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Algumas reflexões sobre a Paralisação dos Caminhoneiros

Por Deivison Faustino (Nkosi)

Muito já se escreveu sobre o assunto, e provavelmente, muito ainda se escreverá, antes que o tema seja engolido por outras ondas midiáticas.  Assim, proponho esse texto como mais uma provocação (feita por quem não observou diretamente o fenômeno e nem é especialista nos assuntos aqui abordados) a um debate mais amplo sobre os acontecimentos.

A paralisação dividiu opiniões (tanto na esquerda quanto na direita) e se mostrou um movimento que, tal como o de  Junho de 2013, tem tudo, menos as polaridades simplistas que geralmente utilizamos para entender e se movimentar no mundo político contemporâneo.

Neste sentido, listo 7 pontos que chamam a atenção no processo (mas que ainda estão abertos a serem melhor analisados):

O FIM DA LUTA DE CLASSES (?)

O primeiro aspecto que chama a atenção é o quão frágil são as teorias que apostaram, nas ultimas décadas, na ideia de que a “luta de classes é uma coisa do passado”.

Ao contrário, a paralisação mostrou o quanto a sociedade capitalista continua estruturada por interesses antagônicos e, por vezes, irreconciliáveis, que impedem uma solução política que beneficie todos os setores envolvidos ao mesmo tempo.

Nesse contexto, o Estado, embora ativo – e não secundário –  no processo, não passa de um gestor dos interesses dos setores economicamente dominantes.  Entretanto, os setores dominantes, por vezes, em sua heterogeneidade, disputam entre si os rumos das políticas e dos termos daquilo que se entende por público.

O outro lado da história é que os trabalhadores, quando organizados e mobilizados, exercem força política que recoloca o jogo em outro patamar.

Como veremos mais abaixo, a contradição fundamental continua sendo entre os interesses do capital e do trabalho, mas esta contradição  é permeada – não mecanicamente –  por um conjunto de disputas políticas, ideológicas e financeiras, que se expressam inclusive em de setores do capital especialmente em um país como o nosso em que o capitalismo sempre foi muito dependente de investimento estatal. 

O  caso da disputa em torno dos preço dos combustíveis é revelador dessa impossibilidade de conciliação: Com todas as críticas que se possa fazer às gestões petistas, havia a promessa – nunca cumprida, de fato – de que as empresas estatais “cumpririam o seu papel social” contribuindo para regular os preços de insumos básicos no mercado interno e, sobretudo, subsidiando  áreas estratégicas como saúde, educação e seguridade social.

Para uma parte da burguesia brasileira, esse foi o “erro” mortal do Governo Dilma com a Petrobras, inviabilizando interesses do investidores internacionais. Se olharmos bem de perto, veremos que a disputa pela gestão (e rumos) da Petrobras está no centro daquele teatro chamado   Impeachment.

Aliás,  a missão do atual gestor da Petrobras (Pedro Parente) foi a de realizar uma transição de uma política de controle de preços para uma liberalização total, sujeita tanto  a volatilidade (oscilação) dos preços internacionais do petróleo quanto às preço (cada vez mais desvalorizado) do real diante do dólar…

Posto de Gasolina
Preço pago!?

A diferença de saldo, nesse caso, é colocada conta do consumidor final (mesmo que isso signifique sacrificar a maior parte da população). Com todas as contradições que se possa observar – e existem várias – a paralisação (não apenas a paralisação, mas a força que ela demonstrou) colocou essa política liberal em xeque. Ao mesmo tempo, a saída oferecida pela direita liberal – e prontamente acolhida por parte do movimento – seria a mais danosa à população brasileira: a redução de impostos sobre o combustível representaria um corte ainda maior de investimentos em saúde, segurança, educação e seguridade social.

A PRODUÇÃO NÃO É MAIS IMPORTANTE PARA O CAPITALISMO ATUAL E SIM A CIRCULAÇÃO (?).

O Marx dizia que se a essência do mundo (as mediações que o compõe) se apresentassem imediatamente aos olhos, a ciência seria desnecessária. Essa premissa mais uma vez se confirma:

Se observarmos o mundo à nossa volta veremos a importância assumida pela circulação de mercadorias.

Karl Marx
Imagem da Greve

Isso levou alguns sociólogos a afirmarem que na sociedade contemporânea, a tríade econômica, PRODUÇÃO – CIRCULAÇÃO – CONSUMO estaria desatualizada (quando comparada aos estudos clássicos realizados no século XIX). Outros afirmaram que estaríamos vivendo na sociedade do consumo (onde só o consumo importa) e outros ainda, afirmaram que estaríamos entrando em uma era pós-industrial, ou seja, em que a obtenção da riqueza se daria mais na circulação de mercadorias do que na sua produção.

Em todos os casos, o que se queria – consciente ou inconscientemente –  atacar com essas teorias era a ideia de que a produção (as fábricas, e os trabalhadores organizados em seus instrumentos de classe) não teria mais centralidade política e econômica na dinâmica social, e que portanto, as “velhas” teorias sobre a luta de classe poderiam ser descartadas.

O que não se considerou, nessas “novas” análises é que, o capitalismo segue  o mesmo de sempre (mas não idêntico), ou seja: complexificou o seu funcionamento para intensificar aquilo que lhe da razão de existência (exploração de mais valia).

Na prática isso significa que: 

a) a flexibilização das relações de produção, observada nas ultimas décadas – sem flexibilizar o essencial, que é a exploração do trabalho – resultou em uma reorganização da logística produtiva expulsando para fora da fabrica (ou seja, para a sociedade) alguns custos que até 1970 eram parte da sua planilha de custos.

A lógica “Just in time”, própria ao Toyotismo e à informatização da produção,  pressupõe uma linha de produção flexível à demanda de consumo (eliminando a necessidade dos grandes estoques); 

b) para que isso seja fisicamente possível, as ruas, avenidas e rodovias das Cidades e Estados se transformam em grandes esteiras produtivas e/ou estoques ambulantes. A produção “enxuta” da fábrica representa a transformação da cidade em uma grande fábrica à céu aberto

c) isso recoloca o jogo (a velha luta de classes) em outro patamar, porque agora, qualquer interrupção na circulação representa imediatamente a interrupção da produção… nunca houve produção sem circulação e consumo… mas agora, a produção está muito mais dependente das demais dimensões do que antes.

Por isso que uma paralisação como essa causa tanto estrago, a interrupção da circulação representa diretamente a interrupção da produção, impedindo temporariamente que o ciclo de acumulação capitalista se realize. Mas é ainda a velha produção que está no centro do problema (embora, mais dependente do que antes dos outros momentos).

CAMINHONEIRO: TRABALHADOR OU EMPRESÁRIO?

Aqui também entra outro ponto polêmico: O motorista de caminhão que comprou o seu instrumento de trabalho, abriu um CNPJ para emitir notas fiscais, é um empresário ou um trabalhador? Esse debate, se for descolado das condições objetivas de reprodução desta e outras categorias pode nos levar a algumas incompreensões a cerca da realidade.

Em geral –  para o ex-trabalhador que pegou o fundo de Garantia e comprou um caminhão, perua, carro, carrinho etc… para prestar serviços à UBER, à uma transportadora ou a uma empresa – a lógica do empreendedorismo representa mais uma modalidade intensificada de subordinação e exploração da força de trabalho do que a emancipação real.

Ao contrário, esse trabalhador/patrão de si, para ter o mínimo – para manter o veículo funcionando, pagar combustíveis e pedágios, e impostos e ainda sustentar a família – tem que se submeter a jornadas cada vez mais longas e exaustivas (e perigosas). Isso coloca essa categoria no centro daquilo que alguns intelectuais têm nomeado como “Precariado”, já que para estes, a precarização (em todos os aspectos possíveis, não se resumindo, portanto à renda) das condições de trabalho se torna a regra natural.

Assim, se é verdade que a bandeira pela redução do imposto sobre o valor combustível interessaria à grandes transportadoras (que de pronto, instrumentalizaram o movimento e procuraram indevidamente falar por ele), é esse setor de trabalhador (que arca sozinho) pelos custos cada vez maiores da sua exploração, que estava na base das mobilizações por ser o mais prejudicado por uma política de preços de combustível que onera o consumidor final par desonerar os investidores especulativos desta empresa estatal chamada Petrobras.

Neste sentido, esse setor trazia uma bandeira que continha aquilo que Kant denominava de Particular/Universal. Era particular, porque remetia ao próprio umbigo (ao próprio bolso), mas universal porque continha elementos para além de si, interessando ao conjunto da classe trabalhadora e mesmo a setores intermediários do capital.

Por isso esse setor foi tão (bem) disputado por alguns setores de direita e tão (mau) compreendido pela maior parte da esquerda. Entretanto, ser portador de uma particularidade universal não significa, necessariamente, perceber essa universalidade e, muito menos, advoga-la, e a particularidade pode encerrar-se em si mesma anulando o que tem de transformador e se convertendo em seu contrário.

GREVE OU LOCKOUT?

Como foi insistentemente debatido. A greve, paralisação do trabalho protagonizada por trabalhadores para defender seus interesses de classe, é garantida em lei, ao contrário do locaute (ou lockout), que representa uma paralisação promovida por empresários.

O simples enquadramento em uma dessas categorias implicaria, não apenas a legitimidade, mas a legalidade das paralisações. O próprio Governo Temer percebeu que as paralisações continham um duplo caráter (Greve e Louckout) e, diante disso, mas principalmente, diante da  vitalidade do movimento, decidiu por separar as coisas e negociar com os trabalhadores, para em seguida, processar as empresas envolvidas. Ocorre que, enquanto isso, parte das análises (tanto de esquerda quanto de direita) seguem pobremente maniqueístas, enquadrando o movimento em apenas um dos polos.

Imagens da Greve

A DISPUTA DE NARRATIVAS

Uma análise das paralisações exigiria, ao mesmo tempo, uma análise das reações às paralisações. É interessante observar como que o ocorrido dividiu opiniões. Num primeiro momento, havia um ressentimento por parte da esquerda eleitoral com essa categoria, já que os mesmos engrossaram as fileiras dos que clamavam pela queda da Presidenta Dilma, em 2015.

Num segundo momento, havia por parte dos setores mais à esquerda da esquerda, uma tentativa de aproximação, que logo foi frustrada com imagens de caminhões com faixas rogando pela “Intervenção Militar”.

Houveram alguns apoios reais (como foi o caso de MST e algumas centrais sindicais) e outros apoios textuais (notas de apoio), mas no geral, reinou uma desconfiança e um desconhecimento. Por parte da Direita, uma parte, aquela que já está acostumada à disputar opiniões a partir de fake news e distorções, houve uma abusiva produção de vídeos e memes que foram distribuídos à exaustão nos grupos de comunicação dos caminhoneiros com vistas à disputa das sensibilidades.

Essa via se consolidou não apenas de forma midiática, mas também porque algumas reconhecidas lideranças dessa categoria são filiados à partidos de direita como PSL.

Imagens da Greve

Aqui entravam tanto militantes pró intervenção militar que acompanharam presencialmente os piquetes quanto caminhoneiros reais ou militantes infiltrados que atuaram sistematicamente na difusão de informações falsas ou distorcida entre a categoria.

Do outro lado, uma outra porção da direita, mais vinculada com os interesses ameaçados pelo movimento (no caso, ao capital especulativo e mesmo os seus seguidores mais midiáticos) partiram para a criminalização do movimento.

Vale lembrar que a Miriam Leitão, desde o início , elogiava na CBN a política de Pedro Parente, dizia que as paralisações eram legítimas por criticarem os autos impostos e taxas dos combustíveis e, ao mesmo tempo, denunciava as paralisações como

O ponto é que se as paralisações representaram um desafio à esquerda, o mesmo não foi diferente para a direita. Um exemplo interessante são as posições contrárias do MBL às paralisações e, a consequente enxurrada de críticas – à direita – que eles receberam por esse posicionamento.

AS FORMAS DE (des)ORGANIZAÇÃO

AS FORMAS DE (des)ORGANIZAÇÃO: Outro dado que chamou a atenção nas paralisações é a forma descentralizada de organização do movimento. Num primeiro momento, nem o governo, nem a mídia, nem os analistas (acadêmicos ou de facebook) entendiam porque, mesmo depois da existência de acordos fechados entre o governo e a categoria, as  paralisações seguiam. 

Os representantes do governo passaram muito vergonha para explicar porque a situação não se normalizava depois de no mínimo uns 3 ou 4 anúncios de acordo.

O Temeroso!

A resposta estava na estrutura descentralizada de organização dos piquetes. Como afirmaram alguns observadores diretos e reportagens, cada piquete elegia a própria liderança e cada um discutia autonomamente os termos e as razões para estarem ali.

Isso, colocou um desafio imenso a todo tipo de análise e enquadramento, porque, historicamente – no Brasil, pelo menos, desde a institucionalização dos sindicatos no governo Vargas – a principal estratégia na luta de classes é a cooptação de suas lideranças mais expressivas, seja pela submissão dessas lideranças às regras do jogo formais (partidos, eleições parlamentares, etc), seja comprando literalmente essas lideranças.

Mas aqui, diante dessa forma de organização (ironicamente, proporcionada a partir do próprio local de trabalho) esse tipo de cooptação se mostrou pouco eficiente e explica, em partes, por que, mesmo depois das negociações, as paralisações não se desmobilizavam.

Por outro lado, dificultou, in loco, a tomada de decisões de algumas lideranças que ficavam sujeitas a informações advindas de  grupos de “zap” e do “face”.

A DEPENDÊNCIA AO TRANSPORTE RODOVIÁRIO NO BRASIL

Outro ponto que veio à tona, sem poder ser devidamente debatido pela grande mídia,tem a ver com a opção rodoviária do transporte no Brasil. A paralisação revelou o quanto a produção industrial está presa a essa modalidade (que aliás, nem é a mais barata) de transporte.

Algumas reportagens televisivas  chegaram a explorar rapidamente que essa dependência se deve a uma opção que o país tomou a algumas décadas.

O que as reportagens não mencionam é que essa opção, como todos no âmbito do Capital, não se deveu ao que era melhor para o país, mas sim, ao que era melhor para os investidores que tinham maior controle sobre as decisões políticas em determinado momento.

Gráfico

Desde o início do século XX assistimos a um progressivo desinvestimento no transporte ferroviário (e pouquíssimo no náutico e de cabotagem) arquitetado por lobbies da indústria de carros, ônibus e caminhões.

Não é por fatalidade que chegamos nesse ponto mas porque uma série de decisões políticas foram tomadas (por décadas) tendo por critério não o que é melhor para o país (quem dirá aos trabalhadores) mas sim o que é melhor para as empresas que financiaram esse ou aquele político, esse ou aquele golpe de estado.

O resultado, a médio e longo prazo é um tiro no pé, que inviabiliza – ou encarece – inclusive o escoamento da produção automobilística. Mas isso não é novidade do Brasil, mas sim, uma característica antiga do Capital: criar o pressuposto das próprias crises.

Não é possível ir viajar a carro ou a ônibus para nenhuma cidade do Brasil sem se deparar com uma série de caminhões carregando todos os tipos de produtos que imaginarmos (dos artigos do sex shop que vc usa escondido à bíblia que vc lê em público, dos alimentos, roupas e artigos fúteis que consumimos ao imensa quantidade de lixo que produzimos, tudo está circulando à céu aberto sob nossos olhos).

Por fim, e ainda retomando o primeiro ponto deste texto, foi potência e ampla adesão da categorias na mobilização, e não uma concessão do Governo, que explicou a existência de um movimento deste tamanho, e por tanto tempo.

É uma pena que mesmo o movimento tendo grande aceitação por parte da população em geral (leia-se, trabalhadores), outros setores tradicionalmente organizados da classe trabalhadora não pegaram carona neste comboio.

Se o tivessem feito, seria possível supor que questões problemáticas relacionadas à consciência de classe (como o estúpido clamor por “intervenção militar”) pudessem se diluir em percepções mais ampliadas da realidade.

Mas não foi esse o caso e o país caminha, neste feriado prolongado para voltar à violenta normalidade. A louvável (e importantíssima) greve dos Petroleiros virá quando os caminhões já estiverem dispersados e os outros setores da classe trabalhadora, ainda assustados, correm o risco de não colherem lições com essa experiência histórica.

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A Tirania das Organizações Sem Estrutura

Artigo de Jo Freeman, 1970

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Durante os anos em que o movimento feminista se formava, dava-se grande ênfase ao que se chamava de grupos sem estrutura, sem liderança, como a forma principal do movimento. Essa idéia tinha origem numa reação natural contra a sociedade superestruturada na qual a maioria de nós se encontrava, no controle inevitável que isso dava a outros sobre nossas vidas e no elitismo persistente da esquerda e de grupos similares entre aqueles que supostamente combatiam essa superestruturação.

A idéia da “ausência de estrutura”, no entanto, passou de uma oposição saudável a essas tendências a um dogma. A idéia é tão pouco examinada quanto o termo é utilizado, mas tornou-se uma parte intrínseca e inquestionada da ideologia feminista. Para o desenvolvimento inicial do movimento, isso não importava muito. Ele definiu inicialmente seu método principal como a conscientização e o “grupo de discussão sem estrutura” era um meio excelente para esse fim. Sua flexibilidade e informalidade encorajavam a participação na discussão e o ambiente freqüentemente receptivo promovia a compreensão pessoal. Se nada de mais concreto que a compreensão pessoal resultasse desses grupos, isso não importava muito, porque seu propósito, na verdade, não ia além disso.

