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Apelo internacional √† a√ß√£o: 2¬ļ dia de a√ß√£o anual e solidariedade com aqueles que lutam para acabar com a escravid√£o nas pris√Ķes na Am√©rikkka e em todo o mundo em 19 de junho de 2019

Sauda√ß√Ķes Revolucion√°rias, Irm√£s e Irm√£os!

Uau, como o tempo voa. Quatro anos atr√°s, eu estava na Unidade Pack em Navasota, Texas, quando descobri que a unidade prisional tinha altos n√≠veis de ars√™nico no abastecimento de √°gua! Os opressores da Comiss√£o de Qualidade Ambiental do Texas me chamaram de mentiroso. Os porcos fascistas que operam o Departamento de Injusti√ßa Criminal do Texas retaliaram. Se n√£o fosse pela ajuda m√ļtua e solidariedade de Panagioti Tsolkas e alguns outros dedicados adeptos do mundo livre, a √°gua t√≥xica teria sido ignorada.

Irm√£s e irm√£os, pessoas de cor s√£o desproporcionalmente abrigadas em pris√Ķes por todo o territ√≥rio americano da Amerikkka. Muitas dessas pris√Ķes s√£o atormentadas por √°gua t√≥xica, mofo, radia√ß√£o ou, como no caso de muitas pris√Ķes na Pensilv√Ęnia, est√£o localizadas pr√≥ximas a locais t√≥xicos, como dep√≥sitos de cinzas de carv√£o que contaminam a √°gua e o ar respirados pelo ser humano. seres for√ßosamente alojados nessas pris√Ķes t√≥xicas!

Eu pessoalmente estou chamando para a ação, a fim de encorajar todos que são apaixonados pela abolição de todas as formas de escravidão e servidão involuntária a se unirem em uma ação unificada de solidariedade revolucionária em 19 de junho de 2019 e protestar contra a escravização, degradação e desumanização de prisioneiros americanos e todos os seres humanos em todo o mundo que estão sujeitos a qualquer forma de escravidão ou opressão!

Como muitos de vocês sabem, 19 de junho é o dia em que os negros no Texas celebram a liberdade de seus ancestrais, nossos antepassados, que foram mantidos na ESCRAVIDÃO por aproximadamente dois anos depois que a nação inteira reconheceu a Proclamação da Emancipação. Mas os donos de escravos no Texas ignoraram essa lei federal.

O apelo deste ano √† a√ß√£o tem um significado especial quando os olhos do mundo s√£o treinados no sul do Texas, onde dezenas de milhares de solicitantes de asilo da Am√©rica Central v√™m para os Estados Unidos em busca de ref√ļgio, mas encontraram maus-tratos, abuso, racismo e escravid√£o. O sistema legislativo e de justi√ßa criminal no Texas continua a criar as bases para o racismo institucionalizado e o fanatismo.

Você percebe que o Exército dos EUA teve que entrar em Galveston, Texas, em 1867 e anunciar que a escravidão havia sido abolida?

O estado do Texas estava tão empenhado em manter seus escravos e lucrar com o trabalho escravo que o Exército dos EUA teve que mostrar força para fazer o Texas eliminar a prática da escravidão. Mas ainda está vivo! A escravidão na prisão é algo que está sendo praticado e perpetuado em todos os estados do sindicato e foi codificado pelo mais poderoso documento legal dos Estados Unidos, a Constituição dos EUA.

No Texas, sabemos que estamos sendo explorados, maltratados, degradados e abusados. Muitos prisioneiros no Texas est√£o contentes com o sistema moderno de planta√ß√£o de escravos, que √© gerenciado e operado pelo Departamento de Justi√ßa Criminal do Texas. No entanto, muitos prisioneiros n√£o est√£o contentes; na verdade, eles est√£o frustrados e com raiva. As estrat√©gias utilizadas pelos prisioneiros em outros estados que t√™m condi√ß√Ķes semelhantes ao Texas n√£o se aplicam necessariamente aqui. Mais precisamente, n√£o podemos fazer o que os outros fizeram porque n√£o atingimos o n√≠vel de solidariedade e desenvolvimento pol√≠tico que os presos de outros estados, como a Calif√≥rnia, alcan√ßaram.

Isto n√£o √© para depreciar ou degradar meus companheiros de pris√£o no Texas; Estou apenas afirmando fatos. A greve de fome e paralisa√ß√£o do trabalho na Calif√≥rnia for√ßaram as autoridades penitenci√°rias a reavaliar as pol√≠ticas opressivas que levaram ao tratamento desumano. Muitos seres humanos est√£o presos na Pelican Bay e em v√°rias outras unidades de confinamento solit√°rio na Calif√≥rnia. O confinamento solit√°rio √© uma tortura, seja pelo CDCR(Departamento de Corre√ß√Ķes e Reabilita√ß√£o da Calif√≥rnia) ou pelo TDCJ(Texas Department of Criminal Justice).

A aboli√ß√£o desta forma de puni√ß√£o √© a √ļnica solu√ß√£o correta. A quest√£o que tem atormentado os ativistas dos direitos dos prisioneiros como eu: ‚ÄúQual √© a melhor estrat√©gia para o Texas?‚ÄĚ Como iniciarmos um movimento que ser√° adotado tanto pelos prisioneiros do Texas quanto por suas fam√≠lias? Texas √© um estado orientado para a fam√≠lia. Voc√™ n√£o pode prosseguir com uma iniciativa s√©ria sem incluir membros da fam√≠lia que far√£o lobby na assembl√©ia estadual e falem com a m√≠dia em nome de seus entes queridos. Fiquei muito impressionado com o apoio que o prisioneiro californiano e pelicano Bay Freedom Fighter Sitawa Nantambu Jamaa recebeu de sua irm√£. Toda vez que eu abria a Bay View, l√° estava ela – em protestos, falando para a m√≠dia, legisladores, verdadeiramente impressionantes!

Os principais indiv√≠duos que est√£o sendo enganados s√£o os membros de nossa fam√≠lia. A maioria de n√≥s, prisioneiros, est√° bem ciente das pr√°ticas enganosas perpetradas pelo Conselho de Liberdade Condicional. Suas a√ß√Ķes s√£o promovidas, sancionadas e toleradas pelo Legislativo e pela Junta de Justi√ßa Criminal do Texas.

O modelo de escravo no Texas √© perpetrado pelo que a TDCJ chama de TCI ou Texas Correctional Industries. No papel, o TCI √© criado como uma organiza√ß√£o sem fins lucrativos que fornece habilidades profissionais e treinamento no trabalho para prisioneiros que trabalham em v√°rias f√°bricas e trabalhos industriais leves em todo o Texas. O modelo √© enganoso e o TDCJ gasta muito tempo e recursos, dando ao p√ļblico em geral a impress√£o de que a reabilita√ß√£o √© seu foco.

Funcionários da prisão e legisladores dizem que a TCI está fornecendo habilidades valiosas de trabalho e treinamento de graça. Tudo bem, então, se esse é o caso, por que o Conselho de Liberdade Condicional não reconhece os bons tempos e créditos de tempo de trabalho de todos os prisioneiros do Texas?

Queremos que esses créditos sejam aplicados diretamente em nossas sentenças, para que possamos retornar às nossas famílias e comunidades.

Para aqueles que s√£o bem versados ‚Äč‚Äčna hist√≥ria do Texas, voc√™ saber√° que o Texas foi fundado no preceito da supremacia branca.

O atual governador do Texas, Greg Abbott, concorda com um tipo de pensamento eugênico no qual os negros e pardos são inferiores aos brancos, e esse pensamento justifica nossa atual escravização e tratamento desumano. Alexander Stephens, vice-presidente dos Estados Confederados durante a Guerra Civil dos EUA, descreveu melhor a filosofia dos texanos, como o governador Abbott e Brian Collier, diretor executivo da TDCJ, quando disse em um discurso de 1861:


‚Äú A pedra angular da Confedera√ß√£o repousa sobre a grande verdade de que o negro n√£o √© igual ao homem branco; que a escravid√£o, subordina√ß√£o √† ra√ßa superior, √© sua condi√ß√£o natural e moral ‚ÄĚ.

√Č contra isso que estamos no Texas.

No Texas, como em toda a Am√©rica, a chamada ‚Äúclasse baixa‚ÄĚ negra vem em v√°rias cores, formas, tamanhos e g√™neros. H√° pardos, negros, latinos, asi√°ticos e √°rabes presos dentro das pris√Ķes do Texas. O camarada dos Panteras Negras Fred Hampton ilustrou melhor este ponto quando entrou em um bar branco no final dos anos 60 para recrutar pessoas brancas para participar de mudan√ßas socialistas.

Quero que você entenda exatamente de onde estou vindo, para que não haja confusão. Então, peço-lhe para ler e analisar esta citação do camarada Fred Hampton; vem de um discurso que ele fez em 1969:

‚Äú Temos que enfrentar alguns fatos. Que as massas s√£o pobres, que as massas pertencem ao que voc√™ chama de classe baixa, e quando eu falo sobre as massas, eu estou falando sobre as massas brancas, eu estou falando sobre as massas negras, e as massas marrons e as massas massas amarelas tamb√©m. Temos que encarar o fato de que algumas pessoas dizem que voc√™ luta melhor contra fogo com fogo, mas n√≥s dizemos que voc√™ coloca fogo melhor com √°gua. N√≥s dizemos que voc√™ n√£o combate o racismo com racismo; N√≥s vamos lutar contra o racismo com solidariedade. N√≥s dizemos que voc√™ n√£o luta contra o capitalismo sem o capitalismo negro; voc√™ luta contra o capitalismo com o socialismo ‚ÄĚ.

Esta cita√ß√£o incorpora a teoria, filosofia e pr√°tica revolucion√°ria do Novo Partido Pantera Negra Afrikan, Cap√≠tulo Pris√£o. √Č claro que amamos e respeitamos os negros neozelandeses, mas evitamos esse nacionalismo negro que √© abra√ßado por outros grupos que se fazem passar por panteras. Voc√™ n√£o pode atacar brutalmente um anci√£o neste movimento e dizer que est√° representando os melhores interesses do povo. N√£o! Isso n√£o √© o Pantherismo – mas eu discordo.Vamos ficar no ponto.

Como prisioneiros no Texas, temos que agarrar o touro pelos chifres e assumir o controle do nosso pr√≥prio destino. Os apoiadores do mundo livre n√£o podem fazer isso por n√≥s. Eles podem ajudar, mas, em √ļltima an√°lise, a organiza√ß√£o e o esfor√ßo de base devem ser feitos por n√≥s.

Primeiro, devemos educar nossa família e amigos em referência à natureza do problema. Devemos mostrar a eles o engano e a ilusão desse pagamento imaginário e do sistema fraudulento de bom tempo e crédito no tempo de trabalho.

Na verdade, todos os prisioneiros do Texas t√™m que fazer √© enviar a sua fam√≠lia e amigos uma c√≥pia do seu recibo de tempo. H√° milhares de homens e mulheres presos nas pris√Ķes do Texas. Eles possuem folhas de tempo que mostram claramente porcentagens de cr√©dito acumuladas de tempo fixo, tempo bom e tempo de trabalho que equivalem a 100% de sua senten√ßa atual ou mais!

O Texas construiu um sistema que enfraqueceu e destruiu sistematicamente as cidades do interior e as comunidades urbanas. Essas comunidades foram alvo das entidades estatais e corporativas para gentrificação. Os habitantes dessas comunidades são predominantemente negros e pardos.

Em Houston, no Texas, vimos at√© mesmo um superintendente da escola entrar na ‚Äúa√ß√£o‚ÄĚ. O superintendente da HISD, Terry Grier, fez tudo o que p√īde para enfraquecer as escolas em Houston que atendem aos jovens da cidade de Black e Brown.

E quando voc√™ nega √†s pessoas o acesso adequado a oportunidades de educa√ß√£o de qualidade, voc√™ cria condi√ß√Ķes que os empurram para os bra√ßos do sistema de justi√ßa criminal. O Sr. Grier anunciou sua ren√ļncia. Vamos esperar que Houston escolha um superintendente da HISD que tenha um interesse em nosso sucesso.

Assim, em poucas palavras, o TDCJ e o Conselho de Perd√Ķes e Paroles trabalham em conjunto com os capitalistas para sabotar a autodetermina√ß√£o de certas comunidades de cor. O que isso significa √© um programa n√£o t√£o sutil de controle social.

O que estamos perguntando √© que os prisioneiros do Texas t√™m suas fam√≠lias visitando nossas p√°ginas e websites para ver as informa√ß√Ķes que publicamos l√°, o que explica a quest√£o em termos e linguagem f√°ceis de entender. Temos n√ļmeros de telefone dos principais legisladores do Texas dispon√≠veis.O que estamos propondo √© que os prisioneiros incentivem seus familiares e amigos a contatarem esses legisladores e inst√°-los a elaborar uma legisla√ß√£o que conserte esse sistema fraudulento de escravos.

A linha inferior é esta:

  • Queremos nosso bom tempo e cr√©ditos de tempo de trabalho contados! Pare de nos dizer que voc√™ est√° contando quando voc√™ n√£o est√°.
  • Queremos ser pagos pelo nosso trabalho!
  • Queremos que nosso direito de votar seja restaurado.
  • Pare de falsificar os n√ļmeros do censo das comunidades rurais em que essas pris√Ķes est√£o localizadas, fazendo com que pare√ßam ser cidad√£os quando, na realidade, somos escravos! O Texas est√° ‚Äújogando o sistema‚ÄĚ, fazendo com que as √°reas pare√ßam ter mais constituintes do que realmente t√™m.

Quais os benefícios que recebemos? Nós já vimos esses jogos antes. O Texas adora brincar com mapas de re-distrito e os votos de minorias desfavorecidas.Muitas pessoas não vêem a conexão entre o sistema de plantação de escravos do Texas e a manipulação do voto Рeu o vejo.

A solidariedade é necessária agora!

H√° aproximadamente 150.000 prisioneiros alojados em pris√Ķes do Texas. Se metade de n√≥s puder convencer nossos entes queridos a contatar representantes e senadores do Texas em rela√ß√£o a essa quest√£o, poderemos ter um impacto significativo. Precisamos come√ßar a discutir isso nas salas do dia, no p√°tio de recreio ou enquanto estivermos trabalhando nos campos ou nas f√°bricas.

Voc√™ v√™, camaradas, n√£o estou operando sob nenhuma ilus√£o. Como eu disse no in√≠cio deste ensaio, alguns estar√£o contentes com essa exist√™ncia semelhante √† de um escravo; alguns n√£o estar√£o contentes. Alguns podem dizer ao “chefe”, “Aquele cara Malik est√° mexendo nos problemas de novo, chefe” e, como sempre, os opressores far√£o o que sempre fizeram – me prendem na solit√°ria, me transferem, escrevem como falsos relat√≥rios disciplinares, negar minha liberdade condicional ou tentar convencer alguns membros da tribo de rua equivocados. Eu j√° passei por tudo isso e muito mais. Estou determinado a melhorar nossa condi√ß√£o mesmo que isso me mate. Para aqueles de voc√™s que est√£o doentes e cansados ‚Äč‚Äčde serem escravos, pe√ßo que me ajudem a acabar com a escravid√£o na pris√£o no Texas agora!

Deixo-vos outra citação do camarada Fred Hampton:

Em primeiro lugar, dizemos principalmente que a prioridade dessa luta √© a classe. Que Marx e L√™nin e Che Guevara e Mao Tse-Tung e qualquer outra pessoa que j√° disse ou sabia ou praticou qualquer coisa sobre revolu√ß√£o sempre disseram que uma revolu√ß√£o √© uma luta de classes. Era uma classe – os oprimidos – contra a outra classe, o opressor. E isso tem que ser um fato universal. Aqueles que n√£o admitem isso s√£o aqueles que n√£o querem se envolver em revolu√ß√£o porque sabem que, enquanto estiverem lidando com uma coisa de ra√ßa, nunca estar√£o envolvidos em uma revolu√ß√£o. Eles podem falar sobre n√ļmeros, eles podem te enforcar de muitas maneiras. ‚ÄĚ

Então, o que será, uma vida de servidão involuntária, ajudando a sustentar esse sistema de escravos, ou a liberdade construindo suas comunidades e apoiando suas famílias?

N√£o temos nada a perder a n√£o ser nossas correntes! Os fan√°ticos que operam as pris√Ķes do Texas desejam silenciar minha voz. Eu me recuso a permanecer em sil√™ncio!

Em 19 de junho de 2019, fique conosco! Atreva-se a lutar, ousar vencer, Todo o poder para o povo!

ÔĽŅpelo Camarada Malik, Porta-voz Chefe, Escravo da Pris√£o Final no Movimento do Texas

Keith “Malik” Washington √© co-fundador e porta-voz chefe do Escravid√£o Prisional no Movimento do Texas, membro orgulhoso do Comit√™ Organizador dos Trabalhadores Presos, ativista na campanha Pris√Ķes de Luta contra as Toxicidades e vice-presidente do Pres√≠dio do Novo Partido Pantera Negra Afrikan. Cap√≠tulo. Leia o trabalho de Malik no ComradeMalik.com . Envie ao nosso irm√£o um pouco de amor e luz: Keith “Malik” Washington, 1487958, Unidade McConnell, 3100 S. Emily Dr., Beeville TX 78103.

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Roda de conversa. √Č preciso falar de Racismo: o encarceramento em massa da popula√ß√£o negra.

A conversa tem a finalidade de apresentar os debates e problematizar a rela√ß√£o do conservadorismo, eugenia, pol√≠tica criminal, punitivismo e encarceramento em massa, que s√£o faces da forma pela qual o Estado perpetua o racismo estrutural atrav√©s de pol√≠ticas p√ļblicas que afetam determinada parcela da popula√ß√£o: a popula√ß√£o negra. Processo hist√≥rico que se vincula √†s especificidades da capitalismo brasileiro , bem como a forma como a quest√£o racial √© tratada. Sendo assim o objetivo √© fornecer elementos te√≥ricos e pr√°ticos para compreens√£o do quadro atual da economia e pol√≠tica nacional.

Programação

05/04/2019 – 1¬į encontro – hor√°rio 19:00 √†s 22:00

Conservadorismo, eugenia e política criminal.

Debatedores:

Renato Kilombola

Membro do Coletivo  Kilombagem | Graduado em Ci√™ncias Sociais pela Funda√ß√£o Santo Andr√© | Mestre em Antropologia pela PUC/SP.

Weber Lopes Góes

Graduado em História pela Fundação Santo André | Mestre em Sociologia pela UNESP | Doutorando Ciências humanas e sociais pela Universidade Federal do ABC.

Haver√° o lan√ßamento do  livro ‚ÄúRACISMO E EUGENIA NO PENSAMENTO CONSERVADOR BRASILEIRO: A PROPOSTA DE POVO EM RENATO KEHL‚ÄĚ


06/042019 – 2¬į encontro – hor√°rio 16:00 √†s 20:00

Punitivismo como ferramenta de extermínio e controle da população negra.

Debatedores:

Gabrielle Nascimento

Graduanda em Direito pela PUCSP. Atua no Grupo de Trabalho Nacional para a Quest√£o das Mulheres Presas da Pastoral Carcer√°ria Nacional.
Militante da Frente Estadual pelo Desencarceramento em SP e do Coletivo Minervino de Oliveira.

F√°bio Pereira

Graduando em Serviço Social pela Unifesp-BS. Membro do Grupo de estudos sobre sociedade punitiva, justiça criminal e direitos humanos РGepex- dh.
Membro do grupo Kilombagem.
Apoiador da Associação de Familiares e Amigos de presos/as(AMPARAR) e da Frente Estadual pelo Desencarceramento em Sp

Indicação de leitura:

LOCAL

Realização/organização

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A Revolu√ß√£o Russa, a √Āfrica e a Di√°spora

Desde a Grande Revolu√ß√£o de Outubro de 1917, os africanos e os descendentes de africanos em todo o mundo gravitaram em dire√ß√£o aos acontecimentos revolucion√°rios na R√ļssia e no comunismo, vendo neles um caminho para sua pr√≥pria liberta√ß√£o. Talvez n√£o surpreendentemente, ent√£o, muitas das principais figuras pol√≠ticas negras do s√©culo XX, na √Āfrica e em outros lugares, foram comunistas, ou pelo menos inspiradas e influenciadas pelo movimento comunista internacional. Estes incluem figuras t√£o diversas como Andr√© Aliker, Aim√© C√©saire, Angela Davis, Shakur Assata, WEB Du Bois, Elma Fran√ßois, Hubert Harrison, Claudia Jones, Alex La Guma, Audley Moore , Josie Mpama, Kwame Nkrumah, George Padmore,Paul Robeson, Jacques Romain, Thomas Sankara, Ousmane Semb√®ne e Lamine Senghor.

