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Exposição: Diálogos e Transgressões


“Ser oprimido significa a ausência de escolhas”. bell hooks

Com a curadoria de Luciara Ribeiro, o Sesc Santo Amaro inaugurou  no dia 18/11/17 a exposição “Diálogos e Transgressões – Reflexão sobre a relação entre arte, ativismo e educação, através de ações em busca da promoção de rupturas”. A mostra é inspirada nas obras da intelectual “afro estadunidense” bell hooks, que apresenta uma proposta radical de educação, orientada enquanto prática de liberdade e para a liberdade.

A exposição conta com as obras da “Rádio Yandê”, com o “Coletivo Afro-Escola”, com a série fotográfica “Aceita?, de Moisés Patrício; com a série de “Provérbios em língua Maya” produzido por Edgar Calel; com a obra/instalação de Talita Rocha e do coletivo “Visto Permanente”; com as obras de Bianca Leite; e com os trabalhos dos coletivos “Mapa Xilográfico” ,”Cidade Queer” e “Kilombagem”.

O Kilombagem expõe um breve resumo dos seus 14 anos de luta no enfretamento ao racismo, genocídio do povo preto, violência policial e encarceramento, através de vídeo áudio com imagens de seminários, cursos, palestras, grupos de estudos, atos/manifestações e atividades culturais realizadas pelo coletivo.

Local: Sesc Santo Amaro – R. Amador Bueno, 505 – Santo Amaro, SP – Espaço das Artes (1º andar).

Dias e horários:

18/11 a 18/02: Sábados e Domingos das 11h às 18h.

21/11 a 16/02: Terças a Sexta das 10h30 às 21h.

Entrada Gratuita

[su_note note_color=”#08ac31″] Mais Informações : Sescsp.org [/su_note]

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Apropriação Cultural

Vamo falar da tal da APROPRIAÇÃO CULTURAL então? Tema polêmico e complexo. Tão complexo que dessa vez eu não consegui o resumo das idéias. Então vamo de textão mesmo.

Por Buia Kalunga

 

Começo com alguns exemplos:

TARZAN: O rei da selva branco que conhece melhor a floresta do que os próprios pretos em terra natal. Ele, que veio de fora, sabe falar melhor com os animais do que os próprios africanos que estão lá de milianos.

INDIANA JONES: Um branco que viaja pelo mundo roubando riquezas de povos não-brancos e sai como o “aventureiro” da história.

O ÚLTIMO SAMURAI – O branco que é discriminado quando chega no Japão e depois se torna o principal guerreiro do rolê.

ROCKY BALBOA – O branco que vira o melhor boxeador de todos numa época em que a grande maioria dos boxeadores era negra.

CLEÓPATRA – A rainha egípcia branca como a neve num lugar onde só tinha preto naquele sol de 40 graus.

JESUS CRISTO – O revolucionário que também conseguiu milagrosamente nascer branco num lugar onde só tinha preto e ser o diferentão abençoado do rolê.

Durante a vida inteira eu absorvi isso tudo sem qualquer tipo de questionamento. Não ligava pra esse papo de raça e, das poucas vezes que liguei, logo aparecia um “somos todos iguais” pra me tranquilizar. Pra mim fazia todo sentido aquela frase do Falcão, do Rappa: “cor da pele foda-se”…

Só que, aos poucos, por diversas fitas que eu vivenciei, fui percebendo que essa postura me fazia ser insensível com a questão racial no mundo e que o bagui não era tão simples. Me permiti olhar pra cor da pele das pessoas, pro cabelo, pros traços. Pras culturas. Reparei que em alguns lugares tem mais preto, outros têm mais branco. Deixei de lado o “foda-se”. Percebi que, de “foda-se” em “foda-se”, as pessoas vão menosprezando uma série de questões ainda mal resolvidas entre nós… e que assim caminha a humanidade: cheia de “foda-se”, cheia de si, caminhando pro vazio…

Talvez, se não vivêssemos num mundo racista, nenhum desses exemplos que eu citei aqui seria problema. Eu encararia todos eles com a maior naturalidade, abraçaria o discurso da igualdade se a recíproca também pudesse ser verdadeira. Se os não-brancos também estivessem circulando pelo topo do topo.

Só que…

Imaginem se o THOR fosse preto? Se o HÉRCULES fosse preto? Ou se o SUPERMAN fosse um chinês? Se o SHERLOCK HOLMES fosse um indiano? Certamente causaria estranhamento. Basta lembrar do buxixo que foi quando lançaram o último Star Wars.

Essa que é a treta. Branco sempre teve essa “permissão” social pra ser o que quiser, pra usufruir da cultura que quiser e moldá-la de acordo com seus interesses. Construiu isso ao longo dos séculos de uma forma nada amigável.

Sendo assim, acho interessante estar vivendo num tempo em que a presença de pessoas brancas na cultura preta esteja em debate.

E vejam, tô falando de debate mesmo, não de decretar quem pode ou não pode estar no rolê. É cartas na mesa, bora trocar essa idéia. Papo de reorganizar a bagunça colonial que nos foi empurrada guela abaixo. De pisar devagar em terreno alheio. De respeito. De não repetir os mesmos erros já cometidos.

Tô suave de ficar cobrando branco de turbante aleatoreamente na rua. Nem sei se é real o caso da mina aí que ficou famosa agora no face por causa dessa polêmica, mas sei que coisas assim acontecem. Sinceramente, acho uma tática nada produtiva pra luta antiracista. É invasivo, superficial, deselegante. Me soa como uma atitude desesperada de quem quer se aventurar na militância.

Até porque, se é pra falar de turbante, nem todos eles são africanos. E nem todX pretX “empoderadX” usa turbante. Nem todX pretX “empoderadX” vai “lacrar” no rolê, nem todXs usam cabelo black, ouvem rap, ou funk, ou são do candomblé, ou falam “axé”… Percebem? Existe uma caricatura da negritude aqui no Brasil. Isso é um subproduto do racismo, que cria esses guetos culturais, lugares preestabelecidos. Só que ser pretX envolve diversas outras possibilidades. A África é diversa, o povo preto é diverso, a cultura preta é diversa.

Quanto ao povo branco… Ah…

Dear White People… na moral? Falta sensibilidade da parte de vocês. Falta respeitar a dor do outro, falta empatia com a questão racial, falta solidariedade, olhar sincero, entendimento… Falta humildade pra reconhecer privilégio. Falta, se pá, uma boa dose daquele remedinho caseiro famoso, o tal do Semancol.

Não dá pra achar que, depois de quase 400 anos de escravidão no Brasil, o povo preto seja dócil e acolhedor o tempo todo. Entendam a responsa que é lidar com a cultura preta nesse país. Estamos falando de pessoas. Da maioria da população. A cultura é produção humana, é feita por pessoas… Se quiser chegar e ser bem chegado, vai ter que lidar com elas e com todas as contradições que carregam.

Acho leviano ouvir música preta, vestir roupa de preto, dançar dança de preto e lavar as mãos quando aparecem as tretas que envolvem a existência do povo preto nesse mundo. “Ligar o foda-se”…

Mais respeito é o que eu peço neste momento. Bora entender o todo, não só a parte. Bora discutir APROPRIAÇÃO CULTURAL sim, mas bora repensar as prioridades. Bora repensar esse mundo loko, bora intervir nele. Constantemente. Que cada um de nós tenha a liberdade de ser o que quisermos, de vestir a roupa que mais gostamos, de ouvir o som que mais nos agrada. Mas que essa não seja AQUELA liberdade… Aquela velha burguesa, mesquinha, embriagada de “foda-se” e incapaz de perceber a si mesma e o que está à sua volta. Que nossa liberdade seja plena. Que seja parte do todo. Que não termine onde começa a do outro, mas que ela faça da liberdade do outro uma extensão dela própria.

Sejamos!

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Cortejo Do Bloco De Samba

 

Dia: 18/02

Local: CCDL – Centro Cultural Dona Leonor

Endereço: Rua San Juan, 121 – Parque das Américas – Mauá – SP (5 minutos da Estação Guapituba CPTM).

Programação:

13h

Roda de Choro: Grupo de Estudo do CCDL Café com Choro

16h

Concentração/Esquenta Pegaolencianos

17h

Cerimonia do Bloco

Descida do Bloco

No dia será arrecadado alimentos não pereciveis que serão destinados a instituição Nova Era Novos Tempos da cidade de Mauá. Tel. (11) 4576- 7780

#agoraeahora
#sambaquealimenta

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ILU INÃ

Primeira Saída E Celebração Do Bloco Afro Afirmativo

Bloco Afro ILÚ INÃ

ILÚ INÃ é um Bloco Afro AFIRMATIVO que abre novos caminhos paras as PRETAS e PRETOSs que tem no Carnaval um espaço cultural negrx: de alegrias, afetos, compartilhamentos e resistências.
Neste tempo em que os Movimentos e Coletivos de Negras e Negros ligados às artes, à saúde, à educação, à produção cultural, avançam e estão fortemente em luta, O Ilú Inã vem somar através dessa expressão rítmica, artística e de resistência: o Carnaval.


Como nossa estrada nunca foi reta e sempre fazem os nossos caminhos estreitos, EXU, o Senhor dos Caminhos, aquele que nos livra da bondade de pessoas ruins e que nos guia de forma enérgica e perspicaz, estará conosco nessa caminhada. Laroyê.
Ilú Inã que significa “Tambor de Fogo” é fruto das experiências práticas e cognitivas de Fefê Camilo e Fernando Alabê: Guerreirxs de Axé e Mestrxs da Batucada! São elxs que darão o tom, o ritmo, a graça.
Aparelha Luzia, fruto de uma organização comunitária, “lugar de visíveis” invisibilizadxs por essa sociedade racista, machista, classista e homofóbica, vem fortalecer sediando o Bloco.

Data: 20/02/17

Horário do cortejo: 18h00.

Concentração: Na Aparelha Luzia, às 15h00.

Endereço: Rua Apa, 78 (próximo a Estação de Metro Marechal Deodoro).  Na rua terá barracas de bebidas e alimentação (acarajé, sanduíches, tapiocas … ).

Presença confirmada das vozes de:
Harry de Castro / Luana Bayô / Danuza Novaes / Lígia Rosa Hipólito /Melvin Santhana.

Após o cortejo, haverá uma grande festa em homenagem ao Bloco na Aparelha Luzia.

Fundadores do bloco: Fernando Alabê e Fefê Camilo. Produção Inã Produções
Co-produção Marcia Cabral.

Ilu Inã queima!

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Ciclo de debates: Parlamento, Democracia e Partidos

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A defesa da democracia como resolução pacifica de manutenção da ordem, do progresso, da integração e da garantia de direitos tem sido a fala dos progressistas, dos conservadores, dos liberais nacionalistas e internacionalistas, dos sociais democratas e também do partido dos trabalhadores. Envolto em uma democracia irrestrita o parlamento conduz com maestria um rolo compressor ideológico que comprime cotidianamente a classe trabalhadora.

Para debater sobre essa Democracia tão vivamente reivindicada nessa atual conjuntura, realizaremos rodas de conversa com as professoras Lívia Cotrim e Teresinha Ferrari, com objetivo de trazer um debate sobre eleições/parlamento e o que gira em torno de seus limites e possibilidades. Há possibilidade de mudança via parlamento? Um dialogo que traga os limites e a importância do parlamento. Um dialogo que traga o papel da Democracia na criação e expansão dos estados modernos. E os partidos, qual sua lógica de atuação e intervenção? Os partidos servem para que? E a politica, o que é a politica?

Dia 28 de Julho: Prof. Dra. Teresinha Ferrari

Dia 29 de Julho: Prof. Dra. Lívia Cotrim

Horário: 19h30 as 21h

Local: Centro Cultural Dona Leonor – Rua: San Juan, 121 – Parque das Américas – Mauá

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Quem tem medo de um saber descolonizado? Nota de repudio à revogação do Edital de contratação de professes na UFABC

Mais uma vez, o conservadorismo brasileiro contra-ataca, prejudicando desavergonhadamente, a produção de conhecimento em uma Universidade Federal. O cerceamento do Edital 145/2016, que abria processo seletivo para a contratação de professores pesquisadores das relações étnico-raciais, é uma afronta aos interesses da população brasileira, e principalmente do Grande ABC.

A revogação do referido edital representa não apenas uma ferida à autonomia universitária, prevista constitucionalmente mas, sobretudo, um perigoso indício de que o Governo Federal está disposto a ceder as pressões mais mesquinhas e elitistas da direita brasileira. Não é novidade para ninguém que as relações raciais, constituem-se como um tema da mais alta relevância, quando se busca entender verdadeiramente o nosso país, que é tão desigual, do ponto de vista sócio-racial, e ao mesmo tempo tão diverso, do ponto de vista cultural.