Os problemas básicos não apareceram até que grupos de discussão individuais exauriram as potencialidades da conscientização e decidiram que queriam fazer algo mais específico. Neste ponto, eles normalmente se atrapalhavam porque a maioria dos grupos não estava disposta a mudar sua estrutura na medida em que mudava sua tarefa. As mulheres tinham comprado totalmente a idéia de “ausência de estrutura” sem perceber as limitações de seus usos. As pessoas tentavam usar o grupo “sem estrutura” e a reunião informal para fins para os quais não eram apropriados, acreditando cegamente que quaisquer outros meios seriam simplesmente opressivos.

Se o movimento quiser avançar além desses estágios elementares de desenvolvimento, ele deverá livrar-se de alguns de seus preconceitos sobre organização e estrutura. Nenhum dos dois tem nada de intrinsecamente ruim. Eles podem e freqüentemente são mau usados, mas rejeitá-los de antemão porque são mau usados é nos negar as ferramentas necessárias ao nosso desenvolvimento ulterior. Precisamos entender porque a “ausência de estrutura” não funciona.

Estruturas formais e informais

Ao contrário do que gostaríamos de acreditar, não existe algo como um grupo “sem estrutura”. Qualquer grupo de pessoas de qualquer natureza, reunindo-se por qualquer período de tempo, para qualquer propósito, inevitavelmente estruturar-se-á de algum modo. A estrutura pode ser flexível, pode variar com o tempo, pode distribuir entre os membros do grupo as tarefas, o poder e os recursos de forma igual ou desigual. Mas ela será formada a despeito das habilidades, personalidades e intenções das pessoas envolvidas. O simples fato de que somos indivíduos com aptidões, predisposições e experiências diferentes torna isso inevitável. Apenas se nos recusamos a nos relacionar ou interagir em qualquer base poderemos nos aproximar da “ausência de estrutura” e essa não é a natureza de um grupo humano.

Isso significa que lutar por um grupo “sem estrutura” é tão útil e tão ilusório quanto almejar uma reportagem “objetiva”, uma ciência social “desprovida de valores” ou uma economia “livre”. Um grupo de “laissez-faire” é quase tão realista quanto uma sociedade de “laissez-faire”; a idéia se torna uma dissimulação para que o forte ou o afortunado estabeleça uma hegemonia inquestionada sobre os outros. Essa hegemonia pode facilmente ser estabelecida porque a idéia da “ausência de estrutura” não impede a formação de estruturas informais, apenas de formais. Da mesma forma, a filosofia do “laissez-faire” não impedia os economicamente poderosos de estabelecer controle sobre os salários, preços e a distribuição dos bens; ela apenas impedia o governo de fazê-lo. Assim, a “ausência de estrutura” torna-se uma forma de mascarar o poder e no movimento feminista é normalmente defendida com mais vigor pelos mais poderosos (estejam eles conscientes de seu poder ou não). As regras sobre como as decisões são tomadas são conhecidas apenas por poucos e na medida em que a estrutura do grupo permanece informal, a consciência do poder é impedida por aqueles que conhecem as regras. Quem não conhece as regras e não é escolhido para iniciação deve permanecer confuso ou sofrer de desilusões paranóicas de que algo que não sabe bem o que é está acontecendo.

Para que todas as pessoas tenham a oportunidade de se envolver num dado grupo e participar de suas atividades, é preciso que a estrutura seja explícita e não implícita. As regras de deliberação devem ser abertas e disponíveis a todos e isso só pode acontecer se elas forem formalizadas. Isto não significa que a normalização de uma estrutura de grupo irá destruir a estrutura informal. Ela normalmente não destrói. Mas impede a estrutura informal de ter o controle predominante e torna disponível alguns meios de atacá-la. A “ausência de estrutura” é organizacionalmente impossível. Nós não podemos decidir se teremos um grupo estruturado ou sem estrutura, apenas se teremos ou não um grupo formalmente estruturado. Assim, a expressão “sem estrutura” não será mais usada, a não ser para referir-se à idéia que representa. O termo inestruturado referir-se-á àqueles grupos que não foram deliberadamente estruturados de uma forma particular. O termo estruturado referir-se-á àqueles que o foram. Um grupo estruturado tem sempre uma estrutura formal e pode também ter uma estrutura informal. Um grupo inestruturado tem sempre uma estrutura informal ou disfarçada. É esta estrutura informal, particularmente em grupos inestruturados, que fornece o fundamento para as elites.

A natureza do elitismo

“Elitista” é, provavelmente, a palavra mais abusada no movimento de liberação das mulheres. É usada com freqüência, mas nunca de forma correta. No movimento, ela normalmente se refere a indivíduos, ainda que suas atividades e características pessoais divirjam enormemente. Um indivíduo, enquanto indivíduo, nunca pode ser uma “elite” porque o termo “elite” só se aplica adequadamente a grupos. Nenhum indivíduo, independente de quão notório seja, pode ser uma elite.

De uma forma mais apropriada, uma elite refere-se a um pequeno grupo de pessoas que tem poder sobre um grupo maior do qual faz parte, normalmente sem responsabilidade direta sobre ele e, freqüentemente, sem seu conhecimento ou consentimento. Uma pessoa torna-se elitista por tomar parte ou defender o domínio deste pequeno grupo, seja esta pessoa bem conhecida ou totalmente desconhecida. Notoriedade não é uma definição de elitista. As elites mais traiçoeiras são normalmente comandadas por pessoas totalmente desconhecidas do grande público. Elitistas inteligentes são, em geral, espertos o suficiente para não se deixarem tornar muito conhecidos. Quando eles são conhecidos eles são vigiados e a máscara que esconde seu poder não fica mais firmemente presa.

O fato das elites serem informais não significa que sejam invisíveis. Num encontro de qualquer grupo pequeno, qualquer um com um olhar aguçado e um ouvido atento sabe dizer quem está influenciando quem. Os membros de um grupo de amigos confiarão mais nas pessoas do seu grupo do que nas outras. Eles ouvem mais atentamente e interrompem menos. Eles repetem os argumentos dos outros membros e cedem amigavelmente. Os “de fora”, eles tendem a ignorar ou enfrentar. A aprovação dos “de fora” não é necessária para se chegar a uma decisão; no entanto, é necessário para os “de fora” manter uma boa relação com os “de dentro”. É claro que as linhas não são tão bem definidas quanto as que eu tracei. Elas tem nuances de interação, não são roteiros pré-concebidos. Mas elas são discerníveis e têm o seu efeito. Quando se sabe quem é importante consultar antes da decisão ser tomada e a aprovação de quem é garantia de aceitação, então se sabe quem está mandando.

As elites não são conspirações. Dificilmente um pequeno grupo de pessoas se reúne e tenta tomar o grupo maior para seus próprios fins. As elites são, nada mais, nada menos, que um grupo de amigos que coincidem em participar das mesmas atividades políticas. Eles provavelmente manteriam sua amizade, participassem ou não dessas atividades políticas; e participariam das atividades, mantivessem ou não sua amizade. É a coincidência destes dois fenômenos que cria elites em qualquer grupo e as torna tão difíceis de serem destruídas.

Esses grupos de amigos funcionam como redes de comunicação à parte de quaisquer canais regulares para comunicação que possam ter sido estabelecidos pelo grupo. Se nenhum canal foi estabelecido, eles funcionam como as únicas redes de comunicação. Porque são amigas, normalmente partilhando os mesmos valores e posições, porque conversam socialmente entre si e se consultam quando as decisões comuns têm de ser tomadas, as pessoas que participam dessas redes têm mais poder no grupo que aquelas que não participam. E são raros os grupos que não estabelecem redes de comunicação informal por meio dos amigos que fazem neles.

Rizomas

Alguns grupos, dependendo de seu tamanho, podem ter mais do que uma dessas redes informais de comunicação. As redes podem até sobrepor-se. Quando apenas uma rede dessas existe, ela é a elite de um grupo que seria de outra forma inestruturado — queiram os seus participantes ser elitistas ou não. Se ela é a única dessas redes num grupo estruturado, ela pode ser ou não uma elite, dependendo da sua composição e da natureza da estrutura formal. Se existem duas ou mais dessas redes de amigos, elas podem competir pelo poder dentro do grupo, formando assim facções, ou uma delas pode deliberadamente abandonar a competição deixando a outra como elite. Num grupo estruturado, duas ou mais dessas redes de amizades normalmente competem entre si pelo poder formal. Essa é, em geral, a situação mais saudável. Os outros membros estão na posição de arbitrar entre os dois competidores pelo poder e são assim capazes de colocar exigências do grupo àqueles a quem deram uma confiança temporária.

Muitos critérios diferentes foram usados pelo país, uma vez que os grupos do movimento não decidiram concretamente quem deve exercer o poder dentro deles,. Com o passar do tempo, à medida que o movimento mudou, o casamento tornou-se um critério menos universal para a participação efetiva, embora todas as elites informais ainda estabeleçam padrões pelos quais apenas as mulheres que possuem certas características materiais ou pessoais podem participar. Os padrões freqüentemente incluem: origem de classe média (apesar de toda retórica sobre a relação com a classe operária), ser casada, não ser casada, mas viver com alguém, ser ou fingir ser lésbica, ter entre 20 e 30 anos, ter formação universitária ou, pelo menos, alguma passagem pela universidade, ser “descolada”; não ser muito “descolada”, seguir uma certa linha política ou se identificar como “radical”, possuir certos traços de personalidade “femininos”, como ser “gentil”, vestir-se adequadamente (seja no estilo tradicional, seja no anti-tradicional), etc. Existem também algumas características que quase sempre estigmatizariam a mulher como “desviante”, uma pessoa com a qual não se deve relacionar. Elas incluem: ser velha demais, trabalhar período integral (principalmente se está ativamente dedicada à “carreira professional”), não ser “gentil” e ser declaradamente solteira (ou seja, nem heterossexual, nem homossexual).

Outros critérios poderiam ser incluídos, mas eles têm todos temas comuns. O pré-requisito característico para participar das elites informais do movimento e, portanto, para exercer o poder, diz respeito à origem, à personalidade e à disponibilidade de tempo. Eles não incluem a competência , a dedicação ao feminismo, a posse de talentos ou a contribuição potencial ao movimento. Os primeiros, são critérios que normalmente se usa para escolher os amigos. Os últimos, são critérios que qualquer movimento ou organização tem de usar se pretende ser politicamente eficaz.

Embora essa dissecação do processo de formação de elites em grupos pequenos tenha sido crítico em suas perspectivas, ele não foi feito com a crença de que essas estruturas informais são inevitavelmente ruins, apenas que são inevitáveis. Todos os grupos criam estruturas informais como resultado dos padrões de interação entre os membros. Essas estruturas informais podem fazer coisas úteis. Mas apenas grupos inestruturados são totalmente governados por elas. Quando elites informais estão juntas com o mito da “ausência de estrutura”, não há meios de pôr limites ao uso de poder. Ele se torna caprichoso.

Isto tem duas conseqüências potencialmente negativas das quais deveríamos estar conscientes. A primeira é que a estrutura informal de deliberação será como uma “irmandade” , na qual se escuta as pessoas porque se gosta delas e não porque dizem algo significativo. Enquanto o movimento não faz coisas significativas, isso não importa muito. Mas para que seu desenvolvimento não pare numa etapa preliminar, ele deve alterar essa tendência. A segunda conseqüência é que as estruturas informais não têm obrigação de ser responsáveis pelo grupo como um todo. Seu poder não lhes foi dado; não pode ser tirado. Sua influência não se baseia no que fazem pelo grupo; portanto elas não podem ser diretamente influenciadas pelo grupo. Isso não torna necessariamente as estruturas informais irresponsáveis. Aqueles que se interessam em manter sua influência normalmente tentarão ser responsáveis. O grupo apenas não pode obrigar essa responsabilidade; ele depende dos interesses da elite.

As “estrelas”

A “idéia” da “ausência de estrutura” causou o aparecimento de “estrelas”. Vivemos numa sociedade que espera que grupos políticos tomem decisões e escolham pessoas que articulem essas decisões para o público em geral. A imprensa e o público não sabem como escutar seriamente as mulheres enquanto indivíduos; eles querem saber como o grupo se sente. Apenas três técnicas foram desenvolvidas para estabelecer a opinião de grandes grupos: o voto ou o referendo, o questionário de pesquisa de opinião pública e a seleção, num encontro apropriado, de porta-vozes do grupo. O movimento de liberação das mulheres não tem usado nenhuma dessas técnicas para se comunicar com o público. Nem o movimento como um todo, nem a maioria dos grandes grupos dentro dele estabeleceram meios de explicar suas posições sobre os vários assuntos. Mas o público está condicionado a procurar porta-vozes.

Apesar de não ter conscientemente escolhido porta-vozes, o movimento lançou muitas mulheres que chamaram a atenção do público por diversas razões. Essas mulheres não representam um grupo particular ou uma opinião estabelecida; elas sabem disso e normalmente o dizem. Mas porque não há porta-vozes oficiais nem qualquer corpo deliberativo que a imprensa possa entrevistar, quando ela quer saber a posição do movimento sobre um dado assunto, essas mulheres são tomadas como porta-vozes. Assim, queiram ou não, goste o movimento ou não, por omissão, as mulheres com distinção pública são colocadas no papel de porta-vozes.

Essa é uma das origens do que normalmente se sente das mulheres consideradas “estrelas”. Já que elas não foram escolhidas pelas mulheres do movimento para representar as posições do movimento, elas se ofendem quando a imprensa pressupõe que elas falam pelo movimento… Assim, o combate às “estrelas”, na verdade, encoraja precisamente o tipo de irresponsabilidade individual que o movimento condena. Ao expulsar uma companheira sob a pecha de “estrela”, o movimento perde qualquer controle que possa ter tido sobre a pessoa, que se torna livre para cometer todo tipo de pecado individualista de que foi acusada.

Impotência política

Grupos inestruturados podem ser muito eficazes para fazer as mulheres falarem sobre suas vidas, mas eles não são muito bons para fazer as coisas acontecerem. A não ser que o modo de operação mude, os grupos tropeçam quando chega o momento em que as pessoas se cansam de “apenas conversar” e querem fazer algo mais. Uma vez que o movimento como um todo, na maioria das cidades, é tão inestruturado quanto os grupos de discussão individuais, ele não é muito mais eficaz em tarefas específicas do que os grupos separados. A estrutura informal está raramente suficientemente junta ou suficientemente em contato com as pessoas para ser capaz de operar eficazmente. Assim, o movimento gera muita emoção e poucos resultados. Infelizmente, as consequências de toda essa emoção não são tão inócuas quanto os resultados e a vítima é o próprio movimento.

Alguns grupos que não envolvem muitas pessoas e trabalham em pequena escala, tornaram-se projetos de ação local. Mas essa forma restringe a atividade do movimento ao nível local. Além disso, para funcionarem bem, os grupos precisam normalmente se reduzir àqueles grupos informais de amigos que tocavam as coisas. Isto impede muitas mulheres de participarem. Enquanto a única forma de participação no movimento for a filiação a um pequeno grupo, aquelas mulheres que não aderem estão em evidente desvantagem. Enquanto os grupos de amizade forem o principal meio de atividade organizacional, o elitismo se torna institucionalizado.

Para aqueles grupos que não conseguem encontrar um projeto local ao qual se dedicar, o mero ato de estar junto torna-se a razão de estar junto. Quando um grupo não tem uma tarefa específica (e a conscientização é uma tarefa), as pessoas voltam suas energias para o controle de outras pessoas do grupo. Isto não é feito tanto por um desejo maligno de manipular os outros (embora às vezes o seja) quanto pela falta de alguma coisa melhor para fazer com seus talentos. Pessoas hábeis com tempo disponível e uma necessidade de justificar seus encontros se empenham no controle pessoal e gastam seu tempo criticando as personalidades dos outros membros do grupo. Disputas internas e jogos de poder pessoais tomam conta do dia. Quando um grupo está envolvido numa tarefa, as pessoas aprendem a conviver com os outros como são e a desprezar antipatias em benefício de objetivos maiores. Há limites colocados à compulsão de moldar cada pessoa à concepção que se tem do que deve ser.

O fim da conscientização deixa as pessoas sem direção e a falta de estrutura as deixa sem meios de chegar lá. As mulheres do movimento ou se voltam para si mesmas e suas companheiras ou buscam outras alternativas de ação. E há poucas alternativas disponíveis. Algumas mulheres simplesmente “fazem suas próprias coisas”. Isso pode levar a um grande grau de criatividade individual que pode, em grande parte, ser útil ao movimento, mas não é uma alternativa viável para a maioria das mulheres e certamente não promove um espírito de esforço cooperativo de grupo. Outras mulheres abandonam inteiramente o movimento porque não querem desenvolver um projeto pessoal e não encontraram meios de descobrir, associar-se ou começar projetos de grupo que as interessem.

Muitas se voltam para outras organizações políticas para dar-lhes o tipo de atividade estruturada e eficaz que elas não conseguiram encontrar no movimento das mulheres. Dessa forma, essas organizações políticas que vêm a liberação das mulheres como apenas uma questão entre outras, consideram o movimento de liberação um vasto manancial para o recrutamento de novos membros. Essas organizações não precisam se “infiltrar” (embora isso não exclua que o façam). O desejo de uma atividade política significativa gerado pelas mulheres ao se tornarem parte do movimento de liberação é suficiente para torná-las ansiosas de entrarem em outras organizações. O próprio movimento não permite nenhum tipo de vazão para suas novas idéias e energias.