Os afro-americanos e os da di√°spora africana ficaram impressionados com a perspectiva de que a Revolu√ß√£o pudesse se espalhar globalmente e sinalizar o fim do sistema centrado no capital e tudo o que o acompanhava, incluindo a opress√£o racista. O poeta Jamaican e escritor Claude McKay , portanto, a que se refere a Revolu√ß√£o de Outubro como ‚Äúo maior evento na hist√≥ria da humanidade‚ÄĚ, e bolchevismo como ‚Äúo maior e mais cient√≠fica ideia no mundo de hoje.‚ÄĚ i Outra jamaicana, Wilfred Domingo perguntou ‚Äú, O bolchevismo realizar√° a plena liberdade da √Āfrica, col√īnias nas quais os negros s√£o a maioria e promover√° a toler√Ęncia e a felicidade humanas nos Estados Unidos? ‚ÄĚii Havia, assim, uma admira√ß√£o inicial pela Revolu√ß√£o, na perspectiva de que ela anunciava a possibilidade de uma alternativa ao sistema centrado no capital, que seria em benef√≠cio daqueles que eram oprimidos nos Estados Unidos e no Caribe, assim como na √Āfrica. Essas foram as perspectivas dessas organiza√ß√Ķes do in√≠cio do s√©culo XX, inspiradas na Revolu√ß√£o de Outubro, como a African Brotherhood Brotherhood, nos Estados Unidos, que incluiu v√°rios comunistas negros como Otto Huiswoud, Cyril Biggs, Harry Haywood e Grace Campbell.

O cantor e ator Paul Robeson durante sua turnê em Moscou em agosto de 1958. Crédito: Anatoliy Garanin / Sputnik, via Associated Press

Uma vez que a nova Uni√£o Sovi√©tica estava mais firmemente estabelecida na d√©cada de 1920, v√°rias figuras proeminentes viajaram para ver em primeira m√£o a constru√ß√£o do socialismo e comentaram sobre a aus√™ncia de racismo e opress√£o nacional. Na verdade, esse era um tema comum nos relatos de testemunhas oculares de visitantes como WEB Du Bois , Langston Hughes e Paul Robeson. J√° em 1926, em seu retorno da Uni√£o Sovi√©tica, o proeminente acad√™mico-ativista afro-americano Du Bois reconheceu publicamenteEu fico perplexo com a revela√ß√£o da R√ļssia que veio a mim … Se o que tenho visto com os meus olhos e ouvido com os meus ouvidos √© bolchevique, eu sou bolchevique. At√© mesmo o famoso pan-africanista George Padmore, um O ex-comunista de Trinidad, que havia se separado do movimento comunista, escreveu um livro importante em 1945, “Como a R√ļssia transformou seu imp√©rio colonial”, mais de uma d√©cada depois de sua expuls√£o. Padmore ainda se sentiu compelido a publicar o que era, na verdade, uma celebra√ß√£o da transforma√ß√£o revolucion√°ria de 1917 e a elimina√ß√£o da opress√£o nacional que, na opini√£o do autor, era uma conseq√ľ√™ncia disso.

O significado da Revolu√ß√£o de Outubro n√£o foi apenas no evento em si, mas o fato de que ela deu origem √† constru√ß√£o de um novo sistema pol√≠tico e econ√īmico na Uni√£o Sovi√©tica e a um novo movimento comunista internacional organizado a partir de 1919 na Terceira Internacional (Comunista), ou Comintern. O objetivo do Comintern era criar as condi√ß√Ķes para a transforma√ß√£o revolucion√°ria fora da Uni√£o Sovi√©tica e, desde o seu in√≠cio, interessou-se muito pela √Āfrica e outras col√īnias, bem como pelo que veio a ser chamado de “Quest√£o Negra” – a quest√£o de como os africanos e os da heran√ßa africana poderiam libertar-se e p√īr fim a todas as formas de opress√£o racista. Na verdade, n√£o havia outra organiza√ß√£o internacional que tomasse essa posi√ß√£o, que se opunha abertamente a ambos colonialismo e racismo e tentou organizar todas as pessoas de ascend√™ncia africana para sua pr√≥pria liberta√ß√£o.

O fato de que o Comintern lutou contra a “Quest√£o Negra”, incluiu em suas fileiras comunistas de todas as nacionalidades e tomou uma posi√ß√£o firme em oposi√ß√£o ao colonialismo e ao racismo, para muitos na √Āfrica e al√©m, mesmo quando havia alguma insatisfa√ß√£o com o comunismo. partidos brit√Ęnicos, franceses, norte-americanos e sul-africanos. Para alguns, esses partidos pareciam estar se arrastando sobre a importante Quest√£o Negra. Havia uma vis√£o generalizada de que o Comintern era mais revolucion√°rio, o guardi√£o do legado da Revolu√ß√£o de Outubro e, portanto, mais preocupado com tais quest√Ķes do que alguns de seus partidos constituintes. Este certamente parecia ser o caso quando o Comintern exigiu que o Partido Comunista na √Āfrica do Sul fosse um partido das massas do povo daquele pa√≠s, liderado por africanos, e que deveria primeiro defender o governo da maioria no que era considerado uma col√īnia de um tipo especial, mesmo se muitos dos l√≠deres daquele partido tivessem uma opini√£o contr√°ria. As decis√Ķes do Comintern foram igualmente firmes e controversas em rela√ß√£o √† orienta√ß√£o a ser adotada para a luta afro-americana pela autodetermina√ß√£o no chamado ‘Black Belt’ nos Estados Unidos. O que quer que se diga da pol√≠tica do Comintern, indubitavelmente elevou o perfil, o significado e a centralidade dessa luta e, como os relatos hist√≥ricos recentes mostraram, estabeleceram muitos dos fundamentos para as lutas posteriores pelos direitos civis e pelo poder negro. Al√©m disso, a posi√ß√£o do Comintern teve um impacto fora dos Estados Unidos, influenciando os partidos comunistas em¬†Cuba e outros pa√≠ses da Am√©rica Latina. Por fim, os comunistas negros assumiram a lideran√ßa exigindo a cria√ß√£o de uma organiza√ß√£o especializada – o Comit√™ Sindical Internacional dos Trabalhadores Negros (ITUCNW).

A import√Ęncia da ITUCNW, seu √≥rg√£o Negro Worker, assim como outras publica√ß√Ķes, foi que a pol√≠tica revolucion√°ria e o impacto da Revolu√ß√£o de Outubro e do Comintern se espalharam pelo mundo – particularmente na √Āfrica e no Caribe, assim como na Europa. no final dos anos 1920 e 1930. Como parte do trabalho dos trabalhadores da ITUCNW e outros foram recrutados das col√īnias brit√Ęnicas na √Āfrica Ocidental, bem como da √Āfrica do Sul e com o tempo, estudantes foram enviados de muitas partes da √Āfrica para a Uni√£o Sovi√©tica. Outros viajaram para ver as consequ√™ncias da Revolu√ß√£o de Outubro do Caribe e dos Estados Unidos. No per√≠odo entre as guerras, centenas fizeram esta jornada incluindo figuras anti-coloniais como Isaac Wallace-Johnson da Serra Leoa, Jomo Kenyatta, futuro primeiro-ministro do Qu√™nia, e Albert Nzula, o primeiro secret√°rio geral negro do Comunismo Sul-Africano. Party (SACP).

Comunistas negros na União Soviética na década de 1930

Talvez o legado mais importante da Revolu√ß√£o de Outubro tenha sido a teoria que emergiu dele e a experi√™ncia de construir um novo sistema social enquanto rodeado por um mundo centrado no capital. O que foi demonstrado foi que outro mundo era poss√≠vel e que aqueles que eram os produtores de valor poderiam ser seus pr√≥prios libertadores e poderiam construir eles pr√≥prios esse novo mundo. Esta alternativa e a perspectiva de liberta√ß√£o continuaram a inspirar indiv√≠duos e organiza√ß√Ķes na √Āfrica e na di√°spora durante o per√≠odo entre guerras e particularmente durante a Segunda Guerra Mundial – quando a Uni√£o Sovi√©tica liderou a derrota do fascismo e criou a possibilidade de liberta√ß√£o nacional e a restaura√ß√£o da soberania naqueles pa√≠ses que se enfraqueceram sob o dom√≠nio colonial.

Para alguns, essa teoria foi incorporada na personalidade e no trabalho de Lenin, que continuou a inspirar muitos. Em 1970, durante uma visita ao Cazaquist√£o, Amilcar Cabral – o famoso l√≠der da luta de liberta√ß√£o nacional no que era ent√£o a Guin√© Portuguesa – teria dito ‚ÄúComo √© que n√≥s, um povo privado de tudo, vivendo em apuros, conseguimos travar nossa luta e obter sucesso? Nossa resposta √©: isto porque Lenin existiu, porque ele cumpriu seu dever como homem, revolucion√°rio e patriota. Lenin foi e continua sendo o maior defensor da liberta√ß√£o nacional dos povos ‚ÄĚ. Cabral estava longe de ser o √ļnico a manifestar sua admira√ß√£o pelo trabalho e contribui√ß√£o de Lenin. Thomas Sankara, o l√≠der revolucion√°rio de Burkina Faso, n√£o apenas expressou sua admira√ß√£o pelos escritos de Lenin, que ele dizia ter lido em sua totalidade, mas foi mais espec√≠fico em seu elogio √† “grande revolu√ß√£o de outubro de 1917 que transformou a mundo, trouxe a vit√≥ria ao proletariado, abalou as bases do capitalismo e possibilitou os sonhos de justi√ßa da Comuna de Paris‚ÄĚ.iii Em 1984, concluiu ele, ‚Äúa revolu√ß√£o de 1917 nos ensina muitas coisas‚ÄĚ.iv

O mundo mudou consideravelmente desde 1917. A Uni√£o Sovi√©tica e a constru√ß√£o do socialismo em alguns outros pa√≠ses foram encerradas. Comunismo – a doutrina das condi√ß√Ķes para a liberta√ß√£o dos produtores de riqueza n√£o foi e n√£o pode ser terminada, embora claramente exista a necessidade de um comunismo moderno que ofere√ßa solu√ß√Ķes para os problemas modernos. A Revolu√ß√£o de Outubro demonstrou que um outro mundo √© poss√≠vel, que essa alternativa n√£o √© uma utopia e que todos podemos ser agentes de mudan√ßa e criadores da hist√≥ria.

i Hakim Adi, pan-africanismo e comunismo: a Internacional Comunista, a √Āfrica e a Di√°spora, 1919-1939 (Trenton: Africa World Press, 2013), 12.

iiIbid., 13.

iiiThomas Sankara Fala: A Revolução de Burkina Faso, 1983-1987 (Londres: Pathfinder, 2015), 165.

ivIbid., 135.

Hakim Adi √© Professor da Hist√≥ria da √Āfrica e da Di√°spora Africana na Universidade de Chichester. Em janeiro de 2018, ele lan√ßou o primeiro programa online de Mestrado em Pesquisa sobre a Hist√≥ria da √Āfrica e a Di√°spora Africana e √© o fundador e consultor historiador do Projeto Jovens Historiadores.¬†√Č o autor dos africanos ocidentais na Gr√£-Bretanha 1900-1960: nacionalismo, pan-africanismo e comunismo (Lawrence e Wishart, 1998); (com M. Sherwood) O Congresso Pan-Africano de Manchester de 1945 Revisitado (New Beacon, 1995) e a Hist√≥ria Pan-Africana: Figuras Pol√≠ticas da √Āfrica e da Di√°spora desde 1787 (Routledge, 2003). Seus livros mais recentes s√£o Pan-africanismo e comunismo: A Internacional Comunista, √Āfrica e a Di√°spora, 1919-1939 (√Āfrica World Press, 2013) e Pan-africanismo: uma hist√≥ria (Bloomsbury Press, 2018)

[su_note note_color=”#fbff3b” text_color=”#000000″ radius=”1″]Originalmente publicado¬†no site¬†Black Perspectives [/su_note]

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Compreendendo Steve Biko: ra√ßa, classe e luta na √Āfrica do Sul

No anivers√°rio do assassinato de Steve Biko, Remi Adekoya, do ROAPE, fala com o acad√™mico e ativista sul-africano Mosa Phadi. Phadi reflete sobre o legado do pensamento radical e importante de Biko, mas tamb√©m discute como ele n√£o considerou alternativas coesas que poderiam agora servir como um contraponto √†s ideias neoliberais. Em uma entrevista abrangente, a Phadi tamb√©m analisa a crise pol√≠tica e econ√īmica na √Āfrica do Sul, os Economic Freedom Fighters-EFF(Combatentes da Liberdade Econ√īmica), os fracassos do ANC e as possibilidades de uma solu√ß√£o na milit√Ęncia e consci√™ncia da luta da classe trabalhadora.

Remi Adekoya: Hoje √© o anivers√°rio do assassinato de Stephen Biko por agentes de seguran√ßa do Estado do apartheid. Desde ent√£o, ele se tornou uma figura de rally imensamente simb√≥lica para muitos negros, especialmente na √Āfrica, mas n√£o apenas. Qual √© a sua opini√£o sobre o legado de Biko hoje e como ele est√° sendo historicamente posicionado?

Mosa Phadi: Eu tenho um problema em como Stephen Biko √© posicionado por nomes como Donald Woods, seu amigo e bi√≥grafo, que atribui toda a filosofia da Consci√™ncia Negra a Biko como se ele emergisse em um v√°cuo. Seu argumento √© basicamente que na √©poca em que Biko emergiu, o Congresso Pan-Africano (PAC) e o Congresso Nacional Africano (ANC) foram ambos organiza√ß√Ķes proibidas, e assim a chegada de Biko preencheu um vazio na luta pela liberdade dos negros.

No entanto, se voc√™ pensar no contexto hist√≥rico da √©poca, esse n√£o foi o caso. Biko, juntamente com outros estudantes, iniciou o movimento da Organiza√ß√£o de Estudantes da √Āfrica do Sul (SASO) em 1968. Se voc√™ pensar em 1968, este foi um ano de protestos globais; voc√™ teve os protestos anti-guerra do Vietn√£, grandes manifesta√ß√Ķes de direitos civis, protestos estudantis. Tamb√©m voltando, havia o pano de fundo de Gana se tornando o primeiro pa√≠s africano a ganhar a independ√™ncia do dom√≠nio colonial em 1957, um evento que impulsionou outros movimentos pr√≥-independ√™ncia em todo o continente africano. Havia Julius Nyerere na Tanz√Ęnia falando sobre um “socialismo africano”.

Antes da d√©cada de 1960, havia a Carta das Mulheres de 1954 na √Āfrica do Sul exigindo igualdade entre homens e mulheres, houve a Marcha das Mulheres de 1956, o massacre de Sharpeville em 1960, a desobedi√™ncia civil durante esse per√≠odo e muitos outros exemplos de luta contra a opress√£o. Ent√£o, retratando a luta sul-africana como essencialmente travada pelo PAC e pelo CNA, e assim que essas organiza√ß√Ķes foram proibidas, houve algum tipo de tr√©gua na luta contra a opress√£o e o apartheid √© uma falsa an√°lise.

Outra quest√£o pouco relatada sobre Biko e a √©poca em que ele atingiu a idade adulta √© como ela foi pega nas contradi√ß√Ķes do stalinismo e da Uni√£o Sovi√©tica em geral. Claramente, isso n√£o era mais uma alternativa, como muitos imaginaram ap√≥s a Segunda Guerra Mundial e a maioria dos ativistas negros, incluindo os¬†Black Panther Party, estavam pensando em esticar o marxismo, usando suas id√©ias quando se tratava de organiza√ß√£o partid√°ria, mas vendo o lumpemproletariado em termos essencialmente raciais como Fanon fez.

Existem semelhan√ßas entre Biko e Stokely Carmichael em termos de organizar os alunos inicialmente usando t√°ticas n√£o-violentas, mas depois se tornando militantes e afirmando a negritude ou “reivindicando a negritude” como Stokely chamaria. Ao mesmo tempo, Malcolm X tamb√©m estava na cena, alegando que a negritude era o oprimido, mas tamb√©m como o agente revolucion√°rio. Os trabalhadores tamb√©m estavam organizando.

Agindo como se nada existisse antes, durante ou depois de Biko √© uma falha na an√°lise. √Č importante enfatizar que ele emergiu em um per√≠odo em que uma fragmenta√ß√£o de id√©ias e erup√ß√Ķes ideol√≥gicas estavam ocorrendo em outros lugares e estes, por sua vez, informavam suas id√©ias.

A id√©ia de Biko de Consci√™ncia Negra, embora original no contexto da √Āfrica do Sul, era muito semelhante √†s id√©ias de Carmichael. Meu ponto √© que sou cr√≠tico daqueles que tentam higienizar essa hist√≥ria descontextualizando a progress√£o de suas id√©ias pol√≠ticas.

Tendo dito tudo isso, Biko foi um pensador muito importante cujas id√©ias foram adotadas por muitos movimentos. Suas id√©ias sobre a consci√™ncia negra foram importantes para focar o que o apartheid fez com a psique dos negros. Ele falou sobre a recupera√ß√£o da negritude, mas tamb√©m pensou em como n√≥s, como negros na √Āfrica do Sul, devemos nos relacionar com os negros e os indianos como os oprimidos. Ele enfatizou que, embora houvesse uma hierarquia de opress√£o racial, todos n√≥s precis√°vamos abordar o sistema como um coletivo oprimido.

A consci√™ncia negra √© uma id√©ia que funciona melhor em um cen√°rio capitalista de supremacia racista. No entanto, sua interpreta√ß√£o hoje √© muito neoliberal. Voc√™ ouve falar de “excel√™ncia negra”, por exemplo, n√£o h√° nada de errado com isso, mas √© um conceito ligado a um enquadramento neoliberal que se concentra no indiv√≠duo. Tal abordagem n√£o ajudar√° a romper com o sistema, mas perpetua desigualdades, pois o capital, por natureza, produz essas desigualdades. Se voc√™ se v√™ como um indiv√≠duo focado em alcan√ßar a “excel√™ncia negra”, esquecendo-se de estruturas que produzem desigualdades, ent√£o voc√™ n√£o est√° ajudando a resolver o problema. Se tais vis√Ķes prevalecerem,

As solu√ß√Ķes de Biko para os problemas negros eram duas: a consci√™ncia negra e o empoderamento econ√īmico negro. A segunda parte √© muito enfatizada recentemente, vemos isso mesmo na agora popular “economia municipal” na √Āfrica do Sul, que √© fundamentalmente neoliberal em sua filosofia. O governo provincial no centro econ√īmico da √Āfrica do Sul procura incentivar a cultura empreendedora em v√°rios munic√≠pios. Por isso, quer apoiar as empresas negras. Essa ideia de crescimento dos neg√≥cios negros era parte da abordagem emancipat√≥ria de Biko. Biko queria criar mercados negros e expandir a propriedade de empresas negras. Uma vez uma id√©ia radical √© usada atualmente para justificar a forma√ß√£o de elite, especialmente entre indiv√≠duos politicamente conectados.

As ideias de Biko, embora radicais na √©poca, n√£o me entendem mal, apesar de jogarem nessa democracia burguesa em que nos encontramos, suas id√©ias eram radicais e importantes na √©poca, mas ele n√£o pensava muito em alternativas coesas que agora poderiam servir como contrap√Ķe-se a id√©ias neoliberais.

Quais das idéias de Biko são populares hoje entre os intelectuais sul-africanos?