O pensamento descolonizado assusta os articuladores de uma revista que se chama “Veja”, mas CEGA com tantas distorções; escandaliza os defensores de um movimento proto-fascista chamado “Escola sem partido”, que na verdade defende uma escola sem debate crítico, voltada à naturalização das desigualdades sociais. É natural que um Edital voltado à contratação de professores pesquisadores voltados às relações raciais assuste os desavisados, estranho, na verdade é o restante da sociedade aceitar em silêncio a esse e tanto outros abusos que vêm sendo cometidos no âmbito federal.

Não iremos aceitar calados(as)!

Seguem abaixo as notas escritas por profissionais e alunos da Instituição

NOTA DE REPÚDIO

Nós, do coletivo Negro Vozes, viemos por meio desta repudiar os trâmites do Edital de concurso de número 145/2016, para contratação de professores para disciplinas da área de Relações Étnico-Raciais.

Esse processo foi conquistado com muita luta das e dos estudantes, professores e servidores dessa universidade. Para nós, negras e negros da UFABC, o estudo das relações étnico-raciais é de suma importância para combater o racismo que nos mata todos os dias.
Somos minoria no corpo de pesquisadores brasileiros justamente porque somos minoria nos espaços de formação do ensino superior. É preciso reconhecer que o racismo é um fator estrutural da formação da sociedade brasileira e, a partir daí, implementar políticas públicas de reversão para essa realidade. Precisamos de jovens, professoras e professores, pesquisadoras e pesquisadores conscientes e aptos para tratar das relações étnico-raciais dentro das salas de aula, para que a Lei 10.639/2003 sobre o ensino da História e da Cultura Afro-brasileira e Africana seja implementada com excelência.

Nesse sentido, consideramos que a autonomia universitária foi ferida a partir do momento que a Reitoria decide unilateralmente retificar um ponto do edital aprovado integralmente pelas instâncias coletivas competentes, em todas as plenárias dos cursos e no ConsEPE. Hoje o ConCECS, aproveitando um evento que aconteceria na universidade realizou uma manobra de colocar em pauta a suspensão do referido edital já que quem defendia essa pauta não estaria presente.

Não aceitamos a suspensão do edital realizada pelo ConCECS, assim como mais nenhuma alteração no seu corpo. Exigimos que o ConsUni garanta que o processo seguirá até se dar a nomeação dos quatro professores para o concurso, pois não nos omitiremos de exigir e garantir os nossos direitos.

Coletivo Negro Vozes UFABC
18 de julho de 2016

Carta aberta à Comunidade Acadêmica

Carta aberta à Comunidade Acadêmica em relação ao Edital 145/2016 (“4×4”)

Como membros do GT do CECS para o concurso sobre Relações Étnico-Raciais (Edital 145/2016, www.ufabc.edu.br/index.php…) vemos, por meio desta, esclarecer alguns pontos fundamentais a respeito.

O estudo das relações étnico-raciais é um campo estabelecido mundialmente, constituído por uma ampla agenda de pesquisa e diversidade de abordagens.
O estudo das relações étnico-raciais no Brasil se desenvolveu insatisfatoriamente na academia, como resultado do tipo de racismo vivido no país, que se negou a reconhecer sua própria existência como fator estruturante da sociedade brasileira. Este fato foi reforçado ao longo do tempo pela ausência quase total de pesquisadores(as) negros(as) nas universidades brasileiras.
A importância do estudo e do ensino das relações étnico-raciais no sistema de educação brasileiro foi tardiamente reconhecida pelo Governo Federal na década passada, começando pela Lei 10.639/2003 sobre o ensino da História e da Cultura Afro-brasileira e Africana e pela Resolução No. 1 do Conselho Nacional de Educação, que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Juntamente com leis posteriores, especialmente a Lei 10.645/2008, o processo de reconhecimento tomou corpo no Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-raciais, que inter alia exigiu da educação superior um esforço sistemático para contribuir à formação de jovens pesquisadores(as), professores(as) e cidadãos(ãs) conscientes das realidades brasileiras.
A exclusão de negros(as) foi também reconhecida, resultando, em primeiro lugar, na adoção de cotas raciais em universidades federais, prioritariamente em nível de graduação. Atualmente, cotas raciais são exigidas em cursos de pós-graduação. Adicionalmente, a Lei 12.990/2014 reservou aos(as) negros(as) 20% das vagas em concursos públicos, o que no caso do ensino superior se traduz na reserva de uma vaga em cada três, em editais com três ou mais vagas.
O concurso em questão é uma das primeiras iniciativas de viabilizar tanto a Lei 12.990, como fazer avançar no Plano Nacional de Implementação, por articular quatro bacharelados das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (Ciências Econômicas, Políticas Públicas, Planejamento Territorial, e Relações Internacionais) na alocação de uma vaga por curso a um esforço coletivo. O processo amadureceu ao longo de mais de um ano, passando pelas quatro plenárias, as quais também definiram os pontos da subárea que lhes cabia separadamente. As plenárias e seus colegiados são, portanto, responsáveis pela autoria dos pontos.
O ponto do edital referente ao estudo comparativo de regimes racistas (4.3.1.4), incluindo apartheid, nazismo e sionismo, se refere a um corpo de pesquisa já estabelecido e a um dos assuntos que mais preocupou a Assembleia Geral da ONU, resultando na Resolução No. 3379/1975 que tipificou a opressão do povo palestino como racismo. A resolução foi anulada em 1991, porém o assunto continua a polarizar, como o fez na III Conferência sobre o Racismo, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada na cidade de Durban em 2001.
O ponto do edital não pressupõe que formas de governo e ideologias são iguais em suas características, dinâmicas e consequências. Ele exige que candidatos tenham domínio sobre esses estudos comparativos.
É possível e necessário debater livremente sobre o assunto e a forma como ele foi colocado no edital, porém não cabe a uma Reitoria decretar o que é ou não é apropriado no estudo das relações étnico-raciais. Tal intervenção fere gravemente a liberdade acadêmica e cria um precedente perigoso.
Quaisquer que sejam as divergências sobre o referido ponto do edital, vale lembrar que é apenas um dos quarenta pontos ali existentes, que versam, em sua grande maioria, sobre à questão étnico-racial da população negra no Brasil.
O concurso em questão é resultado de reivindicações históricas do povo negro brasileiro por reconhecimento e inclusão efetiva na sociedade brasileira. Como tal, deve ser defendido por todos(as) aqueles(as) interessados(as) na formação de um país mais justo e democrático. O mínimo que se espera, feita a retificação do referido ponto, é que se respeite a integridade e a legalidade do concurso.

Saudações acadêmicas,

Muryatan Santana Barbosa (BCH/BRI/CECS)
Paris Yeros (BCH/BCE/CECS)

Nota da ADUFABC sobre a retificação do edital 145/2016: a universidade não existe sem autonomia

No último dia 13 de julho, a UFABC publicou no Diário Oficial da União o edital n°160/2016 que, como afirma nota divulgada pela reitoria no mesmo dia, “corrige uma parte do Edital 145/2016 que, de forma inapropriada, tratou no mesmo contexto regimes políticos e acontecimentos históricos muito diferentes entre si”.

Como todos acompanhamos, a decisão da reitoria de retificar o edital tinha o objetivo de encerrar uma forte polêmica envolvendo um dos pontos do referido concurso que mencionava o debate sobre “Conexões da branquidade e dos regimes racistas: apartheid, nazismo, sionismo”. A reação ao ponto envolveu, além de manifestações de parte da imprensa e da comunidade judaica, uma demanda direta do próprio ministro interino da educação.

A universidade, como qualquer outra instituição social, não existe fora da sociedade. Portanto, é perfeitamente compreensível – e até mesmo desejável – que seja objeto de questionamentos de forças sociais diversas, de natureza política, econômica, cultural ou religiosa, sobretudo considerando-se a legitimidade e a eficácia do conhecimento produzido no seu interior.

Mas se é esperado da sociedade que questione a universidade, é igualmente esperado que esta responda respeitando o princípio da autonomia.

A universidade constituiu-se historicamente como instituição lutando contra o poder político e religioso da Igreja, ainda na Idade Média. Da mesma forma, a emergência da ciência moderna no século XVII é impensável sem a afirmação do ideal da autonomia, materializado no expediente da “revisão por pares”, que reconheceu como princípio basilar da moderna produção de conhecimento, a ideia de que só pode julgar a validade de um saber aqueles que sejam capazes, por longo processo de formação, de compreendê-lo e avaliá-lo.

Foi reafirmando esses princípios fundamentais, e em resposta aos traumas e retrocessos causados pelas constantes intervenções da ditadura militar no interior da universidade, que a Constituição Federal de 1988 estabeleceu, no seu artigo 207, o princípio da autonomia universitária, com destaque para a autonomia didático-científica.

Reconhecer a autonomia da universidade não significa isentá-la de controle e responsabilidade social, mas significa afirmar que estes se exercerão segundo determinadas regras, inspiradas nesse princípio constitucional.

É partindo desta reflexão que a diretoria da Associação dos Docentes da UFABC vem por meio desta nota externar a sua profunda preocupação com a forma como o edital 145/2016 foi retificado pela reitoria da UFABC no último dia 13. Se havia uma demanda externa, mesmo que de origem pouco qualificada como foi o caso, para que o edital 145 fosse retificado, isso deveria ter sido feito à luz do princípio da autonomia e respeitando-se as instâncias universitárias, o que, em nossa opinião, exigia que o mesmo fosse reencaminhado de modo oficial para o colegiado responsável pela sua formulação, com uma solicitação de avaliação do questionamento apresentado e de eventuais esclarecimentos e, se este julgasse necessário, de reelaboração do referido ponto do edital.

Como se sabe, a discussão sobre racismo, sobretudo nos seus pontos de intersecção com a política e a religião, é assunto que mobiliza paixões e gera enormes polêmicas. No entanto, é função da universidade formar profissionais capazes de dominar criticamente os debates científicos e acadêmicos que alimentam e analisam tais polêmicas. Aliás, é isso que diz o edital de condições gerais de concurso da UFABC (n° 96/2013), no seu item 11.3:

“A Prova Escrita tem como objetivo avaliar a competência do candidato na utilização de conceitos, técnicas e suas inter-relações, de acordo com a área/subárea de conhecimento em exame, bem como avaliar sua capacidade de argumentação e crítica, domínio conceitual e vocabulário da área/subárea”.

A ideia de estabelecer no edital do concurso pontos ao invés de perguntas fechadas pressupõe a capacidade do candidato de argumentar livremente, inclusive de forma crítica. Assim, qualquer um que conhecesse o edital de condições gerais de concurso da UFABC, saberia que, ao contrário do que foi dito, não se esperava um candidato que equiparasse nazismo, sionismo e apartheid, nem que afirmasse o caráter racista do sionismo. Parece-nos evidente que o edital esperava, na verdade, um candidato que dominasse criticamente o debate por ele evocado.

Vale notar que a associação entre sionismo e ideologia da branquidade, portanto racismo no sentido sociológico do termo, é objeto de um amplo e conceituado debate no campo das ciências sociais, com desdobramentos muito particulares na área acadêmica e profissional das relações internacionais. Prova disso são os constantes debates e embates travados no âmbito da Organização das Nações Unidas para a definição ou não do sionismo como forma de racismo.

Que a Universidade Federal do ABC forme profissionais que lidem com esse debate de forma dogmática é inaceitável. Assim como é inaceitável que esse debate seja interditado a ponto de não poder ser citado em um edital de concurso, como se ele não fosse objeto de análise crítica e objetiva das ciências sociais.

As ciências sociais, de todas as áreas da ciência moderna, são as que mais dificuldades encontram para afirmar a sua autonomia e isso é patente nos constantes debates que se travam no espaço público da UFABC. Em um momento em que assistimos a uma escalada de radicalização política e religiosa no mundo todo, a universidade deve lutar para permanecer como espaço livre, crítico e objetivo de pesquisa e discussão. E isso não pode ser feito sem a preservação do princípio fundamental e constitucional da autonomia universitária. O precedente aberto pela revisão do Edital 145/2016 é, a nosso ver, perigosíssimo. Editais podem, sim, ser revistos, mas segundo critérios muito bem estabelecidos de respeito à autonomia universitária e às especialidades das diferentes áreas. Qualquer procedimento que escape a isso, flerta perigosamente com posições anticientíficas, anti-intelectuais e anti-modernas.