Aquelas mulheres que entram em outras organizações políticas e permanecem no movimento de liberação das mulheres ou que entram no movimento de liberação e permanecem em outras organizações políticas, tornam-se, por sua vez, pontos de apoio para novas estruturas informais. Essas redes de amizade se baseiam mais nas suas políticas comuns não-feministas que nas características discutidas anteriormente; no entanto, a rede opera praticamente da mesma forma. Já que essas mulheres partilham valores, idéias e orientações políticas comuns, elas também se tornam elites irresponsáveis, não escolhidas, não planejadas e informais — pretendam sê-las ou não.

Essas novas elites informais são freqüentemente sentidas como ameaças pelas velhas elites informais estruturadas anteriormente a partir de outros movimentos. Trata-se de um sentimento justificado. Essas redes politicamente orientadas dificilmente estão dispostas a ser meras “irmandades” como eram muitas das antigas e querem fazer proselitismo de suas idéias políticas e feministas. Isso é natural, mas as implicações disso para o movimento de liberação das mulheres nunca foram adequadamente discutidas. As velhas elites dificilmente estão dispostas a discutir abertamente essas diferenças de opinião porque isso implicaria em expor a natureza da estrutura informal do grupo. Muitas dessas elites informais tem se escondido sob a bandeira do “anti-elitismo” e da “ausência de estrutura”. Para combater efetivamente a competição de outra estrutura informal, elas teriam que tornar-se “públicas” e essa possibilidade é temida por suas inúmeras implicações perigosas. Assim, para manter seu próprio poder, torna-se mais fácil racionalizar a exclusão dos membros da outra estrutura informal por meios como o “combate aos vermelhos”, o “combate às lésbicas” ou o “combate às heteros”. A única outra alternativa é estruturar o grupo formalmente de tal maneira que o poder original seja institucionalizado. Isso nem sempre é possível. Se as elites informais forem bem estruturadas e tiverem exercido uma boa quantidade de poder no passado, tal tarefa é viável. Esses grupos têm uma história de atividade política relativamentente eficaz na qual a firmeza da estrutura informal se mostrou um substituto adequado à estrutura formal. A sua estruturação não altera muito sua operação, embora a institucionalização da estrutura de poder abra espaço para a contestação formal. Normalmente, são os grupos que mais necessitam de estrutura, os menos capazes de criá-la. Suas estruturas informais não foram bem formadas e a adesão à ideologia da “ausência de estrutura” as faz relutantes em mudar de estratégia. Quanto mais inestruturado um grupo é, tanto mais carece de estruturas formais; quanto mais adere a uma ideologia de “ausência de estrutura”, mais vulnerável está a ser tomado por um grupo de companheiras oriundas de organizações políticas.

Uma vez que o movimento como um todo é tão inestruturado quanto a maioria dos grupos que o constitui, ele é igualmente suscetível à influência indireta de outras organizações. Mas o fenômeno manifesta-se diferentemente. Num nível local, a maior parte dos grupos consegue operar autonomamente mas apenas os grupos que conseguem organizar uma atividade no nível nacional podem ser considerados grupos nacionalmente organizados. Assim, são as organizações feministas estruturadas que em geral fornecem as direções nacionais para as atividades feministas e essas direções são determinadas pelas prioridades dessas organizações. Grupos como a “Organização Nacional das Mulheres” e a “Liga de Ação pela Igualdade das Mulheres” e algumas convenções feministas de esquerda são as únicas organizações capazes de montar uma campanha nacional. Os inúmeros grupos inestruturados de liberação das mulheres podem escolher se vão apoiar ou não as campanhas nacionais, mas são incapazes de organizar uma campanha elas próprias. Dessa forma, seus membros se tornam as tropas sob a liderança das organizações estruturadas. Eles não têm sequer os meios de decidir quais devem ser as prioridades.

Quanto mais inestruturado um movimento é, menos controle ele tem sobre as direções na qual se desenvolve e sobre as ações políticas na qual se engaja. Isso não significa que suas idéias não vão se espalhar. Dado um certo grau de interesse dos meios de comunicação e condições sociais favoráveis, as idéias poderão ser difundidas amplamente. Mas o fato das idéias serem difundidas não implica que serão implementadas; significa apenas que serão discutidas. Na medida em que podem ser aplicadas individualmente, elas podem ser realizadas, mas na medida em que requerem poder político coordenado para ser implementadas, elas não o serão.

Enquanto o movimento de liberação das mulheres permanece dedicado a uma forma de organização que enfatiza os pequenos e inativos grupos de discussão entre amigas, os piores problemas da inestruturação não se farão sentir. Mas esse estilo de organização tem seus limites; é politicamente ineficiente, excludente e discriminatório quanto às mulheres que não estão ou não podem estar ligadas a redes de amigas. Aquelas que não se enquadram no esquema existente por motivo de classe, raça, profissão, casamento, maternidade ou personalidade serão inevitavelmente desencorajadas de tentar participar. Aquelas que se encaixam desenvolverão interesses dissimulados de manter as coisas como estão.

Os interesses dissimulados dos grupos informais serão mantidos pelas estruturas informais que existem e o movimento não terá meios de determinar quem deve exercer o poder nele. Se o movimento continua, deliberadamente, a não escolher quem deve exercer o poder, ele termina por não abolir o poder. Tudo que faz é abdicar o direito de exigir daquele que exerce o poder e a influência que tenha responsabilidade por esse poder e essa influência. Se o movimento continua a manter o poder tão difuso quanto possível porque sabe que não pode exigir responsabilidade daquele que o tem, ele impede qualquer grupo ou pessoa de dominá-lo totalmente. Mas, simultaneamente, ele se condena a ser tão ineficaz quanto possível. Um meio-termo entre a dominação e a ineficácia pode e deve ser encontrado.

Esses problemas estão surgindo agora porque a natureza do movimento está mudando necessariamente. A conscientização, como função principal do movimento de liberação das mulheres, está se tornando obsoleta. Devido à intensa publicidade da imprensa nos últimos dois anos e aos inúmeros livros e artigos que circulam agora nos meios estabelecidos, a liberação das mulheres se tornou uma expressão assimilada. Seus temas são debatidos e os grupos de discussão informais são formados por pessoas que não têm conexão explícita com nenhum movimento. O trabalho puramente educacional não é mais uma necessidade imperativa. O movimento deve continuar com outras tarefas. Ele precisa agora estabelecer suas prioridades, determinar suas finalidades e perseguir seus objetivos de maneira coordenada. Para fazê-lo ele deve organizar-se localmente, regionalmente e nacionalmente.

Princípios da estruturação democrática

A partir do momento em que o movimento não se prende mais tenazmente à ideologia da “ausência de estrutura” ele estará livre para desenvolver aquelas formas de organização que melhor se adequam ao seu funcionamento saudável. Isto não significa que devemos ir ao outro extremo e cegamente imitar as formas tradicionais de organização. Mas nós também não devemos cegamente rejeitá-las. Algumas técnicas tradicionais mostrar-se-ão úteis, ainda que imperfeitas; outras nos darão idéias sobre o que devemos fazer para obter certos fins com custos mínimos para as pessoas no movimento. Na maior parte dos casos, nós teremos que experimentar com formas diferentes de estruturação e desenvolver uma variedade de técnicas para usar em situações variadas. O “sistema de sorteio” é uma dessas idéias que emergiram do movimento. Ele não é aplicável a todas situações mas é útil em algumas. Outras idéias para a estruturação são necessárias. Mas antes que procedamos na experimentação inteligente, devemos aceitar a idéia de que não há nada de inerentemente ruim na estrutura em si mesma — apenas no seu uso excessivo.

Enquanto entramos nesse processo de tentativa e erro, existem alguns princípios que podemos ter em mente que são essenciais para a estruturação democrática e que são também politicamente eficazes:

1. Delegação, por meios democráticos, de autoridade específica a indivíduos específicos para tarefas específicas. Deixar pessoas assumirem trabalhos ou tarefas por omissão ou negligência significa apenas que eles não serão feitos de forma segura. Se as pessoas são escolhidas para uma tarefa, preferencialmente após manifestarem um interesse ou vontade de fazê-la, elas assumem um compromisso que não pode ser facilmente ignorado.

2. Exigência de que aqueles a quem a autoridade foi delegada sejam responsáveis frente aqueles que os escolheram. Essa é a forma pela qual o grupo tem controle sobre as pessoas em posições de autoridade. Indivíduos podem exercer o poder, mas é o grupo quem tem a última palavra sobre a forma como o poder é exercido.

3. Distribuição da autoridade entre tantas pessoas quanto possa ser razoavelmente possível. Isso impede o monopólio do poder e exige daqueles em posições de autoridade que consultem muitas outras pessoas no exercício de seu poder. Também oferece a muitas pessoas a oportunidade de ter responsabilidade por tarefas específicas e dessa forma aprender habilidades específicas.

4. Rotação de tarefas entre as pessoas. Responsabilidades que são mantidas durante muito tempo por uma mesma pessoa, formalmente ou informalmente, passam a ser vistas como sua “propriedade” e não são facilmente substituídas ou controladas pelo grupo. Inversamente, se a rotatividade das tarefas é muito freqüente, as pessoas não têm tempo para aprender seu trabalho direito e adquirir o sentimento do trabalho bem feito.

5. Alocação de tarefas segundo critérios racionais. Escolher pessoas para uma posição porque elas são queridas pelo grupo ou lhes dar um trabalho pesado porque não são queridas, prejudica, a longo prazo, o grupo e a pessoa. Habilidade, interesse e responsabilidade têm de ser as principais preocupações nessa seleção. As pessoas devem ter a oportunidade de aprender habilidades que não possuem, mas isso é melhor implementado por uma espécie de programa de “aprendizes” do que pelo método do “ou nada ou afoga”. Ter uma responsabilidade maior do que se agüenta pode ser desmoralizante. Inversamente, ser rejeitado naquilo que se faz bem não encoraja ninguém a desenvolver habilidades. As mulheres têm sido punidas por serem competentes por toda história humana. O movimento não precisa repetir esse processo.

6. Difusão de informação a todos com a maior freqüência possível. Informação é poder. O acesso à informação aumenta o poder. Quando uma rede informal dissemina novas idéias e informações entre si, sem passar pelo grupo, ela está envolvida num processo de formação de opinião sem a participação do grupo. Quanto mais se sabe como as coisas funcionam, mais politicamente eficaz se é.

7. Acesso igualitário aos recursos necessários ao grupo. Isto nem sempre é possível, mas deve se lutar para consegui-lo. Um membro que mantenha um monopólio sobre um recurso necessário (por exemplo, uma gráfica ou um laboratório de revelação do marido) pode influenciar indevidamente o uso daquele recurso. Habilidades e informação também são recursos. E as habilidades e informações dos membros só estarão igualmente distribuídos quando os membros quiserem ensinar o que sabem para os outros.

Quando esses princípios são aplicados, eles asseguram que quaisquer estruturas que sejam desenvolvidas serão controladas pelo grupo e assumirão responsabilidades frente a ele. O grupo de pessoas em posição de autoridade será difuso, flexível, aberto e temporário. Eles não estarão numa posição que facilita a institucionalização do seu poder, porque as decisões definitivas serão feitas pelo grupo como um todo. O grupo terá assim o poder de determinar quem deve exercer a autoridade dentro dele.

[su_box title=”Sobre Jo Freeman” box_color=”#fff317″ title_color=”#000000″]

Jo Freeman (nascida em 26 de agosto de 1945) é feminista, cientista político, escritora e advogada americana. Como estudante na Universidade da Califórnia, Berkeley na década de 1960, ela se tornou ativa em organizações que trabalham para liberdades civis e o movimento de direitos civis. Ela passou a fazer registro de eleitores e organização comunitária no Alabama e no Mississippi e foi um dos primeiros organizadores do movimento de libertação das mulheres. Ela escreveu vários artigos feministas clássicos, bem como documentos importantes sobre movimentos sociais e partidos políticos. Ela também escreveu extensivamente sobre mulheres, particularmente sobre direito e políticas públicas para mulheres e mulheres na política geral.

 

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Hampton: “É uma luta de Classes, porra!”

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Texto Originalmente publicado no Site Nova Cultura 

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O que nós vamos tentar, é que vamos tentar praguejar e educar. Nós estamos felizes de tentar acrescentar mais alguma informação. E isso será algo difícil de fazer. A irmã fez um belo discurso até onde eu sei. Chaka, o Vice-Ministro de Informação, esse é seu trabalho – informação. Mas eu vou tentar informar vocês também.

Uma coisa que Chaka se esqueceu de informar: que irmãos e irmãs não fazem exatamente o mesmo. Nós não pedimos a qualquer irmão para engravidar ou coisa assim. Não pedimos a nenhum dos irmãos para que tenham bebês. Então isso é um pouco diferente também.

Depois que nós terminarmos de falar, para aquelas pessoas entre vocês que não acham que entenderam toda a ideologia exposta aqui até então, e as ideologias que irei expor, nós teremos uma sessão de perguntas e respostas. Para aquelas pessoas que têm seus sentimentos feridos por negros falando sobre armas, nós teremos sessão de choro depois da sessão de perguntas e respostas. E para aquelas pessoas brancas que estão aqui para mostrar algum tipo de grande manifestação de síndrome de culpa, e querem que as pessoas clamem seu amor por elas depois da sessão de choro, se nós tivermos tempo, nós permitiremos a todos vocês ter uma sessão de amor.

Então agora vamos ao que interessa. Em primeiro lugar, sobre o que algumas pessoas chamam de julgamento. Nós o chamamos uma hecatombe, nós o chamamos uma hecatombe. Que se soletra h-e-c-a-t-o-m-b-e. E eu sei que há dicionários suficientes circulando por aqui que provavelmente encheriam toda a sala, então vocês podem conferir isso. Isso significa um sacrifício. Isso geralmente significa um sacrifício de um animal. Então nós gostaríamos que vocês, se vocês viessem a gostar de fazê-lo, se as pessoas perguntarem: “vocês já estiveram no julgamento”, contem que vocês viram ou ouviram sobre a hecatombe, porque é isso que ele é. É um sacrifício público. É uma situação onde estão julgando injustamente, julgam ilegalmente nosso presidente.

Nós encaramos isso como uma manifestação de 1969 da Decisão de Dred Scott. Nós olhamos para o Presidente Bobby como sendo a manifestação de Dred Scott de 1857. E nós olhamos para o Juiz Hoffman como sendo uma manifestação do Juiz Taney em 1857. Porque em 1857 Dred Scott era um negro, um ex-escravo – era ainda um escravo, porque nós somos escravos – que foi à corte e evidentemente teve algum tipo de mal-entendido sobre o que ele era na sociedade americana, onde se encaixava.

Fred Hampton
Fred Hampton

Então ele foi à Suprema Corte para que o juiz Taney respondesse a ele e tentando esclarecer algumas ideias equivocadas que tivera rodando em volta de sua velha cabeça. E o juiz Taney fez exatamente isso. O juiz Taney explicou muito claramente que, “negro, você não é ninguém, você é uma propriedade, você é um escravo. Que os sistemas – o sistema legal, o sistema judicial – todos os tipos de sistemas que estão operando na América hoje foram estabelecidos muito antes de você chegar aqui, irmão. Porque nós aliciamos você para ganhar dinheiro para manter o que nós temos em funcionamento, esses avarentos, gananciosos homens de negócios, para manter o que nós temos funcionando, e funcionando”.

E Dred Scott não conseguiu entender isso. Houve uma grande rejeição. E naquela época, o juiz Taney fez uma declaração que se tornou famosa. E a declaração, talvez não nas mesmas palavras; mas através de ações e através de prática social, está sendo manifesta agora no novo Edifício Reigstag em Jackson e Dearborn. Está se manifestando através do juiz Hoffman dizendo a mesma coisa que o juiz Taney disse em 1857. Quando ele contou a Dred Scott que “negro, um homem preto na América não possui nenhum direito que um homem branco seja obrigado a respeitar”. E essa é a mesma coisa que o juiz Hoffman está contando a nosso presidente todo o dia.

E nós entendemos. Vocês sabem, muitas pessoas se irritam com o Partido porque fala sobre a luta de classes. E as pessoas que se irritam com isso são oportunistas, covardes e individualistas e tudo que são é qualquer coisa menos revolucionários. E usam essas coisas como desculpas para justificar e invocar um álibi e para bonificar sua falta de participação na luta revolucionária real. Então dizem, “bem, eu não posso entrar no Black Panther Party porque os Panteras estão ocupados em trabalhar com radicais do país opressor, ou pessoas brancas, ou bonitões ou o que quer que seja. Eles dizem que isso são algumas das desculpas que eu uso para negar realmente porque não estou na luta”.

Nós temos bastante respostas para essas pessoas. Primeiramente, nós dizemos primariamente que a prioridade dessa luta é a classe. Que Marx e Lenin, Che e Mao Tsé-tung e todo o resto que já disseram ou conheceu ou praticou alguma coisa sobre revolução, sempre disse que a revolução é uma luta de classes. Havia uma classe – a oprimida – e aquela outra classe – a opressora. E isso tem de ser um fato universal. Aqueles que não admitem isso são aqueles que não querem se envolver na revolução, porque sabem que enquanto estão lidando com coisas raciais, nunca estarão envolvidos na revolução. Eles podem falar sobre números, podem pendurar você em muitos, muitos meios, mas assim que você começar a falar sobre classe, então você tem que começar a falar de armas. E isso é o que o Partido tinha que fazer.