Sua morte em 1977 provocou milit√Ęncia entre as pessoas, por exemplo, quando voc√™ pensa na insurg√™ncia dos anos 1980, acho que parte da coragem emergiu das id√©ias da Consci√™ncia Negra de recuperar a negritude. Seus pensamentos sobre como deve ser a liberdade negra, que tipo de mentalidade precisamos para alcan√ß√°-la e atrav√©s de quais m√©todos, ainda permeiam hoje atrav√©s de v√°rios movimentos sociais. Por exemplo, o movimento estudantil Fees Must Fall desencadeado em 2016 sobre est√°tuas que ainda perpetuam s√≠mbolos da inferioridade negra citou Biko extensivamente e suas vis√Ķes se manifestaram em suas demandas. Eles exigiram que as primeiras e mais importantes est√°tuas de pessoas como Cecil Rhodes tivessem que ir, o curr√≠culo deve mudar e deveria haver uma representa√ß√£o maior de intelectuais que se parecem conosco nos ensinando, por exemplo.

As pessoas ainda gravitam em torno de Biko hoje porque, quando voc√™ l√™ seu trabalho, pode se identificar com ele como uma pessoa negra. Mesmo n√£o sendo um tradicionalista que acreditava em culturas fixas, ele estava muito consciente do papel que normas e valores culturais desempenham para os africanos comuns em suas vidas cotidianas. Por exemplo, ele sabia que a religi√£o era importante para as pessoas e sua perspectiva espiritual foi al√©m do cristianismo e incorporou id√©ias de ancestrais. Ele falou sobre como a m√ļsica pode iluminar a alma ferida, ele aproveitou as experi√™ncias di√°rias para realizar o potencial da cultura cotidiana para radicalizar e galvanizar as pessoas para a a√ß√£o. Quando voc√™ o l√™, ele acende o esp√≠rito radical em voc√™ para dizer: ‘sim, n√≥s podemos lutar contra o sistema, sim, n√≥s temos o direito de lutar contra o sistema’. Mas depois disso, voc√™ precisa pensar em que tipo de mundo voc√™ quer substituir o sistema atual. Aqui √© onde estavam suas limita√ß√Ķes. Mas como uma luz para acender a a√ß√£o, ele era muito importante.

Quais são algumas das ideias mais populares entre os intelectuais sul-africanos hoje em relação ao caminho a seguir para o país?

Na academia, especialmente depois do movimento Fees Must Fall, a quest√£o mais popular √© a da descoloniza√ß√£o. Semin√°rio ap√≥s semin√°rio, confer√™ncia ap√≥s confer√™ncia e artigo ap√≥s artigo foram escritos sobre isso. A inspira√ß√£o principal vem da bolsa de estudos latino-americana enfatizando a necessidade de descolonizar, por exemplo, o sistema de conhecimento entre outras quest√Ķes estruturais mais amplas na √Āfrica do Sul, que s√£o inerentemente orientadas para o Ocidente e impregnadas de racismo. Esta √© a escola mais popular de pensamento hoje.

As id√©ias marxistas foram rejeitadas, como de fato Biko as rejeitou em seus dias. A liga√ß√£o entre classe e ra√ßa n√£o foi integral em nossa an√°lise, o marxismo n√£o conseguiu incorporar a ra√ßa na equa√ß√£o. Enquanto isso, quest√Ķes centradas em torno de nossa hist√≥ria e opress√£o s√£o muito importantes para as pessoas. As pessoas usam termos como “gatilhos” para se referir √† dor que nos foi infligida no passado e enfatizam que precisamos remediar isso. No entanto, o marxismo na √Āfrica do Sul √© incapaz de oferecer uma an√°lise de como uma hist√≥ria de opress√£o racial e ser negro enquadra como as pessoas se relacionam com v√°rias lutas al√©m da abordagem oper√°ria.

Os Combatentes da Liberdade Econ√īmica (EFF) de Julius Malema s√£o bastante populares hoje entre as classes trabalhadoras e alguns intelectuais negros. Isso se deve ao fracasso da ANC em mudar radicalmente a vida das pessoas nos munic√≠pios onde h√° enorme desemprego. Eu venho de uma cidade chamada Kagiso. Quando eu vou para casa, em um dia de semana, parece um fim de semana l√°, jovens homens e mulheres nas ruas sem emprego. H√° protestos praticamente ininterruptos, pessoas exigindo servi√ßos. Na d√©cada de 1990, as pessoas esperavam pacientemente pela mudan√ßa, mas, nos anos 2000, come√ßaram a perceber que isso n√£o estava acontecendo. Isso desencadeou alguns ataques xen√≥fobos, como os recentes, contra donos de lojas paquistanesas, que foram saqueados por pessoas que se queixavam de que estavam vendendo comida estragada. Os impostos aumentaram, o IVA foi aumentado em abril levando a aumentos acentuados nos pre√ßos dos alimentos. H√° tens√£o em todos os lugares.

Essa √© a crise em que estamos desde que Ramaphosa se tornou o presidente, apertando n√£o apenas os pobres, mas tamb√©m a classe m√©dia. Isso criou espa√ßo para a EFF, especialmente com Malema for√ßando a conversa sobre a corrida no f√≥rum p√ļblico. At√© ent√£o, a esquerda tinha ficado obcecada com a aula, enquanto a conversa sobre ra√ßa tinha sido silenciada. A esquerda concentrou-se nas estruturas econ√īmicas, negligenciando a manifesta√ß√£o cotidiana de ser negro. Eles sentiram falta dos sentimentos que os jovens tinham sobre n√£o ser apenas pobres, mas pobres e negros tamb√©m. Malema explorou isso muito bem. Ele tamb√©m usa a metodologia dos Black Panther Party, utilizando um modelo marxista-leninista de estruturas partid√°rias combinadas com elementos Fanonianos incorporando ra√ßa e tratando o indiv√≠duo racialmente oprimido como um sujeito revolucion√°rio. Novamente, isso remonta √†s id√©ias dos anos 60 antes e durante o per√≠odo ativista de Biko. Embora envolvidos em alguns esc√Ęndalos de corrup√ß√£o, a EFF tem atra√≠do jovens desempregados, principalmente homens, mas tamb√©m algumas pessoas de classe m√©dia que experimentaram racismo nas corpora√ß√Ķes em que trabalham, que ainda s√£o em grande parte propriedade de pessoas brancas. Alguns intelectuais negros tamb√©m foram atra√≠dos para a EFF.

No entanto, muitos dos protestos nas ruas exigindo servi√ßos b√°sicos como √°gua e eletricidade n√£o s√£o organizados por nenhum partido pol√≠tico ou movimento, eles n√£o t√™m pol√≠ticas espec√≠ficas, eles simplesmente querem servi√ßos. Os novos movimentos estudantis, enquanto isso, n√£o est√£o apenas usando o Biko como um s√≠mbolo, mas tamb√©m desafiando a din√Ęmica de g√™nero, as ideias de feminismo se tornaram um debate fundamental nas lutas com o poder e o patriarcado. As mulheres est√£o protestando contra a viol√™ncia dom√©stica e o patriarcado, mais uma vez nos levando de volta √†s id√©ias dos anos 1960, que est√£o voltando de maneiras diferentes. Em geral, id√©ias revolucion√°rias sobre ra√ßa e g√™nero que remontam aos anos 50 e 60 est√£o retornando, a √ļnica diferen√ßa √© que elas est√£o emergindo hoje em forma e estilo modernos, especialmente com a prolifera√ß√£o de m√≠dias sociais que podem ser usadas para espalhar uma mensagem muito rapidamente.

Existe alguma parte que, na sua opini√£o, se eles chegaram ao poder, seria melhor implantar esse poder para a melhoria das pessoas? Voc√™ mencionou a EFF de uma forma bastante positiva, mas disse que eles tamb√©m foram implicados em esc√Ęndalos de corrup√ß√£o. Com base em que voc√™ os associa a quaisquer esperan√ßas de mudan√ßa positiva para os sul-africanos oprimidos? Como voc√™ sabe, a hist√≥ria est√° repleta de exemplos, muitos na √Āfrica, infelizmente, de pessoas subindo ao poder com o apoio de todos os tipos de slogans igualit√°rios, apenas para se empanturrarem com os recursos do estado quando chegarem l√°.

Bem, quais s√£o as op√ß√Ķes? Existe a Alian√ßa Democr√°tica, que √© um partido muito liberal, ent√£o voc√™ tem a garantia de um conjunto de pol√≠ticas econ√īmicas liberais se elas chegarem ao poder. Al√©m disso, eles parecem n√£o dar √™nfase √† nossa hist√≥ria e n√£o reconhecem as cicatrizes psicol√≥gicas que o apartheid deixou nos negros. Ideologicamente, esta n√£o √© uma op√ß√£o vi√°vel para mim. Ent√£o voc√™ tem o ANC e o EFF. A EFF quer o capitalismo de estado. Eles devem ser entendidos como uma parte que resta do ANC, n√£o aquela de esquerda que voc√™ entende, mas simplesmente deixada do ANC. Eu votarei neles. N√£o porque eu acredite que eles, ou qualquer outra parte, possam emancipar a classe trabalhadora. N√£o, a classe trabalhadora precisa encontrar a ag√™ncia em si para lutar por si mesma.

Nenhum pol√≠tico ou partido pol√≠tico salvar√° a classe trabalhadora ou os pobres, n√£o sejamos delirantes. Para mim, a esperan√ßa √© que a classe trabalhadora se organize e lute por si mesma. A EFF quer o capitalismo de estado e isso pode acontecer de duas maneiras, como mostra a hist√≥ria. Pode se tornar muito autorit√°rio ou focar na constru√ß√£o de novas formas de elites. A EFF √© importante para os debates entre as ra√ßas, mas n√£o acredito ingenuamente que eles ser√£o nossos salvadores. Como sempre, a classe trabalhadora continuar√° tentando novos partidos, esperando algo melhor. Mas apenas sua milit√Ęncia pode for√ßar a mudan√ßa. A EFF √© filha do ANC e n√£o pode romper com os elos corruptos do ANC.

Qual seria ent√£o o valor agregado da EFF para os sul-africanos regulares se um dia eles ganhassem poder?

Se eles chegarem ao poder, √© claro que haver√° reformas, eles n√£o seriam capazes de simplesmente governar de uma maneira normal. Eles teriam que fazer concess√Ķes aos pobres. A quest√£o da terra seria abordada, a terra se tornaria estatal. Com rela√ß√£o aos principais setores financeiros, como a minera√ß√£o, eles est√£o atualmente tentando propagar um sistema de propriedade de tr√™s vias, no qual o Estado teria, digamos, 50% de uma mina, a comunidade 10% e o restante seria privatizado. Eles querem mostrar que est√£o prontos para negociar com ele e, ao mesmo tempo, tentar sustentar sua imagem radical.

Mas eles abriram um espa√ßo no debate, encorajaram as pessoas a acreditarem que t√™m o direito de pressionar. Sei que a milit√Ęncia com a qual eles vieram n√£o pode ser sustentada se eles ganharem poder. Se vencerem, haver√° algumas grandes reformas, mas haveria contradi√ß√Ķes tamb√©m, sem d√ļvida. E sim, h√° o perigo de tend√™ncias ditatoriais neles. Esse √© o risco envolvido com eles. No entanto, eu ainda acho que a classe trabalhadora deve votar para o EFF exigindo algumas reformas espec√≠ficas.

Então, basicamente você aceita que eles são um risco, mas acha que eles são um risco que vale a pena correr?

Sim eu quero. Al√©m disso, uma quest√£o importante que merece cr√©dito por adotar a agenda tamb√©m √© a da reforma agr√°ria, a id√©ia da expropria√ß√£o de terras sem compensa√ß√£o. Embora tenha havido v√°rios movimentos de sem-terra nos anos 2000, a EFF encorajou essa demanda e agora o parlamento aprovou uma resolu√ß√£o para emendar a constitui√ß√£o que permite a desapropria√ß√£o de terras sem compensa√ß√£o. No entanto, neste momento, est√£o em andamento consultas p√ļblicas, que devem terminar com um relat√≥rio at√© o final de setembro.

Se o presidente Ramaphosa eventualmente assina essa emenda em lei, existe algum plano para como exatamente esse processo seria?

N√£o, neste momento n√£o houve nenhum debate sobre quem conseguiria o qu√™ e com que base. Os pol√≠ticos s√£o simplesmente apanhados na milit√Ęncia das pessoas que est√£o exigindo reformas. Toda essa quest√£o da terra tamb√©m reflete id√©ias popularizadas por Biko anos atr√°s. Al√©m do desejo f√≠sico que as pessoas t√™m de recuperar suas terras, isso tamb√©m faz parte de um reconhecimento psicol√≥gico de que esta √© a sua terra.. O planejamento de nossas cidades hoje ainda √© o mesmo que era sob o apartheid, com os desenvolvedores capazes de manter certas √°reas exclusivamente ricas e brancas. Ou mesmo nas √°reas rurais, voc√™ tem uma situa√ß√£o em que todas as melhores terras agr√≠colas s√£o de propriedade dos brancos, ent√£o eles s√£o os fazendeiros, enquanto os negros s√£o simples residentes da aldeia com alguns negros que conseguiram dividir seu espa√ßo no setor agr√≠cola. As pessoas agora est√£o imaginando um tipo diferente de espa√ßo; um tipo diferente de √Āfrica do Sul e pol√≠ticos est√£o correndo para responder porque querem votos. Mas a discuss√£o sobre quem obter√° o qu√™ e se esse processo realmente fortalecer√° os sul-africanos mais pobres ainda n√£o foi iniciado.

Mosa Phadi concluiu seu doutorado na Universidade de Joanesburgo em 2017. Ela trabalhou durante anos em quest√Ķes raciais e de classe, incluindo dois relat√≥rios inovadores sobre os munic√≠pios locais de Mogalakwena e Lephalale. Ela trabalha como pesquisadora h√° mais de seis anos, publicou artigos revisados por pares e produziu um document√°rio de pesquisa com foco na ideia de classe m√©dia em Soweto.

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Publicado no site¬†ROAPE 12, de setembro, 2018¬†Compreendendo Steve Biko: ra√ßa, classe e luta na √Āfrica do Sul

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Pr√™mio Jonathas Salathiel de Psicologia e Rela√ß√Ķes Raciais

O Racismo no Brasil atravessa as estruturas socais gerando exclus√Ķes, desigualdades e injusti√ßas, por isso a√ß√Ķes que visem a elimina√ß√£o do racismo s√£o t√£o importantes para¬† chegarmos numa sociedade igualit√°ria, √© com essa perspectiva que, n√≥s da organiza√ß√£o negra Kilombagem divulgamos:

Pr√™mio Jonathas Salathiel de Psicologia e Rela√ß√Ķes Raciais

Via: CRP SP

O CRP SP convida profissionais, estudantes de Psicologia, artistas e grupos de populares difusores da cultura negra, a participarem do Pr√™mio ‚ÄúJonathas Salathiel de Psicologia e Rela√ß√Ķes Raciais‚Äú, que tem como finalidade estimular a produ√ß√£o de artigos da √°rea de Psicologia, assim como cria√ß√Ķes art√≠sticas das mais diversas linguagens (fotografia, imagens, poesias, m√ļsicas, etc.) a respeito da viol√™ncia causada pelo racismo e dar visibilidade para produ√ß√£o em sa√ļde mental e rela√ß√Ķes raciais.

Jonathas nos fez reconhecer a centralidade da quest√£o racial num projeto comprometido com uma sociedade melhor ‚Äď porque mais igualit√°ria ‚Äď em que o combate ao racismo deve ocupar todas as pautas. Sua incans√°vel luta contra todas as formas de discrimina√ß√£o racial, faz ecoar a√ß√Ķes propositivas neste conselho de classe e possibilita o lan√ßamento de documentos norteadores sobre os efeitos do racismo para a popula√ß√£o negra e tamb√©m na cria√ß√£o de um grupo de trabalho para pensar as quest√Ķes raciais, organizado hoje como N√ļcleo de Rela√ß√Ķes Etnicorraciais.

O evento, sobretudo, expressa a gratidão da Psicologia no Estado de São Paulo a Jonathas José Salathiel da Silva que foi um grande colaborador, amigo e conselheiro para a construção de uma profissão comprometida com a igualdade racial.

Inscri√ß√Ķes e envio dos trabalhos: 13/08/2018 a 28/09/2018
Período de avaliação: Outubro de 2018
Divulgação dos resultados das (os) finalistas na página do Conselho: 01/11/2018
Evento de Premia√ß√£o:¬†10/11/2018 –¬†inscreva-se aqui

Saiba mais.

Fonte: CRP SP | www.crpsp.org.br

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Boaventura: o Colonialismo e o século XXI

√Č hora de declarar incumprida uma das grandes promessas modernas. O homem branco jamais aceitou a igualdade. Novas lutas precisar√£o imp√ī-la

Por Boaventura de Sousa Santos

 

Para Marielle Franco, in memoriam

O termo alem√£o¬†Zeitgeist¬†√© hoje usado em diferentes l√≠nguas para designar o clima cultural, intelectual e moral de uma dada √©poca, literalmente, o esp√≠rito do tempo, o conjunto de cren√ßas e de ideias que comp√Ķem a especificidade de um per√≠odo hist√≥rico. Na Idade Moderna, dada a persist√™ncia da ideia do progresso, uma das maiores dificuldades em captar o esp√≠rito de uma dada √©poca reside em identificar as continuidades com √©pocas anteriores, quase sempre disfar√ßadas de descontinuidades, inova√ß√Ķes, rupturas. E para complicar ainda mais a an√°lise, o que permanece de per√≠odos anteriores √© sempre metamorfoseado em algo que simultaneamente o denuncia e dissimula e, por isso, permanece sempre como algo diferente do que foi sem deixar de ser o mesmo. As categorias que usamos para caracterizar uma dada √©poca s√£o demasiado toscas para captar esta complexidade, porque elas pr√≥prias s√£o parte do mesmo esp√≠rito do tempo que supostamente devem caracterizar a partir de fora. Correm sempre o risco de serem anacr√īnicas, pelo peso da in√©rcia, ou ut√≥picas, pela leveza da antecipa√ß√£o.

Tenho defendido que vivemos em sociedades capitalistas, coloniais e patriarcais, por refer√™ncia aos tr√™s principais modos de domina√ß√£o da era moderna: capitalismo, colonialismo e patriarcado ou, mais precisamente, hetero-patriarcado. Nenhuma destas categorias √© t√£o controversa, quer entre os movimentos sociais, quer na comunidade cient√≠fica, quanto a de colonialismo. Fomos todos t√£o socializados na ideia de que as lutas de liberta√ß√£o anti-colonial do s√©culo XX puseram fim ao colonialismo que √© quase uma heresia pensar que afinal o colonialismo n√£o acabou, apenas mudou de forma ou de roupagem, e que a nossa dificuldade √© sobretudo a de nomear adequadamente este complexo processo de continuidade e mudan√ßa. √Č certo que os analistas e os pol√≠ticos mais avisados dos √ļltimos cinquenta anos tiveram a percep√ß√£o aguda desta complexidade, mas as suas vozes n√£o foram suficientemente fortes para p√īr em causa a ideia convencional de que o colonialismo propriamente dito acabara, com exce√ß√£o de alguns poucos casos, os mais dram√°ticos sendo possivelmente o Sahara Ocidental, a col√īnia hispano-marroquina que continua subjugando o povo saharaui e a ocupa√ß√£o da Palestina por Israel. Entre essas vozes, √© de salientar a do grande soci√≥logo mexicano Pablo Gonzalez Casanova com o seu conceito de colonialismo interno para caraterizar a perman√™ncia de estruturas de poder colonial nas sociedades que emergiram no s√©culo XIX das lutas de independ√™ncia das antigas col√īnias americanas da Espanha. E tamb√©m a voz do grande l√≠der africano, Kwame Nkrumah,¬† primeiro presidente da Rep√ļblica do Gana, com o seu conceito de neocolonialismo para caracterizar o dom√≠nio que as antigas pot√™ncias coloniais continuavam a deter sobre as suas antigas col√īnias, agora pa√≠ses supostamente independentes.

união política africana(Julius Nyerere, Kwame Nkrumah, W.E.B Dubois, e Jomo kenyatta)

Uma reflex√£o mais aprofundada dos √ļltimos 60 anos leva-me a concluir que o que quase terminou com os processos de independ√™ncia do s√©culo XX foi uma forma espec√≠fica de colonialismo, e n√£o o colonialismo como modo de domina√ß√£o. A forma que quase terminou foi o que se pode designar por colonialismo hist√≥rico caracterizado pela ocupa√ß√£o territorial estrangeira. Mas o modo de domina√ß√£o colonial continuou sob outras formas e, se as considerarmos como tal, o colonialismo est√° talvez hoje t√£o vigente e violento como no passado. Para justificar esta asser√ß√£o √© necess√°rio especificar em que consiste o colonialismo enquanto modo de domina√ß√£o. Colonialismo √© todo o modo de domina√ß√£o assente na degrada√ß√£o ontol√≥gica das popula√ß√Ķes dominadas por raz√Ķes etno-raciais. √Äs popula√ß√Ķes e aos corpos racializados n√£o √© reconhecida a mesma dignidade humana que √© atribu√≠da aos que os dominam. S√£o popula√ß√Ķes e corpos que, apesar de todas as declara√ß√Ķes universais dos direitos humanos, s√£o existencialmente considerados sub-humanos, seres inferiores na escala do ser, e as suas vidas pouco valor t√™m para quem os oprime, sendo, por isso, facilmente descart√°veis. Foram inicialmente concebidos como parte da paisagem das terras ‚Äúdescobertas‚ÄĚ pelos conquistadores, terras que, apesar de habitadas por popula√ß√Ķes ind√≠genas desde tempos imemoriais, foram consideradas como terras de ningu√©m,¬†terra nullius. Foram tamb√©m considerados como objetos de propriedade individual, de que √© prova hist√≥rica a escravatura. E continuam hoje a ser popula√ß√Ķes e corpos v√≠timas do racismo, da xenofobia, da expuls√£o das suas terras para abrir caminho aos megaprojetos mineiros e agroindustriais e √† especula√ß√£o imobili√°ria, da viol√™ncia policial e das mil√≠cias paramilitares, do tr√°fico de pessoas e de √≥rg√£os, do trabalho escravo designado eufemisticamente como ‚Äútrabalho an√°logo ao trabalho escravo‚ÄĚ para satisfazer a hipocrisia¬† bem-pensante das rela√ß√Ķes internacionais, da convers√£o das suas comunidades de rios cristalinos e florestas id√≠licas em infernos t√≥xicos de degrada√ß√£o ambiental. Vivem em zonas de sacrif√≠cio, a cada momento em risco de se transformarem em zonas de n√£o-ser.