Diante do exposto, a ADUFABC solicita publicamente à Reitoria os seguintes esclarecimentos: 1) Como chegou à Reitoria a demanda de alterações no edital em questão? 2) Quais razões levaram a Reitoria a ignorar as instâncias devidas, notadamente o colegiado de curso que aprovou e referido edital? 3) Qual resposta a Reitoria pretende dar ao veículo de imprensa que, de forma agressiva e leviana, denegriu a imagem da UFABC e de seu corpo docente?

Por fim, a ADUFABC é solidária à Carta Aberta dos professores Muryatan Barbosa e Paris Yeros, membros do GT responsável pelo referido concurso, e reafirma a importância do edital 145/2016, cujo objetivo central é contratar professores que tenham pleno domínio do debate acadêmico-científico sobre a questão étnico-racial em suas diferentes dimensões, mas sobretudo no que concerne ao estudo e à pesquisa do povo negro brasileiro.

São Bernardo do Campo
18 de julho de 2016
ADUFABC

Gestão Democracia, Diversidade e Direitos (2016-2018)

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Reflexões sobre o “mês das mulheres”

8 de março

Por Hosana Meira da Silva

O dia internacional da mulher vem sendo romantizado, dia esse conquistado com muita luta e sangue derramado, dia que deveria ser comemorado com reflexões e diálogos entre mulheres e homens, pois, somente juntos conseguiremos transformar essas desigualdades: 52% das mulheres com mais de 25 anos concluíram o ensino médio x 49% dos homens, mesmo assim 81% dos homens estão empregados e somente 59,5% das mulheres, que mesmo exercendo a mesma função tem o salário menor.

Somente 9,6% das cadeiras da Câmara e do Senado estão ocupadas por mulheres.

As oportunidades são desiguais!

Dentro dos valores atribuídos do que é ser homem e o que é ser mulher, existe uma correlação de poder e força que é produzida socialmente. Existem diferenças entre homens e mulheres, mas o que faz essas diferenças se transformarem em desigualdades?

No Brasil, mesmo após a implementação da Lei Maria da Penha (11.340) em 7 de agosto de 2006, uma mulher é assassinada a cada duas horas, os agressores normalmente são os namorados, maridos ou ex-amores.

Uma em cada três mulheres sofre algum tipo de violência doméstica ao longo de sua vida.

As mulheres ainda realizam 6 vezes mais os afazeres domésticos do que os homens, e são prejudicadas de várias formas apenas por serem mulheres.

Fazendo o recorte de raça: na última quarta-feira (16/03/2016), completaram-se dois anos da morte de Cláudia Silva Ferreira, auxiliar de limpeza, casada, mãe de quatro filhos, foi arrastada por uma viatura por 300 metros em uma estrada da zona norte do Rio de Janeiro.

Os 6 policiais estão soltos e não foram sequer julgados pelo crime.

Cláudia Ferreira da Silva Presente

O Movimento Mães de Maio, surgiu pela morte de 493 pessoas nas periferias de São Paulo em 2006, maioria pobre e negro(a), mortos por grupos de extermínio da polícia. As mães e parentes desses(as) mortos(as) pela violência policial se uniram e transformaram suas dores pelas perdas em luta por justiça!

Sobre mulheres encarceradas: Dados do Ministério da Justiça / Departamento penitenciário Nacional 2008: 37,88% brancas / 44,07% pardas / 16,41% negras = 60,48% não brancas.

Em uma matéria para Carta Capital, Douglas Belchior revelou um estudo que comprovou que 100% das presas do Acre são negras.

Tudo isso foi construído socialmente em um dado momento histórico, historicamente nós mulheres sofremos muitas injustiças sociais que precisam ser reparadas, e é fundamental  que na luta pela garantia dos direitos das mulheres os homens estejam presentes, se não contarmos com os homens fica muito difícil uma mudança efetiva pois, vivemos na mesma sociedade.

Somos seres sociais históricos e temos a capacidade de transformar a nossa realidade, mas, para que isso aconteça é preciso reconhecer os privilégios.

O feminismo tem uma contribuição importante para pensarmos uma sociabilidade a partir da não violência e da não inferiorização da mulher.

Precisamos pôr em prática esses pensamentos!

Por Hosana Meira da Silva

Integrante do Samba de Terreiro de Mauá e do Kilombagem

 

 

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Memórias de Azânia! (África do Sul e Namíbia)

Celebração Kwanzaa, Data: 26 de Dezembro de 2015 Local: Johannesburgo.
Celebração Kwanzaa, data: 26 de dezembro de 2015, local: Johannesburgo.

Eu realmente gostaria de ter escrito muitos textos quando estava em Azânia, mas infelizmente nem sempre as coisas são como planejamos, lá eu não tinha tempo de parar e escrever, e como estava com dificuldade de conexão com a internet, dificultou um pouco mais. Acredito que seja importante relatar este momento, pois de onde eu falo ainda somos muito poucos que tiveram e tem a oportunidade de fazer um intercâmbio cultural desse tipo. Fiquei 4 meses na África do Sul (nome denominado pelo colonizador), na cidade de Johanesburgo (entre 7 de setembro de 2015 a 1 de janeiro de 2016). A realização desta incrível viagem foi através de longos anos em um trampo (foi preciso 10 anos em um emprego para fazer um intercâmbio), e através também do apoio do coletivo Kilombagem, do qual faço parte. Ir para o Continente Africano foi muito mais do que apenas um intercâmbio: representou a volta de uma filha a terra originária, representou todos do coletivo Kilombagem, representou todos os afrodescendentes fora do continente africano, representou a força de todas as famílias africanas na diáspora que lutam todos os dias para garantir o mínimo de sobrevivência para os seus, como minha mãe, mulher preta, guerreira, faxineira, que sonhava em ser psicóloga, mas devido a dureza que o sistema escravocrata e capitalista proporcionou para nós, afrodescendentes, foi obrigada a trocar a sala de aula pelo trabalho na plantação de café com apenas 7 anos de idade.

Chegando em Johanesburgo uma organização chamada Ebukhosini Solutions me recebeu com muito cuidado e alegria. Como eu tive a oportunidade de ficar hospeda nesta instituição, hoje eu entendo que é muito mais do que uma empresa empreendedora social, é uma família pan-africanista, kemetism e vegana. O líder, responsável e diretor executivo da organização é um pan-africanista chamado Baba Buntu, nascido em uma ilha na América Central, mas já vive há mais de 10 anos na África do Sul. Esta organização oferece consultas e serviços relacionados como desenvolvimento da comunidade, capacitação de jovens, treinamento de liderança, transformação social, eventos culturais, produção e educação centrada africana. Algumas atividades desenvolvidas são: seminários, palestras, Kemetic Yoga (é uma forma egípcia africana de respiração, movimento e meditação) e o Kwanzaa. Eu aprendi muito nesta organização, desde a sonhada disciplina revolucionária que muitos coletivos se esforçam e lutam para conseguir implantar, até um novo olhar para a questão da alimentação, pois como a família é vegana, eles não vêem a alimentação como algo à parte da revolução, é como se fosse uma coisa só. Confesso que antes da viagem o máximo que conseguia fazer era um ovo frito, hoje consigo cozinhar vários saborosos legumes e lembro como se fosse hoje a fala da Mama T (esposa do Baba Buntu): “Você precisa aprender cozinhar, não para fazer para alguém, mas sim para você mesma”.

Ao chegar na África do Sul passei pelo normal processo de adaptação. Mesmo correndo o risco de ser mal interpretada querendo ou não, meu contato com a cultura sul-africana foi através de um olhar de uma afrodescendente na diáspora, nascida em terras brasileiras, no continente sul americano, colonizado por portugueses, descendente de escravizados, de família da classe trabalhadora e humilde. Todos estes aspectos não são irrelevantes, pelo contrário, influenciaram a forma que eu me deparei com a cultura sul-africana. Por mais que o povo negro compartilhe com muitas coisas similares em qualquer parte desse planeta, a colonização deixou rastro em todas as partes que ela tenha se instalado. Não dá para negar a influência inglesa em alguns pratos, na forma de se vestir, na língua falada comercialmente, na arquitetura das casas, escolas e prédios (lembrava muito os filmes estadunidenses com aquelas escadas do lado de fora dos prédios). Mas isto não significa que aspectos tradicionais da cultura sul africana tenham se perdido ou não existam mais, pelo contrário, o contraste entre a cultura inglesa, europeia, indiana e a cultura sul africana é muito presente e visível de diferenciar. Outra coisa que não dá para negar (talvez muitos torcerão o nariz) é que o continente africano não é mais o mesmo que 500 anos atrás, não é mais o mesmo quando nossos ancestrais foram sequestrados, não é mais o mesmo após a invasão e a colonização europeia, sem falar do processo de globalização que não poupou nenhum país intitulado como democrático.

Na África do Sul há 11 línguas oficiais (zulu, ndebele, sesotho do sul, sesotho do norte, swazi, tswana, tsonga, venda, xhosa, africâner e inglês). Nas ruas de Johanesburgo e Pretoria a maioria da população sul africana negra fala zulu, já os sul africanos brancos falam africâner. Os sul africanos falam mais de 3 línguas na média, é algo muito comum para eles. O inglês é reconhecido como língua do comércio e da ciência, mas não necessariamente é a língua mais falada. Eu lembro que a primeira vez que eu peguei ônibus em Johanesburgo, eu saudei um “Bom dia” para um motorista negro em inglês, ele não respondeu. Depois entendi como a questão da língua tradicional é importante no continente africano, e o inglês é a língua do colonizador. Se Crummell fosse do nosso tempo ela jamais defenderia a adoção da língua inglesa como a língua a ser implantada na construção de um estado negro africano. Já para nós descendentes de africanos escravizados e colonizados a língua que nós falamos que é a língua do colonizador é apenas uma língua. Fiquei pensando em que momento e de qual forma a língua tradicional falada pelos africanos escravizados se perdeu, pois se tivesse se mantido, talvez nós saberíamos de quais reinos nossos ascendentes eram originários.

Na minha percepção a língua pode se tornar um dos fatores determinantes de separação e impedimento de unidade de um povo. Muitas vezes me sentia isolada dos interessantes debates que eles travavam pelo fato de não dominar o inglês ou o zulu. Ao que me parece, o Brasil também está isolado do mundo, como se estivesse em uma ilhazinha bem distante, como se apenas países – que, aliás, muito poucos – que falam português conhecessem um pouco do tal país chamado Brasil. Geograficamente, o Brasil está mais perto da África do Sul do que os Estados Unidos, mas na prática está muito mais longe da África do Sul do que os EUA, e não é só porque os Estados Unidos é o império dominante no mundo, a língua é um fator determinante também de aproximação. Muitos sul africanos sabem da violência policial contra a população negra nos Estados Unidos, já ouviram falar do Movimento “Black Lives Matter”, mas não sabem da violência policial contra a população negra no Brasil e nunca ouviram falar da “Campanha Reaja Ou Será Morto, Reaja Ou Será Morta!

Em Johanesburgo, no bairro de Braamfontein, estudei em uma escola de inglês chamada ABC International e lá tive grande a oportunidade de ter contato com jovens estudantes de outros países, como Angola, Moçambique, República Democrática do Congo, República do Congo, Líbia, Burkina Faso, Somália, Gabão, Burundi e Turquia. A grande maioria destes estudantes era muito jovem, de classe média, que estava estudando primeiro inglês lá para depois ingressar em uma faculdade na África do Sul. Tirando os estudantes da Turquia que eram a minoria, a maior parte dos estudantes era de negros. Conversando com muitos estudantes africanos, eles diziam que as universidades de seus países não eram boas e reconhecidas em todo Continente Africano como as universidades da África do Sul. Um dado importante é que as universidades na África do Sul são todas pagas, seja pública ou privada, os estudantes pagam e os preços não são acessíveis. Em 21 de outubro de 2015, estudantes protestaram contra o aumento do preço das matrículas universitárias[i], como a polícia é igual em qualquer parte deste planeta, recebeu os estudantes com bala de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Gostaria de ter acompanhado esta manifestação, e outras também, pois os sul africanos são muito ativos na luta por melhores condições, pois quase toda semana havia um protesto, mas em todas as vezes que estava acontecendo uma manifestação, eu estava tendo aula.