Quando o Partido começou a falar sobre luta de classes, nós achamos que tínhamos que falar sobre algumas armas. Se nós nunca negamos o fato de que havia racismo na América, mas dissemos que quando você, o subproduto, o que sai do racismo, que o capitalismo vem primeiro e depois vem o racismo. Que quando eles trouxeram escravos até aqui, o fizeram para ganhar dinheiro. Então a primeira ideia a surgir foi que nós queremos ganhar dinheiro, então os escravos vieram com o objetivo de gerar aquele dinheiro. Isso significa que, através de um fato histórico, o racismo tinha que vir do capitalismo. Tinha que ser o capitalismo primeiro e o racismo foi um subproduto daquilo.

Qualquer um que não admita que está mostrando através da sua não admissão e da sua não participação na luta, são pessoas que falham em estabelecer um compromisso; e a única coisa que procuram conseguir para eles é a educação que recebem nessas instituições – educação o suficiente para ensiná-los alguns álibis e ensiná-los que você tem que ser negro, e você tem que mudar o seu nome. E isso é maluco.

O ministro da educação do Partido, Raymond “Masai” Hewitt, e o Chefe de Gabinete, David Hilliard, há pouco voltaram da África visitando Eldridge Cleaver. E disseram que os negros lá nunca usarão o tipo de traje que alguns desses tolos africanizados usam por aqui. Eles estão usando andrajos ou senão usando nada. E se vocês querem se vestir como algumas pessoas africanas, então vocês têm que se vestir como os angolanos ou o povo do Moçambique. Esses são povos que estão fazendo alguma coisa. Vocês precisam se vestir como os povos que estão em lutas de libertação. Mas não, vocês não querem se tornar africanizados assim, porque assim que vocês se vestirem como alguém de Angola ou Moçambique, então depois de vocês vestirem o que quer seja que vistam, e isso pode ser qualquer coisa dos andrajos a alguma coisa da quinta Avenida Saks, vocês têm que colocar algumas bandoleiras e algumas AR-15 e alguns 38; vocês têm de vestir algumas Smith and Wessons e algumas Colts 45, porque é isso que estão usando em Moçambique. E qualquer negro por aqui dizendo para vocês que quando o seu cabelo está longo e vocês estão vestindo um dashiki, e vocês tem bubus e todas essas sandálias, e todas essas formas de ação, então vocês são revolucionários, e qualquer um que não pareça com vocês, não o é – aquele homem tem de sair de sua cabeça.

Porque nós sabemos que o poder político não flui da manga de um dashiki. Nós sabemos que o poder político nasce da ponta do fuzil. E isso é verdade. E isso tem que ser verdade. Nós sabemos que para sermos capazes de falar sobre o poder, que o que você tem de ser capaz de falar sobre é a habilidade de controlar e definir o fenômeno e fazê-lo agir de maneira desejada. Isso significa que se você não consegue controlar e definir um fenômeno e fazê-lo agir da maneira desejada, então você não tem mesmo quaisquer relações com o poder, você não sabe e provavelmente nunca saberá o que o poder é. E nós sabemos o que o poder é, e nós sabemos quem está fazendo mal ao povo – o inimigo.

E todo mundo quer falar sobre… os costeletas de porco contarão a você em um minuto. “Os porcos não querem que você fique negro. Eles não querem você tenha nenhum dos programas de estudos negros. Eles não querem que você use dashikis. Não querem que você aprenda sobre a terra natal e quais raízes comer do solo. Eles não querem isso porque assim que você tiver isso, assim que você voltar à cultura do século XI, você ficará bem”.

Confira as pessoas que voltaram à cultura do século XI. Confira as pessoas que estão usando dashikis e bubus e pense que isso vai libertá-las. Confira todas essas pessoas, perceba onde estão localizadas, encontre os endereços dos seus escritórios, escreva-as uma carta e pergunte-as se no ano passado quantas vezes o escritório delas foi atacado. E então escreva a qualquer Black Panther Party, em qualquer lugar dos Estados Unidos, qualquer um na Babilônia, e pergunte-os como muitas vezes os porcos a atacaram. Então você vai fazer sua estimativa de ambos, e descobrirá do que os porcos não gostam. É nesse momento que você descobre do que os porcos não gostam.

Nós fomos atacados três vezes desde junho. Nós sabemos do que os porcos não gostam. Temos pessoas fugindo do país às centenas. Nosso Ministro da defesa está na cadeia, nosso Presidente está na cadeia, nosso Ministro da Informação está exilado, nosso Tesoureiro, o primeiro membro do Partido, está morto. O Vice-Ministro da Defesa e Vice-Ministro da Informação, Alprentice Bunchy Carter, e John Huggins do Sul da Califórnia, assassinados por costeletas de porco, falando sobre um programa BSU. Sabemos do que os porcos não gostam.

Nós dissemos que ninguém atiraria em um Pantera exceto um porco, porque os Panteras não colocam em risco a ninguém exceto os porcos. E se as pessoas disserem a vocês que os Pante-ras representam ameaças, então as pergunte que tipo de sentido isso poderia ter, a não ser que seja acordar às 5 da manhã para alimentar o filho de alguém e então às 3 da tarde pegar uma refeição. Nós não precisamos fazer isso. Que sentido isso faz para nós abrir uma clínica gratuita onde o único pré-requisito para receber atendimento médico de graça é que você esteja doente. E nós temos estudantes que estão dançando por aí, falando sobre estarem fazendo algo pela luta, e eu quero saber o que mais vocês podem fazer? E vocês eu digo todas pessoas de Chicago.

As pessoas estão falando sobre o Partido ter sido cooptado por gente branca. Isso é o que aquele mini-fascista, Stokely Carmichael disse. Ele não é nada mais que um boçal. Até onde eu sei, é um boçal, porque eu venho conhecendo ele faz anos, e isso é tudo que ele pode ser, se seguir por aí atacando o Black Panther Party.

Se nós estamos cooptados por gente branca, então confira as localizações dos nossos escritórios, nosso programa de café da manhã, nossa clínica de saúde gratuita será aberta provavelmente este domingo na 16ª com a Springfield. Alguém não sabe onde a 16ª com Springfield fica? Não fica em Winnetka, você entende. Não fica em Dekalb, fica na Babilônia. Fica no coração da Babilônia, irmãos e irmãs.

E aquela clínica gratuita foi colocada lá porque sabemos onde está o problema. Nós sabemos que o povo negro é o mais oprimido. E se nós não soubéssemos disso, então porque diabos andamos por aí falando sobre a luta de libertação negra ser a vanguarda para a libertação de todas as lutas? Se houver algum dia qualquer libertação na terra natal, se houver qualquer libertação na colônia, então nós seremos libertados pela liderança do Black Panther Party e a luta de libertação negra. Nós não negamos esse fato.

Nós não estamos ligados a ninguém que não seja um Pantera. Nós queremos deixar vocês pensando isso, porque nós podemos estar com Fred, eu quero dizer Everett, nós podemos estar com ele. Mas nós não podemos estar com Ron Karenga e LeRoi Jones. Nós não podemos. Nós não conseguimos ver nenhuma prática social da parte deles, irmãos. Nós sabemos que ambos possuem nomes mais longos que o meu braço. E ambos supõem ser tão inteligentes e tão espertos. E esse é o problema agora mesmo.

Nós estamos falando sobre a destruição do sistema, e eles têm medo de fazê-lo porque estão comprando constantemente propriedades dentro do sistema. E é meio difícil queimar na terça o que você comprou na segunda. Porque eles são um bando de capitalistas impenitentes. Eles nunca se arrependerão. E sabem disso melhor. Nós tentamos criar desculpas para eles – “talvez eles tenham de passar por etapas, Fred”. Não, não é assim. Porque são muito mais velhos que nós somos. Eu estou com 21. Nós somos todos jovens. Então sobre etapas, eles não chegaram através delas. Ron Karenga tem mais graus do que um termômetro. Está certo, ele tem mais graus do que um termômetro e continua a fazer o que está fazendo. E como eles enganam vocês? Porque pegam os líderes que eles querem. E elevam essas pessoas e as pintam como seus líderes, mas de fato, não são líderes de ninguém.

Nós chamamos de apologistas oprimidos. Porque depois de alguma coisa acontecer, todos podem se desculpar por isso. Olhe nos jornais. Agora eles estão desenhando imagens do Presidente acorrentado e amordaçado. Você não sabe que se as notícias da mídia, a imprensa oficial, se movessem antes disso, que poderiam ter parado o surgimento da maré fascista anos atrás. Mas endossaram, se uniram, apoiaram o que os fascistas estavam fazendo naquele momento. E agora isso está se acumulando sobre todo o povo.

E um monte de pessoas pensa agora que suas mãos estão ficando sujas. Nós as chamamos de servos ideológicos do fascismo dos Estados Unidos. E é isso o que são, porque servem ao fascismo ao não fazer nada a respeito até que a lei recaia sobre eles e então se desculparem por isso, se tornam apologéticos. Mas nós dizemos que esta é a mesma imprensa que olhará e acreditará e pensará que é genuíno; a mesma imprensa que nos falou para acreditar que éramos alguém quando de fato não éramos ninguém.

Eu penso que não há nada mais importante. Eu penso que o que Malcolm diz é importante. Agora repensem. Aqueles estudantes estavam rindo de Malcolm. Vocês sacaram? Eles estavam rindo de Malcolm. Por quê? Regis Debray diz que os revolucionários estão no futuro. Aqueles militantes e costeletas de porco e todas essas pessoas, estudantes radicais, estão no presente, e que a maioria do resto das pessoas tenta permanecer no passado. É por isso que quando surge alguém que está no futuro muitos de nós não conseguem entendê-lo. E a mesma coisa que vocês não compreendem em Huey P. Newton agora, vocês não entenderam em Malcolm quando ele estava vivo. Mas sabemos que quando Malcolm se foi, o poço quase secou. Vocês não sentem a falta da água até o poço secar, e ele quase secou.

Huey P. Newton tem leitura, e não é como muitos de nós. Muitos de nós lemos e lemos e lemos, mas não temos nenhuma prática. Nós temos um monte de conhecimento em nossas mãos, mas nunca o praticamos; e cometemos quaisquer erros e corrigimos aqueles erros para que nos tornemos capazes de fazer alguma coisa propriamente. Então nos parecemos, como dizemos, com mais graus do que um termômetro, mas nós não somos capazes de cruzar a rua e mascar chiclete ao mesmo tempo, porque temos todo aquele conhecimento, mas que nunca foi exercitado, nunca foi praticado. Nós nunca testamos como é que realmente funciona. Nós o chamamos isso de testá-lo com a realidade objetiva. Vocês devem ter qualquer tipo de pensamento em sua mente, mas têm de testar com o que está lá fora. Vocês veem o que eu quero dizer?

Eles nos falam em comprar barras de doce e jogar o doce fora e comer o papelão. Eles são as únicas pessoas no mundo, vocês compreendem, isso mesmo, que podem vender caixas de gelo para esquimós. Podem vender perucas naturais para negros que já tem cabelo natural. E vejam, essa é a vergonha. Eles conseguem vender para um homem de só uma perna provavelmente 24 bilhetes para um concurso de chutar o traseiro, que sabe que não tem nada com aquilo. Vejam, essa são as coisas que podem fazer por nós e então nos mantêm acreditando que o que estão dizendo é certo, que é genuíno, que é justificado. Nós dizemos que isso é errado, que é incorreto, que Malcolm, quando falou para os estudantes, e vocês provavelmente escutaram aquela gravação, fala a alguns judeus, algumas pessoas lisas, e contou a elas.

Vocês podem dizer, “bem, da forma como me sinto, as pessoas deveriam ser capazes de andar por aí nuas porque estupro é amor”. Isso é idealismo. Veem o que eu digo? Vocês estão lidando com metafísica. Estão lidando com subjetividade, porque não a estão testando com a realidade objetiva. E o que está realmente errado é que vocês não testam. Porque se vocês testarem, vocês vão chegar à objetividade. Porque tão logo vocês andem lá fora, um grande monte de realidade objetiva vomitará sobre os seus traseiros e o violará com o que quer que vocês tenham. Então sempre que isso acontece, é quando as pessoas chegam a um monte de ideias erradas. É por causa disso que muitos de vocês não conseguem entender e concordar com um monte de coisas que nós dizemos. Vocês nunca o tentaram.

Vocês não sabem se as pessoas apoiam o programa de café da manhã, porque vocês nunca alimentaram ninguém. Vocês não sabem nada sobre as clínicas de saúde gratuitas porque nunca perguntaram a ninguém. Vocês não sabem nada sobre o bem que uma arma faz a vocês, porque vocês nunca experimentaram uma. E nós dizemos que se nasceram e dizem que não gostam de peras e nunca as provaram, vocês têm que ser uns mentirosos. Vocês não sabem se gostam de peras, mas não podem afirmar que vocês não gostam de peras. O único meio que qualquer um consegue dizer o gosto de pera é se vocês mesmos as provarem. Esse é o único jeito. Isso é realidade objetiva. É com isso que o Black Panther Party lida. Nós não somos metafísicos, nós não somos idealistas, nós somos materialistas dialéticos. E nós lidamos com o que a realidade é, gostemos ou não.

Um monte de pessoas não consegue relacionar-se porque tudo o que eles fazem é amordaçado pela forma como as coisas deveriam ser. Nós dizemos que isso é incorreto. Vocês olham e veem como as coisas são e então vocês lidam com elas. Nós an-damos por aí falando sobre “nós vamos amar todas as pessoas negras. Nós temos um amor incondicional por todas as pessoas negras”. E vocês sabem de uma coisa? Que se Malcolm voltasse, passaria por um milhão de homens da Klan para chegar até Stokely e perseguiria aos gritos seus malditos traseiros. Você me ouviu? Eles não permitiriam nenhuma pessoa branca lá. Mas Malcolm está morto. Agora, o que aconteceu? O que tinha a aquele nome bobo, James Whitmore. Ele não fez a pelezinha?

Porque eles tinham nomes com 37 “X”, 15 “X”, mais negros do que os negros, e eram capazes de se esgueirar por causa desse potencial ignorante que estes maníacos estão tentando incitar sobre nós – “Nós vamos amar todas as pessoas negras porque todo negro é um homem preto em potencial”.

O homem que testemunhou contra o Presidente Bobby no julgamento conspiratório em andamento em Chicago era um homem negro. O homem que enviou o Presidente Bobby a um julgamento em Connecticut é um homem negro. O homem que assassinou Malcolm X é um homem negro. O juiz que negou a fiança de Eldridge Cleaver depois de um homem branco ter garantido a ele a fiança – um negro que investigou por sua própria conta e disse, “Nigger, eu não acho que você deve estar nas ruas”, era um homem negro, Thurgood Marshall, Thurgood ‘Not Good’ Mars-hall, aquele que a NAACP colocou lá. Essa é uma das coisas sobre as quais sentar e morrer, esperar e chorar nos pegou. Se Thurgood Marshall não estivesse lá, então Eldridge Cleaver provavelmente ainda poderia estar aqui com o povo.

Ele é um negro, um lambe botas, um tonto, um boçal. Vocês entendem? Vamos lá: “eu não acho que você deve estar nas ruas”. E nós correndo por aí e deixando negros nos contar que nós temos de amar a todas as pessoas negras.

Vocês ouviram falar sobre o julgamento conspiratório no West Side e que eram capazes de vencer, com Doug Andrews e Fat Crawford, quando tiveram o grande incêndio em West Side na manifestação de Martin Luther King? Perguntem a eles! Irmãos, o que há de errado com vocês? Perguntem a eles se era um homem branco? Não! Porque Doug e eles nos criticam por nossa posição liberal. Chamam de liberal. Então não deixam ninguém entrar na irmandade exceto pessoas negras. Mas eles não sabiam. Alguém já ouviu falar sobre Glove na parte sul de Chicago? Ele não é branco. Vocês acharam que Buckney era branco? Buckney, está pegando todos os seus irmãos e todas as suas irmãzinhas e todas as suas priminhas e priminhos e suas filhas, e vai continuar a pegá-los. E se vocês não fizerem nada, ele vai pegar seus filhos e filhas. E um monte de negros está indo à escola agora tentando fazer um nome. Nós não escutamos ninguém andando por aí e falando “eu sou Benedict Arnold III” porque os filhos de Bene-dict Arnold não querem falar sobre os filhos dele. Vocês ouviram pessoas falando sobre poderem ser filhos de Patrick Henry – pessoas que se insurgiram e disseram “me dê liberdade ou me dê a morte”. Ou primas de Paul Revere. Revere disse “pegue suas armas, os britânicos estão chegando”. Os britânicos eram a polícia.

Huey disse “pegue suas armas, os porcos estão chegando” A mesma coisa. Haverá um monte de Newtons andando por aí. Um monte de crianças se chamarão Huey P. Newton III. Elas não se chamarão de Ooga-Booga ou Karangatang Karenga, ou Mamalama Karenga – nada dessa merda. Elas não vão se chamar disso. Vocês veem, perguntem aos porcos da Califórnia. Perguntem a eles! Vocês estão vendo? Passe-me um pôster deles, irmão. Aquele bem ali. Agora se vocês pensam que estou mentindo, olhem para isso. Deem uma olhada para isso. Agora todas vocês irmãs aqui, digam-me o que parece melhor – um negro andando por aí em uma túnica e uma camisa polo de funcionário, parecendo com Moisés, ou bem assim – esse é o visual mais ruim… vocês podem pensar, vocês devem dizer que são chauvinistas, chauvi-nistas organizacionais vocês podem chamar assim. Vocês podem me chamar de envolvido no ego do próprio partido. Mas eu estou envolvido na verdade. E eu acho que a irmã pode verificar que esses são os mais ruins. Esses são estrelas de cinema da Babilônia, maldição. Hã? Foda-se John Wayne e as todas outras merdas.