As novas formas de colonialismo s√£o mais insidiosas porque ocorrem no √Ęmago de rela√ß√Ķes sociais, econ√īmicas e pol√≠ticas dominadas pelas ideologias do anti-racismo, dos direitos humanos universais, da igualdade de todos perante a lei, da n√£o-discrimina√ß√£o, da igual dignidade dos filhos e filhas de qualquer deus ou deusa. O colonialismo insidioso √© gasoso e evanescente, t√£o invasivo quanto evasivo, em suma, ardiloso. Mas nem por isso engana ou minora o sofrimento de quem √© dele v√≠tima na sua vida quotidiana. Floresce em¬†apartheids¬†sociais n√£o institucionais, mesmo que sistem√°ticos. Tanto ocorre nas ruas como nas casas, nas pris√Ķes e nas universidades como nos supermercados e nos batalh√Ķes de pol√≠cia. Disfar√ßa-se facilmente de outras formas de domina√ß√£o tais como diferen√ßas de classe e de sexo ou sexualidade mesmo sendo sempre um componente constitutivo delas. Verdadeiramente s√≥ √© capt√°vel em¬†close-ups, instant√Ęneos do dia-a-dia. Em alguns deles, o colonialismo insidioso surge como saudade do colonialismo, como se fosse uma esp√©cie em extin√ß√£o que tem de ser protegida e multiplicada. Eis alguns desses instant√Ęneos.

Ojos de Sur Caricaturas Cartoons

Primeiro instant√Ęneo.¬†Um dos √ļltimos n√ļmeros de 2017 da respeit√°vel revista cient√≠fica¬†Third World Quarterly,¬†dedicada aos estudos p√≥s-coloniais, inclu√≠a um artigo de autoria de Bruce Gilley, da Universidade Estadual de Portland, intitulado ‚ÄúEm defesa do colonialismo‚ÄĚ. Eis o resumo do artigo: ‚ÄúNos √ļltimos cem anos, o colonialismo ocidental tem sido muito maltratado. √Č chegada a hora de contestar esta ortodoxia. Considerando realisticamente os respectivos conceitos, o colonialismo ocidental foi, em regra, tanto objetivamente ben√©fico como subjetivamente leg√≠timo na maior parte dos lugares onde ocorreu. Em geral, os pa√≠ses que abra√ßaram a sua heran√ßa colonial tiveram mais √™xito do que aqueles que a desprezaram. A ideologia anti-colonial imp√īs graves preju√≠zos aos povos a ela sujeitos e continua a impedir, em muitos lugares, um desenvolvimento sustentado e um encontro produtivo com a modernidade. H√° tr√™s formas de estados fracos e fr√°geis recuperarem hoje o colonialismo: reclamando modos coloniais de governa√ß√£o; recolonizando certas √°reas; e criando novas col√īnias ocidentais‚ÄĚ.¬†O artigo causou uma indigna√ß√£o geral e quinze membros¬†do conselho editorial da revista demitiram-se. A press√£o foi t√£o grande que o autor acabou por retirar o artigo da vers√£o eletr√īnica da revista, mas permaneceu na vers√£o j√° impressa. Foi um sinal dos tempos? Afinal, o artigo fora sujeito a revis√£o an√īnima por pares. A controv√©rsia mostrou que a defesa do colonialismo estava longe de ser um ato isolado de um autor tresloucado.¬† ¬†

A “LIGA DAS GAROTAS ALEM√ÉS” DE HITLER

Segundo instant√Ęneo.¬†O¬†Wall Street Journal¬†de 22 de mar√ßo passado publicou uma¬†reportagem¬†intitulada ‚ÄúProcura de s√™men americano disparou no Brasil‚ÄĚ.¬† Segundo a jornalista, a importa√ß√£o de s√™men americano por mulheres solteiras e casais de l√©sbicas brasileiras ricas aumentou extraordinariamente nos √ļltimos sete anos e os perfis dos doadores selecionados mostram a prefer√™ncia por crian√ßas brancas e com olhos azuis. E acrescenta: ‚ÄúA prefer√™ncia por dadores brancos reflete uma persistente preocupa√ß√£o com a ra√ßa num pa√≠s em que a classe social e a cor da pele coincidem com grande rigor. Mais de 50% dos brasileiros s√£o negros ou mesti√ßos, uma heran√ßa que resultou de o Brasil ter importado dez vezes mais escravos africanos do que os Estados Unidos; foi o √ļltimo pa√≠s a abolir a escravatura, em 1888. Os descendentes de colonos e imigrantes brancos ‚Äď muitos dos quais foram atra√≠dos para o Brasil no final do s√©culo XIX e princ√≠pio do s√©culo XX quando as elites no governo procuraram explicitamente ‚Äėbranquear‚Äô a popula√ß√£o ‚Äď controlam a maior parte do poder pol√≠tico e da riqueza do pa√≠s. Numa sociedade t√£o racialmente dividida, ter descend√™ncia de pele clara √© visto muitas vezes como um modo de providenciar √†s crian√ßas melhores perspectivas, seja um sal√°rio mais elevado ou um tratamento policial mais justo‚ÄĚ.¬†

Terceiro instant√Ęneo.¬†Em 24 de mar√ßo o mais influente jornal da Africa do Sul,¬†Mail & Guardian,¬†publicou uma reportagem intitulada ‚ÄúGenoc√≠dio branco: como a grande mentira se espalhou para os Estados Unidos e outros pa√≠ses‚ÄĚ. Segundo o jornalista, ‚ÄúO Suidlanders, um grupo sul-africano de extrema direita, tem estabelecido contato com outros grupos extremistas nos Estados Unidos e na Austr√°lia, fabricando uma teoria da conspira√ß√£o sobre genoc√≠dio branco com o objectivo de conseguir apoio internacional para sul-africanos brancos. O grupo, que se auto-descreve como ‚Äėuma iniciativa-plano de emerg√™ncia‚Äô para preparar uma minoria sul-africana de crist√£os protestantes para uma suposta revolu√ß√£o violenta, tem-se relacionado com v√°rios grupos extremistas (alt-right) e seus influentes contatos midi√°ticos nos Estados Unidos para erguer uma oposi√ß√£o global √† alegada persegui√ß√£o a brancos na √Āfrica do Sul‚Ķ Na semana passada, o, ministro australiano dos Assuntos Internos, disse ao¬†Daily Telegraphque estava considerando a concess√£o de vistos r√°pidos para agricultores sul-africanos brancos, os quais, alegava o ministro, precisavam de ‚Äėfugir de circunst√Ęncias atrozes‚Äô para ‚Äėum pa√≠s civilizado‚Äô. Segundo o ministro, os ditos agricultores ‚Äėmerecem aten√ß√£o especial‚Äô por causa de ocupa√ß√£o de terras e viol√™ncia ‚Ķ¬† Tem tamb√©m sido dada mais aten√ß√£o a agricultores sul-africanos brancos na Europa, onde pol√≠ticos da extrema direita com contatos diretos com a extrema direita (alt-right) nos Estados Unidos t√™m solicitado ao Parlamento Europeu que intervenha na √Āfrica do Sul. Agentes pol√≠ticos contra os refugiados no Reino Unido est√£o igualmente ligados √† causa‚ÄĚ.

A grande armadilha do colonialismo insidioso é dar a impressão de um regresso, quando o que regressa nunca deixou de estar.

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Originalmente publicado no site Outras Palavras Boaventura: o Colonialismo e o século XXI-02/04/2018

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O tenso enegrecimento do cinema brasileiro

O cinema brasileiro vive um novo momento de muta√ß√£o. A profunda diversidade que caracterizou nossa cinematografia nos √ļltimos 30 anos, depois de superar a pol√≠tica de terra arrasada do governo ultra-neoliberal Collor, nos anos noventa, come√ßou, finalmente, a incorporar a participa√ß√£o e olhar de realizadores e realizadoras negras, mas com grandes resist√™ncias. E o √ļltimo Festival de Cinema de Bras√≠lia, que comemorou 50 anos de exist√™ncia em 2017, foi o palco que deu enorme visibilidade para esta nova fase da hist√≥ria do cinema brasileiro e para as tens√Ķes que¬†vivemos.

O debate sobre o filme¬†Vazante,¬†da experiente realizadora Daniela Thomas, uma hist√≥ria que tem como cen√°rio e contexto as rela√ß√Ķes familiares e sociais na primeira metade do escravocrata s√©culo XIX,¬†foi o estopim de uma esp√©cie de bomba de efeito retardado que polarizou opini√Ķes sobre a representa√ß√£o de negros e negras na hist√≥ria do cinema brasileiro. E neste festival, atrizes, atores, cineastas e um cr√≠tico de cinema que se posicionaram orgulhosamente a partir de sua ascend√™ncia negra, em um pa√≠s marcado pela for√ßa da ideologia do branqueamento, fizeram quest√£o de demarcar tamb√©m a exist√™ncia de uma leitura espec√≠fica do seu grupo racial sobre a hist√≥ria e o mundo social e cultural¬†brasileiro.

Mas, para uma parcela do mundo do cinema j√° estabelecido, a opini√£o dos negros e negras foi considerada como equivocada, ressentida e militante, portanto distante do que seria justo. Um grande cineasta que se projetou internacionalmente nos anos sessenta, demonstrando um envelhecimento e enrijecimento dos paradigmas de sua gera√ß√£o, chegou a classificar como uma bobagem de universit√°rios o conceito ‚Äúlugar de fala‚ÄĚ, ¬†muito empregado criticamente pelos negros e negras no debate de¬†Vazante. E reutilizou, fora de contexto, o termo pejorativo ‚Äúpatrulhamento ideol√≥gico‚ÄĚ que criou nos anos setenta para criticar uma certa miopia da esquerda na an√°lise dos filmes de ent√£o, tentando agora com o mesmo termo deslegitimar e ridicularizar a opini√£o e reivindica√ß√£o dos¬†negros.

Mas não interessa aqui reproduzir os detalhes do debate provocado pelo filme Vazante, e sim perguntar o que explica e fundamenta o olhar, o imaginário e o discurso daqueles que produzem TV e Cinema no Brasil que justificaria esta enorme dificuldade em reconhecer o protagonismo dos negros e negras em nossa sociedade, e o direito de fazer e de expressar suas narrativas audiovisuais.

Algumas obviedades precisam ser ditas para come√ßarmos a questionar a gravidade do epis√≥dio acima mencionado. Quem conhece o Brasil, a partir da viv√™ncia do seu cotidiano, sabe que estamos longe de ser uma democracia racial. E o segmento audiovisual √© aquele na sociedade brasileira em que o racismo estrutural do pa√≠s trouxe os resultados mais dram√°ticos. Todas pesquisas existentes demonstram que a telenovela, assim como o cinema brasileiro, sempre negaram uma representa√ß√£o da diversidade racial brasileira, um pa√≠s de minoria branca com uma popula√ß√£o afrodescendentes constitu√≠da de pretos e pardos, que corresponde ao montante de 54,9% do total de uma popula√ß√£o de 205 milh√Ķes de habitantes[1], conforme a √ļltima PNAD de 2016 do IBGE, √≥rg√£o oficial de estat√≠stica do Estado¬†brasileiro.

Uma pesquisa do GEMAA[2]¬†sobre¬†A¬†cara do cinema nacional¬†√© bastante ilustrativa da aus√™ncia de negros e negras no setor audiovisual brasileiro. Buscando avaliar o conte√ļdo dos filmes mais vistos a cada ano, no per√≠odo entre 2002 e 2014, para mapear a diversidade de g√™nero e racial, e compreender o papel que esta diversidade assumiu nos filmes, este n√ļcleo de pesquisa trouxe os seguintes¬†resultados:

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† dos 919 atores e atrizes mapeados na pesquisa 71% eram do g√™nero masculino, contra 28% do g√™nero feminino e 1% de pessoas trans;¬†¬†

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† Uma ‚ÄúDespropor√ß√£o similar de participa√ß√£o se verifica quanto √† cor das personagens: branca (65%), preta (18%), parda (14%), n√£o identificada (2%) ou ind√≠gena/amarela¬†(1%)‚ÄĚ;

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† tamb√©m √† frente das c√Ęmeras a desigualdade √© evidente. Nas obras de longa metragem lan√ßadas neste mesmo per√≠odo, 80% t√™m como realizadores homens brancos, 14% s√£o mulheres brancas, ¬†2% s√£o homens negros e 0% s√£o mulheres negras[3].

A ANCINE ‚Äď Agencia Nacional de Cinema, em estudo recente realizado por sua Superintend√™ncia de An√°lise de Mercado, sobre¬†Diversidade de g√™nero e ra√ßa nos lan√ßamentos brasileiros de 2016, confirmou as pesquisas do GEMAA. Trata-se do primeiro estudo com este recorte realizado pela ANCINE. Trabalhando como universo de pesquisa os 142 longas-metragens lan√ßados comercialmente naquele ano, constitu√≠do por 97 fic√ß√Ķes, 44 document√°rios e uma anima√ß√£o, constatou¬†que:

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† Os homens brancos assinaram a dire√ß√£o de 107 destes filmes, que corresponde a 75,4% do¬†total;

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† ¬†As mulheres brancas dirigiram 28, igual a¬†19,7%;

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† Os homens negros somente 3, ficando na percentagem √≠nfima de¬†2,1%.

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† E em nenhum deles foi dirigido ou roteirizado por uma mulher¬†negra.

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† ‚ÄúA an√°lise apontou o dom√≠nio de homens brancos n√£o apenas na dire√ß√£o, mas nas principais fun√ß√Ķes de lideran√ßa no cinema, o que evidencia que as hist√≥rias exibidas nas telas do pa√≠s, produzidas por brasileiros, t√™m sido contadas majoritariamente do ponto de vista dos homens: 68% deles assinam o roteiro dos filmes de fic√ß√£o, 63,6% dos document√°rios, e 100% das anima√ß√Ķes brasileiras de 2016.¬† Os homens dominam tamb√©m as fun√ß√Ķes de dire√ß√£o de fotografia (85%) e dire√ß√£o de arte¬†(59%).

–¬†¬†¬†¬†¬†¬† A participa√ß√£o nos elencos das obras tamb√©m mostra a sub-representa√ß√£o da popula√ß√£o negra.¬†(‚Ķ)o percentual de negros e pardos no elenco dos 97 filmes brasileiros de fic√ß√£o lan√ßados em 2016 foi de apenas 13,4%‚ÄĚ.[4]

O segmento audiovisual mais bem sucedido no Brasil em termos de p√ļblico e lucratividade, e tamb√©m extremamente rent√°vel em termos de exporta√ß√£o[5], ¬†sempre foi as telenovelas. Em um ter√ßo daquelas produzidas em seus primeiros 35 anos de hist√≥ria, no per√≠odo de 1963-1998, estudado em meu livro¬†A Nega√ß√£o do Brasil ‚Äď o negro na telenovela brasileira[6], ¬†n√£o apareceu pessoas negras nem mesmo como figurantes. Nos outros dois ter√ßos, 90% dos personagens afro-brasileiros, representavam os negros como destinados a serem eternamente subalternos, a servir as elites e a classe m√©dia branca. E nas poucas novelas que abordavam o persistente racismo da sociedade brasileira, a figura salvadora era sempre uma branca, um estere√≥tipo inspirado no mito da princesa Isabel, sempre celebrada em nossa hist√≥ria como aquela que assinou a aboli√ß√£o da escravid√£o no¬†Brasil.

Em levantamento do GEMAA[7]¬†sobre as telenovelas exibidas entre 1985 e 2014 constatou-se tamb√©m que houve apenas 8,8% de atores ou atrizes n√£o brancos contratados em suas¬†produ√ß√Ķes.

Mas me interessa aqui refletir porque persiste a dificuldade, manifesta por uma parcela significativa do cinema brasileiro, em aceitar esta desigualdade, reconhecer a import√Ęncia deste protagonismo e buscar representar em suas obras um pa√≠s mais pr√≥ximo do real de sua composi√ß√£o racial e¬†cultural.

Uma das explica√ß√Ķes que encontro √© que todos, ou quase todos, profissionais de TV e cinema no Brasil, em seu processo de forma√ß√£o, receberam e compartilharam as mesmas interpreta√ß√Ķes do Brasil que depois fariam parte dos seus filmes. Se elencarmos aqui os mais importantes nomes da intelectualidade que s√£o estudados nas universidades brasileiras, e foram parte de nossa forma√ß√£o, encontramos no topo Gilberto Freyre, Raimundo Faoro, Fernando Henrique Cardoso e S√©rgio Buarque de Holanda. Destaco aqui parte do debate que o soci√≥logo Jess√© de Souza[8]¬†faz em seus livros mais recentes, demonstrando que a esquerda branca brasileira nunca construiu uma interpreta√ß√£o alternativa √† leitura liberal do Brasil, que tem os pensadores da sociedade brasileira acima citados como seus grandes construtores. Para nenhum deles o nosso maior problema √© a desigualdade social e racial, e consequentemente o racismo, fundados na escravid√£o. O patrimonialismo oriundo da coloniza√ß√£o portuguesa √© que seria o grande problema do Brasil, √© ele que teria conformado um brasileiro eternamente vira-lata, pr√©-moderno, emotivo e¬†corrupto.

Veremos que nas an√°lises e considera√ß√Ķes destes pensadores existe um elemento em comum: a compreens√£o que a influ√™ncia negativa das desigualdades e preconceitos fundados em uma escravid√£o, que durou quatro s√©culos, teria acabado, como em um passe de m√°gica, com a aboli√ß√£o da escravatura e com a importa√ß√£o massiva de imigrantes brancos da Europa. Esses imigrantes, pretensamente, formariam exclusivamente a nossa classe oper√°ria, seriam respons√°vel pelo surgimento do capitalismo industrial brasileiro e pelas bases de um pa√≠s¬†moderno.

Uma abolição inconclusa e uma vanguarda que continua lendo o país de forma errada

Na tentativa de fazer uma grande e rápida síntese, vou aqui demarcar os aspectos mais importantes desta base teórica que conformam uma visão do que caracterizaria o Brasil e os brasileiros, e que continua com algumas nuances sendo refletida em nossos filmes até Vazante.