Na escola, teve vários momentos que eu jamais esquecerei, um desses foi quando eu perguntei para uma senhora da Líbia o que ela achava do ex-presidente Gaddafi (como ela fala árabe, a nossa comunicação era em inglês, na verdade tentava me comunicar em inglês, pois não era algo fácil). Ela começou a chorar, disse que o Gaddafi era louco, mas antes da derrubada dele, a Líbia tinha escolas, boa educação, não tinha roubo, sequestro e as pessoas deixavam as portas abertas da casa e ninguém entrava para roubar, e hoje está tudo destruído, não dá mais para viver lá. Eu quase chorei junto com ela, e lembrei da esperança que muitos depositaram com a entrada do primeiro presidente negro nos Estados Unidos, até Nobel da Paz ele ganhou em 2009, e é o mesmo presidente que autorizou a intervenção na Líbia. Independente das contradições que era o Gaddafi, a Líbia tinha o maior IDH – Índice de Desenvolvimento Humano – de todo o Continente Africano.

A maioria dos professores na escola era brancos, desta forma o meu único contato com os brancos foi através da escola. A relação entre professores e alunos era muito boa, saudável, respeitosa e tranquila. Um exemplo que ilustra bem esta relação foi quando eu me despedi de uma atenciosa professora de origem europeia e ela me passou seu WhatsApp e me pediu o meu contato, e disse que se eu precisasse de alguma ajuda ou tivesse dúvida com o inglês era para contatá-la. Mas como nem tudo são flores, a relação entre os sul africanos brancos de origem europeia com os sul africanos negros era bem diferente e isso se refletia dentro da sala de aula. O conflito e a divisão que o apartheid proporcionou é bem visível e muito presente ainda hoje. A mesma professora prestativa que se colocou à disposição para me ajudar é a mesma que em vários momentos fez comentários problemáticos e muitos entenderiam como racistas em relação aos sul africanos negros, na atual conjuntura, se fosse em alguns espaços aqui no Brasil, já teria dado processo e nota de repúdio. Mas entre os professores brancos o que mais me surpreendeu foi a relação que eles têm com a sua identidade europeia. Exceto um professor inglês, todos os demais professores brancos que eu tive contato nasceram na África do Sul e apenas seus avós ou bisavós não tinham nascidos no continente africano, mas todos remetiam sua identidade europeia como se estivesse apenas de passagem no país africano, como se fossem verdadeiros turistas que em uma determinada data regressariam para seus países de origem.

Algo também muito presente dentro da sala de aula era a explicita desaprovação que os professores brancos tinham em relação ao atual Presidente Jacob Zuma. (Zuma é de origem Zulu e faz parte do mesmo partido do Nelson Mandela, ANC: Congresso Nacional Africano). Na escola tinha um professor branco, nascido na África do Sul, mas de origem europeia, muito simpático, não tinha ideias reacionárias, era contra o Estado, contra o atual sistema e ateu, vivia se queixando da atual política do presidente Zuma que favorecia apenas a população negra. Ele dizia que se você fosse negro você teria um emprego garantido, agora se você fosse branco não seria fácil conseguir um emprego. Era unânime a ideia entre os professores brancos de que o Presidente Zuma era burro e sem competência para administrar o país. Já o ex-presidente Nelson Mandela era bem visto, em nenhum momento eu presenciei algum comentário negativo ou alguma crítica dos professores brancos ao Mandela.

Confesso que no início estranhei bastante a visível separação entre brancos e negros presente na África do Sul, há bairros de brancos, negros e de indianos. Não que essa separação no Brasil não esteja presente, mas você apenas consegue visualizar essa separação em espaços elitizados. Para os brasileiros que não tem a consciência de classe, raça e gênero, ou para os estrangeiros ou turistas que visitam o Brasil, realmente acreditam que o Brasil é um paraíso racial, o mito da democracia racial é algo muito presente. Na África do Sul o apartheid acabou oficialmente em 1994, mas ainda é algo muito recente, minha geração vivenciou este desumano sistema, é como se fosse uma mancha que paira no país, que afeta todos, não deixando ninguém imune. Na minha percepção, é algo que não foi superado e resolvido. Para ilustrar como este tema é muito complexo, um jovem estudante do Gabão chamado Axel, uma vez disse na sala de aula para uma professora que, para ele, o apartheid não tinha acabado, só tinha mudado de forma, ela respondeu que não era bem assim, pois hoje as pessoas estão juntas no supermercado.

O racismo está presente na África do Sul e é muito forte. Comparando o racismo no Brasil e o racismo na África do Sul, entendo que é algo que não dá para mensurar qual é o pior ou qual é o menos pior, pois o racismo é racismo e é ruim em qualquer lugar desta galáxia. Mas avalio que o racismo que existe na África do Sul é tão complexo quanto o racismo que existe no Brasil, é claro que a forma como o racismo se articula e atua nos dois países é bem diferente. Na África do Sul há uma enorme quantidade de representatividade negra atuando em vários espaços, na televisão, na política, há uma classe média negra considerável e mesmo correndo o risco de estar errada, entendo que há uma burguesia negra consolidada ou em processo de consolidação. Nas ruas, várias BMW dirigidas por negros, nos Shopping Center estilo JK Iguatemi e Cidade Jardim há vários negros e não trabalhando, e sim comprando e passeando, há bairros nobres e elitizados de negros… A representatividade está presente, mas o racismo também está, há uma enorme desigualdade social e racial, muito negros e brancos pobres, mas óbvio que a pobreza se concentra em maior medida na população negra, mas isso não significa que não tenha brancos pobres. Há muitos moradores de rua, alto índice de criminalidade, muitos negros estão fora das universidades e desempregados. No Brasil os debates de empoderamento e representatividade para o povo negro estão muito presentes, e entendo que estes dois temas são importantes, mas acredito que é um erro focarmos apenas nestes dois temas para superação do racismo, pois já se mostraram insuficientes.

A África do Sul é considerada um país em desenvolvimento, tem o 2º maior PIB do Continente Africano, só perdendo para a Nigéria e faz parte do BRICS. Há casas, ruas, lojas, escolas, shopping, museus, hospitais, igrejas (a Igreja Universal também está presente na África do Sul) e casas noturnas de altíssimo padrão, como também há bolsões de pobreza, alto índice de criminalidade e desigualdade social. Há uma enorme quantidade de estrangeiros africanos de outras partes do continente. Há muitos estrangeiros que vão para estudar, ou em busca de melhores condições de vida e trabalho. Como a taxa de desemprego não é baixa, a procura por emprego entre sul africanos e estrangeiros acaba caminhando para uma disputa que se transforma em xenofobia. A mais recente onda de xenofobia ocorreu em março de 2015, deixando 7 mortos e 307 presos[ii]. A divisão entre sul africanos negros e estrangeiros negros está presente na África do Sul. Na escola, todas as vezes que eu perguntava para os estudantes estrangeiros o que eles achavam dos sul africanos as respostas eram sempre as mesmas coisas. Na visão dos estudantes, os sul africanos não são pessoas do bem e muito racistas devido a onda de violência contra estrangeiros negros. Eu perguntava se a onda de violência contra os estrangeiros negros não era uma questão de xenofobia e não racismo, muitos concordavam com minha reflexão, mas teve um jovem angolano que questionou argumentando a seguinte questão: se é apenas xenofobia, como você explica a onda de violência apenas contra estrangeiros negros e não com estrangeiros brancos? Analisando hoje essa questão, entendo que ser apenas preto não subentende que estaremos unidos enquanto povo em lugar algum, pois a escravidão e a colonização nos dividiram e a luta de classes ainda nos divide.

Como em Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné Bissau falam o português, muitos sul africanos achavam que eu era de algum desses países e o tratamento que eles me davam era de um jeito, quando eu dizia que era brasileira, claramente o tratamento mudava. Vários africanos falavam que nunca tinham visto uma brasileira, de fato não há muitos brasileiros como angolanos ou moçambicanos, mas na verdade quando eles diziam que nunca tinham visto uma brasileira, eles estavam se referindo a brasileiros negros, pois mais de uma pessoa chegou a comentar que pensava que não existiam negros no Brasil. Essa questão nos fazem pensar qual a imagem que a elite brasileira passa de sua população lá fora, haja vista que o Brasil é o segundo país em população negra do mundo, só perdendo para a Nigéria. Outra questão para refletirmos é: quem são na sua grande maioria os brasileiros que viajam para fora do Brasil?

A questão racial também é complexa na África do Sul. No Brasil, os afrodescendentes que mais se aproximam do branco conseguem circular em alguns espaços mais do que os afrodescendentes mais retintos como já bem estudado pelo Clóvis Moura. Já na África do Sul, os miscigenados chamados de “colored” tinham alguns privilégios na época do apartheid, logo a separação entre miscigenado e sul africanos está presente no país. Não são todos os africanos que têm consciência racial, nem todos são pan-africanista ou conhecem pouco sobre esta ideologia, logo deixando de lado o romantismo, não são todos os africanos que consideram os afrodescendentes na diáspora como originários de um povo só, e sim apenas americanos, latinos, brasileiros ou até mesmo “colored”.

Eu tive a grande oportunidade de ter contato com africanos de outras nacionalidades dentro da organização Ebukhosini Solutions. Fiquei muita próxima de dois talentosos músicos irmãos ganenses chamados Ofoe e Tetteh. A inteligência, gentileza e sensibilidade deles eram incríveis, nós falávamos sobre vários temas complexos como machismo, feminismo, estupro, capitalismo, religião, sexualidade…. A conexão com eles dois era tão especial que talvez meus ancestrais sejam da região que hoje é denominada Gana, apesar de que algumas pessoas disseram para mim que meus traços são parecidos com os africanos da região da Etiópia. Fiquei muita próxima também de uma linda e guerreira ruandesa chamada Ukwezi (Ukwezi significa lua em Kinyarwanda) e de sua irmã mais nova chamada Pamela. Fiquei muito amiga delas, a Ukwezi tem uma linda filhinha chamada Izaro. Sempre que possível eu tinha aula de inglês com a Ukwezi, na verdade era muito mais do que aulas de inglês, eram aulas para a vida, ela era muito inteligente, nós falávamos de racismo, feminismo, movimento rastafári, líderes revolucionários, revolução e capitalismo. Ao contrário de alguns grupos, organizações e coletivos negros aqui no Brasil que negam ou se recusam a falar sobre o estrago do capitalismo para o povo negro, em todas as conversas sobre capitalismo que eu tive com os africanos (sul africanos, ganenses e ruandês) esse tema está muito óbvio, eles entendem e visualizam nitidamente o problema que o sistema capitalista gerou para o continente africano.

Os jovens sul africanos usam roupas bem parecidas com o estilo estadunidense, mas as roupas tradicionais africanas estão presentes nas ruas, nas lojas e nos eventos que eu tive a oportunidade de participar. Achei muito bacana o estilo das sul africanas, elas usam aqueles chapéus chiques que aqui no Brasil só vimos nos filmes estadunidenses. O estilo de cabelo varia bastante: cabelos com tranças, cabelos raspados, cabelos alisados, cabelos naturais e cabelos colocados (brazilian hair é o nome denominado pelas sul africanas, faz o maior sucesso no continente africano). Há muitos salões de beleza em Johanesburgo (eu vi bastante) e o interessante é que a foto da modelo estampada na maioria dos salões de beleza é da Rihanna. Diferente do Brasil, a diva na África do Sul é a Rihanna, e não a Beyoncé. Para todas as meninas que eu perguntava, preferiam a Rihanna a Beyoncé. Acredito que alguns dos motivos da preferência pela Rihanna são: primeiro, como elas falam também inglês, conseguem entender a mensagem que a Beyoncé e a Rihanna passam; segundo, a Rihanna representa a ideia de superação e possibilidade, pois nasceu em uma pequena e desconhecida ilha chamada Barbados e hoje faz sucesso no mundo inteiro.

A África do Sul tem uma vasta e rica cultura, além das culturas tradicionais, há muitos estrangeiros de outros países do continente africano. Em Johanesburgo tem um importante e interessante bairro pan-africanista chamado Yeoville, neste bairro há muito afrodescendentes da diáspora e africanos de outros países do continente africano como Nigéria, Gana, Congo, Angola, Moçambique…. pelo que eu entendi é considerado um bairro periférico também. Neste bairro tem uma livraria com vários livros com preços acessíveis de autores pan-africanistas. É neste bairro que eu fazia Kemetic Yoga, essa atividade é oferecida gratuitamente todos os sábados pela organização Ebukhosini Solutions. Em cada encontro era um voluntário que se dedicava a passar seus conhecimentos, eu tive alegria de fazer aulas com a Mama T, Siyabonga, Pitsira, Ursula e Ted Niacky (com ele eu fiz uma interessante aula de Kemetic Boxing). Nesse bairro tem muitos rastas também, com muitas cores do reagge e do pan-africanismo, há imagens do Bob Marley e Fela Kuti.