Está certo. Mas vocês veem, se vocês olham para aquilo, é como nós ficamos bem. Nós não ligamos se negros usam dashikis. Vocês entendem? Isso não vai significar nada na análise final. Mas nós estamos dizendo que vocês precisam de algumas ferramentas.

Vocês já tiveram a ocasião de ter um médico chegando às suas casas, ou um encanador chegando às suas casas? Suponha que um encanador tenha chegado às suas casas, ele abriu sua bolsa e tinha estetoscópios e termômetros, agulhas hipodérmicas e seringas. Vocês diriam “Você veio consertar o encanamento? Irmão, você pegou as ferramentas erradas. Alguma coisa suspeita está ocorrendo porque você nem trouxe as ferramentas apropriadas”. Não é certo?

Suponha que alguém venha entregar seu bebê e tivesse ferramentas de encanador? Eu sei que vocês, irmãs, gritariam “assassinato sangrento”. Não, mas vocês diriam, “isso não está certo, irmão. Não podemos aceitar isso. Você tem que, entende, você tem de vir mais em uma boa, tem que me mostrar alguma coisa melhor. Você precisa ter algumas ferramentas que são mais apropriadas para essa ocasião, você entende, porque eu não tenho quaisquer torneiras vazando ou coisa parecida”.

Então quando pessoas chegam à nossa comunidade com tanques, quando chegam à Babilônia ou a Warsaw, ou o que quer que vocês queiram chamá-lo, como fizeram nos projetos Henry Horner – e essa é uma manifestação, uma manifestação muito clara do que está acontecendo na Babilônia. Quando fazem aquilo, quando chegam com tanques e aqueles tanques são ferramentas, são ferramentas de guerra, eles estão declarando guerra à comunidade. E se vocês, quando eles chegam na comunidade com tanques, chegam com dashikis e nada mais que dashikis, bubus e nada mais do que bubus e sandálias, então vocês estão no lugar errado e na hora errada e com as pessoas erradas. Seria melhor se vocês voltassem para casa, se tivessem que se despir, se tivessem de ficar de traseiro de fora, e colocasse nada mais que um coldre e uma arma e algumas munições. Ninguém tentará vocês, entendem, assobiar para vocês, ou coisa parecida. Porque isso desaparecerá a partir do minuto… qualquer tipo de atração sexual que vocês tiveram desaparecerá. Porque eles olharão para o Sr. e a Sra. Colt.45 e Sra. .357 Magnum. E as formas deles são as melhores formas que nós temos na Babilônia para lidar com isso. E vocês irmãos segurando uma .357 Magnum em suas mãos, não há nada parecido como sentir uma .357 Magnum, exceto por uma dessas bonitas irmãs negras. Mas nós precisamos das .357 Magnum também. Quando nós saímos por aí, nós seremos capazes de nos proteger. Huey P. Newton emitiu uma ordem muito tempo atrás. Foi a Ordem Executiva #3. Dizia que nós precisamos desenhar a linha de demarcação. E quando os porcos avançam sobre nossos berços, nós temos que protegê-los com força armada. Porcos não avançam sobre os berços dos Panteras. Quando avançam sobre nossos berços, eles têm certeza que os Panteras estão fora da cidade. Nós tivemos uma situação onde avançaram sobre um berço dos Panteras e tinham três helicópteros sobre seu berço. Eu falo sério. Eu falo sério. Vejam, eles vêm preparados. Porque sabem que quando estão chegando a um berço dos Panteras que nós podemos falar um monte de retórica, mas lidamos com o mesmo jargão básico que o povo na Babilônia lida. Se precisa de duas pessoas para dançar tango, filho da puta. Tão logo você arrombe a porta, eu terei de chutá-la de volta para você. Nós não trancamos nossas portas. Nós apenas temos algumas boas armas e as deixamos as malditas portas abertas e quando pessoas chegam lá, nós colocamos algo que as fará ir até loja de ferragens, comprar uma tranca, fechar a porta, trancá-la e te mandar para fora daqui!

Nós vamos nos mover tão rápido quanto for possível, nos movermos para pessoas com questões e respostas e as pessoas com síndrome de culpa e as pessoas que se sentem embaraçadas e envergonhadas e desgraçadas. E nós falamos sobre os seus líderes como LeRoi Jones e Mamalama Karangatang Karenga, um careca bazoomie até onde sabemos. Isso é o que ele é. E nós achamos que se vai continuar a usar dashikis, vai ter que parar de usar calças. Porque ele fica muito melhor em minissaias. Isso é tudo que um filho da puta que não tem nenhuma arma precisa na Babilônia, e isso é uma minissaia. E talvez possa se safar de alguma coisa. Porque não vai atirar caminho afora por nada. Não lutará contra a tentação, mas ele nunca assassinou ninguém exceto um membro dos Panteras Negras. Dê o nome de alguém. Defina para mim a época em que o escritório de Karangatang foi atacado. A única época que teve a oportunidade de usar uma arma foi contra Alprentice Bunchy Carter, um revolucionário. Este irmão tinha mais poesia revolucionária para um filho da puta do que qualquer outro. Cultura revolucionária. John Huggins. A única vez em que eles levantaram uma arma foi contra essas pessoas.

Como Huey disse na prisão, quando eles levantaram suas mãos contra Bunchy e quando levantaram suas mãos contra John, levantaram suas mãos contra o melhor que a Babilônia possui. E vocês devem dizer isso. Vocês devem sentir em qualquer momento em que um irmão revolucionário morre. Vocês nunca ouviram falar no Partido sair matando pessoas por aí. Vocês sacaram o que eu disse? Pensem sobre isso. Eu não vou se quer contar. Vocês pensem sobre isso por si mesmos.

Nós começamos o Black Panther Party em 1966. Eu vou contar para vocês toda a história em um minuto. Nós começamos lidando com porcos. Vocês acham que nós temíamos alguns ka-rangatangs, alguns estúpidos, alguns machos chauvinistas? Eles dizem às suas mulheres “Ande atrás de mim”. A única razão para uma mulher andar atrás de um marica como esse é para ela poder enfiar seu pé até o joelho bem fundo no rabo dele.

Nós não precisamos de nenhuma outra cultura a não ser que seja a cultura revolucionária. O que nós queremos dizer com isso é uma cultura que o libertará. Vocês ouviram seu oficial de campo falando sobre um incêndio na sala, não ouviram? Com o que vocês se preocupam quando vocês têm um incêndio nessa sala? Vocês se preocupam com água ou com fugirem. Vocês não se preocupam com nada mais. Se vocês dizem “Qual sua cultura durante um incêndio?” “Água, essa é minha cultura, irmão, essa é minha cultura”. Porque cultura é uma coisa que te mantêm. “Qual é sua política?” Fuga e água. “Qual é sua educação?” Fuga e água. Quando as pessoas nos perguntam sobre a nossa cultura, nós dizemos que nossa cultura são armas. Nossa cultura é arte revolucionária, algo assim. E quando você vê aqueles dois irmãos que pegaram suas armas e saíram pela Babilônia em 66 quando muitos de nós estávamos assustados para fazer qualquer coisa exceto nos trancar no armário e escutar Coltrane – e isso é algo para bater nesse filho da puta. E isso nos deixou ligados e nos fez negros o suficiente para sermos maus. Então isso nos transformou e nos fez negros o suficiente e nós éramos maus. Então isso nos deixou negros o bastante para sair e lançar uma acusação geral contra o assassinato do resto do povo negro. Negro, você não é nenhum pateta. Negro, como é que seu nome não mudou? Perguntem aos porcos da Califórnia. Perguntem a eles. “Quem você teme mais? Ron Mamalama Karenga ou Huey P. Newton, quem recebeu o nome em homenagem a um político mentiroso, e demagógico, Huey P. Long?” E os porcos não ligam para isso. Porque vocês não têm que chamar, se sua pistola é uma Browning, você não tem que dar a ela um nome africano, porque me acreditem, ela atira da mesma forma. Vocês entendem? Atira da mesma forma.

Mudar o seu nome não vai mudar nosso conjunto de compromissos. A única coisa que vai mudar nosso conjunto de compromissos é o que nos trouxe a esse conjunto de compromissos. E o que nos trouxe foi o opressor. E ele se define em três estágios, nós os chamamos de “três em um”: gananciosos, avarentos homens de negócio; políticos demagógicos e mentirosos e racistas, porcos fascistas e policiais reacionários. Até que vocês lidem com essas três coisas, então seus conjuntos de compromissos permanecerão os mesmos. A única diferença será que vocês ainda estarão sob o fascismo, mas ao invés de Fred estar sob o fascismo, eu seria Oogabooga sob o fascismo. Mas eu sentirei a mesma coisa. Ao invés de eu estar indo para a câmara de gás, eu irei para a seção africana da câmara de gás. Nós estamos tão africanizados por aqui que se africanos viessem aqui, vocês teriam que dar a eles um catálogo para encontrar o que diabos estariam comprando. É isso mesmo, vocês teriam que dar a eles um catálogo para encontrar o que diabos eles estariam comparando. Vocês têm pôsteres, fotos e nomes, nós estamos dando nomes às coisas e a nós mesmos que eles jamais ouviram. E nós chamamos a nós mesmos africanizados. E isso não é algo? Vocês entendem?

Se você é um racista, deixa eu te contar uma coisa. Ou se você é um nacionalista reacionário. Brancos praticam isso. Vá para a África do Sul e pergunte a eles. Vá em frente. Se você quer um exemplo de nacionalismo cultural, o melhor que eu posso dar a você é Papa Doc Duvalier. No Haiti, todas as pessoas negras, “nós precisamos de alguma negritude”. Papa Doc – agora, Duvalier – disse “agora, nós precisamos de alguma negritude. Vamos retirar toda gente branca daqui”. Retiraram toda a gente branca, e agora está oprimindo todo povo negro. Quando a gente negra se queixa disso, ele diz, “bem, maldição, do que vocês estão reclamando agora? Eu sou negro. Eu não posso fazer nada de errado, irmão. Nós já qualificamos isso”. É por isso que esses apologistas como Wesley South vão ao ar, praguejando coisas que sofisticam o que a irmã estava falando. Falando a respeito, fazendo propaganda, na verdade. Apenas praguejando sobre nada porque são boçais em nossa comunidade permitidos a permanecer nela por conta da cor de suas peles.

Vocês têm Bobby Seale acorrentado e amordaçado no Edifício Federal. Vocês têm James e Michael Soto que foram assassinados em dois dias. A propósito, para todos vocês brancos que se afirmam radicais, que afirmam que vão apoiar o Partido. Nós entramos e estamos dizendo que não há melhor, ou mais avançado marxista do que Huey P. Newton. Não o presidente Mao Tsé-tung ou ninguém mais. Nós estamos dizendo que ao menos que as pessoas mostrem-nos através das suas práticas sociais que se identifiquem com a luta na Babilônia, isso quer dizer que não são internacionalistas, não são revolucionários, nem verdadeiramente revolucionários marxista-leninistas. Nós olhamos para Kim Il Sung. Nós olhamos para o camarada Marechal, Marechal Kim Il Sung da Coreia como se elevando em sua prática social assim como Mao Tsé-tung. Se vocês conseguem se identificar com isso, legal. Se vocês não conseguem se identificar com isso, caiam fora com seus traseiros limpos como fazem as galinhas, vocês sacaram? Se vocês não conseguem se identificar com isso. E nós estamos dizendo isso para vocês.

E vocês, filhos da puta, que pensam que são tão radicais e que estão tentando radicalizar tudo em Washington. E eu não sei o que diabos vocês poderiam radicalizar, porque vocês não vão fazer nada além de andar entre os corpos de dois homens mortos, Lincoln e Washington. E eu sei que vão se levantar e obter nenhuma reparação. E há tanta chance para Nixon dar-lhe alguma reparação. Se vocês não conseguem 200 mil pessoas para marchar em Washington por algo que está acontecendo no Vietnã, porque diabos vocês não conseguem 200 mil pessoas para vir para Jackson e Dearborn, o Edifício Federal, e marchar pelo Presidente da Babilônia, o homem que fez mais pela Babilônia, e mais pelo Vietnã do que sua marcha de maníacos jamais fará. Porque vocês não estão fazendo nada por ninguém exceto Florsheims e Ste-tsons ou Stacy Adams e ninguém mais, porque vocês vão gastar suas solas – suas almas metafísicas e as solas de seus sapatos. E nós dizemos que se vocês não conseguem se identificar com isso, então fodam-se.

Porque nossa linha tem sido consistente. Conhecemos o marxismo-leninismo. Pessoas que podem não querer se aprofundar, dizem que marxista-leninistas não xingam. Isso é algo que nós pegamos dos senhores de escravos. Nós sabemos que negros que inventaram a palavra filho da puta. Nós não estávamos fodendo a mãe de ninguém. Era o senhor que fodia as mães das pessoas. Nós criamos a palavra, vocês sacaram? Nós nos relacionamos a isso. Nós negros marxista-leninistas, e negros marxista-leninistas praguejadores, e continuaremos a praguejar, maldição. Porque é com isso que nos relacionamos, é isso que está acontecendo na Babilônia. Isso é realidade objetiva. Ninguém está andando por aí na Babilônia jorrando pela boca um monte de besteira acadêmica, masturbação intelectual, pregando diarreia pela boca. Nós dizemos para aqueles filhos da puta que se vocês querem pegar uma doença na boca, vocês veem e dizem essas merdas em uma comunidade onde os Panteras estão, e vocês vão ganhar uma doença na boca com certeza. Vocês vão ganhar um casco na boca, casco de Pantera na boca. Então se vocês radicais não conseguem se identificar com isso, então fodam-se, porque nós sabemos o que o Presidente Bobby fez pela luta.

E nós sabemos que o povo do Vietnã, elas sabem que a paz, assim como Huey P. Newton contou sobre nosso lema, que nós somos pela abolição da guerra. Nós não queremos guerra, mas entendemos que a guerra só pode ser abolida através da guerra. Que para baixar as armas, fazer um homem se livrar das armas, é necessário pegar uma arma. E vocês, filhos da puta, que estão pela paz no Vietnã, o Black Panther Party é pela vitória do Vietnã. Nós dizemos que eles são agressores, um bando de cães lacaios executores, que são imperialistas. Eles são um bando de belicistas de Wall Street. E devem ser expulsos de lá.

E o único meio de libertação do povo oprimido no Vietnã, ou que a liberdade do povo oprimido da Babilônia possa ser adquirida, é que tem de ser fundada com o sangue e os ossos desses porcos e cães agressivos que chegam a nossas comunidades como tropas ocupando um território estrangeiro em vão no Vietnã e lutam e combatem implacavelmente ao povo no Vietnã e seu direito de autodeterminação. Nós não ligamos se alguém gosta disso ou não. Essa é a nossa linha. Essa é uma linha marxista-leninista. Ela é consistente. E vai permanecer nesse rumo, esse tem sido o rumo.

Se vocês não conseguem que 200 mil pessoas venham se informar sobre Bobby, então dizemos que vocês são contrarrevolucionários. O que vocês estão fazendo é pegar algum tipo de uma rota a partir de DeKalb de onde vocês estiverem par chegar no Vietnã sem sequer passar pelo Henry Horner Projects na parte oeste de Chicago. Isso é impossível. Vocês acham que o Vietnã é ruim? Confiram as leis. No Vietnã se você perde um filho te permitem ficar com o outro. Eles dizem “aqui, querida mãe, segure-o, segure-o bem”. Ele pode ficar em casa, vocês entendem. Se você tem dois por lá e um morre, eles o embarcarão de volta. Eles o embarcarão de volta e vão tirá-lo da guerra onde não haverá nenhuma chance de morrer, porque “Sra., essa guerra não vai levar os seus dois filhos”. E então vocês estão marchando nessa guerra cruel em Washington, todos vocês radicais, e quanto ao Sr. Soto, que perdeu dois filhos em uma semana? Isso nos prova através de fatos históricos que a Babilônia é pior que o Vietnã, precisamos ter alguma moratória na comunidade negra na Babilônia e em todas as comunidades oprimidas.

E Charles Jackson, de Altgeld Gardens. Semana passada, um garoto de 14 anos que estava atirando pedras. Os porcos disseram a ele para parar, e os filhos da puta o balearam e mataram. O assassinaram a sangue frio. E então vocês, filhos da puta, tem a pachorra de vagabundear à Washington, marchando entre dois mortos. O Black Panther Party vai criticar vocês, filhos da puta. Nós vamos criticar vocês abertamente porque nós acreditamos na crítica revolucionária de massas. Nós vamos dizer que vocês estão errados, porque tivemos um monte de críticas direcionadas a nós por foder com você. Ou vocês farão parte do problema ou vão fazer parte da solução. E nós achamos que vocês, filhos da puta, são parte do problema, nós vamos começar a apontar nossas armas para vocês seus malditos.