A interpreta√ß√£o dominante e original do Brasil, que foi seguida ou criticada por quase todos os outros intelectuais marcantes do pa√≠s, foi criada por Gilberto Freyre, autor do cl√°ssico¬†Casa Grande e Senzala. Uma interpreta√ß√£o que, em s√≠ntese, afirma que viemos de Portugal e temos um jeito espec√≠fico de ser por essa heran√ßa lusitana. Em sua vis√£o romantizada do colonizador, ele descrevia o portugu√™s como: ‚Äúum espanhol sem a flama guerreira nem a ortodoxia dram√°tica; um ingl√™s sem as duras linhas puritanas. O tipo do contemporizador. Nem ideais absolutos, nem preconceitos inflex√≠veis‚ÄĚ[9]. Destas caracter√≠sticas, que seriam tamb√©m resultado da forma√ß√£o hist√≥rica miscigenada de Portugal, a partir de um longo contato com mouros e judeus na pen√≠nsula ib√©rica, nasceria uma coloniza√ß√£o benevolente e o aspecto soft de nossa escravid√£o. Este conjunto de elementos, por sua vez, possibilitaria no Brasil uma miscigena√ß√£o fundada em coitos consensuais, safados e sensuais, entre o senhor da casa grande e a escrava negra e ind√≠gena, e uma democracia racial¬†sui generis.¬†

Na abertura do cap√≠tulo 04 do mencionado¬† ¬†Casa Grande e Senzala, Gilberto Freyre tem uma senten√ßa fundamental que traz toda a chave de sua leitura racial do Brasil: ‚ÄúTodo brasileiro traz na alma, quando n√£o na alma e no corpo (‚Ķ) a sombra, ou ¬†a pinta, do ind√≠gena e do negro‚ÄĚ porque teria sido ‚Äúembalado por uma mucama negra‚Ä̬†ou sido iniciado sexualmente ‚Äúno amor f√≠sico‚ÄĚ por uma ‚Äúmulata‚ÄĚ, e tamb√©m por que teve um ‚Äúmuleque‚Ä̬†como companheiro[10]. E a√≠ est√° o ‚Äúlugar de fala‚ÄĚ de Gilberto Freyre. O brasileiro de Freyre era homem, branco e ex-senhor ou filho de um senhor de escravos. Este √© o elemento chave para ler o cinema brasileiro hoje e em toda sua hist√≥ria. O negro sempre foi o outro, o indesejado. Admite-se at√© que o brasileiro carrega em si ‚Äúum p√© na cozinha‚ÄĚ, ou na √Āfrica, como diria Fernando Henrique Cardoso, ou a marca da influ√™ncia negra, como diria Gilberto Freyre, mas ele √© naturalmente branco. Esta elimina√ß√£o da no√ß√£o de alteridade em um pa√≠s multirracial, de minoria branca, e esta centralidade do segmento branco na percep√ß√£o do mundo, s√£o parte, portanto, dos paradigmas fundamentais que conformaram o cinema brasileiro e seus¬†autores.

Para o segmento mais √† esquerda, entre os cineastas brasileiros, foi tamb√©m determinante a leitura e o pensamento de Florestan Fernandes, que praticamente foi o primeiro cr√≠tico da ideia de democracia racial brasileira, especialmente seu estudo¬†A integra√ß√£o do negro na sociedade de classes.¬†Neste e em outros escritos de Florestan, que apesar de entender e revelar que a sociedade brasileira √© profundamente racista, acentua uma interpreta√ß√£o equivocada que permanece na cabe√ßa de muitos sobre a participa√ß√£o do segmento negro na hist√≥ria nacional ap√≥s a aboli√ß√£o da escravatura. Aprendemos na vis√£o progressista de Florestan que a situa√ß√£o de subalternidade e explora√ß√£o que o negro sofreu na sociedade brasileira no per√≠odo p√≥s-escravid√£o, baseada no trabalho livre, veio da experi√™ncia deformadora da escravid√£o que criou uma ‚Äúmassa desagregada, inerte, inculta‚ÄĚ, e fez do elemento negro um ser indolente, incapaz de competir com os imigrantes brancos em uma sociedade nova, moderna, industrial e de classe. Ou seja, seres incapazes de participar como cidad√£o livre na emerg√™ncia e expans√£o de um capitalismo dependente, uma vez que foram conformados por uma sociedade de castas que estava em extin√ß√£o. Ao negro, coube apenas o papel ser um ‚Äúelemento residual do sistema social‚ÄĚ, uma grande massa¬†√† ‚Äúmargem da vida social organizada e de toda a esperan√ßa, (que) sucumbe √† pr√≥pria in√©rcia‚ÄĚ. Essa leitura da condi√ß√£o do negro no per√≠odo p√≥s-aboli√ß√£o n√£o se encontra apenas em Florestan Fernandes, foi tamb√©m abra√ßada pela intelectualidade progressista como Oct√°vio Ianni e at√© mesmo por Celso Furtado em seu ‚ÄúForma√ß√£o Econ√īmica do Brasil‚ÄĚ. (ver¬†Onda negra, medo branco[11]).

Como não acreditar que a falta de mobilização e de indignação de nossos cineastas mais à esquerda em incluir em sua pauta política o nosso racismo cotidiano e a exterminação de jovens negros na periferia, fruto de uma autêntica política de genocídio, não seriam decorrência destas leituras?

Protagonismo negro. Um trovão no céu azul?

O ano de 2017 foi especialmente marcante se observamos os pr√™mios recebidos pelos negros. Alguns filmes, cineastas, atores e atrizes foram premiados repetidamente em v√°rios festivais do pa√≠s. O Festival de Bras√≠lia inaugurou o ciclo de premia√ß√Ķes e reconhecimento do longa ficcional¬†Caf√© com Canela, dirigido pela jovem negra Glenda Nic√°cio, em parceria com Ary Rosa, que receberam o pr√™mio do J√ļri Popular de melhor filme, e de melhor atriz e melhor roteiro do J√ļri Oficial. Da mesma forma, os curta-metragens de diretores e diretoras negras¬†Nada,¬†¬†Peripat√©tico, Chico e Deus √© uma mulher negra¬†tamb√©m foram repetidamente premiados em Bras√≠lia e em v√°rios outros festivais do pa√≠s. E um grupo significativo de novas atrizes e atores negros emergiram nesta nova onda. Especialmente, o cinema reconheceu a pot√™ncia da atriz e dramaturga Grace Pass√ī, j√° celebrada no teatro, que abocanhou o pr√™mio de melhor atriz no Festival de Cinema do Rio, por sua atua√ß√£o no filme¬†Pra√ßa Paris.

Mas o festival que mais atestou a exist√™ncia de um novo momento na hist√≥ria do cinema brasileiro, com o surgimento de uma verdadeira onda de cinema negro, foi o¬†Encontro de Cinema Negro Brasil, √Āfrica e Caribe, criado pelo ic√īnico ator Z√≥zimo Bulbul, e que comemorou 10 anos de exist√™ncia em 2017. Nesta √ļltima edi√ß√£o do festival, que prefere se chamar de Encontro, teve a participa√ß√£o de 65 filmes realizados por negras e negros brasileiros, sendo tr√™s deles longa-metragens. Um crescimento de cem por cento, em rela√ß√£o √† sua edi√ß√£o anterior que apresentou 33 filmes de afro-brasileiros. Progressivamente, o Encontro est√° deixando de ser um festival marcado pela exibi√ß√£o de filmes internacionais para ter como maior destaque os lan√ßamentos nacionais. Mas, a√≠ evidenciou-se tamb√©m que uma parcela cada vez maior de jovens est√° produzindo os seus filmes de forma independente, mesmo sem ainda contar com o apoio de editais criados pelo governo ou pela iniciativa privada. O desejo de fazer, e uma esp√©cie de urg√™ncia hist√≥rica, tem mobilizado indiv√≠duos e coletivos em todas regi√Ķes do pa√≠s e uma intensa produ√ß√£o que desembocou em um n√ļmero recorde de inscri√ß√Ķes no processo seletivo deste festival: 110 curtas, m√©dias e¬†longas.

Mas de onde vieram as bases desta explos√£o de realizadores negros, se considerarmos que at√© recentemente √©ramos poucos, e poss√≠veis de contar com somente os dedos de duas m√£os? Uma outra micro-revolu√ß√£o na sociedade brasileira tem colaborado para uma emerg√™ncia de atores sociais negros no cinema, na TV, no teatro e nas redes sociais. O ber√ßo est√°, seguramente, nos milhares de novos profissionais que tiveram acesso √†s universidades brasileiras com a aprova√ß√£o de cotas para estudantes negros e negras. Nos seus dez primeiros anos, o percentual de negros quase dobrou na universidade brasileira. ‚ÄúEm 2005, um ano ap√≥s a implementa√ß√£o de a√ß√Ķes afirmativas, como as cotas, apenas 5,5% dos jovens pretos e pardos na classifica√ß√£o do IBGE (‚Ķ) frequentavam uma faculdade. Em 2015, 12,8% dos negros entre 18 e 24 anos chegaram no n√≠vel superior. (‚Ķ) Comparado com os brancos, no entanto, o n√ļmero equivale a menos da metade dos jovens brancos com a mesma oportunidade‚ÄĚ[12]. Para compreender este aumento percentual em termos num√©ricos, somente em tr√™s anos, de 2013 a 2015, o n√ļmero significativo de 150 mil novos estudantes negros entraram nas universidades¬†brasileiras.

Assim como no cinema, o aumento exponencial de negros nas universidades n√£o aconteceu sem uma enorme resist√™ncia de setores intelectuais, inclusive entre aqueles que se consideram progressistas ou de esquerda¬†[13]. Lembremos aqui que a grande m√≠dia brasileira tamb√©m jogou um papel preponderante na valoriza√ß√£o desta resist√™ncia. Como t√°tica para impedir o crescimento de universidades que aprovariam cotas, esta m√≠dia¬† praticamente ignorou os intelectuais e artistas negros, e a exist√™ncia de uma opini√£o ou de reflex√Ķes entre as lideran√ßas negras sobre o t√≥pico. Especialmente daqueles que foram os formuladores da pol√≠tica de cota, e da lei de diretrizes para o ensino das rela√ß√Ķes √©tnico raciais. Eles estiveram praticamente ausentes dos cadernos de debates nos grandes jornais ou entre aqueles que foram convidados para os programas de TV espec√≠ficos sobre o tema. Em oposi√ß√£o a eles, a grande m√≠dia usou regularmente da opini√£o contr√°ria de figuras fundamentais da intelectualidade e do mundo art√≠stico branco para deslegitimar o discurso e a reivindica√ß√£o dos negros. E, neste contexto, para os poucos que furaram o bloqueio, o termo ‚Äúmilitante‚ÄĚ foi ostensivamente utilizado para demonstrar o qu√£o irrelevante ou parcial eram suas opini√Ķes em um debate t√£o importante para o futuro da universidade¬†brasileira.

Vazante, de Daniela Thomas

Creio que aqui temos um quadro amplo para entender a gravidade da reutiliza√ß√£o na pol√©mica sobre¬†Vazante¬†da classifica√ß√£o da opini√£o dos negros e negras como ‚Äúequivocada, ressentida e militante‚ÄĚ. Chegamos a um ponto de muta√ß√£o, ou a um limite, em que o mundo do cinema n√£o pode mais ignorar que 90% da produ√ß√£o cinematogr√°fica atual continua sendo feita por brancos e brancas, com prefer√™ncia por atores e atrizes brancas. Portanto, tratar da escravid√£o, um per√≠odo da hist√≥ria do Brasil que marca nossas vidas at√© hoje, somente com um olhar a partir da Casa Grande, √© que continua sendo um verdadeiro equ√≠voco. O lugar de fala, o lugar da constru√ß√£o narrativa do cinema brasileiro, vai continuar sendo c√ļmplice do nosso racismo cotidiano se expressar apenas o ponto de vista do brasileiro branco gilberto freyriano. E continuaremos nos comportando como vira-latas e colonizados se os negros continuarem sendo tratados como uma minoria, como a ral√© indesejada que n√£o sabe o seu lugar¬† e/ou como perturbadores da marcha irrevers√≠vel do¬†branqueamento.

A prop√≥sito das cr√≠ticas que os negros e negras receberam por seu protagonismo questionador no Festival de Cinema de Bras√≠lia, uma cineasta que se destaca nesta nova gera√ß√£o, Viviane Ferreira, traduz muito bem a perplexidade de toda esta hist√≥ria: ‚Äúa nossa presen√ßa m√≠nima incomoda mais que nossa aus√™ncia hist√≥rica nestes¬†espa√ßos‚ÄĚ.

[1] PNAD-C Distribuição da população por cor e raça de 2016. Ver: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/18282-pnad-c-moradores.html

[2]¬†O¬†GEMAA¬†(Grupo de Estudos Multidisciplinar da A√ß√£o Afirmativa) √© um n√ļcleo de pesquisa com sede no IESP-UERJ, criado em 2008 com o intuito de produzir estudos sobre a√ß√£o afirmativa a partir de uma variedade de abordagens¬†metodol√≥gicas.

[3]¬†MORATELLI, Gabriela e C√āNDIDO, M√°rcia Rangel. A cara do cinema nacional (2002-2014): o perfil de g√™nero e cor dos atores, diretores e roteiristas dos filmes brasileiros. Coordena√ß√£o de Ver√īnica Toste e Jo√£o Feres Junior. GEMAA-IESP-UERJ. Rio de Janeiro, 2016. Dispon√≠vel em¬†http://gemaa.iesp.uerj.br/infografico/infografico1/

[4] ANCINE apresenta estudo sobre diversidade de gênero e raça no mercado audiovisual. 25/01/2018. https://www.ancine.gov.br/pt-br/sala-imprensa/noticias/ancine-apresenta-estudo-sobre-diversidade-de-g-nero-e-ra-no-mercado

[5]¬†SANTOS, Lidia. A telenovela brasileira : do nacionalismo √† exporta√ß√£o.¬†Caravelle. Cahiers du monde hispanique et luso-br√©silien¬†¬†Ann√©e 2000¬†¬†75¬†¬†pp. 137-150. Fait partie d‚Äôun num√©ro th√©matique :¬†Nouveaux Br√©sils ‚Äď Fin de si√®cle.

[6]¬†ARAUJO, Joelzito. A Nega√ß√£o do Brasil ‚Äď o negro na telenovela brasileira. Ed. Senac, SP,¬†2001.

[7]¬†CAMPOS, Luiz Augusto e JUNIOR, Jo√£o Feres. ‚ÄúGlobo, a gente se v√™ por aqui?‚ÄĚ Diversidade racial nas telenovelas das √ļltimas tr√™s d√©cadas (1985-2014). Plural Revista de Ci√™ncias Sociais. V. 23, n. 1. S√£o Paulo: Universidade de S√£o Paulo, 2016. Dispon√≠vel em¬†http://www.revistas.usp.br/plural/article/view/118380/115938

[8]¬†O soci√≥logo Jesse de Souza tem se destacado como um dos maiores cr√≠ticos das interpreta√ß√Ķes cl√°ssicas do Brasil criadas a partir dos anos 30. Seus livros mais conhecidos s√£o:¬†A Elite do Atraso: da escravid√£o ao Lava-jato¬†(2017);¬†A Tolice da intelig√™ncia Brasileira¬†(2015);¬†A ral√© brasileira: quem √© e como vive¬†(2009).

[9] FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. Lisboa: Edição Livros do Brasil, 1933/1983. p.191

[10]¬†FREYRE, Gilberto.¬†Casa-grande & senzala: forma√ß√£o da fam√≠lia brasileira sob o regime de economia patriarcal. Rio de Janeiro: Livraria Jos√© Olympio Editora. 8a. Edi√ß√£o ‚Äď 2o. Volume. 1954.¬†p.489.

[11]¬†AZEVEDO, C√©lia Maria Marinho.¬†Onda Negra.¬†Medo Branco. O negro no imagin√°rio das elites. S√©c. XIX. S√£o Paulo: Paz e Terra, 1987. Jornal UNIVERSIT√ĀRIO. Porto Alegre, RS. P√°ginas¬†19-23.

[12]¬†VIEIRA, Isabela. Percentual de negros em universidades dobra mas √© inferior ao de brancos.¬†http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-12/percentual-de-n…

[13]  Marcus Eugênio OLIVEIRA LIMA, Paulo Sérgio Da COSTA NEVES e Paula BACELLAR E SILVA.  A implantação de cotas na universidade: paternalismo e ameaça à posição dos grupos dominantes. Revista Brasileira de Educação v. 19 n. 56 jan.-mar. 2014. http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v19n56/v19n56a08.pdf

Artigo publicado originalmente em Cin√©mas d‚Äôam√©rique latine ‚Äď Revue annuelle de l‚ÄôAssociation Rencontres Cinemas d‚ÄôAmerique Latine de Tolouse-(ARCAL ‚Äď n√ļmero 26)¬†2018.

por¬†Joel Zito Ara√ļjo

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Publicado no site BUALA dia 04, de abril, 2018 O tenso enegrecimento do cinema brasileiro

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NOTA P√öBLICA DE PESAR E SOLIDARIEDADE A MARIELLE FRANCO

O país acordou num clima de tristeza num cenário de horror nesta quinta-feira dia 15/03/18.
“Precisamos gritar para que todos saibam o est√° acontecendo em Acari nesse momento (…) Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um val√£o. Hoje a pol√≠cia andou pelas ruas amea√ßando os moradores. Acontece desde sempre e com a interven√ß√£o ficou ainda pior” Marielle Franco

O Grupo KILOMBAGEM vem a p√ļblico manifestar seu pesar diante dos b√°rbaros assassinatos ocorridos no Rio de Janeiro em 14/03/2018.
Entre esses assassinatos ocorrido, um em especifico obteve uma atenção nacional e internacional, o da socióloga e vereadora Marielle Franco, executada com 9 tiros no centro do Rio de Janeiro. Ela estava acompanhada de Anderson Pedro Gomes, motorista que também foi alvejado.

Marielle estava exercendo seu primeiro mandato como vereadora, por√©m seu passos v√™m de longe: feminista, negra e ‚Äúcria da Mar√©‚ÄĚ, como se apresentava, tornou-se conhecida pelos movimentos sociais do pa√≠s, devido sua atua√ß√£o na √°rea de Direitos Humanos, nas periferias e combatente de todo tipo de injusti√ßas sociais, na constru√ß√£o de uma nova sociabilidade. Ela havia sido a quinta vereadora mais votada da cidade do Rio de Janeiro.
Na noite da execu√ß√£o, Marielle participava do evento ‚ÄúJovens Negras Movendo as Estruturas‚ÄĚ organizado pela mesma na Lapa.

Uma pergunta que poderia ser feita, neste momento √©: por que esse assassinato , em espec√≠fico, obteve repercuss√£o nacional? A lista de lideran√ßas pol√≠ticas populares assassinadas¬† n√£o para de crescer e os √≠ndices de mortalidade por causa causas externas entre a popula√ß√£o negra permitem falar tranquilamente em projeto de genoc√≠dio da popula√ß√£o negra brasileira. Mas ao contr√°rio do referido caso, o que se tem observado √© um sil√™ncio assustador a respeito desse processo, silencio esse partilhado pelas mais diversas agremia√ß√Ķes do espectro pol√≠tico e ideol√≥gico brasileiro.

Marielle Franco – Por Bianca Foratori

Talvez, a atual visibilidade, seja porque recentemente, a Marielle tenha sido indicada como relatora da Comissão que iria acompanhar a Intervenção (Militar) Federal no Rio, além de denunciar a chacina que levou a morte de jovens por policiais em Acari e de outros bairros pobres do Rio de Janeiro. Outra explicação, pode ser o atual contexto de derrotas e retrocessos nos mais diversos campos. O momento político nos empurra derradeiramente ao precipício e o acontecido pode ter sido o estopim para a percepção do estágio em que chegamos e o estímulo uma discussão ampla sobre a amplitude do racismo e os seus entroncamentos de classe e gênero no Brasil.