Na primeira semana que eu cheguei na África do Sul eu fui para um maravilhoso show de jazz em Johanesburgo. O jazz e soul estão muito presentes no país, eu lembro que uma vez entrei em um ônibus ao som de Billy Paul – canção Me and Mrs. Jones. É óbvio que o hip hop e os estilos musicais tradicionais africanos também estão presentes no país. Mas o estilo musical que os jovens escutam bastante é o house music, na verdade não conheci ninguém que não gostasse de house music. Eu lembro que no dia do meu aniversário eu fui para uma festa chamada “Obrigado”, nesta festa supostamente tocaria músicas brasileiras e latinas, os DJs tocaram algumas MPB e sambas, mas tudo no estilo eletrônico, eu não sei como, mas sambei até não aguentar mais, mesmo na batida eletrônica. No show da virada do ano em Johanesburgo o estilo musical mais tocado e dominante era o eletrônico, o house music é uma verdadeira febre para os jovens. Já dentro da organização, os estilos que eles mais escutavam eram reggae, jazz e soul, mas a canção que eu tive a felicidade de conhecer e que mais me marcou foi do “Wambali – Ndimba Ku Ndimba”. [iii]

Na África do Sul o transporte mais comum e usado pela população negra são os chamados táxis (são parecido com lotações para nós), estas lotações são privadas, o custo não é muito caro e você vai sentado, (diferente do transporte público aqui em São Paulo, que você paga caro e com muita sorte, luta, briga e discussão consegue um lugarzinho sentado). As lotações geralmente não estão em situações boas e, infelizmente, há muito acidentes. Há ônibus e trens também, mais o que mais me chamou atenção foi o trem bala chamado Gautrain que liga Sandton ao aeroporto, e liga também Johanesburgo a Pretória. Foi a primeira vez que andei em um trem bala, o trem é muito moderno, bonito e rápido, o problema que é não é um transporte acessível à população local, há muitos turistas e brancos, você encontra negros também, mas da classe média e alta.

Tive a oportunidade de visitar a Namíbia através de uma organização chamada Namibian Brazil Friendship Association (NBFA). Esta organização me convidou a fazer várias apresentações sobre a situação da população negra no Brasil (violência policial, racismo e homicídios do povo negro) em várias universidades e organizações. Fiquei 4 dias na capital em Windhoek (entre os dias 19 a 23 de outubro de 2015), em uma pousada que tinha, na sua grande maioria, angolanos. A Angola faz fronteira com a Namíbia, logo, há muitos angolanos estudando e morando na Namíbia. Nas apresentações que eu fiz nas universidades, os estudantes eram muito poucos e conheciam praticamente nada sobre o Brasil. A apresentação que teve maior número de jovens foi em uma organização fora da universidade chamada Young Achievers Empowerment Project. O encontro foi na sede da organização, foi a apresentação mais interativa, os jovens fizeram muitas perguntas. Entre várias perguntas, uma que mais me chamou a atenção foi a pergunta de uma linda jovem namibiana, ela perguntou se eu me considerava negra. Respondi que sim e perguntei porque não me consideraria negra, ela respondeu que o motivo da pergunta era porque meu cabelo era diferente e agradeceu por eu me considerar negra.

A República da Namíbia tem uma linda história de luta e resistência, conseguiu sua independência da África do Sul através de muita luta na década de 90. A língua oficial é o inglês, mas muitos namibianos falam oshiwambo como sua primeira língua, outras línguas faladas também são nama/damara, kavango,hereró, africâner e o alemão (estas duas últimas falada pelos brancos). Eu vi muitas lojas e escolas com informações em alemão, há muitos alemães ou pessoas de origem alemã na Namíbia. A arquitetura dos prédios e o povo namibiano lembram muito os sul africanos, as ruas em Windhoek são extremamente limpas, lembra a cidade de Pretória na África do Sul. A forma comum de se locomover na capital da Namíbia é através de táxi, diferente do Brasil, o táxi é barato. É uma forma de transporte privado, mas a forma de utilização lembra o transporte público porque os taxistas não atendem um passageiro apenas, em uma viagem eles geralmente atendem 4 passageiros ao mesmo tempo. Há ônibus, mas ainda são muito poucos, o governo ainda está no processo de implantação de transporte público que atenda a demanda da população.

A incrível oportunidade de ter ficado com uma família pan-africanista foi uma das experiências mais significativas que eu tive em Azania. O caloroso acolhimento de toda a família, que morava e frequentava a eBukhosin, é algo impossível de descrever com apenas palavras. O cuidado que todos me receberam foram verdadeiros gestos de uma família que estava recebendo o regresso da filha mais nova, uma filha que estava de férias em algum país um pouco distante, mas que nunca deixou de ser esquecida e com prazo de retorno estabelecido. A cumplicidade e a vivência na casa ajudaram também para o fortalecimento desse sentimento de filha, tendo como pais Baba Bantu e Mama T, tendo como irmãos e irmãs (correndo o risco de faltar alguém) Ofoe, Siyabonga Moringe, Tetteh, PitsiRa, Thabiso, Patrick, Siyabonga Lembede, Phumulani, Mabule, Thabo, Ukwezi, Disebo, Mbaliyethu, Pamela, Nonhlanhla… As atividades que eu tive a grande oportunidade de participar como seminários, palestras, Afrikan Lunch, Yoga, eventos, Kwanzaa, debates e encontros com outros jovens líderes foram fundamentais para reforçar o espírito e atos de unidade, solidariedade, disciplina, práticas revolucionárias e um orgânico e ativo pan-africanismo como algo possível e viável. Hoje visualizo que o conjunto de todas essas atividades foi para além da aprendizagem, se tornou uma verdadeira transformação espiritual e mental. É algo que está e sempre estará presente em cada direção, passo e posicionamento na minha vida em diante. Sou grata a família eBukhosini e a todas que diretamente e indiretamente fizeram parte dessa maravilhosa oportunidade, experiência e aprendizado.

A experiência e aprendizado que eu tive na África do Sul e na Namibia foram incríveis, algo que levarei para vida toda. Uma das coisas que eu tive a oportunidade de vivenciar e participar foi do Kwanzaa (é uma celebração comemorada entre os dias 26 de Dezembro a 1 de Janeiro por milhares de africanos e afrodescendentes ao redor do mundo). Desde 2002, a Ebukhosini Solutions junto com outras organizações realizam a celebração do Kwanzaa, entre várias atividades tem música, poesia e boa comida. Eu já tinha ouvido falar dessa celebração, mas confesso que conhecia muito pouco, não entendia o real objetivo e nunca tinha participado. Hoje eu entendo a importância dessa celebração, e entre os princípios do Kwanzaa (Umoja: união; Kujichagulia: auto-determinação; Ujima: trabalho coletivo e responsabilidade; Ujamaa: economia cooperativa; Nia: propósito; Kuumba: criatividade; Imani: fé), a união é o que mais me chamou a atenção. Na celebração havia muitos africanos de outras nacionalidades e de várias religiões. A celebração do Kwanzaa no Brasil e em outras partes desse planeta pode ser o caminho ou uma das possibilidades para construção da sonhada unidade para o povo africano dentro e fora do continente africano.

Veja as fotos aqui: https://flic.kr/s/aHskuZ31C7

[i]http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2015/10/21/estudantes-enfrentam-policia-em-frente-ao-parlamento-na-africa-do-sul.htm

[ii]http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/04/1618597-ataques-xenofobos-na-africa-do-sul-deixam-7-mortos-e-307-presos.shtml

[iii] Wambali – Ndimba Ku Ndimba: https://www.youtube.com/watch?v=uFiWZceyRI4&feature=youtu.be

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Claudia Jones: Desconhecida Pan-Africanista, Feminista e Comunista

O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu à sua defesa para a libertação dos povos do Caribe e da África do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons
O Pan-africanismo de Claudia Jones conduziu à sua defesa para a libertação dos povos do Caribe e da África do colonialismo. | Foto: Wikimedia Commons

Traduzido por Rafaela Araujo Santana – Grupo Kilombagem

Por Ajamu Nangwaya

Jones utilizou o espaço organizacional do Partido Comunista para avançar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descolonização e na luta de classes.

Claudia Jones foi uma revolucionária, cujo ativismo alcançou dois continentes, América do Norte e Europa. Claudia Vera Cumberbatch nasceu em 21 de fevereiro de 1915 em Belmont, Trinidad e Tobago, a terra que tem dado origem a importantes políticos, como C.L.R. James, Eric Williams, George Padmore e Kwame Ture (anteriormente Stokely Carmichael). Ela e sua família foram forçados a migrar para Nova York durante os anos 1922-24, como resultado da dificuldade econômica que eles experimentaram como membros da classe trabalhadora em Trinidad.

Ela adotou o sobrenome “Jones”, como uma medida de proteção na realização de seu trabalho organizado com o Partido Comunista dos EUA (CPUSA). Essa mudança de nome não foi um incomum dada a histeria anticomunista e perseguição dos comunistas nos Estados Unidos. Claudia faleceu na terra de seu exílio, na Grã-Bretanha, em 25 de dezembro de 1964. Curiosamente, o local final de descanso de Jones está localizado justamente a esquerda de Karl Marx, no cemitério de Highgate, em Londres.

Ela contribuiu para o trabalho do Partido Comunista dos Estados Unidos – CPUSA como jornalista, editora, líder, teórica, educadora e organizadora de 1936 até sua deportação em dezembro de 1955. Ela trabalhou com o jornal do partido Diário Trabalhador, serviu como a editora da Liga da Juventude Comunista (UJC), na Revisão Semanal, funcionava como a diretora estadual YCL da educação e presidente do estado, tornou-se um membro pleno da CPUSA em 1945, eleita para o Comitê Nacional do CPUSA em 1948, assumiu o papel de Secretária de Comissão da Mulher, CPUSA, e trabalhou em várias funções em outras publicações do partido. Claudia foi presa três vezes por causa de seu trabalho na CPUSA. Ela foi condenada sob a Lei Smith que visava os líderes do CPUSA e serviu oito meses na prisão.

O Professor Errol Henderson da Universidade Estadual da Pensilvânia captura a relevância política da Claudia:

“Ela foi brilhante e incisiva. Ela forneceu ao feminismo componente da análise marxista juntamente com a incisiva incorporação da “cultura negra” de Haywood, no qual ela apoiou e estendeu … uma mente excepcional … e sua deportação para os EUA foi uma grande perda para a luta de libertação aqui, mas como um complemento para o Reino Unido, onde ela fez ainda mais contribuições “.

Jones utilizou o espaço organizacional do Partido Comunista estadunidense para avançar na causa do antirracismo, na paz mundial, na descolonização e na luta de classes. Além disso, ela usou suas várias funções e recursos do partido comunista para avançar na libertação das mulheres em geral e das mulheres afro-americanos da classe trabalhadora, em particular.

É uma grande injustiça da história que o trabalho de Claudia Jones seja pouco conhecido entre os radicais que possam extrair ensinamentos da sua abordagem integrada para a eliminação do racismo, capitalismo, patriarcado e imperialismo. Em um período como nosso em que a política de identidade assume expressões vulgares, é fundamental para nós destacar a contribuição desta revolucionária cujo ativismo foi guiado por um anticapitalista, exigente anti-opressão e orientação política anti-imperialista.

O Professor Carole Boyce Davies, em seu livro “A esquerda de Karl Marx: A vida política da Comunista negra Claudia Jones,” oferece uma razão para a invisibilidade de Claudia:

“O estudo das mulheres negras comunistas permanece um dos mais negligenciados entre verificação contemporânea de mulheres negras para pelo menos, uma das razões que Joy James identifica: O revolucionário sob margem, mais do que qualquer outra forma o feminismo (negro). “Este tipo de negligência pela maioria das acadêmicas feministas não é surpreendente. A maioria destas pesquisadoras burguesas não são socialistas / comunistas e, como tal, não são atraídos para assuntos que estão associados com o comunismo.

A continua experiência de classe trabalhadora de Claudia e sua família na sociedade americana ajudou na formação da sua luta de classes, compromissos políticos feministas e antirracistas:

“Estava fora das minhas experiências de Jim Crow como uma jovem mulher negra, experiências igualmente nascido da pobreza da classe trabalhadora que me levou a juntar-se à União de Jovens Comunistas e escolher a filosofia da minha vida, a ciência do marxismo-leninismo – que a filosofia que não só rejeita ideias racistas, mas é a antítese deles. “

Como uma mulher africana da classe trabalhadora, a experiência vivida de Claudia lhe proporcionou um amplo entendimento do patriarcado. O exemplo mais claro de sua compreensão e análise da opressão das mulheres africanas está presente no artigo “Um fim à negligência dos Problemas da Mulher Negra! ”. Foi publicado em 1949. Muito antes do desenvolvimento da estrutura analítica interseccional na década de 1970 por feministas e lésbicas Afro-americanas como expresso na Declaração ColetivoRioCombahee, Jones já tinha essa abordagem para analisar as múltiplas formas de opressão que configura a vida das mulheres afro-americanas da classe trabalhadora.