Nós vamos ter algumas perguntas e respostas. Nós vamos fazer uma coisa também. E essa é outra coisa fora das vistas que mostra às pessoas de onde nos viemos. Nós viemos da Babilônia. O Black Panther Party funcionou unicamente pelo povo negro. Se vocês tiverem uma chance – eu não acho que vai ser este domingo, mas nós gravamos nesse domingo e mostramos no próximo sábado, eu tenho quase certeza. Vai ser gravado nesse domingo e mostrado próximo domingo. Haverá uma grande roda de debate que vai ser sobre “Apenas para Negros”, qualquer um de vocês pode conferir a coisa e ver como é. Ou eu mesmo ou Cha-ka estaremos lá. Nós estaremos apresentando o Black Panther Party. E se vocês tiverem uma chance, porque vocês não dão uma olhada nisso?

E se vocês querem fazer algo por mim, nós gostaríamos de fazer alguma coisa pelo Presidente Bobby, se vocês só baterem palmas para mim. Isso é o que chamamos – você não tem que bater palmas tão alto – é o que nós chamamos de batida popular. Essa é uma batida que foi iniciada em 1966 por Huey P. Newton e Bobby Seale. Essa é uma batida que nunca para porque essa é a batida que tinham porque sabiam que ela não poderia ser parada. Essa é a batida que está manifesta em vocês, o povo. O presidente Bobby Seale diz que enquanto houver o povo negro sempre haverá o Black Panther Party. Mas eles nunca podem parar o Partido a não ser que parem a batida. Enquanto vocês manifestarem a batida, nós nunca poderemos ser parados. Vocês acham que a batida é perigosa? Nós sabemos que ela é perigosa. Porque quando a batida começou na Costa Oeste, o chefe porco de lá, Mafioso Alioto, disse ao resto de seu povo que o ajudassem com o seu fascismo por lá, ele disse, “escutem a batida desse povo. Ei, eles estão batendo muito, rápido demais. Por que eles não voltam para casa onde pertencem?” Quando essa batida começou novembro passado, um ano atrás em Chicago, Illinois, na 2350 W. Madison, quando eu e Chaka e Bobby Rush e Che e alguns irmão e Jewel nos juntamos e dissemos nós vamos começar um Black Panther Party bem aqui. Porque isso é parte da Babilônia, o Partido existe bem aqui também. Que nós podemos estar na escola agora, podemos pensar que estamos no topo da montanha, mas vamos descer até o vale, porque o povo está no vale, o compromisso está no vale, a opressão está no vale, a agressão, a repressão, o fascismo, tudo existe no vale. Não importa quão bom seja no topo da montanha, nós temos um compromisso, então nós vamos voltar. Nós vamos voltar para o vale.

E quando nós fizemos isso, até mesmo Daley e Narahan e o juiz – nós o chamamos de ‘Adolph Hitler’ Hoffman – o chefe fascista que conhece a arte de tapista, a arte que Mussolini supunha ter dominado. Nós dizemos que Hoffmann é melhor na arte de tapista do que Mussolini jamais fora, porque sabemos o que é a arte de tapista é: a arte do bom timing. E quando nós começamos esta batida, o juiz Hoffman e o Governador Daley e o cabeça de martelo Hanrahan disse, “ei, escute o povo, é a batida de Chicago. Politicamente estão batendo mesmo muito rápido, batendo demais. Porque eles não voltam para casa?” Para viver com todo o povo negro onde eles pertencem, para viver em dashikis e bubus e ser costelas de porco nacionalistas e nacionalistas culturais. Por que não voltam para casa para pensar que “o que você está usando” vai mudar o que você é? Por que não voltam para o “poder político flui da maga de um dashiki?” E nós dissemos: Não! Conquanto que a batida continue, nós continuamos, porque isso nos dá no Partido um tipo de intoxicação, que nos deixa entender. Nós somos proletários revolucionários intoxicados e não podemos ser astronomicamente intimidados.

Não se preocupe com o Black Panther Party. Contanto que você mantenha a batida, nós seguiremos em frente. Se você acha que nós podemos ser apagados porque assassinaram Bobby Hutton e Alprendice Bunchy Carter e John Huggins, você está errado. E se você pensa que porque Huey foi preso o Partido vai parar, está vendo, você está errado. Se você acha que porque o Presidente Bobby foi preso o Partido vai parar, está vendo, você está errado. Se você acha que porque podem me prender e pensa que o Partido vai parar, você pensou errado. Porque eles podem “expulsar” Eldridge Cleaver país afora, você está errado. Porque nós já o dissemos antes de sairmos e nós dissemos hoje. Que você pode prender um revolucionário, mas você não pode não pode prender a revolução. Você pode trancafiar um lutador da liberdade como Huey P. Newton, mas você não pode trancafiar a luta pela liberdade. Você pode contratar alguns costelas de porco como Mamalama para assassinar Alprentice Bunchy Carter, um libertador, mas você não pode assassinar a libertação, porque se vocês o fizerem, terão perguntas que não respondem, explicações que não explicam, conclusões que não concluem.

Nós dizemos que se você ousa lutar, então você ousa vencer. Se você não ousa lutar, você não merece vencer. Nós não iríamos para um ringue com Muhammad Ali e não lutando imaginaríamos por que nós perdemos, não é mesmo? Se você não luta, então você não merece vencer. Se você não bota para correr esses fascistas, então você está louco. Nós dizemos que não é mais uma questão de violência e não violência. Nós dizemos que é uma questão de resistência ao fascismo ou não existência dentro do fascismo. Nós dizemos, vamos parar a guerra no Vietnã. Vamos pará-la adquirindo a vitória pelo espírito de Ho Chi Minh. Nós dizemos vamos parar a guerra na Babilônia. Vamos iniciar a descentralização da polícia.

A única coisa real é o povo, porque os porcos mordem a mão que os alimenta e eles precisam ser esbofeteados. E como Chaka disse, quando vocês os pegam em sua casa, os acertem com alguma coisa. Vocês não devem argumentar se atingi-los com uma cadeira ou uma mesa, porque eles estão fora de controle desde o início. Nós dizemos que o opressor – o fodido juiz Taney – o opressor não tem direitos os quais nós, os oprimidos, sejamos obrigados a seguir.

Se vocês tiverem a chance, venham se informar sobre Bobby. Vocês deveriam vir se informar sobre Bobby porque Bobby veio e se informou sobre vocês. Vocês deveriam vir e se informar sobre Bobby porque em 1966, quando nós nem sequer pensávamos que éramos importantes o suficiente para nos protegermos, Bobby e Huey pegaram suas armas e chegaram à comunidade. Eles deixaram a universidade. Eles eram estudantes engenheiros em formação, como Bobby, e Huey era um estudante advogado em formação. E o que eles leram, colocaram na prática. Vocês deveriam vir se informar sobre Bobby porque Bobby veio e se informou sobre vocês. Eu vou me informar sobre Bobby e se vocês tiverem qualquer coisa a dizer vocês virão se informar sobre Bobby. Desçam até Jackson e DearBorn e se informem sobre nosso Presidente, porque ele é o presidente da Babilônia. Ele é o pai e o fundador do programa de café da manhã e das clínicas de saúde gratuitas, não há nada de errado, nada de errado mesmo com isso.

Todo poder ao povo! Poder ao povo do norte de Illinois que vem aqui à Northern Illinois University.

Nós dizemos que precisamos de algumas armas. Não há nada errado com armas em nossa comunidade, há apenas uma má distribuição de armas em nossa comunidade. Por uma razão ou outra, os porcos têm todas as armas. Então todos nós temos de distribuí-las igualmente. Então se veem alguém que tem uma arma e vocês não, então quando vocês saírem vocês devem ter uma. A forma como nós seremos capazes de lidar com as coisas da forma certa. E me lembro de olhar para a TV e achar que não somente os porcos brutalizaram o povo no tempo do velho oeste, tiveram que contratar caçadores para ir caçá-los. Atiravam em alguém sem a intenção de prender. Precisamos de algumas armas. Precisamos de algumas armas. Precisamos de alguma força.

Obrigado.

Eu vou chamar Chaka e a Irmã Joana aqui de volta para lidar com qualquer questão que vocês queiram esclarecer, porque nós temos muito tempo para gastar, e não temos nenhum tempo a desperdiçar.

Como disse a irmã, “o tempo é curto, vamos aproveitar a oportunidade”. Obrigado.

Fred Hampton | Discurso na Nothern Illinois University | Novembro de 1969

Tradução de Gabriel Duccini

 

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Texto Originalmente publicado no Site Nova Cultura 

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Exposição Pretas InCorporações

A mulher preta na arte, entre linguagens, poéticas e militâncias” discute gênero e raça na Estação Cultura em Campinas

A curadora e artista Andrea Mendes reúne em sua nova exposição 12 artistas pretas de Campinas e região com o objetivo de discutir o racismo, a política, o amor, a ancestralidade, as origens, o machismo e o espaço da mulher preta na arte. A exposição representa diversas linguagens, como desenho, fotografia, pintura, poesia, audiovisual, performance e instalação e permanece na entrada principal da Estação Cultura até o dia 10 de dezembro.

Andrea Mendes, Daíse Silva, Francielle Costacurta, Helen Aguiar, Jéssica Paulino, Lubaya Rocha, Marla Rodrigues, Monique dos Santos, Natasha Rodrigues, Brenda Nicole, Thayara Magalhães, Thais Silva e Vick Aisha são as expositoras que, cada uma a seu modo, representaram-se ou a outras mulheres pretas em diversos aspectos da vida cotidiana. Universidade, relações amorosas, familiares, dificuldades na representação e medos de mulheres pretas foram alguns dos temas discutidos com o público de aproximadamente sessenta pessoas que esteve no coquetel de abertura, no dia 19 de novembro, véspera do feriado da Consciência Negra.

Andrea Mendes é arte educadora, artista visual, performer, curadora e militante do movimento negro. Entre os trabalhos, está a curadoria da Exposição Pretitudes no MIS Campinas, em 2016 e a exposição Memórias Históricas do Hip Hop Interior 019, dedicada exclusivamente a contar a história do Movimento Hip-Hop na Região de Campinas. Ela também desenvolve pesquisas sobre raça e gênero.

A convite da Fabiana Ribeiro Curadora do Espaço de Arte da Estação Cultura e com apoio do Núcleo de Consciência Negra Teresa de Benguela da PUC-Campinas, do Ponto de Cultura e Memória Ibaô, do Grupo Kilombagem, da Casa Coletiva Margem31, da CEPIR – Coordenadoria Especial de Promoção da Igualdade Racial e SMPDC – Centro de Referência em Direitos Humanos na Prevenção e Combate ao Racismo, a exposição é um trabalho importante para quem quer compartilhar ou entender o que é ser mulher preta nos dias atuais. Como parte desse grupo, me senti representada ao ver tantas mulheres pretas, com diversas tonalidades, cabelos de diversas texturas, com lutas, angústias e vitórias tão similares, em diferentes narrativas.

Por fim, é gratificante perceber que estamos conquistando esses espaços e, para além disso, estamos juntas, em um verdadeiro Ubuntu: “eu sou porque nós somos.”

Thalyta Martina
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CONFIRA ALGUMAS FOTOS!

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Fotos Crisley Caroline

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Nota de apoio

a militantes perseguidos e pela defesa de Rafael Braga Vieira!

 

Domado eu não vivo, eu não quero seu crime

Ver minha mãe jogar rosas

Sou cravo, vivi dentre os espinhos treinados com as pragas da horta

Pior que eu já morri tantas antes de você me encher de bala

Não marca, nossa alma sorri

Briga é resistir nesse campo de fardas”

Rico Dalasam

A estatística tem cor, tem classe social e endereço. Basta!

Basta de criminalização da pobreza e criminalização das lutas sociais!

Vocês sabiam que um estudante negro da Unicamp está sendo perseguido com uma suspensão de dois semestres porque estava defendendo cotas?i

E que um estudante negro universitário da UEMS (Mato Grosso do Sul) está sendo processado porque portava um mamão durante uma sessão Câmara Municipal de Paranaíba, no qual se posicionava contrário ao reajuste salarial que concedia aumento para o prefeito, ao vice, aos secretários municipais e vereadores? Além de ter sido agredido por 03 agentes de segurança pública do Estado ele agora está respondendo um processo por agredir 03 agentes em que cuja arma era uma fruta?

 

 

Pois é, com Rafael foi o desinfetante e com Welliton Lopesii foi por conta de um mamão. Um mamão!!!! A agressão que ele sofreu foi na última segunda-feira, 24, e ele estava com um grupo de pessoas que se manifestaram contra esse reajuste aprovado pelo Legislativo na semana passada. O universitário Wellington Aparecido Santos Lopes, de 20 anos, estudante de ciências sociais da Uems (Universidade Estadual de Mato Groso do Sul) acabou preso pela Polícia Militar após entrar na Casa de Leis com um mamão em suas mãos e “…dirigir-se aos vereadores em tom de ameaça” conforme noticiou a mídia local. Ele está em liberdade, mas está respondendo pelo processo injustamente.

São muitíssimos casos, elegemos alguns, dos quais sabemos o porque da invisibilidade, mas insistimos. Há diversos acontecendo por dia no Brasil, enquanto escrevia, soube de uma prisão arbitrária de um imigrante palestino que protestava na Paulista em um grupo de militantes contra um ato fascista da direita de cunho extremamente xenófobo. Hasan Zarif, que é liderança no movimento palestina para todos. Ele está sendo acompanhado juridicamente. Lutaremos por sua liberdade também. Mas há mais. Muito mais que não aparecem e quando aparecem na grande mídia é pra nos criminalizar.

O Mário de Andrade que aos 14 anos foi executado por um sargento reformado da PM de Recife? Tá sabendo? Já se passaram 09 meses desde o 25 de julho e o governador Paulo Câmera (PSB) não se pronunciou sobre essa execução até o momento desta publicação.

Durante a greve geral do último dia 28 de abril, 21 pessoas foram detidas em SP, mas há 03 que continuam presos. São eles; pedreiro Luciano Antonio Firmino, 41, o frentista Juraci Alves dos Santos, 57 anos, e o motorista Ricardo Rodrigues dos Santos, 35. A prisão preventiva foi decretada neste domingoiii

Conforme a petição em prol da defesa de Rafael Bragai, “Em janeiro deste ano, a caminho da padaria na favela onde morava, foi novamente preso a partir de um flagrante forjado, de acordo com testemunhas, e acusado de associação e tráfico de drogas, mesmo estando sob vigilância. Na calada da noite, às vésperas do feriado de 21 de abril, Rafael foi condenado a 11 anos de prisão.

A série de absurdos do caso de Rafael não param por aí: o juiz que o condenou levou em consideração apenas os depoimentos contraditórios dos policiais que o prenderam. Além disso, foi negado a ele o direito à ampla defesa: o juiz negou o pedido de acesso à câmera da viatura policial que o levou à delegacia e ao GPS da tornozeleira – provas que poderiam ter mudado o rumo do julgamento e comprovado sua inocência. A defesa de Rafael irá recorrer da decisão, por isso precisamos unir nossas forças e continuar a mobilização pela liberdade de Rafael e conseguir reverter essa injustiça” A segunda prisão arbitrária de Rafael Braga Vieira (que se encontrava preso há 2 anos, sendo o único preso nas manifestações de 2013, porque portava desinfetante!) e recentemente fora condenado há 11 anos de prisão. Até quando será crime ser negro no Brasil?

Esses casos só explicitam o papel das instituições como o judiciário e das polícias civil e militar atuam nessas terras tupinambás. Rafael teve a mochila implantada com cocaína e foi acusado de tráfico! Quer dizer que um jovem negro catador de recicláveis pode ser preso e ficarmos calados porque ninguém policia a polícia? Porque ele é pobre e ninguém se importa?

Se você conhece alguém que já foi forjado com drogas pela polícia, vamos convidar essas pessoas pra manifestarem sua indignação e solidariedade ao Rafael Braga porque eles são muitos, #SomostodosRafael. A guerra às drogas têm sido a melhor justificativa do encarceramento em massa no Brasil e temos denunciado essa justificativa enquanto tentativa de naturalização da política de genocídio onde forjar não pode continuar sendo uma prática das instituições de segurança pública e judiciário porque sabemos que não é coincidência.ii

Rafael não é o primeiro e exigimos que Hasan Zarif seja o último!

                         Os movimentos sociais não se intimidarão! A luta continua até que libertem nossos presos!

Exigimos justiça !!! Basta de racismo! Morte ao Fascismo!

Pela libertação imediata de Rafael Braga e aos militantes do MTST: Luciano, Juraci e Ricardo!

 

Ser preto não é crime! Lutar não é crime!
#LibertemRafaelBraga    #LibertemNossosPresosdaGreveGeral  #SOMOSTODOSWELLITON LOPES! #vidasnegrasimportam SIM! #SolidariedadeaosfamiliaresdeMariaEduarda #SolidariedadeafamíliadeJoãoVictor

#ubuntu #contraogenocídionegroeindigena #contraasreformassangrentasdetemer

Link do evento: https://www.facebook.com/events/156199361580725/?ti=cl

iSeja defensor de Rafael Braga Vieira: http://www.liberdadepararafael.meurio.org.br/

iiQuem policia a polícia? http://ponte.cartacapital.com.br/bancada-da-bala-faz-lobby-pelo-projeto-que-permite-governador-demitir-ouvidor-das-policias/

Ato simultâneo ao ato no Rio de Janeiro, via página Pela Liberdade de Rafael Braga Vieira (no facebook)

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Ei, Escola Sem Partido, vamos falar do seu racismo?