O fato é que, há uma disputa de narrativas em torno da morte e alguns setores conservadores (de direita), têm pego carona em nossa indignação para defender exatamente aquilo que Marielle mais criticava: a Militarização das favelas. Há uma armadilha nessa aposta da intervenção (militar) como resposta à corrupção policial no Rio de Janeiro, como se a própria polícia não fosse o que é, exatamente por sua dimensão militarizada.
Do outro lado, h√° uma mobiliza√ß√£o de setores (que vai das fra√ß√Ķes da m√≠dia burguesa √† setores da esquerda institucional) que mesmo sem levar a s√©rio a luta contra o racismo em suas fileiras, t√™m mobilizado as consignas ‚Äúmilitariza√ß√£o‚ÄĚ e/ou ‚Äújuventude negra e pobre das favelas‚ÄĚ para contextualizar o fato, sem contudo, apresentarem uma agenda (a curto, m√©dio e longo prazo) que demonstre um compromisso efetivo com essa agenda e com aqueles que se mobilizam em torno dela. H√° tamb√©m aqueles que, embora reconhe√ßam a centralidade do racismo como explica√ß√£o dos problemas enfrentados por Marielle, ignoram as dimens√Ķes de classe presentes no problema e aproveitam o ocorrido para destilar seu ressentimento com a esquerda (branca, de classe m√©dia, do asfalto, etc).

A √ļnica coisa que une a todos √© a indigna√ß√£o e perplexidade diante de um crime que apresenta fortes ind√≠cios de execu√ß√£o. N√£o esque√ßamos que no domingo, 11/03, Marielle denunciou uma a√ß√£o de PMs do 41¬ļ BPM (Iraj√°) na Favela de Acari. Segundo ela, moradores reclamaram da trucul√™ncia dos policiais durante a abordagem a moradores. Ela compartilhou uma publica√ß√£o em que comenta que os rapazes foram jogados em um val√£o. De acordo com moradores, no √ļltimo s√°bado, os PMs invadiram casas, fotografaram suas identidades e aterrorizaram populares no entorno.
O que nos preocupa, para além da dor irreparável de perder uma guerreira e ser humano singular como foi Marielle, é o dia seguinte à comoção e a disputa em torno das narrativas: Exigimos justiça e investigação imediata do ocorrido, mas quem fará a investigação? A Polícia Militar do Rio de Janeiro: a principal suspeita do ocorrido? A Força Tarefa do exército: aquela denunciada por Marielle como responsável pela intensificação do problema da violência no Rio, e não a solução?

A Marielle merece mais de n√≥s, e vinha nos avisando que as mortes continuar√£o, mesmo que se aponte um indiv√≠duo – bode-expiat√≥rio para a sua morte – a n√£o ser que as nossas apostas se deem em outro lugar: na luta pol√≠tica irrestrita que envolva a mobiliza√ß√£o direta das comunidades – estar com elas, e n√£o apenas escrever notas de rep√ļdio – e sobretudo, articula√ß√£o das lutas de ra√ßa, classe e g√™nero. Uma frente ampla que n√£o aceite mais nenhuma gota de sangue derramada e esteja a altura de repetir a mesma indigna√ß√£o aqui observada a todas/os as/os outras/as Marielle que ainda vir√£o por conta da presen√ßa do ex√©rcito no Rio de Janeiro, da perman√™ncia dessa l√≥gica militarizada das pol√≠cias brasileiras, e da guerra encarni√ßada entre traficantes, mil√≠cias, e Estado no Brasil.
Ou responderemos à altura, ou seremos atropelados pela disputa ideológica e manipuladora em torno de nosso luto.

‚Äú… Quem s√£o essas mulheres negras que est√£o na favela?
Seus filhos, suas perdas, suas lutas, seus trabalhos‚Ķ‚ÄĚ questionava Marielle.
Toda solidariedade às famílias de Marielle e Anderson.
Pelo fim da violência do Estado.
Pelo fim da intervenção militar no RJ
Pelo fim da perseguição de militantes de direitos humanos
Pelo direito de defesa dos direitos
Basta de execução!
#SomosTodosMarielle #MariellePresente

“Isto sempre acontece. Todos os negros que mudam o mundo de alguma forma morrem. Mas eles nunca morrem de maneiras normais, eles sempre morrem de forma violenta.”
Tupac Shakur

Grupo Kilombagem

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Coletivos: espa√ßos t√≥xicos para a milit√Ęncia? (2)

√Č preciso exercitar o racioc√≠nio, voltar-se mais uma vez √† an√°lise das pr√°ticas sociais, sair do tarefismo e da papagaiada, criar quadros de pensamento e formas de luta que permitam escapar da armadilha identit√°ria. Por Passa Palavra

Leia a primeira parte clicando aqui!

Bradar aos quatro cantos que o identitarismo não oferece respostas não é suficiente, pois não aponta saídas práticas nem leva a outros modos de colocar a questão. A crítica ao identitarismo, enquanto crítica, não tem obrigação alguma de pautar o que quer que seja senão os limites lógicos e práticos daquilo que critica.

Por isto mesmo, como qualquer cr√≠tica pol√≠tica, deve ser complementada pela a√ß√£o pol√≠tica coerente com os resultados da cr√≠tica “Mas que tend√™ncias apontam alternativas? A quest√£o n√£o diz respeito √† perspectiva emocional, mas a uma an√°lise das capacidades de transforma√ß√£o produzidas por meio de cada forma organizativa.

Um caminho, interessante mas ainda individual, √© o de lidarmos com nossos pr√≥prios egos na atua√ß√£o em coletivos. H√° quem diga que √© necess√°rio restringir ao m√°ximo nos coletivos o espa√ßo dos egos e dos problemas pessoais trazidos a tais espa√ßos.

A milit√Ęncia n√£o pode exigir de um coletivo ou de um movimento social que ele abarque a totalidade da vida, que tenha solu√ß√Ķes para todos os problemas do cotidiano e preencha todos os vazios existenciais. √Č preciso ser terno, sempre, mas sem perder a dureza jamais.

Alguns grupos com objetivos mais definidos, por exemplo, tendem a durar mais; por outro lado, eles podem se tornar rasos com facilidade. Paralelamente, surge uma quest√£o: seria preciso haver algum tipo de procedimento de cuidado com a sa√ļde f√≠sica e mental dos militantes? Isto leva tempo para se construir, e pode terminar completando de outras formas o sequestro de pauta iniciado pelo identitarismo.

H√°, por outro lado, quem queira coletivizar a quest√£o. Note-se: coletivizar a quest√£o, n√£o coletivizar a puni√ß√£o.

Pois punir √© f√°cil: basta xingar, ‚Äúdar um gelo‚ÄĚ, botar para fora dos espa√ßos, tudo isto √© simples. Complicado mesmo √© buscar as ra√≠zes do problema: cortar na carne, assumir que cada caso de viol√™ncia individual expressa um problema sist√™mico, o que implica na participa√ß√£o, na busca por solu√ß√Ķes coletivas, de todos os sujeitos envolvidos nos casos de viol√™ncia.Uma analogia pode ajudar na compreens√£o.

As lutas entre trabalhadores e capitalistas fundam-se na explora√ß√£o econ√īmica, n√£o raro acompanhada de viol√™ncia f√≠sica e psicol√≥gica.

Estas lutas tornam-se tanto mais fortes quanto mais trabalhadores de empresas diferentes, de setores econ√īmicos diferentes etc. integram-se num s√≥ processo de lutas.

√Č a supera√ß√£o pr√°tica daquele individualismo a que nos referimos anteriormente.

A fragmenta√ß√£o entre os trabalhadores beneficia enormemente os capitalistas, porque podem, ent√£o, conter as lutas no espa√ßo de uma empresa, de uma cadeia produtiva ou de um setor econ√īmico, evitando, assim, tocar nos fundamentos da explora√ß√£o da for√ßa de trabalho.

Os efeitos da analogia, entretanto, n√£o s√£o dos melhores. A rela√ß√£o entre capitalistas e trabalhadores √© mediada por mercadorias: a for√ßa de trabalho no capitalismo √© transformada em mercadoria, assim como os bens que os trabalhadores necessitam para viver bem. 

Parece mais simples despersonalizar a quest√£o, objetiv√°-la, quando h√° algo que medeie a rela√ß√£o, que ‚Äď neste caso ‚Äď d√™ aos sujeitos a apar√™ncia de estarem apartados pelas for√ßas do mercado.

√Č poss√≠vel, entretanto, dizer que viol√™ncias racistas e machistas s√£o mediadas pelo que quer que seja? 

Há algo tão concreto como o salário que se interponha entre o racista ou o machista e sua vítima para que o racismo funcione?

N√£o; pode-se ser racista ou machista independentemente do assalariamento, de bens etc. √Č esta aparente imediatidade que d√° ao racismo e ao machismo a apar√™ncia de problemas individuais, a serem tratados individualmente.

N√£o √© por acaso que as a√ß√Ķes punitivas defendidas pela milit√Ęncia identit√°ria como formas de combate ao machismo e ao racismo, especialmente o escracho, todas tenham nos indiv√≠duos seu ponto de refer√™ncia.

Incapazes de ensaiar quaisquer outras respostas ao machismo e ao racismo que n√£o as formas individualistas que lhe s√£o pr√≥prias, a milit√Ęncia identit√°ria, perdida na satisfa√ß√£o de seus pr√≥prios egos ‚Äúempoderados‚ÄĚ, sempre que se focam nos companheiros da milit√Ęncia anticapitalista terminam empurrando os alvos deste punitivismo a formas de defesa igualmente individualizadas, quando n√£o a buscar prote√ß√£o junto ao Estado.

Resultado: combate-se o racista, combate-se o machista, combate-se o indiv√≠duo, enquanto suas pr√°ticas e seus fundamentos passam ao largo de qualquer enfrentamento, permanecem em circula√ß√£o, e produzir√£o seus efeitos delet√©rios mais adiante.

Mas o que se quer dizer com isto? Que √© preciso exercitar o racioc√≠nio, voltar-se mais uma vez √† an√°lise das pr√°ticas sociais, sair do tarefismo e da papagaiada, criar quadros de pensamento e formas de luta que permitam escapar desta armadilha.

Um exemplo, no que diz respeito aos quadros de pensamento, que √© aquilo a que se pode limitar uma publica√ß√£o sem liga√ß√Ķes org√Ęnicas com qualquer grupo militante.

Racismo e machismo são formas de violência expressivas de um desejo por superioridade, e portanto expressam igualmente o projeto de uma sociedade formada por elementos sociais explicitamente desiguais.

Numa sociedade onde se pretende que todos sejam tratados como iguais; onde se projeta a vig√™ncia da igualdade de acesso a cargos e fun√ß√Ķes p√ļblicas, a vig√™ncia da igualdade de emitir opini√£o sobre qualquer assunto nos espa√ßos p√ļblicos e nas esferas p√ļblicas, e a vig√™ncia da submiss√£o de todos √†s mesmas regras, sem distin√ß√Ķes de qualquer tipo; numa tal sociedade, o que h√° √© uma contradi√ß√£o entre este projeto de igualdade e o projeto de desigualdade defendido, expl√≠cita ou implicitamente, por racistas e machistas.

Há quem leia o parágrafo anterior e diga que se trata de um exercício cerebrino de raciocínio. Faltou dizer que não há raciocínio político digno de menção que não seja a síntese de tendências históricas.

Veja-se o racismo: ele interessa aos capitalistas, entre outras coisas, porque faz com que um negro trabalhando na mesma fun√ß√£o que um branco ganhe menos que este √ļltimo, estimulando as press√Ķes por baixas salariais; ao mesmo tempo, o racismo estimula entre os negros a busca por maiores qualifica√ß√Ķes de sua for√ßa de trabalho, especialmente por meio da educa√ß√£o t√©cnica ou universit√°ria, e como o negro que superqualificou sua for√ßa de trabalho nos quadros de uma sociedade atravessada pelo racismo seguir√° ganhando menos que um branco exercendo a mesma fun√ß√£o, o resultado √© a desvaloriza√ß√£o da for√ßa de trabalho dos dois.

O mesmo raciocínio aplica-se, em igual situação, ao machismo. Isto sem falar, é claro, do uso da força de trabalho dos negros escravizados recém-libertos como exército industrial de reserva, da desvalorização do trabalho doméstico realizado por mulheres como forma de rebaixar os custos com a reprodução da força de trabalho (e, portanto, aumentando os lucros dos capitalistas nas empresas)…

O racismo, o machismo e outras formas de violência, portanto, não apenas nos formam enquanto sujeitos quando empregues pelos capitalistas para explorar melhor a nós todos que somos trabalhadores; vistos por esta perspectiva, é aos capitalistas que interessa mais a violência racista e machista, muito mais que a nós, trabalhadores.

Se tanto o racismo quanto o machismo nos formam enquanto sujeitos, combat√™-los implica, entre outras coisas, formar novamente estes sujeitos, reorientar suas pr√°ticas de modo a implementar aquele projeto de igualdade a que nos referimos.

Isto implica trabalhar para esta reorienta√ß√£o em cada caso concreto de acordo com as possibilidades; este trabalho pode, inclusive, ter na ruptura de rela√ß√Ķes pol√≠ticas uma consequ√™ncia √ļltima, mas nunca uma a√ß√£o imediata e priorit√°ria.

Como se v√™, n√£o negamos a necessidade de a√ß√Ķes disciplinares; o que negamos √© o car√°ter estritamente punitivista e fratricida destas medidas, tal como v√™m sendo adotadas nos ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ.

Note-se: o fato de o racismo e o machismo interessarem mais aos capitalistas não significa que não haja trabalhadores que se beneficiem deles individualmente; o problema está na contradição entre os benefícios imediatos que estes trabalhadores possam eventualmente obter de suas práticas machistas e racistas e os prejuízos causados à classe inteira por estas duas formas de violência.

A¬†explicita√ß√£o desta contradi√ß√£o¬†√© tarefa constante dos coletivos anticapitalistas, n√£o por ‚Äúempatia‚ÄĚ com os oprimidos ou qualquer sentimentalismo do tipo; trata-se da an√°lise mais fria e dura das consequ√™ncias pol√≠ticas do racismo e do machismo, e por tal √≥tica o moralismo e o sentimentalismo caracter√≠sticos da milit√Ęncia identit√°ria n√£o t√™m vez.

Este é um exercício de interpretação da realidade, entre tantos outros; sua característica distintiva é a desindividualização da questão e a assunção de que se trata de um problema sistêmico do capitalismo.

Neste quadro, torna-se difícil recorrer à particularização de cada caso de violência, pois ele assume de imediato contornos mais amplos que os de cada caso concreto e dificulta a pura e simples punição individualizada.

√Č preciso reconhecer, entretanto, que o esfor√ßo para pautar as viol√™ncias machista e racista de modo coletivizado pode tirar a pouca energia de grupos pequenos, que nem sempre disp√Ķem da capacidade ou mesmo das compet√™ncias necess√°rias para lidar com a quest√£o.

Ainda mais quando se trata do esfor√ßo de ultrapassar os limites de cada coletivo e de buscar solu√ß√Ķes mais amplas para o problema.

Mas quem disse que nos ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ s√£o os afetos que pautam as a√ß√Ķes? Que eles foram criados para tratar dos problemas afetivos de seus integrantes? Os afetos entram nos coletivos de contrabando mesmo, ora como sequestro de pauta, ora como consequ√™ncia de problemas mais s√©rios.

√Č dif√≠cil, por exemplo, organizar qualquer a√ß√£o onde se trabalha sem envolver algum grau de afetividade e confian√ßa pessoal; os crit√©rios a√≠, todavia, n√£o passam por qualquer exig√™ncia de pureza moral, como se d√° nos ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ.

Tudo se agrava ao constatar-se o¬†sectarismo¬†como tra√ßo comum da milit√Ęncia que constr√≥i os tais ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ.

A vontade de construir no presente aquilo que se quer ver constru√≠do no futuro ‚Äď a t√£o falada¬†pol√≠tica prefigurativa, importante contraponto √† proposta das organiza√ß√Ķes pol√≠ticas que pretendem resolver todos os problemas ‚Äúdepois da revolu√ß√£o‚ÄĚ, e s√≥ depois dela ‚Äď terminou resultando em que tais prefigura√ß√Ķes perderam sua radicalidade e se transformaram em verdadeiras bolhas de conv√≠vio, como que sociedades secretas, daquelas cujos membros reconhecem-se mutuamente pela assinatura, pelo aperto de m√£o ou por algum xibol√©.

Sucessivamente derrotados como estamos sendo ‚Äď por enquanto ‚Äď nas lutas contra os capitalistas, minguadas que andam nossas vit√≥rias, muitos entre n√≥s voltaram-se √† constru√ß√£o de rela√ß√Ķes sociais novas¬†entre si pr√≥prios, com m√≠nima ou nenhuma luta com os capitalistas; os coletivos, sob a influ√™ncia deste processo, transformam-se de¬†instrumentos de luta¬†em¬†ilhas de pureza militante, tanto mais ‚Äúpuras‚ÄĚ quanto mais ‚Äúdesviantes‚ÄĚ forem as rela√ß√Ķes sociais novas que se pretende construir.

Os ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ s√£o o local que melhor acolhe os desviantes. Precisamente pela aparente radicalidade das rela√ß√Ķes sociais que pretendem instituir, n√£o s√£o poucos integrantes destes ‚Äúcoletivos‚ÄĚ que, pelo ac√ļmulo de rejei√ß√Ķes e repress√Ķes em outros espa√ßos de conv√≠vio somado a problemas s√©rios de autoestima, t√™m nos coletivos seus espa√ßos preferenciais de sociabilidade.

√Č nele que v√£o desembocar as queixas quanto aos ‚Äúrea√ßas‚ÄĚ e ‚Äúpelegos‚ÄĚ do lado de fora, e √© nele onde se enra√≠zam os refor√ßos intergrupais.

Cedo se torna muito dif√≠cil, quando n√£o imposs√≠vel, dialogar com qualquer outra for√ßa pol√≠tica, grande ou pequena, ‚Äúreformista‚ÄĚ ou ‚Äúrevolucion√°ria‚ÄĚ, especialmente quando estas for√ßas pol√≠ticas organizam-se em modelos diferentes do solipsismo dos ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ.

Como o c√≠rculo de conviv√™ncia social desta milit√Ęncia √© pequeno; melhor dizendo, como √© pequeno o c√≠rculo onde suas ideias e pr√°ticas s√£o tidas como leg√≠timas, e em certos lugares tais c√≠rculos podem corresponder quase totalmente ao tamanho do ‚Äúcoletivo‚ÄĚ ou da ‚Äúcena‚ÄĚ, a atua√ß√£o pol√≠tica destes militantes tende a n√£o mais se dar¬†nos espa√ßos p√ļblicos e na esfera p√ļblica comuns a toda a sociedade, mas¬†ali naqueles espa√ßos onde h√° legitimidade.

De companheiros de luta, militantes passam a colegas de terapia. N√£o √© preciso muito para imaginar, num tal cen√°rio, onde a milit√Ęncia vai buscar preferencialmente suas rela√ß√Ķes sociais, afetivas e sexuais.

De tanto lutar por construir rela√ß√Ķes novas, o que se conseguiu foi uma forma de narcisismo coletivo, ‚Äúempoderador‚ÄĚ dos narcisismos individuais‚Ķ e onde h√° narcisismo, h√° incompreens√£o, o avesso da pol√≠tica.

***

√Č neste cen√°rio que o punitivismo identit√°rio faz a festa.

N√£o vamos tapar o sol com a peneira:¬†j√° dissemos que n√£o vamos nos calar diante de persegui√ß√Ķes a integrantes do Passa Palavra¬†promovidas pelo feminismo sect√°rio e divisionista que temos denunciado desde h√° muitos anos, e¬†mais outro caso nos levou a um pronunciamento p√ļblico.

Diferentemente destas moças, entretanto, não nos interessa caluniar ninguém.

Elas que cuidem de destruir a própria reputação sozinhas; não vamos ajudá-las em seu suicídio político. Interessa-nos, isto sim, aproveitar a oportunidade para elevar o nível do debate e tratar de problemas mais amplos.

O escracho, por exemplo, é uma punição poderosa, assusta, não pela força de quem a pratica, mas pela fraqueza de quem a sofre.

Trata-se do assassinato moral de um sujeito em determinado meio, ou melhor dizendo, exatamente no meio onde se d√£o suas rela√ß√Ķes sociais e afetivas mais importantes.

Vers√£o rediviva da¬†morte civil¬†prevista nas Ordena√ß√Ķes Filipinas, o escracho padece do mesmo problema:¬†s√≥ funciona l√° onde o sujeito apenado submete-se sem mais ao poder e √† influ√™ncia de quem condena.

Quanto mais sect√°rio √© quem milita, quanto menos participa de outros grupos sociais al√©m do ‚Äúcoletivo aut√īnomo‚ÄĚ, quanto mais depende do ‚Äúcoletivo aut√īnomo‚ÄĚ para obter legitima√ß√£o pol√≠tica e afetiva, mais vulner√°vel est√° aos escrachos, aos isolamentos pol√≠ticos, √†s chantagens emocionais.