A preocupação de Jones com a libertação das mulheres focava em mudanças nas condições econômicas, sociais e políticas desiguais e não a obsessão cultural psicológica encontrada dentro de círculos políticos de identidade vulgares atuais:

“Para o movimento das mulheres progressivas, a mulher negra, que combina em seu estatuto o trabalhador, o Negro, e a mulher, é o link vital para essa elevada consciência política. Na medida, além disso, que a causa da mulher negra trabalhadora é promovida, ela será habilitada para tomar seu lugar legítimo na liderança do proletariado negro do movimento de libertação nacional, e por sua participação ativa contribuem para toda a classe trabalhadora americana, cuja missão histórica é a conquista de uma América Socialista – a final e completa garantia da emancipação da mulher “.

O estado capitalista e corporações do Norte global explora os recursos e mão de obra e dominar as economias e sociedades no Sul global. De acordo com Davies em “A Esquerda de Karl Marx”, “política anti-imperialistas de Claudia ligada às lutas locais de pessoas negras e mulheres contra o racismo, e a opressão sexista às lutas internacionais contra o colonialismo e o imperialismo negros.” O Pan-africanismo de Claudia conduziu para sua defesa por liberdade dos povos do Caribe e da África do colonialismo.

Na Grã-Bretanha, dois das notáveis realizações de Claudia são a criação do Carnaval de Notting Hill e o Diário das Índias Ocidentais. Uma parte do epitáfio em sua lápide diz: “Valente lutadora contra o imperialismo e, o racismo que dedicou sua vida ao progresso do socialismo e a libertação do seu próprio povo negro.”

Deveria ter acrescentado: “defensora assertiva do feminismo socialista”.

Ajamu Nangwaya, PhD., é um educador, organizador e escritor. Ele é um organizador com a Rede para a Eliminação da Violência Policial

Artigo original disponível em: http://www.telesurtv.net/english/opinion/Claudia-Jones-Unknown-Pan-Africanist-Feminist-and-Communist–20160210-0020.html

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Burkina Faso: Thomas Sankara e os levantes populares

Viver africano para viver livre e digno.

Pode-se matar líderes revolucionários, mas as ideias permanecem.

Thomas Sankara

Protesters pose with a police shield outside the parliament in Ouagadougou on October 30, 2014. Photograph: Issouf Sanogo/AFP/Getty Images
Protesters pose with a police shield outside the parliament in Ouagadougou on October 30, 2014. Photograph: Issouf Sanogo/AFP/Getty Images

A forma como a imprensa vem divulgado os recentes levantes populares em Burkina Faso contra o Presidente Blaise Compaoré, estimula-me a produzir este pequeno texto introdutório ao som de Orun Aye por BA Kimbuta, na esperança de ressuscitarmos, resgatarmos e nos apropriarmos da história de luta do revolucionário Thomas Sankara, ocultado e negado pelos grandes meios de comunicações, esquecido por uma boa parte da esquerda e pelo movimento negro.

A região de Alto Volta até 1960 foi colonizada e explorada pela França. Sem acesso ao mar, cercado ao norte pelo deserto, a região está localizada no Oeste da África. O país faz fronteira com o Mali, a Costa do Marfim, Gana, Togo, Benin e Níger. Posteriormente à independência, o país não teve significativos avanços devido à sucessão de governos corruptos e submissos a França. Após uma insurreição popular liderado por Thomas Sankara em 1983, o país foi rebatizado para Burkina Faso que significa “o país dos homens íntegros” e modifica radicalmente e positivamente as políticas do país.

Thomas Sankara foi um líder revolucionário africano, teórico marxista e pan-africanista. O jovem Sankara assumiu o poder com apenas 33 anos, um chefe de Estado muito dinâmico e inovador. Ele utilizava um discurso revolucionário, contra o neocolonialismo e imperialismo, e a serviço do povo. Sankara acreditava que a África podia resolver sozinha todos os seus problemas, e que o continente deveria ser um bloco unido em decisões e soberano, sem interferência de países imperialistas.

Sankara iniciou uma série de reformas sociais e econômicas que modificaram o país. No campo econômico, a política econômica estava voltada para a busca da autonomia do próprio país, com isso não seguiu as políticas orquestradas pelo FMI e pelo Banco Mundial. Restabeleceu que o desenvolvimento nacional seria alcançado com os recursos naturais do próprio país. Nacionalizou a produção relançando a manufatura de algodão, com a moda “Faso Danfam” (era uma vestimenta usada pelos funcionários públicos). Reduziu o seu salário de chefe de Estado, o de ministro e dos altos funcionários. Decretou que todos os ministros viajassem na segunda classe. Pôs fim ao imposto colonial. Fez uma ambiciosa campanha de construção de estrada e trilhas. Realizou uma reforma agrária retirando o poder dos tradicionais donos da terra.

No campo social, conseguiu em quatro anos tonar o país auto suficiente na produção alimentar. Focou na educação lançando uma expedição nacional de alfabetização. Promoveu uma campanha de vacinação que erradicou a poliomielite, o sarampo, e a meningite. Dois milhões e meios de burkinabenses foram vacinados em uma semana. Implementou um processo de esportes de massa que convidava cada habitante a praticar esportes uma vez por semana. Nas cidades, onde a população se obrigava em casebres, foram construído alojamentos sociais. Foi pioneiro na defesa dos direitos das mulheres e na igualdade de gênero. Houve uma política ou pelo menos uma intenção de incluir as mulheres na categoria de cidadãs portadoras de direitos. Nomeou mulheres aos altos cargos do governo, proibiu a mutilação genital, a poligamia e os casamentos forçados, encorajou-as a permanecer trabalhando e estudando mesmo quando grávidas.

Homem íntegro

Entretanto, por volta de 1987, começam a se agudizar algumas contradições próprias a um processo revolucionário em um país pobre: o constante clima de guerra interna provocado pelo risco eminente de uma contra-revolução e a presença forte do Estado em todos os setores da vida cotidiana começam a provocar incômodos na população e o processo político começa a enfraquecer”. Blaise Compaoré, que a esta altura era o número 2 do regime e amigo pessoal de Sankara almejava assumir o poder, e passou a explorar esse descontentamento diretamente apoiado pelo CIA, França e os seus fieis seguidores na África, como era o caso do presidente da Costa do Marfim Félix Houphouet Boigny. A França indiretamente apoiou Compaoré, pois sua política imperialista e neocolonialista visava manter o controle sobre as antigas colônias, e via um risco que as ideias de Sankara propagassem por toda a região, principalmente nas suas outras antigas colônias.

Em 15 de Outubro de 1987, Thomas Sankara e uma dezena de colaboradores foram atacados por aqueles que lucram financeiramente com o detrimento do continente africano. Elementos da guarda próxima a Blaise Compaoré entraram e atiraram em todos que estavam reunidos na sala matando Tomas Sankara, um dos maiores líderes políticos que a África viu surgir. Na manhã seguinte, Compaoré se auto proclamou presidente, e se isentou da morte do seu ex-melhor amigo na imprensa internacional. Os governos francês e marfinense o felicitaram. Compaoré institui o que ele chamou de retificação da revolução, reverteu as nacionalizações, derrubou quase todas as políticas revolucionárias e submeteu ao pais as políticas do FMI.

Posteriormente, a reputação de Sankara foi difamada: acusaram o de ter enriquecido no poder e reviraram a sua casa a procura de qualquer sinal de enriquecimento. Encontraram uma casa simples, um automóvel modesto, quatro motocicletas velhas, três violões e alguns surrados moveis. Foi constatado que o salário mensal de Sankara era de 450 dólares nos documentos oficiais do governo de Burkina Faso. O que restou para família foram alguns objetos pessoais abandonados no seu quarto de estudo.

Após o golpe liderado por Blaise Compaoré, ele permaneceu no poder por 27 anos. Dirigiu o país com mãos de ferro através de um regime militar até 1991, quando foi “eleito” presidente da República nas primeiras eleições depois do golpe. Foi instaurado o multipartidarismo na constituição de 1991, mas o partido de Compaoré continuou dominando o cenário político, e foi reeleito presidente em 1998, 2005 e 2010. Para poder estender o seu mandato, ele alterou a constituição duas vezes, em 1997 e em 2000. Após vencer quatro eleições presidenciais, Compaoré estava impedido de participar das próximas eleições presidenciais conforme as leis do país.

No final do mês de Outubro de 2014 uma emenda constitucional seria votada para que Compaoré conseguisse disputar a próxima eleição presidencial, mas a sessão parlamentar foi suspensa devido a um série de protestos convocados pela oposição Fronte Progressista Sankarista e pelos jovens do movimento Balai Citoyen. Multidões foram as ruas pacificamente, e foram duramente recebidos com bombas de gás lacrimogêneo, bastonadas e prisões arbitrárias. No dia 31 de Outubro de 2014 – data prevista para a votação do projeto de lei – o protesto se intensificou em uma verdadeira revolta popular. O Parlamento, a Prefeitura de Ouagadougou (capital do país), as residências de parlamentares e outros prédios do governo foram incendiados, e a TV estatal foi tomada pela população. Segundo o correspondente da BBC Yacouba Ouedraogo, ao menos uma pessoa foi morta nos protestos. No entanto, o principal líder da oposição, Zephirin Diabre, disse que dezenas de manifestantes foram mortos no país por forças de segurança. Estima-se que mais de 30 pessoas foram mortas e 200 ficaram feridas.

Blaise Compaoré antes da Black Spring

Após quatro dias de protestos, Blaise Compaoré renunciou na tarde do dia 31 de Outubro de 2014 e fugiu com sua família e amigos mais próximos para uma mansão de luxo na Costa do Marfim. Depois de divergências entre dois de seus mais altos oficiais, o Exército anunciou que o tenente-coronel Isaac Zida assumiu interinamente a presidência do país africano. A euforia, a esperança de um novo rumo para o povo de Burkina Faso, e a impressão de vitória popular transformou se em apreensão com um possível golpe militar. Principalmente porque Zida era um dos homens de confiança de Compaoré.

No início do mês de Novembro de 2014 as Nações Unidas e a União Africana pediram aos militares que estão no poder que passe o controle do país para civis ou sofrerão as consequências. Enquanto isso, milhares de pessoas foram as ruas, na capital de Ouagadougou para exigir o fim da tomada do poder pelos militares. Entre várias cartazes, um trazia ‘Não ao confisco de nossa vitória’. Tanto Paris quanto Washington não protestaram contra a saída de Compaoré e preferiram se concentrar em pedidos para que os militares garantam o processo democrático. Ao que parece se o novo líder empossado for aliado da casa branca e da Europa Ocidental “não há problemas” com a denominada “transição para um processo democrático”.

Opositores e representantes do governo interino de Burkina Faso entraram em um acordo e, acertaram um calendário de transição política que prevê eleições em novembro de 2015. O acordo, negociado com a mediação dos presidentes de Gana, Senegal e Nigéria, prevê a criação de um “governo de transição durante o período de um ano” e “a realização de eleições presidenciais e legislativas”. As partes concordaram em restabelecer a vigência da Constituição e em designar “uma eminente personalidade civil para liderar a transição”. Apesar do acordo, os negociadores não chegaram a um consenso sobre o nome do líder do governo de transição e até o presente momento o tenente-coronel Zida permanece no poder.

Não à confiscação da nossa vitoria

O fato é que os 27 anos no poder fizeram muito bem para o ex-presidente Compaoré, para os países aliados da França e para o FMI. Já à população burkinabenses, mergulhada na miséria restou a amarga conta do neocolonialismo e do imperialismo vigente na região. De acordo os índices sociais, é possível comprovar o enorme estrago deixado pelo regime de Compaoré: Burkina Faso é considerado um dos países mais pobres do mundo no ranking de Desenvolvimento Humano da ONU de 2013, o país ocupa a 179ª posição, com IDH de 0,388. Apenas 17% da população possui acesso a rede sanitária. Na educação, as Nações Unidas classifica o país com o menor nível de alfabetização do mundo. Já em relação a saúde, o país concentra apenas serviços de atendimento primário e não há programas de vacinação.