Por Siméia Mello

Há um tempo, assisti a uma entrevista de Ruth Souza, atriz brasileira referência no mundo da arte por conta do seu protagonismo – foi a primeira atriz negra a subir no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e a primeira a protagonizar uma telenovela , na qual ela contava sua experiência escolar ao ter contato com as ideias eugenistas e como isso a marcou, deixando-a bastante constrangida e afoita em provar o contrário, em ser a aluna nota 10.

Simplificando, a eugenia era uma ciência pautada no conceito de seleção natural que, lá no fundo – não tão no fundo assim –, servia para categorizar os homens por meio de raças, demonstrando, “cientificamente”, como algumas podiam ser superiores a outras e, com isso, ajudando a disseminar a tese do menor valor mental do negro.

O que me remeteu a minha experiência escolar em escola pública…

Bom, pra início de conversa, só me lembro de ver negro em livros de História e sobre a escravidão, por meio de imagens de “escravos em troncos”, “negras escravas servindo aos seus senhores” – isso mesmo, escravos, não pessoas escravizadas, porque a humanidade daquelas pessoas não estava presente, nem discutida –; o que me encheu de vergonha e constrangimento por ser negra. Afinal, a minha cor estava somente atrelada à ideia de escravidão, inferioridade, dor, violência, falta…

Além disso, não me lembro de discussões sobre a escravidão ou sobre o racismo que não ultrapassassem a ideia de “coitados”. E, apesar de nunca ter ouvido de nenhum professor, o conceito apregoado, naquelas imagens e naquele discurso vazio e sem contexto, era de que os brancos eram, sim, superiores aos negros. Afinal, toda a história era sobre eles e sobre como colonizaram e disseminaram a cultura europeia – entenda-se como a única realmente importante –, levando a civilidade para povos tão selvagens.

No ensino de língua, me ensinaram muitas regras e como não se devia falar “errado”, mas eu não me lembro de nenhuma discussão de como a língua se atrela à sociedade e serve como uma ferramenta para manutenção de poder e, portanto, pode servir e disseminar o preconceito, as opressões, enfim, o racismo…

E denegrir se tornou, para mim, um verbo notável que só precisava ser conjugado de modo “certo”.

Ainda me recordo dos conceitos de civilização, da história da Europa contada como a única história real e importante, enquanto, os indígenas e negros eram os Outros…

Os Outros quem, “meu Deus”, me perguntava na minha curiosidade exagerada!

Em Geografia, a África era uma massa homogênea de países que foram colonizados pelos europeus e só. Não se discutia como aquela brincadeira de peguem o que quiserem fora feita, nem como a “ciência” servira para aquilo.

O fim da escravidão lido como algo lindo e bacana e só. Ufa, agora somos todos livres… Todos para casa. Ninguém discutia como os negros, agora “livres”, não foram sequer inseridos na sociedade como cidadãos, nem como aquela estrutura colonialista, escravagista e racista persistiu em uma sociedade de “homens livres”, marcando ainda a ferro o negro ao lhe negar a sua humanidade, ao lhe negar formas de emancipação, como, por exemplo, trabalho e educação.

Em contrapartida, me lembro de uma professora que, no ensino médio, em uma brincadeira em sala de aula, se referiu a mim como “negrinha” – mas como até aquele momento as discussões sobre racismo nunca ultrapassaram o senso comum –, meu constrangimento foi num nível que não consigo dimensionar.

E as “brincadeiras racistas” feitas a outras crianças negras? Minha sensação era de: “Ufa! Essa passou perto. Podia ser comigo!”.

Sendo a escola, sobretudo para crianças pobres, o segundo contexto social no qual somos inseridos, desse modo, parte importante da nossa constituição enquanto sujeito social, além de ser nosso primeiro contato com a educação formal, foi lá que eu aprendi a rir junto com todos das piadas racistas, porque era a única arma que eu tinha, já que ela – a escola – não me apresentou nenhuma outra…

Aprendi também, com a escola, a ser invisível, a ser uma eterna devedora sei lá do que, a sensação de não pertencimento, de desajuste e, principalmente, da vergonha em ser negra.

Pois, nesse contexto, eis que a Escola Sem Partido aparece preocupada com “o grau de contaminação político-ideológica das escolas brasileiras, em todos os níveis: do ensino básico ao superior”. Já que, segundo eles, “a pretexto de transmitir aos alunos uma ‘visão crítica’ da realidade, um exército organizado de militantes travestidos de professores prevalece-se da liberdade de cátedra e da cortina de segredo das salas de aula para impingir-lhes a sua própria visão de mundo”, ideia combatida por eles por meio de um projeto de lei contra o abuso da liberdade de ensinar.

E lendo o material do site e do projeto de lei, surge o meu espanto: descubro que eu, euzinha, estudei em uma escola sem partido!

Sim, em uma escola que me transmitiu conteúdos e que, salvo raríssimas exceções, não fez discussões críticas, não fez “doutrinação ideológica” e – para o meu espanto, nem tanto assim – descubro que essa escola só serviu pra eu acreditar que realmente ser negro não era uma boa coisa, que a história era dos vencedores e que, aos perdedores, o silêncio, a invisibilidade e a opressão.

O que me leva a crer que escola sem partido, sem ideologia, tem uma ideologia – a hegemônica –, a mesma apregoada há muito tempo como a única verdadeira, aquela que nos vendeu a ideia de uma única história, de uma única perspectiva! É aquela que vem nos distribuindo verdades absolutas com as quais convivemos por gerações e gerações e que não podem ser contestadas sem parecer “doutrinação”.

Portanto, Escola Sem Partido nada mais é do que a manutenção do status quo, porque a doutrinação, meus amigos, já foi realizada! Ela vem sendo realizada por séculos. Por anos categorizamos o ser humano por gênero, por raça e por classe social e a escola tem servido, sim, à manutenção dessas divisões, privilegiando homens a mulheres, brancos a negros e não brancos, ricos a pobres, sem falar na heteronormatividade…

Educação é conhecimento, conhecimento é reflexão… E reflexão tem de ser crítica, precisa ser pensada e refletida pra além de um único viés, de uma única história! É confrontação; é remover a terra toda; é por o dedo na ferida social; é discutir papéis, lugares e categorias; é mexer nas estruturas…

É mais do que conteúdos dissociados que só servem para gerar ainda mais preconceitos e manter essa estrutura racista e machista na qual vivemos…

E conhecimento é mais, muito mais do que isso, porque ele é poder, porque ele é transformador, porque ele desequilibra a balança da injustiça social, amplia horizontes e nos altera pra sempre! E isso é reflexão crítica!

Portanto…

Aos queridos integrantes da Escola Sem Partido, bem-vindos ao século XXI, meus amores!!

 

Foto PerfilSiméia Mello é negra e feminista. Mestra em Língua Portuguesa, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), professora e revisora de texto. Está sempre discutindo educação, feminismo e racismo. É muito interessada nas lutas contra as opressões e sensível ao ser humano e as suas inúmeras questões.

 

 

 

 

Créditos da  Charge: Que Mario? Segundo chargista, assim serão as escolas se projeto de lei 193/2016 for aprovado

Conteúdo publicado originalmente em:

http://todosnegrosdomundo.com.br/simeia-mello-ei-escola-sem-partido-vamos-falar-sobre-o-seu-racismo/

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Ciclo de debates: Parlamento, Democracia e Partidos

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A defesa da democracia como resolução pacifica de manutenção da ordem, do progresso, da integração e da garantia de direitos tem sido a fala dos progressistas, dos conservadores, dos liberais nacionalistas e internacionalistas, dos sociais democratas e também do partido dos trabalhadores. Envolto em uma democracia irrestrita o parlamento conduz com maestria um rolo compressor ideológico que comprime cotidianamente a classe trabalhadora.

Para debater sobre essa Democracia tão vivamente reivindicada nessa atual conjuntura, realizaremos rodas de conversa com as professoras Lívia Cotrim e Teresinha Ferrari, com objetivo de trazer um debate sobre eleições/parlamento e o que gira em torno de seus limites e possibilidades. Há possibilidade de mudança via parlamento? Um dialogo que traga os limites e a importância do parlamento. Um dialogo que traga o papel da Democracia na criação e expansão dos estados modernos. E os partidos, qual sua lógica de atuação e intervenção? Os partidos servem para que? E a politica, o que é a politica?

Dia 28 de Julho: Prof. Dra. Teresinha Ferrari

Dia 29 de Julho: Prof. Dra. Lívia Cotrim

Horário: 19h30 as 21h

Local: Centro Cultural Dona Leonor – Rua: San Juan, 121 – Parque das Américas – Mauá

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Quem tem medo de um saber descolonizado? Nota de repudio à revogação do Edital de contratação de professes na UFABC

Mais uma vez, o conservadorismo brasileiro contra-ataca, prejudicando desavergonhadamente, a produção de conhecimento em uma Universidade Federal. O cerceamento do Edital 145/2016, que abria processo seletivo para a contratação de professores pesquisadores das relações étnico-raciais, é uma afronta aos interesses da população brasileira, e principalmente do Grande ABC.

A revogação do referido edital representa não apenas uma ferida à autonomia universitária, prevista constitucionalmente mas, sobretudo, um perigoso indício de que o Governo Federal está disposto a ceder as pressões mais mesquinhas e elitistas da direita brasileira. Não é novidade para ninguém que as relações raciais, constituem-se como um tema da mais alta relevância, quando se busca entender verdadeiramente o nosso país, que é tão desigual, do ponto de vista sócio-racial, e ao mesmo tempo tão diverso, do ponto de vista cultural.

O pensamento descolonizado assusta os articuladores de uma revista que se chama “Veja”, mas CEGA com tantas distorções; escandaliza os defensores de um movimento proto-fascista chamado “Escola sem partido”, que na verdade defende uma escola sem debate crítico, voltada à naturalização das desigualdades sociais. É natural que um Edital voltado à contratação de professores pesquisadores voltados às relações raciais assuste os desavisados, estranho, na verdade é o restante da sociedade aceitar em silêncio a esse e tanto outros abusos que vêm sendo cometidos no âmbito federal.

Não iremos aceitar calados(as)!

Seguem abaixo as notas escritas por profissionais e alunos da Instituição

NOTA DE REPÚDIO

Nós, do coletivo Negro Vozes, viemos por meio desta repudiar os trâmites do Edital de concurso de número 145/2016, para contratação de professores para disciplinas da área de Relações Étnico-Raciais.

Esse processo foi conquistado com muita luta das e dos estudantes, professores e servidores dessa universidade. Para nós, negras e negros da UFABC, o estudo das relações étnico-raciais é de suma importância para combater o racismo que nos mata todos os dias.
Somos minoria no corpo de pesquisadores brasileiros justamente porque somos minoria nos espaços de formação do ensino superior. É preciso reconhecer que o racismo é um fator estrutural da formação da sociedade brasileira e, a partir daí, implementar políticas públicas de reversão para essa realidade. Precisamos de jovens, professoras e professores, pesquisadoras e pesquisadores conscientes e aptos para tratar das relações étnico-raciais dentro das salas de aula, para que a Lei 10.639/2003 sobre o ensino da História e da Cultura Afro-brasileira e Africana seja implementada com excelência.

Nesse sentido, consideramos que a autonomia universitária foi ferida a partir do momento que a Reitoria decide unilateralmente retificar um ponto do edital aprovado integralmente pelas instâncias coletivas competentes, em todas as plenárias dos cursos e no ConsEPE. Hoje o ConCECS, aproveitando um evento que aconteceria na universidade realizou uma manobra de colocar em pauta a suspensão do referido edital já que quem defendia essa pauta não estaria presente.

Não aceitamos a suspensão do edital realizada pelo ConCECS, assim como mais nenhuma alteração no seu corpo. Exigimos que o ConsUni garanta que o processo seguirá até se dar a nomeação dos quatro professores para o concurso, pois não nos omitiremos de exigir e garantir os nossos direitos.

Coletivo Negro Vozes UFABC
18 de julho de 2016

Carta aberta à Comunidade Acadêmica

Carta aberta à Comunidade Acadêmica em relação ao Edital 145/2016 (“4×4”)

Como membros do GT do CECS para o concurso sobre Relações Étnico-Raciais (Edital 145/2016, www.ufabc.edu.br/index.php…) vemos, por meio desta, esclarecer alguns pontos fundamentais a respeito.

O estudo das relações étnico-raciais é um campo estabelecido mundialmente, constituído por uma ampla agenda de pesquisa e diversidade de abordagens.
O estudo das relações étnico-raciais no Brasil se desenvolveu insatisfatoriamente na academia, como resultado do tipo de racismo vivido no país, que se negou a reconhecer sua própria existência como fator estruturante da sociedade brasileira. Este fato foi reforçado ao longo do tempo pela ausência quase total de pesquisadores(as) negros(as) nas universidades brasileiras.
A importância do estudo e do ensino das relações étnico-raciais no sistema de educação brasileiro foi tardiamente reconhecida pelo Governo Federal na década passada, começando pela Lei 10.639/2003 sobre o ensino da História e da Cultura Afro-brasileira e Africana e pela Resolução No. 1 do Conselho Nacional de Educação, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Juntamente com leis posteriores, especialmente a Lei 10.645/2008, o processo de reconhecimento tomou corpo no Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-raciais, que inter alia exigiu da educação superior um esforço sistemático para contribuir à formação de jovens pesquisadores(as), professores(as) e cidadãos(ãs) conscientes das realidades brasileiras.
A exclusão de negros(as) foi também reconhecida, resultando, em primeiro lugar, na adoção de cotas raciais em universidades federais, prioritariamente em nível de graduação. Atualmente, cotas raciais são exigidas em cursos de pós-graduação. Adicionalmente, a Lei 12.990/2014 reservou aos(as) negros(as) 20% das vagas em concursos públicos, o que no caso do ensino superior se traduz na reserva de uma vaga em cada três, em editais com três ou mais vagas.
O concurso em questão é uma das primeiras iniciativas de viabilizar tanto a Lei 12.990, como fazer avançar no Plano Nacional de Implementação, por articular quatro bacharelados das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (Ciências Econômicas, Políticas Públicas, Planejamento Territorial, e Relações Internacionais) na alocação de uma vaga por curso a um esforço coletivo. O processo amadureceu ao longo de mais de um ano, passando pelas quatro plenárias, as quais também definiram os pontos da subárea que lhes cabia separadamente. As plenárias e seus colegiados são, portanto, responsáveis pela autoria dos pontos.
O ponto do edital referente ao estudo comparativo de regimes racistas (4.3.1.4), incluindo apartheid, nazismo e sionismo, se refere a um corpo de pesquisa já estabelecido e a um dos assuntos que mais preocupou a Assembleia Geral da ONU, resultando na Resolução No. 3379/1975 que tipificou a opressão do povo palestino como racismo. A resolução foi anulada em 1991, porém o assunto continua a polarizar, como o fez na III Conferência sobre o Racismo, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada na cidade de Durban em 2001.
O ponto do edital não pressupõe que formas de governo e ideologias são iguais em suas características, dinâmicas e consequências. Ele exige que candidatos tenham domínio sobre esses estudos comparativos.
É possível e necessário debater livremente sobre o assunto e a forma como ele foi colocado no edital, porém não cabe a uma Reitoria decretar o que é ou não é apropriado no estudo das relações étnico-raciais. Tal intervenção fere gravemente a liberdade acadêmica e cria um precedente perigoso.
Quaisquer que sejam as divergências sobre o referido ponto do edital, vale lembrar que é apenas um dos quarenta pontos ali existentes, que versam, em sua grande maioria, sobre à questão étnico-racial da população negra no Brasil.
O concurso em questão é resultado de reivindicações históricas do povo negro brasileiro por reconhecimento e inclusão efetiva na sociedade brasileira. Como tal, deve ser defendido por todos(as) aqueles(as) interessados(as) na formação de um país mais justo e democrático. O mínimo que se espera, feita a retificação do referido ponto, é que se respeite a integridade e a legalidade do concurso.

Saudações acadêmicas,

Muryatan Santana Barbosa (BCH/BRI/CECS)
Paris Yeros (BCH/BCE/CECS)

Nota da ADUFABC sobre a retificação do edital 145/2016: a universidade não existe sem autonomia

No último dia 13 de julho, a UFABC publicou no Diário Oficial da União o edital n°160/2016 que, como afirma nota divulgada pela reitoria no mesmo dia, “corrige uma parte do Edital 145/2016 que, de forma inapropriada, tratou no mesmo contexto regimes políticos e acontecimentos históricos muito diferentes entre si”.

Como todos acompanhamos, a decisão da reitoria de retificar o edital tinha o objetivo de encerrar uma forte polêmica envolvendo um dos pontos do referido concurso que mencionava o debate sobre “Conexões da branquidade e dos regimes racistas: apartheid, nazismo, sionismo”. A reação ao ponto envolveu, além de manifestações de parte da imprensa e da comunidade judaica, uma demanda direta do próprio ministro interino da educação.

A universidade, como qualquer outra instituição social, não existe fora da sociedade. Portanto, é perfeitamente compreensível – e até mesmo desejável – que seja objeto de questionamentos de forças sociais diversas, de natureza política, econômica, cultural ou religiosa, sobretudo considerando-se a legitimidade e a eficácia do conhecimento produzido no seu interior.

Mas se é esperado da sociedade que questione a universidade, é igualmente esperado que esta responda respeitando o princípio da autonomia.