Inversamente, quanto maior a capacidade de articula√ß√£o pol√≠tica de quem milita, quanto mais conhece e se faz conhecer, quanto mais supera a pris√£o solipsista e fragment√°ria do ‚Äúcoletivo‚ÄĚ (mesmo tendo-o como refer√™ncia), menor √© a chance de se deixar vitimar pelo escracho.

Em suma: quer livrar-se de um escracho? Ignore-o. Pior.

Os escrachos costumam ser escudados na mais pura covardia, principalmente quando são empregues como forma de eliminar alguém de determinado espaço político com base em boatos e disse me disse.

Den√ļncias bem fundamentadas de fatos abjetos como surras, estupros e outras formas de viol√™ncia costumam causar esc√Ęndalo p√ļblico, e s√£o feitas em aberto.

Mesmo considerando a tendência das autoridades policiais de fazer pouco do problema, de insinuar responsabilidade por parte da vítima etc., feliz ou infelizmente é nas delegacias que casos realmente graves vão parar.

Quando as provas n√£o s√£o seguras ‚Äď ou pior, quando os fatos nunca existiram ‚Äď tem in√≠cio um trabalho sujo de cal√ļnia, difama√ß√£o e inj√ļria, t√≠pico de quem optou por esta forma tipicamente individualista e particularmente mesquinha de a√ß√£o pol√≠tica.

Nos meios onde se pode registrar de alguma maneira as provas de cal√ļnia, difama√ß√£o ou inj√ļria, como redes sociais e correios eletr√īnicos, nenhuma den√ļncia √© feita de forma expl√≠cita; brotam, por outro lado, indiretas e refer√™ncias veladas, que remetem a conversas e acordos feitos em espa√ßos informais presenciais ‚Äď por isto mesmo torna-se muito dif√≠cil, quando n√£o imposs√≠vel, qualquer forma de contesta√ß√£o ou contradit√≥rio das den√ļncias.

Reais ou n√£o os fatos, as den√ļncias s√≥ s√£o feitas em grupos de amigos, em especial naqueles onde se sup√Ķe haver ‚Äúconfian√ßa pol√≠tica‚ÄĚ ‚Äď n√£o por acaso, trata-se de espa√ßos onde militam pessoas ligadas aos ‚Äúcoletivos aut√īnomos‚ÄĚ em comum √† pessoa denunciada, para que reverberem tamb√©m nestes espa√ßos.

Constru√≠da deste modo a den√ļncia, com todas as evid√™ncias de quem recebeu boa orienta√ß√£o jur√≠dica para n√£o deixar rastros, pouco importa se ela √© verdadeira ou n√£o; est√° preparada uma armadilha capaz de destruir a reputa√ß√£o de qualquer militante sem qualquer possibilidade de defesa.

Que tipo de sociedade uma tal pr√°tica prefigura?

***

O tipo de ‚Äúsolipsismo coletivo‚ÄĚ que, numa perspectiva puramente individualista e burguesa, se poderia atribuir pura e t√£o somente a alguma ‚Äúimaturidade‚ÄĚ, quando visto de um ponto de vista simultaneamente pol√≠tico e sociol√≥gico mostra-se um potent√≠ssimo instrumento de controle social.

Uma gera√ß√£o inteira de militantes arrisca envenenar-se nos coletivos, tornados espa√ßos t√≥xicos para a milit√Ęncia, se n√£o for capaz de reverter as tend√™ncias apontadas.

Por Passa Palavra

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Nota de apoio

a militantes perseguidos e pela defesa de Rafael Braga Vieira!

 

“Domado eu não vivo, eu não quero seu crime

Ver minha m√£e jogar rosas

Sou cravo, vivi dentre os espinhos treinados com as pragas da horta

Pior que eu já morri tantas antes de você me encher de bala

N√£o marca, nossa alma sorri

Briga √© resistir nesse campo de fardas‚ÄĚ

Rico Dalasam

A estatística tem cor, tem classe social e endereço. Basta!

Basta de criminalização da pobreza e criminalização das lutas sociais!

Vocês sabiam que um estudante negro da Unicamp está sendo perseguido com uma suspensão de dois semestres porque estava defendendo cotas?i

E que um estudante negro universit√°rio da UEMS (Mato Grosso do Sul) est√° sendo processado porque portava um mam√£o durante uma sess√£o C√Ęmara Municipal de Parana√≠ba, no qual se posicionava contr√°rio ao reajuste salarial que concedia aumento para o prefeito, ao vice, aos secret√°rios municipais e vereadores? Al√©m de ter sido agredido por 03 agentes de seguran√ßa p√ļblica do Estado ele agora est√° respondendo um processo por agredir 03 agentes em que cuja arma era uma fruta?

 

 

Pois √©, com Rafael foi o desinfetante e com Welliton Lopesii foi por conta de um mam√£o. Um mam√£o!!!! A agress√£o que ele sofreu foi na √ļltima segunda-feira, 24, e ele estava com um grupo de pessoas que se manifestaram contra esse reajuste aprovado pelo Legislativo na semana passada. O universit√°rio Wellington Aparecido Santos Lopes, de 20 anos, estudante de ci√™ncias sociais da Uems (Universidade Estadual de Mato Groso do Sul) acabou preso pela Pol√≠cia Militar ap√≥s entrar na Casa de Leis com um mam√£o em suas m√£os e ‚Äú…dirigir-se aos vereadores em tom de amea√ßa‚ÄĚ conforme noticiou a m√≠dia local. Ele est√° em liberdade, mas est√° respondendo pelo processo injustamente.

São muitíssimos casos, elegemos alguns, dos quais sabemos o porque da invisibilidade, mas insistimos. Há diversos acontecendo por dia no Brasil, enquanto escrevia, soube de uma prisão arbitrária de um imigrante palestino que protestava na Paulista em um grupo de militantes contra um ato fascista da direita de cunho extremamente xenófobo. Hasan Zarif, que é liderança no movimento palestina para todos. Ele está sendo acompanhado juridicamente. Lutaremos por sua liberdade também. Mas há mais. Muito mais que não aparecem e quando aparecem na grande mídia é pra nos criminalizar.

O M√°rio de Andrade que aos 14 anos foi executado por um sargento reformado da PM de Recife? T√° sabendo? J√° se passaram 09 meses desde o 25 de julho e o governador Paulo C√Ęmera (PSB) n√£o se pronunciou sobre essa execu√ß√£o at√© o momento desta publica√ß√£o.

Durante a greve geral do √ļltimo dia 28 de abril, 21 pessoas foram detidas em SP, mas h√° 03 que continuam presos. S√£o eles; pedreiro Luciano Antonio Firmino, 41, o frentista Juraci Alves dos Santos, 57 anos, e o motorista Ricardo Rodrigues dos Santos, 35. A pris√£o preventiva foi decretada neste domingoiii

Conforme a peti√ß√£o em prol da defesa de Rafael Bragai, ‚ÄúEm janeiro deste ano, a caminho da padaria na favela onde morava, foi novamente preso a partir de um flagrante forjado, de acordo com testemunhas, e acusado de associa√ß√£o e tr√°fico de drogas, mesmo estando sob vigil√Ęncia. Na calada da noite, √†s v√©speras do feriado de 21 de abril, Rafael foi condenado a 11 anos de pris√£o.

A s√©rie de absurdos do caso de Rafael n√£o param por a√≠: o juiz que o condenou levou em considera√ß√£o apenas os depoimentos contradit√≥rios dos policiais que o prenderam. Al√©m disso, foi negado a ele o direito √† ampla defesa: o juiz negou o pedido de acesso √† c√Ęmera da viatura policial que o levou √† delegacia e ao GPS da tornozeleira – provas que poderiam ter mudado o rumo do julgamento e comprovado sua inoc√™ncia. A defesa de Rafael ir√° recorrer da decis√£o, por isso precisamos unir nossas for√ßas e continuar a mobiliza√ß√£o pela liberdade de Rafael e conseguir reverter essa injusti√ßa‚ÄĚ A segunda pris√£o arbitr√°ria de Rafael Braga Vieira (que se encontrava preso h√° 2 anos, sendo o √ļnico preso nas manifesta√ß√Ķes de 2013, porque portava desinfetante!) e recentemente fora condenado h√° 11 anos de pris√£o. At√© quando ser√° crime ser negro no Brasil?

Esses casos s√≥ explicitam o papel das institui√ß√Ķes como o judici√°rio e das pol√≠cias civil e militar atuam nessas terras tupinamb√°s. Rafael teve a mochila implantada com coca√≠na e foi acusado de tr√°fico! Quer dizer que um jovem negro catador de recicl√°veis pode ser preso e ficarmos calados porque ningu√©m policia a pol√≠cia? Porque ele √© pobre e ningu√©m se importa?

Se voc√™ conhece algu√©m que j√° foi forjado com drogas pela pol√≠cia, vamos convidar essas pessoas pra manifestarem sua indigna√ß√£o e solidariedade ao Rafael Braga porque eles s√£o muitos, #SomostodosRafael. A guerra √†s drogas t√™m sido a melhor justificativa do encarceramento em massa no Brasil e temos denunciado essa justificativa enquanto tentativa de naturaliza√ß√£o da pol√≠tica de genoc√≠dio onde forjar n√£o pode continuar sendo uma pr√°tica das institui√ß√Ķes de seguran√ßa p√ļblica e judici√°rio porque sabemos que n√£o √© coincid√™ncia.ii

Rafael n√£o √© o primeiro e exigimos que Hasan Zarif seja o √ļltimo!

                         Os movimentos sociais não se intimidarão! A luta continua até que libertem nossos presos!

Exigimos justiça !!! Basta de racismo! Morte ao Fascismo!

Pela libertação imediata de Rafael Braga e aos militantes do MTST: Luciano, Juraci e Ricardo!

 

Ser preto não é crime! Lutar não é crime!
#LibertemRafaelBraga    #LibertemNossosPresosdaGreveGeral  #SOMOSTODOSWELLITON LOPES! #vidasnegrasimportam SIM! #SolidariedadeaosfamiliaresdeMariaEduarda #SolidariedadeafamíliadeJoãoVictor

#ubuntu #contraogenocídionegroeindigena #contraasreformassangrentasdetemer

Link do evento: https://www.facebook.com/events/156199361580725/?ti=cl

iSeja defensor de Rafael Braga Vieira: http://www.liberdadepararafael.meurio.org.br/

iiQuem policia a polícia? http://ponte.cartacapital.com.br/bancada-da-bala-faz-lobby-pelo-projeto-que-permite-governador-demitir-ouvidor-das-policias/

Ato simult√Ęneo ao ato no Rio de Janeiro, via p√°gina Pela Liberdade de Rafael Braga Vieira (no facebook)

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Ei, Escola Sem Partido, vamos falar do seu racismo?

Por Siméia Mello

H√° um tempo, assisti a uma entrevista de Ruth Souza, atriz brasileira refer√™ncia no mundo da arte por conta do seu protagonismo ‚Äď foi a primeira atriz negra a subir no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a primeira a protagonizar uma telenovela ‚Äď, na qual ela contava sua experi√™ncia escolar ao ter contato com as ideias eugenistas e como isso a marcou, deixando-a bastante constrangida e afoita em provar o contr√°rio, em ser a aluna nota 10.

Simplificando, a eugenia era uma ci√™ncia pautada no conceito de sele√ß√£o natural que, l√° no fundo ‚Äď n√£o t√£o no fundo assim ‚Äď, servia para categorizar os homens por meio de ra√ßas, demonstrando, ‚Äúcientificamente‚ÄĚ, como algumas podiam ser superiores a outras e, com isso, ajudando a disseminar a tese do menor valor mental do negro.

O que me remeteu a minha experi√™ncia escolar em escola p√ļblica‚Ķ

Bom, pra in√≠cio de conversa, s√≥ me lembro de ver negro em livros de Hist√≥ria e sobre a escravid√£o, por meio de imagens de ‚Äúescravos em troncos‚ÄĚ, ‚Äúnegras escravas servindo aos seus senhores‚ÄĚ ‚Äď isso mesmo, escravos, n√£o pessoas escravizadas, porque a humanidade daquelas pessoas n√£o estava presente, nem discutida ‚Äď; o que me encheu de vergonha e constrangimento por ser negra. Afinal, a minha cor estava somente atrelada √† ideia de escravid√£o, inferioridade, dor, viol√™ncia, falta‚Ķ

Al√©m disso, n√£o me lembro de discuss√Ķes sobre a escravid√£o ou sobre o racismo que n√£o ultrapassassem a ideia de ‚Äúcoitados‚ÄĚ. E, apesar de nunca ter ouvido de nenhum professor, o conceito apregoado, naquelas imagens e naquele discurso vazio e sem contexto, era de que os brancos eram, sim, superiores aos negros. Afinal, toda a hist√≥ria era sobre eles e sobre como colonizaram e disseminaram a cultura europeia ‚Äď entenda-se como a √ļnica realmente importante ‚Äď, levando a civilidade para povos t√£o selvagens.

No ensino de l√≠ngua, me ensinaram muitas regras e como n√£o se devia falar ‚Äúerrado‚ÄĚ, mas eu n√£o me lembro de nenhuma discuss√£o de como a l√≠ngua se atrela √† sociedade e serve como uma ferramenta para manuten√ß√£o de poder e, portanto, pode servir e disseminar o preconceito, as opress√Ķes, enfim, o racismo‚Ķ

E denegrir se tornou, para mim, um verbo not√°vel que s√≥ precisava ser conjugado de modo ‚Äúcerto‚ÄĚ.

Ainda me recordo dos conceitos de civiliza√ß√£o, da hist√≥ria da Europa contada como a √ļnica hist√≥ria real e importante, enquanto, os ind√≠genas e negros eram os Outros‚Ķ

Os Outros quem, ‚Äúmeu Deus‚ÄĚ, me perguntava na minha curiosidade exagerada!

Em Geografia, a √Āfrica era uma massa homog√™nea de pa√≠ses que foram colonizados pelos europeus e s√≥. N√£o se discutia como aquela brincadeira de peguem o que quiserem fora feita, nem como a ‚Äúci√™ncia‚ÄĚ servira para aquilo.

O fim da escravid√£o lido como algo lindo e bacana e s√≥. Ufa, agora somos todos livres‚Ķ Todos para casa. Ningu√©m discutia como os negros, agora ‚Äúlivres‚ÄĚ, n√£o foram sequer inseridos na sociedade como cidad√£os, nem como aquela estrutura colonialista, escravagista e racista persistiu em uma sociedade de ‚Äúhomens livres‚ÄĚ, marcando ainda a ferro o negro ao lhe negar a sua humanidade, ao lhe negar formas de emancipa√ß√£o, como, por exemplo, trabalho e educa√ß√£o.

Em contrapartida, me lembro de uma professora que, no ensino m√©dio, em uma brincadeira em sala de aula, se referiu a mim como ‚Äúnegrinha‚ÄĚ ‚Äď mas como at√© aquele momento as discuss√Ķes sobre racismo nunca ultrapassaram o senso comum ‚Äď, meu constrangimento foi num n√≠vel que n√£o consigo dimensionar.

E as ‚Äúbrincadeiras racistas‚ÄĚ feitas a outras crian√ßas negras? Minha sensa√ß√£o era de: ‚ÄúUfa! Essa passou perto. Podia ser comigo!‚ÄĚ.

Sendo a escola, sobretudo para crian√ßas pobres, o segundo contexto social no qual somos inseridos, desse modo, parte importante da nossa constitui√ß√£o enquanto sujeito social, al√©m de ser nosso primeiro contato com a educa√ß√£o formal, foi l√° que eu aprendi a rir junto com todos das piadas racistas, porque era a √ļnica arma que eu tinha, j√° que ela ‚Äď a escola ‚Äď n√£o me apresentou nenhuma outra‚Ķ

Aprendi também, com a escola, a ser invisível, a ser uma eterna devedora sei lá do que, a sensação de não pertencimento, de desajuste e, principalmente, da vergonha em ser negra.

Pois, nesse contexto, eis que a Escola Sem Partido aparece preocupada com ‚Äúo grau de contamina√ß√£o pol√≠tico-ideol√≥gica das escolas brasileiras, em todos os n√≠veis: do ensino b√°sico ao superior‚ÄĚ. J√° que, segundo eles, ‚Äúa pretexto de transmitir aos alunos uma ‚Äėvis√£o cr√≠tica‚Äô da realidade, um ex√©rcito organizado de militantes travestidos de professores prevalece-se da liberdade de c√°tedra e da cortina de segredo das salas de aula para impingir-lhes a sua pr√≥pria vis√£o de mundo‚ÄĚ, ideia combatida por eles por meio de um projeto de lei contra o abuso da liberdade de ensinar.

E lendo o material do site e do projeto de lei, surge o meu espanto: descubro que eu, euzinha, estudei em uma escola sem partido!

Sim, em uma escola que me transmitiu conte√ļdos e que, salvo rar√≠ssimas exce√ß√Ķes, n√£o fez discuss√Ķes cr√≠ticas, n√£o fez ‚Äúdoutrina√ß√£o ideol√≥gica‚ÄĚ e ‚Äď para o meu espanto, nem tanto assim ‚Äď descubro que essa escola s√≥ serviu pra eu acreditar que realmente ser negro n√£o era uma boa coisa, que a hist√≥ria era dos vencedores e que, aos perdedores, o sil√™ncio, a invisibilidade e a opress√£o.

O que me leva a crer que escola sem partido, sem ideologia, tem uma ideologia ‚Äď a hegem√īnica ‚Äď, a mesma apregoada h√° muito tempo como a √ļnica verdadeira, aquela que nos vendeu a ideia de uma √ļnica hist√≥ria, de uma √ļnica perspectiva! √Č aquela que vem nos distribuindo verdades absolutas com as quais convivemos por gera√ß√Ķes e gera√ß√Ķes e que n√£o podem ser contestadas sem parecer ‚Äúdoutrina√ß√£o‚ÄĚ.

Portanto, Escola Sem Partido nada mais √© do que a manuten√ß√£o do status quo, porque a doutrina√ß√£o, meus amigos, j√° foi realizada! Ela vem sendo realizada por s√©culos. Por anos categorizamos o ser humano por g√™nero, por ra√ßa e por classe social e a escola tem servido, sim, √† manuten√ß√£o dessas divis√Ķes, privilegiando homens a mulheres, brancos a negros e n√£o brancos, ricos a pobres, sem falar na heteronormatividade‚Ķ

Educa√ß√£o √© conhecimento, conhecimento √© reflex√£o‚Ķ E reflex√£o tem de ser cr√≠tica, precisa ser pensada e refletida pra al√©m de um √ļnico vi√©s, de uma √ļnica hist√≥ria! √Č confronta√ß√£o; √© remover a terra toda; √© por o dedo na ferida social; √© discutir pap√©is, lugares e categorias; √© mexer nas estruturas‚Ķ

√Č mais do que conte√ļdos dissociados que s√≥ servem para gerar ainda mais preconceitos e manter essa estrutura racista e machista na qual vivemos‚Ķ

E conhecimento é mais, muito mais do que isso, porque ele é poder, porque ele é transformador, porque ele desequilibra a balança da injustiça social, amplia horizontes e nos altera pra sempre! E isso é reflexão crítica!

Portanto…

Aos queridos integrantes da Escola Sem Partido, bem-vindos ao século XXI, meus amores!!

 

Foto PerfilSim√©ia Mello √© negra e feminista. Mestra em L√≠ngua Portuguesa, pela Pontif√≠cia Universidade Cat√≥lica de S√£o Paulo (PUC-SP), professora e revisora de texto. Est√° sempre discutindo educa√ß√£o, feminismo e racismo. √Ȭ†muito interessada nas lutas contra as¬†opress√Ķes e sens√≠vel ao ser humano e as¬†suas in√ļmeras quest√Ķes.