Reconheço e poderia ter exposto neste texto as limitações e contradições que estiveram de certa forma presente no regime liderado por Thomas Sankara, mas deixo as críticas para os que já se dedicam a bater e a negar a luta revolucionária. Mas aviso aos navegantes – alguns ingênuos, outros mal intencionados – que não há fórmula, apostila ou cartilha para revolução, logo as limitações e contradições estiveram presente também em todos que se dedicaram e aderiram a luta pela transformação racial da sociedade. Por outro lado, é inegável não pontuar os avanços promovidos no período que ele esteve à frente do país. Para além de idealismos e utopias, convém à nossa geração não deixar o espirito corajoso, criativo e revolucionário de Sankara se perder.

De punho cerrado, dedico este humilde texto aos levantes populares em Burkina Faso ao som de You No Go Die ….. Unless por Fela Kuti.

People in Burkina Faso’s capital Ouagadougou celebrate after embattled President Blaise Compaore announced on Oct. 31
People in Burkina Faso’s capital Ouagadougou celebrate after embattled President Blaise Compaore announced on Oct. 31

Todo poder e apoio ao povo burkinabense!

 

Referências:

Presidente de Burkina Faso declara estado de emergência. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/10/141028_burkina_faso_estado_emergencia_rb> Acesso em 04 nov. 2014.

No poder desde 1987, presidente de Burkina Fasso renuncia em meio a onda de protestos. Disponível em: <http://www.brasildefato.com.br/node/30355> Acesso em 01 nov. 2014.

Presidente de Burkina Faso renúncia. Disponível em: <http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,presidente-de-burkina-fasso-renuncia,1586099> Acesso em 02 nov. 2014.

Exército anuncia governo de transição em Burkina Faso. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/mundo/exercito-anuncia-governo-de-transicao-em-burkina-faso-14414944> Acesso em 03 nov. 2014.

Militares assumem o poder em Burkina Faso. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141101_burkina_faso_fd> Acesso em 08 nov. 2014.

ONU pede a militares que passem poder a civis em Burkina Faso. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141102_burkina_dom_rp.shtml> Acesso em 06 nov. 2014.

O Che africano e a terra dos Homens Íntegros. Disponível em: <http://comunicatudo.blogspot.com.br/2012/01/o-che-africano-e-terra-dos-homens.html> Acesso em 31 out. 2014.

A revolta popular em Burkina Faso. Disponível em <http://passapalavra.info/2014/11/100796> Acesso em 5 nov. 2014.

Líderes africanos vão a Burkina Fasso pressionar Exército por saída civil para impasse político. Disponível em: <http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/38434/lideres+africanos+vao+a+burkina+fasso+pressionar+exercito+por+saida+civil+para+impasse+politico.shtml?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter> Acesso em 10 nov. 2014.

Burkina Faso tem acordo para eleições presidenciais em um ano Disponível em <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/11/burkina-faso-tem-acordo-para-eleicoes-presidenciais-em-um-ano.html> Acesso em 10 nov. 2014.

La liberación de la mujer: una exigencia del futuro. Discurso de Thomas Sankara (8-3-1987). Disponível em: <http://andaluciaproletaria.blogspot.com.br/2010/01/la-liberacion-de-la-mujer-una-exigencia.html> acesso em 10 nov. 2014.

Documentário

Thomas Sankara: o homem íntegro. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=YkWZVu7wsDE> Acesso em 01 nov. 2014.

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Eleições 2014: A Velha Política Externa Tucana

Em relação ao Plano de Governo do Aécio Neves para a Política Externa destaco dois pontos importantes. O primeiro se refere à relação especial que o PSDB almeja estabelecer com a Ásia, com os EUA e com outros países desenvolvidos, e ao mesmo tempo à ampliação e diversificação da relação com os países em desenvolvimento. O PSDB olhará para todos os continentes, dará uma atenção especial aos países mais desenvolvidos e ampliará a relação com os países em desenvolvimento, ou seja olhará para os países ricos do Norte e para os países pobres do Sul. O que não fica claro e não explica para o povo brasileiro é como fará o malabarismo. Um plano que se encontra no campo da subjetividade, com possibilidade de várias interpretações, e nada de concreto. O que é possível extrair deste plano é a atenção especial que dará aos EUA, o que me parece estar em curso é uma submissão a Política Externa Estadunidense, que nada tem de novo, voltará a seguir a mesma política externa aplicada no Governo Collor e ampliada no Governo do FHC.

O segundo ponto se refere ao reexame das políticas de integração regional, e o restabelecimento da primazia da liberalização comercial e aprofundamento dos acordos vigentes neste modelo. O plano é totalmente comprometido com aspiração da nossa atrasada elite brasileira. Algo muito peculiar do PSDB, que nunca tomou medidas efetivas de integração regional, pelo contrário quanto mais distante da américa latina e mais próximo da Europa e dos Estados Unidos melhor para os interesses que defende. Na entrevista concedia a revista Opera Mundi, é possível encontrar à diferenças entre PT e o PSBD – por mais que seja difícil – para a Política Externa. Vejamos, o ex-embaixador Rubens Barbosa, coordenador do programa de governo tucano assegurou que, com Aécio, o Brasil voltaria a uma “política externa pragmática, fugindo das ideologias”. Criticou à atuação da Política Externa do PT, pontuando que as afinidades ideológicas prevaleceram, e se deu prioridade às relações Sul-Sul, deixando em segundo plano os países desenvolvidos. Mas ao priorizarem os países ricos do norte ou desenvolvidos os tucanos também não estariam agindo ideologicamente?

Já em relação aos fatos que vêm ocorrendo nesta campanha eleitoral nada têm de eventuais ou isolados, pelo contrário, são tendenciosos e muito bem articulados a nível internacional. Vejamos, a atitude do Santander em enviar uma carta aos seus clientes ricos afirmando que o eventual sucesso eleitoral da presidente Dilma Rousseff iria piorar a economia do Brasil. Este fato só reforça muito bem para qual classe os tucanos irão governar em uma eventual vitória. Já a bolsa de valores ou melhor o mercado financeiro deixou bem claro que seu candidato preferido não é o PT. Durante o primeiro turno, cada avanço da oposição ou recuo das intenções de voto na presidente Dilma nas pesquisas, a bolsa subia. Como de costume, é 1% tentando manipular os 99% da população. E por último, a reportagem da revista britânica The Economist dizendo que o candidato do PSDB Aécio Neves “merece vencer”, não surpreende nem um pouco e só reafirma a intervenção do sistema financeiro internacional nas políticas dos estados nacionais.

Os grandes meios de comunicação, o mercado financeiro internacional e a elite conservadora e reacionária brasileira já fizeram suas escolhas, apostaram alto no partido que favorecerá ainda mais o aumento dos seus lucros em detrimento de políticas que melhorem as condições de vida do povo brasileiro. Já nós, trabalhadoras e trabalhadores comuns, assalariados em geral, desempregados, vítimas das políticas que favorecem o capital faremos nossa escolha ou assistiremos o retrocesso que se aproxima?

#ForaPSDB
#AecioNever
#PSDBPartidoDaCasaGrande
#ContraACriminalizaçãoDasLutasSociais
#ContraOGenocidioNegro
#ContraAReduçãoDaMaioridadePenal

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Conflito no Mali

O que levou a França a intervir no conflito do Mali? Quais os interesses em jogo?

Por Rafaela Araújo Santana – Graduada em Relações Internacionais e integrante do Grupo KILOMBAGEM.

Introdução

Este breve artigo tem como objetivo relatar o conflito e explicar por qual motivo decorre a atual guerra no Mali. A pesquisa menciona os principais protagonistas no conflito do país e no cenário internacional. O artigo buscará explicar as razões que levaram a França intervir no conflito. Como este conflito é um acontecimento recente e ainda está em andamento, o texto usou como fonte as principais notícias divulgadas pelos meios de comunicação virtual e artigos já publicados sobre o conflito. 

O Mali é um país africano sem saída para o mar na África Ocidental, o nome oficial é República do Mali, e sua capital é Bamako. É o sétimo maior país do continente africano, e faz fronteira com sete países, no norte pela Argélia, a leste pelo Níger, a oeste Mauritânia e Senegal e ao Sul pela Costa do Marfim, Guiné e Burquina Fasso. Com uma população em torno de 16 milhões de habitantes, a língua oficial é o francês, mas há diversas línguas utilizadas por vários grupos étnicos, cerca de 80% da população pode se comunicar em Bambara, que é a principal língua vincular no Mali. A população é predominante rural, e entre 5% a 10% são nômades. Mais de 90% da população vive no sul, especialmente no Bamako, que tem mais de um milhão de habitantes.

Entre os recursos naturais do país estão: o ouro, o urânio, o fosfato, o sal e o calcário, e como veremos mais abaixo, a disputa internacional pelo acesso destes bens ajuda a entender a maioria dos conflitos nesta região. Os principais parceiros econômicos no Mali são a Costa do Marfim, a França, a República Popular da China e a Bélgica. Aproximadamente 90% da população são muçulmanos, e 5% são cristãos, os demais correspondem à religiões tradicionais. As mulheres participam da vida política e geralmente não usam véus. De acordo com a Constituição, o Estado é laico e fornece a liberdade religiosa.  O IDH (Índice de desenvolvimento humano) do país é muito baixo (0,344), quase a metade da população vive abaixo da linha da pobreza.

 

Antecedência do conflito            

A colonização francesa na região do Mali iniciou em 1880, tornando-se oficial em 1890. A região foi recortada administrativamente por diversas vezes, passando a receber nomes como: Sudão Frances, Alto Senegal e Níger, até 1945. As fronteiras geográficas impostas pela Europa desconsiderava as organizações políticas-territoriais preexistentes à colonização, dividindo alguns povos e aglutinando arbitrariamente nações distinta sob o mesmo Estado. Após a Segunda Guerra Mundial, iniciou o processo de descolonização do continente africano. Em 1960, a região se tornou oficialmente independente, e o território passou a ser chamado de Federação do Mali. Nesta região, faziam parte Senegal, Dahomey (atual Benin) e Alto Volta (atual Burkina Faso), mas desconfianças militares os separam, e o Mali passou a adotar o nome, bandeira e o território atual.

Após a independência, o país teve oito anos de governo socialista, com partido único e laços fortes com a União Soviética, sob o comando de Modibo Keita. As tentativas de reforma agrária do governo socialista geraram revoltas nas tribos tuaregues no Norte. Esta política era vista pelos tuaregues como uma nova forma de colonização. Esta tribo não aceitava ceder suas terras, porque alegavam não terem sido convidados a fazer parte deste governo. O sonho dos tuaregues de alcançar a independência tão esperada, o desejo de constituir um estado autônomo, chamado de Azawad, e com a marginalização e discriminação que eles viviam, propiciou em 1962, a primeira rebelião. Após sangrentas repressões, em 1964 os tuaregues acabaram derrotados.

Após um golpe militar liderado por Moussa Traoré em 1968, o governo de Modibo Keita foi derrubado. Após o golpe, este período foi marcado por instabilidade política, opressão, várias tentativas de golpe de Estado, revoltas estudantis em todo país e crescente insatisfação na região norte. Na década de 70 e 80 foram marcados por uma forte seca, que atingiu as regiões tuaregues, resultando no aumento da marginalização dessa população. Neste período, o fluxo de tuaregues migrando para países vizinhos e para área urbanas em busca de trabalho aumentou consideravelmente.

Em junho de 1990 em virtude de descontentamento com o governo, ocorreu a segunda rebelião. Os tuaregues alegaram que os recursos que o Mali havia ganhado através da ajuda humanitária internacional, em virtude do problema ambiental, não chegaram ao norte. Eles questionavam que a utilização do recurso foi usada em construções privadas na capital Bamako. Está rebelião contou com ajuda de tuaregues no norte do Mali, na Argélia e na Líbia. Após vários meses de confronto, o governo assinou um acordo de paz, mediado pela Argélia.  Em virtude desse conflito, ocorreu mais um golpe de estado, seguindo de um governo de transição e a realização de uma nova constituição.

Em 1992, Alpha Oumar Konaré venceu a eleição presidencial democrática. Na última década do século XX, o Mali passou por um processo de abertura política. Após sua reeleição em 1997, o presidente Konaré estimulou reformas políticas e econômicas, e buscou combater a corrupção. Em 2002, foi substituído pelo general Amadou Toumani Touré, que liderou outro golpe de estado contra os militares e impôs a democracia. Entre 2006 a 2008, foi marcado por novos levantes, caracterizando a terceira rebelião. Com a rebelião, foi interrompida a produção de ouro nas montanhas do Níger, e o conflito acabou após um tratado de paz, mediado novamente pela Argélia.

