnes dos ilustres

A fazenda tomada, sinh√° horrorizada,

embaraço

caço

chicote que nas costas dos pretos fez morada

ecoa pelos poros, revolta

choros e pele que soa

alforria, quem leiloa?

Em praça publica

ta em suplica

morte dos senhores, liberdade nossa asa

os corpos marcados a ferro em brasa

entoam unika

uruhu

amandla

lábios carnudos suada a canção

13 de maio um dia

nois decretaremos abolição!

 


 

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