 

 

 

 

Créditos da  Charge: Que Mario? Segundo chargista, assim serão as escolas se projeto de lei 193/2016 for aprovado

Conte√ļdo publicado originalmente em:

http://todosnegrosdomundo.com.br/simeia-mello-ei-escola-sem-partido-vamos-falar-sobre-o-seu-racismo/

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Quem tem medo de um saber descolonizado? Nota de repudio à revogação do Edital de contratação de professes na UFABC

Mais uma vez, o conservadorismo brasileiro contra-ataca, prejudicando desavergonhadamente, a produ√ß√£o de conhecimento em uma Universidade Federal. O cerceamento do Edital 145/2016, que abria processo seletivo para a contrata√ß√£o de professores pesquisadores das rela√ß√Ķes √©tnico-raciais, √© uma afronta aos interesses da popula√ß√£o brasileira, e principalmente do Grande ABC.

A revoga√ß√£o do referido edital representa n√£o apenas uma ferida √† autonomia universit√°ria, prevista constitucionalmente mas, sobretudo, um perigoso ind√≠cio de que o Governo Federal est√° disposto a ceder as press√Ķes mais mesquinhas e elitistas da direita brasileira. N√£o √© novidade para ningu√©m que as rela√ß√Ķes raciais, constituem-se como um tema da mais alta relev√Ęncia, quando se busca entender verdadeiramente o nosso pa√≠s, que √© t√£o desigual, do ponto de vista s√≥cio-racial, e ao mesmo tempo t√£o diverso, do ponto de vista cultural.

O pensamento descolonizado assusta os articuladores de uma revista que se chama “Veja”, mas CEGA com tantas distor√ß√Ķes; escandaliza os defensores de um movimento proto-fascista chamado “Escola sem partido”, que na verdade defende uma escola sem debate cr√≠tico, voltada √† naturaliza√ß√£o das desigualdades sociais. √Č natural que um Edital voltado √† contrata√ß√£o de professores pesquisadores voltados √†s rela√ß√Ķes raciais assuste os desavisados, estranho, na verdade √© o restante da sociedade aceitar em sil√™ncio a esse e tanto outros abusos que v√™m sendo cometidos no √Ęmbito federal.

N√£o iremos aceitar calados(as)!

Seguem abaixo as notas escritas por profissionais e alunos da Instituição

NOTA DE REP√öDIO

N√≥s, do coletivo Negro Vozes, viemos por meio desta repudiar os tr√Ęmites do Edital de concurso de n√ļmero 145/2016, para contrata√ß√£o de professores para disciplinas da √°rea de Rela√ß√Ķes √Čtnico-Raciais.

Esse processo foi conquistado com muita luta das e dos estudantes, professores e servidores dessa universidade. Para n√≥s, negras e negros da UFABC, o estudo das rela√ß√Ķes √©tnico-raciais √© de suma import√Ęncia para combater o racismo que nos mata todos os dias.
Somos minoria no corpo de pesquisadores brasileiros justamente porque somos minoria nos espa√ßos de forma√ß√£o do ensino superior. √Č preciso reconhecer que o racismo √© um fator estrutural da forma√ß√£o da sociedade brasileira e, a partir da√≠, implementar pol√≠ticas p√ļblicas de revers√£o para essa realidade. Precisamos de jovens, professoras e professores, pesquisadoras e pesquisadores conscientes e aptos para tratar das rela√ß√Ķes √©tnico-raciais dentro das salas de aula, para que a Lei 10.639/2003 sobre o ensino da Hist√≥ria e da Cultura Afro-brasileira e Africana seja implementada com excel√™ncia.

Nesse sentido, consideramos que a autonomia universit√°ria foi ferida a partir do momento que a Reitoria decide unilateralmente retificar um ponto do edital aprovado integralmente pelas inst√Ęncias coletivas competentes, em todas as plen√°rias dos cursos e no ConsEPE. Hoje o ConCECS, aproveitando um evento que aconteceria na universidade realizou uma manobra de colocar em pauta a suspens√£o do referido edital j√° que quem defendia essa pauta n√£o estaria presente.

Não aceitamos a suspensão do edital realizada pelo ConCECS, assim como mais nenhuma alteração no seu corpo. Exigimos que o ConsUni garanta que o processo seguirá até se dar a nomeação dos quatro professores para o concurso, pois não nos omitiremos de exigir e garantir os nossos direitos.

Coletivo Negro Vozes UFABC
18 de julho de 2016

Carta aberta à Comunidade Acadêmica

Carta aberta √† Comunidade Acad√™mica em rela√ß√£o ao Edital 145/2016 (‚Äú4√ó4‚ÄĚ)

Como membros do GT do CECS para o concurso sobre Rela√ß√Ķes √Čtnico-Raciais (Edital 145/2016, www.ufabc.edu.br/index.php‚Ķ) vemos, por meio desta, esclarecer alguns pontos fundamentais a respeito.

O estudo das rela√ß√Ķes √©tnico-raciais √© um campo estabelecido mundialmente, constitu√≠do por uma ampla agenda de pesquisa e diversidade de abordagens.
O estudo das rela√ß√Ķes √©tnico-raciais no Brasil se desenvolveu insatisfatoriamente na academia, como resultado do tipo de racismo vivido no pa√≠s, que se negou a reconhecer sua pr√≥pria exist√™ncia como fator estruturante da sociedade brasileira. Este fato foi refor√ßado ao longo do tempo pela aus√™ncia quase total de pesquisadores(as) negros(as) nas universidades brasileiras.
A import√Ęncia do estudo e do ensino das rela√ß√Ķes √©tnico-raciais no sistema de educa√ß√£o brasileiro foi tardiamente reconhecida pelo Governo Federal na d√©cada passada, come√ßando pela Lei 10.639/2003 sobre o ensino da Hist√≥ria e da Cultura Afro-brasileira e Africana e pela Resolu√ß√£o No. 1 do Conselho Nacional de Educa√ß√£o, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educa√ß√£o das Rela√ß√Ķes √Čtnico-Raciais. Juntamente com leis posteriores, especialmente a Lei 10.645/2008, o processo de reconhecimento tomou corpo no Plano Nacional de Implementa√ß√£o das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educa√ß√£o das Rela√ß√Ķes √Čtnico-raciais, que inter alia exigiu da educa√ß√£o superior um esfor√ßo sistem√°tico para contribuir √† forma√ß√£o de jovens pesquisadores(as), professores(as) e cidad√£os(√£s) conscientes das realidades brasileiras.
A exclus√£o de negros(as) foi tamb√©m reconhecida, resultando, em primeiro lugar, na ado√ß√£o de cotas raciais em universidades federais, prioritariamente em n√≠vel de gradua√ß√£o. Atualmente, cotas raciais s√£o exigidas em cursos de p√≥s-gradua√ß√£o. Adicionalmente, a Lei 12.990/2014 reservou aos(as) negros(as) 20% das vagas em concursos p√ļblicos, o que no caso do ensino superior se traduz na reserva de uma vaga em cada tr√™s, em editais com tr√™s ou mais vagas.
O concurso em quest√£o √© uma das primeiras iniciativas de viabilizar tanto a Lei 12.990, como fazer avan√ßar no Plano Nacional de Implementa√ß√£o, por articular quatro bacharelados das Ci√™ncias Humanas e Sociais Aplicadas (Ci√™ncias Econ√īmicas, Pol√≠ticas P√ļblicas, Planejamento Territorial, e Rela√ß√Ķes Internacionais) na aloca√ß√£o de uma vaga por curso a um esfor√ßo coletivo. O processo amadureceu ao longo de mais de um ano, passando pelas quatro plen√°rias, as quais tamb√©m definiram os pontos da sub√°rea que lhes cabia separadamente. As plen√°rias e seus colegiados s√£o, portanto, respons√°veis pela autoria dos pontos.
O ponto do edital referente ao estudo comparativo de regimes racistas (4.3.1.4), incluindo apartheid, nazismo e sionismo, se refere a um corpo de pesquisa j√° estabelecido e a um dos assuntos que mais preocupou a Assembleia Geral da ONU, resultando na Resolu√ß√£o No. 3379/1975 que tipificou a opress√£o do povo palestino como racismo. A resolu√ß√£o foi anulada em 1991, por√©m o assunto continua a polarizar, como o fez na III Confer√™ncia sobre o Racismo, Xenofobia e Intoler√Ęncias Correlatas, realizada na cidade de Durban em 2001.
O ponto do edital n√£o pressup√Ķe que formas de governo e ideologias s√£o iguais em suas caracter√≠sticas, din√Ęmicas e consequ√™ncias. Ele exige que candidatos tenham dom√≠nio sobre esses estudos comparativos.
√Č poss√≠vel e necess√°rio debater livremente sobre o assunto e a forma como ele foi colocado no edital, por√©m n√£o cabe a uma Reitoria decretar o que √© ou n√£o √© apropriado no estudo das rela√ß√Ķes √©tnico-raciais. Tal interven√ß√£o fere gravemente a liberdade acad√™mica e cria um precedente perigoso.
Quaisquer que sejam as divergências sobre o referido ponto do edital, vale lembrar que é apenas um dos quarenta pontos ali existentes, que versam, em sua grande maioria, sobre à questão étnico-racial da população negra no Brasil.
O concurso em quest√£o √© resultado de reivindica√ß√Ķes hist√≥ricas do povo negro brasileiro por reconhecimento e inclus√£o efetiva na sociedade brasileira. Como tal, deve ser defendido por todos(as) aqueles(as) interessados(as) na forma√ß√£o de um pa√≠s mais justo e democr√°tico. O m√≠nimo que se espera, feita a retifica√ß√£o do referido ponto, √© que se respeite a integridade e a legalidade do concurso.

Sauda√ß√Ķes acad√™micas,

Muryatan Santana Barbosa (BCH/BRI/CECS)
Paris Yeros (BCH/BCE/CECS)

Nota da ADUFABC sobre a retificação do edital 145/2016: a universidade não existe sem autonomia

No √ļltimo dia 13 de julho, a UFABC publicou no Di√°rio Oficial da Uni√£o o edital n¬į160/2016 que, como afirma nota divulgada pela reitoria no mesmo dia, ‚Äúcorrige uma parte do Edital 145/2016 que, de forma inapropriada, tratou no mesmo contexto regimes pol√≠ticos e acontecimentos hist√≥ricos muito diferentes entre si‚ÄĚ.

Como todos acompanhamos, a decis√£o da reitoria de retificar o edital tinha o objetivo de encerrar uma forte pol√™mica envolvendo um dos pontos do referido concurso que mencionava o debate sobre ‚ÄúConex√Ķes da branquidade e dos regimes racistas: apartheid, nazismo, sionismo‚ÄĚ. A rea√ß√£o ao ponto envolveu, al√©m de manifesta√ß√Ķes de parte da imprensa e da comunidade judaica, uma demanda direta do pr√≥prio ministro interino da educa√ß√£o.

A universidade, como qualquer outra institui√ß√£o social, n√£o existe fora da sociedade. Portanto, √© perfeitamente compreens√≠vel ‚Äď e at√© mesmo desej√°vel ‚Äď que seja objeto de questionamentos de for√ßas sociais diversas, de natureza pol√≠tica, econ√īmica, cultural ou religiosa, sobretudo considerando-se a legitimidade e a efic√°cia do conhecimento produzido no seu interior.

Mas se é esperado da sociedade que questione a universidade, é igualmente esperado que esta responda respeitando o princípio da autonomia.

A universidade constituiu-se historicamente como institui√ß√£o lutando contra o poder pol√≠tico e religioso da Igreja, ainda na Idade M√©dia. Da mesma forma, a emerg√™ncia da ci√™ncia moderna no s√©culo XVII √© impens√°vel sem a afirma√ß√£o do ideal da autonomia, materializado no expediente da ‚Äúrevis√£o por pares‚ÄĚ, que reconheceu como princ√≠pio basilar da moderna produ√ß√£o de conhecimento, a ideia de que s√≥ pode julgar a validade de um saber aqueles que sejam capazes, por longo processo de forma√ß√£o, de compreend√™-lo e avali√°-lo.

Foi reafirmando esses princ√≠pios fundamentais, e em resposta aos traumas e retrocessos causados pelas constantes interven√ß√Ķes da ditadura militar no interior da universidade, que a Constitui√ß√£o Federal de 1988 estabeleceu, no seu artigo 207, o princ√≠pio da autonomia universit√°ria, com destaque para a autonomia did√°tico-cient√≠fica.

Reconhecer a autonomia da universidade não significa isentá-la de controle e responsabilidade social, mas significa afirmar que estes se exercerão segundo determinadas regras, inspiradas nesse princípio constitucional.

√Č partindo desta reflex√£o que a diretoria da Associa√ß√£o dos Docentes da UFABC vem por meio desta nota externar a sua profunda preocupa√ß√£o com a forma como o edital 145/2016 foi retificado pela reitoria da UFABC no √ļltimo dia 13. Se havia uma demanda externa, mesmo que de origem pouco qualificada como foi o caso, para que o edital 145 fosse retificado, isso deveria ter sido feito √† luz do princ√≠pio da autonomia e respeitando-se as inst√Ęncias universit√°rias, o que, em nossa opini√£o, exigia que o mesmo fosse reencaminhado de modo oficial para o colegiado respons√°vel pela sua formula√ß√£o, com uma solicita√ß√£o de avalia√ß√£o do questionamento apresentado e de eventuais esclarecimentos e, se este julgasse necess√°rio, de reelabora√ß√£o do referido ponto do edital.

Como se sabe, a discuss√£o sobre racismo, sobretudo nos seus pontos de intersec√ß√£o com a pol√≠tica e a religi√£o, √© assunto que mobiliza paix√Ķes e gera enormes pol√™micas. No entanto, √© fun√ß√£o da universidade formar profissionais capazes de dominar criticamente os debates cient√≠ficos e acad√™micos que alimentam e analisam tais pol√™micas. Ali√°s, √© isso que diz o edital de condi√ß√Ķes gerais de concurso da UFABC (n¬į 96/2013), no seu item 11.3:

‚ÄúA Prova Escrita tem como objetivo avaliar a compet√™ncia do candidato na utiliza√ß√£o de conceitos, t√©cnicas e suas inter-rela√ß√Ķes, de acordo com a √°rea/sub√°rea de conhecimento em exame, bem como avaliar sua capacidade de argumenta√ß√£o e cr√≠tica, dom√≠nio conceitual e vocabul√°rio da √°rea/sub√°rea‚ÄĚ.

A ideia de estabelecer no edital do concurso pontos ao inv√©s de perguntas fechadas pressup√Ķe a capacidade do candidato de argumentar livremente, inclusive de forma cr√≠tica. Assim, qualquer um que conhecesse o edital de condi√ß√Ķes gerais de concurso da UFABC, saberia que, ao contr√°rio do que foi dito, n√£o se esperava um candidato que equiparasse nazismo, sionismo e apartheid, nem que afirmasse o car√°ter racista do sionismo. Parece-nos evidente que o edital esperava, na verdade, um candidato que dominasse criticamente o debate por ele evocado.

Vale notar que a associa√ß√£o entre sionismo e ideologia da branquidade, portanto racismo no sentido sociol√≥gico do termo, √© objeto de um amplo e conceituado debate no campo das ci√™ncias sociais, com desdobramentos muito particulares na √°rea acad√™mica e profissional das rela√ß√Ķes internacionais. Prova disso s√£o os constantes debates e embates travados no √Ęmbito da Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas para a defini√ß√£o ou n√£o do sionismo como forma de racismo.

Que a Universidade Federal do ABC forme profissionais que lidem com esse debate de forma dogmática é inaceitável. Assim como é inaceitável que esse debate seja interditado a ponto de não poder ser citado em um edital de concurso, como se ele não fosse objeto de análise crítica e objetiva das ciências sociais.

As ci√™ncias sociais, de todas as √°reas da ci√™ncia moderna, s√£o as que mais dificuldades encontram para afirmar a sua autonomia e isso √© patente nos constantes debates que se travam no espa√ßo p√ļblico da UFABC. Em um momento em que assistimos a uma escalada de radicaliza√ß√£o pol√≠tica e religiosa no mundo todo, a universidade deve lutar para permanecer como espa√ßo livre, cr√≠tico e objetivo de pesquisa e discuss√£o. E isso n√£o pode ser feito sem a preserva√ß√£o do princ√≠pio fundamental e constitucional da autonomia universit√°ria. O precedente aberto pela revis√£o do Edital 145/2016 √©, a nosso ver, perigos√≠ssimo. Editais podem, sim, ser revistos, mas segundo crit√©rios muito bem estabelecidos de respeito √† autonomia universit√°ria e √†s especialidades das diferentes √°reas. Qualquer procedimento que escape a isso, flerta perigosamente com posi√ß√Ķes anticient√≠ficas, anti-intelectuais e anti-modernas.

Diante do exposto, a ADUFABC solicita publicamente √† Reitoria os seguintes esclarecimentos: 1) Como chegou √† Reitoria a demanda de altera√ß√Ķes no edital em quest√£o? 2) Quais raz√Ķes levaram a Reitoria a ignorar as inst√Ęncias devidas, notadamente o colegiado de curso que aprovou e referido edital? 3) Qual resposta a Reitoria pretende dar ao ve√≠culo de imprensa que, de forma agressiva e leviana, denegriu a imagem da UFABC e de seu corpo docente?

Por fim, a ADUFABC √© solid√°ria √† Carta Aberta dos professores Muryatan Barbosa e Paris Yeros, membros do GT respons√°vel pelo referido concurso, e reafirma a import√Ęncia do edital 145/2016, cujo objetivo central √© contratar professores que tenham pleno dom√≠nio do debate acad√™mico-cient√≠fico sobre a quest√£o √©tnico-racial em suas diferentes dimens√Ķes, mas sobretudo no que concerne ao estudo e √† pesquisa do povo negro brasileiro.

S√£o Bernardo do Campo
18 de julho de 2016
ADUFABC

Gest√£o Democracia, Diversidade e Direitos (2016-2018)

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KILOMBAGEM CONTRA A REDUÇÃO

CAMPANHA DE MOBILIZA√á√ÉO: BRAS√ćLIA, 30 DE JUNHO ESTAREMOS AI!

¬†Diante de toda barb√°rie advinda do endurecimento do conservadorismo mesquinho e sujo dos pol√≠ticos brasileiros e em vista a atual conjuntura referente a redu√ß√£o da idade penal e do aumento¬† do tempo de interna√ß√£o no Congresso Nacional, a Frente Nacional Contra a Redu√ß√£o¬† da Maioridade Penal convoca a todos militantes, sindicatos, partidos, coletivos, componentes e defensores do Sistema de Garantia de Direitos Humanos, que promovam articula√ß√£o e organiza√ß√£o para manifesta√ß√£o conjunta em Bras√≠lia (DF), no pr√≥ximo dia 30 de junho, data prevista para vota√ß√£o da PEC 171/93 em Plen√°rio. O objetivo √© ocupar a C√Ęmara dos deputados a fim de mostrar a sociedade brasileira que os direitos das Crian√ßas e adolescentes precisam ser efetivados, antes que sejam feitas quaisquer mudan√ßas na atual legisla√ß√£o. A redu√ß√£o servir√° aos interesses das grandes empresas carcer√°rias, pois o real interesse dos defensores da redu√ß√£o √© de¬† privatizar o sistema penitenci√°rio e como sabemos quanto mais presos, mais arrecada√ß√£o para os setores respons√°veis pelo sistema carcer√°rio.

√Č inadmiss√≠vel que um debate t√£o complexo com ra√≠zes hist√≥ricas fincadas na explora√ß√£o e na desumaniza√ß√£o de povos, seja tratado t√£o arbitrariamente, o hist√≥rico de luta e de resist√™ncia dos movimentos sociais precisa e deve ser respeitado.

Entendemos a aprova√ß√£o da PEC 171/93 na Comiss√£o Especial da C√Ęmara dos Deputados como mais uma ofensiva contra os direitos das crian√ßas e dos adolescentes na perspectiva de criminalizar a adolesc√™ncia e juventude brasileiras, afrontando tratados Internacionais de Direitos Humanos e a Constitui√ß√£o Federal Brasileira.

Em termos jur√≠dicos, √© o ‚ÄúPoder Constituinte Derivado‚ÄĚ que tem o poder para reformar a Constitui√ß√£o, cujo povo √© o titular e o exerce indiretamente por meio do Poder Legislativo ou diretamente por meio de Referendo. √Č considerado um poder ‚ÄúDerivado‚ÄĚ porque subordinado √† ordem jur√≠dica vigente estabelecida pela CF/88 e, portanto, condicionado a regras pr√©-estabelecidas, n√£o podendo estabelecer as pr√≥prias regras regimentais ou procedimentais.