A universidade constituiu-se historicamente como instituição lutando contra o poder político e religioso da Igreja, ainda na Idade Média. Da mesma forma, a emergência da ciência moderna no século XVII é impensável sem a afirmação do ideal da autonomia, materializado no expediente da “revisão por pares”, que reconheceu como princípio basilar da moderna produção de conhecimento, a ideia de que só pode julgar a validade de um saber aqueles que sejam capazes, por longo processo de formação, de compreendê-lo e avaliá-lo.

Foi reafirmando esses princípios fundamentais, e em resposta aos traumas e retrocessos causados pelas constantes intervenções da ditadura militar no interior da universidade, que a Constituição Federal de 1988 estabeleceu, no seu artigo 207, o princípio da autonomia universitária, com destaque para a autonomia didático-científica.

Reconhecer a autonomia da universidade não significa isentá-la de controle e responsabilidade social, mas significa afirmar que estes se exercerão segundo determinadas regras, inspiradas nesse princípio constitucional.

É partindo desta reflexão que a diretoria da Associação dos Docentes da UFABC vem por meio desta nota externar a sua profunda preocupação com a forma como o edital 145/2016 foi retificado pela reitoria da UFABC no último dia 13. Se havia uma demanda externa, mesmo que de origem pouco qualificada como foi o caso, para que o edital 145 fosse retificado, isso deveria ter sido feito à luz do princípio da autonomia e respeitando-se as instâncias universitárias, o que, em nossa opinião, exigia que o mesmo fosse reencaminhado de modo oficial para o colegiado responsável pela sua formulação, com uma solicitação de avaliação do questionamento apresentado e de eventuais esclarecimentos e, se este julgasse necessário, de reelaboração do referido ponto do edital.

Como se sabe, a discussão sobre racismo, sobretudo nos seus pontos de intersecção com a política e a religião, é assunto que mobiliza paixões e gera enormes polêmicas. No entanto, é função da universidade formar profissionais capazes de dominar criticamente os debates científicos e acadêmicos que alimentam e analisam tais polêmicas. Aliás, é isso que diz o edital de condições gerais de concurso da UFABC (n° 96/2013), no seu item 11.3:

“A Prova Escrita tem como objetivo avaliar a competência do candidato na utilização de conceitos, técnicas e suas inter-relações, de acordo com a área/subárea de conhecimento em exame, bem como avaliar sua capacidade de argumentação e crítica, domínio conceitual e vocabulário da área/subárea”.

A ideia de estabelecer no edital do concurso pontos ao invés de perguntas fechadas pressupõe a capacidade do candidato de argumentar livremente, inclusive de forma crítica. Assim, qualquer um que conhecesse o edital de condições gerais de concurso da UFABC, saberia que, ao contrário do que foi dito, não se esperava um candidato que equiparasse nazismo, sionismo e apartheid, nem que afirmasse o caráter racista do sionismo. Parece-nos evidente que o edital esperava, na verdade, um candidato que dominasse criticamente o debate por ele evocado.

Vale notar que a associação entre sionismo e ideologia da branquidade, portanto racismo no sentido sociológico do termo, é objeto de um amplo e conceituado debate no campo das ciências sociais, com desdobramentos muito particulares na área acadêmica e profissional das relações internacionais. Prova disso são os constantes debates e embates travados no âmbito da Organização das Nações Unidas para a definição ou não do sionismo como forma de racismo.

Que a Universidade Federal do ABC forme profissionais que lidem com esse debate de forma dogmática é inaceitável. Assim como é inaceitável que esse debate seja interditado a ponto de não poder ser citado em um edital de concurso, como se ele não fosse objeto de análise crítica e objetiva das ciências sociais.

As ciências sociais, de todas as áreas da ciência moderna, são as que mais dificuldades encontram para afirmar a sua autonomia e isso é patente nos constantes debates que se travam no espaço público da UFABC. Em um momento em que assistimos a uma escalada de radicalização política e religiosa no mundo todo, a universidade deve lutar para permanecer como espaço livre, crítico e objetivo de pesquisa e discussão. E isso não pode ser feito sem a preservação do princípio fundamental e constitucional da autonomia universitária. O precedente aberto pela revisão do Edital 145/2016 é, a nosso ver, perigosíssimo. Editais podem, sim, ser revistos, mas segundo critérios muito bem estabelecidos de respeito à autonomia universitária e às especialidades das diferentes áreas. Qualquer procedimento que escape a isso, flerta perigosamente com posições anticientíficas, anti-intelectuais e anti-modernas.

Diante do exposto, a ADUFABC solicita publicamente à Reitoria os seguintes esclarecimentos: 1) Como chegou à Reitoria a demanda de alterações no edital em questão? 2) Quais razões levaram a Reitoria a ignorar as instâncias devidas, notadamente o colegiado de curso que aprovou e referido edital? 3) Qual resposta a Reitoria pretende dar ao veículo de imprensa que, de forma agressiva e leviana, denegriu a imagem da UFABC e de seu corpo docente?

Por fim, a ADUFABC é solidária à Carta Aberta dos professores Muryatan Barbosa e Paris Yeros, membros do GT responsável pelo referido concurso, e reafirma a importância do edital 145/2016, cujo objetivo central é contratar professores que tenham pleno domínio do debate acadêmico-científico sobre a questão étnico-racial em suas diferentes dimensões, mas sobretudo no que concerne ao estudo e à pesquisa do povo negro brasileiro.

São Bernardo do Campo
18 de julho de 2016
ADUFABC

Gestão Democracia, Diversidade e Direitos (2016-2018)

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Nota de Agradecimento Ao apoio do CRP – SP

Nota de Agradecimento Ao apoio do Conselho Regional de Psicologia de SP (CRP – SP)

Todas as vezes em que um homem fizer triunfar a dignidade do espírito, todas as vezes em que um homem disser não a qualquer tentativa de opressão do seu semelhante, sinto me solidário com seu ato.

Frantz Fanon (1925-1961)

O Kilombagem vem através dessa nota expressar publicamente o nosso agradecimento ao apoio do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo – CRP – SP, por viabilizar a nossa participação no I Encontro Internacional de Formação e Organização Pan-africanista e na III Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro, realizado entre os dias 22 à 24 de agosto de 2015, na cidade de Salvador, BA.
Agradecemos por acreditar em nossa luta, sendo esta uma categoria realmente comprometida em compreender a necessidade de barrarmos o genocídio do povo negro em SP e demonstrou apoio concreto ao viabilizar nossa participação nesse encontro Panafricanista. Que sirva de inspiração pra demais categorias profissionais afim de não reproduzirem o racismo institucionalizado e ao mesmo tempo, apoiar a luta negra, das mais variadas formas, em nome da emancipação do povo negro brasileiro.

 

Delegação de SP beneficiada com o apoio: Katiara e Rafaela – representantes da organização Kilombagem e Thaís Rosa – Representante da organização Posse Haussa.

Agradecimento póstumo à Jonathas Salathiel (CRP SP), que estará sempre presente em nossa luta!

Contra o Genocídio do Povo Negro! Nenhum Passo Atrás!

Link do Caderno de Subsídios Técnicos e Teóricos de Enfrentamento ao Genocídio do Povo Negro para Psicólogos:

http://www.crpsp.org.br/portal/comunicacao/cadernos_tematicos/14/frames/fr_indice.aspx

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“A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CADÁVERES” (PRETOS e POBRES)

O titulo do CD do Rapper Eduardo “A fantástica fábrica de Cadáveres” nos apresenta um enredo recorrente: Em uma periferia qualquer de uma grande cidade, um policial é assassinado (no caso, em um ato bárbaro de latrocínio) e em seguida, vários homens encapuzados saem atirando livremente em moradores de bairros pobres da periferia. Em um dos atos de chacina, gravado pelas câmeras de segurança de um bar, o indivíduo encapuzado pergunta aos moradores já rendidos quais deles teriam passagem pela polícia e em seguida, após separá-los, executa-os a sangue frio, para em seguida sair caminhando tranquilamente. Em outros lugares, o bando simplesmente atirou em quem encontrasse pela frente.

Mapa da Chacina em Osasco e Barueri: Fonte G1

O resultado é assustador: de acordo com os números da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, 19 pessoas foram “mortas” (executadas), dessas, 15 em Osasco, três em Barueri e uma em Itapevi. Se poderia perguntar quem teria cometido tamanha atrocidade? Mas nem mesmo os programas jornalísticos mais reacionários tiveram a coragem de fazer essa pergunta. Ela parece óbvia a qualquer idiota que “ligar os pauzinhos”. #SQN: A Secretaria de Segurança Pública fala-se em linhas diversas de investigação; Os periódicos sangrentos especulam sobre a possível ficha criminal dos mortos e, no caso daqueles identificados como “ficha limpa” (a imensa maioria), fala-se em gente “correta” no lugar e hora errada.

Mas qual seria o lugar errado, nesse caso? O próprio bairro? E àqueles que já tiveram passagem pela polícia, é lícito e legítimo assassiná-los? E agora, o que acontecerá? A REGRA TEM SIDO CLARA!!! Quando a polícia (ou qualquer outro agente de segurança) mata PRETO e POBRE, o ato de matar nem mesmo ganha o título de “assassinato”.

Fala-se apenas em “morte”, e “morte” mesmo, incomoda menos, porque dispensa a necessidade de identificar um sujeito causador… um assassino que precisa ser julgado e punido… morte a gente simplesmente aceita, porque, afinal, ela vem para todos. Principalmente para PRETO e POBRE. Já com os “cidadãos de bem” é diferente: eles “vem a falecer” (no caso de morte natural) ou são “brutalmente assassinados”, nunca, simplesmente, “morrem”, muito menos aos montes, empilhados.

Enquanto isso encontramos a seguinte descrição na fanpage da R.O.TA. “Trancamos a cidade de Osasco, só um recado bandido assassino, se passar na frente é rajada de 7. 62”.

Fan page ROTA

7.62 é o codigo para 7,62mm M964A1, o ParaFAL, um Fuzil de alto poder letal utilizada por este setor da Polícia Militar. Entre os comentários na fanpage da R.OT.A encontramos as mesmas lamentáveis assertivas de sempre “Marginal pode tirar vida de pai de família, de jovem, crianças, mulheres… Mas a polícia não pode exterminar esses vermes porque é crime matar? Na moral, o Brasil tem valores muito invertidos. Acorda gente. E quando acontecer dentro da família de vocês, com um ente querido, com a mãe, namorada, noiva, pai, irmão de vocês, que condenam o trabalho da polícia? Aí vai poder matar vagabundo que tá te fazendo mal?”

ESTÁ EM CURSO UMA POLÍTICA DE EXTERMÍNIO. E ela não começou quando o indivíduo encapuzado apertou o gatilho repetidamente contra a população desta região. Ela se iniciou com a vinda do primeiro navio negreiro e se estende aos nossos dias por mecanismos diversos de controle social de populações e dilaceramento dos corpos que não se adequam ao padrão humano desejado. O extermínio começa pela negação de direitos básicos à parte da população responsável à produção das riquezas do país e se reproduz nos estigmas racistas repetidamente veiculados pelos meios de comunicação, instituição de ensino e grandes empresas religiosas.

Enquanto os/as Negros/as forem vistos como menos humanos que os outros humanos, o seu massacre espetacularmente “exemplar” será tolerado (e cada vez mais desejado) pelos milhões de mentes globalmente teleguiadas.

Cartilha da PM em Diadema
Cartilha da P.M. em distribuída em Diadema

Enquanto tolerarmos a existência de um folder como o distribuído pela Polícia Militar de São Paulo em Diadema, apresentando o negro como bandido e os brancos como “colaboradores” ou portadores de “objeto de valor”; enquanto os jornais sensacionalistas alimentarem e legitimarem impunemente o assassinato de pretos e pobres; enquanto o discurso reacionário e racista de “bandido bom é bandido morto” continuar sendo propagado nos canais brasileiros; enquanto não nos indignarmos o suficiente para PARAR TUDO toda vez que o sangue humano for derramado por aqueles que ganham para nos defender; enquanto não entendermos que é apenas do “lado de cá da ponte” que as chacinas ocorrem, nunca do lado de lá onde se encontram os verdadeiros criminosos legais assassinos que nunca pegaram em armas; enquanto não entendermos que ódio aos haitianos nunca se estende a outros imigrantes vindo da Europa e América do Norte; enquanto nossa indignação se resumir ao “curtir” na internet, seguiremos morrendo como gado.

Aqui, em Salvador, ou em Marte, REAJA CONTRA A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CADÁVERES

GRUPO KILOMBAGEM

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A importância de celebrar o Dia 25 de julho

Por Leila Maria (Grupo Kilombagem)

O que é 25 de julho

Em 25 de julho se celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, estabelecido em 1992 no I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-caribenhas. Esse marco histórico teve como objetivo reconhecer a luta e resistência da mulher negra contra a opressão de gênero, o racismo e a exploração de classe. No Brasil, essa data foi oficialmente reconhecida em 2014 com a Lei nº 12.987, de 2 de junho de 2014, instituindo o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, comemorado, anualmente, em 25 de julho.

Tereza Benguela

Quem foi Teresa de Benguela

            Teresa Benguela, apesar de sua história ser pouco conhecida, é um símbolo de liderança, força e luta pela liberdade no período colonial. Tereza, viveu na região do Vale do Guaporé, localizada na primeira capital do Estado de Mato Grosso. Sua trajetória remonta ao século XVIII, quando Vila Bela da Santíssima Trindade era a primeira capital de Mato Grosso.

Rainha Tereza”, como ficou conhecida em seu tempo, viveu nesta região do Vale do Guaporé. Após o assassinado de seu marido, José Piolho, por soldados, liderou o Quilombo de Quariterê com mas de 100 pessoas, por mais de 20 anos. Enfrentou bravamente a Coroa Portuguesa, até meados da década de 1770, após ser capturada por soldados, e morta.

Alguns quilombolas conseguiram fugir ao ataque e o reconstruíram, mesmo assim, em 1777 foi novamente atacado pelo exército, sendo finalmente extinto em 1795.

Qual a importância de celebrar este Dia?

            É sabido que no Brasil, a mulher negra compõe a base da pirâmide social,com menos nível de escolaridade, menores salários, trabalham mais em condições precárias e de informalidade; a minoria que consegue romper essa estrutura muitas vezes têm que renunciar outros aspectos de suas vidas, como relacionamento.

A situação da mulher negra a que se refere no paragrafo anterior, é fruto dos resquícios do período escravocrata, que desumaniza toda população negra, principalmente a mulher negra que muitas vezes se vê obrigada a mercantilizar suas vidas e corpos, além de sua afetividade.

A negação das mulheres negras na formação da sociedade no continente americano é hegemônica, resultado de uma sociedade construída a partir do racismo e do patriarcado. Dessa forma o dia 25 de julho internacionaliza a agenda de resistência das mulheres negras, fortalecendo organizações que discutem raça e gênero como eixo central.

Comemorar o dia 25 é considerar novas perspectivas feministas levando em conta a opressão de gênero e de raça, é garantir uma agenda que protagonize a ampliação dos direitos e da melhoria da qualidade de vida das mulheres negras consequentemente da população negra.

Reverenciar o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha no Brasil, nessa época em que esta pautada, a criminalização da pobreza, a política de encarceramento em massa de genocídio da juventude negra, onde para cada 100 jovens mortos 75 são negros, é entender que são essas mulheres que tem seus filhos (as), irmãos (as), companheiros (as) assassinados (as) todos os dias.

 

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KILOMBAGEM CONTRA A REDUÇÃO

CAMPANHA DE MOBILIZAÇÃO: BRASÍLIA, 30 DE JUNHO ESTAREMOS AI!

 Diante de toda barbárie advinda do endurecimento do conservadorismo mesquinho e sujo dos políticos brasileiros e em vista a atual conjuntura referente a redução da idade penal e do aumento  do tempo de internação no Congresso Nacional, a Frente Nacional Contra a Redução  da Maioridade Penal convoca a todos militantes, sindicatos, partidos, coletivos, componentes e defensores do Sistema de Garantia de Direitos Humanos, que promovam articulação e organização para manifestação conjunta em Brasília (DF), no próximo dia 30 de junho, data prevista para votação da PEC 171/93 em Plenário. O objetivo é ocupar a Câmara dos deputados a fim de mostrar a sociedade brasileira que os direitos das Crianças e adolescentes precisam ser efetivados, antes que sejam feitas quaisquer mudanças na atual legislação. A redução servirá aos interesses das grandes empresas carcerárias, pois o real interesse dos defensores da redução é de  privatizar o sistema penitenciário e como sabemos quanto mais presos, mais arrecadação para os setores responsáveis pelo sistema carcerário.

É inadmissível que um debate tão complexo com raízes históricas fincadas na exploração e na desumanização de povos, seja tratado tão arbitrariamente, o histórico de luta e de resistência dos movimentos sociais precisa e deve ser respeitado.

Entendemos a aprovação da PEC 171/93 na Comissão Especial da Câmara dos Deputados como mais uma ofensiva contra os direitos das crianças e dos adolescentes na perspectiva de criminalizar a adolescência e juventude brasileiras, afrontando tratados Internacionais de Direitos Humanos e a Constituição Federal Brasileira.

Em termos jurídicos, é o “Poder Constituinte Derivado” que tem o poder para reformar a Constituição, cujo povo é o titular e o exerce indiretamente por meio do Poder Legislativo ou diretamente por meio de Referendo. É considerado um poder “Derivado” porque subordinado à ordem jurídica vigente estabelecida pela CF/88 e, portanto, condicionado a regras pré-estabelecidas, não podendo estabelecer as próprias regras regimentais ou procedimentais.