O conflito no Mali desde a segunda rebelião contou com atores externos. Após a primeira rebelião, muitos tuaregues migraram para países vizinhos, principalmente para Líbia, em busca de trabalho na indústria do petróleo, e partir da década de 70, buscando fazer parte das forças militares de Muammar Kadafi. O líder da Líbia recrutou muitos tuaregues nas forças armadas, e muitos deles voltaram ao Mali treinados e experientes no final da década de 80, e se engajaram na segunda rebelião.  O governo da Líbia chegou a ser acusado de ajudar os tuaregues durante o levante, fornecendo informações, treinamentos e armas. A quarta rebelião que ainda está em andamento,

Conflito atual

Em Dezembro de 2011, foi criado o Movimento Nacional pela libertação de Azawad (MNLA), e o objetivo principal do grupo seria a libertação da população tuaregues da ocupação do território pelo Mali. Em Janeiro de 2012, o MNLA começou a atacar à região do norte do país, dando início a quarta rebelião. O grupo acusava o governo de não cumprir com as promessas em relação à população tuaregue. Entre Janeiro a Abril de 2012, o MNLA atacou as bases militares no norte do Mali, nas principais regiões de Gao, Kidal e Timbuctu. No mês de Março, os insurgentes ganharam muito terreno, conquistando cidades sem enfrentar a oposição do governo.

Com uma grande crise política e instabilidade, o governo de Moussa Traoré sofre um golpe militar no dia 22 de Março, e é desposto pelo capitão Amadou Haya Sanogo. Um mês depois do golpe, o MNLA já havia tomado o controle da região norte do país, declarando a independência do Azawad. O golpe foi condenado pela União Africana, CEDEAO (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental) e pelo Conselho de Segurança da ONU. Após negociações com os países vizinhos, em 6 de Abril, foi acordado que o país seria governado por Diounconda Traoré interinamente. Neste período, o MNLA visando garantir a independência, aliou-se ao grupo islâmico Ansair Dine (Defensores da Fé), ao MUJÃO (Movimento pela Unidade e Jihad na África Ocidental) e ao QIM (sigla em inglês da Al Qaeda no Magreb islâmico).

O Ansar Dine (Defensores da Fé) surgiu no primeiro semestre de 2012 e sua principal liderança foi um membro do MNLA, o Iyad Ag Ghaly. Este grupo ganhou destaque internacional em Abril de 2012, quando tomou a cidade de Timbuktu e anunciou o Jihad contra os oponentes do Shariah. Basicamente o Jihad é um conceito da religião islâmica e significa “empenho”, “esforço”, é uma luta pessoal em busca da fé perfeita. Já o Shariah é a lei islâmica, um código de leis que rege a vida das pessoas dentro do Islam. O objetivo principal desse grupo, é aplicar o Shariah no Mali e expulsar a influência Ocidental sobre o país.

O MUJAO surgiu em Dezembro de 2011, e o seu principal objetivo é lançar a Jihad em toda à África Continental, este movimento não restringe apenas no Mali, este é um dos aspectos que o diferencia do Ansar Dine. O grupo conta com apoio internacional, e além do Mali, o movimento MUJAO possuem militantes na Argélia, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Mauritânia, Argélia, Níger, Senegal e Somália.

Intervenção francesa

Após insurgentes ameaçaram tomar a capital, em janeiro de 2013, o governo do Mali pediu ajuda à França, que concordou em intervir no conflito. França tratou de assegurar a legitimidade da intervenção no conflito através do Conselho de Segurança da ONU.  Buscou apoio político dos Estados Unidos, e de seus parceiros europeus. Após as ofensivas militar, os franceses desencadearam iniciativas diplomáticas para que os países africanos, principalmente os vinculados à Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS) comprometessem efetivamente enviando tropas, para Paris esta medida é considerada de grande importância, haja visto que maquia os verdadeiros interesses políticos e econômicos da ex-metropole no território africano.

A França conseguiu apoio logístico para intervenção de vários países europeus, foram disponibilizados aviões e outros tipos de suportes. O mais importante foi apoio político na intervenção, haja visto que a França não precisa de ajuda para intervir no Mali. Os franceses dispõem de bases militares equipadas para este tipo de operação, e possuem veteranos experientes na África, e estão acostumados a entrar em operação em países africanos, logo as tropas francesas não tiveram dificuldade na mobilização no território.

A França como ex-potência colonial, após o processo de descolonização continuou mantendo a maior parte das suas ex-colônias como zonas de influência. Os franceses mantiveram sua política ativa para maior parte das ex-colônias, mantendo industrias de exploração mineral e bases militares em diversos países e interferindo nos assuntos internos desses países. A exploração dos recursos naturais em algumas das antigas colônias permaneceram sendo atividades quase exclusivas de empresas francesas, tais como a mineração de urânio e outros recursos minerais estratégicos. As intervenções e permanência de base militar na África, são vistas como certa naturalidade para a sociedade francesa, mesmo sendo o único país europeu ainda se comportar dessa maneira. Sucessivos governos tanto da direita como da esquerda, mantiveram essa tradicional política no continente africano.

No dia 14 de Janeiro de 2013, tropas francesas realizaram bombardeiros na região de Tombuctu, está região tomada pelos rebeldes, possuem 26 bibliotecas com 700 mil manuscritos dos séculos 13 a 20 em línguas árabes e africanas. Os manuscritos são muito importantes para a reflexão sobre as tradições escritas na África. Os manuscritos versam sobre temas como matemática, química, física, ótica, astronomia, medicina, história, geografia, ciência islâmica, leis, e tratados, jurisprudência e entre outros. O conflito na região levou a UNESCO a fazer um apelo para que todas as forças militares no Mali façam esforços para proteger o patrimônio cultural. Uma carta assinada pelo diretor geral da entidade, Irina Bokova, foi enviada às autoridades francesas e malineses, invocando a Convenção de Haia, de 1954: “O patrimônio cultural do Mali é uma joia cuja proteção é importante para toda a humanidade. Ele carrega a identidade e os valores de um povo. A atual intervenção militar deve proteger as pessoas e assegurar este patrimônio”, defendeu.

No sexto dia da intervenção, as tropas francesas, em conjunto com o exército do Mali, iniciaram as operações e os combates terrestres. Os combatentes contam com tanques e equipamentos com características de combate de guerra. No início da intervenção, as tropas terrestres se concentraram em cidades controladas pelo governo e próximas aos postos dos rebeldes. A ofensiva obteve progresso significante em uma semana. Após dias de batalhas, em 18 de janeiro de 2013, foi confirmada a retomada das cidades Konna e Diabali pelo exército francês. Um dia antes, um grupo de 60 pessoas em Londres protestou contra a intervenção francesa no Mali, os manifestantes exigia a retirada das tropas, o grupo traziam cartazes com a frase “a sharia era a única solução para o Mali”.

Em janeiro de 2013, o conflito no Mali ganhou proporção internacional em decorrência de um sequestro ocorrido em uma refinaria de gás no Saara argelino. Após a ofensiva militar argelina contra o sequestro, mais de 30 pessoas foram mortas, no dia 19 de janeiro. O militante islâmico Mokhtar Belmokhtar, foi o responsável pelo atentado. Ele afirmou que o objetivo era exigir o fim da intervenção francesa no Mali. A França e Grã-Bretanha, defenderam a operação militar argelina. “Um país como a Argélia teve as respostas que, a meu modo de ver, são as mais adequadas porque não poderiam haver negociações”, disse o presidente socialista francês, François Hollande, sobre a operação que terminou em massacre.

Autoridades francesas confirmaram que centenas de militares islâmicos foram mortos no norte do país, durante uma operação para expulsar grupos denominados pela França e por muitos meios de comunicação como islamistas radicais e terroristas. A informação foi confirmada pelo ministro de Defesa Jean Yves Le Drian. Ele disse que os ataquem aéreos continuam. A França mantém cerca de 4 mil militares no Mali. O governo francês anunciou que reduzirá para 1.000 o número de militares francês no Mali, até o final do ano. A retirada das tropas começou em abril.

Crise humanitária

Timbuctu

O conflito desencadeia uma crise humanitária no país, a ONU auxilia a população do Mali que procuram abrigo fora do seu país. Em alguns países vizinhos ao Mali, foram instalados campos provisórios para abrigar os refugiados. Segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, o conflito gerou mais de 150 mil refugiados e cerca de 200 mil deslocados internos em 2012. Os refugiados na sua grande maioria são tuaregues, e eles têm buscados abrigo em Burkina Faso, Níger, Mauritânia e Argélia, estes países possuem recursos escassos e têm sofrido problemas socioeconômicos.

Considerações finais:

A região vive na pele as consequências de fronteiras impostas em função de interesses imperialistas europeus, resultando em problemas que se arrastam até hoje. Diversas nações foram fracionadas e/ou aglutinadas arbitrariamente sob o mesmo território a partir de hierarquias artificialmente criadas e desigualdades de toda ordem entre os povos. As lutas por independência e descolonização do continente, dado às constantes sabotagens que foi submetida, não avançaram a ponto de superar estes problemas, tal como foi pensado por Lumumba, Nkrumah, Diop e Fanon. O resultado disso, em diversos países africanos é a permanência de instabilidades constantes.

Para piorar, o continente africano é muito rico em matéria prima útil à grande indústria americana e europeia, e uma vez que não poderia abrir mão destes recursos, é a própria Europa e os Estados unidos que fomentam e alimentam estes conflitos de forma a gerir indiretamente o acesso às matérias primas.

A intervenção francesa no conflito está longe de ser em prol da população local, e sim puro interesse econômico na região, logo a intervenção tem caráter defensivo e protecionista. O fato, é que todos eles estão inseridos em um contexto no qual o Estado não consegue atender minimamente as intensas demandas sociais de sua população, principalmente as parcelas que vivem mais afastadas da capital. O problema não só no Mali, mas em outros países africanos são resquício do Neocolonialismo, que deixam os países vulneráveis ao imperialismo e a cooptação dos governos, e acabam naufragando-os na pobreza generalizada e na falta de políticas públicas.

 

Referências:

NOVAES, João: História do Mali é marcada por conflitos separatistas desde o início do século XX. Da colonização francesa até a guerra na Líbia, conflitos do passado ajudam a explicar crise atual. Disponível em: <http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/26660/historia+do+mali+e+marcada+por+conflitos+separatistas+desde+o+inicio+do+seculo+xx+.shtml> Acesso em 21 jul. 2013.

OLIVEIRA, Ana Paula Ferraz: Conflito no Mali coloca patrimônio da humanidade em risco. Tomada pelas forças rebeldes, região de Tombuctu abriga 26 bibliotecas e 700 mil manuscritos dos séculos 13 a 20 em línguas árabes e africanas. Disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/cultura/conflito-no-mali-coloca-patrimonio-da-humanidade-em-risco> Acesso em 21 jul. 2013.

FILHO, Pio Netto: Jihadismo e Intervenção Francesa no Mali. Disponível em:< http://mundorama.net/2013/01/22/jihadismo-e-intervencao-francesa-no-mali-por-pio-penna-filho/> Acesso em 24 jul. 2013.

DUARTE, Geraldine Rosas: O conflito no Mali: origens e dimensão internacional. Disponível em: http://pucminasconjuntura.wordpress.com/2013/03/01/o-conflito-no-mali-origens-e-dimensao-internacional/> Acesso em 24 jul.2013.

IBRAHIM, Habibah L: Sharia: Lei Islâmica (Introdução). Disponível em: <http://amulhereoislam.wordpress.com/2011/10/11/sharialei-islamica-introducao/>. Acesso em 27 jul. 2013.

IBGE. Países – Mali. Disponível em <http://www.ibge.gov.br/paisesat/main.php>. Acesso em 29 fev. 2013.

Mali. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Mali> Acesso em 27 jul. 2013.

Jihad. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Jihad> Acesso em 27 jul. 2013.

Revolta no norte do Mali (2012–presente). Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Revolta_no_norte_do_Mali_%282012%E2%80%93presente%29 Acesso em 27 jul. 2013.

Conflito no Mali já causou centenas de mortes. As autoridades da França confirmaram que centenas de militantes muçulmanos foram mortos durante a operação para expulsar grupos islamistas radicais do norte do país. Disponível em: <http://www.africa21digital.com/politica/ver/20030701-conflito-no-mali-ja-causou-centenas-de-mortes> Acesso em 28 jul. 2013

França reduzirá tropas em conflito no Mali. A França anunciou que reduzirá para 1.000 o número de militares que lutam no Mali, até o fim do ano. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/ultimas_noticias/2013/03/130328_mali_franca_lk_rn.shtml> Acesso em 29 jul.2013

Número de mortos na Argélia chega a 80 e pode aumentar. Disponível em: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=9&id_noticia=204070> Acesso em 30 jul. 2013